Carlos Drummond de Andrade

sábado, 20 de janeiro de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) foi um dos maiores poetas brasileiros, além de contista e cronista. Descendia de uma família de produtores rurais, estabelecida em Minas Gerais há gerações. Drummond estudou em Belo Horizonte e em Nova Friburgo, no Colégio Anchieta, de jesuítas. Nesta instituição, o que mais fascinava o rapaz era a aura de intelectualidade e a constante busca de conhecimentos dos professores. Por um desentendimento com um professor, o futuro poeta foi expulso do colégio. O fato o marcou bastante, a ponto de fazê-lo declarar: "Perdi a fé. Perdi tempo. Sobretudo, perdi a confiança na justiça dos que me julgavam." De volta a Belo Horizonte, Drummond ingressa na Universidade Federal de Minas Gerais, onde conclui o curso de Farmácia. Casa-se com Dolores Dutra de Morais, com quem teve dois filhos, um dos quais falece logo após o parto.

Drummond começa a escrever em 1921, quando publica artigos no jornal "Diário de Minas Gerais". No ano seguinte é premiado em um concurso literário com seu conto "Joaquim no Telhado". Em 1928, publica seu poema "No Meio do Caminho" na Revista de Antropofagia, editada em São Paulo por integrantes do movimento modernista. O poema provocou escândalo, por sua constante repetição de certas expressões e pelo uso de "tinha uma pedra" ao invés de "havia uma pedra". Ainda em 1928 Drummond entra para o serviço público, no qual atuaria durante toda a sua vida profissional. Em 1934 muda-se de Minas Gerais para a cidade de Rio de Janeiro, onde trabalha como chefe de gabinete do então ministro da Educação Gustavo Capanema, antigo colega do poeta no grupo "Os intelectuais da rua Bahia".

Nos anos seguintes, Drummond publica obras poéticas, estreia como ficcionista e traduz autores como Balzac, Frederico Garcia Lorca e Molière. Durante os anos 1960 e 1970 o poeta também escreve uma série de crônicas para jornais do Rio de Janeiro. Drummond morreu em 17 de agosto de 1987, doze dias após o falecimento de sua filha, cuja morte muito o abalou. As principais obras poéticas do autor são: "Alguma Poesia" (1930); "Brejo das Almas" (1934); "Sentimento do Mundo" (1940); "José" (1942); "A Rosa do Povo" (1945); "Lição de Coisas" (1962); "Boitempo" (1968); "Amar Se Aprende Amando" (1985), entre outras. Drummond também escreveu antologias (entre elas "Antologia Poética", 1962), vasta obra em prosa, além de livros infantis.

Poeta da segunda geração do Modernismo - iniciado pelos paulistas Mario e Oswald de Andrade, entre outros -, Drummond, a exemplo destes, também escreve em verso livre. Segundo o crítico literário Alfredo Bosi, a poesia de Drummond alcança um grau de sofisticação e universalidade, que o coloca além das referências literárias comuns e acima de todas as marcas ideológicas. De sua obra selecionamos os poemas abaixo, que constam da obra "Carlos Drummond de Andrade - Antologia Poética" (Companhia das Letras, 2013):


Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

(Antologia Poética, 1962)



Cerâmica

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.

Sem uso,
ela nos espia do aparador.

(Lição das Coisas, 1962)



Tristeza no céu

No céu também há uma hora melancólica.
Hora difícil, em que a dúvida penetra nas almas.
Por que fiz o mundo? Deus se pergunta
e se responde: Não sei.

Os anjos olham-no com reprovação.
e plumas caem.

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor
caem, são plumas.

Outra pluma, o céu se desfaz.
Tão manso, nenhum fragor denuncia
o momento entre tudo e nada,
ou seja, a tristeza de Deus.

(José, 1942)

(Imagem: fotografia de Carlos Drummond de Andrade)

Píndaro

sábado, 13 de janeiro de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)


O poeta Píndaro, também conhecido como Píndaro de Cinoscefale ou Píndaro de Beozias, nasceu na cidade de Cinocéfalas em 518 a.C. e morreu em 438 a.C. Pertencia à aristocracia local, pois sua família era de origem dórica, do clã dos Égidas. Jovem mudou-se para Atenas, onde estudou com poetas e filósofos e aprendeu música como os então famosos músicos Agatides e Apolodoro. Aos 20 anos escreveu seu primeiro poema, iniciando uma carreira que o tornaria um dos maiores poetas na história.

Píndaro escreveu hinos, lamentos, elogios e outros gêneros, organizados em 17 livros. No entanto, o que restou de sua obra foram 45 epinícios ou odes; uma forma de poesia lírica que celebrava a vitória dos vencedores dos jogos pan-helênicos (dos quais faziam parte os jogos Olímpicos, os jogos Pítios, os Nemeus e os Ístmicos).

A maior parte das odes de Píndaro eram compostas por encomenda. Através delas o poeta louvava homens ilustres ou os ganhadores dos torneios esportivos. Escrito, o poema era entregue ao destinatário ou ao mestre de coro, que organizava a recitação da ode. A cópia do homenageado, feita em papiro melhor acabado, muitas vezes era depositada em algum templo.

Trechos das obras de Píndaro são citados por diversos autores gregos; como o historiador Heródoto, o comediógrafo Aristófanes, o filósofo Platão, entre outros. As odes do poeta continuaram a ser estudadas e reunidas em volumes durante a Antiguidade, por eruditos gregos e romanos. Durante a Alta Idade Média (século V ao XI) os poemas de Píndaro passaram por certo esquecimento, e sua leitura limitou-se praticamente à área de influência cultural do império bizantino. Com o florescimento dos estudos clássicos a partir do século XIII na Europa, a obra de Píndaro volta a ser lida e divulgada.

Nos séculos XIX e XX diversos estudiosos da Alemanha, Inglaterra e França passaram a dedicar-se ao estudo das odes do poeta, pesquisando sua gramática, aspectos religiosos e míticos, históricos, sociais e políticos de sua obra. Em Píndaro espelha-se o ambiente da Atenas do século V a.C., às vésperas de a cidade se tornar o centro cultural, econômico e político da Grécia antiga.

As odes que nos chegaram do poeta foram divididas em quatro livros, cada um correspondendo ao jogo que celebrava: as "Odes píticas", as "Odes olímpicas", as "Odes nemeias" e as "Odes ístmicas". Da obra do poeta, selecionamos os seguintes trechos:


Do livro "Odes Olímpicas" (Editora Abysmo, 2017), apresentando as odes do autor em linguagem atual (disponível no site http://deusmelivro.com/mil-folhas/odes-olimpicas-pindaro-26-9-2017/):


“Se a morte é inevitável, porque havíamos de acalentar, em vão,

Uma velhice inominável, sentados nessa escuridão pesada

Que é não tomar parte de nada do que é belo?”


“Dizer coisas belas sobre as divindades

É o que convém a um homem,

Pois pesará menos a sua responsabilidade.”


“O Além é inacessível,

Tanto para quem tem perícia quanto para quem a não tem.

Não o perseguirei. Não faria qualquer sentido.“



Trecho de "Neméia XI" (do trabalho "Contingência em Píndaro: Olímpica 12, Píticas 8 e 10, Nemeias 6 e 11" de Gustavo H. M. Frade, disponível em http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/ECAP-8STND8/conting_ncia_em_p_ndaro__ol_mpica_12__p_ticas_8_e_10__nemeias_6_e_11.pdf?sequence=1):


"Eu louvo o homem como bem-aventurado, pelo pai Arcesilas,

e também pelo admirável aspecto e pela firmeza congênita.

Mas, se alguém, tendo prosperidade, supera os outros na forma

e, sendo o melhor nas competições, demonstra sua força,

que se lembre que veste membros mortais

e será vestido de terra, o fim de todos."


(Imagem: foto de escultura do busto de Píndaro)

Consequências da crise econômica: quem vai registrá-las?

sábado, 6 de janeiro de 2018
"Deixo cada um viver segundo sua compleição, e aceito que os que assim o queiram morram pelo que acreditam ser seu bem, contanto que me seja permitido, a mim, viver pela verdade."   -  Baruch Espinosa   -   Carta XXX a Oldenburg


"Somos felizes ou infelizes por uma profusão de coisas que não aparecem, que não se dizem e que não se podem dizer."  (Nicolas Chamfort, Pensamentos, máximas e anedotas)


Talvez, um dia, os historiadores do futuro escrevam sobre os efeitos da crise econômica que está afetando o país desde 2013. Não seria um relato de seus efeitos nefastos sobre a macro e a microeconomia, análises que já vêm sendo feitas por especialistas e instituições de pesquisa, porém, principalmente, sobre a vida diária das milhões de famílias e indivíduos do país.

Nos estudos técnicos quantitativos dos economistas e outros analistas, a crise representa principalmente escassez de recursos; menos investimentos, menos produção, queda do número de empregos, redução do consumo, aumento dos juros, aumento da dívida pública... O impacto de uma crise econômica destas proporções é comparável à de uma revolução ou de uma guerra; um abalo que faz com que tudo fique fora do prumo. Se a sociedade brasileira já vinha sofrendo uma desestruturação, um esgarçamento do tecido social, a crise econômica, com todas as suas consequências, contribuiu fortemente para ampliar e aprofundar este processo destrutivo.

Terão os futuros historiadores suficientes dados, informações e depoimentos, para relatar alguns dos milhões de dramas das pessoas comuns? Escreverão sobre o indivíduo que não consta dos relatos da história; as pessoas desconhecidas do registro da mídia, os que não ocuparam cargos públicos importantes, que esperaram horas e dias nas longas filas de atendimento, que em todo lugar foram apenas um número, aqueles que nada fizeram de excepcional e cuja memória persistirá, se muito, nas lembranças de filhos e netos que eventualmente tiveram - para depois desaparecerem nesse mar de biografias esquecidas que é a história da humanidade?

Que lembrança ou relato restará de tantos planos de vida postergados para um futuro indefinido, dos projetos abandonados, dos sonhos desfeitos, das esperanças abandonadas? Mudanças de cidade para encontrar trabalho, relacionamentos desfeitos, carreiras interrompidas, estudos abandonados. Falta de recursos para continuar tratando uma doença, às vezes até falta dinheiro para comprar comida ou tratar dos velhos. Quem dará voz a estes milhões de indivíduos - gente de carne e osso (como escreveu o filósofo Miguel de Unamuno), com sentimentos e aspirações, como você e eu - que perderam o rumo, tomaram uma rasteira da vida e sofreram uma ruptura em suas existências e em seus sonhos?

Em países como Estados Unidos, que também foram afetados pela crise econômica, institutos médicos de pesquisa constataram que parte da população também foi afetada psicologicamente pelas consequências da recessão. A perda do emprego, de bens ou às vezes até da própria casa, aumentou os casos de depressão, síndromes diversas e, consequentemente, o consumo de álcool e drogas. Uma geração de americanos, em sua maioria membros das classes assalariadas mais baixas, está morrendo mais cedo por doenças relacionadas diretamente ao estresse profundo: doenças do coração, diabetes, acidente vascular cerebral, câncer e consumo de drogas.

Quem poderá avaliar quais serão as consequências da crise econômica aqui no Brasil, na vida dos indivíduos, das famílias e dos grupos sociais? E o mais importante: quem fará o relato destas desgraças, das tragédias vividas pelos Joãos e Marias, pelos Antonios e pelas Anas? O mais provável é que, também desta vez, estas vidas e suas histórias sejam ignoradas e esquecidas, submergindo no infinito mar da história, onde a maioria de nós desaparecerá anonimamente.  
(Imagens: pinturas de Luke Fildes)

Euclides da Cunha

sábado, 30 de dezembro de 2017

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Euclides da Cunha (1866-1909) foi escritor, jornalista e militar, tendo-se formado bacharel em matemática e ciências físicas e naturais. Foi influenciado pela filosofia positivista de Augusto Comte, que na época tinha forte influência entre os militares. Também defendeu veementemente a ideia republicana, tendo participado ativamente na campanha escrevendo artigos no jornal Província de São Paulo.

Em 1897, como jornalista do jornal A Província de São Paulo (mais tarde O Estado de São Paulo) Euclides fez a cobertura da Guerra de Canudos, conflito religioso no sertão da Bahia, liderado pelo taumaturgo Antonio Conselheiro. A partir dessas anotações Euclides escreveu a obra "Os Sertões", notável obra pré-modernista, que reunia conhecimentos de história, geografia, geologia, botânica, sociologia, entre outras, e apontava o descaso com que era tratado a população do interior. O sucesso do livro valeu-lhe vaga na Academia Brasileira de Letras em 1903.

Em 1904 foi designado a acompanhar a comissão mista brasileiro-peruana, com o objetivo de estabelecer a demarcação entre o Brasil e o Peru. Durante esta viagem Euclides escreveu "À margem da história", relatando as condições de exploração dos seringueiros da Amazônia. Ainda durante esta expedição Euclides escreveu "Judas-Ahsverus", considerado um de seus textos mais filosóficos e poéticos. Euclides morreu tragicamente no bairro carioca de Piedade, em um tiroteio com o amante de sua esposa, em 1909. O evento foi chamado de Tragédia da Piedade.

Autor de obras seminais como "Os Sertões", "Contrastes e confrontos" e "À margem da história", Euclides da Cunha também escreveu centenas de artigos para revistas e jornais, tratando de política, história, assuntos técnicos de engenharia, relatos de expedições, botânica, climatologia, saúde pública, relações internacionais, educação e crônicas diversas. Conhecedor de diversas línguas, Euclides da Cunha era um polímata. 

Selecionamos o trecho abaixo de sua obra "À margem da História" (Editora Martin Claret, São Paulo, 2006, página 49):

Quando grandes secas de 1879-1880, 1889-1890, 1900-1901 flameiavam sobre os sertões adustos, e as cidades do litoral se enchiam em poucas semanas de uma população adventícia de famintos assombrosos, devorados das febres e das bexigas - a preocupação exclusiva dos poderes públicos consistia no libertá-las quanto antes daquelas invasões de bárbaros moribundos que infestavam o Brasil. Abarrotavam-se, às carreiras, os vapores, com aqueles fardos agitantes consignados à morte. Mandavam-nos para a Amazônia - vastíssima, despovoada, quase ignota - o que equivalia a expatriá-los dentro da própria pátria. A multidão martirizada, perdidos todos os direitos, rotos os laços de família, que se fracionava no tumulto dos embarques acelerados, partia para aquelas bandas levando uma carta de prego para o desconhecido; e ia, com os seus famintos, os seus febrentos e os seus variolosos, em condições de malignar e corromper as localidades mais salubres do mundo. Mas feita a tarefa expurgatória, não se curava mais dela. Cessava a intervenção governamental. Nunca, até aos nossos dias, a acompanhou um só agente oficial ou um médico. Os banidos levavam a missão dolorosíssima e única de desaparecerem. 

(Imagem: fotografia de Euclides da Cunha)

Herbicidas e impacto na agricultura

sábado, 23 de dezembro de 2017
"Um dos enigmas não resolvidos da neurociência é conhecido como 'o problema da integração': como o cérebro é capaz de produzir um só quadro unificado do mundo, uma vez que a visão é processada em uma região, a audição em outra, o tato em uma terceira e assim por diante."   -   David Eagleman   -   Cérebro, uma biografia

As ervas daninhas são espécies vegetais diferentes das cultivadas e com elas competem pela luz, água, solo e adubo, comprometendo parte ou toda a colheita da espécie cultivada. Estas ervas aparecem de diversas maneiras: podem estar inertes no solo aguardando condições propícias para germinar ou ter suas sementes trazidas por pássaros, pelo vento ou pela água; por vezes chegam misturadas às sementes a serem plantadas ou podem ser espalhadas por pessoas, animais ou equipamentos (tratores, colheitadeiras) em seu deslocamento. Enfim, é muito difícil encontrar uma cultura sem nenhum tipo de erva daninha.

O método mais antigo de combate às ervas daninhas era a associação da capina com a monda - o arranque manual. Esta situação persistiu até quando os primeiros cultivadores de tração animal e depois mecânica passaram a ser usados na agricultura. No início do século XX tem início a utilização de substâncias químicas, mais tarde classificadas como herbicidas, no combate às ervas daninhas. Nessa época, pesquisadores nos Estados Unidos, na França e na Alemanha, começaram usando sais de cobre e depois o ácido sulfúrico para o combate destas intrusas. O primeiro marco no uso moderno de um produto químico para estes fins na agricultura ocorreu em 1941, como a síntese do 2,4 D, o ácido 2,4 diclorofenoxiacético. Nos anos 1960 e 1970 com o surgimento da Revolução Verde, que visava aumentar a produção agrícola através da mecanização, adubação química, seleção de sementes e uso de pesticidas (inseticidas, fungicidas e herbicidas), o combate às ervas daninhas se tornou mais eficiente.

A fórmula deu tão certo que a monocultura intensiva expandiu-se rapidamente em países com amplas extensões de terra ainda agricultáveis, como o Brasil, Estados Unidos, Argentina, Austrália e Índia, entre outros. O principal objetivo, lançado pela ONU, era aumentar a produção de alimentos para fazer frente ao rápido crescimento da população mundial, principalmente nos países pobres, depois da 2ª Grande Guerra. A grande demanda por produtos para a agricultura fez com que grandes empresas do setor químico desenvolvessem novas herbicidas, que durante décadas se mostraram bastante eficazes.

No entanto, ao longo dos anos, diversas espécies de ervas daninhas foram adquirindo resistência aos produtos químicos. Segundo a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o problema é mundial. 252 ervas daninhas já se tornaram tolerantes a herbicidas atingindo 92 culturas agrícolas, semeadas em 69 países (jornal Valor de 3/11/2017). No Brasil, as espécies que são imunes aos herbicidas são: a buva, o capim-amargoso, azevem, capim-pé-de-galinha, cloris e caruru. O problema já está provocando o aumento nas despesas de produção de diversas commodities agrícolas, como a soja, por exemplo, cujo custo poderá mais que triplicar, devido à necessidade de maior uso de herbicidas e da queda da produtividade.

O fenômeno é mundial, tendo sido identificado em diversos países a partir dos anos 1990. Junto com o já conhecido impacto ambiental dos herbicidas, representa um dos maiores desafios do setor agrícola. Agora, a maior preocupação de organismos internacionais e governos é saber em que velocidade mais de ervas daninhas se tornarão imunes aos herbicidas atualmente disponíveis, e qual será o impacto disso na produção de alimentos. 
(Imagens: igrejas barrocas brasileiras) 

Albert Camus

sábado, 16 de dezembro de 2017

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Albert Camus foi romancista, jornalista, ensaísta e filósofo francês, nascido na Argélia em 1913 (então colônia francesa). De origem pobre, passou por privações durante a infância, sustentado por sua mãe, uma faxineira surda e analfabeta. Seu pai, convocado para a Primeira Grande Guerra (1914-1918), morreu em batalha quando Albert tinha um ano. Bom aluno na escola, Albert foi incentivado por um professor a se aprofundar nos estudos dos clássicos gregos e romanos, o que lhe deu uma base cultural para seu estudos posteriores. Além dos estudos, Albert era entusiasta do futebol, atuando como goleiro do time de sua faculdade; atividade que teve que abandonar aos 17 anos, quando teve sua primeira crise de tuberculose.

Para poder se manter durante seus estudos de filosofia, Camus teve vários trabalhos temporários; foi professor particular, vendedor e funcionário do instituto meteorológico da Argélia. Paralelamente, a partir de 1935, passa a atuar como jornalista de diversos jornais algerianos e funda uma companhia de teatro popular, que também encena peças escritas por ele. Casa-se, mas o casamento logo acaba, assim como sua filiação ao Partido Comunista Francês, do qual é expulso acusado de não ser comunista ortodoxo. Gradua-se em filosofia e artes em 1936.

Já na França, em 1940, casa-se outra vez e torna-se pai de dois filhos. Participa do movimento da Resistência, escrevendo artigos para jornais clandestinos. Já a partir desta época, Camus repudia toda a forma de autoritarismo político, criticando o comunismo. Essa a principal razão do desentendimento com Jean Paul Sartre e outros filósofos, que a partir do final da Segunda Grande Guerra passam a apoiar o comunismo soviético. No final dos anos 1940 Camus empreende uma viagem por vários países, passando inclusive por cidades do Brasil, para divulgar a filosofia francesa. Em São Paulo visita Iguape, junto com Oswald de Andrade, viagem sobre a qual relata o texto que reproduzimos logo abaixo.

Sempre voltado ao pacifismo e à defesa dos direitos humanos, Camus demite-se de seu cargo na UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura), quando a ONU aceitou a Espanha como membro - país então governado pelo ditador Francisco Franco. Em 1957, Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. Em 4 de janeiro de 1960, aos 46 anos, Albert Camus morre em um acidente automobilístico.

Um dos grandes temas abordados pelo escritor em suas obras é a ideia do absurdo. Este aparece em seu ensaio filosófico "O mito de Sísifo" e nos romances "O Estrangeiro" e "A Peste". O absurdo, segundo Camus, é o resultado de nossa busca por sentido e clareza, em um mundo que não as contêm. A obra do autor é formada por romances como "O estrangeiro" (1942); "A peste" (1947); "A queda" (1956); "A morte feliz" (publicado postumamente em 1971); e "O primeiro homem" (1995, póstumo) e ensaios filosóficos, como "O mito de Sísifo" (1942) e "O homem revoltado" (1951). Além disso, Camus também escreveu ensaios culturais e políticos e peças de teatro. Selecionamos os seguintes trechos de obras de Camus:

De "O mito de Sísifo (Editora Guanabara, 1989):

Já deu para compreender que Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto por suas paixões como por seu tormento. O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. É o preço a pagar pelas paixões deste mundo. Nada nos foi dito sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste caso, vê-se apenas todo o esforço de um corpo estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir a encosta, tarefa cem vezes recomeçada.

Do "Caderno de viagem" de Camus, citado por Manuel da Costa Pinto em artigo "O mediterrâneo é aqui", publicado em 7 Clássicos Franceses (Editora Duetto, 2010):

Uma vez mais, durante horas e horas, olho para esta natureza monótona e estes espaços imensos; não se pode dizer que sejam belos, mas colam-se à alma de uma forma insistente. País em que as estações se confundem umas com as outras; onde a vegetação inextrincável se torna disforme; onde os sangues misturam-se a tal ponto que a alma perdeu seus limites. Um marulhar pesado, a luz esverdeada das florestas, o verniz de poeira vermelha que cobre todas as coisas, o tempo que se derrete, a lentidão da vida rural, a excitação breve e insensata das grandes cidades - é o país da indiferença e da exaltação. Não adianta o arranha-céu, ele ainda não conseguiu vencer o espírito da floresta, a imensidão, a melancolia. São os sambas, os verdadeiros, que exprimem melhor o que quero dizer.

De "O homem revoltado" (Editora Record, 2011):

A insurreição humana, em suas formas elevadas e trágicas, não é nem pode ser senão um longo protesto contra a morte, uma acusação veemente a esta condição regida pela pena de morte generalizada. Em todos os casos que encontramos, o protesto dirige-se sempre a tudo aquilo que, na criação, é dissonância, opacidade, solução de continuidade. Trata-se, portanto, no essencial, de uma interminável exigência de unidade. A recusa da morte, o desejo de duração e de transparência são as molas de todas estas loucuras, sublimes e pueris. Trata-se somente da recusa covarde e pessoal de morrer? Não, porque muitos desses rebeldes pagaram o preço necessário para ficar à altura de suas exigências. O revoltado não exige a vida, mas as razões da vida. Ele rejeita as consequências que a morte traz. Se nada perdura, nada justifica, aquilo que morre fica privado de sentido. Lutar contra a morte equivale a reivindicar o sentido da vida, a lutar pela ordem e pela unidade.

(Imagem: fotografia de Albert Camus)

Newsletter dezembro 2017 e janeiro/fevereiro 2018

sábado, 9 de dezembro de 2017

(publicado originalmente no site www.ricardorose.com.br)


O ano de 2017 termina com algumas perspectivas de recuperação. A economia dá pequenos sinais de vida, a inflação está abaixo da meta e os juros caíram para 7% - índice ainda assim muito alto, comparado às economias estáveis. O desemprego caiu cerca de 1,0 % entre junho e novembro, por causa das contratações de final de ano e da flexibilização criada pela mudança na lei trabalhista. Mesmo assim, a expectativa era de que a alteração da CLT tivesse um impacto bem maior no número de novas contratações. O crescimento do PIB em 2017 deve ficar em torno de 0,7%; pouco acima das previsões, e ainda bastante baixo para provocar uma recuperação perceptível.

Na política o STF continua interferindo na investigação da Lava Jato, relaxando a prisão de culpados, mesmo daqueles já julgados em segunda instância. Aqui e ali, já surgem vozes dizendo que a operação está desgastada e que encaram a sequência das investigações com ceticismo. Apesar do grande número de inquéritos e de investigados, além das buscas e apreensões e quebras de sigilo, a Lava Jato parece estar entrando em um processo de derretimento. Uma nova descoberta bombástica ou a prisão definitiva de alguns dos implicados, poderia dar um novo alento à investigação.

No Congresso o governo continua sua corrida contra o tempo, na tentativa de aprovar a reforma da Previdência ainda neste ano. De uma maneira geral já começam os preparativos para o posicionamento dos candidatos para a corrida presidencial de 2018. Nomes de eventuais concorrentes, os mais estranhos, surgem e desaparecem ao longo das semanas. Como a disputa ainda não começou, todos os eventuais aspirantes ao cargo ainda se encontram na fase das bravatas e das respostas evasivas. A esta altura da competição, todos se apresentam exatamente como os imaginam seus potenciais eleitores, em cada segmento social.

Com verbas reduzidas praticamente pela metade em 2017, o ministério do Meio Ambiente, segundo declarações do ministro Sarney Filho, conseguiu alcançar uma série de objetivos. Dentre estes se destaca a redução do desmatamento em 16% durante o período de agosto de 2016 e julho de 2017 e a participação de uma grande delegação na Conferência do Clima, a COP 23, realizada em Bonn, na Alemanha. Por falar nisso, foi durante esta conferência que esta mesma delegação brasileira recebeu o prêmio "Fóssil do Dia". Esta premiação ao contrário, é oferecida a países que atrapalham o preparo das negociações sobre o clima, ou que se afastam do cumprimento das metas para conter o aquecimento global. Em 2012, por ocasião da aprovação do atual Código Florestal, o Brasil já havia sido agraciado com esta premiação. Neste ano, o motivo foi a Medida Provisória (MP) 795/2017, que prevê a concessão de cerca de R$ 1 trilhão (R$ 1.000.000.000.000,00) em incentivos para a exploração do pré-sal por empresas petroleiras nacionais e estrangeiras, ao longo de 25 anos. Enquanto outros países se esforçam para reduzir cada vez mais sua dependência do petróleo, priorizando combustíveis renováveis e tecnologias mais eficientes, o governo brasileiro se lambuza cada vez mais com o poluente combustível.

Paradoxalmente, a geração de energia eólica cresceu 25% em 2017. No dia 10 de setembro, a energia do vento chegou a abastecer 71% da região Nordeste, que continua sofrendo com o baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas. No entanto, apesar do interesse dos investidores internacionais no mercado brasileiro, o governo não está convocando novos leilões de energia por falta de demanda de energia, além de pendências burocráticas e legais. A crise e a falta de financiamento fizeram com que vários projetos de energia eólica fossem abandonados.

Na área do saneamento, praticamente nada de novo. Ao longo dos últimos três anos a taxa de captação de efluentes, por exemplo, cresceu apenas 1% ao ano, o que é muito pouco para um país onde apenas 50,3% da população têm acesso a coleta de esgoto (o percentual do esgoto tratado é menor ainda). Com relação ao abastecimento de água, 83,3% da população têm acesso à água potável. Estes números refletem uma realidade nacional, na qual apenas 30% dos municípios prepararam seu Plano de Saneamento Básico; estudo que será imprescindível para obterem acesso aos recursos federais para obras de saneamento a partir de 2018. Um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontou que na velocidade atual dos investimentos, o Brasil apenas conseguirá universalizar o atendimento de água em 2043 e de esgoto em 2054.

Além de não ser um país para amadores, como dizia o compositor Tom Jobim, o Brasil, dado seu ritmo do desenvolvimento, é um país para nossos bisnetos. Boas festas e que venha 2018!
(Imagem: gravura de Emílio Goeldi)

Aristóteles e a Metafísica

sábado, 2 de dezembro de 2017
"Bem, dia marcado, saída ainda no escuro, de madrugada para ganharmos tempo. O galo ainda não havia cantado e as estrelas ainda serviam de bordado de prata para o manto azulado que servia de pala para o Patrão lá de riba."   -   Hugo Bülow   -   Reminiscências gaudérias

Biografia
Aristóteles, o mais famoso discípulo de Platão, nasceu em torno de 385 AEC em Estagira (atual Tessalônica), cidade grega então colônia macedônica, localizada a cerca de 300 km ao norte de Atenas. Aristóteles frequentou a Academia de Platão por cerca de dezenove anos, deixando a escola somente após a morte do mestre. Depois de ser preceptor de Alexandre o Grande, Aristóteles funda sua própria escola de filosofia em Atenas, o Liceu.

Durante doze anos Aristóteles ensina filosofia e mantêm uma escola que contava com outros professores; todos ensinando em três turnos. A escola também dispunha de uma vasta biblioteca, de um jardim botânico e um zoológico. Com a repentina morte de Alexandre, Aristóteles – que por suas ligações com o conquistador macedônio já era considerado espião em Atenas – precisa deixar a cidade às pressas, transferindo-se para a Cálcis, na Eubéia, onde nascera sua mãe. É famosa a frase que Aristóteles teria dito por ocasião de sua fuga de Atenas, dizendo que agia daquela maneira “para evitar que mais um crime fosse perpetrado contra a filosofia”, referindo-se certamente a Sócrates. Logo depois de sua fuga, Aristóteles falece em 322 AEC.

Boa parte da obra de Aristóteles foi perdida, devido à dispersão dos textos entre os discípulos e, principalmente, com o incêndio da biblioteca de Alexandria, em 200 EC. O restante da obra permaneceu espalhado em diversos lugares, tendo sido recuperado a partir de 50 EC, quando o literato Andrônico de Rodes descobriu uma grande quantidade de pergaminhos, contendo textos de Aristóteles escritos pelos discípulos. Andrônico e mais tarde o filósofo Porfírio, no século III, estabeleceram a ordem e a importância nos escritos do filósofo estagirita, formando o que se convencionou chamar de corpus aristotelicum. Esta classificação define – através de várias informações – a época em que cada obra aristotélica que chegou a nós foi escrita. Desta forma, foi identificado o período no qual o filósofo ainda se encontrava sob influência de seu mestre, Platão, mas já contando com um caráter crítico em relação à sua obra, e a fase dos escritos da maturidade, elaborados principalmente na época do Liceu, em Atenas.  

A Metafísica         
O título dado aos escritos reunidos sob o nome de “Metafísica”, surgiu quando da descoberta da obra por Andrônico de Rodes. Encontrados em uma ordem posterior aos livros da Física, Andronico denominou-os simplesmente de ta meta ta physika, os "escritos depois da física". A expressão foi incorporada por todos os filósofos posteriores, tornando-se inclusive uma das áreas de estudo da filosofia. Aristóteles, porém, denominava seus escritos de “filosofia primeira” ou “filosofia teológica”.

A "Metafísica" de Aristóteles engloba catorze livros, que não tratam de somente um tema central. Às vezes, é difícil identificar uma clara sequencia entre um e outro, além do fato de que os assuntos carecem de sequenciamento e continuidade. A obra trata de “uma ciência que investiga o ser como ser e as propriedades que lhe são inerentes devido à sua própria natureza”, como Aristóteles escreve na abertura do Livro IV.

Em nossa análise, limitamo-nos aos quatro primeiros livros da obra. Nestes quatro primeiros tomos, Aristóteles como que prepara o leitor para a apresentação de sua análise do “ser enquanto ser”. Discute o conhecimento e as teorias dos filósofos anteriores a ele (Livro I); estabelece as bases para o conhecimento (Livro II); discute as dificuldades em torno da ciência que quer apresentar (Livro III); e discute aspectos da metafísica e do princípio de não contradição (Livro IV).

Aristóteles inicia o Livro I de sua Metafísica com a frase que ecoa há mais de 2.300 anos na cultura ocidental: “Todos os seres humanos naturalmente desejam conhecimento”. A expressão de certo modo atua como axioma do livro, já que todo o desenvolvimento da obra visa a oferecer este novo conhecimento, elaborado por Aristóteles, a todos os leitores de sua obra, ou seja, simbolicamente a todos os seres humanos.

Em seguida, Aristóteles discute o conhecimento baseado na memória, na prática e nos estudos, apresentando uma graduação do conhecimento, onde deduz que “julga-se o homem da experiência mais sábio do que os meros detentores de qualquer faculdade sensorial, o artista mais do que o homem da experiência, o mestre mais que o artesão; e as ciências especulativas mais ligadas ao saber que as produtivas” (Livro I, Capítulo 1, 30). Aristóteles observa que o conhecimento verdadeiro precisa ter alguma sistemática, quando observa “que a sabedoria é conhecimento de certos princípios” (Livro I, Capítulo 1, 30).

No segundo capítulo do Livro I, Aristóteles ainda discute a sabedoria, firmando que ela pertence a um tipo de conhecimento no grau mais elevado, universal e distante dos sentidos. Avançando em sua argumentação, Aristóteles afirma que o termo que ele está investigando enquadra-se naquele mesmo conhecimento que especula sobre os primeiros princípios e as causas. Ainda no mesmo capítulo o autor utiliza-se de outra ideia, desta vez para explicar o que é a filosofia, mais tarde largamente utilizada: “É por força de seu maravilhamento que os seres humanos começam agora a filosofar e, originalmente começaram a filosofar maravilhando-se primeiramente ante perplexidades óbvias e, em seguida, por um progresso gradual, levantando questões também acerca das grandes matérias, por exemplo, das mutações da lua e do sol, a respeito dos astros, a respeito da origem do universo. Ora aquele que se maravilha e está perplexo sente que é ignorante (de modo que, num certo sentido, o amante dos mitos é um amante da sabedoria, uma vez que os mitos são compostos de maravilhas), portanto se foi para escapar à ignorância que se estudou filosofia, é evidente que se buscou a ciência por amor ao conhecimento, e não visando qualquer utilidade prática” (Livro I, Capítulo 2, 10, 15 e 20).

Aristóteles estabelece que há quatro tipos reconhecidos de causas originais: 1) a substância ou essência de uma coisa – a causa formal; 2) seu substrato material – a causa material; 3) a fonte ou agente através do qual passa a existir – a causa eficiente; e 4) o objetivo ou o fim para o qual algo passa a existir – a causa final.

Definidos estes pontos, Aristóteles passa a discussão das doutrinas dos filósofos que o antecederam. Iniciando o tema, Aristóteles comenta que “A maioria dos primeiros filósofos concebeu apenas princípios materiais para as coisas” (Livro I Capítulo 3,5). Informa que baseado no pressuposto destas teorias, nada era gerado ou destruído, já que esta entidade primária não era destruída. Em seguida, discorre sobre as diversas opiniões e doutrinas de alguns filósofos pré-socráticos. De Tales de Mileto fala que este considerava a água como princípio de tudo. De Anaxímenes de Mileto, comenta que este sustenta que o ar é anterior à água. Hipaso de Metaponto e Heráclito de Éfeso sustentavam que o princípio primordial era o fogo, e assim por diante, passando por Anaxágoras e Empédocles. Ao final da análise destes filósofos, Aristóteles se pergunta “Porque se é realmente verdadeiro que toda geração e destruição procede de um elemento, ou mesmo de mais de um, por que sucede assim e qual é a causa?” (Livro I, Capítulo 3, 20).

Com relação a Leucipo e Demócrito, Aristóteles comenta que estes sustentavam que os elementos são o cheio e o vazio, classificando o primeiro ser e o segundo como não ser. Ainda dando exemplos deste princípio único do universo na acepção das diversas correntes filosóficas, Aristóteles avalia a teoria dos números dos pitagóricos e a teoria da imutabilidade do universo, defendida pelos eleatas. Abordando as diversas teorias sobre o "Ser" dos filósofos que o antecederam, o Estagirita termina sua explanação com a concludente frase: “Isso é tudo, portanto, que pode ser aprendido com os primeiros filósofos e seus sucessores”.

Ainda no mesmo livro, Aristóteles discute a questão das Ideias de Platão, conceito filosófico que de certo modo representa uma ruptura com os filósofos anteriores. Platão, segundo a avaliação de Aristóteles, teve a ideia de que ao "Primeiro Princípio" não correspondia nada sensível, como colocado por todos os filósofos pré-socráticos (discutidos anteriormente por Aristóteles), mas a “entidades de outro tipo, isto porque é impossível haver definição geral de coisas sensíveis que estão em constante mutação” (Livro I, Capítulo 6, 5). Platão empregava, segundo Aristóteles, somente duas causas (diferentemente dele que empregava quatro), ou seja, a essência e a causa material. As Ideias (Aristóteles utiliza a expressão "Formas") são causa da essência em todo o universo e o "Uno" é a causa da essência nas Ideias.

Aristóteles, porém, também critica a posição de seu mestre, Platão, já que “ao tratar o Uno como substância, e não como predicado de alguma outra realidade, seu ensinamento assemelha-se ao dos pitagóricos, e inclusive é concordante com estes, ao enunciar que os números são as causas do ser em tudo o mais” (Livro I, Capítulo 6, 20).

Novamente, Aristóteles firma que os filósofos anteriores tentaram explicar o primeiro princípio, sem chegar a uma explicação aceitável: “quanto à essência ou substâncias das coisas, ninguém a enuncia explicitamente” (Livro I, Capítulo 7, 30). Em seguida comenta que vai examinar as posições dos pensadores das gerações passadas e apontar os seus erros, já que todos aqueles que consideram somente a matéria corpórea estão incorrendo em erro. Depois de novamente comentar aspectos das doutrinas de Empédocles, Anaxágoras, dos pitagóricos e de se voltar também à teoria das Formas (Ideias) de Platão, Aristóteles aponta a dificuldade de se explicar o "Ser" a partir de tais teorias, dada a variedade de elementos e a dificuldade da percepção.

Debatendo e criticando sistematicamente os conceitos dos sues antecessores, Aristóteles acaba chegando, mais uma vez, ao pensamento de seu mestre, de cuja teoria das Ideias afirma: “Dizer que as Formas (Ideias) são modelos e que outras coisas delas participam é empregar frases ocas e metáforas poéticas, pois o que é que confecciona coisas no molde das Ideias?” (Livro I, Capítulo 9, 20).

O Livro II inicia com a afirmação de que “a investigação da verdade é difícil para uma única pessoa, mas a contribuição de cada investigação traz um resultado considerável.” Trata-se também de uma bela definição do desenvolvimento do processo da investigação científica. Como afirmou Isaac Newton, em relação aos seus descobrimentos científicos, dizendo que era um anão que enxergava longe porque estava em pé, nas costas de gigantes. Com isso, a exemplo de Aristóteles, Newton se referia à contribuição que cada antecessor seu fez para a investigação da verdade (científica).

Aristóteles afirma que deve haver algum primeiro princípio, já que não é possível que as causas se estendam por uma sequência infinita: "Ademais", se o número dos tipos de causas fosse infinito, continuaria sendo impossível obter conhecimentos, uma vez que é somente quando ficamos familiarizados com as causas, que supomos conhecer uma coisa, e não é possível, num tempo finito, examinar o que é infinito por adição (Livro II, Capítulo 2, 30).

No início do Livro III Aristóteles afirma que é necessário, na ótica da ciência que está sendo investigada, descrever as questões que devem ser primeiramente discutidas. Depois de colocar várias questões quanto à substância, Aristóteles afirma que é preciso examinar a que domínio pertence o estudo destas questões. Acima de tudo, afirma, está “a mais desnorteante de todas as questões: se a unidade e o ser não são distintos, mas a substância das coisas, mas se assim não é, e se o substrato é algo diferente e se os primeiros princípios são universais ou semelhantes a coisas individuais; e se existem em potência ou ato; e se sua potencialidade ou atualidade depende de alguma coisa além do movimento” (Livro III, Capítulo 1, 5,10).
     
Em seguida Aristóteles discute qual ciência teria como objeto de estudo as substâncias e pergunta se só existem substâncias sensíveis ou se também existiriam outras. Volta a criticas Platão indiretamente, novamente fazendo referência a teoria das Ideias ao afirmar que “o mais despropositado é a doutrina segundo a qual há certas coisas independentemente daquelas do universo sensível, e que essas coisas são idênticas às coisas sensíveis, salvo pelo fato de serem eternas, enquanto as coisas sensíveis são perecíveis” (Livro III, Capítulo 2, 5).

Inicia-se uma discussão sobre qual ciência deve ser aquela a falar do “ser enquanto ser” e qual seria seu objeto de estudo. Afirma depois que “a questão mais árdua de todas a ser investigada, e ao mesmo tempo a mais importante do prisma da descoberta da verdade, é se, afinal, o ser e a unidade são substâncias das coisas existentes, não sendo cada um deles nada mais do que ser e unidade respectivamente, ou se devemos inquirir o que são exatamente ser e unidade, havendo alguma outra natureza a eles subjacente.” (Livro III, Capítulo 4, 5). Durante todo o Livro III Aristóteles ainda discute outros aspectos de sua investigação, como a impossibilidade da multiplicidade de seres, caso haja ser absoluto e unidade absoluta, e a possibilidade da existência do nada, caso os elementos existam potencialmente.

O Livro IV abre com a famosa definição da Metafísica: “Há uma ciência que investiga o ser como ser e as propriedades que lhe são inerentes devido a sua própria natureza”. E ainda completa que “E do ser como ser que nós também temos que aprender as primeiras causas” (Livro IV, Capítulo 1, 30). Mais à frente, Aristóteles deduz que a causa primária é a substância e nesse caso “é da própria substância que o filósofo deve aprender os primeiros princípios e causas” (Capítulo 2, 15). Aristóteles comenta que a função de todo filósofo é também investigar os princípios do raciocínio silogístico, já que é impossível que uma coisa seja e não seja.
Mais à frente, critica a teoria de Protágoras (filósofo sofista contemporâneo de Platão), que, se levada às suas últimas consequências, afirma que tudo é ao mesmo tempo verdadeiro e ao mesmo tempo falso (o raciocínio dos sofistas). Em seguida, aponta o fato de que as percepções podem enganar as pessoas, o que pode nos levar ao raciocínio de que não existem certezas. Outro grupo importante de pensadores, os eleatas, defendia que o universo era constituído de uma única e imutável substância. Negando a realidade da mudança, observa Aristóteles, os eleatas evitaram a necessidade de examinar a questão da causa eficiente das coisas (o princípio do movimento e repouso dos seres).

Através de outros exemplos, como Epicuro e Crátilo, Aristóteles aborda a questão do movimento, de sua possibilidade ou impossibilidade, e a facilidade com que nossas impressões nos enganam. Neste caso, Aristóteles usa como exemplo as percepções de uma pessoa saudável, para quem o doce tem gosto de doce, e o enfermo, para quem o doce pode ter gosto amargo (comparação famosa na Antiguidade, utilizada pelo filósofo Demócrito e por várias escolas de pensamento). Por fim, ainda, Aristóteles critica aqueles que negam uma realidade do fenômeno em si, dizendo que tudo está atrelado à opinião das pessoas, mas que não pode haver opiniões contrárias ao mesmo tempo: “Dizer que o que é não é, ou que não é, é falso, mas que o que é, e que o que não é não é, é verdadeiro” (Livro IV, Capítulo 7, 25). Com isto Aristóteles estabelece as bases do princípio da não contradição.

Ao final do IV livro, Aristóteles estabelece que todas as coisas são movidas por outras, que todas as coisas estão por vezes em movimento ou em repouso. Todavia, há algo que não é movido e que é a causa de todo o movimento; o Primeiro Motor (neste caso, Aristóteles refere-se ao movimento das esferas dos astros).


Bibliografia
ARISTÓTELES, Metafísica (tradução, notas e textos adicionais de Edson Bini), São Paulo: Edipro, 2006
REALE, Giovanni, ANTISERI, Dario, História da Filosofia Vol. I, São Paulo: Paulus, 1990
ADLER, Mortimer, CAIN, Seymour, Philosophy – The Great Ideas Plan, Chicago: Encyclopaedia Britannica, Inc., 1963
(Imagens: pinturas de Jacob Lawrence)

Todo ano o mesmo: Black Friday continua fraude

quarta-feira, 29 de novembro de 2017
"Nós viemos de um nada inconcebível. Ficamos um tempo em algo que parece igualmente inconcebível, apenas para desaparecer novamente no inconcebível nada."   -   Peter Wessel Zapffe (filósofo norueguês)

Há poucos dias o comércio brasileiro realizou novamente sua mais promoção, a "Black Friday". Paródia anêmica das grandes liquidações homônimas dos Estados Unidos, que desde 1952 ocorrem no dia seguinte ao Dia de Ação de Graças, anunciando a temporada de compras que antecede o Natal. Do ponto de vista do comércio, as grandes liquidações do Black Friday têm como função vender mercadorias antigas e esvaziar os estoques para os novos produtos e modelos, a serem vendidos antes do Natal. Esta a melhor maneira encontrada pelos fabricantes e comerciantes, para acelerar o giro da produção e das vendas, mantendo os lucros.

No Brasil o Black Friday foi realizado pela primeira vez em 2010, voltado somente para as compras digitais. 2012 em diante a promoção foi estendida para o comércio de balcão e, desde então, ocorre nas duas modalidades. Dados do Wikipedia mostram um gradual crescimento nas vendas entre 2010 e 2014, seguido de uma queda em 2015 e 2016 e apresentando, ao que parece, uma diminuta recuperação em 2017. 

Um dos principais aspectos da promoção tupiniquim são as fraudes nos preços dos produtos. Desde seu lançamento no Brasil, são constantes - e vem aumentando - as reclamações de consumidores, relatando alterações de preços de produtos, trocas de produtos por similares e divulgação de vantagens que normalmente já fazem parte das vendas, como oferecer "frete grátis". A manchete do caderno "Mercado" do jornal Folha de São Paulo de sábado, 23 de novembro de 2017 diz: "Metade dos produtos da Black Friday tem promoção 'falsa'". E o subtítulo: "De 719 itens pesquisados pela Folha, 347 estavam mais baratos ou tinham o mesmo preço 22 dias anteriores à data", ou seja, antes da "promoção" do Black Friday.

Ao longo da matéria o jornal cita exemplos de eletrodomésticos (geladeiras, batedeiras, TVs Led, lavadoras de roupas, fogões) e eletrônicos (smartphone e iphones), cujos preços aumentaram por ocasião da promoção. Um claro caso de Crime contra a Economia Popular, previsto na Lei nº 1521/51. Os maiores infratores são, segundo o jornal, os grandes magazines e supermercados, como Ponto Frio, Extra, Americanas, Wallmart, Casas Bahia, Submarino e Magazine Luíza, que, invariavelmente, a cada ano, figuram em lugares de destaque na "black list" do Black Friday. Segundo o balanço do sítio "Reclame Aqui", o número de queixas de consumidores que se sentiram lesados, aumentou em 2017 em relação a 2016.

O estrangeiro que vem ao Brasil e entra em qualquer estabelecimento comercial, tem a impressão de que o consumidor brasileiro deve ser muito respeitado. Isto porque, em todo lugar, até no carrinho de pipocas, existe um exemplar do Código de Defesa do Consumidor. Em alguns estabelecimentos ainda se encontra um aviso: "Esta loja possui um exemplar do Código de Defesa do Consumidor", como se fosse uma caixa de primeiros socorros ou extintor de incêndio. Transparência acima de tudo!

A verdade, como qualquer brasileiro ou brasileira constata no Black Friday e em todos os outros dias das semanas de todo o ano, é bem diferente. Como se diz por aí nos cursos de vendas, "o consumidor é rei". Sim, e como todo rei deve ser tratado com majestade enquanto é rapinado. É assim que grande parte do comércio se comporta frente ao consumidor. O Código de Defesa do Consumidor, criado através da Lei 8.078 de 11 de setembro de 1990, infelizmente continua sendo apenas item obrigatório no comércio, muitas vezes para dissimular práticas desonestas.
(Imagens: pinturas de Hans Gude)

Lima Barreto

sábado, 25 de novembro de 2017

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), Lima Barreto, foi jornalista e um dos maiores escritores brasileiros. Escreveu romances, contos, sátiras e crônicos em muitos periódicos de sua época. Filho de uma escrava e de um madeireiro português, foi estudante esforçado, além de autodidata, chegando a ingressar na escola de engenharia do Rio de Janeiro. O alcoolismo, associado a outros problemas de saúde, fazem com que faleça em decorrência de um colapso cardíaco aos 41 anos.

Um dos maiores estilistas da literatura portuguesa, deixa obras como: Recordações do escrivão Isaías Caminha, O triste fim de Policarpo Quaresma, além de inúmeros contos e artigos, publicados na imprensa e resgatados postumamente. Famoso é seu conto O homem que sabia javanês. Espírito crítico, mordaz e dotado de grande cultura, Lima Barreto era um grande opositor do governo e da cultura do Rio de Janeiro (e do Brasil) de seu tempo.

De Lima Barreto, apresentamos excertos de algumas crônicas, publicadas no volume Crônicas Escolhidas (Editora Ática, 1995):

É de uso que nas sobremesas , se façam brindes em honra ao aniversariante, ao par que se casa, ao infante que recebeu as águas lustrais do batismo, conforme se tratar de um natalício, de um casamento ou batizado. Mas, como a sobremesa é a parte do jantar que predispõe os comensais a discussões filosóficas e morais, quase sempre nos festins familiares em vez de trocarem ideias sobre a imortalidade da alma ou o adultério, como observam os Goncourts, ao primeiro brinde se segue outro em honra à mulher, à mulher brasileira. (A mulher brasileira)

O carnaval é a expressão da nossa alegria. O ruído, o barulho, o tantã espancam a tristeza que há nas nossas almas, atordoam-nos e nos enchem de prazer. Todos nós vivemos para o carnaval. Criadas, patroas, doutores, soldados, todos pensamos o ano inteiro na folia carnavalesca. A zabumba é que nos tira do espírito as graves preocupações da nossa árdua vida. (O morcego)

Eu não sei que mania se meteu na nossa cabeça moderna de que todas as dificuldades da sociedade se podem obviar mediante a promulgação de um regulamento executado mais ou menos pela coação autoritária de representantes do governo. (Conhecem?)

(Imagem: fotografia de Lima Barreto)