Louvado seja o meio ambiente

sábado, 4 de julho de 2015
"O Dasein morre de maneira fáctica ao longo da sua existência, mas antes de mais, e o mais frequentemente, sob o modo de decadência"  -  Martin Heidegger citado por Michel Haar em Heidegger e a essência do homem

25 de junho de 2015 será lembrado no futuro como importante data na luta dos ambientalistas de todo o mundo. Foi nesta data que o papa Francisco lançou sua encíclica Laudato si (Louvado seja). O documento representa um marco na questão da proteção ao meio ambiente e deverá exercer forte influência na maneira como este tema vem sendo tratado, principalmente nas nações com considerável parcela de católicos - caso da maior parte dos países na Europa, nas Américas e parte da África.
A encíclica Laudato si não é apenas mais uma instrução aos fiéis católicos, produzida pelo papa e sua equipe. Apesar de fazer referência às ações de grupos católicos e de pensadores de religiosos de várias tendências em relação ao meio ambiente, o documento elaborado pelo papa Francisco é fundamentado em dados atualizados das ciências que estudam a questão ecológica. Em nossos comentários, seguimos a resenha da encíclica feita pelo filósofo e teólogo Leonardo Boff, em texto publicado no caderno Aliás, no Estado de São Paulo de 21/6/2014.
A encíclica começa levantando os problemas ambientais e sua implicações nas sociedades humanas. A questão das mudanças do clima, da água, da biodiversidade, da erosão do solo e suas consequências; como a diminuição da qualidade da vida humana e a deterioração das relações sociais. Em seu texto, Francisco mantêm a forte orientação em favor dos humildes e dos abandonados da Terra, quando afirma que os grande prejudicados pela destruição do meio ambiente são os pobres. "Gemidos da irmã Terra se unem aos gemidos dos abandonados deste mundo", escreve. Também faz uma relação entre o crescimento desenfreado da economia, a procura constante de poder e a acumulação ilimitada à custa da injustiça ecológica e social, "um comportamento que parece suicida".
Em outra parte da encíclica o papa analisa o papel da tecnologia, a qual acolhe sem preconceitos (é preciso lembrar que o catolicismo aceita a teoria da evolução de Darwin). O que Francisco critica é o uso indiscriminado dos benefícios da ciência para explorar à exaustão os recursos da Terra, submetendo "a economia, a política e a natureza em vista da acumulação de bens materiais", como escreve Boff. O engano desta visão é acreditar que os problemas causados pelo uso abusivo da tecnologia podem ser resolvidos pelo uso de mais tecnologia. Mostrando um profundo conhecimento das novíssimas tendências da ciência, envolvendo o conceito de complexidade, Francisco escreve que esta atitude é enganosa porque "implica isolar as coisas que estão sempre conectadas". A limitada visão cartesiana da tecnocracia está em "fragmentar os saberes e perder o sentido de totalidade".

A encíclica é enfática ao afirmar que a economia e a política devem servir ao bem comum e propiciar condições para um vida mais digna e agradável. A exemplo do que em outras palavras também é afirmado pelo líder budista Dalai Lama, Francisco enfatiza a necessidade de um diálogo entre a moderna ciência e a religião, dizendo que todas as religiões "devem procurar o cuidado da natureza e a defesa dos pobres".
Semanalmente chegam novas notícias sobre a destruição de ecossistemas. Assim, a mensagem do papa representa um chamado para mudança de curso; conversão, segundo o cristianismo. Crentes ou descrentes, estamos todos na mesma Terra e podemos afirmar com Francisco que: "o mundo é mais que uma coisa a resolver, é um mistério grandioso para ser contemplado na alegria e no louvor."
(Imagens: gravuras de Gustave Doré)

Economia, complexidade e capacidade de resposta à crise

terça-feira, 30 de junho de 2015
"Um ser vivo é a parte do mundo que tende a manter uma identidade independentemente da incerteza do resto do mundo."  -  Jorge Wagensberg  -  Pensamentos sobre a incerteza

A economia, assim como vários outros sistemas existentes - uma colônia de animais, uma eleição, o clima, a bolsa de valores - são considerados sistemas complexos porque suas propriedades emergentes decorrem principalmente de relações não lineares entre suas partes constitutivas. Estes sistemas são compostos por vários aspectos que interagem entre si, formando uma nova estrutura, que por sua vez incorrerá em novas e mais complexas relações, e assim por diante. Os sistemas complexos não são simplesmente a soma de suas partes, como pensa o mecanicismo cartesiano; são muito mais. Não é por outra razão que para se estudar o desenvolvimento destes sistemas são necessários computadores de altíssima potência, processando bilhões de informações por segundo.
A crise econômica e financeira por que passa o país terá uma série de consequências, numa cadeia de causa e efeito de resultados imprevisíveis, gerando novos fatos agora ainda imperceptíveis. Sem nos preocuparmos em fazer a genealogia da crise pela qual passa o país - já que esta também tem origens complexas - comecemos pelo fato mais palpável e imediato: a alta da inflação e a consequente ascensão dos juros. A elevação do custo do dinheiro (juros) já se baseia em princípios simplistas, cartesianos, de mera causa e consequência: eleva-se o juros, tornando os empréstimos ao consumidor mais caros, reduz-se o poder de compra, provocando a queda da demanda e, como corolário, os preço das mercadorias. É através deste artifício reducionista que muitos burocratas do Banco Central e do governo esperam, não se sabe depois de quanto tempo, conseguir finalmente a queda dos juros. Fato é que até agora, apesar de doses maciças do amargo remédio, a inflação resiste e até aumenta.
Por enquanto, o xarope dos juros altos, além de não surtir efeito no combate da inflação, está minando outras partes da estrutura da economia brasileira. Em sistemas complexos cada providência tem suas consequências. Assim, a queda da demanda provoca a redução do poder de compra. Este gera queda no faturamento das empresas, forçando-as a demitir mão de obra. Com o crescimento do desemprego em setores importantes, como o da construção, de serviços e indústria, ocorre uma queda ainda maior no consumo, resultando em mais redução da produção e mais dispensas. Em todas as fases deste processo "queda de vendas -> aumento do desemprego -> queda de vendas..." ocorre uma diminuição na arrecadação de impostos. Sendo assim, o recente aumento de impostos também não deverá surtir o efeito desejado, já que o aumento das alíquotas não compensará a diminuição da base de cálculo.
A redução da receita do Estado terá outros impactos na economia, como a falta de recursos para investimentos em infraestrutura: serviços de saneamento, hospitais, escolas, projetos sociais, estrutura logística; isto para ficar apenas no básico elementar. Nem consideramos os cortes que sofrerão os investimentos em ciência, tecnologia e pesquisa (em medicina, agricultura, eletrônica e TI, aeronáutica, energia, etc.), meio ambiente (criação de unidades de conservação, aparelhamento de parques nacionais, implantação de programas diversos) e modernização da máquina administrativa do governo em seus três níveis.

As medidas de ajuste ora implantadas são necessárias, pelo menos nos primeiros instantes, para conter a hemorragia do paciente e evitar que a situação do Brasil se agrave. Mas o tratamento para sua definitiva recuperação, implicaria medidas de reforma política do estado, da política econômica e fiscal, além de outras providências gerais de modernização, desburocratização e democratização do acesso aos serviços do Estado.Tais providências, estiveram - agora e sempre - nos discursos dos congressistas, sem que nada de concreto fosse, entretanto, votado e aprovado.
Resta saber se com o capital humano de que dispomos - no Executivo, Legislativo e Judiciário - tal empreitada é passível de ser realizada. Além do esforço mensal de embolsar grandes quantias em dinheiro público a título de salário, auxílios e outras benesses - algumas delas até não tão oficiais - a contribuição que estes poderes vem dando à causa da República ainda está longe de ser suficiente.
(Imagens: xilogravuras de mestre Hokusai)

A atualidade da obra "O suicídio" de Durkheim

sábado, 27 de junho de 2015
"A ideia central é que o universo, tomado como um todo único e unitário, é um sistema complexo que evolui, dilatando-se e se complexificando. O motor da evolução cósmica é, portanto, a complexificação: uma ascenção progressiva na escala da complexidade."  -  Marc Halévy  -  A era do conhecimento

A obra “O suicídio” (1897) de Émile Durkheim foi e ainda é considerada o grande marco da pesquisa sociológica. O tema escolhido por Durkheim, o suicídio, era à época objeto de grande preocupação na sociedade e ao mesmo tempo prática que infringia profundamente as normas sociais. Tratava-se, portanto de um importante fato social, digno de análise aprofundada. Escreve Durkheim:
“Conseguimos, então, representar-nos, de um modo preciso, o domínio da sociologia. Este só compreende um determinado grupo de fenômenos. Um fato social reconhece-se pelo poder de coerção externa que exerce ou o suscetível de exercer sobre os indivíduos; e a presença desse poder se reconhece, por sua vez, pela existência de uma sanção determinada ou pela resistência que o fato opõe a qualquer iniciativa individual que tende a violá-lo.” (Durkheim: 2002, p. 38)
Iniciando sua pesquisa, Durkheim percebe que a divisão social do trabalho, gerando o que chama de “solidariedade orgânica” – uma cooperação social baseada na diversidade – não deixa as pessoas mais felizes. Assim, constata Durkheim, que apesar dos avanços tecnológicos e sociais, o índice de suicídio mostra um aumento. Observa também que se tornaram mais comuns fenômenos como as crises econômicas, a inadaptação dos trabalhadores e a violência. O sociólogo também sabe que a sociedade tem certos valores sociais, que estando debilitados, podem colocar em risco o equilíbrio social.

Neste contexto, Durkheim escreve sua dissertação acadêmica sobre o suicídio, procurando descobrir-lhe as causas e procurando demonstrar que não se trata de um fenômeno individual, psicológico, como defendiam muitas correntes da psicologia à época. Apesar de admitir que existam predisposições psicopatológicas para o ato, o sociólogo considerava que o suicídio era antes de mais nada um fato social (para usar a linguagem durkheimiana) sobre o qual a sociologia poderia coletar dados, fazer avaliações e construir teorias – ferramentas científicas usadas por Durkheim e que definitivamente fundamentaram a sociologia como ciência.
Munindo-se de estatísticas de diversas regiões da França e da Europa em relação aos suicídios, Durkheim inicia seu estudo refutando algumas teorias que circulavam sobre as causas sociais do suicídio. Uma destas teorias, elaborada pelo sociólogo Gabriel Tarde, dava grande valor à imitação como fator de integração social; o suicídio poderia assim também ser originado por este impulso. Mas, baseado em dados estatísticos, Durkheim prova que esta teoria e a da hereditariedade não tinham fundamentação científica para explicar o fenômeno do suicídio como fato social.
Avançando em suas pesquisas, com base em comparações de dados, Durkheim consegue estabelecer os tipos sociais do suicídio. Os três tipos que o sociólogo propõe são: o suicídio egoísta, o suicídio altruísta e o suicídio anômico. Além disso, Durkheim consegue determinar alguns aspectos da incidência dos suicídios. Esta varia com a idade e com o sexo: é mais acentuada entre os homens do que entre as mulheres; varia com a religião, sendo mais baixa entre os católicos do que entre os protestantes. A taxa de suicídio aumenta entre os solteiros, divorciados, viúvos e idosos; a existência de uma família e filhos é geralmente fator de proteção contra o suicídio.
Os diversos tipos e níveis de relacionamentos criam condições para que se manifestem os tipos de suicídios. Os suicidas egoístas são aqueles que pensam essencialmente em si mesmos, não estando bem integrados em um grupo social e tendo desejos e aspirações incompatíveis com o grupo social a que pertencem. “Os suicídios egoístas caracterizam-se por uma fraca integração na sociedade e ocorrem quando o indivíduo está sozinho, ou quando os laços que o prendem ao grupo estão enfraquecidos ou quebrados” (Giddens: 2010, p. 10). Aron resume o drama deste indivíduo: “O suicida egoísta se manifestará por um estado de apatia e pela ausência de vinculação com a vida.” (Aron: 2008, p. 487).
O suicida altruísta é aquele indivíduo que tem um alto grau de integração em seu grupo social, submetendo-se, inclusive, a sacrifícios em favor deste. O indivíduo se anula completamente em prol do grupo, aceitando completamente a imperativos sociais, chegando a abrir mão de seu direito à vida. Casos exemplares são, por exemplo, o capitão do navio, que é o último a deixar a embarcação, ocorrendo afundar com ela. Outro exemplo é o bombeiro, que sacrifica sua vida em benefício de pessoas que não conhece. Exemplo extremo são os “bonzos”, monges budistas vietnamitas, que se deixavam queimar em praça pública como protesto contra a guerra do Vietnã (1959-1975). A característica principal do suicida altruísta é a sua energia e sua paixão por uma causa.
O suicida egoísta e o suicida altruísta representam tipos opostos. Um, o egoísta, se afasta demais das aspirações de seu grupo e o outro, o altruísta, se confunde com as aspirações de seu grupo.
O terceiro tipo de suicida é o que mais interessa a Durkheim, o suicida anômico. Este tipo de suicídio tem grande relação com os ciclos econômicos, variando de acordo com o aparecimento de períodos de prosperidade e recessão. O suicida anômico associa sua situação à irritação e situações de decepção por que passa; por desgosto, ao se dar conta da desproporção entre suas aspirações e aquilo que a vida lhe oferece.        
Outra conclusão que Durkheim tira com seu estudo é que apesar de ser um fenômeno individual, as causas do suicídio são eminentemente sociais. Por isso, o sociólogo fala em “correntes suicidógenas”. Estas correntes originam-se na coletividade, atravessam a sociedade e parecem vitimar indivíduos com certas predisposições psicológicas. Sobre as “correntes suicidógenas” escreve Aron: “As causas reais dos suicídios são, em suma, forças sociais que variam de sociedade para sociedade, de grupo para grupo e de religião para religião. Emanam do grupo e não dos indivíduos isoladamente” (Aron: 2008, p. 488)
“O suicídio” ainda continua uma obra atual, além de ser seminal para o estudo da sociologia. Suas informações e conclusões continuam sendo usadas pelas ciências, apesar da discrepância de alguns dados em relação à incidência do suicídios em períodos de recuperação econômica (pesquisa de Maurice Halbwachs em 1930 in Durkheim: 150 anos). Tal fato, porém, não reflete uma falha na coleta de dados ou em sua interpretação, mas mostra certas características da sociedade e época onde foram coletados. Em relação à obra escreve Establet: “Atualizando o livro “O suicídio”, nos convencemos de que a obra mantêm sua relevância. Tomando como objeto um fenômeno minoritário, porém de grande repercussão social e psicológica, Durkheim encontrou o verdadeiro terreno da sociologia.” (Establet: 2009, p. 128).
Bibliografia:
Aron, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo. Martins Fontes: 2008, 884 p.
Durkheim, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo. Editora Martin Claret: 2002, 155 p.
Giddens, Anthony. Sociologia. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian: 2010, 723 p.
Massella, Alexandre B. et al. Durkheim: 150 anos. Belo Horizonte. Argumentum: 2009, 261 p.
(Imagens: xoligravura do Nordeste)

Produção, distribuição e consumo de alimentos

sábado, 20 de junho de 2015
"Quero convencer os meus leitores de que o Imperialismo é símbolo típico do final. Produz petrificações como os impérios egípcio, chinês, romano ou como os mundos da Índia e do Islã, petrificações que ainda perduram por séculos e mesmo milênios, passando das mãos de um conquistador às de outro, corpos mortos, amorfos, desanimados, matéria gasta de uma grande história."  -  Oswald Spengler  -  A Decadência do Ocidente

Em várias partes do mundo persistem os problemas de saúde ligados à falta de alimentos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) a subnutrição ainda é causa indireta de cerca de 30% das mortes de crianças no mundo. Afetando o desenvolvimento físico e mental de milhões de crianças, a subalimentação também compromete seu desenvolvimento intelectual e profissional, diminuindo o número de cidadãos preparados para contribuir com o desenvolvimento de seus países.
Este é o ciclo vicioso a que são condenadas regiões pobres em todo o mundo: falta de acesso a alimentos gera subnutrição. Esta prejudica o desenvolvimento intelectual e profissional de parte da população. Na falta de cidadãos preparados, o crescimento da economia fica comprometido e desta forma não geram-se menos recursos para produzir ou comprar alimentos para toda a população - principalmente aquela mais necessitada. Por isso, é preciso que os países detentores de tecnologia agrícola desenvolvida atuem nestes países na transferência de conhecimentos.     
A fome ainda presente no século XXI não é por falta de alimentos. A produção mundial de comida é suficiente para abastecer os atuais 7,3 bilhões de habitantes da Terra. Se parte da população dos países menos desenvolvidos não tem acesso a quantidades suficientes de comida, isto se deve a fatores como insuficiente produção local; falta de recursos do país para adquirir alimentos no mercado internacional; e elevação dos preços internacionais devido a ações especulativas, entre outros.
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) alerta que a população mundial deverá atingir 9 bilhões em 2050, o que incrementará a procura por alimentos. Segundo os especialistas, para fazer frente a esta demanda, o mundo deverá atacar este problema em três frentes principais. Primeiro, aumentar a produção de produtos agrícolas, sem comprometer os recursos naturais, não avançando sobre áreas de vegetação natural. Isto significa que o Brasil, por exemplo, precisará investir muito mais em pesquisa e tecnologia - o que em parte já vem fazendo - para obter uma melhor produtividade das áreas agrícolas já existentes.

O segundo aspecto a ser considerado é a melhoria dos sistemas de armazenagem e distribuição das colheitas. Dados apontam que cerca de 30% dos produtos agrícolas mundiais são perdidos entre o campo e o ponto de venda do produto. Será necessário, na maioria dos países produtores, construir mais silos e armazéns, ampliar a rede rodoviária, ferroviária e ampliar e modernizar as instalações portuárias.
A última providência sugerida pelos estudiosos é reduzir a perda de alimentos nos pontos de venda e entre os consumidores.Segundo um relatório elaborado pela FAO, depois de comprados, aproximadamente 50% dos alimentos são jogados fora, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. No Brasil aproximadamente 70.000 toneladas (aproximadamente 2.800 carretas) de alimentos acabam no lixo a cada ano. Compra de produtos em excesso, mal acondicionamento; são fatores que fazem com que milhões de famílias descartem quantidade imensas de alimentos, sem reaproveitá-las. No futuro serão necessárias campanhas em todos os países - principalmente os ricos - incentivando e ensinando o reaproveitamento de alimentos. Se os alimentos forem melhor manuseados e aproveitados, haverá comida para todos.
(Imagens: gravuras de Jacob Steinhardt)

Pesquisas de opinião e a questão ambiental

sábado, 13 de junho de 2015
"Los pesimistas no tienen razón: vista desde lejos, la vida nada tiene de trágica, solo lo es de cerca, observada en detalle. La vista de conjunto la vuelve inútil y cómica. Y eso es aplicable a nuestra experiencia íntima."  -  E. M. Cioran  -  Cuadernos 1957-1972

O Brasil é um dos países onde mais se faz pesquisas de opinião, especialmente sobre assuntos relacionados ao meio ambiente. Nossa diversidade social, geográfica e cultural dá mais consistência às  enquetes, apresentando uma amostra de como pensa a população de uma nação de grande importância ambiental. Afinal, boa parte da biodiversidade do planeta encontra-se em nossas florestas, Cerrado, Caatinga, campos e águas territoriais.
A pesquisa de opinião identifica a maneira como pensa a maior parte de uma população sobre determinado assunto. Esta opinião tem importância para alguém - governos, empresas, grupos de interesse - e deveria ajudar a direcionar ações futuras destes interessados; caso contrário não encomendariam a investigação.
No caso das enquetes relacionadas a temas ambientais, estas em geral confirmam expectativas, sem necessariamente provocarem uma mudança nas condições. Com certa frequência, por exemplo, são realizadas pesquisas sobre a "intenção de compra de produtos sustentáveis, mesmo que mais caros". A maior parte das respostas invariavelmente é positiva, ou seja, os consumidores estariam dispostos a gastar mais, desde que os produtos fossem menos prejudiciais ao meio ambiente. Em pesquisa realizada em 2012 pelo CNI (Conselho Nacional da Indústria) e IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) este percentual era de 52% da população entrevistada. Outra enquete realizada em 2013 e aplicada pelo mesmo IBOPE, revelou que "70% da população brasileira pagaria mais caro para adquirir produtos que não causem grandes impactos na natureza".
Na prática, porém, tais pesquisas não querem dizer nada. Porque, por um lado o consumidor efetivamente não gastará mais dinheiro em produtos "amigos do meio ambiente", a não ser em um ou outro caso. Por outro, os fabricantes não têm intenção de investir em artigos mais caros e menos prejudiciais ao meio ambiente, reduzindo suas margens de lucro - a não ser por imposição legal.
Recentemente o jornal Folha de São Paulo publicou pesquisa realizada pelo Datafolha, informando que 95% da população concorda que as mudanças climáticas estão afetando o país. Na entrevista, 90% das pessoas disseram que a questão tem relação com a crise hídrica e energética que está afetando o Brasil. A enquete identificou que o tópico das mudanças climáticas não é claro para todos os entrevistados. Destes, 88% já ouviram falar sobre o assunto, mas só 28% se consideravam bem informados. Mesmo assim, 85% dos participantes na pesquisa disseram que a questão das mudanças climáticas era motivo de preocupação para suas famílias e para o futuro do planeta. Em um aspecto, porém, os entrevistados foram quase unânimes, ao dizer que o governo pouco está fazendo para minorar o impacto do fenômeno no país.
Mostram tais pesquisas que existem duas realidades: aquela dos dados coletados pelas enquetes e a outra, a do dia a dia do país. Mesmo que boa parcela da população esteja animada a pagar mais por produtos ambientalmente corretos, tais produtos raramente estão disponíveis. E mesmo que tivessem, não fariam parte da cesta de compras do brasileiro médio. No caso das mudanças climáticas a preocupação da população, apesar de baseada em poucas informações, contrasta com a falta de estratégia de médio e longo prazo por parte do governo.
(Imagens: pinturas de Victor Tischler)

O conceito de solidariedade em Durkheim

terça-feira, 9 de junho de 2015
"Persiste, no Brasil, uma crença generalizada de que 'ciência é coisa do Primeiro Mundo' ou,  pelo menos, alheia ao país. Ignora-se, ou não é levada a sério, a ciência feita no Brasil."  -  Iván Izquierdo  -  Releitura do óbvio

Durkheim foi o grande sistematizador da sociologia. Defendia que a principal tarefa da sociologia era a análise dos fatos sociais, já que estes tinham uma existência externa e independente dos indivíduos. Outra característica dos fatos sociais é que estes têm um poder coercitivo sobre os indivíduos, que muitas vezes nem percebem esta ação. Exercem seu poder condicionador sobre os indivíduos através de formas que podem variar de um simples mal-entendido (como no caso do uso de uma palavra errada em uma conversa) até o castigo ou pena (no caso de uma infração ou crime). Os fatos sociais, ensina Durkheim, são intangíveis e só podem ser analisados através dos seus efeitos, como as leis escritas, as normas técnicas, etc. Para estudá-los, o pesquisador deve deixar de lado ideias preconcebidas e utilizar-se de conceitos gerados apenas na práxis científica.
Uma das primeiras questões que Durkheim se colocou em seus estudos é como um grupo de indivíduos pode constituir uma sociedade e como esta se mantém coesa, persistindo no tempo? Chamou a este fenômeno de solidariedade social e moral, ou seja, a maneira como os membros de um grupo permanecem unidos, compartilhando um conjunto de valores e costumes. Mas, o que é e como se dá esta solidariedade?
Em sua obra A divisão social do trabalho (1893), Durkheim criou os conceitos de solidariedade mecânica e solidariedade orgânica, para explicar a origem da coesão entre os membros de uma sociedade. A solidariedade mecânica é aquela das sociedades onde os indivíduos não se diferenciam. Quando uma sociedade é pouco desenvolvida cultural e tecnologicamente existe pouca diferença entre seus membros. Os componentes do grupo social se assemelham em diversos aspectos; têm os mesmos sentimentos, os mesmos valores, iguais objetivos, as mesmas posses. Este fato é observado em sociedades primitivas do passado e nas sociedades não-letradas ainda espalhadas pelo mundo, como a tribo indígena dos Pirahã, da região amazônica de Manicoré, quando foi contatada nos anos 1970. Existe uma coesão entre os vários integrantes da aldeia neolítica ou da tribo indígena, porque seus membros pouco se diferenciam, sendo em sua maioria intercambiáveis. “Nas sociedades primitivas”, escreve Aron, “cada indivíduo é o que são os outros; na consciência de cada um predominam, em números e intensidade, os sentimentos comuns a todos, os sentimentos coletivos” (Aron: 2008, p. 459). Em tais grupos, a crença comum é de natureza repressiva – basta lembrar as sociedades que têm proibições extremas, como os tabus – na quais os indivíduos que desrespeitam as convenções são prontamente castigados.
A solidariedade orgânica representa uma nova fase nas sociedades. A industrialização e a urbanização, que tiveram um forte impacto sobre as sociedades européias do século XIX (e sobre as sociedades dos países pobres e em desenvolvimento na segunda metade do século XX), propiciaram o surgimento de uma maior divisão do trabalho. O aumento da atividade econômica, o desenvolvimento tecnológico, criam uma especialização cada vez maior, ao mesmo tempo em que cada atividade ou tarefa depende cada vez mais das outras.

Cada indivíduo tem uma função diferente na sociedade. No entanto, sua atividade contribui para a harmonia social. Cada membro atua como se fosse um órgão, essencial para o funcionamento de um grande organismo – daí o nome de solidariedade orgânica. O fato que era visto como auspicioso por Durkheim em sua análise da sociedade industrial, é que apesar da diferença entre seus membros, a dessemelhança contribuía para uma harmonia maior, mantendo a sociedade coesa.
Fontes consultadas:
Aron, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo. Martins Fontes: 2008, 884 p.
Giddens, Anthony. Sociologia. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian: 2010, 723 p.
Sociologia e Modernidade: Durkheim. Filósofo Paulo Ghirardelli. Disponível em
Acesso em 17/7/2011
(Imagens: croquis de Daniel Libeskind)

Obras de saneamento apresentam irregularidades

sábado, 6 de junho de 2015
"Longe de acreditar numa oposição radical entre fé e conhecimento, cujas alianças e contradições no seio dessas alianças ele conhece, Freud restringe-se a analisar, num estilo simples, claro e límpido (que lhe valeu diversas vezes ser cogitado ao prêmio Nobel de literatura), as fontes da crença religiosa e suas manifestações diversas."  -  René Major e Chantal Talagrand  -  Freud

A situação do saneamento no Brasil continua ruim, apesar de toda a propaganda durante os governos Lula e Rousseff, de que através do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) estavam sendo realizados grandes investimentos no setor. Aliás, a propaganda oficial a respeito do PAC e de suas grandes obras desapareceu da mídia, já que em época de crise financeira no governo e de gestão na Petrobrás, o máximo que se anuncia são medidas impopulares de aumento de taxas, impostos e de redução de investimentos.
Mas, voltando ao saneamento. O TCU (Tribunal de Contas Da União) recentemente publicou um relatório sobre uma auditoria que fez em convênios celebrados entre o Ministério das Cidades e municípios com mais de 50 mil habitantes, referentes às obras de saneamento. As informações apresentadas pelo documento nos oferecem uma quadro bastante pessimista da situação atual e das perspectivas futuras do setor no país.
Diz o TCU que 35,5 milhões de residências no Brasil ainda não têm acesso a tratamento de esgoto e 3,1 milhões estão sem acesso à água tratada. O órgão de controle federal avaliou 491 contratos, que totalizavam investimentos de R$ 10,6 bilhões no âmbito do programa "Serviços Urbanos de Água e Esgoto". Deste total de contratos, 283 foram considerados como irregulares, seja por motivos de atraso, paralisação ou não início das obras. Dos 262 contratos de repasse de verbas firmados em 2007 - ano em que o programa governamental teve início - somente 43 tiveram suas obras concluídas; menos de 17% do total de contratos assinados.
Neste ritmo, ainda teremos que esperar algumas décadas para que o saneamento básico se universalize no país. Segundo o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), coordenado pelo Ministério das Cidades, o país precisará de R$ 500 milhões para universalizar o acesso a esgoto tratado e água potável até 2033. Dado o montante do valor - o equivalente à dívida da Petrobrás em maio de 2015 - é possível afirmar que dificilmente conseguiremos manter este prazo. Assim, continuaremos por longo tempo a ter um índice de saneamento abaixo da média da América do Sul e pior do que o Paraguai. Neste quesito continuamos a ocupar lugar destacado entre os países subdesenvolvidos.
A falta de saneamento é o principal problema ambiental do Brasil. Imensos volumes de efluentes domésticos são diariamente descarregados em córregos e rios. A prática polui as águas, degrada o meio ambiente e seu entorno, dificulta a utilização das águas para abastecimento da população, além de propiciar o aparecimento de vetores e doenças. Segundo o Instituto Trata Brasil, em 2009 o Sistema Único de Saúde (SUS) atendeu a 462 mil pacientes com infecções gastrintestinais provocadas por água contaminada; destes, 2.101 pessoas vieram a falecer.

É compreensível o argumento de muitos administradores públicos, dizendo que no Brasil ainda há muito por fazer em termos de infraestrutura, já que pouco ou nada foi feito no passado e que nem tudo pode ser feito ao mesmo tempo. O saneamento, no entanto, deveria ser prioridade, pois com esgoto tratado e água limpa eliminam-se pelo menos 30% das internações infantis de rotina, a um custo médio de 350 reais por pessoa. Com tantos atrasos nas obras de saneamento, cabe perguntar a quem interessa a perpetuação desta situação, quem ganha com isso?
(Imagens: croquis de Oscar Niemeyer)

A parábola do sapo e do Leviatã

sábado, 30 de maio de 2015
"Ora, existem duas 'funções' numa democracia: a classe especializada, os homens responsáveis, assume a função executiva, o que significa que eles pensam, planejam e compreendem os interesses de todos. Depois, temos o rebanho desorientado, e ele também tem função na democracia. Sua função na democracia, dizia ele, é de 'espectador' e não de participante da ação."  -  Noam Chomsky  -  Mídia:  Propaganda política e manipulação

Famosa é aquela história (ou será parábola?) do sapo e da panela sobre o fogo. Segundo dizem, se você colocar o animal na água ainda fria, ele não perceberá que a água está esquentando e morrerá quando o líquido ferver. Mas se você pegar o anfíbio e jogá-lo em água já quente, ele imediatamente saltará do recipiente. Verdade ou não - e existem aqueles que afirmam que experiências comprovam o relato - a história não quer nos ensinar nada a respeito das reações deste pobres animais submetidos a experiências tão dolorosas, mas nos dizer algo sobre nós mesmos.
Na forma de parábola, o relato se refere ao nosso relacionamento com o meio ambiente, principalmente nos últimos 50 anos, quando nossa atuação sobre a natureza se tornou cada vez mais destruidora. Se há 100 ou 150 anos abríamos estradas, geralmente de terra para a passagem dos raros automóveis ou de carroças, em nossos dias mudamos paisagens inteiras, para a construção de autoestradas de seis ou oito pistas, permitindo o deslocamento de milhões de veículos e pesados caminhões.
Para nós modernos, tudo parece muito natural. Grandes obras, imensas cidades, largas áreas de monocultura, enormes fábricas empregando milhares de operários; tudo grande para produzir e distribuir vastas quantidades de produtos a serem consumidas por milhões de pessoas. A imagem lembra o gigantesco Leviatã, descrito pelo filósofo Thomas Hobbes. O monstro, que segura um cetro e uma espada representa o Estado, que por ser formado por milhões de cidadãos tem a aparência de um homem, constituído por inúmeras imagens de pessoas.
É aí que entra a parábola do sapo, mas que nos tempos atuais se transformou em Leviatã. O colossal personagem - na realidade formado pelos interesses, apetites e ações de bilhões de criaturas humanas - não percebe que através de sua atuação está destruindo suas próprias possibilidades de sobrevivência a longo prazo. A exaustão dos recursos naturais e a destruição dos ecossistemas que os abrigam, colocarão em risco, cedo ou tarde, a sobrevivência dos estados na forma como os conhecemos hoje.
Secas, tornados, nevascas, chuvas torrenciais, serão fenômenos climáticos que se tornarão cada vez mais comuns. A exaustão dos solos, dos recursos hídricos; a diminuição das espécies de peixes comestíveis; a destruição das florestas temperadas e tropicais. Tudo isto já está acontecendo, basta prestar atenção aos noticiários ou escutar as palavras dos cientistas. Enquanto isso, a economia faz questão em ignorar o assunto. "É preciso que a economia funcione a um ritmo cada vez mais rápido, para que cada vez mais pessoas possam consumir. Mais consumo, mais empregos, mais riqueza."

Será? Para que possa aumentar a velocidade da produção e do consumo é preciso tornar os produtos obsoletos em menor tempo. E assim consumo, venda e produção ocorrem em cada vez menor tempo, aumentando o ritmo de uso dos recursos naturais necessários para a produção de mercadorias (muito anunciadas pela propaganda e cujo financiamento é facilitado). Onde isto vai parar ninguém sabe.
Ou sabe. Basta ver a maneira como estamos degradando o ambiente com nossas atividades econômicas. Somos o sapo que se transformou em Leviatã e que não se dá conta de que a cada dia, ano e década a água está mais quente. Ainda há tempo para saltar da panela. Mais um pouco, no entanto, e será tarde para a maior parte de nós. 
(Imagens: desenhos de George Grosz)

A obra de Henry Wallon e sua influência na psicologia da educação

terça-feira, 26 de maio de 2015
"Higaonna dizia a seus alunos: 'No treinamento de karatê, como na vida, quando alguma coisa bloqueia o seu caminho, desvie para o lado e mova-se ao redor dela.'"  -  John Stevens  -  Três mestres do budo

Dados biográficos
Henry Paul Hyacinthe Wallon nasceu na França em 1879. Formado em filosofia em 1902, cursou também medicina, formando-se em 1908. Atuou como médico do exército francês durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Seu contato com ex-combatentes com lesões cerebrais, fez com que reavaliasse seus conceitos de neurologia, desenvolvidos no trabalho com crianças deficientes. A partir de 1920, atuando como médico de instituições psiquiátricas, Henry Wallon foi convidado a organizar as conferências sobre psicologia da criança na Universidade de Sorbonne e em outras instituições de ensino superior. O cientista permaneceu responsável por estas atividades até 1937. Em 1925, Wallon funda em Paris um laboratório de atendimento e pesquisas de crianças tidas como deficientes. No mesmo ano publicou sua tese de doutorado.
Em 1931, Wallon viaja para Moscow, onde é convidado a integrar o Círculo da Rússia Nova. A proposta deste grupo, formado por intelectuais de várias áreas, era aprofundar o estudo do materialismo dialético e examinar sua aplicação em várias áreas do conhecimento. Foi durante sua permanência na Rússia que Wallon travou contato com Lev Vygotsky, filósofo, psicólogo e criador de um novo método pedagógico. Estudioso do marxismo, Wallon filia-se ao partido comunista em 1942, enquanto que paralelamente atuava na Resistência Francesa, lutando contra a ocupação nazista. Neste período, (1941-1945) Wallon permanece na clandestinidade, retomando sua atividades regulares ao final da Segunda Guerra. A partir de 1946, Wallon preside a seção francesa da Liga Internacional da Educação Nova, fundada em 1921, e que congregava pedagogos, psicólogos e filósofos críticos do ensino tradicional. Wallon irá presidir este grupo de estudos até sua morte, em 1962. 
Após a 2ª Grande Guerra, Wallon é convidado pelo governo francês a participar de uma comissão destinada a reestruturar o setor educacional da França.
O projeto, conhecido como Langevin-Wallon, devido à participação inicial do físico Paul Langevin, morto em 1947, introduziu uma total reformulação do sistema educacional da França, tornando-o um dos mais eficientes do mundo. “A diretriz norteadora do Projeto é construir uma educação mais justa, para uma sociedade mais justa. As ações propostas, repousam sobre quatro princípios:
Justiça – qualquer criança, qualquer jovem, independentemente de suas origens familiares, sociais, étnicas, tem igual direito ao desenvolvimento completo; a única limitação que pode ter é de sua próprias aptidões.
Dignidade igual de todas as ocupações – todas as ocupações, todas as profissões se revestem de igual dignidade, ou seja, o trabalho manual, a inteligência prática não podem ser subestimados. A educação não deverá fomentar o predomínio da atividade manual ou intelectual em função de razões de origem de classe ou étnicas.
Orientação – o desenvolvimento das aptidões individuais exige primeiro orientação escolar, depois orientação profissional.
Cultura geral – não pode haver especialização profissional sem cultura geral. Em um estado democrático, no qual todo trabalhador deve ser um cidadão, é indispensável que a especialização não seja um obstáculo para a compreensão dos problemas mais amplos; só uma sólida cultura geral libera o homem dos estritos limites da técnica; a cultura geral aproxima os homens, enquanto a cultura específica os afasta.” (Laurinda R. Almeida, 2007, pg. 75).
Depois de uma vida produtiva, dedicada ao estudo da psicologia e da reformulação dos métodos pedagógicos, Wallon falece em Paris em 1962.
Principais obras de Wallon
Em francês:
Le délire de persécution – le délire chronique à base d´interpretation (O delírio de perseguição – o delírio crônico interpretado), Paris 1909.
La conscience et la vie subconsciente en Nouveau traité de psychologie (A consciência e a vida subconsciente em Novo em Novo tratado de psicologia), Paris, 1920-1921.
L`enfant turbulent (A criança confusa), Paris, 1925.
La vie mentale (A vida mental), Paris, 1932.
L´acte de la pensée (O ato do pensamento), Paris, 1942.
Em português:
Evolução psicológica da criança, Rio de Janeiro, s.d.
Psicologia e educação na infância, Lisboa, 1975.
Objetivos e métodos de psicologia, Lisboa, 1975.
Origens do pensamento da criança, São Paulo, 1989.
O pensamento de Henry Wallon
Em seus estudos da criança, Wallon estabeleceu que esta passa por cinco estágios de desenvolvimento, cada um com suas características próprias:
1.     Estágio Impulsivo-Emocional, de 0 a 1 ano. Nesta fase do indivíduo, predominam atividades que visam a exploração do próprio corpo, em relação aos incentivos internos e externos. Os movimentos da criança ainda são desordenados, bruscos, devido ao enrijecimento e relaxamento muscular. Neste processo, são selecionados os movimentos que propiciam aproximação com o outro, para cuidar das necessidades, e que passam a funcionar como instrumentos expressivos de estado de bem-estar e mal-estar. Na segunda fase deste processo (3 a 12 meses de idade) já é possível reconhecer reações emocionais diferenciadas, como raiva, medo, e alegria, etc..
2.     Estágio Sensório-Motor e Projetivo, dos 12 meses aos 3 anos. A criação já inicia a exploração do espaço físico, através de processos como agarrar, segurar, manipular, apontar, etc., acompanhados por gestos. Inicia-se também a discriminação dos objetos, separando-os. Toda esta atividade motora e sensória prepara as aptidões afetivas e cognitivas, base do próximo estágio.
3.     Estágio do Personalismo, que ocorre dos 3 aos 6 anos. Nesta fase, o indivíduo já tem a noção de ser um indivíduo separado dos outros. Através de processos de oposição (expulsão do outro)e de sedução (assimilação do outro) a criança inicia a separação do eu e do outro.
4.     Estágio Categorial, dos 6 aos 11 anos. Nesta fase, a criança já tem uma diferenciação nítida, entre o eu e os outros. O indivíduo já tem condições de atividades de agrupamento, seriação, classificação, categorização em vários níveis. A classificação do mundo físico em categorias, propícia ao indivíduo uma compreensão melhor de si mesmo.
5.     Estágio Puberdade e Adolescência, que se inicia aos 11 anos. O indivíduo procede à exploração de si mesmo, como entidade autônoma, através de processos de auto-afirmação, questionamento, apoio a seus pares, em contraposição ao mundo adulto. Aumenta o nível de abstração e a percepção dos limites de autonomia e dependência.
Estes processos ocorrem no indivíduo sempre de duas formas; de maneira centrípeda, quando o predomínio é de impulsos afetivos e voltada para si mesmo. De forma centrífuga, quando o predomínio é de impulsos cognitivos e voltados para o meio ambiente exterior.
Para proceder a essas análises, Wallon elaborou um método baseado na psicologia genética e no materialismo dialético. O método consiste em fazer uma série de comparações para esclarecer, cada vez mais, o processo de desenvolvimento do indivíduo. Compara a criança normal com o adulto normal; o adulto atual com o adulto de civilizações primitivas; crianças normais de idades diferentes; criança com animal, conforme as necessidades de investigação do momento.
Alguns dos pressupostos que embasam a teoria de Wallon, são:
 A pessoa está continuamente em processo. Segundo a própria estrutura do materialismo dialético (tese/antítese/síntese), Wallon aponta  o jogo de forças – orgânicas, neuro-fisiológicas e sociais – às quais o indivíduo está sujeito, sendo sempre um síntese do processo.
Em cada instante deste processo de crescimento a pessoa é sempre uma totalidade. O indivíduo é sempre a síntese (no sentido dialético)  de uma fase anterior do processo, onde houve a interação de diversos fatores, influenciando a individualidade da pessoa. Com relação a este processo, afirma Wallon; “É contra a natureza tratar a criança de forma fragmentária. Em cada idade, esta constitui-se em um conjunto indissociável e original. Na sucessão de suas idades é o único e mesmo ser, em contínua metamorfose.” (Wallon in Mahoney, 2007, pg. 17).
Wallon nunca desenvolveu uma verdadeira teoria pedagógica, já que estava mais interessado nos aspectos psicológicos do desenvolvimento da criança. Todavia, muitos de seus pressupostos foram mais tarde incorporados ao projeto Langevin-Wallon, de reformulação do ensino na França. Alguns aspectos principais da visão de Wallon da Educação, são:
A Educação deve atender às necessidades imediatas de cada fase do processo de desenvolvimento infantil, permitindo que o indivíduo possa desenvolver plenamente todas as aptidões inerentes em cada etapa de seu crescimento;
A formação da inteligência não deve ser dissociada da formação da personalidade, já que ambas fazem parte constituinte de todo o indivíduo;
O professor não deve se colocar como exclusivo detentor do saber e único responsável por sua transmissão. Todavia, também não deve abdicar deste papel, submetendo-se indiscriminadamente à espontaneidade infantil.
A Educação deve atender ao mesmo tempo a formação integral do indivíduo e à estruturação da sociedade, preparando o indivíduo a participar da vida social.
Se a Educação visa a preparação do indivíduo para integrá-lo à sociedade, é preciso ter claro um modelo ideal de sociedade, o que exige um posicionamento político.
Diferenças entre as abordagens de Wallon, Piaget e Vygotsky:
Primeiramente, existe uma diferença de formação acadêmica entre os três. Wallon, tem formação em medicina, Piaget em biologia e Vygotsky em direito. Todavia, é preciso observar que ambos, Wallon e Vygotsky, eram marxistas e permitiram que suas teorias fossem bastante influenciadas pelo materialismo dialético. Esta doutrina foi, durante certo período entre o final do século XIX e a década de 1980, considerado uma teoria científica.  Piaget, pelo que transparece de sua biografia, não tinha ligações com o marxismo e, certamente, não considerava o materialismo dialético como necessário à sua teoria.
Se, por um lado, Piaget encarava o desenvolvimento da criança como um processo principalmente biológico, Vygostky dava grande ênfase ao papel das interações sociais. Em um de seus textos, referindo-se a Piaget, e sua teoria do desenvolvimento da criança, Vygotsky escreve: “O primeiro tipo de soluções propostas parte do suporte da independência do processo de desenvolvimento e do processo de aprendizagem. Segundo estas teorias, a aprendizagem é um processo puramente exterior, paralelo em certa medida do processo de desenvolvimento da criança, mas que não participa ativamente neste e não o modifica em absoluto: a aprendizagem utiliza os resultados do desenvolvimento, em vez de se adiantar ao seu curso  e de mudar a sua direção. Um típico exemplo desta teoria é a concepção – extremamente completa e interessante – de Piaget, que estuda o desenvolvimento do pensamento da criança de forma completamente independente do processo de aprendizagem.” (L. S. Vygotsky, 2007, pg.25).
Wallon, baseado em sua formação médica, forma o contraponto entre as visões de Piaget e Vygotsky. Não encara o desenvolvimento da criança, principalmente sob o aspecto do desenvolvimento psico-biológico como Piaget, nem fortemente influenciado pela relações sociais, como Vygotsky. Além disso, é preciso notar que dentre os três pensadores somente Vygotsky tinha como objetivo estruturar uma pedagogia a ser aplicada na prática. Os demais, Piaget e Wallon, permaneceram mais no campo teórico de suas respectivas áreas de estudo e não produziram teorias pedagógicas com intuito de utilizá-las como método de aplicação prática.

Bibliografia
AOQUI, Veronica, Henry Wallon, disponível em www.psicologiavirtual.com.br/psicologia/trabalhos/trab.1/html acesso em 20/03/08
CARVALHO, Rebeca, Henry Wallon e o Pensamento pedagógico, disponível em http://www.appai.org.br/jornal_Educar/jornal39/historia_educacao/henry.asp acesso em 20/03/08
CENTRO DE REFERÊNCIA EDUCACIONAL, Henry Wallon, disponível em: www.cetrorefeducacional.com.br/wallon.htm acesso em 20/03/08.
DEWEY, John. Vida e educação in Os Pensadores, Abril Cultural: São Paulo, 1980, 318 pgs.
LEONTIEV,  A., VYGOTSKY L., e outros, Psicologia e Pedagogia – Bases Psicológicas da Aprendizagem e do Desenvolvimento, Centauro Editora: São Paulo, 2007, 125 pgs.
GALVÃO, Izabel, Uma Reflexão Sobre o Pensamento Pedagógico de Henry Wallon, disponível em www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/ideias_20_p033-039_c.pdf. acesso em 20/03/08
MAHONEY, Abigail A., Almeida, Laurinda R., Henri Wallon – Psicologia e Educação, Edições Loyola: São Paulo, 2007, 87 pgs.
NEWMAN, F., HOLZMAN, L., LEV VYGOTSKY – Revolutionary Scientist, disponível em: www.marxists.org/archive/vygotsky/works/comment/lois1.htm acesso em 20/03/08
(Imagens: fotografias de Margareth Bourke-White)

Os rios e o rio Tietê

sábado, 23 de maio de 2015
"Uma vez que os tempos não se adaptam aos nossos modestos apetites, o remédio é nos adaptarmos aos apetites do tempo."  -  Carlos Heitor  Cony  -  O ato e o fato

Os rios sempre tiveram um importante papel na história da humanidade. De acordo com sua localização, volume d'água e navegabilidade, ofereciam as condições para que os homens pudessem sobreviver às suas margens. Foi à beira dos cursos d'água que se estabeleceram as primeiras aldeias em regiões propícias à agricultura. As aglomerações cresceram, passando a reunir um grande número de atividades que ocupavam parte da população. Ao longo to tempo criaram-se leis, um governo central, um exército profissional e logo surgiram os primeiros estados e impérios. Foi assim que às margens do rio Nilo surgiu o império egípcio e à beira dos rios Tigre e Eufrates surgiu o império babilônico.
Outros rios eram propícios ao escoamento de mercadorias produzidas ao longo de seu curso, tornando-se rota de comércio e ligação entre cidades e regiões. O rio Reno, localizado na Europa Central, tem estas características. Já na Idade Média o Reno era navegado por comerciantes da Liga Hanseática que faziam o comércio de mercadorias, ligando o Mediterrâneo e o Mar do Norte. O rio Volga, na Rússia e o Tamisa, na Inglaterra, tiveram e ainda têm a mesma função.
Em São Paulo o rio Tietê, correndo da costa para o interior, foi utilizado como via de acesso às terras desconhecidas; o sertão. A exemplo de outros rios como o Mississipi, nos Estados Unidos, o Paraná e o Uruguai, na região da bacia do Prata, o rio Tietê tornou-se o caminho de acesso às regiões inexploradas do oeste do país. Foi através dele que as bandeiras alcançaram o ouro de Minas Gerais e de Goiás e povoaram parte do interior de São Paulo.
O rio Tietê há muito perdeu sua função de via de acesso ao interior do país. A construção de ferrovias no início do século XX e a expansão da malha rodoviária na década de 1950, fizeram com que diminuísse a importância do rio para o transporte. A partir dos anos 1980 o rio voltou a ser importante meio de transporte de produtos agrícolas e minerais, com a construção de eclusas que facilitaram sua navegação.
A partir do final do século XIX o Tietê começou a ser utilizado para diluir os esgotos da crescente cidade de São Paulo. A poluição do rio começou a se fazer notar a partir dos anos 1920, quando a população da cidade começava a ultrapassar os 700 mil habitantes. Com isso a captação de água do rio para bairros da região norte teve que ser gradualmente interrompida. Nos anos 1930 as atividades recreativas realizadas no Tietê tiveram que ser suspensas devido ao mau cheiro das águas.  
Em 1992 teve início um ambicioso projeto de despoluição do rio Tietê, coordenado pela SABESP, a companhia de saneamento do estado. No entanto, apesar das promessas das autoridades nos últimos 20 anos, o rio Tietê continua relativamente poluído no trecho entre Mogi das Cruzes e Barra Bonita (cerca de 230 km). A poluição mais forte, onde o nível de oxigênio na água é de 0 a 2 mg de oxigênio por litro - considerado praticamente morto - se concentra entre Guarulhos e Bom Jesus de Pirapora, numa extensão de cerca de 70 quilômetros.
As obras de saneamento continuam avançando, mas não existe uma previsão de término. Cerca de 40% do esgoto gerado pela cidade e centenas de córregos poluídos ainda deságuam no Tietê. Lixo e entulho ainda são carregados pela correnteza em direção ao interior; triste paródia das monções que partiam da vila de São Paulo no passado.
(Imagens: xilogravuras de Oswaldo Goeldi)

A peneira

quarta-feira, 20 de maio de 2015
"A verdade não deve, porém, ser buscada na boa fortuna de uma época, que é inconstante, mas à luz da natureza e da experiência, que é eterna."  -  Francis Bacon  -  Novum Organum

Peneirar é separar objetos de tamanhos diferentes. Se a peneira não tivesse a trama ou os furos de determinado tamanho, poderiam acontecer duas coisas: ou nada passaria pelo fundo, assim como em uma panela; ou tudo que fosse menor que o arco passaria pelo fundo (já que não haveria peneira, só um buraco redondo). A peneira tem esse nome porque separa coisas de diversos tamanhos.
Tanto o que não passa pela peneira (por ser muito grande) como o que passa, pode ter alguma utilidade. Os garimpeiros à procura de pedras preciosas na areia, aproveitam só o que não passa pela peneira (as pedras que talvez possam ter algum valor). A areia é jogada fora. No caso da construção, na preparação da argamassa, já é o contrário: só a areia peneirada tem valor. 
Nos seres vivos as sensações podem ser consideradas peneiras. Os sentidos - a visão, a audição, o tato, o paladar e o olfato - funcionam como "peneiras" em nosso contato com o mundo. O que não percebemos, de certa forma não existe para nós e não exerce qualquer influência sobre nossas emoções e pensamentos. Existem radiações, como o infravermelho, que não conseguimos perceber - ao contrário das cobras e das abelhas. Há tipos de sons que são ouvidos pelos cães e os ratos, mas que a audição humana não consegue captar. O mesmo vale para cheiros e gostos. Não é por outra razão que os enólogos (aqueles que se especializam em provar o odor e o sabor de vinhos) precisam de anos de treinamento para aprimorarem seu olfato e paladar. 
São os sentidos que caracterizam a forma como um animal - incluindo o homem - interage com o mundo. Por isso não há uma maneira única de perceber e reagir aos estímulos do ambiente. A forma como uma coruja ou uma onça se comportam à noite na floresta, na ausência de luz, é diferente da das galinhas ou dos jabutis. E é este jeito de perceber o mundo através dos sentidos, que vai determinar a maneira e o lugar onde cada espécie vive. Os sentidos de cada animal funcionam como uma peneira.
Mas se esta peneira não funcionar de maneira correta, separando o que é importante daquilo que não é, o animal não será mais capaz de interpretar corretamente os estímulos do meio ambiente, e se tornará presa de seus predadores. Assim ocorre que certos herbicidas, usados para combater ervas daninhas, afetam o sistema nervoso das abelhas, fazendo com que estas fiquem desorientadas ao voarem e assim reduzam a produção de mel. Algo afetou a "peneira" (a percepção) da abelha e esta já não consegue mais interpretar corretamente seu ambiente.
A única espécie capaz de se adaptar a qualquer ambiente é o homem. Com seu raciocínio, adquiriu a capacidade de superar as limitações impostas por sua "peneira", ou seja, seus sentidos e sentimentos. Através de instrumentos científicos, o homem aumentou em muito sua capacidade de perceber o mundo. Vemos galáxias distantes com poderosos telescópios, escutamos infra e ultrassons, temos lentes que nos possibilitam enxergar no escuro, conseguimos captar e transmitir ondas invisíveis de rádio e TV, fabricamos sensores para cheiros quase imperceptíveis. Desenvolvemos "peneiras" para quase tudo.

O homem também tem um outro tipo de peneira: seu conhecimento, suas crenças e seus preconceitos. Quando temos contato com o mundo e as pessoas, "peneiramos" nossas percepções, impressões e sentimentos, baseados naquilo que sabemos, acreditamos e pré-concebemos. E é através destas "peneiras" que julgamos e agimos na vida, muitas vezes não conseguindo entender situações e pessoas.
O grande desafio do homem é aprender a "peneirar", ou seja, enxergar, julgar e agir de modo correto, sabendo separar "o joio do trigo". Para este aprendizado, no entanto, não existe uma fórmula pronta; é preciso paciência. É como escreveu mestre Salun: "Reparem na maré com as pedras e as areias; são atritos constantes e necessários para que cada um tenha o seu lugar. O oceano também tem a sua peneira e as areias um dia também foram seixos e pedras; os atritos fizeram cada um cumprir sua função."
(Imagens: mosaicos romanos)

Patrimônio da Humanidade

sábado, 16 de maio de 2015
"Nunca poderemos reconstruir a surpresa que acometeu aquela geração, a estupefação em relação aos resultados atingidos pelo telégrafo, que começara com uma simples centelha elétrica, descarregada de uma garrafa de Leyde, e estendera sua atividade tão rapidamente como se, por feitiçaria, pudesse saltar num instante através de países, montanhas e continentes."  -  Stefan Zweig  -  Momentos decisivos da humanidade

Patrimônio da Humanidade é juridicamente considerado um bem material ou imaterial sob a tutela de um governo ou instituição. Foi criado pela Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultura (UNESCO) em 1972, para proteger edifícios, monumentos, ilhas, montanhas, florestas ou cidades, que por suas características históricas, culturais, científicas ou ambientais são um bem importante de ser preservado no interesse de toda a humanidade. A ideia de criar a figura jurídica do patrimônio da humanidade surgiu em 1959, quando o Egito decidiu construir a represa de Assuã; obra que inundaria  monumentos da antiga civilização egípcia. Com recursos arrecadados pela ONU, templos e monumentos puderam ser removidos para locais afastados da represa, ficando preservados para a posteridade.
Além do valor sentimental para um povo, uma cultura ou religião, o patrimônio histórico também pode ter valor estético, cultural, científico e histórico para outros povos e culturas. A cidade de Jerusalém, por exemplo, tem valor religioso e cultural para muitas nações, culturas e religiões. Além disso, a metrópole tem valor histórico e arqueológico para cientistas e estudiosos de todos o mundo, interessados em pesquisar este importante foco cultural e político na Antiguidade. Sob esta ótica, o patrimônio histórico é um local no qual aprendemos algo de novo; seja individualmente, visitando o Coliseu romano e imaginando os grandes espetáculos ali ocorridos; ou como sociedade, quando biólogos descobrem uma nova espécie de mamífero em uma floresta protegida.
A história nos relata que no passado os locais de interesse cultural, histórico ou científico raramente eram preservados. Guerras, revoltas, lutas religiosas, terremotos e incêndios - além da incapacidade  de compreender o valor cultural e científico das coisas - fizeram com que muitas obras humanas e naturais fossem destruídas ao longo dos últimos cinco ou seis mil anos de história. Os relatos históricos sobre civilizações, cidades, construções e obras de arte da Antiguidade, nos dão uma ideia do volume de informações que perdemos sobre o nosso passado. Até que ponto, nossa civilização seria atualmente diferente, se, por exemplo, a famosa biblioteca de Alexandria, fundada no terceiro século antes da era cristã, tivesse escapado ao incêndio que a destruiu no século VII? A coleção continha todas importantes obras de cientistas, artistas, filósofos, escritores e historiadores da Antiguidade; conhecimento que nunca chegou até nós.

O filósofo Karl Marx dizia que "A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa". Infelizmente, quando se trata da destruição do patrimônio da humanidade, a história é sempre uma tragédia. Os frequentes ataques a museus e obras de arte antiga, culminando com a destruição das ruínas da milenar cidade assíria de Nimrud, perpetradas pela milícia do Estado Islâmico, são um atentado contra toda a humanidade. Da mesma forma, no entanto, devemos classificar a sistemática destruição de florestas ou ecossistemas únicos, habitados por espécies desconhecidas e que estão sendo definitivamente eliminadas. 
Patrimônio da humanidade é um bem que pertence a todos. Não pode ser utilizado e destruído sob qualquer argumento; seja por causa político-religiosa, como no caso das ruínas de Nimrud, ou para gerar lucros para grupos econômicos, como na derrubada da floresta amazônica.
(Imagens: pinturas de Edward Hopper)