Brasil produzirá etanol de 2ª geração

sábado, 19 de julho de 2014
"No entanto, se observarmos, sob o prisma da história das instituições, vemos como a liberdade se corrige por uma intensa servidão voluntária, já que as duas funcionam bem juntas... Será que, um dia, a liberdade chegou a existir verdadeiramente? Sem dúvida, ela existiu enquanto ideia, enquanto ideal, em uma espécie de imaginação iluminista da modernidade, uma espécie de parênteses um tanto quanto maluco."  -  Jean Baudrillard  -  De um fragmento a outro

Nos anos 1970 o Brasil importava a maior parte de seus combustíveis, aumentando a dívida externa do país. Em 1975, atuando junto com a indústria automobilística e o setor sucroalcooleiro, o governo lançou o programa Proálcool (Programa Nacional do Álcool), que visava à utilização do álcool derivado da cana-de-açúcar como combustível para veículos, reduzindo com isso as importações de derivados de petróleo.
A aceitabilidade do programa junto às montadoras e ao público consumidor foi gradualmente aumentando. No final dos anos 1980 parte dos veículos de passeio brasileiros era movida a álcool. No entanto, problemas de disponibilidade do combustível fizeram com que consumidores e montadoras perdessem a confiança no programa, o que provocou queda nas vendas e, consequentemente, na fabricação de veículos a álcool.
Nos anos 1990 o Proálcool toma novo impulso com o desenvolvimento da tecnologia “flexfuel”, que permite ao motor queimar tanto gasolina quanto etanol. A tecnologia foi regulamentada pelo governo em 2003, fato que impulsionou fortemente as vendas de veículos flex.
Nos últimos anos o programa do carro a álcool – apesar de seu forte apelo ambiental e de envolver diversos setores da economia brasileira – voltou a perder sua aceitabilidade junto aos consumidores. O principal problema é que o uso do etanol estava se tornando antieconômico, já que rodando com este combustível a rentabilidade do veículo é menor, comparado à gasolina. Desta maneira caiu a demanda por álcool e aumentou o uso da gasolina, que em parte é importada. A queda nas vendas do etanol e a falta de reajuste em seu preço provocaram a maior crise pela qual já passou o setor sucroalcooleiro. Segundo reportagem publicada pelo jornal Folha de São Paulo, nas últimas cinco safras 44 usinas encerraram suas atividades, 33 estão em recuperação judicial e dez não deverão moer cana-de-açúcar neste ano.
Apesar da situação, o setor está desenvolvendo novas tecnologias e com apoio financeiro do BNDES prepara a implantação da primeira unidade de produção de álcool celulósico no Brasil. A usina está localizada na cidade de Piracicaba e tem capacidade de produção de 40 milhões de litros de etanol. O biocombustível é o chamado de “segunda geração”, produzido a partir do bagaço, das folhas, cascas e outros resíduos da cana-de-açúcar. Se a experiência for bem sucedida, segundo o vice-presidente de etanol, açúcar e bioenergia da Raízen, Pedro Mizutani, a empresa pretendem construir mais sete unidades no país, investindo aproximadamente R$ 2 bilhões e produzindo cerca de 1 bilhão de litros de etanol celulósico. O volume ainda é diminuto em comparação ao consumo do mercado brasileiro (21 bilhões de litros em 2013), mas representa o marco inicial de uma nova tecnologia que poderá aumentar a produção brasileira do biocombustível.
O físico, professor e pesquisador do programa brasileiro do etanol celulósico, Igor Polikarpov, é um entusiasta da tecnologia. Segundo ele, temos um “pré-sal de biomassa” para fabricar o combustível: “disponibilidade de terra e água, luz solar à vontade e uma cadeia produtiva já montada, com vasta quantidade de matéria-prima pronta para ser processada”. Atualmente a equipe envolvida no projeto está pesquisando enzimas capazes de processar a celulose e outros componentes orgânicos, a fim de transformá-los em etanol.
(Imagens: pinturas jainistas)    

A Copa poderia ter sido mais verde

sábado, 12 de julho de 2014
"Se há, pois, razão para esperanças, donde há-de vir a salvação? Não do "progresso", com certeza. Já progredimos o bastante na arte de envenenar o nosso mundo e a nossa sociedade. O progresso do conhecimento e da ciência aplicada, posto que indispensável e inspirador, não salvará a nossa cultura."  -  J. Huizinga  -  Nas sombras do amanhã

No momento em que escrevo este artigo o país ainda se encontra sob o efeito da derrota para a Alemanha por 7 a 1. Anos de espera, grandes expectativas e, infelizmente, tudo terminou em alguns poucos minutos. Apesar dos elogios e das críticas a serem feitas ao técnico e aos jogadores, o futebol é como a vida real: se ganha e se perde. As próximas gerações de atletas brasileiros poderão recuperar aquilo que a atual não pode ganhar. Afinal, ainda somos os únicos pentacampeões mundiais e ainda demorará muito até que outras seleções nos alcancem.
Se no futebol sempre se pode recuperar o que foi perdido, o mesmo não pode ser dito das obras que deveriam ter sido realizadas até um determinado tempo e não foram. Aeroportos que não chegaram a serem terminados a tempo, sistemas e vias de transporte urbano inacabados, obras de saneamento que não avançaram, e a realocação de pessoas que foram removidas de suas moradias por causa de obras da Copa. Terminado o evento, precisamos nos perguntar o que efetivamente sobrou como benefício para a população e o que no futuro constituirá um ônus. Exemplo disso são os estádios construídos em cidades sem grandes platéias de torcedores. De onde virão os recursos para custear a manutenção destas obras que custaram centenas de milhões de reais?
Quando em 2007 foi anunciado que o Brasil sediaria a Copa do Futebol havia um clima de euforia no país. A economia estava crescendo e Lula estava no auge. A Copa poderia ser uma vitrine de um novo Brasil, que crescia com justiça social e proteção ao meio ambiente - já que o país sempre foi um dos grandes interlocutores mundiais nas questões ambientais. 
Em 2006 a Alemanha havia tomado uma série de providências para reduzir o impacto ambiental da Copa de 2006. Assim, depois da "Copa Verde" na Alemanha, falava-se em uma "Copa Verde" no Brasil. Outro fato importante é que em 2007 o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) publicou um novo estudo sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas, tornando o momento bastante propício para que o Brasil lançasse uma agenda verde, visando a RIO+20 (2012) a Copa (2014) e as Olimpíadas (2016).
No entanto, a maneira como evoluíram os preparativos para RIO+20 e a Copa – e agora parece que também para as Olimpíadas - indicam que na pratica o governo não dispunha de uma agenda verde, pelo menos para estes importantes eventos. Apesar do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), os investimentos em saneamento ainda são insuficientes para garantir esgoto coletado e tratado para toda população dentro dos próximos 20 anos. A Política Nacional de Resíduos Sólidos está atrasada em sua implantação e já se fala em sua prorrogação. O governo reduziu os recursos para investimentos em parques nacionais e ainda não temos uma Política Nacional de Mudanças Climáticas efetivamente implantada. 
Estes são apenas alguns pontos de uma lista de promessas já discutidas aqui nesta coluna. Fato é que o Brasil tinha chances de se projetar internacionalmente como um país envolvido com a questão da sustentabilidade, utilizando-se dos grandes eventos como vitrine, a começar pela Copa. Isto, no entanto, não aconteceu. Instalar placas fotovoltaicas, reciclar o lixo e reutilizar a água de chuva em alguns estádios - cujo custo extrapolou o orçamento inicial - não é lá uma grande contribuição ao meio ambiente.
(Imagens: fotografias de Bruce Davidson)

Comentários sobre o texto “Reflexões sobre a Racionalidade Científica: problemas, apostas e propostas”

sábado, 5 de julho de 2014
"Ter senso histórico é superar de modo consequente a ingenuidade natural que nos leva a julgar o passado pelas medidas supostamente evidentes de nossa vida atual, adotando a perspectiva de nossas instituições , nossos valores e verdades adquiridos. Ter senso histórico significa pensar expressamente o horizonte histórico coextensivo à vida que vivemos e seguimos vivendo."  -  Hans-Georg Gadamer e Pierre Fruchon (org.)  -  O problema da consciência histórica

O texto "Reflexões sobre a Racionalidade Científica: problemas, apostas e propostas" é de autoria de Daniel Durante Pereira Alves, professor de filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Neste curto artigo comentaremos este trabalho, que analisa a atividade científica e a epistemologia.
No início de seu texto o autor afirma querer fazer uma crítica sobre alguns aspectos cognitivos da ciência, em seus pressupostos herdados de Descartes e defendidos pelo empirismo lógico. O texto também pretende apontar a conexão íntima existente entre certos problemas epistemológicos e éticos, considerando a extrema interrelação entre ambos. Em sua argumentação, o texto elabora uma crítica ética da ciência, dadas as “conseqüências muitas vezes nocivas do conhecimento científico”. Assim, para iniciar sua apresentação, o autor começa seu texto com uma explicação do que considera as características mais fundamentais da racionalidade científica hegemônica: o atomismo e o método axiomático.
O conhecimento científico é socialmente construído e não “temos nenhum motivo intransponível que nos impeça de procurarmos novas formas de fazer ciência”. A ciência é uma construção histórica e sua maneira de ser feita não se deve necessariamente à natureza ou a estrutura de nossa racionalidade (racionalismo). Esta visão da prática científica, baseada no construtivismo, não se fundamenta em nenhuma teoria sobre a realidade (ontologia), mas na prática do sujeito; em seu próprio ponto de vista. Assim, as diferentes interpretações da natureza são baseadas na interação do observador com o mundo; construções (constructos) que visam dar sentido aos seus projetos subjetivos. O conhecimento científico não é uma descrição exata da realidade; trata-se muito mais de uma teoria descritiva que na prática funciona.
Um dos fundamentos da teoria científica é baseado no atomismo de Demócrito: o átomo (ou outras partículas e subpartículas) como sendo as últimas partes constituintes da realidade. A epistemologia atomista leva a uma visão dualista da realidade, formada pela interação entre o sujeito (o que observa a realidade) e o objetivo (tudo o que é observado). Outro fundamento do pensamento científico é o método axiomático, herdado do geômetra Euclides e desenvolvido pelo pensador francês do século XVII René Descartes. Segundo esta metodologia de análise – mais tarde aplicada por Descartes também à geometria analítica – os problemas devem ser desmembrados em partes, de modo a facilitar sua apreensão. Desta forma, segundo o autor, pode-se ver a teoria científica como um conjunto de propostas (axiomas da antiga geometria euclidiana), organizados na forma de um todo harmônico, capaz de explicar certo fato científico.
No entanto, ao longo do desenvolvimento da ciência e da matemática durante os últimos 350 anos, foram aparecendo fatos que gradualmente colocaram em cheque a visão ortodoxa da racionalidade científica. O matemático Kurt Gödel (1906-1978) provou com seu Teorema da Incompletude, que resumidamente diz que em um sistema de axiomas auto-consistentes sempre existirão proposições que não poderão ser comprovadas pelo sistema, ou seja, o sistema é incompleto e incapaz de dar uma explicação total às questões que ele mesmo coloca. Outro exemplo é dado pela física de partículas, com o Princípio de Indeterminação, elaborado pelo físico Werner Heisenberg (1901-1976). Segundo este princípio, nunca será possível determinar a posição e a velocidade de um elétron. Isto porque, o fóton emitido pelo equipamento de medição já tira o elétron de sua posição original. O mesmo acontece se os cientistas tentarem medir o sentido de sua rotação (spin).
Na física quântica também ocorrem fenômenos que colocam em cheque muitos aspectos da suposta racionalidade da ciência: partículas que têm o mesmo comportamento como se formassem pares, mesmo que situadas a longas distâncias. Outras que têm um comportamento completamente aleatório, imprevisível. Isso tudo sem falar nos paradoxos (aparentes) da Teoria da Relatividade, segundo a qual objetos se deslocando a velocidades diferentes em relação a um mesmo ponto de referência, têm diferente percepção do desenrolar do tempo.
Em suma, a visão de que a realidade material pode ser explicada através de teorias simples, num encadeamento lógico que ganha em complexidade, não é mais possível. A matemática e a física têm levantado tantas questões, que a ciência convencional – e com ela a epistemologia – já não pode mais explicar a realidade.
Outro aspecto que o autor levanta é com relação à ética na ciência. O desenvolvimento científico, além de não resolver grande parte dos problemas sociais, acabou criando novos; como os impactos ambientais, as armas de destruição em massa ou o descontrole da prática científica (os perigos da nanotecnologia e da inteligência artificial sem limites). Além disso, aponta o artigo o problema da superespecialização de setores da ciência, gerando um conhecimento cada vez mais fragmentado, compartimentado, com profusão de teorias; situação característica do modelo axiomática de ciência.
O autor também coloca a questão sobre quais interesses estão por trás da prática científica. Além de sua função utilitária de fazer prognósticos, a quem servem estes prognósticos? Se a ciência reflete os projetos e interesses do observador, de que observador estamos falando? Recomenda o autor que a ciência não seja distante da ética e que seja mais responsável e reflexiva, considerando que há uma crescente desconfiança por parte da opinião pública em relação à prática científica.
Paralelamente desenvolvem-se novas visões do pensamento científico; mais abrangentes e englobando idéias como a transdisciplinaridade, o pensamento complexo, a holística, ultrapassando os paradigmas do atomismo e do método axiomático. Ao invés de “prognosticar para manipular e controlar” as novas correntes epistemológicas são orientadas para “mapear para equilibrar e dar autonomia”. A frase do autor conclui nosso texto: “Ainda que tenhamos nos concentrado neste ensaio apenas nos aspectos epistemológicos e éticos da ciência, ela é uma atividade coletiva e social, sendo este aspecto extremamente importante para qualquer consideração, pois a ciência só mudará quando os cientistas mudarem, quando nós, coletivamente, aceitarmos e praticarmos novas formas de cientificidade.”
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

Os parques municipais

sábado, 28 de junho de 2014
"The Carvaka holding belief in a realistic and rationalistic empiricism and admitting the existence of nothing beyond nature, naturally comes to hold, like all materialists, that the question of 'why' to the universe is irrelevant. We cannot and do not find any 'purpose' in the universe."  -  Bhupender Heera  -  Uniqueness of Carvaka philosophy in traditional Indian thought 

Os parques são um componente importante no planejamento das cidades. Local de descanso e lazer, a freqüência de um parque proporciona uma quebra na monotonia da paisagem urbana, trazendo o citadino para mais perto da natureza e tirando-o das atividades rotineiras.
Os parques municipais, assim como os conhecemos atualmente, surgiram no início do século XIX na França, Alemanha e Estados Unidos, que iniciavam seu processo de industrialização. Os capitalistas estabeleciam suas fábricas em cidades onde por alguma razão – seja a existência de um porto, de um entroncamento ferroviário, de uma praça de comércio – teriam facilidades em produzir, distribuir e vender seus produtos. O aparecimento das fábricas fez com que grandes levas de populações do campo se dirigissem às cidades.
Londres, Manchester, Boston, Nova York, Paris, Berlim, entre outras metrópoles, viram sua população crescer em poucas décadas, aumentada pela afluência de trabalhadores. A falta de estrutura, no entanto, fez com que esta população migrante passasse a morar em condições muito ruins; piores e mais insalubres do que as habitações que tinham no campo – que já eram bastante insatisfatórias.
É preciso lembrar que todo este processo social era novo para a época. Nunca antes, nem durante os séculos XV e XVI quando os servos abandonaram os feudos para se dirigir às cidades, houve um tão grande afluxo de pessoas às cidades à procura de trabalho e moradia.
As condições de vida das populações assalariadas não podem ser comparadas às atuais. Jornadas de até 14 horas, trabalho infantil e de gestantes. A coleta dos resíduos urbanos ainda era incipiente e não havia coleta ou tratamento de esgoto, pelo menos até meados do século XIX na maior parte das grandes cidades. Durante vários verões da década de 1860 o parlamento inglês teve suspender suas sessões, devido ao forte cheiro de esgoto que exalava do rio Tamisa. O filósofo alemão Friedrich Engels, amigo e colaborador de Karl Marx, vivendo por esta época na Inglaterra, descreve as péssimas condições de vida da classe trabalhadora, enquanto a classe rica vivia em chácaras fora do perímetro urbano.
Movimentos sociais e a formação de sindicatos e associações, muitos deles proibidos e perseguidos pelas autoridades, contribuíram para pressionar industriais e autoridades para que melhorassem as condições de vida e de trabalho das classes baixas. Ao longo do século XIX Londres, Berlim e Paris dão início a grandes obras de reurbanização, construindo grandes praças e parques para lazer e descanso dos trabalhadores. Este é o contexto no qual surgiu o moderno parque municipal.
A implantação dos primeiros parques no Brasil é relativamente recente, datando da segunda metade do século XIX. Em São Paulo o Parque da Luz, o primeiro da cidade, foi aberto ao publico no final do século XIX. No Rio de Janeiro, o primeiro parque municipal foi a Quinta da Boa Vista, inaugurado em 1905. Atualmente a cidade de São Paulo dispõe de 96 parques; de diversos tamanhos e estados de conservação.
Além de propiciar lazer e descanso à população, a área verde dos parques torna o ar do entorno mais úmido e frio, amenizando o micro clima. Neste espaço diversas espécies de pássaros e outros animais de pequeno porte encontram ambiente para sua sobrevivência, ao lado de espécies remanescentes da flora original da região.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

O problema da poluição veicular

sábado, 21 de junho de 2014
" - Olhe - disse Frankie -, essa história de idealismo, de dignidade da pesquisa pura, da busca pela verdade em todas as suas formas, está tudo muito bem, mas chega uma hora que você começa a desconfiar que, se existe uma verdade realmente verdadeira, é o fato de que toda a infinidade multidimensional do Universo é, com certeza quase absoluta, governada por loucos varridos."  -  Douglas Adams  -  O guia do mochileiro das galáxias   

O crescimento econômico do Brasil está fraco, abaixo da média mundial e setores importantes da economia, como o setor automobilístico, começam a apresentar problemas. A queda das vendas aumenta o risco das demissões; dilema que demonstra o quanto nossa economia ainda é pouco diversificada, dependente de poucos setores, que absorvem a mão de obra mais qualificada.
Nesta situação a estratégia do governo é criar um pacote de incentivos para o setor, de modo a aumentar as vendas de veículos: redução de impostos, aumento dos prazos de financiamento, etc. Cada carro popular produzido e vendido no Brasil movimenta o dobro do seu preço final em outros produtos e serviços. O setor gera mais de um milhão de empregos diretos e indiretos, num universo total de 24 milhões de trabalhadores economicamente ativos (conforme o site O Barômetro - http://obarometro.wordpress.com/2014/05/07/por-que-tanta-importancia-ao-setor-automotivo/). É compreensível então que a cada nova queda das vendas, o governo seja colocado sob pressão pelas montadoras e pelos sindicatos. Mas o novo pacote de incentivos aumenta o número de automóveis nas cidades – principalmente na região metropolitana de São Paulo, já que 30% da produção nacional de veículos são vendidos nesta região.
No entanto, como contrapartida aos incentivos dados ao setor, o governo deveria estabelecer metas mais ambiciosas de redução dos impactos ambientais provocados pelos veículos, já que o problema da poluição está se tornando cada vez mais grave. Segundo o jornal Folha de São Paulo a poluição veicular está causando perdas estimadas em 3,5 trilhões de dólares (7,7 trilhões de reais) nos países desenvolvidos, na Índia e na China. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o número de mortes provocadas pela poluição veicular foi de 3,5 milhões em 2012, valor 10% superior ao de 2010. A grande contradição, no entanto, é que vem aumentando a produção mundial de veículos, fazendo com a frota atualmente em circulação seja de cerca de 930 milhões de automóveis, utilitários e caminhões. 
A ONG ICTT (International Council on Clean Transportation – Conselho Internacional de Transporte Limpo) atua em cooperação com órgãos do governo brasileiro e realizou um estudo sobre mortes provocadas por poluição veicular no país. No estudo o Brasil aparece como responsável por 3,5 % das mortes mundiais.  Ao mesmo tempo o país consta como um dos líderes na implantação de medidas visando reduzir a poluição, com a adoção de combustíveis mais limpos, que alcançam o equivalente ao nível 5 europeu. Nesse ínterim a Europa, os EUA e o Canadá já se utilizam de combustível de nível 6, mas o restante dos países ainda adota o nível 4 ou grau inferior.  
Além de avançar na qualidade do combustível – gasolina e diesel – o país precisa cobrar das montadoras um melhor rendimento dos motores dos veículos, diminuindo as emissões. A China, por exemplo, está gradualmente baixando sua forte poluição atmosférica através da substituição compulsória dos carros antigos por modelos novos. No passado, a idéia também já foi proposta no Brasil, mas talvez não fosse ideal. A solução definitiva é o uso cada vez maior do transporte público, em substituição ao individual. Este caminho exige muitos investimentos, mas foi trilhado por todos os países que conseguiram efetivamente reduzir as emissões provocadas por veículos.
(Imagens: fotografias de Bert Hardy)

A questão do meio ambiente e as eleições

sábado, 14 de junho de 2014
"No fundo, toda vontade de ter uma teoria totalmente coerente realiza-se na perda de seu contato com o real, na sua esclerose e no seu endurecimento. A racionalização torna-se, então, um mal terrível, isso porque o espírito racionalizador se crê racional e acredita que os outros sejam delirantes."  -  Boris Cyrulnik e Edgar Morin - Diálogo sobre a natureza humana

Com o clima de histeria em torno da Copa, criado pela propaganda do governo e pelos anúncios dos patrocinadores, pouca coisa indica que estamos praticamente às vésperas das eleições. Não fosse o futebol, o debate político estaria bem mais presente na mídia, já que é esse o acontecimento – e não o torneio de ludopédio – que mais influirá no futuro do país. O governo provavelmente nem deseja debater a situação social e econômica com profundidade, dados os altos índices de inflação, a baixa taxa de crescimento, além de todos os problemas de infraestrutura que – com raras e pequenas exceções – permanecem sem solução.
A partir de julho então, com ou sem título mundial – fato que terá grande influência na disposição do eleitor –, começará efetivamente a campanha dos candidatos em suas diversas formas. Propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV; carreatas, comícios, cartazes e panfletagem; debates na mídia e ações nas redes sociais; tudo será usado para ganhar nossos votos. O que distingue todo este show pirotécnico político, da massiva propaganda de lavagem cerebral que cerca a realização da Copa? A diferença entre ambas talvez seja somente o produto. Se, por um lado, querem vender-nos a Copa e seus patrocinadores, por outro pretendem nos certificar da qualidade dos candidatos. Em tudo isso, fica de fora o debate sobre os temas essenciais; aqueles que têm relevância para o futuro do país.
Um dos assuntos de importância, sempre tratados superficialmente, é o do meio ambiente. No entanto, segundo pesquisas recentes, já é considerável o percentual da população urbana que conhece melhor os problemas e a importância da questão ambiental. Graças à ação da mídia e de ONGs ligadas ao setor, o nível de conscientização vem gradualmente aumentando. Se no passado a ecologia dizia respeito somente à destruição da floresta amazônica ou à matança de baleias, atualmente já é grande o numero de pessoas que associam a proteção do meio ambiente também ao saneamento básico, à coleta e destinação do lixo, ao ar poluído das cidades, ao planejamento urbano e ao transporte.
Esta nova situação deverá ou deveria causar algum tipo de impacto nos programas dos partidos e no discurso dos candidatos. Tirar a questão ambiental lá das páginas finais do programa dos partidos – muitas vezes colocada aí por falta de mais assunto – e trazê-la para as páginas iniciais, associada aos programas econômicos e sociais. Da mesma forma os candidatos, em suas aparições públicas, deveriam ter a capacidade de saber explicar a forma como, por exemplo, os programas em relação à infraestrutura, transportes ou saúde têm a ver com o saneamento e a preservação dos recursos hídricos, e vice versa.
Talvez ainda seja demais esperar tal nível de sofisticação do discurso político. No entanto, partidos e candidatos devem levar em conta que a cada nova eleição parcelas maiores do eleitorado têm melhor formação, dispõem de mais informações e têm senso crítico mais apurado. Pelo menos no que se refere ao saneamento e à gestão de resíduos, o grau de expectativa do eleitor está alto – espera esta criada muitas vezes pela própria propaganda do governo. Por isso o discurso “... pela saúde, educação e trabalho, conto com seu voto!” está cada vez mais desacreditado. O eleitor não pode mais ser tratado como uma criança, que se convence com histórias da carochinha.
(Imagens: fotografias de Vivian Maier)

Desenvolvimento do pentecostalismo no Brasil

sábado, 7 de junho de 2014
"Foi dada a eles a escolha de se tornarem reis ou mensageiros de reis. Com a ingenuidade das crianças, todos escolheram ser mensageiros. Eis por que só existem mensageiros, que correm pelo mundo e, como não há mais reis, gritam uns para os outros mensagens que não têm mais sentido."  -  Franz Kafka  -  28 Desaforismos

Em um de seus textos, o antropólogo Otávio Velho (1924) aborda o processo da globalização e seu impacto no estudo da antropologia. Aspecto importante discutido no texto é a questão do pentecostalismo aliado à globalização. Velho coloca o crescimento das religiões pentecostais como um dos aspectos da cultura atual, junto com a globalização da economia, da cultura de massa e das comunicações.
A primeira igreja pentecostal estabelecida no Brasil foi a Congregação Cristã do Brasil, fundada em São Paulo em 1910. Em 1911 estabeleceu-se a Assembléia de Deus, começando sua atividade missionária nas regiões Norte e Nordeste. A Igreja do Evangelho Quadrangular começou suas pregações em 1951. Todas estas igrejas tiveram sua origem nos Estados Unidos, sendo que outras, como a igreja “O Brasil para Cristo” e “Deus é Amor” representam dissidências brasileiras destas igrejas antes mencionadas.
O grande crescimento dos movimentos pentecostais no Brasil está associado a alguns fatores econômicos e sócio-culturais, dentre os quais os principais são:
- A migração interna, provocada pela procura de melhores condições de vida por populações do Nordeste. Com o desenvolvimento da indústria e o crescimento das cidades no Sudeste, principalmente em São Paulo a partir da década de 1950, são criados muitos postos de trabalho na indústria e na construção civil. A população de migrantes, vinda de uma cultura agrária, ficou desenraizada de suas origens culturais. O contato com a igreja católica torna-se mais raro, já que nas grandes cidades a presença da igreja não era mais hegemônica. Todavia, os pastores pentecostais tinham grande mobilidade, estabelecendo centros de culto na periferia, região usualmente de população de origem migrante. Nestes centros de culto pentecostal os recém-chegados encontram um ambiente de convivência, uma comunidade, muitas vezes formada por outros migrantes.

- O desenvolvimento dos meios de comunicação também contribuiu para a difusão do pentecostalismo. A partir da década de 1940 o rádio torna-se mais acessível aos consumidores e muitas igrejas utilizam-se do veículo para transmitir suas mensagens. O mesmo acontece com a TV a partir da década de 1970 e 1980, quando o equipamento se torna um sonho de consumo para o grande público e as igrejas passam a comprar horários para transmitir suas mensagens em diversos canais.
- O apelo à manifestação espontânea na igreja pentecostal é maior do que na igreja católica tradicional. A participação dos fiéis, através de cantos, orações, testemunhos, “manifestações do Espírito Santo” e sermões, é diferente do culto católico onde a missa está centrada no oficiante e os fiéis tinham pouca participação.
- A posição política conservadora das igrejas pentecostais sempre foi vista com bons olhos pelos regimes militares. Durante o final da guerra fria, no governo Reagan, os Estados Unidos destinaram apoio financeiro a diversas igrejas pentecostais na América Latina. Este apoio tinha como base o fato de que os pentecostais eram nitidamente anticomunistas e pró capitalistas. A ala progressista da igreja católica, por outro lado, era crítica à política externa dos EUA, à ditadura militar e ao “capitalismo de rapina” instituído no país.
O movimento pentecostal também pode ser avaliado como um dos aspectos culturais da globalização – se admitirmos que a globalização seja um processo de longa duração histórica. Iniciou-se no século XIX, quando o capitalismo se desenvolvia rapidamente nos EUA causando várias mudanças na sociedade americana. Dos cultos tradicionais, como o presbiteriano e o batista, desenvolvem-se correntes dissidentes, formando outras igrejas. Na mesma época aparece o movimento adventista e o Testemunhas de Jeová. Toda esta efervescência religiosa ultrapassa as fronteiras americanas e atinge também os países da América Central e do Sul, entre os quais o Brasil.
Certos autores imputam o crescimento do pentecostalismo no Brasil também à maneira de atuar da igreja católica, pelo menos até os anos 1960. O teólogo protestante americano Richard Niebuhr (1894-1952), comenta aspectos dessa atuação da seguinte maneira: “A grande traição da Igreja (católica) como instituição consiste em que ao invés de constituir-se portadora e testemunha do Evangelho, ela se apresentou como “defensora” do Evangelho. Isto na prática se refletiu num esforço de domesticar o Evangelho, a serviço de determinada cultura e dos seus interesses arraigados.
Como resultado, ao invés de seguir o caminho da fé, a igreja se colocou na defesa de privilégios, que lhe garantiram a segurança na santificação do status quo, e a religião resultante dessa traição tornou-se a principal sustentação da ideologia das classes dominantes, da luta pela santificação dos objetos.” (Niebuhr, 1967, pág. 17). Terão sido estes alguns dos fatores – mais teológicos e culturais – que fizeram com que tantos abandonassem o catolicismo e abraçassem o pentecostalismo?
Bibliografia:
De Lima, Delcio Monteiro, Os demônios descem do norte, Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1988, 154 págs.
Niebuhr, Richard, Cristo e Cultura, Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1967, 294 págs.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

A importância científica e ambiental das cavernas

sábado, 31 de maio de 2014
"Quem somos nós? Um programa "Eu" que roda entre as conexões de nossos neurônios e nos dá a ilusão de existirmos. Entre outras ilusões: a de controle (tal coisa não existe, nem para atravessar a rua: espere o sinal, olhe para os dois lados e você estará aumentando suas chances de chegar vivo ao outro lado) [...]"  -  Francisco Daudt  -  A natureza humana existe e como manda na gente

As cavernas são um grande patrimônio natural e por vezes abrigam restos de animais extintos e de antigas ocupações humanas. A França e a Espanha têm dezenas de cavernas famosas por conterem pinturas rupestres realizadas por humanos pré-históricos. Representações de animais encontradas na caverna de Chauvet, no sul da França, datam de 30 mil anos. No Brasil, em Lagoa Santa, Minas Gerais, foram encontradas as mais antigas pinturas rupestres até agora identificadas no país, com cerca de 10 mil anos. Nas cavernas desta região os paleontólogos também encontraram esqueletos de animais extintos pertencentes à megafauna do Holoceno. Neste período o Brasil era povoado por animais de grande porte, como a preguiça gigante; o Mastodonte, espécie de elefante; e o Gliptodonte, um tatu gigante.
Sob o aspecto ecológico as cavernas também têm grande importância, por abrigarem uma fauna exclusiva, que só sobrevive neste ambiente. O local é o habitat de espécies de peixes, crustáceos e insetos que se adaptaram à escuridão e perderam a capacidade de enxergar, desenvolvendo outros sentidos. A cada ano, expedições descobrem novas espécies dentro deste complexo ecossistema formado pelas cavernas.
Segundo reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo, existem no Brasil aproximadamente 10 mil cavernas conhecidas. O número não é exato porque, segundo o jornal, dados publicados pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (Cecav) – órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente e responsável pela catalogação das cavernas descobertas – também não são corretos. Em 2012, o governo federal havia anunciado que o país ultrapassara o número de 10 mil cavernas descobertas; exatamente 10.134 grutas. No entanto o Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas (Canie), publicação do Cecav lançada em setembro de 2013, dá conta de apenas 9.532 formações – 600 grutas simplesmente “desapareceram”. Segundo o coordenador da entidade, Jocy Cruz, estas cavernas não desapareceram; constam de outra base de dados do órgão e ainda passam por um processo de verificação e certificação. Mas além da falta de várias cavernas já conhecidas, os dados do cadastro apresentam erros de localização e omissão da fonte de informações.
Falta de recursos e mão de obra impede que o trabalho realizado pelo Cecav ocorra de maneira mais rápida e precisa. Nesta situação, no entanto, o país corre o risco de ver parte de seu patrimônio ser destruído, antes que venha a ser oficialmente conhecido. Elena Trajano, professora da USP com mais de 35 anos de experiência em espeleologia, comenta que falhas no cadastro podem trazer problemas. “Se uma caverna não existe oficialmente, como cobrar sua proteção? Como provar que alguém a destruiu?”
Grandes empreendimentos como construção de barragens, rodovias, ferrovias e projetos de mineração, podem ter suas obras atrasadas ou canceladas caso na área do empreendimento seja encontrada uma caverna. Por isso pode ocorrer que cavernas sejam destruídas, ficando definitivamente inacessíveis aos cientistas e ao público. Se os órgãos de controle responsáveis pela identificação e validação deste tipo de formação geológica fossem mais bem preparados para desempenhar suas tarefas – de uma maneira mais precisa e rápida –, talvez o país tivesse um número maior de cavernas catalogadas e abertas à pesquisa e visitação.
(Imagens: fotografias de Grete Stern)

Uso de antibióticos em animais de abate

sábado, 24 de maio de 2014
"O senhor irá tremer diante da morte." 
"Sim, mas eu não terei falhado em nada do que faz a minha missão, que é a de viver."
Albert Camus  -  Cadernos (1937-39)  -  A desmedida na medida

O uso de antibióticos na criação de animais de abate - suínos, aves, bovinos - é prática bastante comum em todo o mundo, principalmente em países produtores de carne, como os Estados Unidos e Brasil. O uso do antibiótico como promotor do crescimento foi descoberto nos Estados Unidos, no final da década de 1940. Em 1951 o FDA (Food and Drug Administration), órgão controlador de alimentos e medicamentos do governo americano, aprova seu uso para acelerar e aumentar a absorção de vitaminas contidas nos alimentos, fazendo com que os animais adquiram mais peso em menor tempo. Além disso, o uso destas substâncias melhora a saúde e a resistência dos animais, diminuindo sua mortalidade.
Segundo fontes pesquisadas, existem no Brasil normas bastante restritivas quanto ao uso de antibióticos como complemento alimentar em animais monogástricos (não ruminantes), principalmente suínos e aves. Estas diretrizes foram aprovadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e se referem ao uso de antibióticos destinados a melhorar a digestão de alimentos, sem afetar as bactérias benéficas que se encontram no trato digestivo dos animais. Normativas do MAPRA também proíbem o uso de antibióticos de uso humano em animais monogástricos. Outra fonte pesquisada (Revista UFG - Dossiê pecuária - Dezembro de 2012), reporta que ainda não existem provas de que uma bactéria que adquiriu resistência ao antibiótico no intestino de um animal, tenha transmitido esta mesma resistência a uma bactéria localizada no intestino humano.
Fatos um pouco diferentes são apresentados em um artigo publicado pela Bloomberg em março de 2013, sob o título "Uso excessivo de antibióticos pode levar a uma crise da saúde pública" (Antibiotic overuse could lead to public health crisis). Diz o texto que aproximadamente 80% de todos os antibióticos em uso no EUA são regularmente administrados aos animais, segundo relatório do FDA. Em 2011, segundo o documento, foram vendidos aproximadamente 66 toneladas de antibióticos ao setor de criação de animais; quase seis vezes o que foi destinado ao consumo humano. Segundo a deputada americana Louise Slaughter, do partido democrata de Nova York, "Estamos à beira de uma catástrofe de saúde pública. A ameaça de doenças resistentes aos antibióticos é real, está crescendo e aqueles mais em risco são os idosos e as crianças."
O relatório anual do FDA, o Sistema Nacional de Monitoramento da Resistência Antimicrobiana (NARMS), revela que 78% das salmonelas (gênero de bactéria causador de infecções graves) encontradas no peru, já desenvolveram resistência contra pelo menos um tipo de antibiótico, assim como 75% das salmonelas encontradas no frango. O problema é que para combater a salmonela não existem centenas de tipos de antibióticos; seu numero é bem limitado. "Por isso, na hora do tratamento, a escolha precisará ser feita com todo o cuidado", diz Gail Hansen, especialista do governo americano no assunto.
Portanto, o grande problema no uso intensivo de antibióticos em animais de abate, não é o fato de que uma bactéria, localizada no organismo humano, adquira resistência contra a substância. O perigo é que o ser humano, ao ingerir uma bactéria prejudicial, esta já tenha desenvolvido resistência contra os antibióticos, dificultando assim seu combate.
(Imagens: fotografias de Maurice Tabard)

Governo reduz investimentos em parques nacionais

sábado, 17 de maio de 2014
"O tempo de viver. O tempo de viver é o de ver os gozos sucederem-se aos sofrimentos, e vice-versa. O absurdo de tristezas e de alegrias sucessivas. Toda uma lógica aparentemente ilógica, provocando o questionamento sobre o sentido da vida. Impossível instalar-se na felicidade sem vê-la desaparecer em seguida."  -  Henri Pena-Ruiz  -  Grandes lendas do pensamento

Devido a sua extensão territorial o Brasil é um dos países mais indicados para a prática do turismo ecológico. Basta citar a variedade de biomas que ocupam as diversas regiões do País, para se ter uma idéia do grande potencial: a floresta Amazônica com seus rios e vastas extensões florestais; a variedade de relevos e tipos de vegetação do Cerrado; a Caatinga com sua antiquíssima ocupação humana; a Mata Atlântica e seu grande número de espécies vegetais; e os extensos horizontes dos campos sulinos, só para citar os principais. Para proteger esta variedade de ambientes, o País dispõe de 69 parques nacionais, definidos por lei como áreas de conservação de paisagens naturais, proteção da flora e da fauna, pesquisa científica, visitação e educação ambiental. Um patrimônio tão invejável, que de acordo com o Fórum Econômico Mundial, que fez uma pesquisa sobre o potencial turístico de 140 países, o Brasil é um dos líderes no que se refere ao turismo ecológico. Uma atração adicional para os milhões de turistas que visitarão o Brasil durante a Copa Mundial de futebol, em 2014, e as Olimpíadas que ocorrerão em 2016.
No entanto, também nesta área a falta de planejamento acabou tolhendo a possibilidade de o País mostrar as suas riquezas naturais a um grande número de visitantes estrangeiros, e com isso angariar recursos para a manutenção destes parques. A realidade é que destes 69 parques existentes somente 26 estão abertos à visitação e destes apenas 18 dispõem de infraestrutura relativamente satisfatória para receber turistas. Outro aspecto negativo é que segundo o relatório do Fórum Econômico Mundial, o País ocupa as piores posições entre outras 140 nações, no que se refere ao transporte, preços de produtos e serviços, taxas, burocracias e impostos, o que acaba afastando os turistas.
Em 2010 o plano do governo em relação aos parques era investir R$ 200 milhões na reforma de 26 destas unidades nacionais, estaduais e municipais, a fim de receber grande número de turistas que estarão aqui durante a Copa. No entanto, a usual falta de recursos fará com que apenas cerca de R$ 40 milhões sejam investidos em 16 áreas de proteção, que funcionarão como vitrine de nossa rica biodiversidade em locais próximos às cidades onde serão realizados os jogos.   
Os parques brasileiros receberam em 2008 cerca de 5,3 milhões de visitantes, que renderam menos de R$ 27 milhões em ingressos. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), caso houvesse planejamento efetivo e investimentos, estas mesmas unidades de conservação poderiam receber em 2016 em torno de 13 milhões de visitantes e gerar mais de R$ 1,5 bilhão em receitas. Comparativamente, os parques nacionais nos Estados Unidos receberam 275 milhões de visitantes em 2008, gerando US$ 11 bilhões (cerca de R$ 25 bilhões) em receita nas suas áreas de influência. Na África do Sul, os cinco principais parques recebem anualmente mais de 4,3 milhões de visitantes.
O Brasil tem um imenso potencial de turismo ecológico ainda não aproveitado. Problemas burocráticos, fundiários e de infraestrutura ainda atrapalham a exploração turística de parte destas áreas. Incrementar a visitação aos parques aumenta a conscientização ambiental dos visitantes e contribui para melhorar as condições econômicas e sociais das áreas do entorno, além de preservar os ecossistemas.
(Imagens: fotografias de Léonard Misonne)

Saudades da natureza

sábado, 10 de maio de 2014
"As pessoas não sabem fazer uso do tempo livre; não foram treinadas para isso. A gente vive na cultura do trabalho. E a vida torna-se terrível na cultura do trabalho quando não se tem emprego."[...] "É como se o indivíduo devesse sempre estar produtivo, como se fosse uma falta grave ficar sem fazer nada. A reflexão e a leitura, por exemplo, são atividades lentas para o ritmo da vida hoje, então, não são bem-vistas."  -  Flávio Gikovate e Renato Janine Ribeiro  -  Nossa sorte, nosso norte - Para onde vamos?

Quase todo o tempo de sua existência como espécie o homem viveu em meio à natureza. Nossos primeiros antepassados, da espécie homo habilis, surgiram há aproximadamente 2,5 milhões de anos na África e habitavam um ambiente de savana. Nesta vegetação, parecida com o Cerrado brasileiro, se desenvolveram os primeiros grupos de hominídeos, que mais tarde se espalharam por grande parte do continente africano. Depois, ao longo de sua evolução, nossos ancestrais saíram da África e se espalharam pela Ásia e Europa, chegando a alcançar a Austrália e as Américas. Ao mesmo tempo em que se adaptavam aos novos ambientes – os desertos, as florestas tropicais, terrenos montanhosos, savanas e florestas temperadas – os hominídeos também sofreram mutações, até o surgimento de indivíduos completamente humanos, há cerca de 160 mil anos.
O meio ambiente natural era o único conhecido pelo homem. Até há cerca de oito mil anos nossos antepassados não praticavam a agricultura nem a criação de animais – talvez a única exceção seja o cão, domesticado há mais de 20 mil anos. As fontes de alimentação eram a caça, pesca e a coleta de vegetais. Os poucos grupos humanos então existentes vagavam pela Terra, sempre à procura de alimentos, muitas vezes habitando extensas florestas durante várias gerações. Os grandes bosques temperados ou tropicais eram ambiente com grande oferta de alimentos, abrigo e madeira para fazer fogo.
Quando nossos antepassados inventaram a agricultura deixaram aos poucos de depender da floresta. Esta agora era derrubada; os pântanos aterrados e drenados, dando lugar a extensas culturas de trigo, aveia, milho, arroz, batata doce, dependendo das plantas disponíveis na região onde se estabeleceram os grupos humanos. Surgiram os celeiros coletivos para guardar a colheita, os locais de oferenda aos deuses e aos poucos apareciam as primeiras aldeias e os diversos tipos de artesãos. Logo as sociedades se tornariam mais complexas e se organizariam em estados. Assim estava definitivamente estabelecida a fronteira entre a cultura humana, representada pela aldeia, e a e a natureza, formada pela floresta e a estepe. A oposição entre o ambiente criado pelo homem e aquele do qual era originário.
Para não depender somente da natureza, nossa espécie inventou a agricultura, a religião, as cidades, as leis, o estado e a tecnologia, desde aproximadamente oito mil anos passados. Estas inovações podem ter surgido em épocas diferentes no Egito, na China, no México ou na Europa, mas suas mais remotas origens não ultrapassam esta data. Simplificando, podemos dizer que apenas durante 5% (oito mil anos) do tempo de sua existência (160 mil anos) o homem vive apartado do ambiente natural de onde surgiu.

Mesmo assim, no fundo do nosso inconsciente coletivo, ainda sentimos saudades do ambiente florestal: as árvores, a luz do sol penetrando por entre as folhas, o vento soprando por entre os ramos, o ar úmido, o som das aves e muitas outras sensações, dependendo da psicologia de cada pessoa e da região originária de seus antepassados (moravam em região de floresta?). Esta talvez seja a razão por que cientistas americanos da universidade de Winsconsin descobriram recentemente que áreas verdes ajudam a evitar estresse, depressão e ansiedade e pessoas vivendo em regiões de floresta são mais felizes do que as que moram em cidades cinzentas.
(Imagens: fotografias de Enrico Natali)

Dengue e meio ambiente urbano

sábado, 3 de maio de 2014
"O filosofar de Kierkegaard tem um caráter introdutório, provisório, preparatório, porque Kierkegaard nega a todo texto filosófico, inclusive aos seus próprios, o direito de poder se passar por portador da verdade."  -  Boris Groys  -  Introdução à antifilosofia

Em meados de março de 2014 o Ministério da Saúde divulgou dados, informando queda de 80% nos casos de dengue no primeiro bimestre do ano em comparação com 2013, ano que em foram notificados dois milhões de casos – o maior número até agora. A boa notícia, no entanto, teve curta duração já que em início de abril foi detectado um aumento de 55% nos casos da doença na cidade de São Paulo.
Não se tem certeza da origem da doença, mas há suspeita de que esta se espalhou pelo mundo a partir da África, já que o mosquito transmissor da dengue Aedes aegypti é originário deste continente. Existem casos de epidemias com características semelhantes à dengue, ocorridas na China do século V; e no Egito, Índia, Indonésia e Estados Unidos, todas no final do século XVIII. Descrições fidedignas da doença aparecem em meados dos anos 1950, no Sudeste Asiático, no Pacífico Sul, na América Latina, nas Caraíbas e na África. Atualmente, com a rápida circulação de pessoas e produtos in natura (frutas, legumes e verduras) a transmissão da doença é cada vez mais rápida e extensa, bastando que existam condições propícias para a procriação do inseto.
No Brasil a doença já existe provavelmente deste o período colonial, quando navios traficantes de escravos, vindos da África, trouxeram o mosquito. Depois disso, ao longo dos séculos XVIII, XIX e início do XX, surtos de dengue ocorreram em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. O médico sanitarista Oswaldo Cruz deu início a um programa de combate ao mosquito no início do século XX, no Rio de Janeiro, e nos anos 1950 o governo federal anunciou a erradicação do mal no Brasil. No entanto, a partir dos anos 1980 a doença volta a se espalhar, principalmente no Rio de Janeiro e no Nordeste. Atualmente, com o gradual aumento da temperatura média provocada pelas mudanças climáticas, a área de abrangência da dengue vem aumentando, atingindo até os estados da região Sul.  
Segundo os infectologistas, existem quatro sorotipos do vírus da dengue no País. Cada um deles pode sucessivamente infectar a mesma vítima – fato que faz com que aumente gradualmente o índice de óbitos provocados pelo mal. Pesquisadores brasileiros fizeram um estudo sobre a doença entre 2000 e 2010, com o objetivo de compreender seu desenvolvimento. O estudo mostrou, por exemplo, que entre 2000 e 2010 mais de 8,5 milhões de pessoas foram infectadas. Destes casos, 221 mil se tornaram graves, resultando em três mil mortes. Neste período o Brasil foi o país com maior numero de casos da doença em todo o continente americano.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) há anos insiste na estreita relação entre a proliferação da dengue e a situação sanitária do país. Esgotos não tratados a céu aberto, acúmulo de lixo em ruas e lixões, criam o ambiente propício para a reprodução do mosquito Aedes aegypti. Com relação a estes dois aspectos, é chover no molhado falar mais uma vez das sofríveis condições do saneamento – tratamento de água e de esgotos – e da gestão dos resíduos urbanos no País. Outro fator que contribui para a proliferação do mosquito é o desrespeito às normas técnicas de construção em imóveis, fato comum na maior parte das grandes cidades. Lajes, “puxadinhos”, construções inacabadas e mal executadas, também se tornam criadouros do inseto, espalhando a doença. A dengue tem origens principalmente nas péssimas condições ambientais urbanas.
(Imagens: fotografias de Ikko Narahara)

Ação humana e desaparecimento de espécies

sábado, 26 de abril de 2014
"Assim Diógenes dizia que 'se se quer encontrar salvação, deve-se ter bons amigos e ardentes inimigos, porque os primeiros vos dão lições e os segundos vos censuram.' "  -  Plutarco  -  Como distinguir o amigo do bajulador

Todos os fenômenos climáticos provocam impactos nos ecossistemas. Aumento da temperatura, redução dos índices pluviométricos, queda da temperatura; são eventos que podem influir no modo de vida das espécies, interferindo em seus hábitos alimentares, ciclo reprodutivo e capacidade de sobrevivência dos indivíduos novos. Na complexa cadeia da vida, fatores abióticos (aspectos químicos e físicos de um ambiente) e bióticos (outras espécies vivas) contribuem na formação, no desenvolvimento e desaparecimento das espécies vivas.
Desde seu surgimento sobre a Terra, há 3,8 bilhões de anos na forma de microorganismos unicelulares, a vida sempre teve que se adaptar aos mais diversos ambientes. Muitas vezes, no entanto, quando as mudanças ocorreram de forma rápida e ampla, afetando um grande numero de ecossistemas, as espécies desaparecem em larga escala. Exemplo disso é o que ocorreu no período geológico do Permiano, há cerca de 250 milhões de anos, quando mais ou menos 95% das espécies marinhas e 70% das espécies terrestres foram extintos em poucos milhões de anos. O cataclismo foi o maior fenômeno deste tipo, sendo chamado pelo paleobiologista D.H.Erwin como “a mãe de todas as extinções em massa”. Fenômenos deste tipo felizmente não são frequentes, tendo ocorrido sete vezes ao longo dos 3,8 bilhões de anos da história da vida terrestre. Por outro lado, a formação de novos ecossistemas com espécies adaptadas ao novo ambiente não ocorre em curto espaço de tempo.
A maior parte dos desaparecimentos de espécies é chamada de extinção de fundo, ocorrendo permanentemente, dia a dia, em todos os cantos do planeta, provocando a lenta e constante eliminação de espécies animais e vegetais. Lembrando que ao mesmo tempo se dá a gradual diferenciação de indivíduos, proporcionando o surgimento de novas espécies, que por sua vez vão ocupar os nichos biológicos deixados pelas espécies extintas.
Em pequena escala isto está ocorrendo hoje, nos rios e reservatórios que formam o Sistema Cantareira, que abastece com água grande parte da cidade de São Paulo e alguns municípios vizinhos. Segundo cientistas, com o procedimento de esgotamento de água do fundo das represas, o chamado “volume morto”, serão parcialmente destruídos diversos ecossistemas que existem nestes rios e lagos. “A alteração que essa queda de volume de água nos rios e represas e a possibilidade de se mexer no volume morto do Cantareira podem provocar nesse meio ambiente, é sem precedentes e só poderá ser avaliada no futuro”, afirma a bióloga e professora da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP) Silvia Regina Gobbo. Com a redução do volume de água aumenta a temperatura, reduz-se o oxigênio dissolvido e cresce a concentração de poluentes; fatores que somados potencializam a mortandade de espécies e ecossistemas.
O gradual desaparecimento da maior parte das espécies que vivem no Sistema Cantareira já se manifesta por acontecimentos que parecem sem importância, mas que se tornando freqüentes podem acelerar o processo. Exemplo disso é a mortandade de cascudos – peixes bastante resistentes – ocorrida em fevereiro no rio Camanducaia, na altura da cidade de Amparo e a recente morte de cerca de 20 toneladas de peixes, entre os quais espécies como o dourado, a corimba e a piapara. Especialistas dizem que a extinção de centenas ou milhares de espécies deste ecossistema pode não ter volta (pelo menos por enquanto) - para azar nosso e dos ecossistemas.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

Novo relatório do IPCC ratifica mudanças climáticas

sábado, 19 de abril de 2014
"Considerando-se nossos cinco séculos de história, a extensão física e o volume populacional deste país, a nulidade de nossa contribuição espiritual chega a ser um fenômeno espantoso, sem paralelo na história do mundo."  -  Olavo de Carvalho  -  O mínimo que você precisa saber para não ser idiota

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), órgão mundial para acompanhamento das mudanças do clima terrestre, publicou recentemente mais um documento. O estudo intitulado de “Mudanças Climáticas 2014: impactos, adaptação e vulnerabilidade”, contou com a colaboração de 309 cientistas de diversas áreas, de 70 nacionalidades. Elaboradas e divulgadas periodicamente, as pesquisas da instituição apontam novos fatos, que comprovam cada vez mais o aquecimento da atmosfera terrestre causado pela ação humana. Apesar de ainda existirem setores da economia, da política e da ciência que colocam em dúvida o aquecimento do planeta, Michel Garrand, secretário da Organização Meteorológica Mundial (OMN) afirma que “não há nenhuma dúvida de que o clima está mudando e que 95% destas mudanças devem-se à ação humana”.
Os autores dividem as mudanças em eventos que deverão ocorrer em médio prazo, até 2030 ou 2040, e os que podem ocorrer no longo prazo, entre 2080 e 2100. No final deste período, a temperatura média da Terra deverá ter aumentado de 2º a 4º Celsius. Já em médio prazo deverá aumentar gradativamente a acidez dos oceanos, fato que já começa a ser percebido atualmente. O fenômeno afetará a sobrevivência de diversos organismos marinhos e causará grandes estragos nas formações de corais. Com isso, será prejudicada uma diversificada fauna que vive nos corais, incluindo espécies que utilizam os bancos de corais como local de alimentação e procriação.
O impacto do aquecimento na produção de grãos também será bastante forte, podendo causar o aumento do preço dos alimentos e fome em várias regiões do globo. O estudo prevê que as culturas de milho, arroz e trigo – cereais que constituem a base alimentar de 80% da humanidade – serão cada vez mais afetados pelo calor e poderão apresentar quebras de safra de 25% até 2050.
Relatórios anteriores do IPCC já divulgaram aspectos das mudanças climáticas que se tornarão cada vez mais frequentes nas próximas décadas, como o derretimento de geleiras e a ocorrência de fenômenos climáticos extremos; furacões, secas e chuvas torrenciais. No mais novo relatório foi dado ênfase aos aspectos sociais do fenômeno, principalmente as migrações causadas por catástrofes climáticas. Falta ou excesso de água deverá forçar milhões de pessoas a deixarem suas regiões de origem, aumentando a pressão populacional sobre cidades e tornar extensas áreas de agricultura temporariamente improdutivas. Estes fenômenos ocorrerão principalmente em países localizados nas regiões tropicais do planeta que, coincidentemente, são as mais pobres e as mais populosas. Assim declara Kaisa Kosonen, ativista da ONG Greenpeace, que “pela primeira vez o IPCC tem um capítulo inteiro sobre segurança humana, que fala sobre conflitos violentos, migração. As mudanças climáticas não são só um problema para os ursos polares, recifes de corais e a floresta tropical, mas é sobre nós.”
A Europa já prepara um plano para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa em 40% até 2030. Segundo o cientista do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), José Antonio Marengo Orsini, o Brasil também precisa colocar a questão do clima em sua agenda política. No entanto, a depender da linha de atuação do atual governo, parece que uma política nacional de mudanças climáticas mais efetiva tem pouca importância.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

A crítica da modernidade

sábado, 12 de abril de 2014
"A Terra real não precisa ser salva. Pôde, ainda pode e sempre será capaz de se salvar, e agora está começando a fazê-lo, mudando para um estado bem menos favorável a nós e outros animais. O que as pessoas querem dizer com o apelo é 'salvar o planeta como o conhecemos', e isso agora é impossível."  -  James Lovelock  -  Gaia: alerta final

A modernidade foi um período na história cultural da humanidade que se estendeu aproximadamente da Revolução Francesa, no final do século XVIII, até meados do século XX. Estes critérios não são unânimes, porque alguns historiadores e sociólogos consideram o século XVI como início deste período. Outros afirmam que a modernidade ainda não terminou e que a expressão “pós-moderno” não tem razão de ser.
A divisão da história em períodos (Antiguidade, Idade Média e Modernidade), iniciada pelo historiador alemão Christoph Cellarius (1634-1707), não é isenta de influências ideológicas, representando interpretações de períodos da história da humanidade baseados em paradigmas culturais. No entanto, para seguir a interpretação majoritária, consideraremos que a modernidade teve início com a Revolução Francesa e terminou na metade do século XX, por razões que explicaremos ao longo do texto.
O ponto principal da discussão sobre a modernidade tem a ver com a “mentalidade moderna”; uma maneira diferente de encarar o mundo; uma nova cultura – em comparação e oposição à mentalidade e cultura medieval. A temática não é nova e já ocupou os enciclopedistas, que foram os principais propagandistas da idéia de que a Idade Média foi um período de ignorância e opressão, o “período das trevas”. Sob esta perspectiva, pode-se considerar que o surgimento do protestantismo, da imprensa e o contato com as novas culturas das terras recém descobertas no século XVI, já contribuíram para a formação de uma mentalidade moderna.

Outro grande marco na formação da modernidade foi o surgimento da moderna ciência com Francis Bacon (1561-1626) e Galileu (1564-1642) junto com o desenvolvimento da matemática (geometria analítica) e da moderna filosofia (metafísica) por Descartes. A física newtoniana, que tanto influenciou o filósofo Voltaire – um dos inspiradores da Revolução Francesa – também é considerada um grande marco na formação da mentalidade moderna. Na França o século XVIII vê nascer a Enciclopédie, a enciclopédia; reunião de todos os conhecimentos disponíveis à época e colocados à disposição em livros para aqueles que os podiam comprar. Teoricamente, todo o conhecimento acumulado pela humanidade – artes, tecnologias, história, ciências – estava disponível para o cidadão.
A divulgação da cultura e da educação foi uma revolução nunca vista e só ultrapassada pela Revolução Francesa, o mais importante evento político da humanidade – na perspectiva dos modernos. A revolta representou um marco no surgimento do indivíduo político; o cidadão com seus direitos, não mais passível de escravidão e opressão. Em síntese: o início do homem moderno e da modernidade.
A Revolução Francesa abria novas perspectivas para a humanidade em todas as áreas. Se, por um lado, a Igreja Católica ainda forte na França, perdia gradualmente seu poder opressor, a filosofia alemã – com Kant, Fichte, Schelling e Hegel – saudava o evento como grande marco na história e absorvia sua ideologia de valorização do homem moderno – mesmo que Hegel mais tarde ficasse desiludido com os rumos tomados pela revolução.
Além da cultura – chamada de superestrutura pelos marxistas – também contribuíram na formação do homem moderno os inventos tecnológicos e as mudanças na estrutura econômica (infraestrutura, segundo Marx). O mercantilismo, entre os séculos XVI e XVIII, foi responsável por modificar as estruturas sociais, aproximando povos através do comércio mundial – alguns autores localizam neste período o início de um processo de globalização das relações econômicas, culturais, ambientais, que se tornou cada vez mais acentuado até nossos dias. O desenvolvimento da economia cria novas demandas tecnológicas e propiciou o aparecimento de novos inventos, dando início à industrialização da sociedade ocidental, iniciada no final do século XVIII em cidades como Manchester e Liverpool, na Inglaterra, para daí espalhar-se para a Europa, Estados Unidos e o resto do mundo.

O avanço da industrialização da Europa e a sucessão de descobertas científicas e invenções tecnológicas aumentavam cada vez mais a fé no progresso e na gradual melhoria da condição de vida humana, pelo menos para os grupos política e economicamente dominantes – como, aliás, sempre aconteceu em todas as civilizações. Foi também nesse ambiente social e econômico que entre o final do século XIX e início do século XX surgiram ideologias que julgavam possuir a solução para todos os males da humanidade, através da instituição de novas ordenações políticas e econômicas: anarquistas, socialistas, comunistas, social democratas, fascistas e nacional-socialistas (nazistas). Havia – e ainda os há em pouca quantidade felizmente – uma vasta gama de reformadores, que imbuídos de um messianismo fanático diziam querer melhorar a condição da humana. Demonstrou a história que só seguiam seus mais baixos interesses ou, no melhor dos casos seus delírios insanos.   
Temos então, resumidamente, alguns aspectos da chamada “modernidade” fortemente valorizados (em parte até nossos dias), mas considerados grandes engodos pela crítica pós-moderna. Algumas destas falácias da modernidade incluem:                                                                                                                                                   
a) Supostos valores da modernidade: valorização do indivíduo, associado a paradigmas como democracia e direitos humanos. Crítica da pós-modernidade: o imperialismo capitalista, propiciando a exploração de países fornecedores de matéria-prima e mão de obra desde o início do século XX; países transformados em colônias; duas guerras mundiais; genocídios; Hiroshima e Nagasaki, entre outros exemplos não muito edificantes.
b) Supostos valores da modernidade: racionalidade atuando em benefício da humanidade; educação e cultura elevando o padrão de vida. Crítica da pós-modernidade: uso da ciência para fins bélicos; massificação da cultura utilizada para fins econômicos; educação como formadora de mão-de-obra; destruição dos ecossistemas e recursos naturais da Terra.
c) Supostos valores da modernidade: sistemas filosóficos e ideológicos capazes de explicar e dar um sentido às sociedades humanas e à história; ciência como detentora da verdade em substituição às religiões. Crítica da pós-modernidade: ideologias que escravizaram os povos e os indivíduos impedindo seu livre desenvolvimento; doutrinas pseudo-políticas racistas, classistas, promovendo destruição e morte: Stalin, Hitler, Pol Pot, Mao Dze Dong e outros açougueiros; ciência como forma de interpretar a realidade, sempre sujeita a mudança de paradigmas; acabaram-se as verdades.

Associar a modernidade a valores políticos, culturais, econômicos, religiosos e sociais apresentados como “modernos”, “libertadores”, “progressistas” justifica a crítica ao moderno. O futuro radiante avistado por entusiastas de todos os tipos dos séculos XVIII, XIX e parte do XX, não se concretizou. No final, depois de tantas ideologias, os valores efetivamente importantes que nos sobraram foram a democracia, que nunca será completa, e a liberdade individual do ser humano.
Que seja bem-vinda a era pós-moderna!
Referências:
Um panorama da modernidade: origem, formação e perspectivas. Disponível em: <http://www.unimep.br/phpg/editora/revistaspdf/imp29art06.pdf>. Acesso em 13/12/2013.
Modernidade. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Modernidade> . Acesso em 13/12/2013.
Mahavishnu Orchestra – The lost Trident sessions. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=C7lDW1OHK9k>. Acesso em 13/12/2013.
Periodização da história. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Periodiza%C3%A7%C3%A3o_da_Hist%C3%B3ria>. Acesso em 13/12/2013. 
(Imagens: vegetação de restinga - fotografias de Ricardo E. Rose)