Brasil aumenta emissões de gases de efeito estufa

sábado, 13 de dezembro de 2014
..."por outro lado, a ideia de acaso é, talvez, dentre todas as que os homens puderam conhecer, a mais difícil de ser assumida por sua afetividade, pois implica a insignificância radical de todo acontecimento, de todo pensamento, de toda a existência."  -  Clement Rosset  -  A anti natureza elementos para uma filosofia trágica

As emissões brasileiras de gases de efeito estufa (GEE) aumentaram em 7,8% no último ano, segundo o estudo “Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa 2014”, divulgado pela rede de ONGs Observatório do Clima. A produção de gases poluidores – principalmente dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e perfluorcarbonetos – esteve em queda desde 2005, mas apresentou forte crescimento durante o ano de 2013. O aumento se deu em todos os setores da economia; da indústria ao transporte, passando pela agricultura e às mudanças no uso do solo. A ser mantido este ritmo de crescimento nas emissões, o Brasil não conseguirá cumprir as metas voluntariamente assumidas durante a Conferência sobre o Clima em Copenhague (2009), de reduzir a produção de gases entre 36% e 39% até 2020, em comparação com 1990.
O crescimento das atividades econômicas – apesar do baixo crescimento nos últimos anos – está colocando o Brasil entre as nações mais poluidoras do planeta. Nosso nível de emissão de GEE, medido em toneladas de dióxido de carbono (tCO²), está em 7,8 tCO² por habitante por ano; acima da média mundial de 7,2 tCO²/habitante/ano. Com isso, “estamos muito longe de uma economia de baixo carbono”, segundo Tasso Azevedo, coordenador do estudo, em declaração ao jornal Folha de São Paulo. Dois setores da economia foram os maiores responsáveis pelo aumento nas emissões de gases: mudança no uso da terra (leia-se desmatamento) e energia (incluindo os transportes). O primeiro contribuiu com 16,4% no incremento dos GEE, devido aos desmatamentos na Amazônia e no Cerrado. No setor de energia, aumentou a queima de óleo combustível e carvão usado nas usinas termelétricas e cresceu o consumo de diesel e gasolina no transporte.  
Em 2013 o país gerou aproximadamente 3% das emissões mundiais de GEE, ou seja, 1,56 bilhões de toneladas de CO² ou gás equivalente (1,56 GtCO²e). Para totalizar este volume de emissões, os setores econômicos contribuíram percentualmente da seguinte maneira: mudança de solo/desmatamento – 35%; energia/transportes – 30%; agropecuária – 27%; indústria – 6%; e gestão de resíduos – 3%. Para que possa atingir suas metas de emissão, o Brasil não poderá ultrapassar o volume de dois bilhões de toneladas de CO² equivalente (2,2 GtCO²e) anuais de emissão de gases em 2020.  
Em Paris, no final de 2015, deverá ocorrer a 21ª Conferência sobre o Clima (COP 21), cujo grande objetivo será dar continuidade às discussões em torno do Protocolo de Kyoto, acordo internacional assinado em 1997 que visava reduzir as emissões mundiais de GEE. Diferente das conferências anteriores, a COP 21 será realizada em novo ambiente político.
Os dois maiores emissores, os Estados Unidos e a China, responsáveis por 50% das emissões mundiais e sempre avessos a assumirem compromissos de redução de emissões no passado, estão trabalhando firmemente para baixarem suas emissões domésticas. Com isso, certamente virão à Paris com o objetivo de aceitar metas de redução e também de cobrá-las dos países em desenvolvimento – o chamado Grupo dos 77, entre os quais também se inclui o Brasil. O não cumprimento destas metas de redução negociadas, segundo especialistas, poderia implicar em sanções comercias às nações que não mantivessem o que prometeram. Em Paris não haverá mais espaço para bravatas e promessas sem compromisso em relação ao clima. 
(Imagens: fotografias de John Gutmann)

O ensino da sociologia no nível médio

sábado, 6 de dezembro de 2014
"Quanto à democracia, todos sabemos que os impérios fortes  a mantêm em casa; só os impérios em declínio a concederam, e na menor dose possível."  -  Eric Hobsbawm  -  Globalização, democracia e terrorismo

De maneira diferente ao restante da América Latina e Europa, onde a sociologia começou a ser ensinada no curso superior, no Brasil o ensino da sociologia começou no curso secundário. No Rio de Janeiro o ensino da sociologia teve início no tradicional colégio Pedro II; em São Paulo e Recife em escolas normais, que – equivalentes ao atual nível médio – preparavam professores para o ensino básico. Deduz-se disto, que o ensino da sociologia no Brasil não visava formar novos professores desta matéria. As cadeiras de sociologia nas escolas, como dizem os próprios historiadores da matéria, eram dadas a autodidatas, profissionais sem conhecimentos aprofundados sobre a disciplina.
É somente a partir de 1933 que passa a existir um curso superior de sociologia, na escola livre de Sociologia e Política de São Paulo. Neste início do ensino da sociologia no Brasil, grande parte dos professores era de origem estrangeira, como pode ser constatado do quadro de professores da Universidade de São Paulo (USP), fundada em 1934.
O ensino da sociologia foi se desenvolvendo, principalmente no estado de São Paulo, onde grandes nomes como Florestan Fernandes se destacavam como docentes da USP. Em 1958 o educador Anísio Teixeira funda no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos; o Núcleo de produção de estudos da Sociologia da Educação, que se dedicará a produzir pesquisas nesta área. A iniciativa, no entanto, foi suspensa com as novas diretrizes educacionais estabelecidas depois do golpe militar de 1964. Em 1968, com a reforma do ensino, a pesquisa universitária passa a ser definitivamente desvinculada do ensino. A partir daí ocorre um crescente distanciamento da pesquisa e do ensino da sociologia que perdura até hoje.  
Um dos grandes debates referentes ao ensino da sociologia no nível médio na década de 80 e 90 era com relação à qualidade do material didático. Não havia material específico; os manuais eram generalistas ou eram publicações destinadas aos primeiros semestres dos cursos de ciências humanas e jornalismo. Outro aspecto é que as escolas de ciências sociais, como a escola da USP, não se preocuparam em criar cursos específicos para a formação de professores para o ensino secundário. Além disso, não havia material disponível para os professores; não havia uma prática longamente experimentada e implantada.
Parte destes problemas começou a ser resolvida com a nova Lei das Diretrizes de Base (LDB nº 9.394/96), que também estabeleceu alguns aspectos no ensino da sociologia no nível médio. Mesmo assim, no entanto, os parâmetros do ensino desta matéria ainda não estão totalmente unificados, havendo grandes variações na sistemática e no conteúdo de escola para escola. Outro aspecto é que o ensino da sociologia, apesar de obrigatório no nível médio, ainda não está implantado no currículo de todas as instituições de ensino. Persiste a falta de material didático específico e ainda não existem professores capacitados em número suficiente.
Lançadas as bases para o ensino de matérias banidas pelo período ditatorial, como a filosofia e a sociologia, é preciso que o Ministério da Educação e as secretarias estaduais efetivamente se envolvam com o tema, estabelecendo as bases para o ensino científico da sociologia, impedindo que a matéria seja ministrada com base em ideologias e metodologias políticas reducionistas.
(Imagens: trabalho na Idade Média)

Proteção aos animais

sábado, 29 de novembro de 2014
"Taxar emissões de carbono poderá ser a maneira mais efetiva de acelerar a adoção de inovações que substituam fontes fósseis, principalmente na produção de energia elétrica e em sistemas de transporte. Mas isso só será benéfico para o crescimento econômico quando as correspondentes tecnologias estiverem prontas para comercialização."  -  José Eli da Veiga  -  Sustentabilidade - A legitimação de um novo valor

Nos últimos quarenta anos a ciência aprofundou seus conhecimentos sobre os animais, observando seu comportamento e sua percepção. Em estudos de campo na natureza, em áreas de cativeiro e experiências em laboratórios, os pesquisadores descobriram um complexo “mundo interior”, principalmente nos mamíferos e nas aves. Com isso, é cada vez mais aceita a idéia de que estes animais são seres sencientes; capazes de sentirem prazer e dor, sofrimento e felicidade, sendo dotados de lembranças e pensamentos.
A relação do animal homem com os outros animais sempre foi de estranhamento. Diversas tradições religiosas consideram o ser humano como a única criatura dotada de alma imortal, diferente de outros seres vivos, que segundo o filósofo francês Descartes (1596-1650), não passavam de autômatos que apenas reagiam aos impulsos. Esta visão ainda persiste, por exemplo, em nosso Código Civil, que considera os animais como “coisa fungível (substituível) e semovente (move-se por si mesmo) no caso de possuírem proprietário”. Se não têm dono, são como “res nullius” (coisa de ninguém), podendo ser apropriados por qualquer pessoa. Assim, tratamos juridicamente os demais seres vivos como “coisa” e damo-nos o direito de fazer com eles o que quisermos – geralmente visando lucro.
A ciência, neste caso, tem muito a dizer sobre a complexidade dos animais. Frans de Waal, zoólogo e estudioso de renome internacional, relata em recente artigo (Scientific American Brasil/outubro de 2014), o caso de uma fêmea de chimpanzé que sofre de artrite. Em diversas atividades ela é ajudada por outros macacos de seu grupo. De Waal conclui sobre a cooperação entre primatas: 1) A cooperação não exige laços familiares; 2) A cooperação é muitas vezes baseada na reciprocidade; e 3) A cooperação pode ser motivada por empatia, emoção despertada quando outros sentem dor ou sofrimento. Em toda a sua extensa obra sobre os macacos primatas, o zoólogo procura mostrar que muitas atitudes e reações tidas como humanas, já se encontram, pelo menos em sua forma simples, no comportamento dos nossos primos chimpanzés – pela teoria darwiniana descendemos de uma espécie comum.
Assim, comportamentos de colaboração, partilha e divisão justa, são comuns a muitas espécies. Waal escreve que “A sobrevivência depende de partilhar, o que explica por que humanos e animais são extremamente sensíveis às divisões justas. Experiências mostram que macacos, cães e algumas aves sociais rejeitam algumas recompensas inferiores às de um companheiro que executa a mesma tarefa; chimpanzés e humanos vão ainda mais longe, moderando sua porção de recompensa conjunta para evitar frustração alheia. Devemos nosso senso de justiça a um longo histórico de cooperação mútua” (SCIAM 149).
A revista Página 22, da FGV, publicou em sua edição de julho de 2014 que a França recentemente alterou seu Código Civil, no qual agora os animais não humanos obtiveram o status de “seres vivos dotados de sensibilidade”. No Brasil tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei no. 6.799/13 do deputado Ricardo Izar (PSD-SP), propondo a mudança da natureza jurídica dos animais de “bens de posse” para “sujeitos de direito”, já que segundo o deputado a legislação sobre crimes ambientais é insuficiente para proteger os animais dos maus-tratos. Uma sociedade que respeita os animais não humanos tende a respeitar mais ainda os humanos.  
(Imagens: pinturas rupestres brasileiras)

Até quando continuará o desmatamento?

sábado, 22 de novembro de 2014
"...e cada um, tendo aceitado que a vida não é busca da verdade, que não existe ou nos será sempre inacessível, optará por passear de uma doutrina a outra, interminavelmente, como quem visita paragens distantes, saboreia receitas exóticas, mergulha em águas novas, deixando para trás o pathos da ignorância, seus malefícios, suas trevas ameaçadoras..."  -  Roger-Pol Droit  -  Se só me restasse uma hora de vida

O desmatamento no Brasil tem origens antigas. Populações indígenas que aqui estavam estabelecidas antes da chegada dos europeus, já praticavam a coivara para a formação de roças. Algumas tribos, como os xavantes, usavam o fogo como tática de guerra, segundo relato do sertanista Orlando Villas-Bôas. Mas, como a população indígena era diminuta e as queimadas limitadas a pequenos territórios, a prática tinha pouco impacto ambiental.
A destruição das florestas brasileiras começou com o avanço dos europeus sobre o ecossistema da Mata Atlântica, que originalmente se estendia do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, avançando para o interior do país e ocupando uma área de 1,3 milhões de km². A mata foi o local de extração do primeiro produto de exportação do país, o pau-brasil; madeira usada à época para tingir tecidos. Foi também na zona de influência da Mata Atlântica que se estabeleceram as primeiras cidades brasileiras e onde ainda hoje vive cerca de 80% da população. Até a década de 1950, grande parte da atividade econômica do Brasil – agricultura, mineração e a nascente indústria – estava concentrada em áreas originalmente ocupadas pelo bioma. O mesmo vale para os ciclos econômicos pré-industriais de nossa história; do pau-brasil, passando pela da cana-de-açúcar e o ouro, até o ciclo do café.
À medida que se exaurem os recursos naturais da floresta atlântica, através da atividade agrícola e do crescimento das cidades, se abrem frentes de ocupação de territórios no interior. A industrialização, a construção de Brasília, a expansão da malha rodoviária e o avanço da frente agrícola rumo ao oeste, são os marcos do avanço da economia sobre áreas inexploradas de Cerrado e da floresta amazônica. Nos anos do milagre econômico (1968-1973), quando a economia crescia em média 10% ao ano, o setor agrícola apoiado pelas pesquisas da Embrapa estabeleceu as bases do que hoje é o agronegócio; o setor da economia que mais traz divisas para o país. No início dos anos 1970 o governo militar termina a abertura da rodovia Transamazônica, estrada que mesmo parcialmente pavimentada, percorria 4.223 quilômetros, ligando Cabedelo, na Paraíba, à Lábrea, cidade do extremo oeste do estado do Amazonas. A estrada abre o vasto território da floresta amazônica a agricultores, madeireiros, garimpeiros, caçadores e todo tipo de aventureiros que vão tentar a sorte na região.

Assim, o ritmo de desmatamento da floresta amazônica foi aumentando gradualmente ao longo dos anos, devido às atividades agrícolas e pecuárias. Entre 1550 e 1970 a área desmatada não passava de 1% dos 4,2 milhões de km² que o bioma ocupa em território brasileiro. Nos últimos 40 anos, no entanto, segundo a ONG Greenpeace, 18% da Amazônia brasileira – 756 mil km² – foram derrubados. Nos últimos dez anos o desmatamento vem gradualmente diminuindo, caindo para 1.047 km² entre agosto de 2011 e julho de 2012. Em 2013 o desmate voltou a crescer (2.007 km²) e continua aumentando em 2014. Apesar de existirem metodologias diferentes para avaliar o ritmo de devastação da vegetação, vários fatores indicam que esta vem aumentando.
O impacto do desmatamento de parte da Amazônia será bem maior do que o da Mata Atlântica. Recursos hídricos, biodiversidade e clima serão definitivamente afetados. Depois disso, não haverá mais outro território novo a ocupar.  
(Imagens: fotografias de Walker Evans)

País precisa ser mais eficiente

sábado, 15 de novembro de 2014
" - Um meshummed troca um Deus por outro. Eu não quero Deus algum. Nós vivemos em um mundo onde o relógio se move rapidamente enquanto Ele fica lá no alto de sua montanha onde o tempo não passa, a olhar para o nada. Ele não nos vê, Shmuel, e não se importa conosco. Eu quero meu pedaço de pão hoje, não no Paraíso."  -  Bernard Malamud  -  O faz-tudo

Eficiência é a palavra do momento. É consenso entre os especialistas que o Brasil precisa de um banho de eficiência em todas as áreas. O país cresceu muito nos últimos vinte anos, mas a legislação, a infraestrutura, a formação da mão de obra, a gestão pública, e a administração das empresas pouco acompanharam este desenvolvimento. As melhorias que houve foram pontuais e quando ocorriam, eram barradas pelo mau funcionamento de outros fatores. Assim, por exemplo, a aquisição de modernas maquinas é de pouca valia, se não existem suficientes trabalhadores treinados para operá-las. Da mesma forma a compra de equipamentos hospitalares é inútil, se faltam recursos para instalá-los e colocá-los em funcionamento. De pouco adianta o empresário reformar e modernizar seu negócio, se não treina seus funcionários para melhor atender os clientes.
A eficiência diz respeito a toda a sociedade; ao Estado, ao cidadão e às empresas. Em um mundo no qual os recursos se tornam cada vez mais escassos e onde a população cresce em 78 milhões de pessoas a cada ano, é preciso produzir, distribuir e consumir de uma maneira mais eficiente. São necessárias leis que facilitem estas ações ao invés de dificultá-las; estruturas físicas (estradas, portos, etc.) e capital humano (profissionais capacitados) que agilize este processo. A gestão da sociedade também precisa ocorrer de uma maneira mais racional e objetiva. Para isso é necessária a formação de uma burocracia profissional, que nos níveis federal, estadual e municipal gerencie a máquina pública. Livre de ingerências políticas e da pressão de grupos, este funcionalismo público altamente capacitado deve estar acima de ideologias partidárias, tendo como único objetivo administrar a cidade, o estado ou a nação. O sociólogo Max Weber já apontava, no início do século XX, a importância deste corpo administrativo na condução administrativa de um país, dando suporte aos poderes legislativo, executivo e judiciário.
O uso eficiente dos recursos está inserido nas modernas práticas administrativas de empresas, sejam privadas ou públicas. Quanto mais valor – na forma de produtos ou serviços – é possível produzir com uma quantidade de trabalho e recursos, tanto mais eficiente é um sistema. Este princípio se aplica a máquinas, células de produção, indústrias, setores da economia e nações. Mas também pode ser aplicado a uma repartição pública, a um grupo de parlamentares ou a um tribunal.
Todos estes “processos” se utilizam de trabalho (o conhecimento dos profissionais que desempenham determinada função) e recursos (alimento, água, luz, matérias primas, instalações, equipamentos, etc.). Exemplo positivo de uso eficiente de recursos e aumento da produtividade é o do setor agrícola brasileiro. Enquanto que em 1960 a produção de grãos era de 17,2 milhões de toneladas, utilizando uma área de 22 milhões de hectares, em 2014 a produção é de 195,4 milhões de toneladas, usando uma área de 56,9 milhões de hectares. A produtividade de grãos subiu de 783 quilos por hectare para 3.433 quilos por hectare (jornal O Estado de São Paulo 26/9/2014).
Uma sociedade mais eficiente faz menos uso de recursos naturais e provoca menor impacto ao meio ambiente. Se medidas de eficiência tivessem sido implantadas anteriormente, talvez não precisássemos enfrentar as atuais crises da água e energia elétrica.
(Imagens: fotografias de Bill Perlmutter)

Extinção de espécies, o que perdemos?

sábado, 8 de novembro de 2014
"Minha vida fora tão contínua quanto a morte. A vida é tão contínua que nós a dividimos em etapas, e a uma delas chamamos de morte."  -  Clarice Lispector  -  A paixão segundo G.H.

Nossas atividades econômicas, de uma maneira ou outra, estão gradualmente destruindo o meio ambiente natural. Derrubamos a floresta para criação de gado, preparamos áreas para abertura de condomínios residenciais, canalizamos córregos para construção de estradas; sempre alteramos os ecossistemas originais. Com isso, o complexo sistema formado pelo solo, recursos hídricos, vegetação e animais (inclusive a microfauna) é destruído parcial ou totalmente, fazendo com que perca seu equilíbrio, o que provoca a morte de espécies que habitam o ecossistema. Outros indivíduos da mesma espécie podem voltar a ocupar o ambiente alterado – caso ainda encontrem condições de sobrevivência – ou desaparecer daquela região. Se estas espécies forem do tipo endêmico, que existem somente em um determinado lugar, teremos destruído um tipo de animal ou planta, produto de milhões de anos de evolução, que nunca mais voltará a existir.
O desaparecimento de uma espécie vegetal ou animal, na maior parte dos casos, não tem nenhum efeito sobre nossas atividades diárias – pelo menos é o que a maioria de nós pensa. Que efeito terá sobre nosso dia a dia a extinção de uma planta que só existia nos arredores da região sul da metrópole de São Paulo e que foi extinta com a construção do Rodoanel (tal fato quase ocorreu efetivamente)? O que importa para o país, às voltas com tantos problemas econômicos e sociais, o desaparecimento de uma ave, recentemente identificada na Amazônia, mas que já está em processo de extinção? Pouco ou nada, diremos.
Ainda somos ignorantes em relação às complexas conexões que existem neste vastíssimo sistema chamado vida. Desconhecemos a maneira como a eliminação de um tipo de vegetal ou ave pode influir no equilíbrio (sempre instável) de todo um ecossistema. Quais espécies de animais se alimentavam das folhas e do néctar das flores desta planta, e qual a posição destas espécies na cadeia alimentar daquele ecossistema? Que tipo de inseto e semente foi o alimento da ave? Conhecer as respostas a estas perguntas e muitas outras, poderia ajudar os cientistas a prever as chances de sobrevivência dos ecossistemas dos quais planta e ave desapareceram. Estudar propriedades químicas da seiva da planta e as cores da plumagem do pássaro proporcionaria, eventualmente, novas substâncias para o combate de doenças e conhecimento sobre microestruturas nas penas que, copiadas, melhorariam técnicas de camuflagem. Estas oportunidades, importantes para a nossa vida diária e para os problemas do país, desaparecem quando espécies se tornam extintas. Se cada espécie, planta ou animal, para muitos não tem importância em si e nem por sua função na cadeia da vida, pelo menos deveria ter importância sob aspecto científico e econômico.

A cada mês de novembro, bilhões de indivíduos da espécie de borboleta monarca (danaus plexippus) chegam às florestas das montanhas centrais do México, vindas do Canadá e dos Estados Unidos. Nesta longa migração, os pequenos insetos voam durante dois meses e percorrem até 4.000 quilômetros, para então hibernarem durante o inverno. Cientistas detectaram uma queda no número de indivíduos a cada ano, por causa das condições climáticas mais extremas (provocadas pelas mudanças climáticas) e uso indiscriminado de inseticidas. Se esta espécie de borboleta desaparecer da região, o que teremos perdido? 
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

Falta de chuva prenuncia mudanças globais

sábado, 1 de novembro de 2014
"As leis são como teias de aranha: assim como estas pegam as criaturas mais fracas, mas não retêm as mais fortes, aquelas restringem os humildes e os pobres, mas não os ricos e os poderoso."  -  Valério Máximo  -  Fatos e ditos memoráveis 

A falta de chuvas em diversas regiões brasileiras poderá comprometer a economia brasileira por muitos anos. Haja vista que 70% do estado de São Paulo, a unidade da federação mais desenvolvido do país, estão sendo fortemente afetados pela estiagem. Agricultura, indústria, geração de energia, turismo, pecuária, transporte hidroviário; diversos setores econômicos estão reduzindo suas atividades, diminuindo faturamento e demitindo empregados.
O mesmo acontece nas regiões banhadas pelo Rio São Francisco. Segundo reportagem do jornal O Estado de São Paulo, a vazão do rio é atualmente de 49 metros cúbicos de água por segundo (m³/s); muito abaixo de seu volume normal de 2,8 mil m³/s e o menor nos últimos 83 anos de medição.  No Alto São Francisco, no estado de Minas Gerais, a falta de água está afetando plantações de café e eucalipto, a criação de gado e pequenos agricultores, que suprem grande parte da demanda de alimentos das cidades da região. Afluentes do grande rio se transformaram em caminhos para carroças e cavalos e a represa hidrelétrica de Três Marias, que funciona como uma caixa d’água do lugar, está quase seca. A região, segundo os cálculos da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural - Emater de Montes Claros (MG) acumula prejuízo de R$ 1 bilhão nas secas dos últimos anos. A situação de estiagem prolongada se estende por todo o curso do rio, alcançando também os estados do nordeste.
Seca semelhante está afetando o estado americano da Califórnia, que enfrenta sua terceira pior estiagem nos últimos 106 anos, segundo o jornal The Washington Post. Pastos estão estéreis, os níveis dos reservatórios caíram e o custo da taxa d’água aumentou. Com isso, aumentaram os preços das frutas em todos os Estados Unidos, já que a Califórnia produz 70% do volume das 25 frutas mais consumidas no país.
A situação se repete em varias partes do globo. Segundo o Sistema Global de Informação de Secas (Global Drought Information Systemwww.drought.gov) o norte da China passa pela pior seca nos últimos 60 anos. No Quênia e na Somália, 2,5 milhões de pessoas enfrentam uma forte carestia devido à falta d'água para irrigação, e a Austrália deve perder 29% de sua safra 2014/2015 de algodão por ausência de chuvas. Não é simples coincidência que 2014 certamente será o ano mais quente da história, segundo a NASA, desde as primeiras medições em 1880.
Em recente texto publicado no Caderno Aliás do jornal O Estado de São Paulo, o escritor americano Lee Siegel, relata que “Lucrécio (filósofo romano) escreveu certa vez que para muitas pessoas a morte é um boato. O mesmo princípio se aplica ao aquecimento global. Você não admite que a Terra seja mortal da mesma maneira que sabe que você mesmo é.” Este é o maior problema de parte dos tomadores de decisão no mundo: não admitir que haja alguma coisa errada com o clima, que poderá trazer sérias conseqüências à nossa civilização em médio prazo.

Esta “alguma coisa errada com o clima” pode ser o que a ciência chama de comportamento emergente. John Casti, matemático especialista em teoria de sistemas e complexidade, escreve que “traços e/ou comportamentos emergentes são, com frequência, considerados algo ‘inesperado’ ou ‘surpreendente’. Isto acontece porque, de um modo geral, sabemos alguma coisa a respeito das características dos objetos individuais, mas nada sobre as propriedades sistêmicas gerais que emergem das interações”. 
Muitos cientistas estão relacionando a seca do Brasil e de outras regiões da Terra com as mudanças climáticas. No caso do Brasil, fala-se no aumento do desmatamento da Amazônia, região responsável pela umidade que se precipita nas regiões sul e sudeste na forma de chuva.
Ainda é difícil prever as consequências da interação entre sistemas complexos como a floresta amazônica e o clima. A falta d'água, no entanto, pode ser um "comportamento emergente" da interação destes sistemas; um prenúncio de outros fenômenos que deverão ocorrer em futuro próximo.
(Imagens: fotografias de Albert Renger-Patzsch)

Ética e a "Ética a Nicômaco": algumas considerações

sábado, 25 de outubro de 2014
"Quero dizer que o que observamos, na realidade, é sempre uma combinação de circunstâncias contextuais com um elemento de causalidade, que não tem como ser previsto."  -  John Casti  -  O colapso de tudo


Os atos morais são aqueles passíveis de aprovação ou desaprovação, de acordo com as normas aceitas. A este conjunto de atos e das normas chama-se moral. A ética, por outro lado, é o estudo dos atos e fatos morais. A liberdade ética é a capacidade de autodeterminação do ser humano, sem a qual a moral não pode existir. Usando de sua liberdade, o homem aspira a ser feliz e para isso se dirigem todos os seus atos.
A ética investiga racionalmente os atos morais; é uma ciência porque investiga sistematicamente e de uma maneira racional os atos humanos. Os princípios universais nos quais a ética se baseia são, todavia, sujeitos as condições sociais de cada grupo humano. A moral é relativa no sentido de se adaptar cada vez mais às condições socioculturais, e não no sentido de ter valor relativo. O pensamento usado na análise ética é o do tipo sintético, que parte de um caso ou casos particulares e então os generaliza (dentro de uma determinada sociedade, uma lei moral é geralmente válida de uma maneira universal). O objeto de estudo da ética são os atos humanos, baseado no que há neles de bom ou mal, com o objetivo de dar aos homens critérios de valores, para que eles possam julgar e balizar suas atitudes.
A moral se estabelece em sociedade, para orientar e estabelecer a correção dos atos humanos, em relação aos outros membros da sociedade. A criação de uma sociedade de classes acaba propiciando o aparecimento da moral dos dominadores e a dos dominados; uma direcionada a manter o status quo, e a outra com um posicionamento crítico (o posicionamento dos dominados).
A ética de Sócrates era baseada no autoconhecimento (conhece-te a ti mesmo). Segundo o pensador ateniense, ninguém é mau porque quer, mas porque é ignorante da verdade. A ética só pode ser desenvolvida através da convivência social – daí a íntima relação da ética e da política. A ética fundamenta-se em três princípios: liberdade, virtude e bem. Para Aristóteles a virtude é ao mesmo tempo liberdade e bem. Protágoras de Abdera, por sua vez, advogava um relativismo que influía na própria ética, já que “o homem é a medida de todas as coisas”. Em suas atividades filosóficas Sócrates se colocava contra este ceticismo ético defendido pelos sofistas.
Quando os homens se agrupam para viver em sociedade, criam governos que, segundo Platão, permite o aparecimento de homens que não são éticos, nem sábios. Estes tipos de governos são: a timocracia, representada pelos donos de terras na antiga Grécia, a forma tradicional de governo. Depois desta fase original aparecem, segundo Platão, a oligarquia, que é o governo dos ricos, sem participação dos pobres; a democracia, onde reina o gosto de cada um, ocasionando a anarquia; e a tirania, onde o tirano torna-se vítima dos seus próprios apetites. No entanto, o Estado ideal, apresentado por Platão na obra A República, é formado por reis-filósofos que dirigem o governo com sabedoria.
Aristóteles, discípulo de Platão, constrói sua filosofia baseada na experiência; todas as idéias são resultantes da experiência. Por isso mesmo, para Aristóteles, a ética não é intuída pelo espírito, mas desenvolvida através da prática social. Desta maneira, para ser feliz, justo e sábio, o homem deve manter-se longe dos excessos e encontrar a prudência, baseado em ações práticas. A ética, para Aristóteles, consiste em procurar a felicidade, organizando sua vida para trilhar o caminho da virtude. A Ética a Nicômaco é uma das obras fundamentais nesta área, tendo balizado toda a ética ocidental, junto com o pensamento judaico-cristão. Com sua obra filosófica, Aristóteles influencia toda a sociedade ocidental, desde a Idade Média.
Na história do pensamento, a ética apresentou principalmente três modelos de conduta: a felicidade ou o prazer, o dever ou a obrigação e a perfeição. A vida em sociedade força o indivíduo a guiar suas ações livres por alguma regra e a moralidade consiste em viver de acordo com estas regras. Desta forma, a ordem moral é o conjunto de relações de utilidade; quem age de acordo com elas age bem, quem as desrespeita age mal. Adicionalmente, de acordo com o fim será a utilidade.

A maior parte dos pensadores aceita que a ação moral só pode ser executada por um ser livre dotado de inteligência. Este pressuposto, no entanto, é colocado em dúvida por filósofos como Spinoza, Hume, Hegel, Nietzsche, entre outros, e vem sendo bastante discutido pela moderna neurologia e psicologia. Mas é regra aceita que a conduta humana só tem significado se existe liberdade. Adolfo Sanches, em sua obra “Ética”, escreve, entre outras coisas, que o conceito de consciência está relacionado ao da obrigatoriedade; a consciência é o juiz dos nossos atos morais. Apesar de livre, a consciência é determinada por fatores históricos e sociais e desenvolve-se através da prática social. Mas, apesar dos diversos determinismos aos quais somos sujeitos, gozamos todos de liberdade suficiente para exercermos nossos atos morais – pelo menos precisamos aceitar este fato para que nossa sociedade continue razoavelmente funcionando.
O principal filósofo a estudar a ética na Idade Média foi São Tomás de Aquino, que fez um trabalho de harmonização do cristianismo e do aristotelismo. Nesse trabalho, Aquino omitiu certos aspectos do pensamento de Aristóteles e adaptar outros aos princípios cristãos. A moral de Tomás de Aquino é essencialista: a moralidade de uma ação é determinada por seu objeto e pela sua intenção. Além disso, Tomás de Aquino também afirmou que assim como existem diversos grupos humanos, existe uma diversidade de leis. A importância de Tomás de Aquino na síntese filosófica e moral da Idade Média são enormes.
Os problemas do campo da ética são caracterizados por sua generalidade, diferentemente dos problemas morais, que aqueles com os quais nos deparamos no dia-a-dia. O valor da ética está em suas explicações e não em suas prescrições.       
Em sua Ética a Nicômaco, no capítulo X, Aristóteles analisa se o prazer é bom ou mau. Afirma que existem várias opiniões e inicia a análise da questão. Apresenta inicialmente a opinião de Eudoxo, que dizia que o que é mais desejado é o maior de todos os bens. Aquilo que é bom para todas as coisas e a que todas elas tendem, é o bem por excelência. Platão, segundo o texto, diz que o prazer não é um bem e que a vida agradável é mais desejável quando acompanhada de sabedoria.
Mais à frente, Aristóteles conclui que, baseado no raciocínio de alguns pensadores, o prazer também tem graduações e não pode ser o preenchimento de alguma carência, já que isto seria somente a supressão de sofrimento. Então, fazendo referência ao prazer de aprender, o prazer dos sentidos e de sensações, afirma que estes não envolvem sofrimento. Conclui seu raciocínio, afirmando que “meu prazer é o bem, nem todo prazer é desejável, e que alguns prazeres são efetivamente desejáveis por si mesmos, distinguindo-se eles dos outros em espécie ou quanto às suas fontes. Acerca das opiniões correntes sobre o prazer e o sofrimento, basta o que dissemos.” (Aristóteles, 2002, pg.221).   
Continuando sua análise do prazer, Aristóteles se pergunta o porquê de ninguém sentir prazer continuamente, já que isto seria impossível para o ser humano, como atividade constante. Quanto à questão de escolher, escolher a vida, tendo em vista o prazer, ou o prazer tendo em vista a vida, a questão fica, por enquanto, sem análise, já que os dois permanecem ligados, visto que sem atividade não há prazer. Mais à frente o texto afirma que algumas atividades têm efeitos contrários, sendo que prazer e certas atividades podem estar em lados opostos. Além disso, como existem atividades diferentes, há diferentes tipos de prazer; uns superiores e outros inferiores.
Depois de falar das virtudes, as formas de amizade e as várias espécies de prazer, Aristóteles passa a discutir a natureza da felicidade, já que ela é o fim da natureza humana. Aristóteles inicia sua argumentação afirmando que à felicidade nada falta; ela é auto-suficiente. As atividades desejáveis não visam mais nada do que a si mesmas, e as ações virtuosas são desta natureza. Já que muitos encontram o bem-estar em algum passatempo, Aristóteles inicia a discussão deste tema e conclui que a felicidade não está no divertimento. Todavia, não nega que o divertimento é necessário para o relaxamento, após muito trabalho. Em seguida, Aristóteles discute sobre a superioridade das atividades sérias sobre as risíveis. Conclui que a felicidade não está em passatempos, mas sim nas atividades virtuosas. Ao final da argumentação, conclui que “a sabedoria filosófica é reconhecidamente a mais agradável das atividades virtuosas”. (Aristóteles, 2002, pg. 229).
Ainda sobre a contemplação filosófica, Aristóteles afirma que esta atividade será a felicidade completa do homem. Em outro ponto diz que não devemos nos ocupar com coisas humanas e mortais, já que nós próprios o somos. Devemos sim, assim que possível, ocupar-nos com assuntos imortais, “esforçando-nos para viver de acordo com o que há de melhor em nós.” (Aristóteles, 2002, pg.230).
Comparando a vida dos deuses, Aristóteles afirma que a atividade perfeita é uma vida contemplativa equivalente aquela dos deuses, que vivem em bem-aventurança. O homem é feliz enquanto consegue imitar os deuses nesta atividade na contemplação; a contemplação e o cultivo da razão, aliadas a uma vida virtuosa, são exatamente as qualidades do filósofo, o mais feliz dos homens e querido dos deuses.

Discutindo sobre como os homens adquirem vontade, Aristóteles conclui que a virtude é em grande parte motivada por uma predisposição dada pelos deuses, aliada ao cultivo de virtudes através da convivência social. “É indispensável que o caráter tenha alguma afinidade com a virtude, amando o que é nobre e detestando o que é vil.” (Aristóteles, 2002, pg.235). Aristóteles afirma que os homens que se empenham em tornar outros melhores, devem ser capazes de legislar. As leis e as constituições, segundo o Estagirita, podem tornar as pessoas melhores.
Bibliografia:
Aristóteles. Ética a Nicômano. Editora Martin Claret: São Paulo, 2002, 240 pgs.
(Imagens:pinturas do budismo chinês)

Floresta amazônica: ocupação, preservação e pesquisa

sábado, 18 de outubro de 2014
"O homem tornou-se um ser supersticioso ou religioso pelo simples fato de que ele era um ser mais inteligente que os outros."  -  Jean-Marie Guyau  -  A irreligião do futuro

A floresta amazônica é um dos recursos naturais mais importantes de que dispõe o planeta. Os serviços ambientais prestados pelo imenso bioma incluem itens como: geração de chuvas para outras regiões do planeta, equilíbrio do clima local e global, manutenção de recursos hídricos, além de abrigar uma extensa variedade de ecossistemas. A ciência ainda não conseguiu avaliar o quanto e como a imensa floresta influencia o ciclo de vida na Terra.
Dados geológicos revelam que a complexa cobertura vegetal na região é bastante antiga, existindo há pelo menos 55 milhões de anos; sendo anterior ao aparecimento da cordilheira dos Andes. Durante as eras glaciais nos últimos dois milhões de anos, as baixas temperaturas médias globais fizeram com que a floresta encolhesse, sendo substituída por grandes extensões de savanas. Quando as geleiras no hemisfério norte recuavam, o clima na região amazônica também voltava a ficar mais quente e úmido, ocorrendo novamente a expansão da floresta tropical.
A Amazônia passou a ser efetivamente ocupada a partir dos anos 1970 quando o governo militar, com medo de uma invasão estrangeira, resolveu colonizar a região construindo a rodovia Transamazônica e distribuindo lotes de terras para milhares de migrantes pobres. A falta de apoio técnico e financiamento para os agricultores, aliada à péssima infraestrutura de transportes – impossibilitando o escoamento de colheitas e o deslocamento de equipamentos – fez com que a maioria dos colonos abandonasse a região depois de alguns anos.
Se a agricultura familiar não pode prosperar na região, as grandes fazendas e grupos econômicos – nacionais e internacionais – passaram a tomar extensões de terra cada vez maiores. Esta ocupação, muitas vezes realizada de forma violenta e fraudulenta, estava associada a grandes desmatamentos, já que à época o governo federal e os governos locais ofereciam incentivos para a derrubada da floresta. A partir dos anos 1980 a expansão da agricultura e pecuária na região, acelerou ainda mais o processo de degradação do bioma.
Nos últimos quinze anos cresceu visivelmente o interesse, tanto no Brasil quanto no exterior, em preservar a floresta. Estudos científicos, relacionando a supressão das grandes florestas tropicais de todo o planeta às mudanças climáticas e ao aumento da temperatura média, chamaram a atenção da comunidade internacional para a região. Interessava agora preservar a floresta, para que esta pudesse continuar a fornecer seus importantes serviços ambientais.
À época, o governo Lula implantou medidas de controle e cooperação com ONGs atuantes na região, conseguindo reduzir drasticamente os índices de desmatamento. O governo atual manteve esta política, estabelecendo acordos de cooperação com instituições internacionais. Entre agosto de 2012 e julho de 2013 o desmatamento foi de 5.891 km², a segunda menor taxa de desflorestamento nos últimos 25 anos. Com essa redução o país poderá receber até 2,5 bilhões de dólares em pagamentos por redução de emissões de gases.     
Técnicos do Brasil e da Alemanha estão construindo uma torre para monitoramento da atmosfera da Amazônia. A estrutura terá 330 metros de altura, disporá de mais de 30 instrumentos científicos e durante 20 anos colherá dados sobre como a floresta influencia o clima global e é influenciada por este.  
(Imagens: fotografias de Russel Lee)

Brasil não dispõe de banheiros públicos

sábado, 11 de outubro de 2014
"Chamaremos de discurso um conjunto de enunciados, na medida em que se apoiem na mesma formação discursiva; ele não forma uma unidade retórica ou formal, indefinidamente repetível e cujo aparecimento ou utilização poderíamos assinalar (e explicar, se for o caso) na história; é constituído de um número limitado de enunciados para os quais podemos definir um conjunto de condições de existência."  -  Michel Foucault  -  A arqueologia do saber

A falta de coleta e tratamento de esgoto é um grande problema ambiental no Brasil, refletindo pouca atenção à higiene e saúde pública. Assim, não é de estranhar que ainda existam 3,5 milhões de casas que não dispõem de um banheiro, segundo o Censo do IBGE de 2010. A falta de sanitários públicos nas cidades também é um problema em todo o país, onde grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro improvisam soluções com banheiros químicos móveis pouco higiênicos.
A falta de banheiros públicos nos centros urbanos também tem explicações históricas. Até os anos 1960 a maior parte da população vivia em áreas rurais, as cidades eram menos populosas e de menor tamanho. Na maior parte das aglomerações urbanas então existentes, seus habitantes não tinham necessidade de longos deslocamentos por grandes distâncias. Era possível resolver as pendências pessoais em torno dos quarteirões que cercavam a praça da matriz, já que era por ali que se situavam os cartórios, bancos, consultórios médicos, as mercearias, etc. Se o transeunte precisasse “aliviar suas necessidades”, havia sempre um bosque, uma beira de rio ou local ermo, à curta distância. Quem estava em viagem pela cidade, tinha um hotel, hospedaria ou pensão como local de permanência.
Nos últimos 50 ou 60 anos a população brasileira cresceu exponencialmente, inchando os centros urbanos. No entanto, nenhuma cidade brasileira, pequena ou grande, resolveu um problema básico de seus habitantes ou visitantes: onde fazer as necessidades fisiológicas, quando fora de casa? Os poucos banheiros disponíveis em aeroportos, shopping centers, rodoviárias, estações de metrô, ônibus ou trem, estão em locais afastados, geralmente longe de onde circula a maior parte da população. Isto sem falar das condições de higiene destes banheiros, muito ruins.
Nas estradas brasileiras a situação não é diferente. O país possui uma malha rodoviária de aproximadamente 1,3 milhão de quilômetros, dos quais apenas 140 mil estão pavimentados. Destes, 14 mil quilômetros foram transferidos a 51 empresas privadas, que operam estas rodovias em regime de concessão. Nesta modalidade, as concessionárias são responsáveis pela manutenção e conservação das estradas e se remuneram através da cobrança de uma taxa, o pedágio. As autovias privadas são melhores do que aquelas sob responsabilidade dos governos municipais, estaduais e federal, dispondo de boa infraestrutura, sinalização, telefones de emergência e equipes de apoio. No entanto, um importante item que mesmo as estradas sob administração privada não dispõem são os banheiros públicos. Não fosse algum restaurante, lanchonete ou posto de gasolina no percurso, o usuário teria que aliviar suas necessidades à beira da estrada, como de fato muitas vezes acontece. Recentemente vimos em uma importante estrada em São Paulo, de altíssimo fluxo de veículos, alguns banheiros químicos, colocados lá para atender às “demandas urgentes”. Instalações de alvenaria, limpas, higiênicas, principalmente para mulheres e crianças, não existem nas estradas brasileiras.
O poder público tem como obrigação zelar pela higiene e pelo bem estar da população – pelo menos é o que acontece em países civilizados e modernos. A exemplo do que ocorre nestes lugares, já é hora de nossos prefeitos e do Ministério dos Transportes pensarem em soluções para este problema tão humano.   
(Imagens: fotografias de Otto Umbehr)

O PAC e o saneamento

sábado, 4 de outubro de 2014
"A conexão de dopamina e crença foi estabelecida por experimentos que Peter Brugger e sua colega Christine Mohr conduziram na Universidade de Bristol, na Inglaterra. Explorando a neuroquímica da superstição, do pensamento mágico e da crença na paranormalidade, Brugger e Mohr descobriram que pessoas com altos níveis de dopamina têm maior probabilidade de encontrar sentido nas coincidências e descobrir significados e padrões onde eles não existem."  -  Michael Shermer  -  Cérebro e crença 

Chegamos ao final de mais um governo e o país ainda não dispõe de uma infraestrutura razoavelmente eficiente, apesar da sucessão de planos para melhorá-la. Em 2007, ainda no governo Lula, foi lançada uma iniciativa que deveria recuperar e ampliar a infraestrutura brasileira. O Plano de Aceleração do Crescimento, PAC 1, como foi chamado, previa a execução de um total de 1.646 projetos ao custo de R$ 503,9 bilhões. Incluía a construção de hidrelétricas, estradas, ferrovias, aeroportos, portos, sistemas de saneamento, casas populares, sistemas de transporte urbano. No governo Dilma, foi criado o PAC 2, que previa investimentos totais de R$ 955 bilhões, incorporando projetos do PAC 1, que ainda não haviam sido terminados. Segundo declarações do próprio governo, todas as obras relevantes deveriam estar concluídas até o final de 2014. Acaba agora o prazo estabelecido e somente as obras consideradas mais relevantes estão prontas, a um custo bem superior aquele inicialmente calculado. 
As importantes obras de saneamento previstas no PAC estão em grande parte a cargo do Ministério das Cidades. Este chegou a criar em 2012 o Plano Nacional de Saneamento que prevê investimentos em tratamento de água e esgoto, drenagem e gestão de resíduos no valor de R$ 420 bilhões até 2030. Segundo o site do PAC (http://www.pac.gov.br/noticia/5a7e2fc8), entre 2011 e 2013 o país investiu mais de R$ 30 bilhões em saneamento. Com outros recursos adicionais, os repasses do PAC para o setor, segundo o governo, deverão totalizar R$ 37,8 bilhões até o final de 2014.
O Instituto Trata Brasil (http://www.tratabrasil.org.br/saneamento-no-brasil) é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse público (OSCIP), formada por empresas com interesse no saneamento e na preservação dos recursos hídricos. A considerar os dados desta instituição, a situação do saneamento básico no Brasil está longe de mostrar avanços. Segundo a organização, 82,7% da população brasileira são atendidos com água tratada, ou seja, mais de 17% dos brasileiros – cerca de 34 milhões de pessoas – ainda não pode consumir água potável. Em relação à coleta e ao tratamento de esgoto a situação ainda é pior: somente 43,8% da população têm acesso à coleta dos resíduos e apenas 38,7% dos esgotos gerados são tratados. Isto quer dizer que mais de 113 milhões de pessoas não dispõem de coleta de esgoto e que cerca de 18 mil toneladas de esgoto doméstico (equivalente a 900 caminhões pipa) são despejadas em rios, lagos e no oceano a cada dia. Ainda segundo o Instituto Trata Brasil, seriam necessários R$ 303 bilhões para universalizar os serviços de tratamento de água e esgoto em 20 anos, o que representaria um investimento médio de R$ 15,15 bilhões ao ano.
Apesar do atraso das obras do PAC e do ritmo mais lento que o plano deverá assumir à medida que se desacelera a economia, é importante que o país continue mantendo altos investimentos em saneamento. O tratamento da água e do esgoto doméstico implica em menores taxas de afastamento de trabalhadores por motivos de doença, redução do número de internações e mortes de crianças, menos rios e lagos poluídos, melhor aproveitamento escolar e maiores receitas em turismo. O grau de desenvolvimento econômico e social do país já não permitem mais esta situação de atraso no saneamento e nas condições higiênicas, apesar de sete milhões de brasileiros ainda não terem acesso a banheiros. 
(Imagens: fotografias de Léonard Misonne)

Construção sustentável no Brasil

sábado, 27 de setembro de 2014
 
"Spinoza poderia ter mencionado a admonição fundamentalmente judaica do rabi Tarphon, em Pirke Abot. 'Não se exige que completemos o trabalho, mas não estamos livres para desistir dele.'"  -  Harold Bloom  -  Abaixo as verdades sagradas  

No Brasil, mais de 50% das construções de residências são realizadas pelos proprietários, sem acompanhamento técnico de especialistas. A fiscalização das obras, na maioria das prefeituras, ocorre de maneira incipiente e superficial. Além do aspecto da segurança das estruturas das construções, existe a perda de material, como restos de areia, cimento, cal, tijolos, etc.; materiais que muitas vezes se transformam em entulho descarregado em áreas públicas ou terrenos baldios.
O problema da perda de material no setor de construção também afeta a maior parte das obras realizadas com supervisão técnica. Empreiteiros e construtores de pequeno e médio porte, em sua maioria, ainda não utilizam técnicas de reuso e reciclagem de materiais, além de muitas vezes não disporem corretamente o entulho de obra. Especialistas calculam que 25% dos insumos utilizados pelo setor são perdidos, o que faz com que o metro quadrado construído no Brasil seja relativamente elevado, em comparação com outros mercados equivalentes.
O tema do uso mais eficiente dos recursos no setor da construção não é novo e já faz parte das preocupações das principais instituições ligadas à construção, há pelos menos quinze anos. Grandes empreiteiras, principalmente aquelas atuantes nos grandes centros urbanos, já incorporaram as diretrizes do uso eficiente dos recursos, oferecendo treinamento aos seus funcionários e implantando sistemas de gestão de canteiros de obras, visando controlar, separar e reutilizar materiais e insumos.
Um grande avanço no setor da construção civil foi a criação da Norma de Desempenho de Edificações nº 15.575, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), lançada em abril de 2013. A diretriz estabelece padrões para resistência e durabilidade de estruturas, pisos, coberturas, vedações e sistemas hidrossanitários para construções, proporcionando mais garantias ao comprador do imóvel e exigindo que a construtora utilize materiais, equipamentos e mão de obra de melhor qualidade. A norma representa um importante passo do setor da construção civil em direção à melhor gestão das obras, tornando-as mais eficientes e sustentáveis, reduzindo a perda de materiais. 

Outro fato positivo no setor da construção civil é introdução da certificação de construções – os selos verdes – de acordo com normas internacionais de qualidade ambiental. Para receber este selo, as edificações devem atender aspectos como: ter obra realizada de maneira ambientalmente correta (reuso, reciclagem e correta destinação dos materiais, ausência de substâncias tóxicas, uso eficiente de água e energia, entre outros); ter edifícios equipados com sistemas de economia de água e eletricidade, materiais de alta durabilidade; adotar princípios de urbanismo sustentável (calçadas vivas, prioridade para deslocamento de pedestres, arborização, etc.). O Brasil já tem mais de 900 projetos registrados aguardando certificação e somente em um selo, o LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), já existem 181 edificações credenciadas.
O setor da construção tem forte impacto no uso de recursos naturais, incluindo água e eletricidade. Outro aspecto, é que depois de prontos, os edifícios funcionarão por várias décadas. Por isso é importante que, tanto na fase de construção quanto na de uso, seu impacto ambiental seja reduzido ao mínimo possível.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

País aumentará investimentos em termelétricas

sábado, 20 de setembro de 2014
"Todos os procrastinadores adiam as coisas que precisam fazer. A procrastinação estruturada é a arte de fazer este traço negativo trabalhar por você. A ideia central é que a procrastinação não significa que você não vai fazer absolutamente nada. Procrastinadores raramente não fazem absolutamente nada; eles fazem coisas marginalmente úteis, como jardinagem, apontar lápis ou criar um diagrama de como vão organizar seus arquivos quando se decidirem a iniciar"  -  John Perry  -  A arte da procrastinação

O que muitos cientistas das áreas da climatologia e do meio ambiente já vinham prevendo há mais de uma década, parece se tornar cada vez mais real. Fenômenos como o das mudanças climáticas, associados à sazonalidade do El Niño (variação da temperatura do oceano Pacífico que influi no volume das chuvas no Brasil), pesarão cada vez mais sobre setores da economia brasileira, como a agricultura e a geração de energia elétrica. As duas atividades dependem essencialmente das chuvas; sobre as quais temos pouca influência, e que devido ao clima poderão se tornar menos freqüentes.
A água, através das hidrelétricas, sempre foi a principal matriz de energia elétrica no Brasil, desde quando, nos anos 1950, se começaram a construir as primeiras barragens. Estas eram instaladas em vales profundos, onde o represamento da água formava um largo e profundo lago, com estoque de líquido suficiente para acionar os geradores mesmo em épocas de pouca chuva. A dificuldade em encontrar novos rios caudalosos em vales profundos, levou o governo a construir hidrelétricas com reservatórios pouco profundos e de grande área, provocando inundação de vastos territórios e desalojando milhares de pessoas. Nos últimos anos, para contornar o problema, a solução encontrada foi a hidrelétrica a fio d’água; assim chamada porque não tem reservatório, sendo suprida por um rio ou canal. A desvantagem deste tipo de usina é que não dispõe de uma reserva d’água que permita a geração de eletricidade em períodos de pouca ou nenhuma chuva. Com pouca precipitação, a geração de energia é reduzida ou até interrompida.
Do lado do consumo da eletricidade haverá, segundo a Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), um aumento médio anual de 5% nos próximos dez anos. Do lado da geração, existe cada vez menos espaço para a construção de grandes hidrelétricas, já que isto implicaria destruir áreas de proteção ambiental, desalojar populações locais e ocupar reservas indígenas. Um dos últimos megaprojetos planejados pelo governo é o de São Luiz de Tapajós, que deverá gerar oito mil megawatts (MW). A solução alternativa, segundo orientação do governo, é aumentar os investimentos em termelétricas movidas a gás e carvão. Com isso, nas previsões do Ministério das Minas e Energia (MME), a matriz hidrelétrica que hoje supre 69% da demanda de eletricidade, deverá cair até 2023 para 61%. Neste mesmo período, a geração eólica crescerá de 4% para 12% e as termelétricas continuarão suprindo 15% da demanda – que, todavia, será maior. Para tanto, o governo prevê aumentar a geração termelétrica dos atuais 1,5 mil (MW) para 7,5 mil MW.
A falta de locações adequadas para novos projetos e a previsão de sazonal redução do volume de chuvas, são dois fatores que tenderão a limitar os investimentos em hidrelétricas. Apesar destes novos aspectos no quadro da geração de eletricidade no país, ainda não existe um consenso sobre o rumo a ser dado ao setor no futuro. Os programas dos atuais presidenciáveis, incluindo a candidata à reeleição, são pouco específicos com relação às matrizes a serem priorizadas. Sinaliza-se uma tendência de aumento da geração eólica nas previsões do próprio governo, mas permanece uma incógnita quanto à política energética futura em relação a outras energias renováveis, como a solar fotovoltaica e a energia de biomassa. Além disso, são poucas as ações concretas do governo com relação à eficiência energética, lembrando que “a energia mais barata é aquela que não precisa ser gerada”. Enquanto países mais industrializados priorizam cada vez mais a eficiência dos processos - a economia de energia - o Brasil continua no passado, pensando somente em termos de geração para atender uma demanda cada vez mais alta. 
(Imagens: pinturas rupestres de Lascaux)

Alteração de políticas ambientais

sábado, 13 de setembro de 2014
"Em nossa vida, podemos chegar a descobrir o que Jó descobriu: que o problema do mal nunca poderá ser respondido de maneira que nos satisfaça. Não podemos extrair sentido algum das coisas ruins, porque não há nada de compreensível nelas."  -  Richard Schoch  -  A história da (in)felicidade 

A expansão das cidades e das obras de infraestrutura provoca impactos ambientais, afetando ecossistemas e espécies. Assim, por vezes é necessário mudar aspectos da política ambiental, a fim de viabilizar a implantação de obras que evitem impactos ambientais e sociais ainda maiores, caso não sejam realizadas.
Exemplo disso é o trecho Sul do Rodoanel, localizado em uma APA (Área de Proteção Ambiental) na Serra do Mar e em Área de Proteção aos Mananciais, criada através de lei estadual, em 1976. O impacto da obra sobre a região é considerável, já que o trecho sul do Rodoanel interliga as rodovias Anchieta e Imigrantes, além da Região do ABC, às rodovias Bandeirantes, Anhanguera, Castelo Branco, Raposo Tavares e Régis Bittencourt, que já estavam interligadas pelo Trecho Oeste desde outubro de 2002. O novo trecho Sul atravessa os municípios do Embu das Artes, Itapecerica da Serra, São Paulo, São Bernardo do Campo, Santo André, Ribeirão Pires e Mauá, os quais, em parte, ainda dispõem de resquícios de Mata Atlântica, exatamente nas regiões cortadas pela obra.
O licenciamento da obra começou em 2001, com a apresentação de um plano de trabalho, definindo o Termo de Referência para a elaboração do EIA/RIMA – Estudo de Impacto Ambiental e do Relatório de Impacto ao Meio Ambiente da obra. O documento foi analisado e obteve a aprovação das prefeituras da região, do órgão de controle ambiental estadual (CETESB), do Conselho Estadual do Meio Ambiente (CONSEMA) e dos órgãos de controle federal, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Além disso, foram realizadas audiências públicas, envolvendo cerca de 3.500 pessoas.
Em 2006 o EIA/RIMA foi aprovado, tendo sido emitida a licença de instalação da obra. As medidas de mitigação e compensação de impacto ambiental no trecho Sul do Rodoanel podem, resumidamente, ser reunidas da seguinte maneira:
- Foram propostos vinte e seis programas ambientais, sendo cinco para a fase pré-construtiva, treze para a fase construtiva e oito para a fase de operação da rodovia;
- Os programas poderão ser implementados e se estender por uma ou mais fases. No total, estes 26 programas ambientais contemplam 109 medidas, sendo 35 na fase pré-construtiva, 47 na construção e 27 na operação.
Na própria fase construtiva da obra, a preocupação com a redução do impacto ambiental da obra foi bastante grande. Vale destacar que as duas pontes sobre a represa Billings – uma de 685 metros e outra de 1.755 metros – representam mais de 8% da obra. Diferentemente de outros projetos, a maior ponte do Trecho Sul tem vãos de 100 metros para minimizar o impacto no fundo da represa. Essa preocupação com soluções de menor impacto para região foi uma constante no Rodoanel Sul. Entre as próprias medidas compensatórias também consta um extenso programa de reflorestamento com mudas da flora local.
Um dos aspectos interessantes é que durante a fase de construção da obra foi encontrada uma espécie vegetal que se acreditava extinta desde o século XIX. Além desta espécie, foram encontradas diversas variedades de bambu, bromélias, orquídeas e palmeiras – ao todo quinze espécies de vegetais – com algum grau de extinção.
A obra do Rodoanel tem uma importância muito grande para toda a região metropolitana de São Paulo. Elimina grande parte do trânsito de veículos – principalmente caminhões – que diariamente passavam pela cidade de São Paulo, reduzindo assim as emissões veiculares dentro da cidade. Por outro lado, diminuirá gradualmente parte dos congestionamentos causados por estes veículos, quando em trânsito pela cidade, o que contribuirá para a redução das emissões veiculares. Sendo assim, fica justificada a modificação de uma política pública em relação ao meio ambiente – neste caso a lei de transforma a Serra do Mar em APA e a lei que transforma a região em Área de Proteção aos Mananciais.
A região cortada pelo Rodoanel em seu trecho Sul é uma das partes da região metropolitana que ainda dispõe de grandes áreas de reserva florestal, além de ser região de mananciais, principalmente em função da localização das represas Guarapiranga e Billings. Apesar do cuidado na construção da obra, é inevitável que a rodovia facilite a invasão da área verde remanescente por populações de baixa renda, degradando o ecossistema – a exemplo do que aconteceu quando da construção da rodovia dos Imigrantes.
Cabe, portanto, ao poder público fiscalizar e impedir que a região seja ocupada e definitivamente destruída em seus biomas. Tendo sido encontradas ali espécies vegetais endêmicas que se acreditavam extintas, é provável que a região ainda abrigue outras espécies – animais ou plantas – que poderão ser identificadas através de pesquisas futuras.
Bibliografia:
O licenciamento do Rodoanel. Disponível em:
Diretor do Centro de Pesquisa e Jardim Botânicos e  Reserva  de São Paulo fala sobre compensação ambiental. Disponível em:
Planta considerada extinta é encontrada em obra o Rodoanel de São Paulo. Disponível em: http://oglobo.globo.com/cidades/sp/mat/2010/01/12/planta-considerada-em-extincao-encontrada-em-obra-do-rodoanel-de-sao-paulo-915508173.asp Acesso em 2/05/2010
(Imagens: fotografias de São Paulo - Hildegard Rosenthal)

Humanos provocam extinção de espécies há milênios

sábado, 6 de setembro de 2014
"A visão de Espinosa era a de que tudo o que ocorre na realidade é, necessariamente, uma manifestação da Divindade. Assim, nesse esquema, não há espaço algum para o livre-arbítrio. De fato, ele argumentava que acreditar no livre-arbítrio é como alguém sonhar de olhos abertos; é só porque somos ignorantes das verdadeiras causas de nossas ações que somos capazes de sustentar tal presunção."  -  Dr. Jeremy Stangroom  -  Filosofia

Hoje já é fato aceito pela ciência de que o homem sempre foi agente destruidor de outras espécies. Paleontólogos realizaram escavações em diversas partes do mundo e descobriram que nossos antepassados desenvolveram técnicas de caça, que implicavam na morte de dezenas ou centenas de animais de uma vez. Uma das práticas mais comuns consistia em cercar e carrear manadas de cervos, bisões ou outros animais para desfiladeiros, de onde estes se precipitavam para a morte, rendendo grande quantidade de carne. O que, no entanto, também deve ter acontecido com frequência, é que em tais caçadas também morriam fêmeas prenhes e filhotes, o que provocava uma redução no grupo destes animais. Esta situação, aliada à falta periódica de alimentos, invernos rigorosos e a caça constante praticada pelos humanos, acabava contribuindo com a extinção das espécies.
Existem provas de que a espécie humana teve um papel importante na extinção da megafauna do período do Pleistoceno (de 2,5 milhões de anos até 11,5 mil anos atrás) em todo o mundo. Mamutes, rinocerontes lanosos, preguiças gigantes, tigres de dente de sabre, mastodontes, ursos das cavernas e diversas espécies de marsupiais, faziam parte de uma fauna que se habituou ao frio e vivia em relativo equilíbrio. O aparecimento do homem na Eurásia, na Austrália e mais tarde na América, provocou a mortandade de muitos tipos de animais, em poucos milhares de anos – um ritmo de extinção incomum para períodos de relativo equilíbrio ambiental. A causa do desaparecimento de tantas espécies foi certamente o homem, que já tinha desenvolvido armas e técnicas de caça bastante mortíferas.
Há 30 ou 20 mil anos o homem já dominava técnicas que manejo da flora, incendiando extensas áreas de estepe e floresta; como ocorreu na Austrália, na África e, mais recentemente, na América do Sul. A interferência do homem nos ambientes naturais ocorre de longa data e, baseado em estudos mais recentes, não é mais possível falar de um ambiente natural intocado, mesmo em regiões onde o ambiente ainda é considerado original. A destruição dos ecossistemas e das espécies não é, portanto, exclusividade da civilização, seja em sua fase agrícola ou industrial. O que caracteriza muito mais a fase civilizatória do homem - a partir da descoberta da agricultura - é a domesticação de animais, para fornecimento de alimento e força de trabalho.
Recentemente biólogos da Universidade Duke, nos Estados Unidos, publicaram um estudo afirmando que a ação do homem acelerou em mil vezes a taxa de extinção das espécies de plantas e animais no planeta, em comparação ao que vinha ocorrendo em ritmo natural. Os dados são alarmantes, mas os cientistas acreditam que novas tecnologias atualmente disponíveis podem ajudar a proteger a biodiversidade. Mapas, bancos de dados e outras espécies de tecnologias deverão ajudar os cientistas a identificarem as regiões onde se localizam as espécies mais vulneráveis e ajudar em sua proteção.
Não sabemos quantas espécies já desapareceram por causa da ação do homem. E, se no passado os impactos eram limitados pela incipiente tecnologia, hoje a humanidade exerce um domínio quase absoluto sobre os ecossistemas, para o bem e para o mal. Mesmo assim, ainda existem milhões de espécies – incluindo uma quantidade ainda desconhecida de microorganismos terrestres, aquáticos e do subsolo – que permanecem forma do alcance do nosso conhecimento.   
(Imagens: grafismo indígena)

Licença ambiental: proteção e obstáculo

sábado, 30 de agosto de 2014
"Em outros termos, a simbolização, ou a propriedade de atribuir sentido e valor abstrato às coisas, traço marcante de nossa espécie hoje, esteve completamente ausente durante boa parte da existência evolutiva do homem moderno. A modernidade, até bastante recentemente, circunscreveu-se ao anatômico, à aparência física."  -  Walter Alves Neves & Luis Beethoven Piló  -  O povo de Luzia

Toda atividade que tenha um impacto potencialmente danoso ao meio ambiente precisa de um licenciamento ambiental. Este é basicamente uma autorização de funcionamento expedido por um órgão de controle competente – municipal estadual ou federal – que permite o funcionamento do empreendimento, desde que seus proprietários cumpram determinadas exigências. Até aqui tudo claro: ninguém pode exercer uma atividade sem levar em consideração seu impacto ao entorno, seja urbano, rural ou natural.
Licenciamento ambiental é a maneira das administrações controlarem as atividades econômicas, de forma que não prejudiquem o meio ambiente. A agência ambiental exige que já na fase de projeto, sejam previstas tecnologias que aplicadas reduzam o impacto do empreendimento ao meio ambiente. Assim, ao invés de permitir, por exemplo, que fábricas se estabeleçam em qualquer lugar e funcionem sem atentar para seus efluentes, resíduos e fumaça – como no Brasil foi comum em passado recente –, a lei requer que mesmo antes de operar a indústria já tenha previsto um tratamento adequado destas emissões. Para isto são estabelecidos procedimentos e padrões que regulam a maneira como o empreendimento deve se estabelecer e a forma como, depois de aprovado, deve funcionar.
É importante que o país tenha uma legislação ambiental que determine como e em que condições um empreendimento deve operar, no que se refere ao seu impacto ambiental. Loteamento popular, indústria automobilística, fazenda, usina hidrelétrica, mineração, hospital público; para cada atividade econômica existe um conjunto de normas técnicas e providências a serem consideradas antes e durante a atividade econômica. A licença ambiental é o atestado emitido pela pelo órgão ambiental (que nesta situação atua como controle da sociedade), permitindo o funcionamento do empreendimento.
Um instrumento que foi criado para proteger o meio ambiente e os recursos naturais, pode ter se transformado também em obstáculo à expansão da infraestrutura e das atividades econômicas. Segundo pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), as licenças ambientais são ordenadas direta e indiretamente por cerca de 30 mil diferentes instrumentos legais, no âmbito federal, estadual e municipal. Mais grave ainda é que as leis, decretos, portarias e resoluções muitas vezes são contraditórias, conflitando e provocando um emaranhado jurídico equivalente ao que já existe no direito tributário – vale lembrar que atualmente o país tem mais de 181 mil leis, uma verdadeira Babel jurídica. Sobre esta situação, comentou o gerente executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Shelley Carneiro: “Ninguém é contra a licença ambiental, e alguns empreendimentos de fato podem ser muito agressivos, por isso é preciso ter todo cuidado. Mas, do jeito que ela vem sendo feita, só gera uma burocracia imensa que não resulta em nada de bom para o meio ambiente.”
A burocracia nas agências ambientais – resultado da falta de itens como pessoal qualificado, gerenciamento, organização, metas e padronização das exigências – atrasa a emissão das licenças ambientais e, consequentemente, o início de muitas obras. Segundo a CNI, o tempo médio de obtenção de uma licença é de 28 meses, prazo considerado “incompatível com os custos de oportunidade da maioria dos investimentos”, segundo Shelley Carneiro. 
(Imagens: fotografias de Dorothea Lange)