Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 20 de junho de 2018


Panem et circences


Mais uma Copa de futebol se realiza. Naturalmente, a seleção do Brasil participa como uma das mais cotadas para ganhar o título (como reagiria o país se, alguma vez, a “seleção canarinho” não passasse das eliminatórias?).

A mídia está cheia de anúncios, através dos quais as empresas exploram o latente ufanismo nacionalista, tentando vender seus produtos a depauperados consumidores.

Bebidas, móveis, carros, celulares, produtos alimentícios e milhares de outros bagulhos são associados às prováveis vitórias dos nossos “soldados” nos campos de batalha da Rússia.

O país está em guerra! Nossos “soldados” lutam pela pátria! É hora de esquecermos das mazelas internas e torcermos pelo meninos de Tite!

(Imagem: gravura representando G. C. Lichtenberg)

Newsletter junho/julho/agosto 2018

sábado, 16 de junho de 2018

(publicado originalmente no site www.ricardorose.com.br)

O que dizer das perspectivas do setor ambiental brasileiro para os próximos três meses?
Aliás, o que falar das perspectivas econômicas para os próximos três meses e para o ano de 2018, já que o setor ambiental está ligado ao crescimento da economia? Hoje, 2 de junho, ainda vivemos os efeitos da recente greve dos caminhoneiros, com falta de gasolina e diesel em muitos postos, desabastecimento de produtos para a população, matérias primas para as empresas e muitas outras consequências em toda a economia.

A paralisação dos transportadores contou com o apoio de toda a população, pois representou um protesto coletivo contra tudo de errado que o Estado brasileiro vem fazendo há muitos anos, conduzido por uma sucessão dos governos. Impostos altos e péssimos serviços; incompetência na elaboração, planejamento e execução de políticas públicas; aumento dos gastos e favorecimento de aliados, grupos de pressão, asseclas e financiadores. Enfim, um Estado que há muitas décadas vem favorecendo grandes grupos econômicos, explorando a classe média e dando apenas migalhas à maior parte da população. Entre os 193 países existentes no planeta, somos a oitava ou nona maior economia e vivemos em tais condições!

No início do ano, em pleno clima de “Agora vai!” os economistas previam um crescimento de 2,8% para a economia brasileira em 2018. O desemprego estava em queda e alguns indicadores – produção industrial, agronegócio, inflação baixa e taxa de juros – apontavam para uma lenta recuperação da economia. Mas, já em março voltou o desemprego, a economia diminuiu seu ritmo de crescimento e já se antevia uma expansão menor do PIB. A greve dos caminhoneiros jogou ainda mais água na fervura e definitivamente as coisas desandaram: a previsão de crescimento da atividade econômica é agora entre 1,8% a 1,2%.

Com toda essa confusão e desalento – alguns estão chamando o Brasil de “o país do desalento” – não há muito o que se prever na área ambiental. O governo federal e os governos estaduais e municipais não dispõem de recursos para implementarem a Política Nacional de Resíduos Sólidos. A situação na questão dos resíduos ainda é a mesma da descrita pela jornalista Sucena Shkrada Resk em artigo publicado no blog “Cidadãos do Mundo” em 26/01/2018: “O Ano era 2010, e a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) trouxe a esperança de que a gestão pública brasileira, de uma forma geral, iria se redimir dos sucessivos erros no quesito infraestrutura, ao longo de décadas. Mas do papel à realidade, chegamos em 2018, e constatamos que existe uma cultura de inoperância resistente que fragiliza a efetivação dessas mudanças em boa parte dos municípios. A prova está na permanência de cerca de 3 mil lixões ou aterros controlados espalhados pelo território nacional em 3.331 municípios, que recebem cerca de 30 milhões de toneladas de resíduos urbanos anualmente (41,6%). Os dados de projeção fazem parte do documento Panorama de Resíduos Sólidos 2016, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública (Abrelpe). Chorume, gases tóxicos e trabalhadores em condições insalubres compõem este cenário obsoleto ainda em vigor.”

Somente a logística reversa em fase de implantação em empresas de grande porte não resolverá a questão da gestão dos resíduos. Centenas de milhares de micro e pequenas empresas não dispõem de conhecimento e recursos – financeiros e técnicos – para se prepararem para a chegada da lei. Por outro lado, mesmo nos municípios, a situação é a mesma. Enfrentando problemas de arrecadação, diminuição no repasse de verbas e falta de quadros qualificados, a grande maioria dos 5.570 municípios não conseguirá implantar a política de resíduos. É esperar para ver – e nada acontecerá.

Em final de 2017, pela terceira vez, o governo federal prorrogou mais uma vez o prazo de apresentação dos Planos Municipais de Saneamento Básico, previstos na Lei do Saneamento. De acordo com a lei, os municípios que não tiverem apresentado um plano de gestão de seu saneamento, agora até o final de 2019, serão proibidos de receberem recursos federais. Até o momento apenas 30% dos municípios apresentaram seus planos.

Para poder oferecer cobertura de saneamento em todo o país, o governo teria que investir o equivalente a R$ 16 bilhões a cada ano, durante um período de 20 anos. O objetivo parece muito difícil de ser alcançado, levando em conta que em 2018 o governo federal só pôde destinar R$ 7 bilhões para o saneamento.

Em tempos de crise a questão ambiental é colocada em segundo ou terceiro lugar. Como dizem: “Quando o orçamento está no vermelho, ninguém pensa no verde.” Assim, a vasta gama de temas que deveriam constar da agenda de governos, como a questão da poluição atmosférica, a preservação de recursos hídricos e florestais, a recuperação de áreas contaminadas, matas ciliares e manguezais, tudo fica para amanhã. Que amanhã?   
(Imagem: pintura de Edward Munch)

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 13 de junho de 2018


Pega ladrão! 


Houve uma época em que alguém gritando "Pega ladrão!" despertava a atenção das pessoas. Se no passado as pessoas tinham a intenção de pegar o ladrão, sabendo que estavam em maioria e que tinham mais poder, hoje a situação se inverteu. Poucos atenderiam ao chamado. A maior parte teria medo de que o criminoso estivesse armado ou de que pudesse se vingar, caso fosse preso. A proteção que a sociedade dá ao indivíduo é insuficiente e ineficiente.

Parece que atualmente os bandidos têm mais força do que a sociedade; por fraqueza moral das próprias pessoas ou inépcia dos mecanismos de defesa que deveriam proteger a própria sociedade. O que houve?

Lendo as crônicas de Lima Barreto, escritor carioca do início do século XX, vemos que o Brasil nem sempre foi assim. Rio de Janeiro, então a capital e maior cidade do pais, tinha áreas ricas e pobres, os subúrbios. Num destes morava Lima Barreto. Relatava que a vida era tranquila e, mesmo voltando tarde para casa, nunca fora perturbado por bandidos. Em outras cidades, provavelmente, o dia a dia era mais tranquilo ainda.

O que aconteceu à sociedade brasileira, para que em menos de cem anos se transformasse em uma coletividade onde domina a insegurança, o medo, o crime, a violência e a morte? A partir de que ponto de nossa história nos transformamos em um povo dominado pelo medo e crime?

Qual será o efeito destes longos anos de insegurança sobre gerações seguidas de cidadãos e de que modo isso afetará o futuro do país?

(Imagem: gravura representando G. C. Lichtenberg)

Notas sobre o mercado ambiental brasileiro

sábado, 9 de junho de 2018
"A filosofia bem sucedida (ou 'verdadeira') já não definida por uma explicação (ou representação) da totalidade do ser que seja suscetível de verdade [truth-apt], mas que por sua capacidade de dar conta das ilusões, ou seja: de explicar não apenas por que ilusões são ilusões mas também por que elas são estruturalmente necessárias e invitáveis e não simples acidentes."   -   Markus Gabriel e Slavoj Zizek   -   Mitologia, loucura e riso


As primeiras indústrias surgiram no Brasil no final do século XIX, com o aparecimento de tecelagens e metalúrgicas. Durante o início do século XX o numero de indústrias cresceu, principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo. Ao final dos anos 1930 o País já possuía um parque industrial capaz de atender as necessidades básicas do mercado consumidor interno. A industrialização inicia-se efetivamente a partir da década de 1950, quando o Brasil já dispõe de uma pequena indústria de base, estruturada de modo a sustentar o crescimento de outros setores. Fortemente impulsionada pela indústria automobilística e seus fornecedores, seguiu-se toda uma cadeia produtiva de metalurgia, produção de máquinas e equipamentos. Aliado a estes setores, ocorre a expansão da infraestrutura (transportes e geração de energia) e a construção das primeiras refinarias, base do desenvolvimento da indústria petroquímica na década seguinte. Ainda durante este período, o governo de Juscelino Kubitschek institui o Plano de Metas, cujos principais objetivos eram: combate ao subdesenvolvimento via industrialização, diversificação da estrutura produtiva, reforma agrária, distribuição de renda, planejamento econômico e reforma administrativa fiscal. Concede-se às multinacionais prazos de isenção fiscal, terrenos, infraestrutura e crédito oficial. Muitas delas se instalam com menos de 20% de investimento efetivo de capitais. Ocorre assim forte fluxo de capitais, sobretudo dos EUA, da Alemanha, do Japão e da França. O PIB (Produto Interno Bruto) cresce em média 7% ao ano, contra 5,2% no período 1945-1955. A produção industrial aumenta 80% em 1955-61, a siderurgia 100%, a indústria mecânica 125%, a elétrica e de comunicações 300% e o recordista setor de transportes cresce 600%.

Paralelamente ao processo de industrialização também sucedem grandes mudanças no campo, a partir da década de 1960. A incorporação de uma maior extensão de terras agricultáveis, através da expansão da fronteira agrícola em estados como Paraná, Goiás e Mato Grosso, provoca uma demanda maior por equipamentos e insumos agrícolas, iniciando o processo de mecanização do campo. Este fato, aliado à grande oferta de empregos nos centros urbanos, fortalece bastante o êxodo rural, que já vinga ocorrendo desde a década de 1940, mas se tornará mais acentuado entre os anos 1950-1980. Neste processo haverá um deslocamento de cerca de 30 milhões de pessoas do campo para as cidades. No início dos anos 1950 aproximadamente 70% da população brasileira ainda vivia no campo e 30% nas cidades. Apenas trinta anos depois, esta proporção havia se invertido. É preciso não subestimar o impacto que estas migrações causaram nas grandes metrópoles brasileiras, já que os investimentos na expansão da infraestrutura não foram suficientes para atender a crescente demanda por serviços públicos, vindo a provocar o colapso da qualidade de vida nas grandes regiões metropolitanas.

Durante este período da história do país, chamado de "milagre econômico", a questão da degradação ambiental não era discutida. O governo da época, formado por militares e tecnocratas, estava mais interessado em aumentar a produção industrial e na ocupação de terras virgens (como no caso da construção da rodovia Transamazônica), do que na proteção dos recursos naturais. A falta de preocupação ambiental era compreensível para a época, já que o país tinha que crescer e gerar riqueza para a maior parte de sua população. Em consequência desta orientação, inexistia praticamente uma legislação ambiental, não havia órgãos de controle ambiental e a ação de ONG's era fortemente cerceada. A opinião pública não tinha acesso a informações e desconhecia a degradação ambiental em andamento - a proteção dos recursos naturais provavelmente não passaria pela cabeça da maior parte dos brasileiros à época.

Aproveitando a completa ausência de controle ambiental, o setor privado – nacional e estrangeiro – também não realizava quaisquer investimentos para atenuar o impacto de suas atividades industriais. O setor público, principalmente governos estaduais e municipais, sempre priorizou o fornecimento de água potável, já que tais investimentos eram imediatamente percebidos pela população, geravam receita e tinham um custo de instalação menor do que o tratamento de esgotos domésticos. Quanto aos resíduos domésticos ou indústrias, não havia legislação específica ou diretrizes técnicas, e desta maneira eram destinados às valas ou "lixões", construídos de modo primitivo, sem qualquer tipo de proteção do solo.

No final da década de 1970, a situação econômica mundial e do Brasil sofrem uma grande mudança. Os capitais de investimento, ainda fartos no mercado mundial antes da segunda crise do petróleo (1979), tornaram-se escassos. Os países ricos redirecionam seus investimentos, há uma retração geral dos mercados em desenvolvimento e a economia brasileira deixa de crescer nos níveis médios de 5% ao ano, registrados nos 15 anos anteriores (1964-1979). No quadro político interno tem início o processo de redemocratização, que culmina com a votação da Constituição em 1988 e a convocação das eleições presidenciais diretas em 1989.

Com relação ao meio ambiente, em meados da década de 1970 já se esboça um maior controle, através da criação de leis mais específicas e do surgimento dos órgãos de controle ambiental. Esta preocupação, mesmo que ainda incipiente, culmina com a votação de diversos artigos na Constituição, versando especificamente sobre a proteção ao meio ambiente. 

A abertura da economia brasileira que tem início no final dos anos 1980 e se amplia a partir de 1990 com o governo Collor, também trouxe benefícios ambientais. As empresas brasileiras tiveram que melhorar sua produtividade para poder enfrentar a concorrência dos produtos importados. O aumento da produtividade também implicava um melhor uso das energias e insumos, reduzindo, desta forma, os resíduos perdidos na produção. Empresas exportadoras também foram pressionadas por seus compradores estrangeiros a implementarem sistemas de produção mais limpos, já que os consumidores dos países ricos preferiam produtos fabricados por processos ambientalmente corretos. Com mais informações disponíveis, os consumidores e a opinião pública brasileira, passaram a exigir melhores produtos e condições de vida, com qualidade ambiental. O número de ONG's também aumenta rapidamente, atuando em diversos segmentos, desde programas sociais que envolvem iniciativas de reciclagem de materiais, ações populares exigindo o tratamento do esgoto doméstico, até movimentos por moradias e reforma agrária. Os conceitos de "desenvolvimento sustentável" e "tecnologias limpas" – discutidos durante o Encontro Internacional sobre Meio Ambiente realizado no Rio de Janeiro, em 1992 (ECO 92) – passaram a ser gradualmente incorporados às estratégias das grandes empresas brasileiras e estrangeiras e a muitos setores do governo federal.

O mercado ambiental brasileiro é o maior da América Latina. Devido a sua população e extensão territorial, o governo brasileiro precisa fazer grandes investimentos em saneamento e gestão de resíduos, além de outros setores. Até o momento uma grande parte da população - cerca de 45% - ainda não tem esgoto tratado. Na questão dos resíduos domésticos, a maioria dos municípios ainda não dispõe de aterros sanitários corretamente instalados.

A indústria ambiental brasileira surgiu durante os anos de 1950, como resposta a demanda que se iniciava no setor público (prefeituras) e privado, principalmente na área de tratamento de água e efluentes. Os poucos fabricantes de equipamento que existiam no mercado ainda não estavam especializados e forneciam equipamentos para processos industriais, assim como para o tratamento de água e efluentes. A demanda existente no mercado ainda era muito pequena e deste modo não existia a especialização. Equipamentos não disponíveis eram importados ou fabricados por empresas já atuando no setor, dependendo do volume da demanda. O desenvolvimento da indústria ambiental ocorreu em grande parte devido às necessidades específicas cada vez mais crescentes da indústria, apesar de o setor público sempre ter sido o maior comprador de equipamentos neste segmento.

O mercado da indústria de saneamento tomou impulso a partir da década de 1970, quando o governo federal instituiu o PLANASA (Plano Nacional de Saneamento), criando as companhias estaduais de saneamento. Estas companhias receberam as concessões das prefeituras para assumirem os serviços de tratamento de água e de esgoto das cidades. Deste modo, as companhias estaduais de saneamento acabaram por centralizar estes serviços, tornando-se importantes interlocutores para as empresas privadas, fabricantes de equipamentos e consultorias fornecedoras de serviços especializados. Atualmente existem 27 companhias estaduais de saneamento, atendendo cerca de 3.800 municípios. Os 1.700 municípios restantes possuem serviços de tratamento de água e esgotos autônomos. 

A demanda do mercado é suprida por fabricantes estabelecidos no Brasil; empresas de capital nacional ou multinacional. Como o mercado de equipamentos de saneamento estava fechado às importações até 1990, desenvolveu-se internamente uma forte base industrial, capaz de suprir a maior parte das demandas de equipamentos e serviços do setor. Existem nichos de mercado, como instrumentação de controle e monitoramento, análise e automatização, que ainda não são supridos pela indústria nacional em sua totalidade. Estas tecnologias são supridas por importações, realizadas através de representantes brasileiros de fabricantes estrangeiros.

O mercado para as tecnologias para gerenciamento de resíduos desenvolveu-se em época posterior ao do das tecnologias de tratamento de água e de efluentes. A maior parte da legislação relacionada com o transporte, manuseio, recuperação e destinação final de resíduos só foi desenvolvida durante a década de 1980. Por outro lado, o transporte e a disposição dos resíduos domésticos são de responsabilidade das prefeituras, que estão em situação deficitária em sua maioria, impossibilitadas de realizarem novos investimentos. Para dar uma destinação correta a seus resíduos, as empresas privadas se utilizam em principalmente da oferta de serviços e equipamentos já existente no mercado nacional. A exemplo do mercado de saneamento, o setor de gerenciamento de resíduos é dominado por empresas brasileiras, principalmente quanto aos equipamentos. Existem algumas empresas de consultoria atuando em associação com empresas estrangeiras, mas sua quantidade ainda é muito diminuta em relação ao potencial do mercado.

O mercado ambiental brasileiro continua em constante evolução. A nova legislação referente ao gerenciamento, a Política Nacional de Resíduos Sólidos está criando novas mudanças no mercado, abrindo novas perspectivas de negócios para as empresas. Igualmente as tecnologias de energias renováveis estão se tornando cada vez mais representativas na matriz energética. O grande impulso, no entanto, virá da melhoria do controle ambiental e de uma maior conscientização por parte da população, exercendo papel fiscalizador sobre as ações do governo.
(Imagens: pinturas de Herbert Kornfeld)

Notas rápidas (Homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 6 de junho de 2018



"Deus me proteja de todo o mal" 

A toda hora se vê esta frase em colantes nos automóveis. São muitos os que pedem proteção, aparentemente contra os mais variados males.

Não é comum ver tais pedidos nos carros de outros países, especialmente naqueles que detêm um Produto Interno Bruto (PIB) comparável ao do nosso país. Países iguais ao nosso na riqueza, pelo menos de acordo com as estatísticas, mas desiguais na desgraça.

Por que será?

A impressão que se tem é que estas nações não são assoladas por tantos flagelos. Apenas têm que enfrentar terremotos, tsunamis, nevascas, furacões, secas e eventuais crises econômicas. Não são castigados com as maldades humanas que nos assolam. 

Por aqui parece que a coisa é mais brava. Há muito mais mal contra o qual é preciso pedir proteção a Deus.

Mas, alguns têm seu pedido atendido. A maioria não!

(Imagem: gravura representando G. C. Lichtenberg)

Notas sobre o desenvolvimento da questão ambiental

sábado, 2 de junho de 2018
"- Quer dizer que não há esperança?
  - Sim, há muita esperança. Mas não para nós." 
                       Gustav Janouch   -   Conversas com Kafka

A atividade humana vem influindo no meio ambiente desde a Antiguidade. Nas últimas décadas, arqueólogos encontraram cada vez mais indícios de que diversas cidades da Mesoamérica pré-colombiana foram abandonadas, devido à exaustão dos recursos hídricos, provocada pelo desflorestamento da região. Hoje, sabe-se que grande parte das regiões costeiras do Mar Egeu foi cobertas por pinheiros e carvalhos, cortados para construção de embarcações das frotas marítimas de fenícios, cretenses, gregos e romanos. A destruição dos ambientes naturais ocorre ao longo de toda a história; passando pelo avanço da fronteira agrícola na Europa durante a Idade Média, pela extração de madeiras nas Américas e especiarias na Ásia, até o estabelecimento de extensas áreas de monocultura, derrubando e vegetação original de muitas regiões do planeta.

Com o desenvolvimento da máquina a vapor no final do século XVIII, com aplicações na indústria têxtil, na mineração e no transporte em geral, utilizando-se do carvão mineral como principal fonte energética, o impacto ao meio ambiente passou a aumentar exponencialmente. Iniciada na cidade de Manchester, e a princípio restrita à Inglaterra, a mecanização das atividades industriais e de transporte rapidamente se estendeu ao continente europeu. Em poucos anos a França e a Alemanha passam a dominar e desenvolver diversas tecnologias, baseadas na utilização do carvão mineral, bastante abundante e de fácil extração na região.

Associada à industrialização, ocorre o fenômeno da migração de grandes massas humanas do campo para a cidade. Procurando melhores oportunidades de vida, milhares de camponeses e trabalhadores sem especialização deixam o campo e as pequenas cidades, para migrar para as cidades maiores, onde esperavam encontrar trabalho nas indústrias. A vida na cidade era, todavia, pior do que aquela que deixaram para trás, no campo. Charles Dickens, escritor inglês que melhor retratou estes aspectos da sociedade inglesa durante o século XIX, descreve a vida destes operários; homens, mulheres e crianças, submetidos a jornadas de trabalho de até 16 horas, ganhando salários baixíssimos e vivendo em péssimas condições de higiene e conforto. O acúmulo de indústrias, moradias – na realidade imensos cortiços – e de outras atividades em um pequeno espaço, queimando carvão para diversos fins (acionamento de máquinas, aquecimento, cozimento de alimentos), gerava muita fumaça, provocando diversas doenças respiratórias.

Este, porém, não era o único problema ambiental urbano à época. Havia a contaminação da água, já que inexistiam sistemas de coleta e tratamento de esgotos. O economista Barrington Moore Jr., em seu livro Aspectos morais do crescimento econômico relata que surtos de cólera mataram centenas de pessoas na década de 60 do século XIX, em Londres. Isto fez com que a prefeitura se convencesse da necessidade de construir um sistema de coleta e tratamento desses resíduos. "A partir daí, as famílias puderam instalar banheiros em suas residências e diminuíram os casos de cólera", relata o autor. No decorrer da segunda metade do século XIX e início do século XX, todas as grandes aglomerações urbanas da Europa Ocidental passaram a coletar e a tratar os esgotos domésticos. Surtos de cólera, como, por exemplo, os ocorridos nos últimos anos do século XIX na cidade de Hamburgo, tornaram-se cada vez mais raros.

Com o desenvolvimento tecnológico, o século XX trazia novos problemas ambientas: a poluição provocada pelas emissões atmosféricas, resíduos e efluentes industriais. Na publicação Meio Ambiente: Acidentes, Lições e Soluções, dos engenheiros Cyro E. do Valle e Henrique Lage, são listados, entre outros fatos, alguns dos principais acidentes ambientais ocorridos no século XX:

1914 / 1918: Gases tóxicos na guerra que matam cerca de 100.000 pessoas;
1928: Acidente com gás fosgênio mata dez pessoas e fere 150 em Hamburgo;
1930: Uma ocorrência de smog próximo a Liége causa cem vítimas fatais;
1932: Indústria química em Minamata (Japão) passa a lançar mercúrio no mar;
1951: Indústria do estado de Ohio lança 200 t. de poeira radioativa na atmosfera;
1952: Mercúrio lançado ao mar em Minamata começa a fazer vítimas fatais;
1952: Smog causado por queima de carvão causa quatro mil mortes em Londres.

A lista apresentada pelos autores é bastante extensa, mostrando que os impactos provocados pelas indústrias – na época ainda sem efetivo controle ambiental de suas atividades – foram bastante danosos. A mobilização da sociedade, forçando governos a criarem uma estrutura legal para regulamentar as atividades industriais, ainda não havia ocorrido.

Após a Segunda Grande Guerra diversas regiões do globo, notadamente os Estados Unidos, a Europa e o Japão (estes dois últimos com recursos do Plano Marshall) apresentam um crescimento de suas atividades econômicas, sem precedentes. Aumenta a atividade industrial e com ela o fluxo mundial de matérias-primas, fontes energéticas (principalmente petróleo) e produtos acabados. Paralelamente, inicia-se a "Revolução Verde" na agricultura, baseada na mecanização das atividades e no uso maciço de fertilizantes e agrotóxicos a fim de aumentar a produtividade das safras agrícolas. Neste contexto de intensas atividades econômicas, o meio ambiente recebe cargas cumulativas de resíduos e efluentes, já que a maior parte dos países não dispunha de leis ambientais abrangentes e específicas.

No entanto, fatos novos começam a mudar este panorama. Em 1962 a bióloga norte-americana Rachel Carson publica o livro Primavera Silenciosa, que analisa o efeito dos inseticidas no meio ambiente. Em um trecho de seu livro Carson escreve: "Pela primeira vez na história do mundo, agora todo ser humano está sujeito ao contato com substâncias químicas perigosas, desde o instante em que é concebido até sua morte." Pouco depois, em 1968, é criado o Clube de Roma, formado por cientistas dedicados a estudar o problema da fome mundial e a degradação da natureza provocada pelas diversas atividades humanas. Com relação à falta de alimento em vastas regiões da Ásia, África e América Latina, o Clube de Roma fez, baseado em estudos da época, diversas previsões catastróficas que não acabaram se concretizando. Todavia, parte de suas atividades serviu de alerta para muitos governos e instituições, sobre os rumos que o sistema industrial estava tomando.

No aspecto social, surgem nos Estados Unidos e na Europa diversos movimentos, com diferentes orientações ideológicas, que colocam em questão o sistema econômico e a organização social vigente, base do que se chamava o American way of life (modo de vida americano), cuja grande ênfase estava no aumento do consumo e da produção. Fizeram parte destas correntes de opositores ao regime os vários movimentos de contracultura que dos Estados Unidos se espalharam pelo mundo. Alguns anos depois, muitos personagens remanescentes destes grupos vieram a constituir as primeiras ONG's (Organizações Não-Governamentais) atuando no setor ambiental, como a Greenpeace e a Worldwatch Institute, entre outras.

A década das grandes mudanças no setor ambiental foi a de 1970. Além da realização de diversas convenções internacionais, que iriam estabelecer as bases para a regulamentação de muitas atividades (transporte marítimo de produtos perigosos, proteção às espécies ameaçadas, controle de emissões, entre outras), foram criados órgãos ambientais e estabelecidas legislações sobre resíduos, inicialmente nos países industrializados. A legislação e as normas técnicas ambientais destes países tornaram-se cada vez mais restritivas, forçando a indústria a introduzir procedimentos que reduzissem a geração de resíduos, efluentes e emissões, passando assim a um melhor aproveitamento dos seus recursos. O responsible care iniciado pela indústria química, é um exemplo de tais iniciativas. Na Alemanha, por exemplo, a partir da década de 1970, a água de refrigeração empregada pela indústria passou a ser utilizada pelo menos por três vezes, antes de ser descartada. Segundo a publicação From Ideas to Action - Business and Sustainable Development (Das ideias à ação - empresas e desenvolvimento sustentável), a indústria química alemã reduziu em poucos anos suas necessidades de energia por unidade produzida em um terço.

Por outro lado, o gradual desenvolvimento do desempenho ambiental dos países desenvolvidos, acaba conduzindo à visão de que "são os países ricos que estão mais preocupados com os efeitos da continuidade das agressões ao meio ambiente, criando um número maior de leis de proteção ambiental do que nos países pobres. Os países ricos reclamam de estarem em desvantagem com relação aos menores custos de produção em países menos favorecidos, onde as leis ambientais são pouco rígidas ou nem mesmo existem", segundo citado por Philip Kotler em O Marketing das Nações".

A melhoria da legislação e do controle ambiental, associados ao aumento da conscientização dos consumidores, propiciou condições favoráveis para o surgimento de uma indústria ambiental nos países desenvolvidos, ainda na década de 1970. Na Europa, a Alemanha foi o país que mais rapidamente se destacou neste mercado. Dispondo de uma legislação bastante elaborada e de capitais públicos e privados, suficientes para executar os investimentos ambientais, a economia do país permitiu que se formasse todo um setor ambiental, constituído em grande parte pelo Mittelstand, as empresas de porte médio, que foram as grandes impulsionadoras da recuperação econômica alemã do pós-guerra.

O mercado ambiental mundial movimentou cerca de US$ 950 bilhões 2017, em serviços e equipamentos. Os países que lideram este mercado são os Estados Unidos, a Alemanha e o Japão, cada um detendo cerca de 20% do mercado mundial. Outros atores importantes neste mercado são a França, Inglaterra e a Itália.
A exemplo do que ocorre na Alemanha, o mercado mundial de meio ambiente é dominado pelas pequenas e médias empresas, atuando em seus nichos de mercado, com alto nível de especialização, já que o segmento é bastante diversificado e requer soluções altamente técnicas. A exceção a esta regra é o mercado de saneamento básico (tratamento de água e esgoto doméstico) onde, devido à privatização dos serviços em alguns países, aliados aos valores de investimento envolvidos, atuam os grandes grupos econômicos do setor.
(Imagens: pinturas de David Normal)

Notas rápidas (Homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 30 de maio de 2018


O que acaba antes?


Em qualquer lugar da Terra aumenta a destruição do meio ambiente, principalmente nos países mais pobres e com grandes populações. Em certas regiões a água, antes abundante, já se torna escassa por causa da superexploração. O mesmo acontece com os solos férteis o ar puro e outros recursos naturais.

O Brasil não foge à regra. A falta de educação ambiental, de cidadania e até de conceitos básicos de higiene por parte da população, ajudam a acabar com o meio ambiente. Isso sem contar a exploração econômica, que privatizando os benefícios e socializando os prejuízos, também dá a sua contribuição.

Assim, fico me perguntando: o que vai durar por mais tempo; a ignorância e a ganância humanas ou os recursos naturais? O que acaba antes?

(Imagem: gravura representando G. C. Lichtenberg)

Dualismo e sentido da história (Parte I)

sábado, 26 de maio de 2018
"Existe uma lógica na História? Haverá, além dos feitos avulsos, que são casuais e imprevisíveis, uma estrutura, por assim dizer, metafísica, da Humanidade histórica, e que permaneça independente das conhecidas manifestas formações político-espirituais, que se veem na superfície?"   -   Oswald Spengler   -   A Decadência do Ocidente


O filósofo Heráclito de Éfeso (535-475 AEC) dizia que tudo muda, uma coisa se transforma em outra e que nunca conseguimos entrar no mesmo rio; as águas não são as mesmas e nós também não. Seu colega quase contemporâneo da cidade de Eléia, no sul da Itália, Parmênides (530-460 AEC) dizia que só existia o Uno, que a mudança era aparente. Mais tarde, Platão (428- 348 AEC) influenciado por ambos criou o mundo dos Ideais. Este é eterno e nunca muda, contraposto ao mundo onde vivemos, que Platão considerava uma cópia sempre efêmera e mutável do mundo eterno e imutável dos Ideais.

O mundo ideal de Platão tinha influência dos cultos órficos e foi incorporado conceptualmente pelo nascente cristianismo. Esta nascente religião já continha uma carga considerável de dualismo, que herdou em sua maior parte dos conceitos dualistas da religião judaica. O judaísmo trazia em sei bojo conceitos religiosos dualistas diversos: de que haveria dois princípios, um bom e outro mau, tentando dominar o mundo; a ideia de que ocorreria um Final dos Tempos, quando o princípio Bom e o Mal travariam uma batalha definitiva pelo domínio do universo; a crença de que os mortos ressuscitariam para serem julgados e separados em salvos e condenados. Todas são ideias que o judaísmo incorporou da religião persa, o Zoroastrismo. 

No judaísmo as ideias religiosas originadas no zoroastrismo e assimiladas depois do exílio babilônico (século VI AEC) concretizaram-se em concepções como a implantação do um Reino de Deus, em contraposição ao mundo real da época, no qual os judeus eram dominados por uma cultura grega e por uma política romana. A instituição do Reino de Javé significaria a destruição do império romano e o domínio de um reino judeu comandado por Javé. O judaísmo já havia sido bastante influenciado por correntes apocalípticas - que inclusive influenciaram o nascente cristianismo, como mostra o livro cristão do Apocalipse. Essas ideias eram correntes entre grupos judeus do século II AEC até o século I EC, como os fariseus, os essênios e os zelotes.

O cristianismo em sua fase de estruturação, entre os séculos II e V, absorveu conceitos platônicos através da filosofia de Plotino (204-270 EC), corrente nas principais cidades do império romano no início da era cristã. Líderes dos primeiros séculos da religião, como Orígenes e Agostinho ajudaram a construir conceitos e dogmas do cristianismo fortemente influenciados pela filosofia de Plotino. Assim, o dualismo herdado pelo cristianismo do zoroastrismo através do judaísmo, passou a permear a doutrina cristã, com apoio da doutrina de Platão, transmitida por Plotino.

Foi, provavelmente, sob influência do zoroastrismo persa que o judaísmo passou a enxergar a história - mais especificamente a história do povo judeu - como tendo um objetivo; como um processo em direção à implantação do Reino de Deus na terra, junto com a vinda de um Messias. Interessante notar, que o nascente cristianismo interpretou este fato de maneira diferente. Isto porque ainda na segunda metade do século I EC, passou a firmar-se a ideia de que Jesus de Nazaré era o Messias prometido. Assim, de certo modo, para a primeira e segunda geração de cristãos restava apenas esperar pelo "Fim do Mundo", pela Parúsia; quando todos os mortos ressuscitariam para um julgamento e seria implantado o reino de Deus, com a vitória de Jesus Cristo sobre o Demônio (este também com uma longa gênese no judaísmo/cristianismo). Muitos cristãos de primeira hora, como Paulo, estavam certos de que ainda em vida veriam a chegada do Fim do Mundo.

Mas, a vinda do Reino demorava em chegar, apesar do que diziam os escritos apocalípticos - e havia vários Apocalipses circulando na região do Mediterrâneo no início da era cristã entre as comunidades de crentes. Assim, aos poucos, as igrejas locais se agruparam em torno de uma igreja única, com crenças (quase) comuns, com seus ritos e sua doutrina.

Desta forma, a nascente igreja cristã incorporou do judaísmo as noções escatológicas e dos fins últimos do homem e da filosofia grega o platonismo dualista. A ideia grega de uma história universal e humana cíclica não foi incorporada pelos pensadores cristãos, já que esta não coadunava com a visão herdada do judaísmo. 

Desde o início do cristianismo a história humana tinha um sentido que girava em torno da mensagem de Jesus - ou daquilo que as comunidades cristãs primitivas acreditavam que fosse sua pregação. O sentido da história da humanidade dizia respeito especificamente a Cristo e seu reino e a atitude que cada ser humano teria em relação a sua mensagem. A ideia filosófica de que a história tivesse um sentido, uma direção, um desenvolvimento, foi defendida principalmente por Santo Agostinho em sua obra A Cidade de Deus. Neste trabalho o patriarca da Igreja interpreta a história como sendo basicamente uma luta do Bem contra o Mal. Em suas ações, cidadãos, reis e estados se perfilam de um lado ou de outro nesta titânica luta. No final Deus, que é o Bem Supremo, vencerá o Demônio, quando então se dará fim à história como a conhecemos.
(CONTINUA)

(Imagens: pinturas de Paul Nash)

Notas rápidas (Homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Noticiário

O fato de que a maior parte - quase a totalidade - das notícias nos nossos telejornais mostra ações de traficantes e outros criminosos, políticos corruptos e investigações da Polícia Federal, ações de advogados e declarações de políticos presos, tem um grande significado.

Mostra o quanto o Brasil está praticamente paralisado por tais acontecimentos. Uma grande nação, populosa e com muita coisa a ser desenvolvida, sendo dominada por criminosos de todo o tipo.

O teor das notícias mostra o que realmente importa no país. Não a educação e cultura, o progresso da pesquisa e da indústria, o avanço dos projetos de infraestrutura que beneficiem a população. Não! Permanecemos enredados, atolados numa lama pestilenta, criada por estes indivíduos. Que desperdício, Brasil!

(Imagem: gravura representando G. C. Lichtenberg)

Gestão dos recursos hídricos

sábado, 19 de maio de 2018
"Vinte e cinco anos de intenso trabalho tiveram por resultado que os objetivos imediatos da psicanálise sejam hoje inteiramente diferentes do que eram no começo."   Sigmund Freud   -   Além do Princípio de Prazer

A água é um elemento relativamente abundante no universo. Análises da luz de todos os quadrantes do espaço feitas por espectroscópios, mostram que no espaço interestelar e nas diversas galáxias a água está presente, principalmente na forma de gelo. Na Terra, o líquido já é identificado no início da formação do planeta, mas sua origem ainda é tema de discussões entre os cientistas. A teoria mais aceita até o momento diz que a maciça precipitação de cometas, formados basicamente por gelo e poeira, incorporou grande quantidade de água à Terra. Esta água, trazida do espaço, juntou-se àquela já existente desde a formação, e nas condições climáticas e geológicas do jovem planeta deu início ao ciclo hidrológico.

O volume de água existente na Terra não sofreu nenhuma variação ao longo dos últimos 4,5 bilhões anos. A água não se perde. A maior ou menor disponibilidade do líquido varia de um lugar para o outro, dependendo de fatores geológicos e climáticos. A movimentação das placas tectônicas provoca a formação de novos continentes, a abertura de mares, o soerguimento de cadeia de montanhas, o surgimento de rios e outros acidentes geográficos. Estes acidentes geográficos podem mudar o clima e, consequentemente, a disponibilidade de água em certas regiões. O interior do Brasil, quando a América do Sul ainda não era separada da África há cerca de 250 milhões de anos, era um grande deserto, que se estendia por centenas de quilômetros. A região do Saara foi coberta de lagos e estepes há cerca de 10 mil anos; uma paisagem bem diferente da aridez atual. Em ambos os casos, as condições geológicas e climáticas fizeram com que a água se tornasse mais disponível (a chuva que começou a vir do oceano Atlântico quando este se abriu há cerca de 170 milhões de anos) ou mais escassa (a mudança no eixo da Terra há cerca de 10 mil anos fez com que a região do Saara recebesse uma insolação maior). Portanto, a água que existe no planeta não se perde; ela apenas muda de concentração nas diversas regiões.

Os primeiros assentamentos humanos do Neolítico (10.000-3.000 AEC) foram à beira de lagos e rios, locais onde a água, a pesca e a caça eram abundantes. Mais tarde, com a invenção da agricultura, as aldeias se estabeleceram ao longo de rios caudalosos, onde a água para a irrigação era abundante. As primeiras cidades-estados do Oriente Médio, sempre foram altamente dependentes das cheias dos rios Tigris e Eufrates, assim como o império egípcio também dependia do regime das águas no Nilo. O mesmo vale para as cidades do vale do rio Indo e as primeiras cidades da China, no vale dos rios Yangtze e Huang He (Amarelo).

De uma maneira geral, as condições de potabilidade da água, desde a Antiguidade até meados do século XIX sempre foram insuficientes, considerando os padrões estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde nos anos 1950. Mas, algumas civilizações perceberam o nexo existente entre a água poluída e o aparecimento de doenças. Assim na China, ainda no período Neolítico, há sete mil anos, se empregavam técnicas de escavação de poços profundos, a fim de acessar água (visualmente) mais limpa. Sistemas de canalização de água já eram utilizados regularmente nas principais cidades chinesas durante a dinastia Han, em 250 AEC. Ainda na Ásia, as cidades de Harappa, Mohenjo Daro e Rakhigarhi, florescendo no vale do rio Indo no século XXV AEC (ainda na Idade do Bronze), já dispunham de sistemas de suprimento de água e coleta de efluentes, formados por canaletas.

Na Babilônia, algumas cidades-estados como Nippur e Eshnunna, dispunham de sistemas de tubulações de cerâmica, para fornecimento de água e coleta dos esgotos. Os mais antigos exemplos destas estruturas foram encontrados nos templos de Baal, locais de grande acúmulo de fiéis durante as festas religiosas.

No Ocidente a civilização minoica, que floresceu na ilha de Creta entre 2.600 e 1.100 AEC, detinha avançados sistemas de saneamento. A capital do império, a cidade de Cnossos, foi a primeira a dispor de um sistema de tubulações subterrâneas para suprir água limpa e carregar os dejetos para fora da cidade. As casas dos bairros mais ricos da cidade, já no século XVIII AEC, dispunham de toaletes com sistemas de água corrente e aquecida, para os banhos. Os gregos de Atenas, assim como as colônias jônicas da Ásia Menor (atual Turquia) igualmente dispunham de redes de tubulações, que coletavam os efluentes das residências e os carregavam para fora das cidades. 

  
O sistema mais avançado de suprimento de água e coleta de esgotos foi o da cidade de Roma, estrutura que os próprios romanos batizaram de "Cloaca Maxima". Através desta estrutura os esgotos da cidade eram carreados e descarregados nas águas do rio Tibre. Os sistemas de distribuição de água eram bastante sofisticados, trazendo o líquido através de aquedutos de locais distantes até 150 quilômetros. Na cidade, a água era distribuída através de tubulações de barro e chumbo, que abasteciam residências, termas, fontes e poços públicos.

Quase todas as civilizações mais avançadas da Antiguidade, de uma maneira ou outra, começaram a se preocupar com a qualidade da água que consumiam. Se, por um lado, não existia o conhecimento de que o líquido era povoado por microrganismos patogênicos, por outro havia a experiência de que a água suja e com odor causava doenças, principalmente em crianças. Métodos de melhoria do gosto e do odor da água, destinada ao consumo humano, datam de antes de 4.000 AEC. Os escritos mais antigos tratando deste assunto foram achados em tumbas egípcias e em escritos da antiga Índia. Lá, um texto médico denominado Sus´ruta Samita, datado de 2.000 AEC, fornece instruções sobre como preparar a água para consumo. As técnicas incluem a fervura, o aquecimento da água pela luz solar, a imersão de ferro quente no líquido, processos de filtragem com gravetos e areia, e adição de certas sementes ou pedras à água. Nas paredes dos túmulos de Amenophis II e Ramses II, faraós do 15º e 13º séculos AEC, respectivamente, encontram-se desenhos de equipamentos para limpeza da água.

Vale lembrar que as diversas civilizações - chinesa, indiana, babilônica, egípcia, grega e romana - utilizavam os resíduos sanitários como adubo, depois de um processo de compostagem, no qual eram acrescentados restos de vegetação e materiais orgânicos à mistura. Ainda hoje, no interior da China e na Índia, agricultores utilizam estes resíduos na agricultura. 

Durante a Idade Média não houve grande avanços na distribuição de água e coleta dos efluentes. A maior parte das cidades buscava sua água em nascentes próximas, que então era distribuída através de fontes e poços públicos. O contato com os efluentes, que muitas vezes eram depositados nas imediações da cidade, poluindo rios e o lençol freático, podia provocar o surgimento de epidemias, relativamente comuns nos maiores aglomerados urbanos durante toda a Baixa Idade Média até o Renascimento quando, de uma maneira geral, a população urbana da Europa começou a crescer.

Os primeiros tubos de ferro fundido para escoamento de água e efluentes foram utilizados na França em 1664. Sua primeira instalação ocorreu no palácio de Versailles, durante o reinado de Luís XIV. Com relação à melhoria da qualidade da água, o processo de filtragem tornou-se relativamente comum a partir do século XVIII, principalmente na França, propiciando assim o aparecimento das primeiras empresas de fornecimento de água a domicílio. Ao longo dos anos, a prática foi estendida ao resto das grandes cidades da Europa.

A captação, preparação e distribuição de água nos moldes parecidos aos atuais tornou-se mais comum no século XIX, aliando as novas descobertas na área da medicina – entre outras a descoberta do vibrião da cólera por Koch e os conceitos da microbiologia desenvolvidos por Pasteur –, disseminando-se pelos mais importantes centros europeus e norte-americanos. Em 1829 a França passou a criar diversas leis relacionadas à qualidade da água, que previam multas e prisão para aqueles que poluíssem as águas, provocando a morte de peixes - era este o principal indicador. A Inglaterra, às voltas com a industrialização e o inchaço das cidades, aprovou diversos marcos legais que proibiam as fábricas de lançarem seus efluentes nos cursos de água. À mesma época, os cientistas ingleses John Snow e Edwin Chadwick descobriram o nexo entre as água poluídas e as diversas doenças que assolavam as populações urbanas - entre elas a cólera que ceifou mais de 180 mil vidas na Europa. Ao longo da segunda metade do século XIX as maiores cidade da Europa passaram a construir sistemas de tratamento de água e esgoto, o que gradualmente ajudou a reduzir a incidência de doenças infecciosas transmitidas pela água poluída. Mas, foi somente no início do século XX que os serviços de tratamento de água se popularizaram – pelo menos entre os países mais desenvolvidos à época.

No mundo, atualmente, a situação da disponibilidade de água potável tornou-se pior do que no passado. Apesar de existirem tecnologias capazes de suprir com água de qualidade todas as regiões do planeta, os problemas agora são mais amplos. O aumento da população mundial, o uso maciço da água pela agricultura, os processos industriais e o consumo doméstico, fizeram com que líquido se tornasse escasso em diversas regiões do planeta. Segundo dados recentemente publicados pelo jornal Valor, vivem hoje cerca de 1,7 bilhão de pessoas em regiões onde a necessidade de água ultrapassa sua disponibilidade. Até o ano de 2050 este número de pessoas deverá subir para 2,3 bilhões, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ainda segundo a reportagem do jornal, o volume de água retirado da natureza é atualmente três vezes maior do que há 50 anos, e deverá aumentar em mais 55% nas próximas três décadas. Assim, para garantir a segurança hídrica, o mundo precisará investir US$ 650 bilhões por ano até 2030, segundo o presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga. Todavia, as nações que precisarão fazer os maiores investimentos nesta área, são exatamente aquelas que menos recursos dispõem.

Dentre as ações necessárias para economizar os recursos hídricos incluem-se a reutilização de efluentes industriais e domésticos, a redução das perdas de água através de vazamentos na tubulação, a diminuição do desperdício, a introdução de processos industriais e tecnologias que utilizam menos água, a substituição de produtos que façam uso intensivo de água, o reflorestamento e a recomposição de matas ciliares, a proteção dos mananciais possibilitando mais geração de água, entre outras providências. Mais importante ainda, segundo o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento (CEBDS), é conferir valor econômico à água, ou seja, fazer com que todos os que consomem o recurso - agricultura, indústria, administrações públicas, companhias de saneamento e consumidores finais - paguem pelo real custo da obtenção, preparação e distribuição do líquido. A água não pode mais ser um recurso gratuito, já que está se tornando cada vez mais caro e escasso.   

Em relação à disponibilidade de água, o Brasil encontra-se em uma situação privilegiada, já que dispõe de cerca de 12% dos recursos aquíferos mundiais. Internamente, porém, a disponibilidade do líquido é diferenciada. Cerca de 81% da água encontra-se na Região Norte, onde vivem apenas 5% da população do país. A Região Sudeste, por exemplo, que gera quase metade da PIB brasileiro e acomoda 45% da população, dispõe de apenas 3% dos recursos hídricos. Outras regiões brasileiras também sofrem com estiagens sazonais, afetando atividades econômicas e a geração de eletricidade. A região mais afetada pela seca é o Nordeste, onde nos últimos anos a estiagem foi mais acentuada. Por outro lado os atrasos nas obras públicas, a falta de planejamento nos projetos, a malversação de recursos, são alguns dos fatores que tornam a situação desta região ainda mais grave.

No Brasil, até o início do século XIX, as ações de gestão dos recursos hídricos limitaram-se à construção de pequenas redes de captação de água e à abertura de poços e instalação de fontes de uso comum. Grande parte das populações urbanas, ainda pouco numerosas, abastecia-se da água dos rios - na época ainda pouco poluída - e dos poços particulares. As primeiras estações de captação e tratamento de água surgiram no final do século XIX e início do século XX, nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Por volta de 1930 todas as capitais brasileiras possuíam sistemas de tratamento de água - mesmo que nem sempre atendendo a toda a população, forneciam água tratada para as regiões centrais e bairros mais antigos. A partir da década de 1940, com o aumento do êxodo rural e o crescimento da demanda por saneamento, surgem as primeiras empresas públicas e autarquias de serviços de tratamento da água.

O setor de saneamento – especificamente o tratamento de água – teve um grande impulso a partir do início da década de 1970, com a implantação do Plano Nacional de Saneamento – Planasa. O projeto criou as companhias estaduais de saneamento, obrigou os estados a investirem no setor e estabeleceu linhas de crédito com base em recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Apesar deste impulso inicial, a década de 1980 foi de relativa estagnação, dado o alto endividamento do Estado e as elevadas taxas de inflação. A retomada dos investimentos e a ampliação da infraestrutura do setor só ocorreram a partir da estabilização da economia em 1994 e o aumento das verbas para o setor, com a criação do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), em 2007. Em 2012 o Ministério das Cidades cria o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), que previa à época investimentos de R$ 270 bilhões até 2030. No entanto, depois do início da crise que afeta a economia brasileira desde 2013, os investimentos em obras de infraestrutura diminuíram e as perspectivas para o setor são incertas para os próximos anos.

A água se tornará recurso natural estratégico nos próximos cinquenta anos. Sua escassez limita as atividades em outras áreas; como a geração de energia, a agricultura, o abastecimento da população, as atividades industriais e outros setores dependentes do uso do recurso. Para países com pouca extensão territorial e pouca disponibilidade de água, sua escassez poderá significar um grande obstáculo para o progresso material e social destas nações. Com isso, a falta da água deverá provocar conflitos de menor ou maior gravidade no interior dos países e entre nações. Em muitas regiões do globo isto já começa a acontecer, provocando guerras civis e acirrando conflitos fronteiriços.

A crise hídrica, se ocorrer, afetará principalmente as nações pobres, muitas delas com grandes populações e dependendo fortemente de suas agriculturas. Alguns destes países, já atualmente, não conseguem mais produzir alimentos suficientes para abastecer sua população, como o caso do Egito, do Afeganistão e da Somália. Assim, acumularão mais outro problema; o da falta de água. Neste quadro, é preciso lembrar que a história nos mostra que grandes civilizações do passado entraram em decadência por falta de água. Dependendo das condições tais fatos poderão se repetir; mas atualmente terão consequências globais.
(Imagens: pinturas de Marcel Duchamp)