O papel do pesquisador teórico na contemporaneidade

quinta-feira, 2 de setembro de 2010
"O homem precisa persistir na crença de que o inconcebível é concebível; sem isto ele não pesquisaria" - J. W. Goethe - Máximas e Reflexões

O pesquisador teórico desempenha um importante papel na elaboração do conhecimento especializado. Historicamente, grande parte das teorias nas áreas da sociologia, filosofia, economia e outras ciências humanas, é produto do trabalho constante de gerações de pesquisadores teóricos. Basta estudarmos as origens da sociologia, para constatarmos o peso que o trabalho de pesquisa desempenhou na formação desta ciência. Parcela considerável das teorias de Durkheim, Weber e Mannheim, por exemplo, foram elaboradas tendo como base informações disponíveis em registros, livros, estatísticas e relatos. Coletando e interpretando este material, os três grandes sociólogos desenvolveram novas teorias, que serviram como base ao desenvolvimento da sociologia e de outras ciências relacionadas.
Outro exemplo de incansável pesquisador é Karl Marx, que formado em filosofia e munido de imensa cultura geral, iniciou uma longa pesquisa em diversas fontes, desenvolvendo uma análise crítica da sociedade e do sistema econômico de seu tempo. Este estudo, analisando o início do desenvolvimento do capitalismo, resultou em uma obra que até hoje ainda tem validade em diversos aspectos. Marx vai tão longe, que considera a sua própria obra como um trabalho de pesquisa.
No prefácio à primeira edição de sua obra “O Capital”, o pensador escreve: “O físico observa processos naturais seja onde eles aparecem mais nitidamente e menos turvados por influências perturbadoras, seja fazendo, se possível, experimentos sob condições que assegurem o transcurso puro do processo. O que eu, nesta obra, me proponho a pesquisar é o modo de produção capitalista e as suas relações correspondentes de produção e circulação.” (Marx, 1983).
A pesquisa não tem só papel importante nas ciências humanas. Mais um exemplo de pesquisador teórico, especificamente no campo da física, foi Albert Einstein. Este desenvolveu considerável parte de sua teoria da Relatividade Restrita (1905) e da Relatividade Geral (1916) a partir de experiências publicadas por outros cientistas e baseado em dados teóricos disponíveis em vasta literatura especializada. O grande mérito de Einstein foi fazer uma síntese com os dados disponíveis e a partir deles desenvolver uma nova teoria física, que explicava o funcionamento de certos aspectos do universo, sobre os quais a ciência da época ainda não tinha respostas.
A principal habilidade de todo pesquisador teórico – seja em que área da ciência for – é a capacidade de reunir um grande número de dados e informações, interpretá-los e então desenvolver uma nova teoria sobre o assunto. Foi isto o que basicamente fizeram todos os grandes cientistas teóricos e filósofos dos últimos 150 anos. A filosofia, mais especificamente, foi em toda a sua história uma constante tentativa de reunir informações (teorias das escolas anteriores) e reinterpretá-los sob novos moldes; sempre um trabalho de pesquisa, análise e desenvolvimento de novas teorias.
Por essa razão, é de vital importância o trabalho do pesquisador teórico, seja em que área for; tanto nas ciências exatas quanto nas humanas. A partir desta pesquisa é que se desenvolvem as novas teorias, as quais apesar de não explicarem definitivamente o fenômeno estudado (o que seria impossível, dado o constante desenvolvimento do conhecimento e das diversas maneiras de obtê-lo), ajudam-nos a interpretar nossa vida e nossa sociedade de uma nova maneira, abrindo novos horizontes ao pensamento. Este processo é enfatizado pelo teórico da ciência, Thomas S. Kuhn, que escreve: “La transición de un paradigma em crisis a otro nuevo de que pueda surgir uma nueva tradición de ciencia normal, está lejos de ser un processo de acumulación o una ampliación del antiguo paradigma. Es más bien uma reconstrucción del campo, a partir de nuevos fundamentos, reconstrucción que cambia algunas de las generalizaciones teóricas más elementales del campo, así como también muchos de los métodos y aplicaciones del paradigma.” (Kuhn, 2006).
Bibliografia:
KUHN, Thomas S. La estrutura de las revoluciones científicas. Fondo de Cultura Econômica de Argentina. Buenos Aires, 2006. 319 p.
MARX. Karl. O Capital: Crítica da Economia Política, Vol I, Livro 1º. Abril S.A. Cultural. São Paulo, 1983. 301 p.
(imagens: Alfredo Volpi)

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