Gestão dos recursos hídricos

sábado, 19 de maio de 2018
"Vinte e cinco anos de intenso trabalho tiveram por resultado que os objetivos imediatos da psicanálise sejam hoje inteiramente diferentes do que eram no começo."   Sigmund Freud   -   Além do Princípio de Prazer

A água é um elemento relativamente abundante no universo. Análises da luz de todos os quadrantes do espaço feitas por espectroscópios, mostram que no espaço interestelar e nas diversas galáxias a água está presente, principalmente na forma de gelo. Na Terra, o líquido já é identificado no início da formação do planeta, mas sua origem ainda é tema de discussões entre os cientistas. A teoria mais aceita até o momento diz que a maciça precipitação de cometas, formados basicamente por gelo e poeira, incorporou grande quantidade de água à Terra. Esta água, trazida do espaço, juntou-se àquela já existente desde a formação, e nas condições climáticas e geológicas do jovem planeta deu início ao ciclo hidrológico.

O volume de água existente na Terra não sofreu nenhuma variação ao longo dos últimos 4,5 bilhões anos. A água não se perde. A maior ou menor disponibilidade do líquido varia de um lugar para o outro, dependendo de fatores geológicos e climáticos. A movimentação das placas tectônicas provoca a formação de novos continentes, a abertura de mares, o soerguimento de cadeia de montanhas, o surgimento de rios e outros acidentes geográficos. Estes acidentes geográficos podem mudar o clima e, consequentemente, a disponibilidade de água em certas regiões. O interior do Brasil, quando a América do Sul ainda não era separada da África há cerca de 250 milhões de anos, era um grande deserto, que se estendia por centenas de quilômetros. A região do Saara foi coberta de lagos e estepes há cerca de 10 mil anos; uma paisagem bem diferente da aridez atual. Em ambos os casos, as condições geológicas e climáticas fizeram com que a água se tornasse mais disponível (a chuva que começou a vir do oceano Atlântico quando este se abriu há cerca de 170 milhões de anos) ou mais escassa (a mudança no eixo da Terra há cerca de 10 mil anos fez com que a região do Saara recebesse uma insolação maior). Portanto, a água que existe no planeta não se perde; ela apenas muda de concentração nas diversas regiões.

Os primeiros assentamentos humanos do Neolítico (10.000-3.000 AEC) foram à beira de lagos e rios, locais onde a água, a pesca e a caça eram abundantes. Mais tarde, com a invenção da agricultura, as aldeias se estabeleceram ao longo de rios caudalosos, onde a água para a irrigação era abundante. As primeiras cidades-estados do Oriente Médio, sempre foram altamente dependentes das cheias dos rios Tigris e Eufrates, assim como o império egípcio também dependia do regime das águas no Nilo. O mesmo vale para as cidades do vale do rio Indo e as primeiras cidades da China, no vale dos rios Yangtze e Huang He (Amarelo).

De uma maneira geral, as condições de potabilidade da água, desde a Antiguidade até meados do século XIX sempre foram insuficientes, considerando os padrões estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde nos anos 1950. Mas, algumas civilizações perceberam o nexo existente entre a água poluída e o aparecimento de doenças. Assim na China, ainda no período Neolítico, há sete mil anos, se empregavam técnicas de escavação de poços profundos, a fim de acessar água (visualmente) mais limpa. Sistemas de canalização de água já eram utilizados regularmente nas principais cidades chinesas durante a dinastia Han, em 250 AEC. Ainda na Ásia, as cidades de Harappa, Mohenjo Daro e Rakhigarhi, florescendo no vale do rio Indo no século XXV AEC (ainda na Idade do Bronze), já dispunham de sistemas de suprimento de água e coleta de efluentes, formados por canaletas.

Na Babilônia, algumas cidades-estados como Nippur e Eshnunna, dispunham de sistemas de tubulações de cerâmica, para fornecimento de água e coleta dos esgotos. Os mais antigos exemplos destas estruturas foram encontrados nos templos de Baal, locais de grande acúmulo de fiéis durante as festas religiosas.

No Ocidente a civilização minoica, que floresceu na ilha de Creta entre 2.600 e 1.100 AEC, detinha avançados sistemas de saneamento. A capital do império, a cidade de Cnossos, foi a primeira a dispor de um sistema de tubulações subterrâneas para suprir água limpa e carregar os dejetos para fora da cidade. As casas dos bairros mais ricos da cidade, já no século XVIII AEC, dispunham de toaletes com sistemas de água corrente e aquecida, para os banhos. Os gregos de Atenas, assim como as colônias jônicas da Ásia Menor (atual Turquia) igualmente dispunham de redes de tubulações, que coletavam os efluentes das residências e os carregavam para fora das cidades. 

  
O sistema mais avançado de suprimento de água e coleta de esgotos foi o da cidade de Roma, estrutura que os próprios romanos batizaram de "Cloaca Maxima". Através desta estrutura os esgotos da cidade eram carreados e descarregados nas águas do rio Tibre. Os sistemas de distribuição de água eram bastante sofisticados, trazendo o líquido através de aquedutos de locais distantes até 150 quilômetros. Na cidade, a água era distribuída através de tubulações de barro e chumbo, que abasteciam residências, termas, fontes e poços públicos.

Quase todas as civilizações mais avançadas da Antiguidade, de uma maneira ou outra, começaram a se preocupar com a qualidade da água que consumiam. Se, por um lado, não existia o conhecimento de que o líquido era povoado por microrganismos patogênicos, por outro havia a experiência de que a água suja e com odor causava doenças, principalmente em crianças. Métodos de melhoria do gosto e do odor da água, destinada ao consumo humano, datam de antes de 4.000 AEC. Os escritos mais antigos tratando deste assunto foram achados em tumbas egípcias e em escritos da antiga Índia. Lá, um texto médico denominado Sus´ruta Samita, datado de 2.000 AEC, fornece instruções sobre como preparar a água para consumo. As técnicas incluem a fervura, o aquecimento da água pela luz solar, a imersão de ferro quente no líquido, processos de filtragem com gravetos e areia, e adição de certas sementes ou pedras à água. Nas paredes dos túmulos de Amenophis II e Ramses II, faraós do 15º e 13º séculos AEC, respectivamente, encontram-se desenhos de equipamentos para limpeza da água.

Vale lembrar que as diversas civilizações - chinesa, indiana, babilônica, egípcia, grega e romana - utilizavam os resíduos sanitários como adubo, depois de um processo de compostagem, no qual eram acrescentados restos de vegetação e materiais orgânicos à mistura. Ainda hoje, no interior da China e na Índia, agricultores utilizam estes resíduos na agricultura. 

Durante a Idade Média não houve grande avanços na distribuição de água e coleta dos efluentes. A maior parte das cidades buscava sua água em nascentes próximas, que então era distribuída através de fontes e poços públicos. O contato com os efluentes, que muitas vezes eram depositados nas imediações da cidade, poluindo rios e o lençol freático, podia provocar o surgimento de epidemias, relativamente comuns nos maiores aglomerados urbanos durante toda a Baixa Idade Média até o Renascimento quando, de uma maneira geral, a população urbana da Europa começou a crescer.

Os primeiros tubos de ferro fundido para escoamento de água e efluentes foram utilizados na França em 1664. Sua primeira instalação ocorreu no palácio de Versailles, durante o reinado de Luís XIV. Com relação à melhoria da qualidade da água, o processo de filtragem tornou-se relativamente comum a partir do século XVIII, principalmente na França, propiciando assim o aparecimento das primeiras empresas de fornecimento de água a domicílio. Ao longo dos anos, a prática foi estendida ao resto das grandes cidades da Europa.

A captação, preparação e distribuição de água nos moldes parecidos aos atuais tornou-se mais comum no século XIX, aliando as novas descobertas na área da medicina – entre outras a descoberta do vibrião da cólera por Koch e os conceitos da microbiologia desenvolvidos por Pasteur –, disseminando-se pelos mais importantes centros europeus e norte-americanos. Em 1829 a França passou a criar diversas leis relacionadas à qualidade da água, que previam multas e prisão para aqueles que poluíssem as águas, provocando a morte de peixes - era este o principal indicador. A Inglaterra, às voltas com a industrialização e o inchaço das cidades, aprovou diversos marcos legais que proibiam as fábricas de lançarem seus efluentes nos cursos de água. À mesma época, os cientistas ingleses John Snow e Edwin Chadwick descobriram o nexo entre as água poluídas e as diversas doenças que assolavam as populações urbanas - entre elas a cólera que ceifou mais de 180 mil vidas na Europa. Ao longo da segunda metade do século XIX as maiores cidade da Europa passaram a construir sistemas de tratamento de água e esgoto, o que gradualmente ajudou a reduzir a incidência de doenças infecciosas transmitidas pela água poluída. Mas, foi somente no início do século XX que os serviços de tratamento de água se popularizaram – pelo menos entre os países mais desenvolvidos à época.

No mundo, atualmente, a situação da disponibilidade de água potável tornou-se pior do que no passado. Apesar de existirem tecnologias capazes de suprir com água de qualidade todas as regiões do planeta, os problemas agora são mais amplos. O aumento da população mundial, o uso maciço da água pela agricultura, os processos industriais e o consumo doméstico, fizeram com que líquido se tornasse escasso em diversas regiões do planeta. Segundo dados recentemente publicados pelo jornal Valor, vivem hoje cerca de 1,7 bilhão de pessoas em regiões onde a necessidade de água ultrapassa sua disponibilidade. Até o ano de 2050 este número de pessoas deverá subir para 2,3 bilhões, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ainda segundo a reportagem do jornal, o volume de água retirado da natureza é atualmente três vezes maior do que há 50 anos, e deverá aumentar em mais 55% nas próximas três décadas. Assim, para garantir a segurança hídrica, o mundo precisará investir US$ 650 bilhões por ano até 2030, segundo o presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga. Todavia, as nações que precisarão fazer os maiores investimentos nesta área, são exatamente aquelas que menos recursos dispõem.

Dentre as ações necessárias para economizar os recursos hídricos incluem-se a reutilização de efluentes industriais e domésticos, a redução das perdas de água através de vazamentos na tubulação, a diminuição do desperdício, a introdução de processos industriais e tecnologias que utilizam menos água, a substituição de produtos que façam uso intensivo de água, o reflorestamento e a recomposição de matas ciliares, a proteção dos mananciais possibilitando mais geração de água, entre outras providências. Mais importante ainda, segundo o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento (CEBDS), é conferir valor econômico à água, ou seja, fazer com que todos os que consomem o recurso - agricultura, indústria, administrações públicas, companhias de saneamento e consumidores finais - paguem pelo real custo da obtenção, preparação e distribuição do líquido. A água não pode mais ser um recurso gratuito, já que está se tornando cada vez mais caro e escasso.   

Em relação à disponibilidade de água, o Brasil encontra-se em uma situação privilegiada, já que dispõe de cerca de 12% dos recursos aquíferos mundiais. Internamente, porém, a disponibilidade do líquido é diferenciada. Cerca de 81% da água encontra-se na Região Norte, onde vivem apenas 5% da população do país. A Região Sudeste, por exemplo, que gera quase metade da PIB brasileiro e acomoda 45% da população, dispõe de apenas 3% dos recursos hídricos. Outras regiões brasileiras também sofrem com estiagens sazonais, afetando atividades econômicas e a geração de eletricidade. A região mais afetada pela seca é o Nordeste, onde nos últimos anos a estiagem foi mais acentuada. Por outro lado os atrasos nas obras públicas, a falta de planejamento nos projetos, a malversação de recursos, são alguns dos fatores que tornam a situação desta região ainda mais grave.

No Brasil, até o início do século XIX, as ações de gestão dos recursos hídricos limitaram-se à construção de pequenas redes de captação de água e à abertura de poços e instalação de fontes de uso comum. Grande parte das populações urbanas, ainda pouco numerosas, abastecia-se da água dos rios - na época ainda pouco poluída - e dos poços particulares. As primeiras estações de captação e tratamento de água surgiram no final do século XIX e início do século XX, nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Por volta de 1930 todas as capitais brasileiras possuíam sistemas de tratamento de água - mesmo que nem sempre atendendo a toda a população, forneciam água tratada para as regiões centrais e bairros mais antigos. A partir da década de 1940, com o aumento do êxodo rural e o crescimento da demanda por saneamento, surgem as primeiras empresas públicas e autarquias de serviços de tratamento da água.

O setor de saneamento – especificamente o tratamento de água – teve um grande impulso a partir do início da década de 1970, com a implantação do Plano Nacional de Saneamento – Planasa. O projeto criou as companhias estaduais de saneamento, obrigou os estados a investirem no setor e estabeleceu linhas de crédito com base em recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Apesar deste impulso inicial, a década de 1980 foi de relativa estagnação, dado o alto endividamento do Estado e as elevadas taxas de inflação. A retomada dos investimentos e a ampliação da infraestrutura do setor só ocorreram a partir da estabilização da economia em 1994 e o aumento das verbas para o setor, com a criação do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), em 2007. Em 2012 o Ministério das Cidades cria o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), que previa à época investimentos de R$ 270 bilhões até 2030. No entanto, depois do início da crise que afeta a economia brasileira desde 2013, os investimentos em obras de infraestrutura diminuíram e as perspectivas para o setor são incertas para os próximos anos.

A água se tornará recurso natural estratégico nos próximos cinquenta anos. Sua escassez limita as atividades em outras áreas; como a geração de energia, a agricultura, o abastecimento da população, as atividades industriais e outros setores dependentes do uso do recurso. Para países com pouca extensão territorial e pouca disponibilidade de água, sua escassez poderá significar um grande obstáculo para o progresso material e social destas nações. Com isso, a falta da água deverá provocar conflitos de menor ou maior gravidade no interior dos países e entre nações. Em muitas regiões do globo isto já começa a acontecer, provocando guerras civis e acirrando conflitos fronteiriços.

A crise hídrica, se ocorrer, afetará principalmente as nações pobres, muitas delas com grandes populações e dependendo fortemente de suas agriculturas. Alguns destes países, já atualmente, não conseguem mais produzir alimentos suficientes para abastecer sua população, como o caso do Egito, do Afeganistão e da Somália. Assim, acumularão mais outro problema; o da falta de água. Neste quadro, é preciso lembrar que a história nos mostra que grandes civilizações do passado entraram em decadência por falta de água. Dependendo das condições tais fatos poderão se repetir; mas atualmente terão consequências globais.
(Imagens: pinturas de Marcel Duchamp)

Notas rápidas (Homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Força da vida 

Um mamoeiro é difícil de ser transplantado; geralmente morre. Mas vi uma árvore destas que foi transplantada para um terreno seco, foi aguado e conseguiu sobreviver. Caíram secas as folhas maiores e um miolo de brotos novos se desenvolveu.

Que força é esta, a que fez e faz com que vegetais e animais - incluindo humanos - consigam recuperar a força vital e sobrevivam? Já analisamos com atenção este fato aparentemente corriqueiro? 

O que está por trás deste impulso em continuar, em lutar contra a entropia? Uma vontade de persistir, de não se desfazer, deixar de existir, no âmago de todo ser vivo. De onde vem este impulso?

(Imagem: gravura representando G. C. Lichtenberg)

William Shakespeare

sábado, 12 de maio de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

William Shakespeare (1564-1616) é considerado por muitos o maior escritor da humanidade. Por sua capacidade de mergulhar no interior do ser humano através de suas peças, o crítico americano Harold Bloom chamou Shakespeare de "o inventor do humano".

Em sua última peça, A Tempestade, no Ato IV, o grande escritor dá a seguinte fala ao personagem principal da peça, Próspero. Uma reflexão sobre o vida humana:

"Anime-se, senhor. Nossa diversão chegou ao fim. Esses nossos atores, como lhe antecipei, eram todos espíritos e dissolveram-se no ar, em pleno ar, e, tal qual a construção infundada dessa visão, as torres, cujos topos deixam-se cobrir de nuvens, e os palácios, maravilhosos, e os templos, solenes, e o próprio Globo, grandioso, e também todos os que nele aqui estão e todos os que o receberam por herança se desvanecerão e, assim como se foi terminando e desaparecendo essa apresentação insubstancial, nada deixará para trás um sinal, um vestígio. Nós somos esta matéria de que se fabricam os sonhos e nossa vidas pequenas têm por acabamento o sono." 

(imagem: gravura representando William Shakespeare)

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 9 de maio de 2018
                                                    Tiro o chapéu


O que quer dizer esta expressão? Simbolicamente, quem usa um chapéu pressupõe, nesta situação de "tirar o chapéu para...", ser alguém importante, acima dos outros; de seu meio social. 

Tirando o chapéu, eu saio da minha situação de poder, olho para alguém ou algo e dou a esta/este ou a isto uma importância. Mostro uma consideração tal, que até tiro meu chapéu, como sinal de respeito ou de homenagem. 

Mas fica implícito que minha posição é superior e eu me digno a atentar para alguém ou algo, conferindo-lhe minha consideração - pelo menos naquele instante.

Em outra situação dá-se exatamente o contrário. Tiro o chapéu para me desfazer de qualquer proteção, mostrando minha humildade e total sujeição a um poder. Tira-se assim o chapéu em respeito a uma autoridade (um rei, um bispo) ou em lugares onde esteja ocorrendo algo de importância; uma celebração ou cerimônia (numa igreja ou num palácio). 

No passado tirava-se o chapéu em lugares cobertos de qualquer tipo e, principalmente à mesa, durante as refeições. Este costume quase não é mais praticado. 

(Imagem: gravura representando G. C. Lichtenberg)

Darcy Ribeiro

sábado, 5 de maio de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)


Darcy Ribeiro (1922-1997) foi sociólogo, antropólogo, educador e político. Exilou-se do país em 1964. Retornando, torna-se vice-governador do Rio de Janeiro (administração Brizola) e em paralelo cria diversos projetos culturais (CIEPs, Sambódromo, Memorial da América Latina).

Em 1991 é eleito senador e em 1992 entra para a Academia Brasileira de Letras. Autor de obras de antropologia, etnologia, educação, e romances, Darcy foi um dos grandes intelectuais brasileiros do século XX. 

De sua obra "O povo brasileiro", destacamos: 

"Aquela uniformidade cultural e esta unidade nacional - que são, sem dúvida, a grande resultante do processo de formação do povo brasileiro - não devem cegar-nos, entretanto, para disparidades, contradições e antagonismos que subsistem debaixo delas como fatores dinâmicos da maior importância. A unidade nacional, viabilizada pela integração econômica sucessiva dos diversos implantes coloniais, foi consolidada, de fato, depois da independência, como um objetivo expresso, alcançado através de lutas cruentas e da sabedoria política de muitas gerações. Esse é, sem dúvida, o único mérito indiscutível das velhas classes dirigentes brasileiras. Comparando o bloco unitário resultante da América portuguesa com o mosaico de quadros nacionais diversos a que deu lugar a América hispânica, pode se avaliar a extraordinária importância desse feito." (Ribeiro, 2014, p. 20) 

"Os outros povos latino-americanos são, como nós mesmos, povos novos, em fazimento. Tarefa infinitamente mais complexa, porque uma coisa é reproduzir no além-mar o mundo insosso europeu, outra é o drama de refundir altas civilizações, um terceiro desafio, muito diferente, é o nosso, de reinventar o humano, criando um novo gênero de gentes, diferentes de quantas haja." (Ribeiro, 2014, p. 409). 

(Imagem: fotografia de Darcy Ribeiro)

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Obrigado


Agradecer por isso, agradecer por aquilo. As pessoas, quando estão em boa disposição e boa situação, são pródigas em agradecer. "Agradeço sempre a Deus", "Agradeço a Vida", "Obrigado isso", "Obrigado aquilo"...

Um bom pai ou uma boa mãe não espera que seus filhos fiquem agradecendo a toda hora, por qualquer ninharia. O coração da mãe e do pai se alegra quando os filhos estão bem e felizes com o que lhes deram. A alegria dos filhos já é o agradecimento. Afinal, é este o objetivo dos pais; a alegria dos filhos.

(Imagem: gravura representando C.G. Lichtenberg) 

Uso e exploração dos oceanos

sábado, 28 de abril de 2018
"Convicções são inimigos da verdade mais perigosos que as mentiras"   -   Friedrich Nietzsche   - citado por Eduardo Gianetti em O Livro das Citações

"A origem da vida está nos mares", diz a ciência. Apesar de ainda não termos uma resposta definitiva sobre como e em que ambiente a vida teria surgido - se é que alguma vez teremos -, permanece válida a ideia lançada por Darwin no século XIX, de que a vida deve ter se originado em um meio aquático, provavelmente em mares rasos e quentes. Assim, a vida na Terra não teria sido possível sem a existência dos oceanos e do ciclo hidrológico.

Os mares, todavia, nunca foram o nosso habitat - uma comunidade humana vivendo como a descrita no filme futurista Waterworld (1995), sem qualquer contato com terra firme, muito provavelmente nunca existirá. Os oceanos sempre foram para nós fonte de alimentos e rotas de navegação. Há 60 ou 65 mil anos, povos que habitavam a atual região da Indonésia aproveitaram o baixo nível do mar no período glacial, e, navegando de ilha em ilha, alcançaram a Austrália. Os antepassados dos índios americanos utilizaram a mesma estratégia, viajando da Ásia para o atual Alasca ao longo da costa. Os polinésios, provavelmente o primeiro povo de navegadores de longas distâncias, iniciaram sua grande epopeia de colonização das ilhas do oceano Pacífico há cerca de 3.200 anos. Expandiram-se através de uma região de formato triangular, onde cada lado do triângulo tem aproximadamente 10 mil quilômetros. No norte desta figura situa-se o arquipélago do Havaí, ao sul a Nova Zelândia e a leste a ilha de Páscoa. Um feito memorável, dado o pequeno tamanho das embarcações, a tecnologia primitiva e as imensas distâncias oceânicas a serem vencidas.

Na tradição ocidental as proezas dos polinésios somente são comparáveis às Grandes Navegações do século XV e XVI, quando portugueses e espanhóis deram início ao maior deslocamento de produtos, pessoas, animais, plantas, metais, jamais havido na história da humanidade. Este comércio ultramarino aumentou nos europeus o interesse por novos produtos estrangeiros, de todos os tipos. Dois séculos mais tarde, o crescimento da procura por produtos manufaturados, principalmente tecidos, seria atendido com a introdução de máquinas a vapor no processo produtivo. Ao longo do século XIX estes equipamentos evoluíram e se tornaram especializados, permitindo o aumento e a diversificação da produção - grande parte dela transportada através dos oceanos.

Antes que se iniciasse o uso de embarcações movidas a vapor, as atividades pesqueiras em grande parte dependiam da força humana. Por isso, a atividade de exploração marinha de maior impacto, entre o século XVI e final do XIX, foi a caça da baleia. Desta se aproveitava a gordura para fabricação de combustível para iluminação, óleo lubrificante, sabão e margarina, além de algumas outras partes do corpo do animal. A pesca do cetáceo, todavia, era rudimentar e perigosa, exigindo aproximação do animal para lançamento do arpão. Ficou famoso na história da literatura ocidental o romance Moby Dick, escrito pelo americano Herman Melville, que conta a história de Ahab, capitão do navio baleeiro Pequod, e sua busca pela baleia Moby Dick, que lhe arrancara uma parte de sua perna.

Com a introdução da navegação a vapor, os barcos de pesca passaram a ser equipados com mecanismos que permitiam o uso de redes maiores. A partir do início do século XX os equipamentos a vapor foram gradualmente substituídos por motores movidos a óleo diesel, tornando barcos e navios mais ágeis e capazes de capturar maiores quantidades de pescado. Nas últimas décadas a tecnologia muito contribuiu para o aumento do volume de pescado em todo o mundo. Comunicação via satélite, radares para localização de cardumes, previsões de tempo mais confiáveis; tudo tem contribuído para que países como os Estados Unidos e China formassem as maiores frotas de barcos pesqueiros.

O crescimento da população mundial está fazendo com que cada vez mais pessoas dependam de atividades pesqueiras costeiras e oceânicas para suprirem sua demanda por proteínas. No entanto, o volume de peixes e outras espécies capturadas não têm aumentado significativamente nos últimos anos. Especialistas alertam que fatores diversos estão provocando uma gradual queda no volume de pescado. Segundo relatório da FAO (Organização das Nações para Alimentação e Agricultura) publicado em 2015, 90% dos estoques pesqueiros dos oceanos encontram-se sobrepescados ou completamente explorados. 90% dos grandes peixes marinhos, como atum-azul e o espadarte já foram eliminados do oceano pela pesca muitas vezes predatória, como no caso de certas espécies de tubarão, das quais só se aproveita comercialmente as barbatanas.

Além da sobrepesca de várias espécies de peixes, outros aspectos têm contribuído para afetar o equilíbrio dos diversos ecossistemas oceânicos. Grande parte do dióxido de carbono (CO²) dissolvido na atmosfera e resultado da queima de combustível fóssil nas atividades econômicas (indústria, transporte, geração de energia, etc.) é incorporada pelo oceano. Dissolvido na água, o dióxido de carbono gera ácido carbônico, o que faz com que os oceanos se tornem cada vez mais ácidos, inviabilizando a reprodução e a sobrevivência de diversas espécies, principalmente daquelas que tem um esqueleto de carbonato de cálcio, como conchas e corais.

O aquecimento dos oceanos causado pelas mudanças climáticas está branqueando grande parte dos corais, usualmente bastante coloridos. O fenômeno do branqueamento foi observado pela primeira vez nos anos 1980 na costa da Austrália. Nos últimos vinte anos o fato foi documentado por diversas vezes. Em 2017 foi observado o branqueamento de grandes extensões de corais no sul do Mar da China e na Grande Barreira de Corais, na Austrália. O aumento da temperatura da água faz com que as algas que vivem em simbiose com os corais (formados por inúmeros organismos que vivem em colônias) e que lhes dão o colorido, deixem de fazer a fotossíntese e morram. Por causa disso, os corais ficam sem acesso aos nutrientes fornecidos pelas algas e também morrem. Com a morte dos corais também desaparece um riquíssimo ecossistema formado por peixes (mais de 4.000 espécies de peixes habitam os corais), crustáceos, esponjas, cnidários, moluscos, equinodermos, tartarugas, serpentes do mar e cetáceos, além de uma infinidade desconhecida de bactérias e vírus. Estes complexos ecossistemas espalhados principalmente nos mares tropicais - notadamente no sudeste da Ásia e no Caribe - formam uma riquíssima cadeia alimentar, fazendo com que seu desaparecimento represente uma grande perda na história da vida no planeta. 

Desapareceram da cultura dos povos as histórias sobre mares habitados por monstros, seres mágicos, demônios e maldições, que acompanhavam as tripulações dos primeiros navios de longo percurso do século XV e XVI. Hoje os monstros somos nós e as maldições são trazidas por nossa tecnologia. Rios, sistemas de coleta de efluentes e emissários submarinos carregam grandes quantidades de efluentes para os mares.
Esgotos domésticos, resíduos de fertilizantes, nitrogênio e fósforo das atividades agrícolas; é o ambiente propício para proliferação de algas que absorvem o oxigênio da água, tornando o ambiente inviável para qualquer outro tipo de vida. Estas "zonas mortas", segundo estudos, variam em tamanho de dois a quarenta quilômetros quadrados. Em todo o planeta, estas áreas ocupam aproximadamente 160 mil quilômetros quadrados e estão localizadas no Golfo do México, no Mar Negro e Báltico, no Golfo de Bengala e no sudeste da Austrália e da China; basicamente em todas as regiões onde rios que recebem grandes cargas de resíduos de fertilizantes e esgotos domésticos encontram o mar. Algumas regiões da costa brasileira, como a baía da Guanabara e partes do litoral paulista, começam a apresentar o fenômeno.
    
Rios que passam por regiões altamente industrializadas e com grande concentração populacional carregam milhões de toneladas de resíduos, principalmente plástico, para os mares. Ao longo dos últimos trinta anos estes resíduos, levados pelas correntes marinhas, se concentraram em certos pontos dos oceanos, formando verdadeiras ilhas de resíduos plásticos. A maior parte deste lixo tem dimensões menores que cinco centímetros, o que faz com que frequentemente sejam confundidos com alimento, por peixes, tartarugas e aves. Vagando pelos mares em águas internacionais, estas concentrações possuem dezenas de quilômetros e concentram-se principalmente no Pacífico Norte, entre o Japão e os Estados Unidos.   

Os fatores que afetam a qualidade das águas dos oceanos - e com isso toda a fauna e flora marinha - são variados e tendem a aumentar. Como por exemplo os derramamentos de petróleo dos poços de exploração, lastros e combustíveis de navios e diversos outros produtos e substâncias que secreta e ilegalmente são lançados nos oceanos. O impacto das atividades humanas nos oceanos poderá em futuro próximo, em seus efeitos, se aproximar daqueles de algumas das cinco extinções em massa ocorridas na história da vida na Terra.

Apesar de tudo isso, os oceanos ainda continuam sendo os maiores responsáveis pelo equilíbrio climática do planeta. As algas marinhas continuam sendo o "pulmão do mundo", produzindo mais dos 50% de todo o oxigênio disponível no planeta, através de processo de fotossíntese. Mesmo conhecendo somente 5% da área oceânica, sabemos que no futuro seu solo poderá abastecer grande parte da demanda mundial por metais escassos, como o antimônio, a platina, lítio, índio e tântalo, terras raras, entre outros. Além disso, ainda grande parte da fauna e da flora dos mares é desconhecida da ciência. A exemplo das florestas tropicais, os oceanos ainda devem guardar grandes quantidades de moléculas, nos tecidos vivos de seus habitantes, que poderão nos ajudar a desenvolver novas substâncias para uso na medicina, na indústria, na eletrônica, etc.

A ONU, através da Convenção sobre Diversidade Biológica, estabeleceu as chamadas Metas de Aichi, discutidas e acordadas naquela província japonesa. O acordo prevê a proteção de pelo menos 10% das áreas costeiras e marinhas de cada país signatário até 2020. Desde quando o documento foi assinado em 2010, mais de 14 milhões de quilômetros quadrados de áreas protegidas marinhas foram criadas em todo o mundo. Um dos problemas neste acordo é que muitos países criaram suas áreas de conservação, sem planejar ou implantar ações efetivas de proteção destas reservas. A área do oceano terrestre coberto por unidades de conservação é cerca de 7%; todavia apenas 3,6% são objeto de uma efetiva ação de monitoramento. O Brasil criou recentemente duas grandes áreas de proteção: a Área de Proteção Ambiental Marinha do arquipélago de São Pedro e São Paulo e a Área de Proteção Ambiental Marinha de Trindade e Martin Vaz. Somadas, as áreas sob proteção são uma das maiores do mundo e respectivamente a segunda e terceira maiores no oceano Atlântico, depois da Área de Proteção Marinha das Ilhas Georgia do Sul e Sandwick do Sul, pertencentes à Inglaterra.

Apesar da boa notícia, os especialistas veem com atenção a questão do manejo da área e o controle da zona de exclusão. A repressão à pesca ilegal em região tão remota, a mais de 1.000 quilômetros do litoral é um problema que preocupa, já que o entorno de ambos os arquipélagos é habitado por espécies marinhas raras em perigo de extinção. No estado de São Paulo, por exemplo, a maior parte da zona costeira é considerada Área de Proteção Ambiental há quase uma década. Mesmo assim, ainda não existem regras claras para a ocupação e uso sustentável deste território e o plano de manejo, que deveria ter ficado pronto em 2010 até hoje não foi concluído.

Uma coisa, porém é certa. Nosso planeta já passou por cinco grandes extinções e pelo menos uma delas devastou quase 90% da vida marinha. A vida é resiliente e mesmo que nossa civilização venha a destruir grande parte dos oceanos - e provavelmente venha a sucumbir por isso -, a vida continuará o seu curso. Em alguns milhões de anos a diversidade biológica terá se recuperado e novas criaturas povoarão os mares.
(Imagens: pintura de Gabriele Münter)    

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 25 de abril de 2018


Oceano


O oceano nos parece uma das últimas fronteiras selvagens da Terra - até a partir da perspectiva de uma praia. Olhando daqui da areia, supomos que nada foi escavado, barrado, aterrado... E não foi mesmo. A água do mar é aparentemente limpa, as ondas brancas iluminadas pelo Sol ao entardecer. Como na época da Descoberta!

O que não vemos é a ação dos esgotos que, longe daqui, correm sorrateiramente para a água do mar. Do lixo que, boiando em rios, avança para o oceano. Do plástico, que aos poucos se desfaz e penetra na cadeia alimentar marinha... Dos pescadores, longe de nossas vistas, a dezenas ou centenas de quilômetros águas adentro, coletando tudo o que é possível.

A aparente incorrupta natureza do mar é uma ilusão. As águas estão aqui em frente a mim, mas, pensando melhor, podem estar se transformando em uma piscina inerte de água salgada, aparente limpa (pelo menos vista aqui da praia), mas sem vida.    

(Imagem: gravura representando C.G. Lichtenberg)

Omar Khayyam

sábado, 21 de abril de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Omar Khayyam (1048-1131) nasceu na Pérsia. Foi professor, matemático, astrônomo, filósofo e poeta. Escreveu numerosos tratados sobre mecânica, geografia, mineralogia e astronomia. Ficou famoso na história com seu poema "Rubaiyat". 

Ainda hoje especialistas discutem se a obra é produto de uma visão cética e hedonista do mundo, ou se nas entrelinhas se esconde a filosofia do sufismo. Abaixo, apresentamos dois versos do poema, em versão portuguesa de Octávio Tarquínio de Souza (Livraria José Olympio Editora, 1983): 

"Eis a verdade 
única: - somos 
os peões da misteriosa
partida de xadrez, jogada
por Deus, que nos desloca, 
nos para, nos põe mais
adiante, e depois nos recolhe
um a um à caixa do Nada." 

"Delicia-te, ó
meu irmão, com
todos os perfumes, todas
as cores, todas as músicas.
Envolve de carícias 
todas as mulheres.
Lembra-te de que a vida
é fugaz e que breve
voltarás ao pó." 

(Imagem: representação de Omar Khayyam)

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 18 de abril de 2018



TV

Os programas de TV brasileiros apresentam - e muitas vezes exploram - problemas que não existiriam se o Estado fosse capaz de resolvê-los.

Mostram-se pessoas que não veem seus parentes há anos e não dispõem de recursos para visitá-los, já que muitas vezes nem sabem em que lugar do país estão. Entram então em cena os programas popularescos, ajudando estas pessoas a se encontrarem. Emoção, lágrimas, audiência garantida e patrocinadores assinando novos contratos...  

Outro tipo de programa é aquele que convida especialistas para opinarem e discutirem determinado problema social. Todos têm opinião e há até alguns projetos em andamento. Hora do tratamento aparentemente sério e profissional do assunto. 

O grande ausente nestes dois tipos de programa é o Estado. Quase nunca é convidado, porque o que faz é muito pouco - ou nada.

(Imagem: gravura representando o filósofo G. C. Lichtenberg)

O ciclo da energia e da matéria através dos organismos

sábado, 14 de abril de 2018
"Uma economia sustentável, assim, deve ser construída ao redor de produtos sustentáveis e não apenas de processos industriais mais limpos. O foco deve ser direcionado do gerenciamento de processos para o gerenciamento de produtos."   -   Luis Fernando Krieger Merico   -   Economia e Sustentabilidade


Todos os ecossistema são formados basicamente por três categorias de espécies:

1) Os organismos produtores: aqueles que produzem seu próprio alimento, a partir da energia solar ou energia química e térmica, a exemplo dos organismos extremófilos que vivem em ambientes com altos índices de acidez ou a grandes profundidades no oceano. Nesta categoria estão as plantas, que produzem sua energia a partir da fotossíntese.  

2) Os organismos macroconsumidores: os que se alimentam de matéria orgânica, isto é, de outros seres vivos que se situam abaixo deles na escala da alimentação. Nesta categoria situam-se os herbívoros, os carnívoros e os onívoros.

3) Os organismos microconsumidores: aqueles (uni ou pluricelulares) que se alimentam (obtêm sua energia) através da decomposição de matéria orgânica morta ou através do parasitismo, como as bactérias em intestinos de mamíferos, que ajudam no processo digestivo dos alimentos, fungos.

O papel dos decompositores é decompor, desfazer, desestruturar as substâncias orgânicas; tenham elas passado por algum nível trófico, ou não. Por exemplo, as folhas que caem no chão da floresta e que se não são consumidas pelos insetos, tornam-se alimento para bactérias e os fungos.


Diferente, quando o gado se alimenta de relva; o homem se alimenta da carne de vaca; e o corpo humano, quando morto e decomposto, destina-se à alimentação dos microorganismos. 

Neste processo de decomposição os organismos decompositores extraem seu alimento (energia) para sua sobrevivência e reprodução, devolvendo à natureza substâncias cada vez mais simples, formadas por moléculas gradualmente mais simples.

Da matéria orgânica as bactérias extraem sua energia e liberam metano (CH4) para a atmosfera. Este, por sua vez, depois de queimado, libera CO2, gás que as plantas “respiram” durante o processo de fotossíntese.

Caso os decompositores sejam inexistentes, o acúmulo de substâncias orgânicas é cada vez maior. Na ausência de decompositores não há o que chamamos de processo de putrefação. Aconteceria, então, o que sucede com certos corpos colocados ou mortos em locais muito secos ou muito frios, onde quase inexistem os insetos e microorganismos decompositores: um processo de mumificação. Os corpos iriam, aos poucos, perdendo os líquidos e as gorduras, ficando apenas as peles e os ossos (ou os exoesqueletos). 

A degradação desta matéria orgânica, sem a presença de organismos decompositores, se daria basicamente por processos físicoquímicos. Depois de muitos anos, a matéria orgânica se esfacelaria e iria, gradualmente, se transformando em pó. Na ausência de oxigênio (se, por exemplo, soterrado por uma avalanche ou areia trazida por um tsunami) este corpo ou esta matéria orgânica poderia se petrificar (uma possibilidade é que o carbonato de cálcio penetre nos espaços ocupados pelos ossos e outras partes do corpo, formando o fóssil) ou transformar-se em carvão mineral (no caso de plantas) ou petróleo (no caso de microrganismos).


As relações energéticas do ecossistema com os organismos decompositores:

Luz solar fornece energia a

Produtores, geralmente plantas que absorvem e transformam energia solar e a fornecem a 

Macroconsumidores, que se alimentam de plantas e entre si, absorvendo energia que disponibilizam aos 

Microconsumidores, se alimentam de produtores e macroconsumidores (e de seus resíduos), absorvendo energia e reduzindo as substâncias orgânicas aos seus elementos constituintes principais, através de processos bioquímicos, rápidos e eficientes. Nesse processo liberam os 

Elementos e substâncias químicas (C, H, O2, N, P, S, CO2, CH4, etc). Estes elementos, por sua vez, passam a constituir novos organismos produtores e assim são reincorporados à cadeia da vida.


As relações energéticas do ecossistema sem os decompositores:

Luz solar, fornece a energia aos

Produtores, que absorvem e transformam energia, que é incorporada pelos 

Macroconsumidores, que se alimentam das plantas e entre si, absorvendo energia

(A partir deste ponto não há mais transferência de energia ao ecossistema. Aos poucos, entram em ação processos naturais, abióticos).

Processos físico-químicos (soterramento, clima extremamente seco ou frio), lentos e ineficientes a curto prazo, para chegar novamente aos 

Elementos e substâncias químicas (C, H, O2, N, P, S, CO2, CH4, etc)

Neste caso parte da energia se dissipa no meio ambiente, sem ser utilizada. Aumenta assim o processo de dissipação (perda) de energia de um ecossistema (aumento da entropia), principalmente pelo fato de que os resíduos não são “desmontados” pelos decompositores.


Poderíamos fazer um paralelo com o processo de eutrofização de um lago, onde o excesso de material orgânico (= alimento) propiciou um rápido crescimento dos microrganismos (bactérias), que em seu processo vital acabaram utilizando todo o oxigênio livre na água. Na falta de oxigênio as bactérias morrem e o lago torna-se estagnado, “morto”. 

Existem várias regiões nos oceanos que passam por esse processo. Por um excesso de substâncias orgânicas e químicas (esgotos domésticos, fertilizantes, etc.) aumenta exponencialmente o volume de bactérias nesta região do oceano, exaurindo todo o oxigênio e liberando dióxido de carbono. Nestas áreas do mar os organismos vivos - mesmo os mais primitivos - são inexistentes. O fato está se tornando um grande problema em regiões do oceano Atlântico, na Costa Leste dos Estados Unidos e no Mar da China.

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Consultas

Com as facilidades disponíveis nos tempos atuais, aprende-se mais sobre o nosso estado de saúde pesquisando na internet, do que com as curtíssimas consultas com certos médicos do serviço público e dos convênios.

Os procedimentos médicos, desde a ingestão de uma pílula, até uma seriíssima intervenção cirúrgica, afetam vários aspectos do funcionamento do organismo; não se trata simplesmente de adicionar um aditivo ou substituir as velas de ignição, como num motor.  

A de falta tempo, seja por que motivo for, impede que o médico possa efetivamente consultar o paciente. Aí, então, resta-nos buscar informações complementares no moderno "pai dos burros", a internet. Dizem especialistas, como o cientista de inteligência artificial (AI) Ray Kurzweil, que em alguns anos computadores farão nosso diagnóstico, baseados em informações e exames. Será que então os médicos terão mais tempo para conversar com os (nem sempre) pacientes?

(Imagem: gravura representando C. G. Lichtenberg)

João Guimarães Rosa

sábado, 7 de abril de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)


Mineiro de Cordisburgo, João Guimarães Rosa nasceu em 1908 e morreu em 1967. Escritor, contista, poeta e novelista, desde muito cedo Guimarães Rosa começou a aprender línguas, tendo começado pelo francês aos seis anos. Foi essa prática, provavelmente, que fez com que mais tarde dominasse cinco idiomas. Iniciou seus estudos em Belo Horizonte, para onde foi morar na casa dos avós. Aos 16 anos, ajudado por um tio que era um rico fazendeiro, Rosa ingressou na Faculdade de Medicina. Em 1930 forma-se médico e no mesmo ano casa-se com sua primeira esposa. Muda-se para Itaúna, no interior do estado, onde clinica e tem contato com a população local. Durante esse período já inicia o contato com o "sertão", que tanto aparecerá como cenário de seus escritos.

Aprovado em um concurso no Itamarati, Rosa ingressa na carreira diplomática. Seu primeiro cargo no exterior é como adido no Consulado de Hamburgo, onde permanece de 1938 a 1942. Lá conhece sua segunda esposa, Aracy de Carvalho, também funcionária do Consulado brasileiro, que teve importante papel na emissão de vistos de imigração para judeus que estavam fugindo do regime nazista para o Brasil. Aracy salvou a vida de centenas de pessoas, tendo sido mais tarde homenageada pelo Estado de Israel. Depois de Hamburgo, onde também chegou a ser afetado pela guerra, Guimarães Rosa ainda atuou nas embaixadas brasileiras em Bogotá e Paris.

Em 1963, já tendo-se candidatado por uma vez, Rosa na segunda tentativa é eleito unanimemente membro da Academia Brasileira de Letras. Estranhamente, porém, Guimarães Rosa vai adiando sua posse. A partir dessa época, passa a se dedicar com mais afinco à literatura, fazendo palestras no Brasil e no exterior e participando de congressos. A exposição a um público mais amplo e internacional - Rosa deu diversas entrevistas e foi bastante traduzido na Alemanha, por exemplo - fez com que sua obra começasse a ser traduzida para várias línguas. Em 16 de novembro, depois de quatro anos de adiamento, Rosa finalmente toma posse na Academia. Como se tivesse pressentido algo, o escritor veio a falecer de ataque cardíaco três dias depois da posse, em sua residência no Rio de Janeiro. 

Rosa afirmou algumas vezes que o conhecimento de outros idiomas o havia ajudado a se familiarizar às expressões e maneiras de falar do interior do Brasil, o que o ajudou a compor os diálogos de livros, utilizando um vocabulário enriquecido por expressões linguísticas e neologismos. Seus relatos, baseados no regionalismo, têm o formato de um realismo mágico, que fizeram do escritor o pioneiro em um novo tipo de ficção na literatura brasileira. Seus romances incluem-se na corrente da ficção latino-americana, que nas décadas de 1960 e 1970 trouxe a público nomes como os de Gabriel Garcia Marques, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Alejo Carpentier, Júlio Cortázar e outros. As principais obras de Guimarães Rosa incluem: Magma (1936, poemas); Sagarana (1946, contos); Grande Serão Veredas (1956. romance); Primeiras Estórias (1962, contos); Tutaméia - Terceiras Histórias (1967, contos).

Sobre sua obra, em entrevista ao jornalista alemão Günter Lorenz, Rosa dizia: "...sou um contista de contos críticos. Meus romances e ciclos de romance são na realidade contos, nos quais se unem ficção poética e realidade." (Fonte: Templo Cultural Delfos - http://www.elfikurten.com.br/p/blog-page_20.html)

Acerca do "sertão", o grande pano de fundo de seus romances e contos, Rosa declarou na mesma entrevista: "...no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão, onde 'Inneres und Ausseres sind nicht mehr zu trennen' (o interno e o externo são inseparáveis), segundo o West-Östlicher Divan (série de ensaios de Goethe). No sertão o homem é o que ainda não encontrou um tu; por isso ali os anjos e  o diabo ainda manuseiam a língua." O sertanejo (...) "perdeu a inocência no dia da criação e não conheceu ainda a força que produz o pecado original." (Fonte: Templo Cultural Delfos - http://www.elfikurten.com.br/p/blog-page_20.html).

Da vasta obra do escritor, selecionamos alguns trechos significativos, publicados em O melhor de João Guimarães Rosa, (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira: 2016), :

"Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou um homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água, que não para, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro - o rio." 
(A terceira margem do rio em "Primeiras estórias");

"E só então foi que ele soube de que jeito estava pegado à sua penitência, e entendeu que essa história de se navegar com religião, e de querer tirar sua alma da boca do demônio, era a mesma coisa que entrar num brejão, que, para a frente, para trás e para os lados, é sempre dificultoso e atola sempre mais." 
(A hora e a vez de Augusto Matraga em "Sagarana");

"Entendem os filósofos que nosso conflito essencial e drama talvez único seja mesmo o estar-no-mundo. Chico, o herói, não perquiria tanto. Deixava de interpretar as séries de símbolos que são esta outra vida de aquém-túmulo, tãopouco pretendendo ele próprio representar símbolo; menos, ainda, se exibir sob farsa. De sobra, afligia-o a corriqueira problemática cotidiana, a qual tentava, sempre que possível, converter em irrealidade. Isto, a pifar, virar e andar, de bar a bar." 
(Prefácio de "Nós, os temulentos" em "Tutameia")

(Imagem: fotografia de João Guimarães Rosa)