Os rios e o rio Tietê

sábado, 23 de maio de 2015
"Uma vez que os tempos não se adaptam aos nossos modestos apetites, o remédio é nos adaptarmos aos apetites do tempo."  -  Carlos Heitor  Cony  -  O ato e o fato

Os rios sempre tiveram um importante papel na história da humanidade. De acordo com sua localização, volume d'água e navegabilidade, ofereciam as condições para que os homens pudessem sobreviver às suas margens. Foi à beira dos cursos d'água que se estabeleceram as primeiras aldeias em regiões propícias à agricultura. As aglomerações cresceram, passando a reunir um grande número de atividades que ocupavam parte da população. Ao longo to tempo criaram-se leis, um governo central, um exército profissional e logo surgiram os primeiros estados e impérios. Foi assim que às margens do rio Nilo surgiu o império egípcio e à beira dos rios Tigre e Eufrates surgiu o império babilônico.
Outros rios eram propícios ao escoamento de mercadorias produzidas ao longo de seu curso, tornando-se rota de comércio e ligação entre cidades e regiões. O rio Reno, localizado na Europa Central, tem estas características. Já na Idade Média o Reno era navegado por comerciantes da Liga Hanseática que faziam o comércio de mercadorias, ligando o Mediterrâneo e o Mar do Norte. O rio Volga, na Rússia e o Tamisa, na Inglaterra, tiveram e ainda têm a mesma função.
Em São Paulo o rio Tietê, correndo da costa para o interior, foi utilizado como via de acesso às terras desconhecidas; o sertão. A exemplo de outros rios como o Mississipi, nos Estados Unidos, o Paraná e o Uruguai, na região da bacia do Prata, o rio Tietê tornou-se o caminho de acesso às regiões inexploradas do oeste do país. Foi através dele que as bandeiras alcançaram o ouro de Minas Gerais e de Goiás e povoaram parte do interior de São Paulo.
O rio Tietê há muito perdeu sua função de via de acesso ao interior do país. A construção de ferrovias no início do século XX e a expansão da malha rodoviária na década de 1950, fizeram com que diminuísse a importância do rio para o transporte. A partir dos anos 1980 o rio voltou a ser importante meio de transporte de produtos agrícolas e minerais, com a construção de eclusas que facilitaram sua navegação.
A partir do final do século XIX o Tietê começou a ser utilizado para diluir os esgotos da crescente cidade de São Paulo. A poluição do rio começou a se fazer notar a partir dos anos 1920, quando a população da cidade começava a ultrapassar os 700 mil habitantes. Com isso a captação de água do rio para bairros da região norte teve que ser gradualmente interrompida. Nos anos 1930 as atividades recreativas realizadas no Tietê tiveram que ser suspensas devido ao mau cheiro das águas.  
Em 1992 teve início um ambicioso projeto de despoluição do rio Tietê, coordenado pela SABESP, a companhia de saneamento do estado. No entanto, apesar das promessas das autoridades nos últimos 20 anos, o rio Tietê continua relativamente poluído no trecho entre Mogi das Cruzes e Barra Bonita (cerca de 230 km). A poluição mais forte, onde o nível de oxigênio na água é de 0 a 2 mg de oxigênio por litro - considerado praticamente morto - se concentra entre Guarulhos e Bom Jesus de Pirapora, numa extensão de cerca de 70 quilômetros.
As obras de saneamento continuam avançando, mas não existe uma previsão de término. Cerca de 40% do esgoto gerado pela cidade e centenas de córregos poluídos ainda deságuam no Tietê. Lixo e entulho ainda são carregados pela correnteza em direção ao interior; triste paródia das monções que partiam da vila de São Paulo no passado.
(Imagens: xilogravuras de Oswaldo Goeldi)

A peneira

quarta-feira, 20 de maio de 2015
"A verdade não deve, porém, ser buscada na boa fortuna de uma época, que é inconstante, mas à luz da natureza e da experiência, que é eterna."  -  Francis Bacon  -  Novum Organum

Peneirar é separar objetos de tamanhos diferentes. Se a peneira não tivesse a trama ou os furos de determinado tamanho, poderiam acontecer duas coisas: ou nada passaria pelo fundo, assim como em uma panela; ou tudo que fosse menor que o arco passaria pelo fundo (já que não haveria peneira, só um buraco redondo). A peneira tem esse nome porque separa coisas de diversos tamanhos.
Tanto o que não passa pela peneira (por ser muito grande) como o que passa, pode ter alguma utilidade. Os garimpeiros à procura de pedras preciosas na areia, aproveitam só o que não passa pela peneira (as pedras que talvez possam ter algum valor). A areia é jogada fora. No caso da construção, na preparação da argamassa, já é o contrário: só a areia peneirada tem valor. 
Nos seres vivos as sensações podem ser consideradas peneiras. Os sentidos - a visão, a audição, o tato, o paladar e o olfato - funcionam como "peneiras" em nosso contato com o mundo. O que não percebemos, de certa forma não existe para nós e não exerce qualquer influência sobre nossas emoções e pensamentos. Existem radiações, como o infravermelho, que não conseguimos perceber - ao contrário das cobras e das abelhas. Há tipos de sons que são ouvidos pelos cães e os ratos, mas que a audição humana não consegue captar. O mesmo vale para cheiros e gostos. Não é por outra razão que os enólogos (aqueles que se especializam em provar o odor e o sabor de vinhos) precisam de anos de treinamento para aprimorarem seu olfato e paladar. 
São os sentidos que caracterizam a forma como um animal - incluindo o homem - interage com o mundo. Por isso não há uma maneira única de perceber e reagir aos estímulos do ambiente. A forma como uma coruja ou uma onça se comportam à noite na floresta, na ausência de luz, é diferente da das galinhas ou dos jabutis. E é este jeito de perceber o mundo através dos sentidos, que vai determinar a maneira e o lugar onde cada espécie vive. Os sentidos de cada animal funcionam como uma peneira.
Mas se esta peneira não funcionar de maneira correta, separando o que é importante daquilo que não é, o animal não será mais capaz de interpretar corretamente os estímulos do meio ambiente, e se tornará presa de seus predadores. Assim ocorre que certos herbicidas, usados para combater ervas daninhas, afetam o sistema nervoso das abelhas, fazendo com que estas fiquem desorientadas ao voarem e assim reduzam a produção de mel. Algo afetou a "peneira" (a percepção) da abelha e esta já não consegue mais interpretar corretamente seu ambiente.
A única espécie capaz de se adaptar a qualquer ambiente é o homem. Com seu raciocínio, adquiriu a capacidade de superar as limitações impostas por sua "peneira", ou seja, seus sentidos e sentimentos. Através de instrumentos científicos, o homem aumentou em muito sua capacidade de perceber o mundo. Vemos galáxias distantes com poderosos telescópios, escutamos infra e ultrassons, temos lentes que nos possibilitam enxergar no escuro, conseguimos captar e transmitir ondas invisíveis de rádio e TV, fabricamos sensores para cheiros quase imperceptíveis. Desenvolvemos "peneiras" para quase tudo.

O homem também tem um outro tipo de peneira: seu conhecimento, suas crenças e seus preconceitos. Quando temos contato com o mundo e as pessoas, "peneiramos" nossas percepções, impressões e sentimentos, baseados naquilo que sabemos, acreditamos e pré-concebemos. E é através destas "peneiras" que julgamos e agimos na vida, muitas vezes não conseguindo entender situações e pessoas.
O grande desafio do homem é aprender a "peneirar", ou seja, enxergar, julgar e agir de modo correto, sabendo separar "o joio do trigo". Para este aprendizado, no entanto, não existe uma fórmula pronta; é preciso paciência. É como escreveu mestre Salun: "Reparem na maré com as pedras e as areias; são atritos constantes e necessários para que cada um tenha o seu lugar. O oceano também tem a sua peneira e as areias um dia também foram seixos e pedras; os atritos fizeram cada um cumprir sua função."
(Imagens: mosaicos romanos)

Patrimônio da Humanidade

sábado, 16 de maio de 2015
"Nunca poderemos reconstruir a surpresa que acometeu aquela geração, a estupefação em relação aos resultados atingidos pelo telégrafo, que começara com uma simples centelha elétrica, descarregada de uma garrafa de Leyde, e estendera sua atividade tão rapidamente como se, por feitiçaria, pudesse saltar num instante através de países, montanhas e continentes."  -  Stefan Zweig  -  Momentos decisivos da humanidade

Patrimônio da Humanidade é juridicamente considerado um bem material ou imaterial sob a tutela de um governo ou instituição. Foi criado pela Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultura (UNESCO) em 1972, para proteger edifícios, monumentos, ilhas, montanhas, florestas ou cidades, que por suas características históricas, culturais, científicas ou ambientais são um bem importante de ser preservado no interesse de toda a humanidade. A ideia de criar a figura jurídica do patrimônio da humanidade surgiu em 1959, quando o Egito decidiu construir a represa de Assuã; obra que inundaria  monumentos da antiga civilização egípcia. Com recursos arrecadados pela ONU, templos e monumentos puderam ser removidos para locais afastados da represa, ficando preservados para a posteridade.
Além do valor sentimental para um povo, uma cultura ou religião, o patrimônio histórico também pode ter valor estético, cultural, científico e histórico para outros povos e culturas. A cidade de Jerusalém, por exemplo, tem valor religioso e cultural para muitas nações, culturas e religiões. Além disso, a metrópole tem valor histórico e arqueológico para cientistas e estudiosos de todos o mundo, interessados em pesquisar este importante foco cultural e político na Antiguidade. Sob esta ótica, o patrimônio histórico é um local no qual aprendemos algo de novo; seja individualmente, visitando o Coliseu romano e imaginando os grandes espetáculos ali ocorridos; ou como sociedade, quando biólogos descobrem uma nova espécie de mamífero em uma floresta protegida.
A história nos relata que no passado os locais de interesse cultural, histórico ou científico raramente eram preservados. Guerras, revoltas, lutas religiosas, terremotos e incêndios - além da incapacidade  de compreender o valor cultural e científico das coisas - fizeram com que muitas obras humanas e naturais fossem destruídas ao longo dos últimos cinco ou seis mil anos de história. Os relatos históricos sobre civilizações, cidades, construções e obras de arte da Antiguidade, nos dão uma ideia do volume de informações que perdemos sobre o nosso passado. Até que ponto, nossa civilização seria atualmente diferente, se, por exemplo, a famosa biblioteca de Alexandria, fundada no terceiro século antes da era cristã, tivesse escapado ao incêndio que a destruiu no século VII? A coleção continha todas importantes obras de cientistas, artistas, filósofos, escritores e historiadores da Antiguidade; conhecimento que nunca chegou até nós.

O filósofo Karl Marx dizia que "A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa". Infelizmente, quando se trata da destruição do patrimônio da humanidade, a história é sempre uma tragédia. Os frequentes ataques a museus e obras de arte antiga, culminando com a destruição das ruínas da milenar cidade assíria de Nimrud, perpetradas pela milícia do Estado Islâmico, são um atentado contra toda a humanidade. Da mesma forma, no entanto, devemos classificar a sistemática destruição de florestas ou ecossistemas únicos, habitados por espécies desconhecidas e que estão sendo definitivamente eliminadas. 
Patrimônio da humanidade é um bem que pertence a todos. Não pode ser utilizado e destruído sob qualquer argumento; seja por causa político-religiosa, como no caso das ruínas de Nimrud, ou para gerar lucros para grupos econômicos, como na derrubada da floresta amazônica.
(Imagens: pinturas de Edward Hopper)

Energia renovável ultrapassa fóssil

sábado, 9 de maio de 2015
"No século 21, Freud será lembrado não como médico, mas como um grande escritor e especulador apenas. Nós o consultaremos sobre outras questões, em busca de sabedoria, assim como buscamos Montaigne, Emerson, Nietzsche, seus pares."  -  Harold Bloom  -  Presságios do Milênio

A capacidade de geração de energia a partir de fontes renováveis, já ultrapassou a de energia fóssil em todo o mundo. A notícia, recentemente publicada no jornal Valor com base em dados da agência de notícias americana Bloomberg, informa que esta tendência é definitiva para o futuro. Cada vez mais as energias renováveis - a solar, eólica, biomassa, energia das marés, entre outras - deverão substituir as fósseis, como o carvão mineral, o petróleo e o gás natural. A mudança de tendência ocorreu a partir de 2013, quando em todo o mundo foram adicionados mais 143 gigawatts (GW) em novas usinas de geração de eletricidade a partir de fontes renováveis, contra novos 141 GW em instalações que operam com combustíveis fósseis.
A tendência de substituir gradualmente a energia gerada a partir de fontes poluentes por fonte limpas é mundial. Até 2030, segundo a mesma fonte, a geração de energia renovável em todo o globo deverá aumentar cerca de quatro vezes em relação à capacidade instalada atual. "O sistema elétrico está migrando para fontes limpas", disse Michael Liebreich, fundador do encontro anual sobre financiamento de energia (BNEF), organizado pela agência Bloomberg.
Diferente da geração brasileira, a geração de eletricidade nos países do hemisfério norte é em grande parte baseada em carvão mineral, petróleo e gás natural. Nos Estados Unidos, cerca de 67% da energia é gerada a partir destes combustíveis fósseis; 19% da eletricidade provêm de reatores nucleares, 19% são renováveis e o restante de outras fontes. Na Alemanha, 56% da eletricidade é gerada a partir do carvão e do gás, 16% de reatores nucleares e 24% provém de fontes renováveis, especialmente energia eólica. O restante da demanda é completada por eletricidade gerada por outras fontes e energia importada. Segundo dados da publicação internacional Renewable Energy Data Book, em 2013 o mundo em média gerava 23% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis. 
Dois fatores têm contribuído cada vez mais para aumentar o uso das energias renováveis. O aspecto mais importante é que através do Protocolo de Kyoto e de outros acordos que deverão ser negociados no futuro, grandes geradores de gases de efeito estufa, como os Estados Unidos, a China e a Europa, deverão assumir (alguns já assumiram) compromissos de reduzir sua emissões. Assim, estes países utilizarão cada vez mais fontes não poluentes para geração de sua eletricidade. Outro aspecto é que as tecnologias para produção de energia limpa estão se tornando cada vez mais econômicas; geradores eólicos e painéis fotovoltaicos, especialmente, tornaram-se mais eficientes e tiveram seus custos reduzidos.
Atualmente, cerca de 75% da eletricidade consumida no Brasil é gerada a partir de fontes renováveis. Este percentual, no entanto, vem caindo, já que com a estiagem por que passa parte do país, o governo está colocando em funcionamento um grande numero de termelétricas a óleo e carvão. Mesmo assim, o somos o segundo maior produtor de eletricidade a partir da água e da biomassa e até o final de 2015 deveremos estar entre os cinco maiores produtores de energia elétrica gerada pelo vento. O potencial do país para a implantação de geração limpa é imenso e precisa ser fomentado pelo governo, especialmente na área da energia de biomassa e biogás, através do financiamento de pesquisas e da implantação de projetos-piloto.
(Imagens: fotografias de Ansel Adams)

Do universo ao meio ambiente

sábado, 2 de maio de 2015
"No futuro esta será uma das razões para sermos considerados povos de uma era menor: a facilidade com a qual fazemos julgamentos positivos sobre nós mesmos. Deixamos de desconfiar da vaidade e com isso o mundo se escureceu."  -  Luiz Felipe Pondé  -  A era do ressentimento

A ciência que estuda o surgimento e a evolução do universo, a cosmologia, avançou muito nos últimos 30 anos. Se antes já haviam fortes indícios de que o universo tenha surgido através de uma imensa explosão - apelidada de "big bang" -, novas teorias dos anos 1980 consolidaram cada vez mais esta visão científica. A elaboração destas teorias é trabalho multidisciplinar, no qual conhecimentos das diversas áreas - física, química, astronomia - contribuem para formar uma visão coerente da evolução do universo em seus primeiros milhões de anos. Importante lembrar que tais especulações não são respostas definitivas sobre um tema tão complicado e que a cada ano surgem novas descobertas, que podem colocar em cheque todas as teses anteriormente aceitas.
Resumidamente, em relação ao universo, os cientistas em sua maioria aceitam que este surgiu há cerca de 13,7 bilhões de anos. A partir de um ponto minúsculo que concentrava toda a energia e matéria atualmente existentes, o universo explodiu e se expandiu rapidamente. Durante o processo de expansão a matéria foi esfriando, permitindo o aparecimento dos primeiros átomos e elementos químicos. O hidrogênio e o hélio - elementos mais abundantes no universo - se agregaram em grandes quantidades a altíssimas pressões e formaram as primeiras estrelas e galáxias. Posteriormente, com a explosão das estrelas, surgiram outros elementos, que contribuíram para o aparecimento dos planetas, satélites e outros corpos celestes sólidos. Em um planeta específico - pelo menos de acordo com o estado atual dos nossos conhecimentos - surgiu a vida como a conhecemos.
A teoria da evolução do universo também prevê que este terá um fim. De acordo com a hipótese mais recente, que leva em consideração a descoberta da energia e da matéria escura (sobre as quais não falaremos aqui), tudo indica que o universo se expandirá indefinidamente, até perder a energia e dissolver toda matéria. Os cientistas não estabelecem tempo para que isso ocorra; dezenas, centenas de bilhões de anos ou trilhões de anos, como conjecturam alguns. Um tempo inimaginável em padrões humanos, mas finito. O universo, segundo a ciência, terá um fim.
Voltemos agora à Terra, onde nós e todas as outras espécies de seres vivos nascemos e vivemos - a maioria já definitivamente extinta. A vida surgiu há cerca de 3,5 bilhões de anos; os primeiros organismo pluricelulares apareceram há 600 milhões de anos; o homem há 200 mil. A civilização organizada surgiu há menos de 10 mil anos; a escrita há 6 mil e a ciência moderna tem pouco mais de 500 anos. Somos a única espécie viva na Terra e no universo (ao que saibamos) que tem a capacidade de alterar o ambiente em que vive e de prever razoavelmente o resultado destas ações.
Talvez, sob esta perspectiva mais ampla, a humanidade se dê conta da gravidade de nossas ações em relação ao meio ambiente e da importância em protegermos e mantermos os recursos naturais sob todas as formas: espécies vivas, ecossistemas, biomas e ambiente físico; incluindo mares, rios, montanhas, desertos, planícies e tudo mais.
A Terra e o universo não foram feitos para o homem, ao contrário. Este surgiu na história da vida, como filho da Terra e do universo, junto com milhões de outras espécies. Temos o privilégio de olhar e interpretar o universo. Como já escreveu outro autor: "O homem é o universo olhando para si mesmo".
(Imagens: fotografias de Colin O'Brien)

2015 é o Ano Internacional dos Solos

sábado, 25 de abril de 2015
"Agora todos nós nos adaptamos à nova concepção de nossa infinita pequenez, considerando-nos menos que zero no Universo, com todas as nossa belas descobertas e invenções; então, que valor o senhor quer que tenham as notícias, já não digo das nossas misérias particulares, mas até mesmo das calamidades gerais?"  -  Luigi Pirandello  -  O finado Marias Pascal

A ONU através da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) declarou o ano de 2015 como o "Ano Internacional dos Solos". O dia 5 de dezembro de 2015 será celebrado em todo o mundo como o "Dia Internacional dos Solos". A data foi instituída, segundo a FAO, para aumentar a consciência sobre a importância dos solos na vida humana. Com esta iniciativa a FAO pretende educar a população sobre o papel crucial dos solos na segurança alimentar e a eliminação da pobreza, além de promover a proteção ao meio ambiente. A organização internacional também deverá apoiar políticas, investimentos, pesquisas e demais iniciativas que visem um melhor conhecimento e proteção dos solos em todo o planeta.
O solo como fonte de alimento e vida torna-se mais importante a cada geração. Se, no passado, havia sempre mais uma fronteira por ocupar e explorar, atualmente é cada vez mais difícil encontrar solo virgem e pronto para a agricultura. Isto porque, as grandes áreas de solo agricultável já foram ocupadas em quase todo o mundo e terras que no passado eram muito férteis já dão mostras de desgaste. Segundo levantamento feito pela FAO em 2011, cerca de 25% dos solos destinados à atividade agrícola estão parcialmente degradados devido a práticas que causam a erosão hídrica e eólica, a perda da matéria orgânica, a compactação, a salinização, a perda de nutrientes e a poluição do solo. 
O norte e o nordeste da África e certas regiões da Ásia - partes da Índia, Paquistão e China - são as regiões do mundo mais afetadas por este gradual processo de destruição da terra fértil. No entanto, em proporções menores, a contínua perda de solo agricultável ocorre em todos os países. Segundo Luc Gnacadja, secretário executivo da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), o planeta perde por ano cerca de 12 milhões hectares de solo fértil - área equivalente a aproximadamente a 11 milhões de campos de futebol. Estes dados são muito preocupantes, pois um solo propício para a produção de alimentos, com alguns centímetros de espessura, pode levar milhares de anos para se formar. É por esta razão que é considerado um recurso natural não renovável.
O Brasil perde anualmente cerca de 286 milhões de toneladas de solo agricultável, segundo o Ministério do Meio Ambiente. Esta perda é provocada em parte por práticas agrícolas que não levam em conta as características do solo, da cultura a ser plantada, além de serem utilizadas tecnologias ultrapassadas. Outro aspecto é que a remoção da vegetação original pode comprometer a qualidade do solo definitivamente, como ocorre com as terras ocupadas pela floresta amazônica. Estes solos, que nas décadas de 1950 e 1960 eram tidos como o futuro celeiro do mundo, provaram ter uma constituição pouco propícia para a agricultura extensiva, sendo mais indicados para o plantio agroflorestal, que associa culturas agrícolas com culturas florestais.

A demanda por alimentos deverá aumentar em até 25% nos próximos trinta anos. Nestas condições, serão nações com vasta extensão agricultável como o Brasil, que terão um papel estratégico na segurança alimentar de todo o planeta. Se o mundo não adotar, ainda hoje, técnicas que contribuam para a conservação e recuperação de vastas áreas propícias ao plantio de alimentos, amanhã poderá se defrontar com o aumento dos preços dos alimentos. Os maiores prejudicados serão, como sempre, as nações pobres, que não terão recursos para abastecer suas populações  por terem solos pouco propícios à agricultura, e não disporem de suficientes recursos para compra de alimentos no mercado internacional.
(Imagens: fotografias de Robert Doisneau)

Cidade, a grande invenção humana

sábado, 18 de abril de 2015
"No fundo, culto é sempre e apenas aquele que se esforça em sua busca por cultura, isto é, que simplesmente procura ser culto, porque, de fato, isso não é nada fácil."  -  Robert Walser  - Absolutamente nada e outras histórias

A cidade foi uma das maiores invenções da humanidade, há cerca de sete ou oito mil anos. De um modo geral, o surgimento das primeiras aglomerações humanas está ligado à prática da agricultura. Esta atividade começou a se difundir em toda a região do Crescente Fértil, área que engloba os atuais Iraque, Síria, Líbano, Egito, Israel, Jordânia, parte da Turquia e Irã. Sob a influência dos rios Nilo, Tigre e Eufrates, a população local desenvolveu a cultura de plantas que passariam a ser incorporados ao cardápio da posteridade, como a cevada, trigo, aveia, ervilha, lentilha, cebola; frutas como o figo, a tâmara, o pêssego e a ameixa.
O excedente de alimentos produzido pela agricultura, associado à criação de gado, à pesca e eventual caça, permitiu com que um numero cada vez maior de pessoas se fixasse nas áreas urbanas, exercendo atividades tipicamente citadinas, como artesãos, ferreiros, prestadores de serviços, sacerdotes, etc. Assim, a cidade sumeriana de Tell Brak, localizada na atual Síria, já tinha uma população estimada em 4 mil pessoas por volta de 5.000 A.C.; as vizinhas Uruk e Larak tinham respectivamente 5 e 10 mil habitantes por volta de 4.000 A.C., sendo que a primeira alcançaria a impressionante população de 50 mil habitantes por volta de 2.500 A.C.. A título de comparação, a cidade de São Paulo tinha pouco mais de 30 mil habitantes em 1872 e alcançou a cifra de 65 mil moradores somente em 1890.
Foi no espaço das cidades de todo o mundo que se desenvolveram outras grandes criações humanas: o Estado, as religiões organizadas, a escrita e o cálculo, a ciência e a tecnologia. No entanto, apesar de serem as capitais dos impérios, os centros administrativos, religiosos e comerciais, as cidades tinham uma importância relativa, já que a maior parte da população vivia no campo de forma autossuficiente  e necessariamente não precisava frequentar a cidade. Muitas pessoas, até o fim do período medieval, visitavam a vila ou aldeia mais próxima somente algumas vezes em suas vidas.

A partir dos séculos XIII e XIV ocorreram diversas mudanças econômicas, sociais e culturais na Europa, que fizeram com que as cidades passassem definitivamente a ser o centro das principais atividades humanas. O campo ainda produzia alimentos e matérias primas, mas os centros urbanos agora é que ditavam os destinos das nações; eram as sede dos governos, do comércio, dos bancos, das universidades, da administração de impérios ultramarinos e da vida cultural. As metrópoles foram os focos irradiadores das novas ideias religiosas e políticas. A partir da segunda metade do século XVIII, as cidades também se tornaram o local das atividades industriais e da pesquisa científica.
A cidade foi uma invenção tão bem sucedida que atualmente cerca de 55% da população mundial vive em metrópoles - no Brasil já são mais de 80% da população. Mas, como toda invenção humana, a cidade está sujeita a melhorias e adaptações, já que é o local onde se concentram inúmeras atividades humanas, sujeitas às condições históricas e ambientais do local onde ocorrem.
A cidade, seja de que tamanho for, é a amostra de como funciona um país. De como  atende às necessidades da população através da arquitetura, transporte, saneamento, segurança, lazer, condições de saúde, educação e cultura. É uma construção coletiva, da qual todos participam e devem se beneficiar.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

O mundo sensível e ideal em Platão

sábado, 11 de abril de 2015
"No oitavo livro da Odisséia, lê-se que os deuses tecem desgraças para que às futuras gerações não falte o que cantar; a afirmação de Mallarmé 'O mundo existe para chegar a um livro' parece repetir, uns trinta séculos depois, o mesmo conceito de uma justificação estética dos males."  -  Jorge Luis Borges  -  Outras Inquisições

O princípio das coisas sensíveis, segundo Platão, tem origem no antagonismo entre o pensamento de Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eléia. Cada um dos dois pensadores, a seu modo, procurou dar uma explicação para o problema do ser.
Enquanto os filósofos cosmológicos como Tales de Mileto, Anaxímenes e Anaximandro, buscavam um princípio do ser na própria physis, na natureza,  Heráclito de Éfeso colocou como princípio de todo o ser a mudança. “Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos”, escrevia Heráclito. Todo o ser estava sujeito ao devir e em constante alteração cíclica. No final, todo o ser (a physis, a natureza) será destruído pelo fogo e então o processo começará novamente: “Por fogo se trocam todas (as coisas) e fogo por todas, tal como por ouro mercadorias e por mercadorias ouro.” (Heráclito, 1996).
Já Parmênides parte do princípio (talvez influenciado pelo pensamento de Pitágoras) de que o mundo das mudanças e das aparências é ilusório e é sobre ele que formamos as nossas opiniões, diferentes do conhecimento. A este quadro permanentemente mutável Parmênides contrapõe o Ser – to on, on – aquilo que é e não muda; é sempre idêntico a si mesmo, eterno, imperecível e invisível aos nossos olhos. A este Ser imutável, o filósofo contrapôs o Não-Ser, o qual declarou não existir efetivamente, apenas nas aparências.
Parte da obra de Platão foi dedicada a resolver este antagonismo entre a filosofia de Heráclito e a de Parmênides. Por um lado, Platão é influenciado pelo pensamento de Heráclito no que se refere à natureza impermanente e imperfeita do mundo material, sempre em mutação. Por outro, o pensador ateniense concorda com o filósofo eleata de que para verdadeiramente conhecer o “Ser das coisas” a filosofia deveria abandonar o mundo sensível – da aparência, da mutabilidade, dos contrários – para se dedicar à esfera do Ser, do imutável. Nesta última imperam a verdade, o conhecimento puro e a imutabilidade. O primeiro mundo, vislumbrado por Heráclito, é a realidade sensível, é o reino das coisas, o mundo do Não-Ser. O segundo, é o mundo das ideias ou das essências verdadeiras, o mundo do Ser, como imaginado por Parmênides.
A diferença básica entre Parmênides e Platão é que para o primeiro o mundo sensível é o do Não-Ser em sentido efetivo, sem nenhuma realidade. Para Platão o mundo do Não-Ser é um mundo real, mas que apenas é uma cópia daquele do Ser, das Ideias ou Ideais. Este um dos principais aspectos do pensamento platônico: para resolver a dicotomia entre o fluxo heraclitiano (o mundo da realidade sensível) e a imutabilidade parmediana (o mundo da imutabilidade do Ser). Platão introduziu o conceito das Ideias, que irá influenciar toda a filosofia ocidental, notadamente a metafísica. Dentro desta visão, as coisas têm então dois princípios: um sensível, sujeito à mutação e a desintegração e o outro inteligível (as ideias) imutável perfeito e modelo para toda a realidade sensível. A partir do século III o nascente cristianismo, influenciado pelo neoplatonismo, construirá os alicerces de sua teologia com estas ideias elaboradas por Platão.
Mais tarde, Aristóteles, discípulo de Platão, fará em sua obra "Metafísica" uma crítica das posições dos cosmologistas, de Heráclito e de Parmênides, sem, inclusive poupar o conceitos das ideias de seu mestre. Aristóteles introduzirá um novo conceito do ser. Mas isto já é história para um próximo texto.
Bibliografia:
Chauí, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo. Editora Ática: 2006, 424 p.
Souza, José Cavalcante. Os Pré-Socráticos. São Paulo. Editora Nova Cultural: 1996, 319 p.
(Imagens: poesia concreta de Augusto de Campos)

Os rios e o espaço urbano

sábado, 4 de abril de 2015
"'Experiência de vida' não é muito, e mesmo que não existisse vida, poderia ser aprendida somente por meio dos romances, de Balzac, por exemplo."  -  Elias Canetti  -  Sobre os escritores

Nos dias quentes do verão suíço, milhares de pessoas tomam banho no rio Limmat, que liga o lago Zurique ao rio Aare. Até aí nada de especial. Milhões de pessoas tomam banho em milhares de rios no mundo inteiro. O detalhe é que esta cena se passa no centro financeiro da cidade de Zurique, a mais populosa cidade da Suíça com mais de 400 mil habitantes. Muitos dos banhistas são pessoas que trabalham no bairro central da metrópole e que usam parte de sua hora de almoço para dar um mergulho no rio de águas límpidas.
Em Seoul, capital da Coréia do Sul, a população de um dos bairros mais populosos da cidade tem uma nova área de lazer. Ladeado por avenidas e prédios corre o rio Cheonggyecheon, em cujas margens existem pequenos jardins e áreas de passeio, muito utilizados pela população. O rio, limpo e habitado por diversas espécies de peixes, se estende por mais de cinco quilômetros pela cidade, por vezes interrompido por cascatas e atravessado por pequenas pontes. Um ambiente idílico em plena área urbana, em região onde até o início da década passada se erguia um elevado, percorrido diariamente por milhares de automóveis. 
Dois exemplos de como é possível conviver com os cursos d'água em plena área urbana, mesmo em grande metrópoles. Seoul, por exemplo, tem uma população de 10,1 milhões de habitantes concentrada em uma área de 605 km²; pouco mais de um terço da área da cidade de São Paulo (1.522 km²) para uma população quase equivalente (São Paulo tem 12 milhões de habitantes). Assim, quando aqui no Brasil invadimos as áreas de várzea, ocupando as baixas dos rios com avenidas e obras urbanas, não se trata absolutamente de falta de espaço.
Isto ocorre porque em grande parte das administrações municipais ainda persiste uma visão urbanística que tem origens no passado. Segundo este tipo de pensamento, muito em voga entre os urbanistas e planejadores no final do século XIX e início do XX, as regiões baixas das várzeas e dos rios continham miasmas, "ares ou vapores" que podiam transmitir doenças como o cólera. O médico inglês William Farr, responsável pelo censo populacional de Londres em 1851, foi um ferrenho defensor e propagador desta teoria. O argumento também foi usado para que o arquiteto francês Hausmann pudesse promover a reurbanização da capital francesa, desalojando milhares de pessoas pobres que viviam em prédios antigos, localizados perto do rio Sena.
Apesar de partir do incorreto pressuposto dos miasmas, a teoria acertava no fato de que áreas de várzea e rios podiam ser foco de doenças, por serem habitat de mosquitos, ratos, baratas e outros tipos de vetores transmissores. A teoria errava quando assumia que estas áreas deveriam ser simplesmente aterradas, transformadas em avenidas, ter os rios canalizados; por serem estas áreas "sujas" e "não urbanas", que não deveriam nem poderiam ser incorporadas ao espaço urbano.
Este tipo de visão influenciou muitos urbanistas e administradores, responsáveis pela modernização dos centros urbanos durante o século XX. No entanto, em muitas cidades o processo foi revertido, fazendo com que várzeas e rios fossem inteligentemente incorporados ao dia a dia da cidade, propiciando bem estar, lazer e contato com a natureza. No Brasil, ainda aguardamos pela recuperação de rios como o Tietê, Tamanduateí, Pinheiros, Aricanduva e outros país afora, e sua  inserção ao espaço urbano.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)  

As consequências da escassez de água

sábado, 28 de março de 2015
"Por causa disso, o animal possui todos os afetos do ser humano: alegria, tristeza, temor, ira, amor ódio, desejo, inveja, etc.; a grande diferença entre o ser humano e o animal repousa somente sobre o grau de completude do intelecto."  Arthur Schopenhauer  -  Sobre a vontade na natureza

A seca que afeta grande parte do Brasil continua fazendo estragos. A economia das regiões Sudeste e Nordeste será prejudicada pelo terceiro ano consecutivo. Especialistas prevêem que a recuperação hídrica, ambiental e econômica será cada vez mais lenta, e dependerá do aumento da frequência e do volume das chuvas.
Recentemente, um site de notícias previu que a falta d’água em São Paulo poderia provocar o esvaziamento da cidade. Empresas com dificuldades de operar por falta do líquido, se estabeleceriam em outras regiões. A falta de empregos e condições razoáveis de sobrevivência faria com que as empresas fossem seguidas por parte dos habitantes.
Nada tão impossível. O noticiário da TV mostra em que condições o pequeno comércio é obrigado a operar, enfrentando a constante falta de água e, mais recentemente, queda de energia elétrica por longos períodos. Os governos do estado e do município evidentemente não querem discutir o fato, por considerá-lo improvável. Mas, já é cada vez mais comum que famílias inteiras, tendo condições, se desloquem para as cidades do litoral, a fim de viver alguns dias sem falta d’água (e poderem lavar a roupa que trouxeram).
Em recente reportagem sobre os rios no interior do estado, o jornal O Estado de São Paulo mostrou que seu volume está cada vez mais baixo. Cursos d’água caudalosos, como os rios Atibaia e Jaguarí, estão com apenas uma parte de seu volume. O Atibaia, que nesta época de chuvas chega a ter mais de 4 metros de profundidade, estava com apenas 4,2 centímetros na região entre Campinas e Pedreira, em meados de janeiro de 2015.
Outro aspecto é que parte da água dos rios é usada para abastecimento doméstico das cidades da região e também recebe o lançamento de esgotos. Quando os rios estão cheios, o esgoto é em parte diluído. Mas, quando o volume das águas cai para somente 10% do original, a concentração de efluentes aumenta e encarece o processo de tratamento. A situação começa a ficar preocupante, quando a imprensa traz notícias sobre uma tecnologia – financiada por Bill Gates – que extrai água de fezes.
A situação da falta de água mostra o quanto somos dependentes das condições climáticas e ambientais. A população e as atividades econômicas cresceram de tal maneira, que precisam cada vez mais dos recursos naturais – neste caso a água. Cai por terra o antigo lugar-comum, de que por aqui temos tudo em profusão: terras, águas, matas, recursos minerais... Fica claro agora de que o mito do “país que tem recursos inesgotáveis” não era verdadeiro. A sociedade brasileira e suas atividades econômicas cresceram de tal maneira, que aquilo que no passado eram “riquezas naturais sem fim” se transformou em recursos escassos.
A situação poderia estar ainda pior. A estagnação econômica por que passa o país tem feito com que a indústria produzisse menos e, com isso, consumisse menos água e eletricidade. Dados indicam que o uso de energia elétrica caiu 7,1% nos primeiros 13 dias de janeiro, em comparação com o mesmo período do ano passado. Economistas do Banco Safra reduziram a previsão de crescimento do PIB de 2015 de 0,3% para menos 0,5%, segundo articulista da Folha de São Paulo, Vinicius Torres Freire. Segundo o jornalista, “um dos motivos que baseiam a previsão de encolhimento da economia é o racionamento de água em São Paulo”.
(Imagens: fotografias de Roman Vishniac) 

Os mangues e sua importância

sábado, 21 de março de 2015
[...] "E eu acho que esse pó, que forma uma espécie de teia de aranha, atrás da fileira de livros, talvez seja não menos necessário para a história universal ou para a trama do que qualquer outro fato; que uma batalha por exemplo. Ou seja, tudo faz parte dessa trama cujo final ignoramos - nem sabemos sequer se tem um final."  -  Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari - Sobre a filosofia e outros diálogos

Os manguezais no Brasil estendem-se do Amapá até Santa Catarina, formando uma estreita faixa de largura variável, que acompanha a planície litorânea. Este tipo de ecossistema, resistente à alta salinidade da água e do solo, situa-se entre o mar e a floresta, sujeito às marés e às cheias dos rios. A área ocupada por este bioma é estimada em 20 mil km², mas não existem números exatos sobre sua extensão. A exploração e ocupação de extensas faixas de manguezais ao longo dos últimos cinco séculos - processo acelerado com a industrialização e a expansão urbana nos últimos 50 anos - fizeram com que os mangues fossem desaparecendo da paisagem em muitas regiões.
Na região Norte, onde existem os mais extensos manguezais devido ao grande aporte de resíduos trazidos pelos rios de planícies, encontram-se bosques com árvores cuja altura varia entre 15 a 20 metros. Em outras regiões do país, os manguezais têm vegetação mais baixa, situando-se em locais onde correm rios perenes e em áreas baixas, protegidas das ondas do mar. Nestas biomas forma-se um ambiente único, criadouro de diversas espécies de peixes, crustáceos e moluscos; além de aves, répteis e pequenos mamíferos. Devido à grande concentração de espécies animais que sobrevivem neste ecossistema, os manguezais foram comparados aos recifes de corais, que no oceano têm uma função ecológica parecida.
É interessante observar que parte das primeiras cidades fundadas no Brasil à época do descobrimento situava-se perto de regiões de mangue. Cananéia, Iguape, Itanhaém, São Vicente, Santos, Bertioga, Rio de Janeiro, entre outras, estavam (e em parte ainda estão) cercadas por mangues. Muitos eram ocupados por indígenas e por povos mais antigos ainda, como o "povo do sambaqui", que vivia nestas regiões desde há nove mil anos atrás.
A constante ocupação de uma região mostra que lá existe boa oferta de alimentos; papel que os manguezais ainda têm atualmente. Com a gradual colonização do Brasil, gerações de populações litorâneas - em São Paulo chamados de caiçaras - sempre dependeram do mangue para garantir ou completar sua alimentação. Além desta função, os manguezais também protegem a costa contra a força de erosão das marés, mais ainda em tempos de mudanças climáticas, quando o nível do oceano tenderá a se elevar. Outro serviços ambiental prestados pelos mangues é o de atuar como um filtro, purificando a água que o atravessa - o caso de rios poluídos parcialmente com esgotos e carregando restos de agrotóxicos ou resíduos industriais.  
Segundo o estudo "Manguezais da Baixada Santista, São Paulo - Brasil: uma bibliografia", de autoria das cientistas Ana Lucia Gomes dos Santos e Sueli Ângelo Furlan (http://www.uc.pt/fluc/cegot/VISLAGF/actas/tema3/ana_lucia), o estado de São Paulo tem uma área de 231 km² de manguezais, dos quais 28 km² encontram-se degradados ou alterados. A Baixada Santista e o Litoral Sul concentram a maior área de mangue, totalizando 228 Km².
Desta, a maior parte encontra-se parcialmente preservada, mas vem sofrendo forte pressão principalmente devido ao adensamento populacional e a consequente ocupação irregular de extensas áreas, notadamente nos municípios de Santos, Guarujá e São Vicente. No Litoral Sul do estado, em Iguape, Cananéia e Ilha Comprida, o mangue continua bem preservado, podendo cumprir sua função original, sem forte intervenção humana. 
(Imagens: pinturas de André Crespo)

Crise e planejamento

sábado, 14 de março de 2015
"A lua nasceu com olheiras. O silêncio dói dentro do mato. Encolhe-se a luz do dia. A sombra vai comendo devagarzinho os horizontes inchados. Os panoramas se afundam. A noite encalhou com um carregamento de estrelas."  -  Raul Bopp  -  Vida e morte da Antropofagia

A crise econômica por que passa o país é, em grande parte, resultado de falta de planejamento. Desde o período do regime militar que o Brasil não tem mais um encadeamento dos diversos setores de sua economia, sob a tutela de um plano abrangente. O que tem sido feito desde as administrações Sarney, Collor-Itamar, FHC, Lula até a atual, é criar projetos de grande alcance, sem que necessariamente haja uma articulação com outras áreas da gestão do Estado. Temos então os diversos Planos Econômicos, o Plano Real, os Programas de Privatizações, o PAC, Minha Casa Minha Vida, Luz Para Todos, Bolsa Família, entre outros, que são geridos por diferentes ministérios e que necessariamente não conversam entre si. Enxergam-se as árvores (cada ministério as suas próprias), mas não a floresta.
É assim que, por exemplo, ocorre um conflito entre o Ministério das Minas e Energia e o Ministério do Meio Ambiente, quando do licenciamento ambiental dos projetos de barragens hidrelétricas na região amazônica. O impacto da construção dos reservatórios tem aspectos ambientais, sociais, econômicos e jurídicos, que envolvem o interesse de ONGs, populações afetadas pela atividade, construtoras; além de grupos econômicos, autoridades locais e o Poder Judiciário. A dificuldade em estabelecer um planejamento energético de longo prazo, incluindo o detalhamento de projetos de grande porte, tem provocado o atraso em diversas obras e contribuído para a crise por que passa o setor.    
Conflitos deste tipo existem em diversas áreas. Outro exemplo é o do álcool combustível. Festejado durante o governo Lula como sendo a grande alternativa em substituição à gasolina, fez com que quase todos os veículos automotivos brasileiros passassem a ser fabricados na versão bicombustível. Por outro lado, temendo a volta da inflação – que apesar disso acabou retornando – o governo não aumentou o preço da gasolina, ao qual estava atrelado o preço do álcool. Com o aumento dos custos de produção do etanol os usineiros viram sua margem de lucro cair, até entrar no vermelho. O resultado foi a falência de grande parte das usinas de álcool e açúcar e a instalação de uma grave crise na indústria fornecedora de equipamentos e máquinas.
Mais um mau exemplo é o do encaminhamento de uma política nacional de gestão de resíduos, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). O projeto de lei ficou em discussão no Congresso durante quase 20 anos (desde 1991). No final do segundo mandato do governo Lula o projeto foi rapidamente aprovado, sem que houvesse recurso suficiente para que os municípios pudessem implantar projetos de gestão dos resíduos públicos e construir aterros, em substituição aos lixões – tudo isso num prazo de quatro anos. Como ocorre em tais situações, os municípios não conseguiram manter o prazo, construindo aterros e implantando a coleta seletiva do lixo doméstico. O Congresso, sob pressão dos prefeitos, tentou postergar a vigência da lei para 2018. O executivo vetou a proposta do Legislativo, devolvendo o problema ao Congresso, que deverá iniciar discussões para estabelecer uma nova data em que a PNRS entre em vigência. 
A falta de planejamento não é só uma questão que afeta a administração pública. O setor privado, dependente de políticas públicas para planejar seus investimentos de produção e de P&D, fica com as mãos atadas. Com isso, a demanda interna por novas tecnologias muitas vezes é atendida por tecnologias importadas, já que uma alternativa nacional não pode ser desenvolvida a tempo de atender uma nova lei. Empresas que tentam desenvolver uma tecnologia para atender uma nova demanda no mercado muitas vezes vezes chegam muito cedo - a tecnologia está disponível, mas não existe lei forçando o seu uso - ou tarde - quando da noite para o dia ocorre a aprovação de uma lei, que demanda anos de preparação e adaptação por parte da sociedade. 
(Imagens: fotografias de Alberto Ferreira)

Avanço tecnológico e gestão de recursos

sábado, 7 de março de 2015
[...] Tudo está sempre por um fio, um
segundo entre cair e espatifar-se
um milésimo e eis o precipício

Talvez por isso o cidadão comum
procure sempre e tanto agarra-se 
na rotina, na fé, até no vício

Domingos Pellegrini  -  Gaiola Aberta  -  1964-2004


Todas as sociedades passadas, presentes e futuras, subsistiram e subsistirão através do uso de recursos naturais. A afirmação parece óbvia. No entanto, ao estudarmos os diferentes períodos históricos – e também os pré-históricos – aprendemos que os recursos naturais raramente foram usados com parcimônia pela humanidade. A luta pela sobrevivência de nossos antepassados, fez com que diversas espécies de mamíferos e aves fossem extintas na África, Europa, Austrália e América, entre 50 e 10 mil anos atrás. Na Antiguidade, gregos e romanos derrubaram imensas florestas de cedro na orla do Mediterrâneo, para construírem suas frotas navais de comércio e guerra. O aumento da população européia a partir do século X provocou a expansão da agricultura e com isso a derrubada de florestas, aterramento de pântanos e a canalização de rios.
A exploração dos recursos só não era maior, porque faltava tecnologia. O carvão mineral, por exemplo, parece ter sido usado como combustível nos séculos II e III em certas regiões da então província romana da Germânia. Depois, sua utilização foi esquecida, vindo a ser redescoberta no século XII, como substituto à lenha, que estava escasseando em certas regiões da Europa. Seu uso, porém, não se tornou disseminado, já que o carvão não era encontrável em todos os lugares e seus custos de transporte eram muito altos. Assim, foi somente no século XVIII, com o advento da industrialização na Europa, que o carvão mineral passou a ser explorado em quantidades cada vez maiores.
Pouco desenvolvimento tecnológico faz com que se utilize menor diversidade de recursos naturais ou que os já conhecidos sejam usados de forma limitada. A água, pelo menos até antes do início da Revolução Industrial, era utilizada para regar as plantações, dessedentar humanos e animais, carregar resíduos e – de forma ainda primitiva – gerar trabalho com o acionamento de máquinas. Fazendo uso de sistemas de roldanas e cabos, as cerrarias podiam acionar longas serras e as tecelagens movimentavam as pesadas máquinas de tecer. No início do século XVIII, o inglês James Watt aprimoraria a utilização do vapor d’água para aumentar a capacidade das máquinas e assim ampliaria as aplicações da água. Ainda no século XIX se inventaria uma máquina (turbina) que, aproveitando o movimento da água, geraria eletricidade. Ao mesmo tempo aumentava a utilização da água na nascente indústria química, na siderurgia e nas primeiras estações de tratamento de água e de esgotos, instaladas nas grandes cidades européias. As diversas aplicações da água à movimentação da economia aumentavam exponencialmente.
A partir dos anos 1950 do século XX toma importância cada vez maior a gestão dos recursos hídricos, associada à implantação de grandes obras de infraestrutura, expansão da revolução verde na agricultura e financiamento internacional de projetos hídricos em países pobres e em desenvolvimento. No Brasil, foi o período em que começaram a aparecer os projetos das estações de água e de efluentes, sem que chegassem a atender toda a demanda – pelo menos até hoje.    
A recente crise hídrica por que passam diferentes regiões do Brasil, reflete também a má gestão do precioso recurso. Atualmente, dispomos de conhecimentos técnicos e capital, que, se bem utilizados, poderiam ter diminuído o impacto da falta de água. Faltou vontade política e iniciativa aos diversos governos; sempre é mais simples e econômico adiar a solução de  problemas e transferi-los para o futuro. As gerações futuras acabam sempre pagando a conta.  
(Imagens: fotografias de Gaspar Gasparian)

Natureza e felicidade

sábado, 28 de fevereiro de 2015
"No fim das contas, tudo o que havíamos chamado de 'matéria', 'vida', assim como 'natureza', 'deus', 'história', 'homem', precipita-se na mesma queda. A 'morte de Deus' é exatamente a morte de todas as substâncias-sujeitos. Assim como a primeira, essas mortes são muito extensas, intermináveis para a nossa percepção e até mesmo para nossa imaginação. E, além disso, elas trazem em si potencialidades outrora insuspeitas sobre a morte prática e concreta dos seres vivos, dos homens - e, por que não? - do mundo."  -  Jean Luc Nancy  -  Arquivida -  Do senciente e do sentido

Hoje nossa cultura dá muito valor ao bem-estar, à alegria e, cada vez mais frequentemente, à felicidade (ou aquilo que as pessoas consideram como tal). Atendidas as necessidades básicas de alimentação e proteção para a maior parte da população – pelo menos nas nações desenvolvidas e em desenvolvimento, sob influência da cultura européia – a idéia da simples sobrevivência passa a dar lugar a viver bem; viver com qualidade. E isto, além de incluir uma barriga cheia e um teto sobre a cabeça, também abrange segurança quanto ao futuro e saúde para desfrutá-lo. A este estado comumente se chama de bem estar, com momentos de alegria e, mais raramente, felicidade.
Nossa sociedade afluente tem origem no desenvolvimento de um tipo específico de capitalismo baseado no consumo, que surgiu nos Estados Unidos no início do século XX. O país à época já era o mais fortemente industrializado e disponha de um grande numero de trabalhadores com recursos excedentes para o consumo. Assim, foram inventadas máquinas e engenhocas, que se tornaram imprescindíveis no dia a dia das pessoas e que devido ao seu relativo baixo custo, poderiam ser adquiridas por grande parte da população: geladeiras, fogões, torradeiras, máquinas de lavar, automóveis. Nos anos 1930, com a popularização do uso da eletricidade (também no Brasil), apareceram os toca-discos, rádios, barbeadores elétricos e vários outros itens de utilidades domésticas. Todos estes implementos são feitos para aumentar a sensação de conforto e bem-estar, e sua compra traz alegria para muitos – mesmo que as prestações sejam altas ou que a assistência técnica dos produtos ruim.
Por toda a história também houve pessoas que defendiam uma vida mais simples. Desde os antigos filósofos cínicos e estóicos da Grécia e de Roma, passando pelas ordens religiosas mendicantes da Idade Média, até chegar aos intelectuais e ativistas modernos. Figuras como o poeta inglês William Blake (1757-1827), o escritor e filósofo americano Henry David Thoureau (1817-1862) e o escritor alemão Hermann Hesse (1877-1962) transmitiam em suas obras uma oposição ao industrialismo e contra a ilusória busca da felicidade baseada na obtenção de bens de consumo. Influenciado por estes e outros pensadores críticos, nasceu nos Estados Unidos nos anos 1960 o movimento “hippie” (palavra derivada de “hip”, que em inglês indica pessoa bem informada), que em poucos anos se espalhou por todo o mundo. Os hippies defendiam uma vida simples, livre do excessivo consumismo da sociedade industrial e valorizavam a natureza, em seus diversos aspectos. Pensadores que influenciaram o ideário hippie foram filósofos como Alan Watts (1915-1973) e Herbert Marcuse (1898-1979), além da filosofia indiana, o pensamento anarquista e o movimento da contracultura. Muito daquilo que os ambientalistas passaram a defender no final dos anos 1960 e início de 1970 tinha suas origens no pensamento hippie. Alguns fundadores de importantes ONGs, como o Greenpeace, são oriundos de grupos da contracultura americana e inglesa.
Em um ponto todos estes movimentos e filosofias estão de acordo: a felicidade, ou pelo menos a alegria, estava muito mais em uma volta à natureza; uma vida mais simples. Não no consumo, que muitas vezes não chega nem a nos trazer conforto e bem estar, servindo apenas como passatempo dispendioso, para afugentar o tédio.  
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

A crise hídrica na região Sudeste

sábado, 21 de fevereiro de 2015
Alguma dúvida que Deus não é magricela com dores de úlcera e sim gordo bonachão que se delicia com moela, coração e sambiquira?"  -  Dalton Trevisan  -  A trombeta do anjo vingador

Macro fatores
A região Sudeste passa por uma seca muito forte; a maior nos últimos 80 anos pelo menos. As origens desta crise ainda não estão estabelecidas, mas alguns fatores chamam a atenção:
- Especialistas aprofundam uma teoria bastante aceita, de que grande parte da água que cai na forma de chuva sobre o Sudeste, Sul e Centro-Oeste origina-se na Amazônia – teoria conhecida popularmente como “rios voadores”, devido à grande quantidade de água nas nuvens. O processo é mais ou menos o seguinte: nuvens vindas do oceano Atlântico se precipitam sobre a floresta. Através do processo de evapotranspiração a água volta a evaporar e novamente se transforma em nuvens. A barreira da cordilheira dos Andes impede que estas nuvens formadas sobre a Amazônia continuem avançando, o que faz com que elas se desloquem para o Sul do continente, precipitando-se sobre São Paulo, Minas Gerais, etc. Uma das consequências que os especialistas tiram desta teoria científica é que quanto mais se desmata na Amazônia, menos nuvens e, consequentemente chuva, vão para o Sul. Apesar de ter diminuído nos últimos dez anos, o desmatamento na Amazônia ainda continua forte e cresceu novamente ao final do primeiro mandato de Dilma Rousseff.
- O fenômeno do “El Ninõ” (aquecimento sazonal das águas do oceano Pacífico, com influências sobre o clima global) também tem forte efeito sobre o volume das chuvas, principalmente do Norte e do Nordeste, e das temperaturas do Sudeste.
- O aquecimento global, causado pelas emissões de gases poluentes nas atividades econômicas – geração de energia, transporte, agricultura, indústria – também provoca mudanças no clima, como secas e chuvas intensas e extremos de temperatura. Além disso, o que é mais grave, o aquecimento global também está aumentando a temperatura média do grande sistema de controle do clima da Terra: os oceanos.


Fatores locais e políticos
A estes macro-fatores que têm influência no clima da Terra e nas regiões brasileiras, podemos ainda associar aspectos climáticos locais (diminuição de chuvas, aumento da temperatura), provocados pela atividade antrópica. Isto porque, ao longo dos últimos 100-150 anos, quando as atividades econômicas na região Sudeste começaram a aumentar através da agricultura e posterior industrialização, o impacto das atividades econômicas sobre o meio ambiente só aumentou. Destruíram as florestas (a Mata Atlântica), esgotaram-se os recursos hídricos; as cidades se expandiram.
Em todo este processo, os cuidados na conservação e recuperação dos estoques hídricos foram quase inexistentes – notadamente ao longo dos últimos vinte e cinco anos, quando o consumo de água aumentou exponencialmente. Pouco foi feito para recuperar a qualidade da água dos grandes reservatórios no entorno da região metropolitana (Guarapiranga, Billings) e quase nada foi investido para ampliar a zona de mata ciliar no entorno dos reservatórios do sistema Cantareira (Jaguarí, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro, entre os principais). Além disso, em muitas regiões do estado e da capital continuaram as invasões em áreas de mananciais, como acontece na região da Cantareira e na zona Sul de São Paulo.
Isto sem falar da falta de saneamento e da perda de água já tratada. Cerca de 60% dos efluentes domésticos de todo o país ainda são descarregados na natureza sem tratamento, poluindo os rios que abastecem as cidades. Quando chove pouco e o volume dos rios diminui, aumenta a concentração de esgotos na água, dificultando o tratamento para posterior distribuição à população. A perda de água provocada pelo mau estado das tubulações e por ligações clandestinas é de 35% em média; comparados aos 18% na Inglaterra e 8% na Alemanha e Japão.  
Para a crise hídrica há, portanto, causas climáticas e causas políticas. As primeiras são praticamente inevitáveis (pelo menos em curto prazo, quando se fala em redução de gases de efeito estufa), mas poderiam ter seu efeito diminuído. As causas políticas, porém, seriam evitadas ou diminuídas, se as administrações federal, estadual e municipal tivessem levado em conta o que cientistas, ONGs e outras instituições já estavam dizendo há tempos. Projetos de Lei relacionados à captação e reuso de água por residências, por exemplo, tramitam sem aprovação na Câmara dos Vereadores de São Paulo pelo menos desde 2003. Já em 1992 a SABESP havia encomendado um estudo de viabilidade para utilização das águas do rio Juquiá, afluente do Ribeira de Iguape. Desde lá, nada foi feito.
Do mesmo modo, também não se aprovaram leis que pudessem criar condições para que os recursos hídricos fossem mais bem utilizados. Por exemplo: incentivos para agricultores que produzem água através da conservação da floresta; para indústrias e plantações que utilizam menos água; para edifícios que coletam a água da chuva e reutilizam a água “cinza”; e muitos outros exemplos. 

Conclusão
A crise hídrica deverá estender-se por alguns anos, já que a recuperação do volume de água no lençol freático e nos reservatórios só ocorrerá com volumes constantes de chuva ao longo de anos. Nesse ínterim, o governo e a sociedade civil precisarão implantar rapidamente novas maneiras – mais eficientes – de utilizar os recursos hídricos. Este será o grande teste para o poder público e a sociedade: todos precisarão trabalhar juntos, de maneira coordenada, caso contrário o prejuízo ainda será maior para todos.
Por outro lado, existe também o questionamento que muitos cientistas estão se fazendo a respeito da mudança do clima, principalmente na região Sudeste do país. Será a atual falta de chuvas e o aumento médio das temperaturas uma tendência que se manterá no futuro? Estarão as condições climáticas se alterando de tal maneira, que nos próximos 50 a 150 anos a vida das populações da região Sudeste estará completamente alterada em seus aspectos econômicos e sociais? Haverá deslocamentos de atividades econômicas e de populações, para onde? O Estado saberá como acomodar estas mudanças?  
(Imagens: fotografias de John Gutmann)

Mais controle na atividade pesqueira

sábado, 14 de fevereiro de 2015
"[...] mas também a certeza de que nunca conseguiremos sobrepor ao universo as leis que supomos eternas e infalíveis. A nossa ciência não é nem mesmo uma aproximação; é uma representação do Universo peculiar a nós e que, talvez, não sirva para as formigas e os gafanhotos."  -  Lima Barreto  -  Crônicas escolhidas

Dois fatos relacionados ao meio ambiente marinho chamam a atenção no início do ano: os protestos contra a proibição da pesca de peixes em extinção e a descoberta de novas espécies marinhas no litoral de São Paulo. Por um lado, a pesca excessiva faz com que peixes como o cação-bico-doce, o mero, o badejo-tigre, o cação-anjo e a raia-viola estejam em desaparecimento. Por outro, cientistas descobrem novas espécies de briozoários (invertebrados que vivem incrustados em rochas e algas, conhecidos como “musgos do mar”) entre Ilha Bela e São Sebastião; região portuária e de grande atividade turística.
A descoberta demonstra que além das 1.500 espécies marinhas atualmente conhecidas na costa brasileira, ainda devem existir centenas de outras ainda por descobrir – mesmo em localidades com forte atividade econômica. No entanto, dado o ritmo de exploração das regiões costeiras – através da sobrepesca, aterramento de mangues, descarga de efluentes e descarte de lixo –, muitos animais até hoje desconhecidos podem desaparecer sem que tomemos conhecimento de sua existência. Este é um dos dilemas das ciências que estudam a vida: quantas espécies novas ainda poderão ser pesquisadas em seus ecossistemas, antes que este e seus moradores desapareçam?
Para tentar evitar a diminuição e posterior desaparecimento de espécies de peixe como a sardinha, o namorado a garoupa e crustáceos como o camarão-rosa, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) publicou em dezembro de 2014 a Portaria 445, que proíbe a pesca de diversos tipos de espécies marinhas. A medida gerou protestos em muitas partes do país, notadamente em Itajaí, em Santa Catarina, onde pescadores, sentindo-se prejudicados em suas atividades pela portaria, bloquearam a saída do porto de um transatlântico de turismo. Depois do incidente, o governo decidiu criar um grupo de trabalho, formado por membros do MMA e do Ministério da Aquicultura e da Pesca, que deverá fazer uma revisão na lista das espécies e no período estabelecido para o defeso (em que é proibido pescar a espécie).
No Brasil existem mais de um milhão de pessoas que dependem economicamente da atividade pesqueira, que a cada ano captura volumes maiores de pescado para abastecer o crescente mercado consumidor. O excesso de pesca, aliado à utilização de redes de trama fina que não deixam passar os indivíduos pequenos, fazem com os barcos atuem como verdadeiras dragas, carregando tudo que se encontra no fundo do mar.
Peixes pequenos ou espécies sem valor comercial são posteriormente descartados, quando estão mortos. Outro aspecto é que a pesca de fêmeas em período de reprodução (quando ocorre o defeso), reduz a possibilidade de procriação da espécie. Todos estes fatores, além dos já citados, poderão contribuir para a diminuição gradual do volume de pescado e eventual desaparecimento das espécies. Segundo o Instituto Chico Mendes (ICMBio) o Brasil tem oficialmente 19 espécies de peixes marinhos ameaçados de extinção. 
Somente através das atividades econômicas, utilizando os recursos naturais, é possível gerar riquezas. Todavia, a apropriação do recurso natural deve ser feita de tal maneira que possa ser realizada sempre, de uma maneira sustentável. Exaurir os recursos naturais fará com os utilizemos apenas por um curto período, à custa das gerações futuras e das espécies ainda desconhecidas.
(Imagens: fotografias de Friedrich Seidenstuecker)