Newsletter janeiro/fevereiro 2017

sábado, 21 de janeiro de 2017

(originalmente publicado no site www.ricardorose.com.br)

No final de 2016, perto da chegada do Ano Novo, encontrávamos pessoas desejando um Feliz 2018. Seguindo a sequência de tempos ruins que teve início em final de 2014, parece que 2017 não trará grandes novidades, em nenhum aspecto.
No plano econômico não são esperadas surpresas. A inflação está caindo desde o final de 2016 e os juros deverão iniciar sua queda lenta e gradual ao longo do ano, dependendo da cautela do Banco Central. Mas nada que volte a ativar o consumo, já que o número de desempregados ainda continuará em ascensão até o segundo semestre de 2017. A indústria, que apresenta dados melhores - a queda da produção industrial está gradualmente caindo menos - desde o final do último ano, deve recuperar-se lentamente, dependendo do vagaroso aumento da demanda. Assim, na economia, o quadro não é muito animador.
Na política o ambiente é confuso: o espectro da Lava Jato continua rondando o Congresso, o Judiciário tem forte participação do processo político e há uma crônica ausência de verdadeiras lideranças, principalmente tendo em vista as eleições de 2018. O governo conseguiu aprovar a PEC 241 que limita os gastos públicos e encaminhou a PEC 287 da Reforma da Previdência. Além disso, Temer conseguiu que a Câmara aprovasse o PL 4330/04 que flexibiliza a CLT, projeto que agora espera uma aprovação do Senado. Se por um lado foi capaz de estabelecer limites para os gastos públicos e encaminhar outras providências de cunho liberal, o governo continua e continuará a enfrentar forte oposição, principalmente de centrais sindicais, funcionários públicos e categorias profissionais com sindicatos fortes – metalúrgicos, bancários, químicos, entre outros. Para o restante dos trabalhadores, sem forte representação sindical e pressionados pela crise econômica, as medidas talvez ajudem a tornar o mercado de trabalho um pouco mais dinâmico e propício às contratações. Um dos itens que ainda falta discutir seriamente é a situação do serviço público, principalmente o federal, cada vez mais cumulado de privilégios.
O meio ambiente definitivamente não constou da agenda dos dois governos (Dilma e Temer) em 2016. Os investimentos em saneamento, por exemplo, segundo dados do Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS), coordenado pelo Ministério das Cidades, caíram em 9%, diminuindo de R$ 13,9 bilhões em 2014 para R$ 12,7 bilhões em 2015. Lembremos que segundo dados do Banco Mundial, ainda da década passada, o país deveria investir cerca de R$ 25 bilhões anuais para alcançar cobertura completa de saneamento até 2030. Para 2017 o governo falou em projetos de concessão de serviços públicos para o setor privado, mas não mencionou o setor de saneamento.
A gestão de resíduos, cujo principal tema é a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), avança gradualmente entre as empresas e associações do setor privado, notadamente nos grandes grupos econômicos que geram grandes volumes de resíduos. As prefeituras praticamente ignoram o assunto, notadamente as cidades de menor população, cujos prefeitos serão obrigados a implantarem uma política de gestão de resíduos somente em quatro a seis anos – quando gestores muito provavelmente já não estarão mais nos cargos.

A novidade positiva no setor é que em função da crise hídrica e econômica a população está aprendendo a utilizar melhor recursos como água, eletricidade e outros insumos. A falta de recursos para manter o consumo aliado ao aumento das tarifas, fez com que os consumidores reduzissem em média em 20% o consumo de eletricidade e água. Paralelamente, grandes empresas dependentes de água estão investindo em projetos de recuperação de vegetação, visando aumentar o volume do líquido disponível nas bacias hidrográficas.
(Imagem: pintura de Thomas Gainsborough)

Sobre a informação

sábado, 14 de janeiro de 2017

Se é possível calcular o número de átomos existentes no universo, então também é possível calcular o número de interações entre eles?

Se recortarmos o texto de um jornal e o colarmos em um texto qualquer, a coisa toda pode não fazer sentido, isto é, vai destoar da “ordem” existente no texto original. São, na realidade, duas “ordens” – uma maior (o texto existente) e uma menor (o texto recortado do jornal) que foram colocadas juntas. Mas, por não terem uma relação imediata, não formam algo que faça sentido.

Qual seria o limite de texto, imagem, ideia, som, etc., inteligível, para que uma coisa faça sentido, seja apreendida, seja logicamente compreensível?

Ou seja, qual é o limite de informação que precisamos obter, para que qualquer coisa faça sentido (em outras palavras: queira nos dizer algo)?

Mais: os dois textos citados podem formar uma nova “ordem”, composta por duas ordens que não conseguimos relacionar? Neste caso, qual é a informação necessária, para que os dois textos formem uma mensagem coerente? 

A filosofia no ensino médio

sábado, 7 de janeiro de 2017

Houve um período durante o governo militar (1964-1984) em que o ensino da filosofia foi dificultado, se não eliminado. O processo de supressão da filosofia dos currículos escolares começou no final da década de 1960, quando foi dada às escolas a opção de não ensinarem a matéria. As escolas que já não tinham muito interessem em ministrar a disciplina, acataram a lei como mandatória. Finalmente, em 1971, o Ministério da Educação editou uma nova lei que proibia o ensino da filosofia nas escolas de todo o país. Ficamos assim um longo período sem ensino da filosofia. Quais as razões e as consequências disso? 

Por um lado, o país estava sob jugo de um regime militar não democrático, sem eleições livres, sem liberdade de imprensa e de expressão. Como todos os países do planeta entre os anos 1950 e 1980, éramos protagonistas de uma grande batalha entre os Estados Unidos, representando o sistema capitalista, e a União Soviética, representando o mundo comunista. Internamente tínhamos um capitalismo em desenvolvimento, o país estava começando seu processo de industrialização e urbanização. Havia uma pequena classe média ascendente, que pela primeira vez na história do país tinha acesso a bens com os quais no passado havia apenas sonhado. Sob o aspecto das carreiras profissionais, a grande maioria dos poucos brasileiros que chegava ao ensino superior optava pelas áreas da medicina, da engenharia e do direito. Dentro deste contexto político, sócio-econômico e educacional, a carreira de filósofo parecia, no mínimo, estranha. Além disso, com as revoltas estudantis em todo o mundo durante o mês de maio de 1968 – no Brasil especificamente encabeçadas pelos estudantes de filosofia da USP da Rua Maria Antonia – os estudantes de filosofia acabaram adquirindo a pecha de “baderneiros e comunistas”. Definitivamente no período da ditadura militar a filosofia não gozava de boa fama.

Outro fator que no imaginário brasileiro causou desinteresse pela filosofia foi a imagem de ser uma matéria teórica, pouco afeita à prática. Os filósofos, com seus sistemas, eram retratados como estudiosos que viviam longe dos problemas diários do país – que envolviam o mundo do mercado e da produção, do trabalho e das grandes obras, etc. – com as quais o pensador supostamente (pelo menos dentro do padrão criado pela mídia) nada tinha a ver. A profissão não tinha mercado de trabalho, já que a ênfase da época no país era o crescimento, a produção a mobilidade e não a análise, a crítica ou o questionamento. Os cursos em quase sua totalidade estavam extintos e a grande maioria dos filósofos ocupava cargos em outras áreas da cultura. Este período no Brasil pode ser comparado à segunda metade do século XIX na Inglaterra, tão criticado por Nietzsche, que chamava os ingleses de “povo de negociantes e industriais”, sem qualquer preocupação filosófica.

Em 1984 inicia-se o período de redemocratização. As instituições voltam a funcionar, recupera-se a liberdade de imprensa e de crítica. Antecedendo em alguns anos a volta da democracia, o país vivia iludido com a idéia de que bastaria a volta das instituições democráticas, para que a maior parte das estruturas voltasse a funcionar normalmente como antes, entre outros o sistema de ensino. Aqui convêm lembrar que durante o período militar a qualidade do ensino no Brasil caiu vertiginosamente. Muito mais do que uma intenção premeditada em manter o povo na ignorância, segundo Darcy Ribeiro, a queda na qualidade do ensino se deve à sua massificação; à intenção de pulverizá-lo, sem atentar para a qualidade. Todavia, é fato que depois da volta da democracia, a deterioração do ensino público foi ainda maior. A impressão que se tem é que desde o regime ditatorial a educação nunca mais achou seu caminho, sendo vítima de experiências educacionais diversas, que não conseguem melhorar a qualidade da estrutura responsável pelo ensino: planejadores, professores e escolas. Além disso, os próprios alunos muitas vezes não reúnem condições físicas e psicológicas para receber o ensino, já que passam por problemas de carência de alimentação, de apoio familiar e de auto-estima.

A consequência desta situação é que todo sistema de ensino acabou se deteriorando. A reintrodução do ensino da filosofia, obrigatório a partir de 2008, também ficou comprometida com o baixo índice de qualidade do sistema educacional. Se, teoricamente, a Lei das Diretrizes e Bases da educação nacional prevê que o ensino secundário deve preparar o aluno para ter uma visão ampla sobre os diversos conhecimentos humanos – ciências naturais e humanas – e assim a filosofia seria como que um coroamento deste processo, capacitando o futuro cidadão a fazer uma síntese deste conhecimento, o objetivo não tem sido alcançado até o momento.

Recentemente o governo Temer introduziu outra reforma do ensino, no qual as matérias tornadas obrigatórias no ensino médio a partir de 2008, filosofia e sociologia, já não o serão mais. Aparentemente, a formação do aluno no ensino médio deverá se tornar mais específica, abandonando a ênfase universalista em benefício de uma educação voltada a áreas mais específicas e técnicas.

Não é possível que com um ensino fundamental incipiente, no qual o aluno muitas vezes não chega a aprender a ler ou escrever corretamente, seja construída a base para o ensino da filosofia no ensino médio – ou outras matérias que venham a ser adicionadas ao currículo. A filosofia pode ampliar substancialmente o horizonte cultural dos alunos do ensino médio, mas nada ou pouco pode fazer se o solo está estéril e os alunos não têm a mínima capacidade – e, conseqüentemente interesse – em se aprofundar nos textos e nas idéias dos filósofos. Se não houver uma melhoria da qualidade do ensino no período fundamental e médio, o ensino da filosofia, da sociologia e de outras matérias técnicas, poderá ser mais um engodo, como o foram os outros planos para reforma do ensino ao longo da história do Brasil.

Menos poluição com veículo elétrico

sábado, 31 de dezembro de 2016
"Por mais numerosos que sejam os anos de vida, regozija-se o homem em todos eles, mas deve pensar nos dias obscuros que serão numerosos."  -  Eclasiastes 11, 7

Qual será o futuro do automóvel? Esta é a pergunta que montadoras, indústrias de autopeças, empresas de consultoria, governos e consumidores vêm se fazendo há pelo menos vinte anos. O transporte individual, popularizado a partir dos anos 1950 quando as principais marcas de automóveis estabeleceram suas fábricas em todos os continentes, tornou-se um dos grandes vilões das grandes cidades em tempos de aquecimento global.
Falta de recursos, de planejamento e de visão a longo prazo, fizeram com que a maior parte das cidades, cuja população cresceu rapidamente no pós-guerra, expandisse sua infraestrutura viária voltada para o transporte individual. Nas grandes metrópoles os problemas dos congestionamentos de trânsito e da poluição atmosférica tornaram-se tão graves, que tiveram que ser implantados sistemas de rodízio e zonas fechadas ao trânsito de veículos particulares. A melhoria do transporte público agora é uma necessidade urgente, que os limitados recursos financeiros da maior parte das cidades de países em desenvolvimento não conseguem atender a tempo. 
Mesmo assim, parte da classe média destes mesmos países – Indonésia, China, Índia, África do Sul, Brasil e vários outros – ainda sonha com a compra de um automóvel, preferencialmente novo. As montadoras européias e americanas estabelecidas nestes países querem multiplicar ao máximo os investimentos que fizeram e esperam manter constantes as vendas de seus veículos.
No caso do Brasil, com raras e recentes exceções, os carros possuem motores de engenharia ultrapassada, com altas taxas de consumo de combustível e de emissões. O programa de incentivo ao uso do álcool, iniciado na década de 1970, atingiu seu ponto alto por volta de 2005, quando quase todos os automóveis novos fabricados no país eram bicombustíveis. Mas, atrelado à gasolina, o preço do etanol foi mantido artificialmente baixo, não remunerando seus custos de produção. O resultado foi uma quebradeira geral de empresas do setor de açúcar e álcool.

Como resposta ao carro movido à combustão, a indústria automobilística vem desenvolvendo o carro elétrico. Interessante notar que quando os automóveis começaram a ser fabricados, em 1900, os veículos elétricos representavam 30% da frota americana. A produção em linha de carros movidos por motor à combustão, iniciada por Henry Ford, fez com que a eletricidade fosse rapidamente abandonada. Um século depois, a ideia do motor elétrico ganha força novamente, e amplia rapidamente o numero de seus consumidores. As japonesas Nissan, Honda e Toyota, estão na dianteira dos lançamentos, mas a alemã BMW e a americana Tesla também começaram a fabricar os seus veículos. Recentemente a alemã Daimler (Mercedes) informou que também investirá neste segmento de veículos. No Brasil, a empresa Itaipu Binacional já construiu diversos protótipos de veículos elétricos, em pareceria com algumas montadoras. 
À medida que aumentar o número de veículos elétricos em circulação também se ampliará a rede de abastecimento de eletricidade. Ao contrário do que setores do governo brasileiro diziam há alguns anos, a ampliação da frota de veículos elétricos não colocará em risco o fornecimento de eletricidade para outros fins. O ideal seria, no entanto, generalizar o uso do transporte coletivo, reduzindo ao máximo o uso do transporte individual.
(Imagens: pinturas de Jean Bastien Lepage) 

Mente e percepção

sábado, 24 de dezembro de 2016

Mente e percepção

As sensações, as impressões, as emoções e as idéias; tudo é uma complexa reação químico-biológica que ocorre na mente. Em última instância é uma ilusão (no sentido de ser uma percepção individual), já que não tem uma realidade objetiva. Assim como o filme não tem uma realidade objetiva.

A música, a literatura, as diversões, idem. São constructos que na realidade não existem. Isso também se aplica à noção de “ego”, individualidade, permanência. Em outras palavras, é como Shakespeare dizia: “o material de que são feitos os sonhos”. E Calderón de la Barca: “a vida é sonho”.

Efetivamente, a própria literatura e a música descrevem o que acontece no cérebro: as contradições que chamamos de sensações, que se constituem de interações químico-biológicas e não representam a realidade objetiva – que nunca conheceremos, só interpretaremos.

(O que não quer dizer que ela não exista, já que não há um padrão de julgamento absoluto).

Construção sustentável no Brasil

sábado, 17 de dezembro de 2016
"Amo o público, mas não o admiro. Como indivíduos, sim. Mas, como multidão, não passa de um monstro sem cabeça."  -  Charles Chaplin

No Brasil, mais de 50% das construções de residências são realizadas pelos proprietários, sem acompanhamento técnico de especialistas. A fiscalização das obras, na maioria das prefeituras, ocorre de maneira incipiente e superficial. Além do aspecto da segurança das estruturas das construções, existe a perda de material, como restos de areia, cimento, cal, tijolos, etc.; materiais que muitas vezes se transformam em entulho descarregado em áreas públicas ou terrenos baldios.
O problema da perda de material no setor de construção também afeta a maior parte das obras realizadas com supervisão técnica. Empreiteiros e construtores de pequeno e médio porte, em sua maioria, ainda não utilizam técnicas de reuso e reciclagem de materiais, além de muitas vezes não disporem corretamente o entulho de obra. Especialistas calculam que 25% dos insumos utilizados pelo setor são perdidos, o que faz com que o metro quadrado construído no Brasil seja relativamente elevado, em comparação com outros mercados equivalentes.
O tema do uso mais eficiente dos recursos no setor da construção não é novo e já faz parte das preocupações das principais instituições ligadas à construção, há pelos menos quinze anos. Grandes empreiteiras, principalmente aquelas atuantes nos grandes centros urbanos, já incorporaram as diretrizes do uso eficiente dos recursos, oferecendo treinamento aos seus funcionários e implantando sistemas de gestão de canteiros de obras, visando controlar, separar e reutilizar materiais e insumos.
Um grande avanço no setor da construção civil foi a criação da Norma de Desempenho de Edificações nº 15.575, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), lançada em abril de 2013. A diretriz estabelece padrões para resistência e durabilidade de estruturas, pisos, coberturas, vedações e sistemas hidrossanitários para construções, proporcionando mais garantias ao comprador do imóvel e exigindo que a construtora utilize materiais, equipamentos e mão de obra de melhor qualidade. A norma representa um importante passo do setor da construção civil em direção à melhor gestão das obras, tornando-as mais eficientes e sustentáveis, reduzindo a perda de materiais. 

Outro fato positivo no setor da construção civil é introdução da certificação de construções – os selos verdes – de acordo com normas internacionais de qualidade ambiental. Para receber este selo, as edificações devem atender aspectos como: ter obra realizada de maneira ambientalmente correta (reuso, reciclagem e correta destinação dos materiais, ausência de substâncias tóxicas, uso eficiente de água e energia, entre outros); ter edifícios equipados com sistemas de economia de água e eletricidade, materiais de alta durabilidade; adotar princípios de urbanismo sustentável (calçadas vivas, prioridade para deslocamento de pedestres, arborização, etc.). O Brasil já tem quase 1.000 projetos registrados e certificados no selo LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), ocupando a quarta posição mundial, depois do Canadá, da China e Índia (dados de 2015).
O setor da construção tem forte impacto no uso de recursos naturais, incluindo água e eletricidade. Outro aspecto, é que depois de prontos, os edifícios funcionarão por várias décadas. Por isso é importante que, tanto na fase de construção quanto na de uso, seu impacto ambiental seja reduzido ao mínimo possível.
(Imagens: fotografias de Horacio Coppola)

O muro está lá

sábado, 10 de dezembro de 2016

O muro está lá

O muro cinza, com partes mal-acabadas, coberto somente de massa grossa. Aspecto de abandono. Obra acabada. Mal acabada, na qual não foi feito mais nada. Uma cor cinza. Talvez me lembre de muros velhos, de casas velhas que vi na infância. O cimento áspero, lavado pela chuva durante muitos anos. Pedaços diminutos de quartzo e mica refletindo a luz do sol.

Quem terá construído este muro, esta parede? Quem foram eles? Quando? Há dez anos, há 20 anos, talvez? Difícil saber pela aparência do muro. O que pensavam, viviam e falavam, enquanto era feita a construção?

E agora o muro está lá. Desde que foi erguido permanece firme, em pé, cumprindo a função para a qual foi feito. Quantos dias de sol, chuva e frio já teriam passado desde que foi construído? Acontecimentos, vivências, e o muro esteve lá.

Não tem nenhum significado especial. É uma parede com cerca de quatro metros de altura e uns vinte de comprimento. Algumas partes não foram bem rebocadas e provavelmente desde que foi construído não foi reformado. Parece ter sido feito às pressas, sem muito cuidado.

Por que temos que colocar ordem em tudo? Essa obsessão por tentar ordenar teórica e praticamente todo o universo não seria a nossa perdição? Não é melhor deixar a natureza (nome que damos a complexas inter-relações que atuam sobre tudo e acabam transformando o ente) tomar o seu rumo e atuar livremente com suas forças, como acontece neste muro?

Ordenar, organizar, intervir, adaptar; essa ação de antropomorfização do ente. Uma tentativa de arrumar um universo que não tem a ordem que os homens pensam lhe impor, ou que pensam ter que lhe impor.

Aparentemente caótico, o universo parece não ter uma lógica de funcionamento, mesmo que imperceptível, que fuja à nossa compreensão.

A teoria da indeterminação e a física quântica especificamente. Não sabemos e não podemos prever o que acontecerá com as partículas (e o ente).

Nossas construções teóricas, visões de mundo, teorias, doutrinas, ordens sociais, engenhos, estruturas; tudo simples tentativas (talvez vãs) de procurar entender aquele muro, o universo. 

(Imagem: fotografia de um muro)

Clima é o grande tema

sábado, 3 de dezembro de 2016
"O comunismo, como qualquer outra religião revelada, é principalmente um conjunto de profecias."  -  H. L. Mencken

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas – COP 22, realizada em novembro de 2016 na cidade marroquina de Marrakesh, ocorreu sob clima de expectativa. Apesar do acordo mundial de redução de emissões, assinado em Paris em 2015, ter entrado em vigor em 4/11/2016, os acontecimentos no mundo da política, economia e, principalmente, na natureza, parecem indicar que ações de prevenção precisam ocorrer mais rápido.
Na área da política, a eleição de Donald Trump causa grandes preocupações a todos aqueles envolvidos com os fenômenos climáticos. O novo presidente dos EUA, quando tomar posse pretende cancelar a participação de seu país nos acordos assinados em Paris. O processo de desligamento não poderá ser de imediato; a nação que quiser sair do acordo ainda terá vínculos e obrigações durante quatro anos. Mesmo assim, o impacto da atitude da nação mais poluidora será muito forte e poderá influenciar outros países.
A economia mundial também causa preocupação. Com a retração da economia de diversas regiões do globo, a falta de recursos financeiros impede que a maior parte dos países em desenvolvimento faça investimentos em projetos de energia renovável e eficiência energética, melhoria do transporte público, aterros sanitários, entre outros. As iniciativas são assim limitadas aos projetos amparados pelos países desenvolvidos, que no momento também enfrentam problemas com suas próprias economias.
A redução das emissões torna-se cada vez mais urgente, principalmente porque 2016 (e antes 2015) foi o ano mais quente nos últimos 160 anos, quando tiveram início as medições. Um estudo realizado por cientistas da universidade do Havaí, reunindo dados sobre o clima do planeta nos últimos 784 mil anos, prevê que o aumento da temperatura da Terra poderá ultrapassar os 7ºC até o final deste século. Este valor é muito acima do limite de 2ºC, que o Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) havia estabelecido em 2014 como sendo o máximo, além do qual o clima da Terra seria cada vez mais sujeito a mudanças súbitas. Outro estudo trazido a público pela universidade da Flórida, mostra que o aumento de 1ºC já ocorrido na temperatura média da atmosfera está afetando a vida. Segundo os autores do trabalho, nada menos que 82% dos processos biológicos e sistemas ecológicos do planeta foram afetados pelo calor. Entre as alterações encontradas os cientistas identificaram atrasos e adiantamentos de florescimento de plantas, redução do tamanho de alguns animais, desequilíbrios populacionais (nascimento de maior número de fêmeas ou de machos), ecológicos (mudança da distribuição espacial) e comportamentais.

No Brasil os esforços para redução das emissões avançam devagar. A agropecuária é responsável por 69% das emissões do país e até agora pouco foi feito nesta área. Com cerca de 90% da população brasileira vivendo em cidades até 2020, são as consequências físicas da mudança do clima que representam o maior desafio para o Brasil, segundo o jornalista Washington Novaes. Disponibilidade de água e eletricidade, enchentes e desabamentos nos centros urbanos, aumento das doenças tropicais (dengue, zica, malária, febre amarela, etc.), são problemas a serem enfrentados pelas cidades nos próximos anos. Importante protagonista nos fóruns internacionais, o Brasil precisa colocar seus discursos em prática.
(Imagens: fotografias junto ao Muro de Berlim de Henry Cartier-Bresson)

Volta o desmatamento na Amazônia

sábado, 26 de novembro de 2016
"Nossa época, embora fale tanto de economia, é esbanjadora: esbanja o que é mais precioso, o espírito." - Friedrich Nietzsche 

Subiu em 24% o corte raso da floresta tropical na região amazônica, durante o período que vai de agosto de 2015 a julho de 2016. Foram derrubados 6.207 km² contra 5.012 no período anterior, pegando de surpresa o governo e as ONGs que atuam na região e voltando a acender o sinal de alerta. Esta é a maior taxa de derrubada nos últimos quatro anos.
O desflorestamento vinha caindo há mais de dez anos, depois de atingir o pico de 27.772 km² de mata cortada em 2004. Medidas implantadas durante os governos Lula e Dilma ajudaram a gradualmente reduzir estes números, fazendo com que em 2012 fossem cortados menos de 5.000 km². Segundo especialistas, a crescente queda no corte da floresta parecia indicar uma tendência que, no entanto, não se manteve por muito tempo. Apesar da crise econômica, que geralmente funciona como uma atenuante nas taxas de derrubada, o ritmo de destruição da vegetação voltou a subir.

Desta vez o corte das árvores se deu em regiões já atravessadas por rodovias. A derrubada da floresta é feita principalmente em terras públicas e têm como principal objetivo a grilagem, a apropriação ilegal de imensas áreas. Depois de retirada a floresta, a terra é ocupada por criação de gado; não tanto para produção de leite ou corte, mas para mostrar que a terra tem dono – ou um ocupante – e está sendo usada para uma atividade econômica, o que fortalece a ideia da posse da área.
O antigo conceito de que era preciso derrubar a floresta para ampliar as atividades agrícolas ou pecuárias está ultrapassado. Hoje existem terras suficientes para expandir a agricultura e a criação de gado em outros lugares, sem necessidade de avançar sobre a floresta. A atual ocupação de terras virgens está muito mais ligada à chegada do grande latifúndio e seus agentes, com objetivo de fazer especulação imobiliária. Existem muito grupos de investimento potencialmente interessados em adquirir grandes extensões de terra na região para investimentos futuros.
A destruição da floresta além de destruir os ecossistemas da região também prejudica populações locais, que há centenas ou milhares de anos estão estabelecidas na região; caso dos ribeirinhos, caboclos e dos índios. Estes povos estão de tal maneira integrados ao ambiente da região, que sua destruição só irá prejudicá-los, afetando seu modo de vida e sua cultura. O impacto ambiental, social e econômico da construção das barragens hidrelétricas nos rios Madeira e Tocantins é exemplo disso.
Outro aspecto é que recentemente, durante a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, o Brasil assumiu, entre outros, também o compromisso de acabar com o desmatamento na Amazônia até 2030. Essa medida deverá ser a mais importante contribuição do país para reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa, já que mais de 60% das emissões brasileiras são causadas por desmatamentos na região.
Especialistas consideram que será difícil reduzir o desmatamento da floresta tropical a zero. Além da complexidade em controlar toda a região, mesmo com a ajuda de satélites, a vasta área ocupada pela vegetação dificulta o acesso dos órgãos de controle e o combate a eventuais desmatamentos. Na melhor das hipóteses, espera-se que gradativamente o governo possa manter uma tendência de queda e chegar a taxas de desflorestamento baixas, mas ainda acima de zero.
(Imagens: desenhos de Wilhelm Busch) 

A eleição de Trump e o meio ambiente

sábado, 19 de novembro de 2016
"La desesperación colectiva es el factor de ruina más potente. El pueblo que cae en ella nunca llega a recuperarse del todo."  -  E. M. Cioran  -  Cuadernos 1957-1972

Depois de Donald Trump ter sido confirmado como o 45º presidente dos Estados Unidos, analistas de diversas áreas vêm tentando prever as conseqüências para o país e o mundo. Tal expectativa se deve ao fato de Trump ter dado as mais inesperadas declarações sobre diversos assuntos, enquanto candidato. Da construção de um muro entre o México e os Estados Unidos ao fechamento das fronteiras americanas aos imigrantes muçulmanos, até a imposição de taxas de importação aos produtos chineses. Isto sem falar dos comentários preconceituosos contra imigrantes latinos, até declarações machistas e a perspectiva do relativo fechamento da economia americana. Se o novo presidente americano colocar efetivamente em prática o que prometeu fazer em diversas áreas, o impacto sobre seu país e o restante do planeta será muito grande.
Nosso tema neste artigo são as perspectivas de desenvolvimento do setor ambiental sob a administração de um governo Trump. Em sua campanha pré-eleitoral o candidato fez diversas declarações sobre temas relacionados à questão ambiental. Entre outras coisas, afirmou não acreditar na existência das Mudanças Climáticas e que se eleito iria tirar os Estados Unidos do Acordo sobre o Clima. Internamente, o candidato declarou que limitará o poder da agência ambiental americana (EPA) e abrirá diversas áreas federais para a exploração do petróleo, gás natural e carvão. Também prometeu paralisar programas de redução de emissões instituídos pela atual administração.
Neste contexto, vamos lembrar que os Estados Unidos são a nação que, pelo menos nos últimos sessenta anos, mais influenciou a economia mundial. Novas tecnologias, novos produtos e maneiras de produzir, técnicas de administração e de marketing, enfim, a América influenciou, apoiou e em parte financiou a expansão do moderno capitalismo. Até as primeiras leis ambientais e grupos ambientalistas surgiram em solo americano. Assim, mesmo sendo o maior consumidor de recursos naturais e gerador de emissões – e até mesmo por isso – a atitude dos Estados Unidos em relação ao meio ambiente é importante para o mundo.
Por isso, se o governo americano reduzir internamente o controle ambiental, desenvolver ações que beneficiem o uso de combustíveis fósseis e internacionalmente se colocar em uma posição contrária à redução global das emissões, isso certamente terá uma influência sobre os outros países, a começar pela China. Trata-se de um bom negócio para governos, principalmente de países em desenvolvimento ainda às voltas com grandes problemas ambientais, reduzirem seus investimentos nesta área sob a alegação de que “a nação mais rica do mundo está fazendo o mesmo”.

Se, aliado a esse posicionamento em relação às questões ambientais os Estado Unidos ainda adotarem uma atitude de isolacionismo econômico, vão provocar atitudes semelhantes em outros países, o que acabará reduzindo os investimentos globais. A rarefação dos investimentos externos significa, para países como o Brasil, menos investidores para projetos de infraestrutura, como saneamento e energia, e paralisação de projetos de novas indústrias – todos envolvendo grandes investimentos em tecnologias de proteção ambiental. A relativa importância que a eleição de um presidente americano possa ter, neste caso poderá aumentar e exercer forte influência sobre o setor de meio ambiente em todo o planeta.
(Imagens: pinturas de Max Liebermann) 

Superestrutura cultural

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Parece que toda a superestrutura e suas materializações - todas as idéias, crenças, costumes, tecnologias, enfim, toda a cultura de uma civilização - está em uma zona etérea, de onde os humanos ao nascerem – e por influência de outros – retiram toda a sua bagagem cultural. Esta está espalhada fisicamente em todos os lugares (qualquer objeto ou atividade humana envolve cultura) no mundo humano e forma como que uma "nuvem de cultura". 

Todos os povos, todas as civilizações, todas as culturas, todos os líderes, artistas, cientistas, pensadores, em suma, toda e qualquer pessoa contribui, mesmo que minimamente, para a formação desta “nuvem de cultura”. Dessa todos também tiramos maior ou menor quantidade, sem que haja diminuição. Uma das poucas coisas - se não a única - que só aumenta, desde que tenha uma base para se fixar (bibliotecas, costumes, construções, tecnologias,etc) e nesta seja registrada através de certos códigos (matemática, notas musicais, imagens, escrita, símbolos, etc.) 

Agora, como se forma ou formou esta dimensão cultural que influencia toda a cultura / civilização? A linguagem – ou as suas diversas formas – é o principal responsável na manutenção, reprodução e transmissão deste “banco genético cultural”?

Em última instância, será essa a contribuição da humanidade no processo de "entropia decrescente”, isto é, acrescentar “ordem” ao processo que começou com o surgimento da vida?

(Imagem: galáxia de Andrômeda)

Newsletter novembro/dezembro 2016

sábado, 12 de novembro de 2016

(publicado originalmente no site www.ricardorose.com.br em 7/11/2016)

Está quase para terminar o ano de 2016 e pouca coisa mudou no país desde o início do ano. Apesar do afastamento da presidente Dilma, sucedida por seu vice-presidente Michel Temer, a economia continua em situação ruim e o desemprego ainda está em crescimento. A inflação começa a retroceder, mas os indicadores econômicos permanecem pouco promissores. A aprovação da PEC 241, que estabelece limite de gastos para o governo nos próximos 20 anos, é um sinal de que o atual governo vai tentar manter os gastos sob controle. Setor privado e a grande maioria dos economistas concordam que o projeto de emenda constitucional será a base para uma série de reformas, que este e outros governos terão que fazer para modernizar o Estado brasileiro. A reforma da Previdência e as reformas Fiscal, Trabalhista e Política, poderão fundamentar as bases para uma economia voltada para o mercado e a livre iniciativa, com menos ingerência do Estado e ao mesmo tempo eliminar diversos privilégios que ainda beneficiam parte da burocracia estatal nos Três Poderes.

Na análise de muitos especialistas o Brasil se encontra em uma encruzilhada. Pode seguir o caminho que vem seguindo deste o governo de Vargas, na década de 1930, com um Estado intervencionista, que se tornou ainda mais estatizante durante o período do Regime Militar. Estatização, burocratização, ingerência na economia, falta de concorrência e transparência são algumas das características deste regime. Economia fechada e aumento de impostos para médios e pequenos empresários e trabalhadores, mas benefícios para aqueles (grandes) grupos econômicos que têm boas relações com o governo. Formação de castas de privilegiados dentro da burocracia pública e nas estatais, que constituem apoiadores e propagandistas deste regime nacional desenvolvimentista. Essas características foram mantidas também durante os governos FHC e PT, com alguns benefícios para as camadas mais baixas da população. Nesta maneira de se apoderar do Estado e de usá-lo em benefício de seus interesses a direita e a esquerda são iguais.

Outro caminho que o país poderá seguir é o de uma economia aberta, voltada para o mercado, onde o Estado e sua estrutura burocrática seriam menores e se ocupariam de coisas essências, como a Educação, a Saúde, a aprovação e o respeito às leis e a gestão pública. Grande parte das atividades atualmente ainda nas mãos do Estado seria transferida para a iniciativa privada, e o governo teria uma forte função fiscalizadora – aquilo que as agências reguladoras deveriam fazer e em grande parte não estão fazendo. Estas providências reduziriam o custo do Estado, liberando mais recursos para outras áreas essenciais, com a Educação e a Saúde. O processo para modernização deverá ser lento, pois reformas estruturais desta amplitude não são possíveis de serem realizadas em poucos anos. Mas é preciso dar início ao processo, estabelecendo metas e constantemente avaliando resultados, já que um dos objetivos é ter uma administração pública mais eficiente (veja-se o atual caso do estado do Rio de Janeiro como exemplo oposto).

Na área ambiental a situação é a mesma da política e da economia; mais do mesmo. Um ano depois do desastre com a barragem de resíduos de mineração em Mariana, o caso está longe de uma solução. O processo contra a empresa Samarco corre com lentidão na justiça e os afetados pela tragédia continuam aguardando por recursos suficientes para definitivamente reestruturarem suas vidas. O rio Doce, que teve todo o seu ecossistema destruído pela lama, ainda permanece morto em grande parte de seu curso, afetando o meio ambiente e as atividades econômicas que dependiam de suas águas.


Na Amazônia aumentou o desmatamento no período 2015-2016, o que coloca mais uma vez o país em situação ruim perante as agências internacionais e também põe em dúvida nossa real capacidade de alcançar o objetivo de “desmatamento zero” até 2030. O setor da agropecuária também deverá começar a se preocupar com suas emissões originadas principalmente na preparação do solo e na criação de animais. Para manter seu lugar de destaque como exportador de alimentos – fato importante para a segurança alimentar do mundo – o país precisará aumentar seus investimentos em pesquisa de novas tecnologias nesta área, a exemplo do que empresas como a EMBRAPA vêm fazendo desde os anos 1980. 
(Imagens: pinturas de Gerhard Richter)

O mundo humano como epifenômeno do mundo material

quarta-feira, 9 de novembro de 2016


A versão humana do mundo e do universo sendo apenas uma das visões possíveis da realidade, condicionada por fatores evolutivos. A “visão humana” como apenas uma forma – e nunca a única – de enxergar o universo. Ainda muito parecida com toda gênese animal da qual proviemos. Seria possível enxergar o universo com olhos não humanos?

E a história individual, onde cada sensação, ideia, etc., tem origem animal e, portanto, condicionada e efêmera?

Serão nossas construções mentais, nossos deuses, nossos impérios, as teorias científicas, etc., por demais antropomórficas, animais (o que afinal somos)?

A perspectiva de que afinal tudo que é humano – nós e nossas construções culturais – é apenas uma visão (a única que podemos conhecer) possível do universo.

Com isso ocorre uma relativização de nossos anseios, planos, esperanças, medos, alegrias, ódios, desejos, idéias pessoais, etc.

(Imagem: cena do filme "2001 Uma odisseia no espaço")

Mudanças climáticas é tema de documentário de Leonardo DiCaprio

sábado, 5 de novembro de 2016
"A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos."  -  Winston Churchill

O ator Leonardo DiCaprio acaba de lançar o filme “Before the Flood” (Antes da enchente). O documentário, que está disponível na internet (https://www.youtube.com/watch?v=90CkXVF-Q8M), trata do fenômeno do aquecimento global e traz entrevistados de peso, como o papa Francisco e o presidente Barak Obama. DiCaprio viaja por vários países, conversando com pessoas comuns e cientistas, discutindo os principais aspectos ambientais relacionado com as mudanças do clima.
Com a película DiCaprio quer alertar um maior número de pessoas sobre o impacto da nossa civilização sobre o planeta e o clima. Anteriormente, em 2006, o ex-vice presidente dos Estados Unidos, Al Gore, havia lançado o documentário “Uma verdade inconveniente” (2006), a primeira grande reportagem sobre o aquecimento global transformada em filme e dirigida para um público ainda alheio ao tema.
Nestes dez anos que transcorreram entre os dois filmes algumas coisas mudaram. Os países oficialmente se posicionaram a favor de medidas de redução de emissões, chegando a assinar um acordo de compromissos durante a COP21, em Paris, em dezembro de 2015. A utilização das energias renováveis tornou-se mais comum inclusive no Brasil, aonde o setor de energia eólica vem crescendo rapidamente e a energia solar começa a ganhar força. Em todo o mundo, segundo dados mais recentes, vem caindo a utilização de combustíveis fósseis em novos projetos de geração de energia.
Ainda com relação à geração de energia, que nos países do hemisfério Norte ocorre basicamente com a queima de carvão mineral, a Europa vem criando leis e padrões para tornar as construções energeticamente mais eficientes. Quase 50% da eletricidade gerada no Velho Mundo são consumidos pelas residências e uma significativa parcela desta energia vai para o aquecimento. Novos prédios já estão sendo construídos com técnicas e materiais diferentes, a fim de alcançarem um melhor isolamento térmico e reduzir o consumo de energia. Os imóveis antigos têm prazo de alguns anos para também se adaptarem à nova legislação.           
Mesmo assim, ainda há muito por fazer para reduzirmos as emissões de gases de efeito estufa – ou pelo menos mantê-las dentro de limites. O setor de transportes ainda é bastante poluente devido à ineficiência energética da maioria dos motores a combustão. O carro elétrico, por outro lado, começa a se impor em muitos países, principalmente no Japão e nos Estados Unidos, onde o estado da Califórnia criou uma lei estabelecendo que 15% dos carros novos devem ser elétricos.   

O setor da economia que depois do da geração de energia mais contribui com as emissões de gases é o da agropecuária. Em suas diversas atividades a agricultura e a pecuária provocam emissões, principalmente o dióxido de carbono (CO²), metano (CH4) e óxido nitroso (N²O). Preparação e adubação do solo e a ruminação e digestão dos bovinos, são os principais geradores desses gases.
Novas maneiras de consumir, novos produtos, novos serviços; enfim, um novo modo de vida necessariamente deverá impor-se. Mas estas mudanças virão devagar, já que todo o sistema de produção também precisará adaptar-se a essa nova economia de baixo carbono. Ainda haverá muita resistência, principalmente das empresas, que tentarão protelar investimentos para substituir tecnologias que se tornam obsoletas.    
(Imagens: gravuras de Oswaldo Goeldi)   

Comentário sobre o filme "Quem somos nós?"

quarta-feira, 2 de novembro de 2016
"Para a pedra atirada, cair não é um mal, nem subir um bem."  -  Marco Aurélio  -  Meditações

Quem somos nós (Original: What the bleep do we know?)
Estados Unidos, 2005
100 minutos aproximadamente
https://www.youtube.com/watch?v=EJIYrIWJ76o

Para discutir a realidade do mundo físico e das percepções, os autores utilizam como enrêdo a vida de uma jovem americana, Amanda, fotógrafa, portadora de deficiência auditiva.
Amanda está abalada, tomando anti-depressivos, por causa de seu casamento que acabou, quando descobriu que seu marido mantinha um outro relacionamento.
A partir desta história diversos especialistas (físicos, médicos psiquiatras, médicos neurologistas, filósofos, engenheiros, professores e líderes religiosos) começam a expor as mais recentes teorias da física quântica, da neurologia e da psicologia comportamental.
Inicialmente, são expostos diversos aspectos da nossa realidade cotidiana, que tomamos como evidentes mas que – segundo algumas correntes de interpretação da moderna física quântica – não são assim tão simples.
Grande parte do que nós chamamos de matéria é na realidade espaço vazio. O átomo é constituído por um núcleo e ondas de elétrons, mas entre os dois o espaço vazio é imenso. O núcleo do átomo é vazio da mesma forma. Na realidade, o mundo das subpartículas só pode ser definido sob três aspectos: idéias, conceitos e informações. A matéria perdeu efetivamente sua materialidade.

Além disso, baseado no princípio de indeterminação (teoria da física que diz que nunca podemos determinar a posição da sub-partícula sem afetá-la) existe a possibilidade (teórica) de que afetemos a própria matéria, ou seja, nossa realidade diária. Aliando o princípio de indeterminação com um outra teoria que diz que uma partícula pode estar em vários lugares ao mesmo tempo, chega-se à conclusão (e esta também não é absolutamente unânime na física teórica moderna) de que influímos a realidade circundante. A partir destas premissas os autores do filme desenvolvem vários raciocínios, colocando questões como:
O que é a realidade, o que vemos ou percebemos?
O que é o passado e o futuro? Por que só lembramos o passado e não o futuro? Por que só podemos mudar o futuro e não o passado?
O passo seguinte do filme é explicar, a grosso modo, como funciona a química cerebral, as percepções, para em seguida formular mais questões, como:
Como funcionam o cérebro e as percepções? Existe uma diferença entre a realidade dentro do cérebro e a exterior? Quem é o observador do mundo exterior? Onde está?
O próximo passo é fazer uma junção entre os pensamentos da física quântica com os da neurologia (novamente frisando de que estas teorias não são compartilhadas pela maioria dos físicos ou neurologistas da atualidade). A proposta é mais ou menos assim: se o mundo exterior é influenciável pelo cérebro e se não existe uma diferença entre a realidade interna e a externa, então podemos alterar de certo modo a realidade (o mundo exterior) e nossa mente (o mundo interior).
A partir daí é um pequeno passo para que a própria pessoa se torne dona do seu destino, podendo moldá-lo e alterá-lo como necessário.
Para dar um toque mais místico ou religioso ao documentário, os diretores convidaram uma líder de uma seita religiosa e um teólogo. Ambos, muito progressistas, colocaram em cheque o conceito de um deus pessoal, controlador e vingativo.
Nossa personagem Amanda, passa no decorrer do filme por várias experiências (que no mundo real teriam enlouquecido qualquer pessoa), para no final ultrapassar seu trauma com o casamento e readquirir sua auto-estima.

As teorias apresentadas no filme não representam o que existe de mais moderno no campo da física de sub-partículas, e no da neurologia – que aliás foi abordada muito superficialmente. O conceito de “ego”, da personalidade por trás dos atos, não foi discutido em detalhes, merecendo uma curta menção apenas.  
O filme, no entanto, levanta muitas questões, despertando o interesse para um aprofundamento do que é discutido. 
(Imagens: pinturas de James Ensor)

Duas boas notícias para o clima da Terra

sábado, 29 de outubro de 2016
"Morra enquanto estiver vivo
  E esteja totalmente morto.
  Então faça o que quiser,
  Tudo estará bem."  -  Bunan, mestre zen citado por Philip Kapleau em "Roda da vida e da morte."

Duas boas notícias sobre o meio ambiente, especificamente sobre as mudanças climáticas, foram recentemente publicadas na imprensa. São parte de uma tendência que aos poucos parece se impor em todo o mundo, à medida que se torna mais conhecido o fenômeno das mudanças climáticas e suas consequências em médio e longo prazo sobre nossa civilização.
A primeira diz respeito ao aumento do uso de energias renováveis. O estado de São Paulo ocupa o segundo lugar em número de conexões de microgeração, tendo aumentado o número de pontos de 106 em 2015, para 711 em 2016 – uma expansão de 670%. No país já são 4.955 pontos de energia solar e 39 de energia eólica. A microgeração de energia distribuída é a geração de eletricidade através de uma central geradora com potência instalada menor ou igual a 100 kW, utilizando fontes de energia renovável, como fotovoltaica, eólica, biomassa, entre outras. Se até há pouco tempo a energia solar fotovoltaica era vista apenas em filmes e reportagens, atualmente ela começa a se tornar comum, incentivada pela resolução 482/2012 da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), possibilitando a autogeração de eletricidade com posterior desconto na conta de luz. O Ministério das Minas e Energia prevê que até 2024, cerca de 700 mil consumidores residenciais e comerciais deverão utilizar pequenas unidades de energia fotovoltaica.
O aumento do uso das energias renováveis é positivo para o país. A maior parte da eletricidade no Brasil é gerada a partir de fontes renováveis, como a água, o vento e a biomassa. No entanto, apesar dos reservatórios das hidrelétricas voltarem a ter água, uma parte significativa de nossa eletricidade – cerca de 8% – ainda provém das termelétricas movidas a óleo ou carvão mineral. Diminuir cada vez mais a dependência de combustíveis fósseis, emissores de gases poluentes, ajudará o país a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa.
Outro fato positivo divulgado pela mídia é a assinatura de um acordo mundial, visando eliminar progressivamente as emissões dos HFCs (hidrofluorcarbonetos). Estes gases passaram a ser usados em sistemas de ar condicionado, refrigeradores e sistemas de refrigeração para substituir os gases CFC (clorofluorcarbonos), que destruíam a camada de ozônio da Terra. No entanto, descobriu-se que o HFC tem capacidade de captar calor 14.800 vezes superior ao dióxido de carbono (CO²), contribuindo bastante para o aquecimento da atmosfera.
Segundo o acordo, a Europa e os Estados Unidos, que dispõem das maiores quantidades de aparelhos e sistemas de refrigeração e ar condicionado, serão obrigados a reduzirem suas emissões deste gás em 10% até 2019 e 85% até 2036, tendo como base os níveis de emissão de 2001-2013. Os demais países, incluindo o Brasil, deverão começar a diminuir as emissões deste gás a partir de 2024. Segundo os cientistas, a redução do HFC na atmosfera poderá evitar o aumento de 0,5ºC na temperatura medial global até 2100.
Fatos como esses mostram que tanto local como globalmente está aumentando a conscientização em relação ao meio ambiente. Se muitas vezes, como no caso do Brasil, a motivação é econômica (a autogeração de eletricidade é mais barata), isto é um indicativo de que as tecnologias limpas tendem a tornar-se mais econômicas e deverão substituir aquelas mais poluentes.
(Imagens: pinturas de Edward Munch)

Divagando sobre o tempo

quarta-feira, 26 de outubro de 2016
"Do mesmo modo, o triste plantador de uma vinha hoje velha e enfezada acusa a ação do tempo, queixa-se repetidamente da sua geração e resmunga que os homens antigos, cheios de piedade, passavam uma vida fácil num pequeno campo, quando era menor a quantidade de terra que cabia a cada um: e não vê que tudo se enfraquece pouco a pouco e se dirige para o esquife, fatigado pelo decrépito tempo da idade."  -  Tito Lucrécio Caro  -  Da natureza

Platão falava “que tudo está se tornando, nada é”.
Lembro-me de quando era criança e passava férias na praia. Ao lado de nossa casa havia uma família de caiçaras, que morava em uma casa de madeira, um pouco melhor que um barraco. Pois bem, passou o tempo e alguns anos depois estas pessoas construíram uma casa de tijolos. Viveram lá por mais alguns anos. Depois morreu o patriarca da família e eles também se mudaram, vendendo a casa para veranistas de São Paulo.

Pergunto-me onde está aquela casa de madeira que primeiro conheci e como tudo foi se transformar em outra coisa, no mesmo espaço, mas completamente diferente habitado por outros indivíduos, com histórias completamente diferentes.

Como entender esta mudança?
É este processo de mudança completamente aleatório, sem qualquer vínculo com o passado? Em outras palavras, o que uma coisa – neste caso a casa de madeira, habitada por caiçaras, que lá viviam suas vidas – tem a ver com o que existe lá agora, a casa de tijolos, eventualmente visitada por pessoas em férias e vazia na maior parte do tempo fora da época de temporada?

Existe uma ordem de mudança nisto, ou seja, há uma maneira de, partindo do presente, fazermos uma idéia do passado? Talvez olhando o fato de certa maneira sim, com relação à substituição da casa de madeira pela de tijolos. O que não sabemos é porque esta mudança ocorreu – como saberemos o que levou os antigos habitantes construir uma casa de tijolos e depois vendê-la?

Isto nos leva a outra questão, muito antiga e não respondida ainda, mas tratada por inúmeros filósofos e físicos: o que é o fluxo do tempo? Penso que não há fluxo nenhum. O que ocorre são transformações na matéria; movimento no espaço, mudanças na aparência (quebra, envelhecimento, doença, destruição por substâncias ou organismos, por exemplo). Trata-se, essencialmente, de transformação da matéria, principalmente no nível atômico e subatômico (as menores partículas das quais é constituída a matéria).

Imagino que se fosse possível cessar completamente o movimento dos átomos, dos elétrons, fótons e todas as outras subpartículas, não haveria mais qualquer movimento na matéria, não ocorreriam mais interações e transformações e o que nós chamamos de fluxo do tempo pararia. Não havendo mais qualquer tipo de transformação na matéria, não há mais escoamento do tempo. Um universo congelado.

Mas, voltando ao exemplo inicial, da casa do caiçara transformada em casa de praia. A transformação das coisas ocorre porque na natureza (penso aqui nos fatores não-humanos) existem duas principais tendências: a entropia crescente, ou seja, a desagregação e perda de energia e organização, como afirma o segundo princípio da termodinâmica. A outra tendência, presente em todos os seres vivos, é a tendência de aumentar e manter a organização – a entropia decrescente. (Fica a pergunta se formações cristalinas podem ser incluídas nessa segunda tendência). Todos os seres vivos lutam contra a desagregação, representados pelo desgaste do organismo (gradual falência dos órgãos e demais sistemas de manutenção da vida) e doenças (ataques de outros seres vivos, como bactérias e fungos e não vivos, como os vírus).
(Imagens: pinturas de Gabriele Münter)

A ameaça da degradação dos solos

sábado, 22 de outubro de 2016
"Como poderão ver, tudo se constrói a partir do eixo de um condicional: se algo existe em vez de nada, então existem fatos que tornam possível a existência das coisas que existem. Este é o chamado condicional de base."  -  Markus Gabriel  -  O sentido da existência - Para um novo realismo ontológico

A destruição de solos férteis é um dos mais graves problemas a serem enfrentados pela maioria dos países. Assim como o efeito estufa, a poluição dos oceanos e a diminuição dos recursos hídricos, o desaparecimento de solos agricultáveis é mais um fator de preocupação com relação ao futuro da humanidade.
Atualmente cerca de 38% das terras do planeta são usadas para atividades agrícolas. No entanto, em grande parte dos países, principalmente as nações pobres, a agricultura tem sido feita de maneira insustentável, sem levar em conta o impacto da atividade sobre o meio ambiente e os demais recursos naturais, principalmente o solo. Assim, por exemplo, a falta de técnicas de combate à erosão, como o plantio em terraços, faz com que a chuva arraste parte da terra fértil, encharcada de adubos e defensivos agrícolas, para a parte mais baixa do terreno e dali para os riachos e córregos.
A eliminação da mata ciliar que vai beirando os cursos d’água, tendo para estes uma função protetora, faz com que parte da terra lavada pela chuva da área de plantio, acabe assoreando os rios e poluindo suas águas com excesso de fertilizantes e defensivos. Muitas vezes são destes mesmos rios que os agricultores vizinhos e cidades da região captam água para consumo humano. Ao mesmo tempo, não penetrando devidamente no solo, o lençol freático não é suficientemente abastecido com água, sofrendo queda constante e forçando os agricultores a buscarem água em profundidades cada vez maiores – fato que acontece na Índia e no Paquistão há alguns anos e que por fim secará o subsolo.
Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) a degradação do solo é definida como uma mudança na saúde da terra, com a diminuição da capacidade dos ecossistemas que se desenvolvem sobre este solo, de fornecerem bens e serviços. Esta mudança não se limita à disponibilidade de água; inclui presença ou não de microrganismos endógenos, composição balanceada de minerais e de matéria orgânica, acidez e aeração correta, entre outros fatores.
Nem todos os solos são naturalmente propícios à agricultura, há que corrigi-los. Da mesma forma, solos originalmente indicados para o plantio são desequilibrados por uma prática incorreta. Esta é a razão pela qual a atividade humana aumentou em 10 a 40 vezes a velocidade de ocorrência da erosão, em comparação às condições naturais. Aqui vale lembrar que a natureza leva em média 500 anos para repor 2,5 cm de solo fértil. A prática agrícola necessita em média de uma camada de 15 a 30 cm de solo e esgota 2,5 cm deste solo fértil a cada 25 anos. Com isso, os Estados Unidos estão perdendo solo 10 vezes mais rápido que a capacidade natural de reposição; a China e a Índia 30 a 40 vezes.


Uma das maiores preocupações da FAO é manter a produtividade dos solos, para que no futuro não ocorra uma queda na produção de alimentos. Desflorestamento, formação excessiva de pastos, técnicas agrícolas ultrapassadas, são os maiores responsáveis pela perda de solos férteis no Brasil. Num mundo que em 40 anos perdeu 30% de seus solos aráveis, nosso país ainda está em posição privilegiada, mas precisa aumentar os cuidados com a manutenção desse patrimônio natural. Fertilidade é um presente da natureza, que para ser recuperado demanda muito tempo e recursos.    
(Imagens: fotografias de August Sander)