Empirismo e racionalismo

sábado, 19 de janeiro de 2019

"Os bens e os males que nos advêm não nos tocam de acordo com sua magnitude mas sim de acordo com nossa sensibilidade."   -   La Rochefoucauld   -   Máximas


Introdução

Desde as origens da filosofia o problema do conhecimento sempre ocupou a maioria dos filósofos. O tema já era tratado pelos pensadores pré-socráticos, os quais, dada a maneira como abordavam o assunto, se dividiam entre racionalistas e empiristas. O racionalismo e o empirismo representam visões opostas na maneira de explicar como o homem adquire conhecimentos. A classificação em correntes de pensamento, evidentemente, foi realizada pelos pensadores posteriores, já que nem os gregos ou os medievais tinham clara a separação entre as duas tendências. Parmênides (cerca de 530 a.C. - 460 a.C.) e os pitagóricos (século VI a.C.) concordam que além do conhecimento empírico existe também o racional, e é somente este último que efetivamente tem valor absoluto. Por outro lado, os sofistas Protágoras (480 a.C. - 410 a.C.) e Górgias (480 a.C.- 375 a.C.) reconhecem somente o conhecimento sensível. Assim, como sabiam que as experiências eram falhas e que não eram as mesmas para todo e qualquer indivíduo, os sofistas concluíram pela relatividade do conhecimento, o que os permitiu afirmar que “o homem é a medida de todas as coisas”, negando qualquer conhecimento necessário e universal.

Avançando mais no tempo, encontramos a filosofia de Platão (427 a. C.- 347 a. C.), cujo pensamento é classificado como racionalista. O grande filósofo, afirmava que para chegar à verdade era preciso ultrapassar os dados da experiência, falhos e mutáveis, e alcançar o mundo da Idéias, princípios eternos e perfeitos. O grande filósofo ateniense afirmava que antes de viver neste mundo as almas humanas habitavam o mundo das Idéias e ali conheciam o Bem, o Belo, as Proporções e muitas outras. Ao nascerem em corpos humanos, as almas esqueciam o que haviam vislumbrado neste mundo superior. Somente através de uma ascese e da atividade filosófica é que as Idéias poderiam ser relembradas. O exemplo clássico desta crença é o Mito da Caverna, descrito no livro “A República”. A base de todo o mito é o argumento de Platão, depois incorporado de diversas formas à filosofia pelos pensadores racionalistas, de que existem conceitos que são inatos ao ser humano (como a Razão, o Bem, a Justiça, etc.), os quais precisamos apenas recordar. Um dos grandes argumentos apresentados ao longo da história em favor do inatismo (o fato destes conceitos serem inatos, de já nascermos com eles) era a capacidade de realizarmos operações matemáticas. Segundo os racionalistas, não havia como aprender conceitos e raciocínios matemáticos pela experiência; estes deveriam ser inatos. O mais famoso exemplo desta argumentação é apresentado em um dos diálogos de Platão, no “Menon”. Neste diálogo, Sócrates inicia uma conversa com um jovem escravo, que passava pelo local onde o filósofo confabulava com alguns amigos. Fazendo uma série de perguntas dirigidas, Sócrates consegue que o escravo realize diversos raciocínios matemáticos e geométricos, sem que nunca antes tivesse estudado estas ciências. A historicidade do ocorrido narrado por Platão nunca pôde ser provada. Fato é que com aquela história Platão queria provar que certas idéias matemáticas eram inatas, já que com elas tínhamos tido contato no mundo das Idéias.

Por outro lado sabemos por dados históricos e arqueológicos que a álgebra e a geometria sofreram um lento desenvolvimento, desde a contagem de dias, registrados em ossos há mais de 15.000 anos, até as técnicas desenvolvidas para observação dos astros, construção de canais, medição de terras, construção de templos e comércio, pelas grandes civilizações do Oriente Médio, Ásia e Mesoamérica. Tudo isto – podemos acompanhá-lo por diversos documentos históricos – foi o resultado de um lento aprimoramento de certos conceitos e práticas por força das necessidades econômicas, a princípio bastante simples e elementares. 

Aristóteles (384 a.C.- 322 a. C) discípulo de Platão, tinha uma posição diferente de seu mestre. Defendia que a observação era a atividade básica para poder entender o mundo. Em outras palavras, dizia que dos dados empíricos podiam-se tirar conclusões e destas criar regras que explicassem o funcionamento da Natureza. Com esta maneira de interpretar os dados da experiência, Aristóteles tornou-se o fundador de diversas ciências e um dos maiores representantes do empirismo (na realidade, chamado de realismo). 

Após Aristóteles, a maioria dos filósofos do período helênico seguiria a orientação empirista. Mesmo porque, estas correntes filosóficas eram voltadas para temas práticos, como a ética e a física e pouco para o desenvolvimento de um pensamento mais sutil, como a metafísica. A escola cirenaica, fundada por Aristipo de Cirene (435 a.C. - 356 a.C.), afirmava que só as sensações eram critério de conhecimento. O mesmo ocorria com pequenas variações com os cínicos, escola fundada por Antístenes (444 a.C. - 365 a.C.), e com os estóicos, que tinham em Zenon de Cítium (334 a.C. - 262 a.C.) seu iniciador. Esta última escola filosófica antecipou-se ao pensador inglês John Locke (do qual falaremos adiante) em quase dois mil anos, afirmando que a alma humana não continha qualquer tipo de idéia inata no nascimento, e que todo desenvolvimento posterior era resultado da experiência através dos sentidos. Outra corrente bastante importante e com uma orientação empirista foi o epicurismo, fundado por Epicuro de Samos (341 a.C.-271 a.C.), para quem todo o conhecimento provinha das sensações, causadas pelos átomos. A última escola de pensamento empirista da Antiguidade foi o ceticismo, fundado por Pirro de Elis (360 a.C. - c. 270 a.C.). O último grande representante desta escola foi Sexto, cognominado de “O Empírico” (que também quer dizer médico). Os céticos partiam do pressuposto de que a base do conhecimento eram os sentidos, que, no entanto, não eram dignos de confiança. Sendo assim, afirmavam que nada se poderia conhecer verdadeiramente e que a cada afirmação era possível contrapor uma afirmação contrária.

Durante grande parte da Idade Média, pelo menos até o século XIII, a filosofia dominante teve uma orientação racionalista. Isto se deve principalmente à grande influência exercida pela filosofia neoplatonica (século III d.C.), de Amônio Sacas (175 - 242) e Plotino (205 - 270), sobre vários pensadores dos primeiros séculos da nossa era. Dentre estes filósofos estava Santo Agostinho (354 - 431), que com sua obra moldaria toda a teologia e filosofia medieval até o aparecimento de São Tomás de Aquino (1225 -1274). Os conceitos de Idéias, elaboradas por Platão, foram substituídas por conceitos como Deus, Alma e Bem, conceitos que segundo Agostinho Deus já tinha impregnado na alma do homem e que este descobria ao seguir o cristianismo.

A partir do século XII, com os freqüentes contatos com a cultura árabe, o ocidente cristão toma conhecimento das obras de Aristóteles. Os escritos do filósofo grego, desaparecidos da cultura ocidental por longo tempo, passariam a exercer uma grande influência sobre os teólogos da Igreja. Todavia, chegaram a ser proibidos, para depois adquirirem plena aceitação após terem sido incorporados á filosofia cristã por São Tomás de Aquino. Este pensador não era empirista, mas acreditava que esta tendência filosófica não excluiria a fé. Através dos dados dos sentidos, segundo Tomás, o conhecimento pode abstrair de cada objeto individual a sua essência, sua forma universal. Deus, para Aquino, é cognoscível por meios sensíveis e racionais, Com base nisso, o filósofo propõe as “Cinco Vias”, as cinco sentenças que tentar provar a existência de Deus, baseadas em parte no empirismo e no racionalismo.

Uma importante corrente de pensamento derivada da Escolástica foi o Nominalismo. Seu maior representante, Guilherme de Ockham, argumentava que as idéias abstratas ou universais não correspondiam ao mundo real, sendo apenas conceitos. A partir do Nominalismo registra-se uma dissociação da filosofia e da teologia cada vez maior. Ockham chega a afirmar que através dos meios racionais não se podia provar a existência de Deus. 



Racionalismo e empirismo

“No que se refere à ciência e à filosofia, a síntese medieval culminou com o sistema abrangente de Tomás de Aquino. O racionalismo escolástico estava unido ao misticismo cristão e o conhecimento dos gregos estava amoldado aos ensinamentos da Igreja, formando uma imagem do universo. As causas finais estavam por trás de cada processo da natureza. Uma inteligência divina permeava tudo. E a vontade de Deus, apesar de incompreensível em seus detalhes, proporcionava racionalidade e sentido a todas as coisas”. (Werkmeister, 1940, tradução nossa). O texto do pensador americano Werkmeister proporciona uma clara imagem do paradigma teológico-filosófico que vigorou durante a maior parte da Idade Média. Todavia, o Renascimento inauguraria uma nova mentalidade, uma maneira diferente de enxergar o universo, já bastante influenciada pelo princípio de desenvolvimento das ciências naturais. Um dos primeiros cientistas-filósofos da época (ainda não havia clara distinção entre ambas as ciências), Bernardino Telésio, é um típico representante da nova mentalidade empírico-científica da época. Segundo Höffding, Telésio considerava que mesmo o mais alto e mais perfeito conhecimento simplesmente consistia na habilidade de descobrir atributos e condições desconhecidas do fenômeno, através de suas similaridades com outros casos conhecidos. Ou seja, novas descobertas devem ser feitas empiricamente, baseadas na observação dos fenômenos da natureza, como já ensinava Aristóteles.

É neste ambiente cultural que o empirismo e o racionalismo moderno se desenvolvem. Um dos grandes precursores do empirismo – e por sinal também um dos ideólogos do moderno método científico – foi Francis Bacon (1561-1626). Dizia ele que todo conhecimento tinha que ser baseado em dados da experiência. As informações, no entanto, deveriam ser reunidas e utilizadas de acordo com um método, de modo a possibilitar fazer inferências cientificamente aproveitáveis. 

Os sucessores intelectuais de Bacon foram os empiristas ingleses, dos quais os principais representantes eram Thomas Hobbes (1588-1674), John Locke (1632-1704), George Berkeley (1685-1753) e David Hume (1711-1776). O ponto de partida das investigações destes filósofos não foram os problemas do ser, mas do conhecer. No entanto, enquanto filósofos continentais (os racionalistas) encaram o problema do conhecimento a partir das ciências exatas, os empiristas voltam-se para as ciências experimentais. O próprio ambiente cultural e sócio-econômico da Inglaterra da época coopera para tanto, já que ocorria um grande florescimento das ciências experimentais – botânica, astronomia, química, mecânica, etc. Seguindo a linha de raciocínio das ciências experimentais, o empirismo parte de fatos, eventos constatados pela experiência. Agindo assim, chega à seguinte problemática epistemológica: como, partindo da experiência sensível, é possível chegar às leis universais? A solução encontrada pelos filósofos foi a de que partindo do pressuposto de que todo o conhecimento é originário da experiência, conclui-se que mesmo as idéias abstratas e as leis científicas têm a mesma incerteza, instabilidade e particularidade do conhecimento empírico. A alma (a mente) não possui idéias inatas, como afirmava o racionalista Platão. As impressões, obtidas pela experiência, isto é, pela sensação, percepção e pelo hábito, são direcionadas à memória e desta – através de um processo de associação de idéias, segundo o filósofo Hume – formam-se os pensamentos. O próprio hábito de associar idéias, pela diferenças ou semelhanças, forma a razão, ainda segundo Hume. A mais famosa tese do empirismo, desenvolvida por John Locke, é a da tabula rasa. Com este conceito o filósofo queria dizer que ao nascermos não temos nenhum princípio ou idéia inata e tudo que aprendemos e processamos em nossa mente provêm das experiências feitas durante a vida. 

A escola racionalista, inaugurada por René Descartes (1596-1650), tem um posicionamento diferente em relação à maneira como é adquirido o conhecimento. Vivendo em um ambiente diferente dos empiristas, assolado por guerras (Guerra dos 30 anos de 1618 a 1648) e perseguições religiosas (Massacre de São Bartolomeu em 1572), os filósofos racionalistas foram mais apegados a conceitos imutáveis, como os das ciências teóricas (matemática e geometria). Para os filósofos racionalistas, cujos representantes principais foram Descartes, Nicolas Malebranche (1638-1715), Baruch Espinosa (1632-1677) e Leibniz (1646-1716), é necessário descobrir uma metodologia de investigação filosófica sobre a qual se pudesse construir todo o conhecimento. A resposta a esta questão, encontrada por Descartes, foi que o conhecimento válido não provem da experiência, mas encontra-se inato na alma. Em relação ao método para atingir este conhecimento, o filósofo francês propõe colocar em dúvida qualquer conhecimento que não seja claro e distinto. Este conhecimento pode ser obtido através da análise racional, com a qual é possível apreender a natureza verdadeira e imutável das coisas. Trata-se, de certa forma, de uma reedição do platonismo, possibilitando a metafísica e a aceitação de uma moral baseada em princípios tidos como racionais e universalmente válidos. 



A solução de Kant 

A dicotomia entre racionalismo e empirismo perpassa toda a filosofia dos séculos XVII e XVIII. A possibilidade do conhecimento efetivo e absoluto, afirmado pelos racionalistas e negado pelos empiristas é estudada detalhadamente pelo filósofo Immanuel Kant (1724-1804). Este teve sua atenção despertada para o problema do conhecimento após ler a obra do empirista Hume, que, segundo o próprio Kant, o acordou do “sonho dogmático”. A solução para a oposição entre o racionalismo e o empirismo foi chamada por ele mesmo de “Revolução copernicana da filosofia”, numa referência à revolução paradigmática feita por Copérnico na astronomia, que mudou nossa visão do mundo e de sua posição no universo. 

De certo modo, Kant tentou provar que tanto os inatistas (os racionalistas, que consideravam certas idéias inatas na alma) quanto os empiristas estavam errados. Ou seja, os conteúdos do conhecimento não eram inatos nem eram adquiridos pela experiência. Kant postula que a razão é inata, mas é uma estrutura vazia e sem conteúdo, que não depende da experiência para existir. A razão fornece a forma do conhecimento e a matéria é fornecida pelo conhecimento. Desta maneira, a estrutura da razão é inata e universal, enquanto os conteúdos são empíricos, obtidos pela experiência. Baseado nestes pressupostos, Kant afirma que o conhecimento é racional e verdadeiro. 

Todavia, segundo o filósofo, não podemos conhecer a realidade das coisas e do mundo, o que ele chamou de noumeno, “a coisa em si”. A razão humana só pode conhecer aquilo que recebeu as formas (cor, tamanho, etc.) e as categorias (elementos que organizam o conhecimento) do sujeito do conhecimento, isto é, de cada um de nós. A realidade, portanto, não está nas coisas (já que não as podemos conhecer em última análise), mas em nós. Assim, vemos o mundo “filtrado e processado” pela nossa razão, depois que as percepções passaram pelas categorias. 

Efetivamente, depois de Kant a Teoria do Conhecimento tomou um rumo bastante diverso daquele do racionalismo e empirismo originais. A solução dada ao tema pelo filósofo de Königsberg não eliminou as discussões, mas deu-lhes uma profundidade muito maior. 



Bibliografia 

BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro: 1997, 437 p. 

HESSEN, Johannes. Teoria do Conhecimento. Martins Fontes. São Paulo: 2003, 173 p. 

HÖFFDING, Harold. A brief history of modern philosophy (Uma breve história da filosofia moderna). The MacMillan Company. New York: 1935, 324 p. 

MONDIN, B. Introdução à filosofia. Edições Paulinas. São Paulo: 1980: 272 p. 

WERKMEISTER, W.H. A philosophy of science (Uma filosofia da ciência). Harper & Bros. Publishers. New York: 1940, 551 p.

(Imagens: pinturas de Reiji Hiramatsu)

A política da prevenção

sábado, 12 de janeiro de 2019
"[...] não existe qualquer ser ou classe individual de seres que sejam chamados de 'causas' que são fundamentalmente de modo metafísico ou real diferentes dos outros seres ou classes individuais de seres que sejam reconhecidos como 'efeitos.'"   -   Stephen J. Laumarkis   -   Uma introdução à filosofia budista


No Brasil é conhecido aquele ditado: “depois de estar arrombada a porta, coloca-se a tranca”. A frase é famosa, porque é desta forma que efetivamente as coisas ocorrem. Nossas práticas culturais em grande parte ainda funcionam desta maneira. Ao invés de prevermos eventuais dificuldades que poderemos enfrentar no futuro – e assim tomar medidas de prevenção dos problemas –, geralmente agimos como se nunca algo de desastroso fosse ocorrer. Por causa desta visão simplista, preguiçosa e irresponsável ocorre todo tipo de acidente, como o estouro da barragem de resíduos de mineração em Mariana (2015), o fogo na boate Kiss em Santa Maria (2013), incêndios como o dos edifícios Andraus (1972) e Joelma (1974), em São Paulo; explosões como a que aconteceu em um restaurante no centro Rio de Janeiro (2011), os naufrágios de barcos que a cada ano ocorrem na região amazônica, além dos milhares de mortos em acidentes automobilísticos. Tragédias que refletem falta de previsão do que possa acontecer; ausência de medidas preventivas como a manutenção de equipamentos e o efetivo controle das autoridades responsáveis, a fim de evitar mortes e prejuízos materiais.

A raiz desta atitude está provavelmente em nossas origens históricas de país tardiamente industrializado, com órgãos de controle ainda pouco preparados. A incorporação de normas de qualidade, manutenção preventiva e controle de processos; a formação de uma mentalidade voltada para a prevenção de acidentes e prejuízos; são itens de uma cultura ainda pouco disseminada no País. Os órgãos públicos incumbidos do controle ou da manutenção de serviços essenciais – como fornecimento de energia, água, segurança, saúde e transporte, etc., – também não dispõem de tradição de conhecimentos nesta área, com raras exceções. Mesmo entre os consumidores, a idéia da checagem periódica do estado de seus automóveis, instalação elétrica das residências, por exemplo, é prática bastante recente.

No mundo industrializado já é parte da cultura empresarial e governamental a prevenção de falhas e acidentes, ou qualquer outro tipo de ocorrência que poderia, desde que detectada com antecedência, ser evitada. Isto porque a maior parte das atividades humanas envolvendo o uso de tecnologia – seja na forma de conhecimento ou equipamentos – pode ser acompanhada através de processos de checagem e verificação, identificando o mau funcionamento do sistema, a incipiente capacitação de funcionários, a quebra do equipamento e prevendo as eventuais conseqüências do problema detectado. Em setores de infraestrutura, onde a correção de qualquer falha estrutural geralmente necessita de tempo, como o fornecimento de eletricidade, gás, água e tratamento de esgoto, as verificações e correções precisam ser realizadas com grande antecedência.

Pior ainda quando o problema é extremamente complexo, envolvendo a falta de chuvas ou insuficiente capacidade de geração de eletricidade – aspectos que precisam ser acompanhados desde o início, com providências que possam minorar a gravidade do problema, através de um conjunto de intervenções. No caso das crises energética ou hídrica – às quais estaremos cada vez mais sujeitos por força das mudanças climáticas – o governo precisaria priorizar a introdução de programas de eficiência energética e hídrica, envolvendo o setor da indústria, da construção civil da agricultura e o consumidor final, entre outros.

Dado o desenvolvimento do País, já é hora de atuarmos de uma maneira mais sistêmica, avaliando as consequencias de nossos programas e projetos, planejando melhor o futuro.


(Imagens: pinturas de Ilya Repin)  

Anti-intelectualismo?

sábado, 5 de janeiro de 2019
"Que coisa mais triste, tudo é tão triste - a gente passa a vida inteira feito bobo pra depois morrer que nem besta.“ - Charles Bukowski


Acompanhando manifestações aqui e ali, seja na imprensa, em programas de TV, nas conversas de rua, de supostos intelectuais e até de futuros membros do governo recentemente eleito, percebe-se uma crescente aversão a tudo que seja intelectualmente mais elaborado. Não que isso seja um fenômeno geral, mas esta oposição ao que não se compreende ou não se quer compreender porque é de difícil entendimento, parece estar aumentando no Brasil. 

São várias as razões que levam parte considerável da população a pensar desta maneira. Abaixo tentarei listar algumas: 

- O decrescente nível da educação - pública e também privada - no país, tem propiciado um certo distanciamento do cidadão médio da dita alta cultura. Foram-se os tempos em que nas escolas era ensinada a cultura clássica (grega e latina) e línguas como o latim e o francês. Até há pouco tempo o ensino da filosofia e sociologia era desincentivado, para posteriormente se tornar obrigatório e, recentemente, tornar-se facultativo. Com isso, o nível médio da educação e da cultura geral, acabou piorando. 

- Outro motivo é o tradicional encastelamento dos intelectuais, da grande maioria das pessoas que produzem conhecimentos, em suas torres de marfim - notadamente certas "figurinhas carimbadas" do setor acadêmico brasileiro. Ainda são raras as iniciativas de uma aproximação dos detentores de um certo saber - saber este que confere um prestígio social ao seu proprietário - do povo e de seus movimentos. 

- A diminuta oferta de aparelhos culturais; como museus, bibliotecas, centros culturais, teatros, salas de concerto, enfim, locais onde o povo possa tomar contato que a cultura produzida por todos as outras nações ao longo da história. Isto sem falar no baixo nível da mídia impressa em geral, nos últimos trinta anos. 

- Aliado a estes fatos, não necessariamente os principais, temos também o pouco incentivo que historicamente a cultura e o conhecimento receberam por parte do Estado. Todos os governos, sem exceção, apoiaram a educação e, principalmente a cultura, para satisfazer pressões de grupos que os apoiavam. O conhecimento, em raríssimas ocasiões, fez (e faz) parte da agenda dos governos. 

Este é assim o ambiente propício, do qual até formadores de opinião se aproveitam - sem falar de muitos políticos - para muitas vezes associar cultura e conhecimento elaborado, com discurso enganador, obtuso e até mentiroso. Forma-se a ideia, incentivada por muitos, de que os intelectuais e suas produções estão longe do povo; falam o que não é importante e têm ideias que não coadunam com a realidade, que muitas vezes são imorais. 

Criam-se condições para que, como no passado, as críticas ao status quo sejam taxadas de sabotagem, tentativa de iludir o povo, e assim por diante. Situação propícia para calar opositores e todos aqueles que, de uma forma ou outra, enxergam um horizonte um pouco mais amplo - seja na política ou na cultura - e que com suas manifestações possam colocar em cheque privilégios de grupos. Em suma, cria-se um ambiente cultural de conservadorismo retrógrado que aliena o país da cultura moderna ocidental. (Seria esta cultura mais uma manifestação de um “globalismo esquerdista”, como disse em outras circunstâncias uma futura autoridade do próximo governo?) 

(Imagens: pinturas de Stuart Davis) 


Dona Nena

sábado, 29 de dezembro de 2018

"A página branca indicará o discurso
  Ou a supressão do discurso?"

Murilo Mendes   -   Antologia poética 


(publicado originalmente na coletânea “Rosa do abismo” da Academia Peruibense de Letras)


Ela vivia sozinha numa casa de madeira, sem pintura, no final de um caminho de areia grossa e amarelada, ladeado pelos enferrujados postes do telégrafo, onde mais tarde seria o início da avenida Anchieta. O terreno, sem cerca, era tomado por goiabeiras, cajueiros, chapéus de sol, e compartilhado por galinhas, alguns gatos e três cachorros. De lá, caminhava-se uns quinze minutos para chegar ao centro da vila de Peruíbe.

Mesmo afastada do convívio da vila, dona Nena era conhecida no núcleo de ruas em torno da praça e da pequena igreja. Na modesta vila de pescadores, relativamente isolada, com pouca comunicação com os grandes centros, a velha senhora despertava curiosidade e um certo temor.

Ninguém conhecia as origens de dona Nena. Os antigos lembravam que quando eram jovens ela já tinha certa idade, e sempre vivera ali naquela casa isolada, perto da praia e junto ao rio Preto. Gentil mas reservada, a velha não tinha amigos e pouco falava com as pessoas.

Participava da missa nas manhãs de domingo, mas, quieta e pensativa, voltava para casa logo após a bênção final. Havia, mas ninguém sabia exatamente o quê, algo de misterioso nessa senhora.

Entre os peruibenses de então, principalmente os mais velhos, circulavam muitas histórias sobre ela. O velho Vital, pescador aposentado, comentava que conhecia “a velha Nena” desde a infância, e que nunca a havia visto de aparência mais jovem. Tinha certeza, dizia, que a velha seria uma bruxa e, ali em Peruíbe, teria descoberto uma erva que lhe adiava a morte. A vizinha de Vital, dona Mocinha, cujos antepassados eram caiçaras e guaranis que sempre haviam vivido na região, dizia que a velha seria uma feiticeira; que devia ter algum pacto com a morte e com o mundo do além.


De fato, o comportamento de dona Nena causava muita estranheza entre aquelas pessoas simples. Nos dias frios e úmidos de outono, quando a forte garoa e o vento sudeste mantinham todos em casa à volta dos fogões à lenha, a velha senhora havia sido vista diversas vezes, coberta por grosso casaco, caminhando na praia gesticulando e como que conversando com alguém. A mesma cena foi testemunhada em três outras ocasiões, exatamente às vésperas dos naufrágios de pequenos barcos de pesca, nos quais morrem pescadores da vila. Houve até quem dissesse ter observado, ao anoitecer, escondido na alta vegetação que existia perto da praia, dona Nena falando com dois vultos, que depois de abraçarem a velha, caminharam em direção às ondas e desapareceram no mar.

Certo dia, assim disseram os moradores, dona Nena desapareceu da cidade, junto com seus animais. Sobrou apenas a casa vazia, que foi se degradando até por fim ser demolida. Das árvores, uma ou outra ainda continua ali até hoje. Dizem as más línguas que a velha tivera uma visão de como a cidade se transformaria, e que por isso teria resolvido ir para outras paragens.

Num desses dias de garoa e vento, passando pela praia ao anoitecer, tive a impressão de ter visto o vulto recurvado de uma velha, caminhando para a água e por fim desaparecer no mar. Mas acho que foi só impressão.

(Imagens: pinturas de Andrew Whyte)

O mercado brasileiro de energias renováveis

sábado, 22 de dezembro de 2018
"A ambição não diminui com a idade. Apenas perde a memória do objetivo."   -   Millôr Fernandes   -   A Bíblia do caos


Cerca de 60% da energia elétrica no Brasil é de origem renovável, gerada por hidrelétricas. A partir de 2002, depois de uma estiagem que reduziu drasticamente o nível dos reservatórios das hidrelétricas, o governo deu início a um programa de investimentos em energias renováveis, o PROINFA. Este programa, apesar de não ter tido grande êxito, ajudou a atrair a atenção de investidores e fabricantes de equipamentos para o grande potencial do mercado brasileiros de energias renováveis.

Em 2017 foram investidos US$ 6,2 bilhões em energias renováveis (10% de crescimento em relação a 2016 e não incluindo as hidrelétricas). Segundo especialistas, a tendência é que em 2018 os números do mercado sejam bastante parecidos aos de 2017, já que o mercado de energia eólica continuou em crescimento e o mercado de energia solar fotovoltaica apresenta gradual crescimento. Somente o setor de energia eólica sozinho, tem planos de investir US$ 20 bilhões até 2020. Este volume de investimentos coloca o Brasil entre os oito maiores investidores em energia renovável, junto com a Alemanha, China, Estados Unidos, Índia, entre outros.

Em 2015, ano de realização da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP-21), a matriz energética brasileira já tinha um índice de energia renovável de quase 30%, sem incluir neste cálculo as hidrelétricas. A meta do governo, acordada na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP-21), é chegar aos 45% até 2030. O governo vem se preparando para isso, realizando leilões de compra de energia renovável - eólica, biomassa, solar, pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) - desde 2007, tendo realizado 28 leilões entre dezembro de 2007 e novembro de 2015. 

Além dos leilões o governo dispõe de outros instrumentos para fomentar o mercado das energias eólicas. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) oferece linhas de financiamento para todas as energias renováveis, a juros mais baixos e prazos mais longos, do que usualmente oferecidos pelos bancos privados no mercado. Para obter tais financiamentos, é preciso que a empresa esteja estabelecida no Brasil, cadastrada junto ao BNDES e atenda regras de conteúdo local (local content) de 60%. Em muitos casos este critério é mais seletivo, dependendo de quais componentes do equipamento são de fabricação local (a ideia por trás deste financiamento é fazer com que cada vez mais componentes de alto valor agregado sejam fabricados localmente). Outro tipo de financiamento, criado em 2013, é o programa INNOVA ENERGIA, que subsidia até 90% dos custos dos projetos de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) nas áreas de smart grids, energias renováveis, veículos híbridos e eficiência energética nos transportes.

Em dezembro de 2015 o Ministério das Minas e Energia (MME) lançou o Programa de Geração de Energia Distribuída (ProGD) um plano de estímulo, para atrair investimentos para o setor de energia solar. Através de iniciativas dos governos estaduais, do MME, de órgãos ligados ao ministério, de parcerias com o setor privado e financiamentos do BNDES e Banco do Brasil, o MME pretende direcionar R$ 100 bilhões em investimentos para o setor de energia fotovoltaica até 2030.  

Além dos financiamentos, o governo também criou isenção de taxas e incentivos fiscais para impulsionar este mercado. As leis 9648/98; 10438/2002; 10762/2003; 11488/2007 e 13097/2015 garantem descontos de pelo menos 50% nas tarifas de transmissão e distribuição de energias renováveis para projetos entre 1 MW e 30 MW.

Para as energias renováveis também existe isenção de imposto de importação e ICMS. O Decreto 7660 fixa o imposto de importação para equipamentos relacionados com a energia eólica entre 2% e 10%. Em 2015 a Lei 13097 aprovou isenção de imposto de importação para componentes de turbinas eólicas. Até 2021 todos os equipamentos relacionados com a energia eólica e solar estão isentos do pagamento do ICMS.

O mercado brasileiro de energia renovável, apesar da crise econômica que afeta o restante da economia, é um dos poucos mercados em crescimento. Empresas preveem que depois da crise a economia voltará a crescer em um ritmo mais acelerado, o que aumentará a demanda por eletricidade. Outro aspecto é que devido à grande disponibilidade de recursos naturais - vento, sol, biomassa - a geração de energia renovável no Brasil é mais barata, a partir do ponto em que as empresas alcançam ganho de escala. O aprimoramento da tecnologia e da engenharia financeira (financial engineering) fizeram com que os custos caíssem ao longo dos anos. Exemplo disso é o custo da energia eólica, cujo preço de contratação era de R$ 374,00/MWh em 2002, passando para cerca de R$ 181,00 em 2015.  
Tais fatores fizeram com que grande grupos empresariais nacionais e empresas estrangeiras passassem a investir neste mercado. Uma lista completa das empresas atuando no setor de energia eólica encontra-se em http://www.portalabeeolica.org.br/index.php/associados.html. As principais empresas do setor de energia solar estão em: http://www.absolar.org.br/associado. O segmento da biomassa é bastante pulverizado, mas muitas informações podem ser obtidas no site: http://www.biomassabr.com/bio/resultadonoticias.asp?id=2879.

O mercado brasileiro de energias renováveis está em desenvolvimento e com isso demanda novas tecnologias. Apesar de muitas empresas estarem já presentes neste mercado, existem oportunidades para empresas especializadas em projetos de médio e pequeno porte; que fazem parte da estratégia futura do governo brasileiro. O setor de equipamentos também tem muitas oportunidades para fabricantes com know-how específico, além dos setores de consultoria e de formação de mão de obra especializada.

(Imagens: pinturas de Ivan Shishkin)

Florestas, biodiversidade e pobreza

sábado, 15 de dezembro de 2018
"Políticos só podem ser levados a sério pelo mal que podem causar; nunca pelo bem que dizem poder fazer."   -   Ricardo Ernesto Rose   -   Considerações oportunas 

A maior parte das áreas de grande diversidade biológica está localizada em florestas e savanas das regiões tropicais. Não por acaso, estes extensos territórios com alta concentração de biodiversidade, estão situados em países onde por fatores históricos, geográficos e econômicos, estas riquezas naturais ficaram relativamente conservadas até as últimas décadas. O difícil acesso e o diminuto interesse econômico que estas regiões despertavam, fez com que se conservassem quase intactos muitos de seus ecossistemas ao longo da evolução da vida na Terra.  

Este quadro quase idílico, no entanto, começou a mudar depois da Segunda Grande Guerra. A expansão do capitalismo industrial para todos os continentes habitáveis do planeta, incorporou estes países – muitos deles recentemente criados – como consumidores de produtos e supridores de matéria de matérias primas, ao sistema econômico mundial. Crescia a atividade econômica, chegavam os avanços da moderna medicina, como a vacinação e o saneamento, e assim aumentavam os índices de natalidade. Com mais pessoas a serem alimentadas, a agricultura precisava avançar sobre territórios inexplorados, cobertos por florestas e savanas, onde a biodiversidade ainda era alta.

Começava assim a destruição das áreas remanescentes de biomas e ecossistemas originais, em áreas tropicais. O processo teve início na década de 1950 e se estende até os dias atuais. Ao longo desses sessenta anos, vastas extensões de floresta foram destruídas, na maior parte dos países da Ásia, África e América Latina. Estima-se que em 1800 a área de florestas tropicais era de cerca de 16 milhões de quilômetros quadrados em todo o planeta. Em 2010 estimava-se que menos da metade dessa área permanecia como floresta intocada, e cerca de um outro quarto sobrevivia como floresta fragmentada e degradada (Jornal da Unicamp de 7/08/2017).

Segundo o professor Luiz Marques, livre-docente do departamento de História da IFCH/Unicamp, as florestas tropicais são o lar de 80% de todas as espécies terrestres. Ainda segundo o professor, haveria entre 40 mil e 50 mil espécies diferentes de árvores nas florestas tropicais da Ásia, África e América do Sul. Segundo o docente, dados coletados por satélites em todo o mundo entre 1990 e 2010, mostram um aumento no desflorestamento de 62% na primeira década do milênio. No Brasil o processo de derrubada da floresta vinha diminuindo nos últimos dez anos, mas apresentou considerável crescimento, notadamente no período 2017-2018.

Uma rede de 120 cientistas de diversas especialidades e regiões do Brasil elaborou recentemente o Primeiro Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossitêmicos. O trabalho identificou que 40% da cobertura florestal brasileira está concentrada em 400 municípios, nos quais vivem 13% da população mais economicamente carente do país. Estes municípios localizam-se principalmente na região Norte e em parte menor no Centro-Oeste. Estas áreas, apesar de ainda possuírem cobertura vegetal original considerável, apresentam índices de desenvolvimento humano (IDH) bastante baixos.

O baixo desenvolvimento econômico e social nessas regiões, classificado pelo relatório como “pobreza verde”, representa uma ameaça à conservação da floresta. A falta de perspectivas de sobrevivência, aliada à ausência de quase todos os serviços oferecidos pelo Estado, faz com que a população se volte para o aproveitamento da única riqueza imediatamente mais disponível: a floresta. Começa assim o ciclo de degradação, que se inicia pela retirada da madeira com algum valor comercial. Em seguida ocorre a derrubada e queima da vegetação, seguida pela agricultura de sobrevivência e pela criação de gado. O solo, que na maior parte da região é pobre, em poucos anos se torna degradado, não sendo mais indicado para a agricultura ou criação de animais.

Ao final deste processo, que pode durar alguns anos, a população não tem mais possibilidade de exercer nenhuma atividade econômica baseada na terra, que está esgotada. O passo seguinte é abandonar a região e dirigir-se para outras áreas ainda inexploradas ou se estabelecer na periferia das pequenas cidades da região. A falta de infraestrutura de saneamento, assistência médica e educação, faz com que este processo, do uso incorreto da floresta até a fixação na cidade, aumente a pobreza e o atraso nestas regiões.

Outro aspecto é que geralmente a exploração da floresta e sua substituição pela pecuária, não gera benefícios econômicos consideráveis para a região e seus habitantes. A maior parte dos recursos auferidos pelo comércio de madeira e do gado é recebido pelo dono (ou grileiro) da terra e do gado. Os impostos, quando devidamente pagos, pouco beneficiam as prefeituras e, indiretamente, a população local. Findo o processo de derrubada da floresta e exaurimento da terra, nada sobra para a região.

Para beneficiar econômica e socialmente estas regiões e suas populações, o relatório propõe uma série de iniciativas baseadas na manutenção da vegetação e a criação de cadeias de produção, com a utilização dos recursos naturais da floresta. “A mensagem principal do diagnóstico é que biodiversidade e serviços ecossistêmicos não podem ser vistos como obstáculos ao progresso”, diz o biólogo Carlos A. Joly, professor de ecologia da Universidade de Campinas e um dos especialistas que participaram na elaboração do documento, em declaração ao jornal Valor.

Os países em cujos territórios ainda sobrevivem florestas originais, ainda têm alguns anos para mudar a maneira como vêm utilizando – e destruindo – suas reservas vegetais. Além de repositório de grande biodiversidade e fonte de matérias primas e produtos naturais, estas (ainda) extensas áreas têm um importante papel no equilíbrio do clima do planeta. Seja como grandes sistemas que distribuem considerável parte das chuvas e da umidade, ou como sumidouro de imensos volumes de carbono. Se este gigante processo for afetado consideravelmente pelas atividades humanas, o clima da Terra sofrerá alterações ainda mais rápidas e drásticas. 

(Imagens: desenhos do arquiteto Tadao Ando)            

Cresce a preocupação com o clima da Terra

sábado, 8 de dezembro de 2018

"Não é descabido, nem em sociologia nem em psicologia social, considerar-se o fato de que não há uma sociedade ou cultura humana da qual esteja ausente a preocupação dos vivos com os mortos."   -   Gilberto Freyre   -   Assombrações do Recife velho



Há alguns anos escrevi um artigo sobre a teoria das mudanças climáticas, no qual comparava a atitude de nossa civilização à do fumante em relação ao cigarro. Este sabe que o fumo faz mal à sua saúde e que, mais cedo o mais tarde, terá que abandonar o vício. A grande maioria dos dependentes consegue largar o vício ao longo da vida, com menores ou maiores prejuízos para a saúde. Alguns, no entanto, por diversas razões, não querem ou não conseguem abandonar o mal hábito e acabam falecendo, direta ou indiretamente por complicações causadas pelo cigarro.

Este comportamento, o dos relutantes em deixar o tabaco, parece ser o de nossa civilização pós-industrial, em relação às práticas que estão contribuindo para o aumento de emissões e, consequentemente, da temperatura da atmosfera terrestre. Sabemos, ou pelo menos dispomos de fortes indícios, de que nossas atividades econômicas em seus constituintes – a extração, a produção, a distribuição, o consumo e o descarte – contribuem fortemente para o aquecimento da atmosfera e dos mares. Sabemos, mas mesmo assim pouco ou quase nada fazemos para reduzir este impacto.

Existem ainda aqueles que negam a existência das mudanças climáticas ou sua origem antrópica. O fenômeno, caso efetivamente exista, é para eles parte de um processo cíclico – os períodos glaciais e interglaciais – pelo qual regularmente passou o planeta nos últimos 30 milhões de anos e relacionado com a mudança do eixo da Terra. No entanto, dizem os cientistas favoráveis à teoria da origem antrópica do aquecimento global, há apenas cinco chances em 1 milhão, de que o fenômeno esteja ocorrendo de forma natural, sem interferência humana.

Outro aspecto é que a ideologia dos indivíduos também influencia sua opinião em relação às mudanças climáticas. Através do site Amazon Mechanic Turk foi recentemente realizada uma pesquisa nos Estados Unidos. Dividiram-se 2.400 participantes em dois grupos com igual número de integrantes; um formado por pessoas politicamente conservadoras e outro por progressistas. Os participantes tinham que prever a direção da curva de um gráfico, que mostrava a evolução do degelo nos polos. Os conservadores opinaram que a tendência da curva seria para baixo, com queda no degelo, enquanto que os progressistas estimaram que a curva mostraria crescimento, ou seja, aumento do degelo. Uma das explicações do resultado da pesquisa, dada pelos organizadores, é de que pessoas conservadoras refletem a noção de que para diminuir a emissão de gases, a atividade econômica deverá sofrerá impedimentos.

A pesquisa também concluiu que a comunicação em um contexto social polarizado, como as redes sociais, acaba por fortalecer posições de grupo, contra ou a favor de certo tema. Ainda sobre a influência da ideologia nestas questões, declarou em entrevista à BBC o pesquisador Chris Rapley, da University College London: “Em uma época de populismo de direita generalizado, junto com a rejeição das mensagens que partem das chamadas ‘elites cosmopolitas’ e a negação das mudanças climáticas como uma questão séria, a probabilidade de que uma combinação de fatores necessária para que a humanidade leve o planeta rumo a um ‘estado intermediário aceitável’ é próxima a zero.”  
   
Fato é que temos informações e dados suficientes, resultado de pesquisas de centenas de instituições por todo o mundo, apresentando evidências da influência do homem no clima da Terra. No entanto, organizam-se encontros periódicos de cientistas, a ONU promove fóruns reunindo representantes de todas as nações do planeta, e, apesar dessas iniciativas, os avanços na redução das emissões continuam pífios. Sim, porque é disso que se trata: reduzir as emissões de gases que causam o efeito estufa, principalmente o dióxido de carbono (CO²) e o metano (CH4); fenômeno que provoca o aumento da temperatura média do planeta, com todas as suas consequências. Estas já são por demais conhecidas, divulgadas por todas as mídias: derretimento das geleiras, aumento gradual do nível dos oceanos, aumento da quantidade e da força das tempestades tropicais, chuvas torrenciais, secas prolongadas, ondas de calor – além dos impactos sociais e econômicos destes eventos.

Mesmo com tudo isso são mínimas, até agora, as iniciativas de redução das emissões. Continuamos, assim como o fumante, pensando que ainda temos tempo e que os efeitos danosos de nosso comportamento se farão sentir – se o fizerem – somente em um futuro quase remoto, quando já tivermos mudado nossa maneira de produzir e consumir. Países, políticos, empresas e consumidores, em sua grande maioria, sabem do perigo que corremos, mas não querem ou não podem implantar mudanças a curto prazo. Essa foi, até o momento, a atitude da maior parte dos agentes envolvidos com o tema.

Mas os dados e as informações preocupantes chegam a um ritmo cada vez mais rápido. O Fundo Mundial para a Natureza (WWF em inglês) divulgou em outubro de 2018 uma pesquisa na qual informa, entre outras coisas, que a velocidade com a qual as espécies estão desaparecendo é de 100 a 1000 vezes mais rápida do que era antes das atividades humanas alterarem significativamente o planeta, ou seja, antes do século XIX. O mesmo estudo dá conta de que houve um acentuado declínio nas populações de espécies vertebradas, da ordem de 60% em todo o mundo entre 1970 e 2018. Para se recuperar sozinha deste impacto na biodiversidade, a natureza demandaria de um período de cerca de 6 milhões de anos.

Como resultado deste crescente impacto a WWF prevê em seu estudo que, a continuar com este ritmo de degradação dos recursos naturais, até 2050 as atividades humanas terão afetado 90% de toda a remanescente área natural do planeta. Na prática, já estamos caminhando nessa direção; a Floresta Amazônica foi destruída em 20% e o Cerrado brasileiro em 50%, no período entre 1970 e 2018.

Outro aspecto dessa processo de alteração do planeta é o fenômeno recentemente batizado de “Terra Estufa”. Novas pesquisas têm indicado que a partir de um certo ponto do processo de acúmulo de CO² na atmosfera terrestre, pode ocorrer um descontrole. Nesta situação a temperatura média do planeta, que já se encontra 1ºC acima dos níveis pré-industriais e mantêm aumento de cerca de 0,17ºC a cada década, poderia se elevar de tal maneira, alcançando em poucos séculos os patamares mais altos já registrados nos últimos 1,2 milhão de anos. Os cientistas dizem que estamos subestimando o poder e a sensibilidade dos sistemas naturais. Em entrevista à BBC News o pesquisador do instituto de pesquisas Stockholm Resilience Centre, da Suécia, Johan Rockström declarou: “Nós estamos no controle agora, mas se ultrapassarmos os 2º C (de aumento de temperatura da atmosfera) veremos o sistema Terra deixar de ser amigo para se tornar inimigo – colocaremos nosso destino nas mãos de um sistema planetário que está começando a se desequilibrar.”

Em início de outubro de 2018, representantes de 130 nações e mais de 50 cientistas de diversas áreas se reuniram em Incheon, na Coréia do Sul, para prepararem um relatório, discutindo as chances do planeta em manter a mudança climática sob controle. Um dos principais objetivos deste trabalho é apontar o quanto os países desconsideraram a questão nos últimos anos e deixaram de cumprir metas acordadas no Acordo de Paris (2015), a fim de conter o aumento da temperatura média do planeta em 1,5º C. Foi consenso geral entre os participantes de que para alcançar o objetivo deverá ocorrer uma reorientação monumental da economia mundial em direção à descarbonização. Assim, em 2030 as emissões mundiais precisarão apresentar uma queda de cerca de 40% em relação a 2010. Em meados do século XXI as emissões deverão ser de praticamente zero.

Entre outras coisas tais objetivos significariam a eliminação completa dos veículos movidos a combustível fóssil, a abolição do carvão mineral nas usinas termelétricas e o uso de biocombustível em aviões. Países onde a agropecuária e o desmatamento são os maiores responsáveis pelas emissões de CO² e metano, caso do Brasil, teriam que reduzir suas taxas de emissões nestas áreas para valores bem próximos a zero. A situação é difícil e, segundo José Marengo, climatologista do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden) disse em declaração ao jornal Folha de São Paulo, “os tomadores de decisão querem ser o mais realistas o possível, mas sem ser muito negativos para não gerar pânico na população e nos mercados.”

No Brasil, especificamente, caso a temperatura média da atmosfera aumente em 2º C, as mudanças do clima poderão reduzir ainda mais a precipitação pluvial no Nordeste, diminuindo o volume de água no rio São Francisco e o potencial de geração de eletricidade. O rio Amazonas também poderá perder até 25% de seu volume de água, o que representaria um grande impacto para a biodiversidade da região e a população local. Na agricultura os efeitos também seriam adversos. A produção de milho cairá se a temperatura estiver acima de 35º C e o limite da soja é de 39º C. Ainda não existem estudos detalhados sobre outras regiões do pais, como por exemplo o interior do estado de São Paulo, um dos maiores polos econômicos do Brasil, que recentemente já enfrentou um longo período de estiagem.

Permanece, no entanto, a dúvida. Será desta vez que os governantes, empresários e consumidores efetivamente passarão a se preocupar e ocupar com a questão do clima? É este o comportamento que estaremos vendo, seja na comunidade internacional ou em nosso país? Ou será que devemos partilhar do pessimismo velado da maioria dos especialistas, que já fazem um cômputo do custo social e econômico dos impactos que nos aguardam num futuro próximo? Assim como o fumante inveterado, provavelmente acabaremos vítimas de nosso próprio descuido – neste caso com a saúde do planeta e de nossa civilização. 

(Imagens: poesia concreta de Augusto de Campos)

  
            

Como percebemos o mundo

sábado, 1 de dezembro de 2018
"Por que este riso, por que esta alegria, quando tudo ao redor está ardendo? Envoltos pela trevas, uma luz não buscareis?"   -   Dhammapada


(publicado originalmente no site Web Artigos)

Quem é que não se emociona, ou pelo menos fica admirado com uma bela paisagem natural? O pôr do sol em uma tarde de outono, o céu estrelado à noite ou cheio de nuvens, à beira mar. Montanhas cobertas por florestas em meio à neblina, a imensidão de um deserto, um lago congelado... A natureza, não importa a paisagem, desde que inusitada, atrai nossa atenção e admiração; espanto e arrebatamento. Desperta em nós um misto de emoções influenciadas por nosso condicionamento cultural e lembranças individuais.

Interessante observar como nosso modo de perceber uma paisagem é bastante influenciado pelas experiências que tivemos ao longo de nossa vida. No entanto, este aspecto quase não é mais percebido em nossa civilização do século XXI, na qual a fotografia e o cinema, a TV e a internet tornaram comuns para qualquer pessoa – mesmo para aquela que nunca tenha saído de sua pequena cidade do interior – as paisagens mais distantes e diferentes. Todavia, há relatos sobre nativos africanos, que levados pelos europeus para montanhas, não sabiam num primeiro instante como interpretar a perspectiva inédita através da qual estavam enxergando a paisagem abaixo, que sempre havia habitado. O mesmo ocorre ainda modernamente – apesar da quantidade de informações de que dispomos –, quando alguém embarca em avião pela primeira vez e observa a paisagem de cima.

Pelo que se sabe até hoje, somos a única espécie de animal que tem esta capacidade de contemplar paisagens ou fenômenos naturais, de lhes dedicar atenção e sentir outras emoções, além do medo. Várias espécies de mamíferos, aves e até répteis temem os clarões dos raios e o ribombar dos trovões, a beira dos precipícios ou a escuridão, por causa de seu instinto de preservação. O animal percebe em seu íntimo que aquela situação está ligada ao perigo.

O sentimento de espanto ou estranheza perante uma paisagem, cena ou fenômeno natural incomum, deve ter contribuído para despertar em nossa espécie os sentimentos que levaram nossos antepassados longínquos a iniciar as primeiras práticas de adoração, de reconhecimento de forças ou entidades mais poderosas. Poderiam ter intuído que por trás de tais paisagens ou fenômenos haveriam entidades, que premeditadamente as criaram ou os provocaram. 

Voltemos agora ao ser humano do século XXI, vivendo e atuando em uma civilização mundial, contando com ininterrupto fluxo de informações e dados sobre os mais diversos assuntos e interesses. Um universo cultural e tecnológico baseado na ciência, cujas origens remontam à Idade Moderna; período a partir do qual se impôs uma visão antropocêntrica do universo e da história.

Foi preciso um demorado desenvolvimento da ciência e cultura, notadamente na física, na psicologia, na biologia e na filosofia – além de uma série de outras disciplinas a elas relacionadas – para que a visão antropocêntrica do universo, da história e do ser humano fosse colocada em questão. Avanços em diversas áreas como a física quântica, a neurologia e a epistemologia colocam em discussão, sob diversos aspectos, o antropocentrismo sobre o qual se baseou, para o bem ou para o mal, todo o desenvolvimento cultural da sociedade ocidental desde o século XV. O salto na cultura, que para a maior parte das pessoas ainda é imperceptível, talvez seja equivalente àquele que ocorreu no início do período do Renascimento (século XIV), quando o foco principal da cultura passou do teocentrismo para o antropocentrismo.

Os principais aspectos que colocam em discussão a visão antropocêntrica baseiam-se em alguns pontos que, sem conhecimento aprofundado nas ciências envolvidas, tento resumir da seguinte maneira:

-  O princípio da incerteza da física quântica, enunciado pelo físico Werner Heisenberg (1901-1976) afirma, colocado de maneira bastante simples, que a partir do momento em que tentamos observar uma subpartícula, não conseguiremos mais determinar sua posição ou velocidade. A descoberta não afetou somente a física quântica, e mostra como, a partir de um certo nível – o nível subatômico – nossas certezas desaparecem e os fatos transforma-se em suposições. Baseados nesta teoria alteram-se nossas visões do mundo e dos fenômenos. Isto quer dizer que na escala humana os fatos e fenômenos são o que parecem ser, mas em escala quântica são possibilidades. As implicações filosóficas são evidentes e não podem passar despercebidas;

- Ainda com relação às ciências, é atualmente bastante consistente a visão de que as teorias científicas não são explicações da natureza e dos fenômenos. São muito mais maneiras de interpretar ambos, natureza e fenômenos particulares, baseadas em determinadas informações e experiências disponíveis num determinado momento histórico. A lei da gravitação universal de Isaac Newton (1643-1727), explicou e ainda explica determinados fenômenos em certo nível e ainda se aplica muito bem às situações comuns, seja na engenharia ou na física básica. Já para a astronáutica, astronomia, a cosmologia e até as modernas aplicações tecnológicas, a lei da gravitação é suplantada pela teoria da relatividade geral, de Albert Einstein (1879-1955). Esta teoria física atende a todas as necessidades da ciência atual, mas não permanecerá para sempre. O físico e filósofo da ciência Thomas Kuhn (1922-1996) escreveu em seu A estrutura das revoluções científicas que a ciência tem “paradigmas”; teorias que explicam determinados fatos em determinadas épocas, que são substituídos por outros paradigmas em períodos sequentes;

- A psicologia, que como ciência independente da filosofia teve início na segunda metade do século XIX, alcançou grande desenvolvimento com as teorias de Freud – ao estabelecer o conceito de inconsciente – e demais psicólogos que a partir do século XX conduziram pesquisas de laboratório, descobrindo diversos aspectos do funcionamento da mente. A partir dos anos 1980, juntou-se a este esforço a neurologia, ramo da medicina que estuda o cérebro e o sistema nervoso, que vem dando importantíssimas contribuições ao conhecimento deste órgão. Estas pesquisas revolucionaram a visão atual sobre o que é a mente e como funciona; a interação mente/cérebro; a maneira como percebemos o mundo, a questão do livre arbítrio, etc.;

- A filosofia deixou de ser “a mais importante das ciência” para ser uma ciência entre outras, com determinados objetos de estudo, adotando técnicas específicas. Não deixa de chamar a atenção de que os estudos filosóficos atuais, ainda que se baseando em uma tradição própria milenar, têm na ciência um grande aliado e quase que um parâmetro para muitas de suas conclusões. Tendo o ser humano como sua principal meta em seus estudos, a filosofia moderna abandonou em grande parte os conceitos metafísicos com os quais trabalhava no passado; a transcendência foi substituída pela imanência.

As grandes teorias que dedutivamente tentavam explicar toda a realidade humana e universal estão ultrapassadas. Pelo desenvolvimento da própria filosofia, pela experiência da história e pelos exemplos da ciência, a maior parte dos filósofos atuais entende que não é mais possível desenvolver sistemas que tentem abarcar toda a realidade. Não há mais “verdades eternas” ou “princípios” a serem descobertos ou explicados – e muito menos implantados, como no caso comunismo. A filosofia, assim como a ciência, concluiu que a realidade natural e humana é complexa e que não pode ser abarcada por teorias abrangentes, com pretensão de serem universais. 

Conclui-se, apenas ressaltando estes três ramos do conhecimento atual, de que civilização ocidental; a cultura ocidental que foi gestada no continente europeu e que ao longo da história recebeu influências da África e da Ásia, navega por um amplo mar, do qual não enxerga mais os limites. Chegamos a um ponto no qual já acumulamos muito conhecimento sobre o mundo e sobre nós e, paradoxalmente, descobrimos que tudo o que sabemos não é definitivo e não é exato; são conhecimentos mudarão ao longo do tempo, além de nunca representarem “o que é”, sendo apenas uma interpretação. Isto nos possibilita saber: a) que o que sabemos ainda é muito pouco em relação ao que sabemos que não sabemos; e b) o que sabemos é quase nada em relação ao que nem sabemos que não sabemos.

No entanto, mesmo aquilo que pensamos saber, o que pensamos não saber e o que nem pensamos não saber, é apenas conhecimento humano; produto das elucubrações de uma espécie animal específica, surgida há cerca de 150 mil anos, em um dos bilhões de sistemas solares existentes em uma galáxia de porte médio, dentre as bilhões de outras galáxias existentes no universo; este talvez contemporâneo de bilhões ou trilhões de outros.

No passado acreditávamos que o universo e a vida humana haviam sido explicados pela crença. Mais tarde pensamos que ambos, universo e vida humana, quase estavam sendo explicados pela ciência. Hoje sabemos que crença e ciência são constructos, elaborações de nossas mentes – das quais também pouco conhecemos – tentando explicar “algo”, o mundo, que nem apreendemos efetivamente. O universo físico e o universo mental; os dois únicos possíveis para nós, e nos quais existimos por um curto período, são muito, mas muito mais complexos do que (vagamente) pensamos.

(Imagens: pinturas kalamkari indianas)