Energia, gestão e crise energética

sábado, 1 de agosto de 2015
"Evidentemente você jamais cogitou de substituir o real pelo imaginário. Creio que não fiz qualquer confusão! Compreendo que a ordem do imaginário e a alta ordem do pensamento racional são diferentes. E também que o imaginário não seria redutível a termos racionais. Aí  está o nervo da questão."  -  Nise da Silveira  -  Cartas a Spinoza

No último dia 4 de julho de 2015 a energia elétrica ficou 17,31% mais cara para 6,7 milhões de clientes da AES Eletropaulo na região metropolitana de São Paulo. O aumento médio do custo da eletricidade durante o ano de 2015 já é de 75% e ainda são previstos outros acréscimos para o segundo semestre. De acordo com o governo, tais incrementos se devem à utilização das usinas termelétricas, operando com combustíveis fósseis em substituição às hidrelétricas, cujos reservatórios estão vazios.
A falta de chuvas é apenas parte da história da crise energética. Especialistas apontam outros fatores, de responsabilidade do governo, que tiveram um peso muito maior no agravamento da situação. Em recente artigo no jornal Valor, o engenheiro José Eduardo Moreira, diretor da Academia Nacional de Engenharia (ANE), aponta estes aspectos. Inicialmente, ressalta que o volume de chuvas não foi tão diminuto assim, de modo a justificar o uso tão intenso das termelétricas já em 2012. As chuvas alcançaram 90% de sua média histórica naquele ano e mantiveram o índice pluviométrico regular em 2013.
O que ocorreu, segundo o engenheiro, foi basicamente o não cumprimento dos Planos Decenais de Expansão da Geração e Transmissão, o que nos levou à situação atual. Alguns pontos listados pelo especialista apontam: 1) Atraso nas licitações de novas hidrelétricas; 2) Descompasso entre a instalação de geração hidrelétrica e eólica; 3) Pouco apoio à instalação de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs); 4) Falta de diretrizes ambientais e socioambientais para aprovação de empreendimentos de energia; 5) Tarifas baixas estabelecidas nos leilões de energia hidrelétrica, afugentando investidores; 6) Ausência de um programa para a eficiência energética; 7) Falta de incentivo à geração distribuída (pequenas unidades); e 8) Inexistência de leilões regionais para PCHs e energia eólica.
A crise energética também tem suas raízes históricas. Desde o começo da década de 1950 quando começou sua industrialização, quase toda eletricidade era de origem hidrelétrica. Todos os grandes projetos de barragens hidrelétricas datam do período 1960-1970, a exceção de Itaipu inaugurada em 1984, além dos mais recentes projetos na Amazônia. Nos anos 1970 a energia nuclear também entrou nos planos dos governos militares da época. O país construiu três usinas nucleares - a última ainda em fase de acabamento, depois de ficar suspensa por anos. O alto custo deste tipo de tecnologia, aliado à oposição de grupos de interesse e parte da sociedade civil em relação à energia nuclear, fez com que novos projetos fossem abandonados. No final dos anos 1990 surgiram os primeiros projetos de energia renovável, limitados às PCHs e à energia eólica. A geração de energia a partir da biomassa, apesar de já estar em uso em muitas usinas de açúcar, ainda não teve incentivos significativos para possibilitar a sua efetiva expansão. A energia solar fotovoltaica, até o momento ainda relativamente cara, recebeu incentivos fiscais e teve seu primeiro leilão de compra em 2014.
O país precisará cada vez mais de energia. Mesmo implantando um consistente programa de eficiência energética - o que até o momento ainda não aconteceu - o governo precisará ampliar, modernizar, diversificar e descentralizar a geração de eletricidade, sem aumentar as emissões de gases poluentes.
(Imagens: pinturas de August Macke) 

Heráclito e Parmênides

terça-feira, 28 de julho de 2015
"É preciso, contudo, avançar ainda mais na análise dos efeitos contrastantes - indissoluvelmente positivos e negativos - do incessante projeto de inovação: pois este não é apenas desestabilizador no plano econômico e social para toda uma parte da população, mas também possui, num plano filosófico e moral, uma particularidade temível; a saber, ele é, por natureza, desprovido de sentido."  Luc Ferry  -  A inovação destruidora

A oposição entre o pensamento de Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eléia é clássico na história da filosofia e marcou também o desenvolvimento da ciência. A mutação heraclitiana e a permanência parmenidiana, são paradigmas que influenciaram todo o pensamento ocidental e cuja solução muitos pensadores e intelectuais encontraram no pensamento oriental.
Quanto a questão da mutabilidade e imutabilidade do ser, básica na filosofia ocidental, a posição de Heráclito era que o ser está permanentemente em mutação; o ser é e logo depois já não é mais. É assim que ocorre na natureza: as estações, os ciclos de vida dos animais – tudo está em constante transformação. Processos físico-químicos e biológicos se sucedem e toda vida se transforma. Darwin já afirmava que não existem dois indivíduos de uma mesma espécie exatamente iguais, fato que no século XX foi confirmado pela genética. O acúmulo de diferenças vai propiciando o aparecimento de indivíduos cada vez mais diferentes de seu ancestral original. Assim a mutabilidade proporciona a transmutação (evolução) das espécies.  Esta constante mudança se aplica a toda a natureza; desde as partículas subatômicas, ao homem e deste às galáxias.
A principal idéia do pensamento de Heráclito está expresso no seguinte texto escrito pelo filósofo Plotino: “Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem substância mortal tocar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança dispersa e de novo reúne (ou melhor, nem mesmo de novo nem depois, mas ao mesmo tempo) compõe-se e desiste, aproxima-se e afasta-se”. Como tudo no universo heraclitiano está sempre em mutação, o filósofo alemão Hegel mais tarde argumentou que a essência deste processo é o tempo.  
Parmênides, por outro lado, afirma a imutabilidade; o Ser é e não-ser não pode não ser. O argumento principal do pensador é que não é possível pensar o não-ser, porque se o pensarmos, ele é. Daí argumenta que o pensar e o ser são o mesmo. Com estes argumentos, Parmênides conclui que admitindo que seja possível existir o não-ser, este seria a negação do ser, sua mudança, o que é impossível. Portanto, o ser é eterno e imutável. O mundo das aparências, onde ocorrem as mudanças, é somente uma concessão que Parmênides faz. Em seu pensamento não existe o mundo das mudanças, do não-ser. Parmênides abstrai seu pensamento daquele nível que nós chamamos realidade e coloca o Ser em uma outra esfera, classificando-o como uno, eterno e imutável. Parmênides foi o precursor da lógica, já que de suas idéias deduziram-se raciocínios como o princípio de identidade (o Ser é, cujo equivalente é A=A) e o princípio de não-contradição (o Ser é e não pode não ser, cujo equivalente é A=A e não pode ser A diferente de A).
(Imagens: gravuras de Frans Masereel)

Senso comum

sábado, 25 de julho de 2015
"Não acredite nos abraçadores de árvores que afirmam  que nossos ancestrais viveram em harmonia com a natureza. Muito antes da Revolução Industrial, o Homo sapiens já era o recordista, entre todos os organismos, em levar as espécies de plantas e animais mais importantes à extinção. Temos a honra duvidosa de ser a espécie mais mortífera dos anais da biologia."  -  Yuval Noah Harari  -  Uma breve história da humanidade
  
Senso comum, segundo Aristóteles é a capacidade geral de experimentar o mundo através dos diversos sentidos. Já para os escritores clássicos e filósofos latinos, esta expressão tem o significado de costume, gosto, modo comum de viver ou de falar (Abbagnano, 2007). Esta interpretação do termo "senso comum" é a que ainda utilizamos atualmente e como ocorreu durante quase toda a filosofia ocidental - pelo menos até o século XVIII, antes de Hume.  
O senso comum ou conhecimento vulgar, segundo a tradição filosófica, é a forma como interpretamos o mundo sem uma análise mais aprofundada; criteriosa. O senso comum se reflete, segundo esta tradição, na vida do dia a dia, nas opiniões, na maneira como culturas e povos encaram determinados temas. Sobre isto escreve o filósofo e educador John Dewey:
"Temos de reconhecer que a consciência ordinária do ser humano comum (...) é uma criatura de desejos e não de estudo intelectual, investigação e especulação. O ser humano vive em um mundo de sonhos antes que de fatos, e um mundo de sonhos organizado em torno de desejos, cujos sucesso ou frustração constitui sua própria essência." (Dewey apud Fontana, 2007).

Seguindo esta linha de raciocínio de Dewey é interessante comentar a comparação que se poderia fazer entre a cultura popular ou folclore e a cultura (dita) clássica. Como exemplo podemos comparar a cerâmica de Vitalino Pereira dos Santos, "mestre Vitalino" (1909-1963), e a de Pablo Picasso (1881-1973). A de mestre Vitalino, considerada popular, retrata a vida diária do sertão do Nordeste e de suas pequenas cidades: o padre no confessionário, os retirantes, cenas de caça, casamento, músicos, enterros, entre outros temas. A arte de Picasso, mais intelectualizada e abstrata, mostra figuras estilizadas de animais, rostos, cenas de touradas. A arte de mestre Vitalino é em grande parte baseada nos costumes, nas opiniões e nos hábitos da cultura da qual é representante. Picasso desenvolveu estilo próprio, produto de longos estudos e prática, sem necessariamente se limitar ao universo cultural do qual procede.    
A expressão utilizada por Dewey "criatura de desejos e não de estudo intelectual, investigação e especulação" mostra o quanto o conceito de senso comum e seus sinônimos como "conhecimento vulgar", "consciência ordinária" e outros, estão eivados de platonismo; de um pensamento metafísico. A própria tradição filosófica desde os gregos procura colocar o senso comum como um conhecimento superficial, imperfeito e obtuso sobre o mundo. A mesma diferenciação que muitos fazem entre a cultura popular e a (assim chamada) alta cultura. A alegoria do Mito da Caverna, apresentado por Platão n´A República reflete muito bem essa dissociação. O senso comum é representado pela visão dos homens acorrentados no fundo da caverna, vendo sombras projetadas; a visão real pertence aqueles que conseguem sair da prisão e enxergar a luz do sol e assim contemplar o mundo com mais clareza.
Esta visão real do mundo, obtida à luz do sol - ou seja, à luz do conhecimento - foi sempre uma característica do discurso filosófico. Desde a Antiguidade até o período moderno, quase todos os filósofos e sua filosofias declaravam que o verdadeiro conhecimento, além do senso comum, só seria possível através da análise do mundo pelas lentes da filosofia. Esta tendência foi ainda foi mais acentuada, a partir do século III e IV, quando a doutrina cristã passou a ser incorporada ao neoplatonismo para formar a metafísica cristã.
A filosofia moderna, a partir de Descartes (1596-1650) e de suas elaborações intelectuais n´O Discurso sobre o método solidifica ainda mais o antagonismo entre o conhecimento comum, o senso comum e o conhecimento filosófico e científico. O filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626), um dos precursores do método científico e da epistemologia, tem como objetivo tornar o pensamento mais claro e sistemático, eliminando ideias preconcebidas que classificou em "ídolos"; ídolo da tribo, ídolo da caverna, ídolo do mercado, ídolo do teatro. O filósofo e fundador dos modernos estudos de história, Giambattista Vico (1668-1744) escreve sobre o senso comum que:
O senso comum é o juízo sem reflexão, comumente sentido por toda uma ordem, todo um povo, toda uma nação, ou por todo o gênero humano. (Vico apud Cizotti, 2013).
Esta divisão entre o senso comum e o assim chamado verdadeiro conhecimento estende-se por toda a filosofia ocidental até praticamente os tempos atuais. Martin Heidegger (1889-1976) se refere à situação de inautenticidade do ser humano, quando este apoia suas opiniões e ideias naquilo que a massa anônima fala e pensa - Heidegger utiliza o termo homem, (Mann), com o artigo neutro "das" para realçar a falta de um sujeito definido. A opinião do "das Mann" é o senso comum; que não chega às raízes do pensamento e da verdadeira situação do homem, segundo o pensador alemão.
Na história da filosofia eram exceções as escolas filosóficas que valorizavam o senso comum. Entre estas correntes de pensamento estavam os: a) pensadores da linha empirista inglesa, já que o empirismo enfatiza o papel da experiência sensorial na formação de ideias; e b) os pensadores materialistas, que se antepunham a toda a visão idealista (metafísica). Dentre estes podemos destacar Karl Marx, que em sua em sua obra Teses sobre Feuerbach escreve em sua Segunda Tese:
”A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objetiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica." (Marx, 1982)
A filosofia sempre defendeu a dicotomia entre o senso comum e o verdadeiro pensamento (que para seus cultores era evidentemente a filosofia), porque se considerou a detentora da verdade, das opiniões e visões corretas sobre a realidade, sobre o mundo. No entanto, a partir da crise da metafísica iniciada por Hume e Kant, aprofundada por Nietzsche e definitivamente estabelecida pela filosofia pós-moderna, fica cada vez mais difícil falar de um "discurso verdadeiro" sobre a realidade, em contraposição a outros discursos "sem reflexão" como havia escrito Vico. O próprio discurso filosófico, segundo o pensador americano Richard Rorty (1931-2007), é um entre vários outros discursos e não tem a vantagem ou exclusividade da verdade - coisa que segundo Rorty não existe. A filosofia seria assim apenas um discurso que se utiliza de ferramentas específicas, não necessárias no dia a dia do senso comum, e tratando de temas específicos à sua área - sem que isto signifique que seja mais verdadeiro que outros.
A ciência do passado também dispunha de um discurso que estabelecia uma nítida divisão entre o senso comum do cidadão e os métodos de pesquisa cientista. O que, no entanto, efetivamente acontecia - segundo algumas interpretações - é que o homem da rua não persegue um objetivo específico em seu contato com o mundo, quando emite suas opiniões e vive seus costumes. Por outro lado, o pesquisador faz sua abordagem com métodos e objetivos predefinidos e coletando fatos vai fortalecendo sua hipótese científica, até que possa fundamentar sua teoria.
A questão entre o senso comum e o conhecimento filosófico ou científico pode ser considerada um falso dilema. Em última instância a origem do pensamento elaborado - seja a filosofia ou a ciência - está no próprio senso comum, criador dos costumes e das opiniões, mas também dos mitos, das religiões, da tecnologia e da moral. É a partir do contato com o mundo; da prática do dia a dia na caça, na coleta, na agricultura ou no pastoreio - como avaliam os empiristas e materialistas - que os humanos começaram a desenvolver sua cultura.
Então, através da interação entre ideias existentes e a realidade concreta desenvolveu-se cada vez mais o pensamento abstrato. Tudo, no entanto pela interação entre os organismos e o meio ambiente - como já vem acontecendo há 3,8 bilhões de anos.
Referências:
Abbagnano, Nicola. Dicionário de filosofia - verbete senso comum. São Paulo. Editora Martins Fontes: 2007, 1210 p.
A filosofia do senso comum. Disponível em <http://revistavilanova.com/a-filosofia-do-senso-comum/>. Acesso em 10/11/2013.
A filosofia da ciência de Rubem Alves. Disponível em: <http://ciberteologia.paulinas.org.br/ciberteologia/wp-content/uploads/2009/05/01afilosofiadacienciaderubemalves.pdf> Acesso em 8/11/2013.
Arte popular no Brasil: Mestre Vitalino. Disponível em: <http://artepopularbrasil.blogspot.com.br/2010/11/este-blog-sera-inaugurado-com-uma.html>. Acesso em 11/11/2013
Empirismo. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Empirismo>. Acesso em 11/11/2013
Teses sobre Feuerbach. Disponível em: <http://www.marxists.org/portugues/marx/1845/tesfeuer.htm>. Acesso em 11/11/2013.
(Imagens: xilogravuras de Ernst-Ludwig Kirchner)

"Cabeça bem feita", de Edgar Morin

terça-feira, 21 de julho de 2015
"Não mais fazer diferenças é então, em primeiro lugar, renunciar a atribuir a certas coisas um valor falso, medidas unicamente a partir da escala humana."  -  Pierre Hadot  -  Exercícios espirituais e filosofia antiga

Morin já pensava na necessidade da reforma do ensino há alguns anos. O livro "Cabeça bem feita", depois de vários obstáculos, resultou na proposta que visa despertar o autodidatismo e “criar uma cultura que permita compreender nossa condição e nos ajude a viver”.
Os desafios
Há uma fragmentação crescente das disciplinas, o que por outro lado nos impede de ver o global. A complexidade, a interdisciplinaridade, aumentam cada vez mais e a visão unidimensionalista nos incapacita a compreender os fatos. Este tipo de visão é resultado do nosso próprio sistema de ensino, que apresenta o mundo e os saberes de forma dissociada. Outro aspecto desta nova realidade é que o conhecimento cresce ininterruptamente, sendo cada vez mais difícil abarcá-lo. Existe uma grande dissociação entre as ciências humanas e as técnicas. Neste contexto, Morin coloca três desafios: 1) o desafio sociológico, que requer a integração da informação, do conhecimento e do pensamento; 2) o desafio cívico, representado pela democratização do saber; e 3) o desafio dos desafios, significando a reforma do ensino e do pensamento.
A cabeça bem feita
A frase é inspirada em Montaigne, filósofo francês que dizia que “vale mais uma cabeça bem feita, que uma cabeça bem cheia”. Morin ressalta a importância da curiosidade e da capacidade de colocar problemas; colocar as perguntas certas. Alguns aspectos que considera importantes para chegar a uma cabeça bem feita são, segundo o autor, os seguintes:
·Organização dos conhecimentos: contextualizar e globalizar conhecimentos é imperativo para a educação;
·Novo espírito científico: as ciências tratam de sistemas complexos, aumentando sua abrangência e fugindo do antigo reducionismo científico;
·Ecologia: seu estudo trata da interação de sistemas vivos e engloba múltiplas disciplinas;
·Ciências da Terra: contribuem com a ecologia e a geografia para estudar os fenômenos geológicos da Terra;
·Cosmologia: a estrutura e a evolução do Universo, aliado aos novos conhecimentos da física atômica;
·Os atrasos: a interação da biologia com outras ciências (genética, ecologia, antropologia, sociologia, etc.) para determinar a origem e a evolução da vida e dos humanos, particularmente.
A finalidade, pois, da cabeça bem feita, é a interação das culturas científicas e humanistas.
A condição humana
O estudo da condição humana não depende apenas das ciências humanas. Depende do conhecimento da cosmologia (origem do Universo) das ciências da Terra (origem da Terra) e da ecologia (a manutenção da vida). Segundo o autor, a contribuição do conhecimento humano pode ser dividido em:
·A contribuição das ciências humanas, que se encontram fragmentadas, dividindo-se em várias áreas do conhecimento (sociologia, economia, história), cada ciência com suas análises específicas;
·A contribuição da cultura das humanidades, onde Morin fala da contribuição da literatura, do cinema, da poesia, da escultura, enfim, de todas as artes em sua análise da condição humana.
Aprender a viver
Morin chama atenção para o fato de que a educação não é só acúmulo de conhecimentos, é incorporação de sapiência (sabedoria) para toda a vida.
A escola da vida e a compreensão humana
Neste capítulo Morin fala dos personagens da literatura, criados por Dostoievski, Shakespeare e Proust, referindo-se às sensações e sentimentos que estes personagens e estas histórias nos provocam, ensinando – principalmente os jovens – os valores da vida. Através desta compreensão, descobre-se os valores da vida, entendendo melhor a índole humana. Fato importante ressaltado pelo autor é o conhecimento constante de si mesmo, através de uma atitude reflexiva, característica dos escritos de Montaigne. Mais uma vez Morin ressalta a importância da filosofia na vida diária, estimulando a crítica e a autocrítica.
Enfrentar a incerteza
Morin informa que a maior certeza que nos foi dada é a destrutibilidade das certezas. A moderna física não nos pode mais transmitir certezas sobre o Universo e sua origem, assim como da vida, dado o modo aleatório como ocorrem a evolução da vida, findando na origem do homem. Vivemos em um Universo cercado de incertezas, tanto com relação as nossas sensações, quanto ao conhecimento.
A incerteza permeia a história humana; todos os impérios que pareciam eternos foram destruídos e fatos da história recente embaralharam nossas mais arraigadas convicções. “É preciso, portanto, prepararmo-nos para nosso mundo incerto e aguardar o inesperado” (pag.61). Todavia, em meio a todas estas incertezas é preciso estabelecer com estratégia a “fé incerta”, no sentido em que Pascal, Unamuno e Dostoievski a compreendiam.
Aprendizagem cidadã
O fato de alguém pertencer a uma nação deve significar que conhece os costumes e a cultura de seu povo. Todavia, o Estado-Nação, produto dos movimentos nacionalistas do século XIX, tende a desaparecer, basicamente em função do caráter supranacional dos problemas e de suas soluções. Trata-se de abolir o velho Estado-Nação e sua realidade mitológico-religiosa, com todas as suas idiossincrasias. Este movimento já está se tornando realidade, em função de um passado pan-europeu cultural e de problemas atuais que estão afetando todos os países da Europa e do mundo, como a destruição do meio ambiente, a transformação da economia mundial, etc. Os movimentos de cidadãos do mundo, como as ONGs, estão criando uma mentalidade cada vez mais voltada para o mundo e não para países específicos.
Os três graus
Com relação ao ensino, Morin começa sua análise com o nível primário. A “cabeça bem feita” deveria partir de interrogações que considerassem o ser humano em seus aspectos de origem cósmica, física e biológica; em seus problemas culturais. “É preciso aprender a conhecer, ou seja, a separar e unir, analisar e sintetizar, ao mesmo tempo”, escreve Morin. No curso secundário, a ênfase seria dada a um conhecimento mais baseado nas ciências humanas, não esquecendo, porém, de incorporar as tecno-ciências e suas implicações, notadamente a filosofia. A terceira etapa é a universidade, centro de excelência em conhecimento, livre de restrições políticas e religiosas e destinadas a transmitir o conhecimento secular acumulado. Uma das idéias de Morin é introduzir o que ele chama de “dízimo epistemológico ou transdisciplinar”, que incluiria um misto de matérias científicas e humanas (cerca de 10%) em todos os curriculae.

A reforma do pensamento
Morin chama a atenção para um tipo de pensamento cada vez mais preponderante hoje em dia, o pensamento sistêmico, onde o conhecimento das partes depende do conhecimento do todo e o conhecimento do todo depende do conhecimento das partes. Na ciência, duas revoluções científicas preparam a reforma do pensamento: a queda do dogma determinista de que existe uma unidade básica do universo e o ressurgimento das entidades globais, como o cosmos, a natureza e o homem. Dentro desta nova perspectiva de pensamento, Morin coloca sete diretrizes para os novos tempos:
1. Princípio sistêmico ou organizacional, que liga o conhecimento das partes e do todo;
2. O princípio hologrâmico, presente nas organizações complexas, onde não apenas a parte está no todo, como o todo na parte;
3. Princípio do circuito retroativo, característico dos sistemas autorreguladores: a causa age sobre o efeito e o efeito age sobre a causa;
4. Princípio do circuito recursivo, característica dos sistemas autoprodutores e auto-organizadores;
5. Princípio da anomalia/dependência: a dependência que o sistema tem do meio ambiente, de onde retira energia, informação e organização. Como exemplo, cita um corpo, cujas células se autoregeneram constantemente;
6. O princípio dialógico, que une dois princípios que deveriam excluir-se, mas são indissociáveis de uma mesma realidade.
7. O princípio da reintrodução do conhecimento em todo conhecimento, tratando da reincorporação de princípios já conhecidos em uso em novas ideias.
Para além das contradições
Neste capítulo Morin fala das diversas demandas da moderna educação: recursos, novos programas, novos sistemas, etc. Todavia, o grande impasse a que se chega é “que não se pode reformar mentes se não se reforma as instituições e vice-versa. Para iniciar este processo, é necessário redimir a missão de quem ensina, que seria preparar as pessoas para pensarem e reagirem aos novos desafios apresentados pelo mundo.
Inter-poli-transdisciplinaridade
A verdadeira solução de um problema não é tanto o resultado de um domínio do tema que traria a solução, mas principalmente um olhar novo sobre o problema. A partir deste ponto, Morin exemplifica várias maneiras de abordar problemas científicos e práticos, em diversas áreas.
A noção de sujeito
Morin discute a noção de sujeito no pensamento ocidental, principalmente durante as últimas décadas. Aborda também a noção do “eu” e a divisão do cérebro em três unidades, ou camadas, resquícios do nosso passado réptil, mamífero, acrescido dos elementos humanos. Morin acredita na possibilidade de um desenvolvimento da personalidade humana, integrando seus aspectos “animais” à cultura.(Imagens: pinturas de Andy Warhol)

Crise, mudanças e adaptação

sábado, 18 de julho de 2015
"Freud sabia perfeitamente que a maioria das pessoas se considera agentes independentes, que controlariam a própria vida, determinariam o destino, escolheriam a carreira e os parceiros: mas ele argumenta que embora finjamos ser os arquitetos de nossa existência, na verdade somos escravos de poderosos forças inconscientes que governam nossa mente e nosso comportamento."  -  Brett Kahr  -  Lições de vida: Freud

A história nos mostra que tempos de crise são tempos de mudanças. Os períodos de perturbação na economia e nas relações sociais representam uma ruptura com o passado, com uma situação existente, indicando que a forma como a sociedade vinha se organizando já não funciona mais. As consequências de tais condições podem ser as crises e as reformas econômicas, os conflitos e o aparecimento de novos grupos sociais e o surgimento de novas ideias no âmbito da cultura. Assim, para que os indivíduos, grupos sociais e sociedades possam continuar existindo, é necessário que se adaptem às mudanças com a criação de novas estruturas econômicas e sociais.
A adaptação às alterações se desenvolveu com a própria vida, desde sua origem. O desenvolvimento das espécies, processo do qual nós, seres humanos, também fazemos parte, ocorre porque linhagens ou grupos de indivíduos foram submetidos a algum tipo de perturbação. Terremotos, secas prolongadas, doenças e alterações genéticas, provocaram o desaparecimento da maior parte dos membros do grupo, sobrando apenas aqueles indivíduos que, por alguma razão, tiveram capacidade inata de se adaptar às novas condições ambientais. Toda a vida existente na Terra é resultado deste processo. Somos todos, das bactérias às palmeiras e dos besouros às baleias, descendentes de indivíduos que passaram por crises de todo tipo e que sobreviveram para contar a história. A ciência nos diz que 98% das espécies dos cinco reinos atualmente existentes (plantas, fungos, animais, protista e monera) estão extintos.
As sociedades humanas, diferentemente das outras espécies, podem acumular conhecimentos sobre como reagir às crises. A cultura - incluindo ai todo conhecimento científico e tecnológico acumulado ao longo de toda história do homo sapiens - é o instrumento que nos coloca em vantagem sobre os demais seres vivos. Não dependemos somente de uma possível capacidade de adaptação de alguns indivíduos de nossa espécie, produto de mutações genéticas, e o que significaria a morte para o restante da espécie. Temos meios de mudar o nosso meio ambiente - através do fogo, dos instrumentos de caça, da agricultura, das máquinas, dos abrigos e dos remédios - possibilitando que a maioria dos indivíduos de nossa espécie sobreviva às intempéries, cataclismos e doenças.
Esta capacidade dos humanos em sempre tirar proveito do meio ambiente, sobrevivendo aos períodos glaciais, às explosões vulcânicas e abandonando regiões áridas, pode ter um fim. Com a tecnologia usada na atividade econômica, para nossa sobrevivência, estamos indo longe demais na alteração do meio ambiente. A tecnologia, empregada de uma maneira desastrada - superexploração dos recursos hídricos, dos solos, dos mares - está diminuindo as chances da humanidade persistir como espécie, pelo menos aqui no planeta Terra, se não implantarmos mudanças para sairmos da crise.
A história da humanidade, escrita por cientistas de uma civilização do futuro, seria emocionante e irônica ao mesmo tempo. Falaria sobre a única espécie deste planeta capaz de criar suas próprias condições de adaptação, sobrepondo-se à natureza. Em certo ponto de sua história, no entanto, as forças da natureza despertadas pelas atividades humanas teriam sido poderosas demais, e acabaram destruindo o homem.
(Imagens: fotografias de Ikko Narahara) 

Descarbonização da economia

sábado, 11 de julho de 2015
"O Brasil é uma fidelidade a si mesmo enorme. Muda para não mudar. É metade corrupção, metade incompetência."  -  Evaldo Cabral de Melo em entrevista ao caderno EU&Fim de Semana do jornal Valor. 

Em todo o planeta é possível ver os primeiros efeitos do fenômeno das Mudanças Climáticas. Dentre estes, os que mais chamam a atenção por seu impacto e efeito prolongado, são as secas. Estas estão afetando várias regiões do mundo, de uma forma mais acentuada do que vinha ocorrendo no passado. Exemplo disso é a estiagem que ocorre na região Sudeste do Brasil. Apesar de cíclica, ocorrendo aproximadamente a cada 20 a 30 anos, na atual temporada está mais prolongada e severa. A deficiência na gestão da crise hídrica por parte de governos, contribui para tornar o problema ainda maior.
A médio e longo prazos as Mudanças Climáticas deverão ocasionar várias outras dificuldades ao planeta, como resultado dos fenômenos climáticos intensos. As economias de países situados em zona intertropical, como o Brasil, terão maiores chances de serem afetadas. Produção agrícola, geração de eletricidade, transportes, abastecimento de água, atividade industrial, serão alguns dos setores afetados.
Para tentar minorar a força destes eventos climáticos, nações já planejam ações para reduzir as emissões de dióxido de carbono e outros gases causadores do efeito estufa, apontados pela ciência como a origem das mudanças do clima. Em recente reunião, o grupo dos G-7 (EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá) decidiu descarbonizar as economias de seus países ao longo deste século, para manter o aquecimento da atmosfera abaixo do 2 ºC. Para isso, o G-7 decidiu acabar gradualmente com a dependência dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural).
No mundo industrializado 80% da energia é gerada através dos combustíveis fósseis. O plano que aos pouco se delineia, prevê a substituições dessas matrizes poluentes por tecnologias mais eficientes e outras não poluentes. Reduzir as necessidade de aquecimento, ventilação e refrigeração; produção de eletricidade a partir do sol, da água, do vento, do hidrogênio e da biomassa; melhorar a qualidade dos combustíveis, são algumas das estratégias previstas. O processo de descarbonização, já sabe o G-7, será longo e complexo, exigindo reformulações periódicas acompanhando o desenvolvimento tecnológico. O manifesto do grupo convida "todos os países a aliarem-se a nós neste esforço".
O Brasil pertence ao grupo dos 15 países (África do Sul, Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coréia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Japão, México, Reino Unido e Rússia) responsáveis por cerca de 70% das emissões de gases no planeta. Todos certamente serão pressionados, de forma a darem sua contribuição na descarbonização da atmosfera.
Para cumprir com sua parte, o Brasil precisará reduzir, até eliminar, o desmatamento na Amazônia. A agricultura e pecuária também terão que dar sua contribuição, como na cultura do arroz e no manejo de resíduos. Outras providência devem incluir: forte apoio às energias renováveis e à volta das termelétricas para geração de reserva; a implantação de medidas de eficiência energética na indústria e na construção; implantação da política de resíduos urbanos; a recuperação da produção do etanol veicular e a melhora do rendimento dos automóveis a gasolina, entre outras. O país tem um potencial de redução de emissões muito grande. Para aproveitá-lo, é preciso planejamento, coordenação e cobrança de resultados; aptidões atualmente escassas no governo.
(Imagens: fotografias de  Humphrey Spender)

Comentários sobre o setor ambiental brasileiro

quarta-feira, 8 de julho de 2015

(publicado originalmente no site www.ricardorose.com.br como "Newsletter julho/agosto 2015")

A situação política no país continua interessante. As últimas denúncias da Operação Lava Jato, feitas pelo empresário Ricardo Pessoa, incriminam ainda mais o PT, ministros de governo e até figuras da oposição. O avanço da investigação da polícia federal aliada às denúncias premiadas, colocam o governo Dilma em uma situação cada vez pior perante a opinião pública. A presidente, em visita aos Estados Unidos, descredencia o depoimento de Pessoa e, com razão, exige provas.
Apesar de ter passado a condução política de seu governo para o vice, Michel Temer, o segundo mandato de Dilma continua com muita dificuldade para decolar. Persistem os atritos com o Legislativo e a avaliação da presidente é ruim ou péssima para 65% da população. A inflação, apesar da alta constante dos juros, não cede e até sobe. A taxa de desemprego bate nos 7%, aumenta mês a mês e as perspectivas para retomada do crescimento são colocadas cada vez mais longe no futuro - agora estão em 2017.
O setor ambiental também não avança. Em São Paulo, é significativo o fato de que mais uma vez a cidade de Bom Jesus de Pirapora, situada na região metropolitana às margens do rio Tietê, foi invadida por quantidades imensas de espuma branca malcheirosa. O fenômeno é resultado da mistura de detergente doméstico com efluentes e ocorre porque apenas uma parte do esgoto da cidade de São Paulo é tratada. A nível federal a situação é a mesma e nem os projetos de saneamento contratados no âmbito do PAC estão sendo todos terminados.
Para a 21ª  Conferência sobre o Clima, promovida pelas ONU em Paris em 1 de outubro próximo, apenas a sociedade civil apresentou proposta de metas de redução de emissões de CO². O governo ainda está discutindo a questão internamente e nas próximas semanas deverá se posicionar a respeito. Segundo as ONGs, dentre os objetivos que necessariamente deveriam constar da pauta a ser apresentada pelo Brasil, constam metas como: aumentar o uso das energias renováveis e diminuir o das termelétricas, melhorar a oferta de transporte público não poluente e incentivar o uso de veículos elétricos. A agropecuária também deverá dar suas contribuições, otimizando a área plantada e melhorando a gestão dos resíduos da criação animal. Além disso, é preciso que o país continue a diminunir o desmatamento, até chegar a eliminá-lo completamente - o que o governo agora diz que vai acontecer em 2030.
Ainda não existem fatos novos quanto à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Nesta newsletter apenas reproduzimos uma frase que consta do site do Ministério do Meio Ambiente, na página referente à política: "Além disso, os instrumentos da PNRS ajudarão o Brasil a atingir uma das metas do Plano Nacional Sobre Mudanças do Clima, que é de alcançar o índice de reciclagem de resíduos de 20% em 2015," Sem mais comentários.
O Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, quase passou despercebido. Em um artigo publicado por ocasião da data, escrevi: "Em meio a tantas outras prioridades, o meio ambiente parece ter perdido sua importância na agenda dos governos, nos planos das empresas e até como tema de conversa entre as pessoas. No entanto, vale lembrar que pelo menos dois grandes problemas por que passa o país e que estão afetando muito a economia, a falta d'água e de energia, são assuntos diretamente ligados ao meio ambiente. Gestão de recursos hídricos, uso de energias renováveis, eficiência energética são temas de debates entre ambientalistas, cientistas, sociedade civil e o governo - pelo menos nos países onde a questão ambiental vem avançando para soluções."
A frase "quando os orçamentos estão no vermelho, ninguém pensa no verde" é mais atual do que nunca. Grande parte da imprensa ambiental enfrenta dificuldades para sobreviver e muitos jornalistas continuam atuando no setor apenas por idealismo. Se em tempos de crescimento da economia as publicações sobre meio ambiente já não tinham muitos patrocinadores, em períodos de recessão econômica o quadro ainda é mais desanimador.
(Imagens: fotografias de Alexey Bednij)

Louvado seja o meio ambiente

sábado, 4 de julho de 2015
"O Dasein morre de maneira fáctica ao longo da sua existência, mas antes de mais, e o mais frequentemente, sob o modo de decadência"  -  Martin Heidegger citado por Michel Haar em Heidegger e a essência do homem

25 de junho de 2015 será lembrado no futuro como importante data na luta dos ambientalistas de todo o mundo. Foi nesta data que o papa Francisco lançou sua encíclica Laudato si (Louvado seja). O documento representa um marco na questão da proteção ao meio ambiente e deverá exercer forte influência na maneira como este tema vem sendo tratado, principalmente nas nações com considerável parcela de católicos - caso da maior parte dos países na Europa, nas Américas e parte da África.
A encíclica Laudato si não é apenas mais uma instrução aos fiéis católicos, produzida pelo papa e sua equipe. Apesar de fazer referência às ações de grupos católicos e de pensadores de religiosos de várias tendências em relação ao meio ambiente, o documento elaborado pelo papa Francisco é fundamentado em dados atualizados das ciências que estudam a questão ecológica. Em nossos comentários, seguimos a resenha da encíclica feita pelo filósofo e teólogo Leonardo Boff, em texto publicado no caderno Aliás, no Estado de São Paulo de 21/6/2014.
A encíclica começa levantando os problemas ambientais e sua implicações nas sociedades humanas. A questão das mudanças do clima, da água, da biodiversidade, da erosão do solo e suas consequências; como a diminuição da qualidade da vida humana e a deterioração das relações sociais. Em seu texto, Francisco mantêm a forte orientação em favor dos humildes e dos abandonados da Terra, quando afirma que os grande prejudicados pela destruição do meio ambiente são os pobres. "Gemidos da irmã Terra se unem aos gemidos dos abandonados deste mundo", escreve. Também faz uma relação entre o crescimento desenfreado da economia, a procura constante de poder e a acumulação ilimitada à custa da injustiça ecológica e social, "um comportamento que parece suicida".
Em outra parte da encíclica o papa analisa o papel da tecnologia, a qual acolhe sem preconceitos (é preciso lembrar que o catolicismo aceita a teoria da evolução de Darwin). O que Francisco critica é o uso indiscriminado dos benefícios da ciência para explorar à exaustão os recursos da Terra, submetendo "a economia, a política e a natureza em vista da acumulação de bens materiais", como escreve Boff. O engano desta visão é acreditar que os problemas causados pelo uso abusivo da tecnologia podem ser resolvidos pelo uso de mais tecnologia. Mostrando um profundo conhecimento das novíssimas tendências da ciência, envolvendo o conceito de complexidade, Francisco escreve que esta atitude é enganosa porque "implica isolar as coisas que estão sempre conectadas". A limitada visão cartesiana da tecnocracia está em "fragmentar os saberes e perder o sentido de totalidade".

A encíclica é enfática ao afirmar que a economia e a política devem servir ao bem comum e propiciar condições para um vida mais digna e agradável. A exemplo do que em outras palavras também é afirmado pelo líder budista Dalai Lama, Francisco enfatiza a necessidade de um diálogo entre a moderna ciência e a religião, dizendo que todas as religiões "devem procurar o cuidado da natureza e a defesa dos pobres".
Semanalmente chegam novas notícias sobre a destruição de ecossistemas. Assim, a mensagem do papa representa um chamado para mudança de curso; conversão, segundo o cristianismo. Crentes ou descrentes, estamos todos na mesma Terra e podemos afirmar com Francisco que: "o mundo é mais que uma coisa a resolver, é um mistério grandioso para ser contemplado na alegria e no louvor."
(Imagens: gravuras de Gustave Doré)

Economia, complexidade e capacidade de resposta à crise

terça-feira, 30 de junho de 2015
"Um ser vivo é a parte do mundo que tende a manter uma identidade independentemente da incerteza do resto do mundo."  -  Jorge Wagensberg  -  Pensamentos sobre a incerteza

A economia, assim como vários outros sistemas existentes - uma colônia de animais, uma eleição, o clima, a bolsa de valores - são considerados sistemas complexos porque suas propriedades emergentes decorrem principalmente de relações não lineares entre suas partes constitutivas. Estes sistemas são compostos por vários aspectos que interagem entre si, formando uma nova estrutura, que por sua vez incorrerá em novas e mais complexas relações, e assim por diante. Os sistemas complexos não são simplesmente a soma de suas partes, como pensa o mecanicismo cartesiano; são muito mais. Não é por outra razão que para se estudar o desenvolvimento destes sistemas são necessários computadores de altíssima potência, processando bilhões de informações por segundo.
A crise econômica e financeira por que passa o país terá uma série de consequências, numa cadeia de causa e efeito de resultados imprevisíveis, gerando novos fatos agora ainda imperceptíveis. Sem nos preocuparmos em fazer a genealogia da crise pela qual passa o país - já que esta também tem origens complexas - comecemos pelo fato mais palpável e imediato: a alta da inflação e a consequente ascensão dos juros. A elevação do custo do dinheiro (juros) já se baseia em princípios simplistas, cartesianos, de mera causa e consequência: eleva-se o juros, tornando os empréstimos ao consumidor mais caros, reduz-se o poder de compra, provocando a queda da demanda e, como corolário, os preço das mercadorias. É através deste artifício reducionista que muitos burocratas do Banco Central e do governo esperam, não se sabe depois de quanto tempo, conseguir finalmente a queda dos juros. Fato é que até agora, apesar de doses maciças do amargo remédio, a inflação resiste e até aumenta.
Por enquanto, o xarope dos juros altos, além de não surtir efeito no combate da inflação, está minando outras partes da estrutura da economia brasileira. Em sistemas complexos cada providência tem suas consequências. Assim, a queda da demanda provoca a redução do poder de compra. Este gera queda no faturamento das empresas, forçando-as a demitir mão de obra. Com o crescimento do desemprego em setores importantes, como o da construção, de serviços e indústria, ocorre uma queda ainda maior no consumo, resultando em mais redução da produção e mais dispensas. Em todas as fases deste processo "queda de vendas -> aumento do desemprego -> queda de vendas..." ocorre uma diminuição na arrecadação de impostos. Sendo assim, o recente aumento de impostos também não deverá surtir o efeito desejado, já que o aumento das alíquotas não compensará a diminuição da base de cálculo.
A redução da receita do Estado terá outros impactos na economia, como a falta de recursos para investimentos em infraestrutura: serviços de saneamento, hospitais, escolas, projetos sociais, estrutura logística; isto para ficar apenas no básico elementar. Nem consideramos os cortes que sofrerão os investimentos em ciência, tecnologia e pesquisa (em medicina, agricultura, eletrônica e TI, aeronáutica, energia, etc.), meio ambiente (criação de unidades de conservação, aparelhamento de parques nacionais, implantação de programas diversos) e modernização da máquina administrativa do governo em seus três níveis.

As medidas de ajuste ora implantadas são necessárias, pelo menos nos primeiros instantes, para conter a hemorragia do paciente e evitar que a situação do Brasil se agrave. Mas o tratamento para sua definitiva recuperação, implicaria medidas de reforma política do estado, da política econômica e fiscal, além de outras providências gerais de modernização, desburocratização e democratização do acesso aos serviços do Estado.Tais providências, estiveram - agora e sempre - nos discursos dos congressistas, sem que nada de concreto fosse, entretanto, votado e aprovado.
Resta saber se com o capital humano de que dispomos - no Executivo, Legislativo e Judiciário - tal empreitada é passível de ser realizada. Além do esforço mensal de embolsar grandes quantias em dinheiro público a título de salário, auxílios e outras benesses - algumas delas até não tão oficiais - a contribuição que estes poderes vem dando à causa da República ainda está longe de ser suficiente.
(Imagens: xilogravuras de mestre Hokusai)

A atualidade da obra "O suicídio" de Durkheim

sábado, 27 de junho de 2015
"A ideia central é que o universo, tomado como um todo único e unitário, é um sistema complexo que evolui, dilatando-se e se complexificando. O motor da evolução cósmica é, portanto, a complexificação: uma ascenção progressiva na escala da complexidade."  -  Marc Halévy  -  A era do conhecimento

A obra “O suicídio” (1897) de Émile Durkheim foi e ainda é considerada o grande marco da pesquisa sociológica. O tema escolhido por Durkheim, o suicídio, era à época objeto de grande preocupação na sociedade e ao mesmo tempo prática que infringia profundamente as normas sociais. Tratava-se, portanto de um importante fato social, digno de análise aprofundada. Escreve Durkheim:
“Conseguimos, então, representar-nos, de um modo preciso, o domínio da sociologia. Este só compreende um determinado grupo de fenômenos. Um fato social reconhece-se pelo poder de coerção externa que exerce ou o suscetível de exercer sobre os indivíduos; e a presença desse poder se reconhece, por sua vez, pela existência de uma sanção determinada ou pela resistência que o fato opõe a qualquer iniciativa individual que tende a violá-lo.” (Durkheim: 2002, p. 38)
Iniciando sua pesquisa, Durkheim percebe que a divisão social do trabalho, gerando o que chama de “solidariedade orgânica” – uma cooperação social baseada na diversidade – não deixa as pessoas mais felizes. Assim, constata Durkheim, que apesar dos avanços tecnológicos e sociais, o índice de suicídio mostra um aumento. Observa também que se tornaram mais comuns fenômenos como as crises econômicas, a inadaptação dos trabalhadores e a violência. O sociólogo também sabe que a sociedade tem certos valores sociais, que estando debilitados, podem colocar em risco o equilíbrio social.

Neste contexto, Durkheim escreve sua dissertação acadêmica sobre o suicídio, procurando descobrir-lhe as causas e procurando demonstrar que não se trata de um fenômeno individual, psicológico, como defendiam muitas correntes da psicologia à época. Apesar de admitir que existam predisposições psicopatológicas para o ato, o sociólogo considerava que o suicídio era antes de mais nada um fato social (para usar a linguagem durkheimiana) sobre o qual a sociologia poderia coletar dados, fazer avaliações e construir teorias – ferramentas científicas usadas por Durkheim e que definitivamente fundamentaram a sociologia como ciência.
Munindo-se de estatísticas de diversas regiões da França e da Europa em relação aos suicídios, Durkheim inicia seu estudo refutando algumas teorias que circulavam sobre as causas sociais do suicídio. Uma destas teorias, elaborada pelo sociólogo Gabriel Tarde, dava grande valor à imitação como fator de integração social; o suicídio poderia assim também ser originado por este impulso. Mas, baseado em dados estatísticos, Durkheim prova que esta teoria e a da hereditariedade não tinham fundamentação científica para explicar o fenômeno do suicídio como fato social.
Avançando em suas pesquisas, com base em comparações de dados, Durkheim consegue estabelecer os tipos sociais do suicídio. Os três tipos que o sociólogo propõe são: o suicídio egoísta, o suicídio altruísta e o suicídio anômico. Além disso, Durkheim consegue determinar alguns aspectos da incidência dos suicídios. Esta varia com a idade e com o sexo: é mais acentuada entre os homens do que entre as mulheres; varia com a religião, sendo mais baixa entre os católicos do que entre os protestantes. A taxa de suicídio aumenta entre os solteiros, divorciados, viúvos e idosos; a existência de uma família e filhos é geralmente fator de proteção contra o suicídio.
Os diversos tipos e níveis de relacionamentos criam condições para que se manifestem os tipos de suicídios. Os suicidas egoístas são aqueles que pensam essencialmente em si mesmos, não estando bem integrados em um grupo social e tendo desejos e aspirações incompatíveis com o grupo social a que pertencem. “Os suicídios egoístas caracterizam-se por uma fraca integração na sociedade e ocorrem quando o indivíduo está sozinho, ou quando os laços que o prendem ao grupo estão enfraquecidos ou quebrados” (Giddens: 2010, p. 10). Aron resume o drama deste indivíduo: “O suicida egoísta se manifestará por um estado de apatia e pela ausência de vinculação com a vida.” (Aron: 2008, p. 487).
O suicida altruísta é aquele indivíduo que tem um alto grau de integração em seu grupo social, submetendo-se, inclusive, a sacrifícios em favor deste. O indivíduo se anula completamente em prol do grupo, aceitando completamente a imperativos sociais, chegando a abrir mão de seu direito à vida. Casos exemplares são, por exemplo, o capitão do navio, que é o último a deixar a embarcação, ocorrendo afundar com ela. Outro exemplo é o bombeiro, que sacrifica sua vida em benefício de pessoas que não conhece. Exemplo extremo são os “bonzos”, monges budistas vietnamitas, que se deixavam queimar em praça pública como protesto contra a guerra do Vietnã (1959-1975). A característica principal do suicida altruísta é a sua energia e sua paixão por uma causa.
O suicida egoísta e o suicida altruísta representam tipos opostos. Um, o egoísta, se afasta demais das aspirações de seu grupo e o outro, o altruísta, se confunde com as aspirações de seu grupo.
O terceiro tipo de suicida é o que mais interessa a Durkheim, o suicida anômico. Este tipo de suicídio tem grande relação com os ciclos econômicos, variando de acordo com o aparecimento de períodos de prosperidade e recessão. O suicida anômico associa sua situação à irritação e situações de decepção por que passa; por desgosto, ao se dar conta da desproporção entre suas aspirações e aquilo que a vida lhe oferece.        
Outra conclusão que Durkheim tira com seu estudo é que apesar de ser um fenômeno individual, as causas do suicídio são eminentemente sociais. Por isso, o sociólogo fala em “correntes suicidógenas”. Estas correntes originam-se na coletividade, atravessam a sociedade e parecem vitimar indivíduos com certas predisposições psicológicas. Sobre as “correntes suicidógenas” escreve Aron: “As causas reais dos suicídios são, em suma, forças sociais que variam de sociedade para sociedade, de grupo para grupo e de religião para religião. Emanam do grupo e não dos indivíduos isoladamente” (Aron: 2008, p. 488)
“O suicídio” ainda continua uma obra atual, além de ser seminal para o estudo da sociologia. Suas informações e conclusões continuam sendo usadas pelas ciências, apesar da discrepância de alguns dados em relação à incidência do suicídios em períodos de recuperação econômica (pesquisa de Maurice Halbwachs em 1930 in Durkheim: 150 anos). Tal fato, porém, não reflete uma falha na coleta de dados ou em sua interpretação, mas mostra certas características da sociedade e época onde foram coletados. Em relação à obra escreve Establet: “Atualizando o livro “O suicídio”, nos convencemos de que a obra mantêm sua relevância. Tomando como objeto um fenômeno minoritário, porém de grande repercussão social e psicológica, Durkheim encontrou o verdadeiro terreno da sociologia.” (Establet: 2009, p. 128).
Bibliografia:
Aron, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo. Martins Fontes: 2008, 884 p.
Durkheim, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo. Editora Martin Claret: 2002, 155 p.
Giddens, Anthony. Sociologia. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian: 2010, 723 p.
Massella, Alexandre B. et al. Durkheim: 150 anos. Belo Horizonte. Argumentum: 2009, 261 p.
(Imagens: xoligravura do Nordeste)

Produção, distribuição e consumo de alimentos

sábado, 20 de junho de 2015
"Quero convencer os meus leitores de que o Imperialismo é símbolo típico do final. Produz petrificações como os impérios egípcio, chinês, romano ou como os mundos da Índia e do Islã, petrificações que ainda perduram por séculos e mesmo milênios, passando das mãos de um conquistador às de outro, corpos mortos, amorfos, desanimados, matéria gasta de uma grande história."  -  Oswald Spengler  -  A Decadência do Ocidente

Em várias partes do mundo persistem os problemas de saúde ligados à falta de alimentos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) a subnutrição ainda é causa indireta de cerca de 30% das mortes de crianças no mundo. Afetando o desenvolvimento físico e mental de milhões de crianças, a subalimentação também compromete seu desenvolvimento intelectual e profissional, diminuindo o número de cidadãos preparados para contribuir com o desenvolvimento de seus países.
Este é o ciclo vicioso a que são condenadas regiões pobres em todo o mundo: falta de acesso a alimentos gera subnutrição. Esta prejudica o desenvolvimento intelectual e profissional de parte da população. Na falta de cidadãos preparados, o crescimento da economia fica comprometido e desta forma não geram-se menos recursos para produzir ou comprar alimentos para toda a população - principalmente aquela mais necessitada. Por isso, é preciso que os países detentores de tecnologia agrícola desenvolvida atuem nestes países na transferência de conhecimentos.     
A fome ainda presente no século XXI não é por falta de alimentos. A produção mundial de comida é suficiente para abastecer os atuais 7,3 bilhões de habitantes da Terra. Se parte da população dos países menos desenvolvidos não tem acesso a quantidades suficientes de comida, isto se deve a fatores como insuficiente produção local; falta de recursos do país para adquirir alimentos no mercado internacional; e elevação dos preços internacionais devido a ações especulativas, entre outros.
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) alerta que a população mundial deverá atingir 9 bilhões em 2050, o que incrementará a procura por alimentos. Segundo os especialistas, para fazer frente a esta demanda, o mundo deverá atacar este problema em três frentes principais. Primeiro, aumentar a produção de produtos agrícolas, sem comprometer os recursos naturais, não avançando sobre áreas de vegetação natural. Isto significa que o Brasil, por exemplo, precisará investir muito mais em pesquisa e tecnologia - o que em parte já vem fazendo - para obter uma melhor produtividade das áreas agrícolas já existentes.

O segundo aspecto a ser considerado é a melhoria dos sistemas de armazenagem e distribuição das colheitas. Dados apontam que cerca de 30% dos produtos agrícolas mundiais são perdidos entre o campo e o ponto de venda do produto. Será necessário, na maioria dos países produtores, construir mais silos e armazéns, ampliar a rede rodoviária, ferroviária e ampliar e modernizar as instalações portuárias.
A última providência sugerida pelos estudiosos é reduzir a perda de alimentos nos pontos de venda e entre os consumidores.Segundo um relatório elaborado pela FAO, depois de comprados, aproximadamente 50% dos alimentos são jogados fora, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. No Brasil aproximadamente 70.000 toneladas (aproximadamente 2.800 carretas) de alimentos acabam no lixo a cada ano. Compra de produtos em excesso, mal acondicionamento; são fatores que fazem com que milhões de famílias descartem quantidade imensas de alimentos, sem reaproveitá-las. No futuro serão necessárias campanhas em todos os países - principalmente os ricos - incentivando e ensinando o reaproveitamento de alimentos. Se os alimentos forem melhor manuseados e aproveitados, haverá comida para todos.
(Imagens: gravuras de Jacob Steinhardt)

Pesquisas de opinião e a questão ambiental

sábado, 13 de junho de 2015
"Los pesimistas no tienen razón: vista desde lejos, la vida nada tiene de trágica, solo lo es de cerca, observada en detalle. La vista de conjunto la vuelve inútil y cómica. Y eso es aplicable a nuestra experiencia íntima."  -  E. M. Cioran  -  Cuadernos 1957-1972

O Brasil é um dos países onde mais se faz pesquisas de opinião, especialmente sobre assuntos relacionados ao meio ambiente. Nossa diversidade social, geográfica e cultural dá mais consistência às  enquetes, apresentando uma amostra de como pensa a população de uma nação de grande importância ambiental. Afinal, boa parte da biodiversidade do planeta encontra-se em nossas florestas, Cerrado, Caatinga, campos e águas territoriais.
A pesquisa de opinião identifica a maneira como pensa a maior parte de uma população sobre determinado assunto. Esta opinião tem importância para alguém - governos, empresas, grupos de interesse - e deveria ajudar a direcionar ações futuras destes interessados; caso contrário não encomendariam a investigação.
No caso das enquetes relacionadas a temas ambientais, estas em geral confirmam expectativas, sem necessariamente provocarem uma mudança nas condições. Com certa frequência, por exemplo, são realizadas pesquisas sobre a "intenção de compra de produtos sustentáveis, mesmo que mais caros". A maior parte das respostas invariavelmente é positiva, ou seja, os consumidores estariam dispostos a gastar mais, desde que os produtos fossem menos prejudiciais ao meio ambiente. Em pesquisa realizada em 2012 pelo CNI (Conselho Nacional da Indústria) e IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) este percentual era de 52% da população entrevistada. Outra enquete realizada em 2013 e aplicada pelo mesmo IBOPE, revelou que "70% da população brasileira pagaria mais caro para adquirir produtos que não causem grandes impactos na natureza".
Na prática, porém, tais pesquisas não querem dizer nada. Porque, por um lado o consumidor efetivamente não gastará mais dinheiro em produtos "amigos do meio ambiente", a não ser em um ou outro caso. Por outro, os fabricantes não têm intenção de investir em artigos mais caros e menos prejudiciais ao meio ambiente, reduzindo suas margens de lucro - a não ser por imposição legal.
Recentemente o jornal Folha de São Paulo publicou pesquisa realizada pelo Datafolha, informando que 95% da população concorda que as mudanças climáticas estão afetando o país. Na entrevista, 90% das pessoas disseram que a questão tem relação com a crise hídrica e energética que está afetando o Brasil. A enquete identificou que o tópico das mudanças climáticas não é claro para todos os entrevistados. Destes, 88% já ouviram falar sobre o assunto, mas só 28% se consideravam bem informados. Mesmo assim, 85% dos participantes na pesquisa disseram que a questão das mudanças climáticas era motivo de preocupação para suas famílias e para o futuro do planeta. Em um aspecto, porém, os entrevistados foram quase unânimes, ao dizer que o governo pouco está fazendo para minorar o impacto do fenômeno no país.
Mostram tais pesquisas que existem duas realidades: aquela dos dados coletados pelas enquetes e a outra, a do dia a dia do país. Mesmo que boa parcela da população esteja animada a pagar mais por produtos ambientalmente corretos, tais produtos raramente estão disponíveis. E mesmo que tivessem, não fariam parte da cesta de compras do brasileiro médio. No caso das mudanças climáticas a preocupação da população, apesar de baseada em poucas informações, contrasta com a falta de estratégia de médio e longo prazo por parte do governo.
(Imagens: pinturas de Victor Tischler)