Transporte e tempo

sábado, 11 de setembro de 2010
O automóvel quando foi inventado no final do século XIX, evoluiu de outros meio de transporte que já existiam. No início, era apenas uma charrete motorizada, barulhenta e um pouco mais rápida. Até o início do século XX ainda era o meio de transporte das classes ricas, já que seu custo era muito elevado. O preço do carro só começou a cair a partir de 1913, quando nos Estados Unidos o industrial Henry Ford inspirado na linha de montagem dos revolveres Colt e das máquinas de costura Singer, teve a idéia de introduzir a produção em série. Peças e componentes padronizados, fornecidos por fabricantes previamente testados, garantiam uniformidade e mais rapidez na fabricação do veículo. O planejamento de todo o processo permitia alta produção, fazendo do famoso modelo T um veículo acessível e de simples manutenção. Assim, os automóveis começaram a inundar as ruas americanas e em algumas décadas inundariam o mundo.
Hoje, temos mais de 6 milhões de veículos rodando na cidade de São Paulo, cerca de 60 milhões em todo o Brasil e quase 1 bilhão no mundo. Se objetivo do automóvel e do transporte rodoviário era, entre outras coisas, deslocar as pessoas de maneira mais rápida, alguém poderia pensar que estamos em melhor situação do que há 150 anos. Evidentemente que este não é o caso na maior parte das grandes cidades em todo o mundo. A média dos congestionamentos por dia em São Paulo, por exemplo, saltou de cerca de 20 km em 2000 para 98 km em 2010.
De acordo com o movimento “Nossa São Paulo”, o paulistano que trabalha perde em média duas horas e quarenta minutos no trânsito a cada dia. Não existem estatísticas a respeito do número exato de trabalhadores na cidade, mas estima-se que entre formais e informais este número deve chegar a cerca de 6 milhões de pessoas. Sendo assim, a população da cidade perde o incrível número de cerca de 16 milhões de horas por dia; pessoas paradas no trânsito, indo para o trabalho ou retornando às suas casas. É um tempo que não está sendo remunerado e durante o qual a maior parte dos trabalhadores não consegue fazer nada, a não ser esperar.
Grande parte do congestionamento nas ruas da cidade é causada pelo excesso de veículos particulares, os automóveis. Cerca de metade dos veículos que se desloca pela cidade, roda somente com o motorista e ocupa espaço precioso nas ruas. Segundo a Associação Brasileira de Educação de Trânsito – ABETRANS, são cerca de 2.400 pessoas, andando de automóvel no espaço de 10 km de ruas. No caso dos ônibus, os mesmos 10 km são ocupados por mais de 27.000 pessoas. O transporte público transporta comparativamente mais pessoas e causa menos poluição, já que são menos veículos parados por quilometro.
Em um mundo que cada vez mais valoriza o tempo como gerador de riqueza – tempo é dinheiro, costuma-se dizer – o tempo da maior parte dos trabalhadores é desperdiçado. Na vida, teoricamente conseguimos recuperar a maior parte das coisas que perdemos; empregos, dinheiro, bens, às vezes até a felicidade. O tempo, é a única coisa que a vida não nos devolve. No entanto, paradoxalmente, nossa sociedade trata o tempo, principalmente dos mais pobres, como se este fosse eterno – ou quase. 
(imagens: Francisco Goya)

1 comentários:

Priscila disse...

Oi Pa, primeiramente parabens pelo texto e pela divulgacao do blog em diversos paises.
Aqui em Londres posso dizer que o transporte publico e de otima qualidade, por isso boa parte da populacao abre mao de ter um veiculo proprio e utiliza os onibus e metros (que chegam a todas as zonas de Londres), porem e uma cidade menor que Sao Paulo, entao acabamos gastando menos tempo para chegarmos ao destino final...e o transito nao e caotico tambem.

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