Represa Billings poderia fornecer mais água para a RMSP

sábado, 24 de janeiro de 2015
"Na vida humana tudo é sofrimento
e não há trégua para nossas penas,
porém o que talvez seja melhor 
que esta existência está envolto em trevas
e oculto na nuvens."
Eurípides  -  Hipólito

A represa Billings tem reserva hídrica pouco superior ao sistema Cantareira e já vem abastecendo parcialmente os municípios de Santo André, São Bernardo, Diadema, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra e parte da capital. Além disso, o reservatório também fornece água para geração de eletricidade na usina Henry Borden, em Cubatão. Dada sua localização estratégica a Billings teria possibilidades de melhorar o abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), não fosse a poluição de suas águas.
A represa Billings foi idealizada na década de 1940 pelo engenheiro americano Asa White Kenney Billings (1876-1949), a serviço da companhia Light & Power Company. O reservatório ficou pronto nos anos 1950, com a principal função de fornecer água para o acionamento da usina hidrelétrica Henry Borden, em Cubatão, gerando 889 megawatts. Para aumentar o volume da Billings, a partir de 1952 o rio Pinheiros – localizado na zona Oeste/Sul de São Paulo – começava a ser bombeado para o reservatório. O rio era contaminado com efluentes domésticos e industriais que, sem tratamento, também eram carreados para a represa. A resolução da constituição paulista de 1989, determinando que o volume da Billings fosse prioritariamente utilizado para abastecimento público, fez com que a partir de 1992 fosse suspenso o bombeamento do rio para a represa.
Apesar de dispor de mais água do que o sistema Cantareira – 995 contra 982 bilhões de litros – os recursos hídricos da Billings continuam sendo subutilizados, principalmente por causa da poluição causada por diversas fontes. Um estudo da Universidade de São Paulo realizado em 2010 apontava que o fundo do reservatório estava contaminado por metais pesados; como cobre, chumbo, níquel e zinco, carregados para a Billings pelo rio Pinheiros ao longo de anos de bombeamento. Obras de dragagem destes resíduos poderiam dissolvê-los mais ainda e aumentar a turbidez da água. Outro aspecto é a poluição através de esgotos, que em diversas áreas que margeiam a Billings – na zona Sul de São Paulo e na região do ABCD – são lançados as água sem qualquer tipo de tratamento, principalmente por loteamentos clandestinos.
As empresas de saneamento das prefeituras do ABCD planejam tratar 100% dos efluentes domésticos até 2018, reduzindo assim o impacto sobre a represa. Em São Paulo, no entanto, o problema ainda parece estar longe de uma solução, já que as invasões às margens da represa tornam-se cada vez mais comuns. Em alguns casos são centenas de famílias, que só podem ser desalojadas com ajuda de força policial. As obras de construção do Rodoanel ainda trouxeram mais invasões à região, aumentando os pontos de assoreamento, disposição de lixo e despejo de efluentes.
Especialistas apontam que a principal providência para recuperar a Billings é impedir que os resíduos ou efluentes cheguem às suas águas. Para tanto, seriam necessárias obras de saneamento e urbanização no entorno do reservatório, incluindo desalojar ocupações clandestinas e realocar estas populações. Por seu tamanho, por receber chuvas e ventos que chegam do oceano e por estar em grande parte ainda cercada por áreas verdes, a represa ainda tem boas chances de se autodepurar ao longo dos anos. A recuperação deste manancial é importante e urgente na estratégia de segurança hídrica do estado de São Paulo.
(Imagens: fotografias de Oliver Wutscher)   

Previsões na área ambiental - 2015

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

(Publicado originalmente na seção "newsletter" do site www.ricardorose.com.br)

Os primeiros dias do ano já começam a indicar o rumo que o país deverá seguir ao longo de 2015. No plano econômico haverá aumento de tarifas, redução dos investimentos públicos e – se tivermos sorte – corte no custeio da máquina do governo. O setor privado deverá acompanhar o ritmo da música e não fará novos investimentos. Todo mundo cozinhando em fogo brando para ver como a economia se comportará até o final do ano – as previsões de crescimento do PIB para 2015 são abaixo de 1%.

Na área política, o governo deverá continuar atendendo às demandas da base aliada, tentando garantir maioria no Congresso – situação, aliás, pouco difícil, já que não existe efetivamente uma oposição. Afora um ou outro comentário feito na tribuna do Senado pelo candidato derrotado à presidência senador Aécio Neves, não existe quase manifestações contra os atos do governo. As nuvens escuras da lista dos políticos envolvidos no Petrolão, a ser divulgada em janeiro ou fevereiro, parecem estar colocando muitos políticos de sobreaviso. Prenúncio de tempestade no horizonte do Congresso.

Enquanto isso, o país continua como sempre: vivendo da mão para a boca; correndo pela manhã atrás dos recursos que precisará para pagar as contas do final da tarde. Consertando aqui e ali, tapando buraco acolá, mas sem um planejamento; sem uma estratégia de médio e longo prazo. O Brasil continua como sempre: refém de interesses políticos e de grupos de pressão, às voltas com a corrupção que beneficia alguns, mas sem um planejamento da rota que o país deverá tomar. Permanecemos reféns de políticos e políticas de segunda categoria que, evidentemente, trazem vantagens para alguns, mas não para a maior parte dos cidadãos.

Com tudo isso, não dá para esperar grandes avanços no setor ambiental – o que também não é novidade para os que atuam no setor. Nesta área o país já realiza muito, quando não faz nada: os grandes avanços do Brasil no meio ambiente são a redução do desmatamento na região amazônica. Também na área ambiental estamos sempre correndo atrás do prejuízo, sem projetos e recursos suficientes para implantar ações que possam direcionar o futuro. Um dos únicos projetos com estas características, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, foi postergado para um tempo ainda indefinido.

Para 2015, portanto, mais do mesmo. Continuam os investimentos minguados em saneamento (que o diga a baía da Guanabara e o rio Tietê), sobra algum trocado para que as agências ambientais possam continuar funcionando (ações de comando e controle), serão realizados alguns seminários e assinados novos convênios (muitos inócuos), mas é só. Com uma economia capengando, sem planejamento e com várias outras prioridades, a questão ambiental não receberá a atenção que tem em outros países. Os recursos naturais se deterioram e, entra ano e sai ano, o país “tem outras prioridades”.      

Acidente de Bhopal faz 30 anos e ainda deixa sequelas

sábado, 17 de janeiro de 2015
"Uso a palavra para compor meus silêncios. 
Não gosto das palavras 
fatigadas de informar."
Manoel de Barros  -  Memórias inventadas

A cidade de Bhopal está localizada na região central da Índia e é capital do estado de Madya Pradesh, com uma população de cerca de 2,7 milhões de habitantes. Bhopal é bastante desenvolvida, abrigando grande número de indústrias do setor eletroeletrônico, de manufatura, tecelagem e químico. Baseado nestas poucas informações, a cidade pouco se distingue das outras dezenas de cidades indianas de porte e atividades econômicas semelhantes, a não ser por um acontecimento: o acidente com vazamento de gases tóxicos na fábrica da Union Carbide.
O acidente ocorreu há 30 anos, no dia 3 de dezembro de 1984, afetando de imediato e em diversos graus cerca de 500 mil pessoas. O vazamento de mais de 40 toneladas de 32 tipos gases tóxicos, entre os quais o metil isocianato usado para a fabricação de pesticidas para uso na agricultura, provocou a morte imediata de 3.787 pessoas, segundo dados oficiais do governo do estado de Madya Pradesh. Dados posteriores de uma comissão de investigação do estado indiano davam conta de que 558.125 pessoas foram afetadas de alguma maneira pelo vazamento do gás, incluindo 38.478 parcial ou temporariamente debilitadas e aproximadamente 3.900 severa ou permanentemente atingidas. Além destes, milhares de outros moradores de Bhopal sofrem de sequelas do acidente, apresentando casos de malformação de fetos, doenças crônicas nos olhos, no sistema respiratório, cardíaco e neurológico. A revista americana “Mother Jones” publicou declaração de um médico que atua em clínicas para afetados pelo desastre, na qual diz que “cerca de 120 a 150 mil sobreviventes ainda lutarão com problemas de saúde como distúrbios neurais, de formação e crescimento, ginecológicos, dificuldades respiratórias e elevadas taxas de tuberculose e câncer”.
Até hoje persiste o debate sobre as causas deste desastre, o maior já ocorrido com uma indústria em todo o mundo. Dados levantados durante as investigações mostraram que antes do vazamento ocorreram acidentes de menor tamanho, envolvendo vazamentos e até hospitalização e morte de funcionários. Manutenção inadequada de válvulas de segurança e ausência de equipamento de proteção individual, como máscaras, foram falhas de operação constatadas nestas ocorrências anteriores. O desastre, segundo os laudos do processo, foi motivado por falta de medidas de segurança e treinamento dos trabalhadores, fazendo com que esses inadvertidamente permitissem a entrada de água no tanque, o que provocou sua explosão e a liberação do gás venenoso. A defesa alega que os trabalhadores agiram sem atenção às normas de segurança, causando assim a entrada de água no tanque.
O processo correu na justiça indiana por anos. Em 1989 a empresa Dow Chemical, então proprietária da Union Carbide, pagou uma indenização de 470 milhões de dólares, além de oferecer ajuda financeira para construção de clínicas para atendimento das vítimas. A reparação, segundo críticos, foi insuficiente dado o número de vítimas e o impacto ambiental. A justiça indiana prendeu altos funcionários da empresa e expediu ordens de prisão contra seu presidente, o americano Warren Anderson, que poucas horas depois de detido foi liberado por ordem de um ministro indiano. A história do acidente, do processo judicial e dos bastidores políticos, é mostrada no filme “A prayer for rain” (Reza por chuva), lançado em 2013. 
(Imagens: fotografias de Marc Ferrez)

Meio ambiente não foi prioridade no primeiro mandato

sábado, 10 de janeiro de 2015
"O que significa ser keynesiano? Duas questões básicas bastarão aqui: (1) a economia privada pode não atingir o pleno emprego; (2) os gastos do governo podem estimular a economia para eliminar a defasagem. Toda vez que um político defende ardentemente uma injeção monetária, ou programas do governo para fazer o país se mexer outra vez, ou cortes de taxas para acelerar o consumo, ele está exaltando Keynes."  -  Todd G. Buchholz  -  Novas ideias de economistas mortos

Termina o ano e com ele o primeiro mandato da presidente Dilma. Baixo crescimento da economia, muitos casos de corrupção, atraso nas obras de infraestrutura, declínio da produção industrial e das exportações; foram alguns aspectos que caracterizaram a administração da presidente. Apesar de alguns avanços no ensino técnico e superior, a qualidade da educação fundamental e média continua ruim, colocado o ensino do país entre os piores dos países em desenvolvimento. A saúde, assim como a educação, continua a apresentar problemas de gestão e falta de recursos. O mau humor da população foi refletido no resultado das eleições presidenciais, com a vitória da situação por pequena margem – 51,64% contra 48,36% –, apesar de toda a força da máquina do governo.
Assim como outros setores, o meio ambiente também não recebeu a devida atenção no governo Dilma. Se o desmatamento da Amazônia vinha sendo mantido sob relativo controle desde o governo Lula, a derrubada da floresta aumentou nos últimos meses do governo da presidente. Sob a alegação de que “o país não havia sido convidado para participar da formulação do documento”, o Brasil também não assinou a Declaração de Nova York sobre Florestas, durante a Cúpula do Clima, realizada na ONU em setembro de 2014. Apesar de abrigar 20% da biodiversidade do planeta, o Congresso Nacional não ratificou a participação do país no Protocolo de Nagoya, documento que estabelece regras para o acesso a recursos genéticos. Sem assinar este documento, as posições do Brasil nas futuras negociações internacionais não terão peso algum, alijando o país de decisões importantes, que poderão nos afetar diretamente.
A administração Dilma não criou nenhuma nova unidade de conservação (UCs) na Amazônia durante os primeiros três anos e 10 meses do mandato. Às vésperas das eleições, no entanto, através de um ato presidencial, o governo criou às pressas novas UCs; duas delas na Amazônia. Em compensação, ao longo de seu governo, a presidente Dilma reduziu áreas de cinco unidades já existentes, para acomodar projetos de hidrelétricas. O novo Código Florestal, aprovado em 2013, foi criticado por ambientalistas, ONGs e organizações científicas porque, segundo estes, resultará na redução da proteção às florestas.
Os investimentos em saneamento, apesar de toda a propaganda realizada em torno do PAC, ainda são insuficientes para se alcançar a universalização destes serviços. Segundo o BNDES, os investimentos anuais médios no tratamento de água e esgoto têm sido de R$ 10 bilhões. A ONG instituto Trata Brasil informa que para oferecer saneamento a todos os cidadãos no prazo de 20 anos, o país precisará investir anualmente R$ 16 bilhões.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos também avançou pouco durante este governo. Criada no final do governo Lula, a lei estabelecia um prazo – agosto de 2014 – para que todos os municípios acabassem com seus lixões ou aterros controlados. Sem apoio do Ministério do Meio Ambiente, as prefeituras em sua maioria puderam alegar não terem recursos financeiros e humanos para implantar esta medida. A pá de cal veio com a Medida Provisória 651, através da qual, entre outras coisas, o Congresso pretendia prorrogar a aplicação da lei por mais quatro anos – artigo vetado pela presidência. Parlamentares deverão apresentar uma nova solução para o caso.
Espera-se que em seu novo mandato que começa este ano, a presidente Dilma - mesmo às voltas com tantos problemas econômicos e sociais - possa dar a devida atenção também às questões ambientais. Os recursos, sempre é bom lembrar, uma vez que se foram podem não voltar.
(Imagens: fotografias de Lewis Hine)

Diminuição de chuvas requer medidas de prevenção

sábado, 3 de janeiro de 2015
"(Ludwig von) Mises foi o primeiro a compreender integralmente que a divisão entre Stalin e Hitler, socialismo e fascismo, direita e esquerda, era uma ilusão, e que o movimento totalitarista baseado em Berlim era substancialmente similar àquele de Moscou. 'A terminologia da linguagem política é uma tolice'."  -  Kevin D. Williamson  -  O livro politicamente incorreto da esquerda e do socialismo

A crise da água está afetando grande parte do Brasil e, com exceção da região Norte, agora deverá ocorrer periodicamente no restante do país, segundo previsões de especialistas. Começa assim uma nova era, na qual a antiga fartura de água em grande parte do território nacional mais densamente habitado será condição do passado. Em sua vida diária e nas atividades econômicas a sociedade precisará gradualmente se adaptar ao novo clima: mais seco, com temperaturas crescentes e menores precipitações pluviométricas. As cidades e todas as atividades econômicas que ocorrem em seu interior – construção, indústria, comércio, turismo – e no seu entorno – agropecuária geração elétrica e mineração – serão fortemente afetados.
Os fatores causadores destas estiagens são, dentre os principais: o fenômeno do El Niño, variação da temperatura do oceano Pacífico que influencia o regime de chuvas; os impactos das atividades econômicas, como o crescimento das cidades e o aumento da frota veicular; as mudanças climáticas em todo o mundo; e, muito provavelmente, o incessante desmatamento da Amazônia. Estas as causas mais prováveis da redução do volume e freqüência das chuvas no Sudeste e Centro-Oeste do país. No Nordeste, observa-se há anos o agravamento da seca.
Céticos dizem que a fase de poucas chuvas poderá se estender por alguns anos e depois, assim como surgiu, desaparecer. A hipótese não é improvável, mas a se considerar a série histórica de medições da precipitação pluviométrica em várias partes do país, não é isto o que vem ocorrendo. As chuvas efetivamente vêm rareando e o país precisa se preparar para esta nova realidade.
A construção civil é um dos maiores usuários de água, no âmbito das atividades econômicas que se realizam na área urbana. Através do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS) e com o apoio do Ministério do Meio Ambiente e do PNUMA (Programa das Nações Unidas para Meio Ambiente) o setor da construção apresentou recentemente o estudo “Aspectos da Construção Sustentável no Brasil e Promoção de Políticas Públicas”. O trabalho apresenta 25 recomendações que servem de apoio à elaboração de políticas para incentivar o uso eficiente da água em edificações, através de campanhas educativas, incentivos econômicos e incorporação de novas tecnologias.
Outro setor econômico que se preocupa há algum tempo com a escassez de água é o agrícola. Através da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) o setor já pesquisa novas espécies de plantas mais resistentes à seca. Tendo decifrando o genoma (o mapa genético da planta) de espécies como o café, a soja, o milho, o feijão e o tomate, a empresa agora procura genes (partes do genoma) que inseridos no genoma da planta têm o potencial de tornar o vegetal mais resistente à seca.

Além destes, existem vários outros exemplos do que vem sendo feito para reduzir o uso de água: economia de água na pintura de automóveis; redução do uso de água na irrigação; uso de aditivos em substituição à água no concreto; medidas de reuso de água em residências, escritórios e fábricas; armazenagem e reutilização da água da chuva. São técnicas cujo uso precisa ser incentivado por associações e regulado pelo poder público; setores que devem liderar a iniciativa de implantar medidas preventivas com o objetivo de preparar o país para tempos mais secos.
(Imagens: fotografias de Cristiano Mascaro)

..."de dia falta água, à noite falta luz!"

sábado, 27 de dezembro de 2014
"A religião não é um tipo primitivo de teorização científica, nem a ciência é um tipo superior de sistema de crenças. Assim como os racionalistas interpretaram mal os mitos, como se fossem protoversões de teorias científicas, cometeram o erro de acreditar que as teorias científicas podem ser literalmente verdadeiras. Ambos são sistemas de símbolos, metáforas para uma realidade que não pode ser expressa em termos literais."  -  John Gray  -  A busca pela imortalidade

Como se não bastasse parte do país enfrentar a maior falta d’água nas últimas décadas, corre também o risco de enfrentar “cortes seletivos de energia”. O aviso foi dado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) aos geradores e distribuidores de energia. A medida, segundo especialistas, pode-se fazer necessária para manter os níveis dos reservatórios de água, garantindo o fornecimento de energia principalmente para as grandes cidades nos meses de janeiro e fevereiro, quando há um aumento da demanda por eletricidade.
A ocorrência de uma eventual economia forçada de energia não é novidade para aqueles que atuam no setor elétrico. Esta coluna já havia comentado o fato em janeiro deste ano, com o artigo “Calor aumenta a demanda por eletricidade”. Assim, à medida que o nível dos reservatórios baixava, sem que o volume de água fosse reposto pelas chuvas tão aguardadas, seria só uma questão de tempo para que o governo fosse forçado a implantar medidas mais duras de economia de eletricidade. Durante o período pré-eleitoral nada foi feito para não atrapalhar a campanha de reeleição da presidente Dilma – assim como o governo de São Paulo também procurou postergar ao máximo a discussão da crise hídrica.
Até agora o governo não tomou nenhuma providência concreta, baseado no fato de que, segundo a própria presidente, o país tem 20 mil megawatts de reserva em energia térmica. No entanto diversas instituições e ONGs vêm chamando a atenção sobre a necessidade de ser iniciar uma campanha para economizar eletricidade, assim como já está sendo feito para a água. Claudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil, disse em declaração ao jornal Folha de São Paulo que “Os reservatórios estão em nível inferior ao de 2013, que já era crítico. Para evitar especulações, o governo deveria ter maior clareza em suas ações.”
O fator mais importante deste dilema é o volume de chuvas que São Pedro nos colocará à disposição entre novembro de 2014 e março de 2015, tanto para o abastecimento de água quanto a geração de eletricidade. Dependendo da quantidade de água que cair sobre a região Sudeste e Centro-Oeste, aumentará ou diminuirá o risco de desabastecimento de energia e água nas regiões em 2015. Ainda assim, há males que vem para o bem: não fosse a crise econômica e a baixa produção industrial, o consumo de água e energia seria ainda maior, forçando o governo a implantar medidas de racionamento imediatamente.
Prevenir é sempre a melhor política de segurança. Mesmo que a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) ou o MME ainda não tenham anunciado oficialmente a necessidade de economizar energia elétrica, o cidadão já pode começar a fazer a sua parte. Existem diversos sites que contêm sugestões sobre como reduzir o consumo de energia com a troca de lâmpadas, cuidados com aparelhos elétricos e eletrônicos; medidas que poderão fazer uma grande diferença na conta de luz ao final do mês.
Além disso, podemos cobrar de nossos deputados a votação de leis que ajudem na implantação de políticas mais duras com relação à eficiência energética. É incrível o volume de eletricidade perdida em equipamentos de uso diário, que utilizam tecnologias ultrapassadas. O custo desta energia dissipada é pago pelo consumidor. Já que o país precisa economizar energia, podemos exigir que se fabriquem produtos mais modernos e eficientes.
(Imagens: fotografias de Marcel Gautherot)

Energia solar: o avanço da solar fotovoltaica

sábado, 20 de dezembro de 2014
"Ver a mente consciente pela ótica da evolução, desde as formas de vida simples até os organismos complexos e hipercomplexos como o nosso, ajuda a naturalizar a mente e mostra que ela é resultado de um aumento progressivo da complexidade no idioma biológico."  -  Antonio Damasio  -  E o cérebro criou o homem

O Brasil é o país com o maior potencial de aproveitamento de energias renováveis em todo o mundo, dada sua extensão territorial e localização geográfica. Diferente de outros países que optaram por matrizes energéticas baseadas no petróleo, no carvão e no urânio, estruturamos nossa geração elétrica sobre a matriz renovável hidráulica. Ainda hoje, apesar de grande parte dos principais reservatórios da região sudeste estar com baixa capacidade de água, cerca de 70% da eletricidade consumida no país provêm desta fonte.
Energia renovável sempre foi a opção mais disponível para acionar a economia do país. Nos anos 1970, quando o preço do petróleo chegou a aumentar 400% em alguns meses, o governo implantou um dos maiores programas de combustível renovável em todo o mundo, o Proálcool. A exploração da cana-de-açúcar utilizada para produzir o álcool gera excedentes de biomassa – o bagaço de cana – que é utilizado pelas usinas para gerar eletricidade. Outra fonte renovável, o óleo vegetal, é a matéria prima principal do programa nacional do biodiesel, que hoje adiciona 7% de óleo ao diesel de petróleo, reduzindo importações de óleo mineral e emissões provocadas por sua queima.
Através de outra fonte energética renovável, o vento, o Brasil produz atualmente mais de cinco mil Megawatts (MW) de eletricidade. O parque eólico nacional está em rápida expansão, incentivado pela redução dos custos dos equipamentos, disponibilidade de financiamento privado e público para os projetos e leilões de compra de energia organizados pelo governo. Em 2014 o país tornou-se mundialmente o sétimo colocado em número de parques eólicos instalados, atrás apenas de China, Alemanha, Reino Unido, Índia, Canadá e Estados Unidos.
A energia solar fotovoltaica é a renovável que até o momento vinha recebendo pouco apoio do governo. A criação da figura do micro produtor de energia pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), em 2012, e a eliminação de impostos na cadeia produtiva, pouco ajudaram a impulsionar este setor e aumentar a capacidade instalada – hoje em torno de 10 MW. No entanto, recentemente foi dado um importante passo, que poderá impulsionar o mercado de energia solar fotovoltaica da mesma forma como ocorreu com a energia eólica há cinco anos. Através do Leilão de Energia de Reserva foram contratados 889,7 MW de energia fotovoltaica – praticamente 80 vezes mais do que a capacidade atualmente instalada – para serem entregues até 2017. A iniciativa de compra de energia solar através de leilões já havia ocorrido em Pernambuco em 2013, e teve um impacto local. O leilão nacional ora realizado envolverá um numero maior de empresas, fortalecendo o setor no país. “Este é um passo importantíssimo para o fortalecimento da (energia) solar no Brasil. O volume contratado foi excepcional”, afirmou Bárbara Rubim, da campanha de Clima e Energia da ONG Greenpeace.

A energia solar fotovoltaica tem como vantagem sobre as outras renováveis seu baixo custo de instalação – o preço dos painéis solares vem caindo a cada ano – e a flexibilidade da geração descentralizada. Uma providência a ser tomada em curto espaço de tempo é a regulamentação da figura do micro produtor de energia, possibilitando que este possa suprir a rede e que seja remunerado, como acontece nos mercados de energia da Europa e dos Estados Unidos. 
(Imagens: fotografias de Jules Aaron)

Brasil aumenta emissões de gases de efeito estufa

sábado, 13 de dezembro de 2014
..."por outro lado, a ideia de acaso é, talvez, dentre todas as que os homens puderam conhecer, a mais difícil de ser assumida por sua afetividade, pois implica a insignificância radical de todo acontecimento, de todo pensamento, de toda a existência."  -  Clement Rosset  -  A anti natureza elementos para uma filosofia trágica

As emissões brasileiras de gases de efeito estufa (GEE) aumentaram em 7,8% no último ano, segundo o estudo “Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa 2014”, divulgado pela rede de ONGs Observatório do Clima. A produção de gases poluidores – principalmente dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e perfluorcarbonetos – esteve em queda desde 2005, mas apresentou forte crescimento durante o ano de 2013. O aumento se deu em todos os setores da economia; da indústria ao transporte, passando pela agricultura e às mudanças no uso do solo. A ser mantido este ritmo de crescimento nas emissões, o Brasil não conseguirá cumprir as metas voluntariamente assumidas durante a Conferência sobre o Clima em Copenhague (2009), de reduzir a produção de gases entre 36% e 39% até 2020, em comparação com 1990.
O crescimento das atividades econômicas – apesar do baixo crescimento nos últimos anos – está colocando o Brasil entre as nações mais poluidoras do planeta. Nosso nível de emissão de GEE, medido em toneladas de dióxido de carbono (tCO²), está em 7,8 tCO² por habitante por ano; acima da média mundial de 7,2 tCO²/habitante/ano. Com isso, “estamos muito longe de uma economia de baixo carbono”, segundo Tasso Azevedo, coordenador do estudo, em declaração ao jornal Folha de São Paulo. Dois setores da economia foram os maiores responsáveis pelo aumento nas emissões de gases: mudança no uso da terra (leia-se desmatamento) e energia (incluindo os transportes). O primeiro contribuiu com 16,4% no incremento dos GEE, devido aos desmatamentos na Amazônia e no Cerrado. No setor de energia, aumentou a queima de óleo combustível e carvão usado nas usinas termelétricas e cresceu o consumo de diesel e gasolina no transporte.  
Em 2013 o país gerou aproximadamente 3% das emissões mundiais de GEE, ou seja, 1,56 bilhões de toneladas de CO² ou gás equivalente (1,56 GtCO²e). Para totalizar este volume de emissões, os setores econômicos contribuíram percentualmente da seguinte maneira: mudança de solo/desmatamento – 35%; energia/transportes – 30%; agropecuária – 27%; indústria – 6%; e gestão de resíduos – 3%. Para que possa atingir suas metas de emissão, o Brasil não poderá ultrapassar o volume de dois bilhões de toneladas de CO² equivalente (2,2 GtCO²e) anuais de emissão de gases em 2020.  
Em Paris, no final de 2015, deverá ocorrer a 21ª Conferência sobre o Clima (COP 21), cujo grande objetivo será dar continuidade às discussões em torno do Protocolo de Kyoto, acordo internacional assinado em 1997 que visava reduzir as emissões mundiais de GEE. Diferente das conferências anteriores, a COP 21 será realizada em novo ambiente político.
Os dois maiores emissores, os Estados Unidos e a China, responsáveis por 50% das emissões mundiais e sempre avessos a assumirem compromissos de redução de emissões no passado, estão trabalhando firmemente para baixarem suas emissões domésticas. Com isso, certamente virão à Paris com o objetivo de aceitar metas de redução e também de cobrá-las dos países em desenvolvimento – o chamado Grupo dos 77, entre os quais também se inclui o Brasil. O não cumprimento destas metas de redução negociadas, segundo especialistas, poderia implicar em sanções comercias às nações que não mantivessem o que prometeram. Em Paris não haverá mais espaço para bravatas e promessas sem compromisso em relação ao clima. 
(Imagens: fotografias de John Gutmann)

O ensino da sociologia no nível médio

sábado, 6 de dezembro de 2014
"Quanto à democracia, todos sabemos que os impérios fortes  a mantêm em casa; só os impérios em declínio a concederam, e na menor dose possível."  -  Eric Hobsbawm  -  Globalização, democracia e terrorismo

De maneira diferente ao restante da América Latina e Europa, onde a sociologia começou a ser ensinada no curso superior, no Brasil o ensino da sociologia começou no curso secundário. No Rio de Janeiro o ensino da sociologia teve início no tradicional colégio Pedro II; em São Paulo e Recife em escolas normais, que – equivalentes ao atual nível médio – preparavam professores para o ensino básico. Deduz-se disto, que o ensino da sociologia no Brasil não visava formar novos professores desta matéria. As cadeiras de sociologia nas escolas, como dizem os próprios historiadores da matéria, eram dadas a autodidatas, profissionais sem conhecimentos aprofundados sobre a disciplina.
É somente a partir de 1933 que passa a existir um curso superior de sociologia, na escola livre de Sociologia e Política de São Paulo. Neste início do ensino da sociologia no Brasil, grande parte dos professores era de origem estrangeira, como pode ser constatado do quadro de professores da Universidade de São Paulo (USP), fundada em 1934.
O ensino da sociologia foi se desenvolvendo, principalmente no estado de São Paulo, onde grandes nomes como Florestan Fernandes se destacavam como docentes da USP. Em 1958 o educador Anísio Teixeira funda no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos; o Núcleo de produção de estudos da Sociologia da Educação, que se dedicará a produzir pesquisas nesta área. A iniciativa, no entanto, foi suspensa com as novas diretrizes educacionais estabelecidas depois do golpe militar de 1964. Em 1968, com a reforma do ensino, a pesquisa universitária passa a ser definitivamente desvinculada do ensino. A partir daí ocorre um crescente distanciamento da pesquisa e do ensino da sociologia que perdura até hoje.  
Um dos grandes debates referentes ao ensino da sociologia no nível médio na década de 80 e 90 era com relação à qualidade do material didático. Não havia material específico; os manuais eram generalistas ou eram publicações destinadas aos primeiros semestres dos cursos de ciências humanas e jornalismo. Outro aspecto é que as escolas de ciências sociais, como a escola da USP, não se preocuparam em criar cursos específicos para a formação de professores para o ensino secundário. Além disso, não havia material disponível para os professores; não havia uma prática longamente experimentada e implantada.
Parte destes problemas começou a ser resolvida com a nova Lei das Diretrizes de Base (LDB nº 9.394/96), que também estabeleceu alguns aspectos no ensino da sociologia no nível médio. Mesmo assim, no entanto, os parâmetros do ensino desta matéria ainda não estão totalmente unificados, havendo grandes variações na sistemática e no conteúdo de escola para escola. Outro aspecto é que o ensino da sociologia, apesar de obrigatório no nível médio, ainda não está implantado no currículo de todas as instituições de ensino. Persiste a falta de material didático específico e ainda não existem professores capacitados em número suficiente.
Lançadas as bases para o ensino de matérias banidas pelo período ditatorial, como a filosofia e a sociologia, é preciso que o Ministério da Educação e as secretarias estaduais efetivamente se envolvam com o tema, estabelecendo as bases para o ensino científico da sociologia, impedindo que a matéria seja ministrada com base em ideologias e metodologias políticas reducionistas.
(Imagens: trabalho na Idade Média)

Proteção aos animais

sábado, 29 de novembro de 2014
"Taxar emissões de carbono poderá ser a maneira mais efetiva de acelerar a adoção de inovações que substituam fontes fósseis, principalmente na produção de energia elétrica e em sistemas de transporte. Mas isso só será benéfico para o crescimento econômico quando as correspondentes tecnologias estiverem prontas para comercialização."  -  José Eli da Veiga  -  Sustentabilidade - A legitimação de um novo valor

Nos últimos quarenta anos a ciência aprofundou seus conhecimentos sobre os animais, observando seu comportamento e sua percepção. Em estudos de campo na natureza, em áreas de cativeiro e experiências em laboratórios, os pesquisadores descobriram um complexo “mundo interior”, principalmente nos mamíferos e nas aves. Com isso, é cada vez mais aceita a idéia de que estes animais são seres sencientes; capazes de sentirem prazer e dor, sofrimento e felicidade, sendo dotados de lembranças e pensamentos.
A relação do animal homem com os outros animais sempre foi de estranhamento. Diversas tradições religiosas consideram o ser humano como a única criatura dotada de alma imortal, diferente de outros seres vivos, que segundo o filósofo francês Descartes (1596-1650), não passavam de autômatos que apenas reagiam aos impulsos. Esta visão ainda persiste, por exemplo, em nosso Código Civil, que considera os animais como “coisa fungível (substituível) e semovente (move-se por si mesmo) no caso de possuírem proprietário”. Se não têm dono, são como “res nullius” (coisa de ninguém), podendo ser apropriados por qualquer pessoa. Assim, tratamos juridicamente os demais seres vivos como “coisa” e damo-nos o direito de fazer com eles o que quisermos – geralmente visando lucro.
A ciência, neste caso, tem muito a dizer sobre a complexidade dos animais. Frans de Waal, zoólogo e estudioso de renome internacional, relata em recente artigo (Scientific American Brasil/outubro de 2014), o caso de uma fêmea de chimpanzé que sofre de artrite. Em diversas atividades ela é ajudada por outros macacos de seu grupo. De Waal conclui sobre a cooperação entre primatas: 1) A cooperação não exige laços familiares; 2) A cooperação é muitas vezes baseada na reciprocidade; e 3) A cooperação pode ser motivada por empatia, emoção despertada quando outros sentem dor ou sofrimento. Em toda a sua extensa obra sobre os macacos primatas, o zoólogo procura mostrar que muitas atitudes e reações tidas como humanas, já se encontram, pelo menos em sua forma simples, no comportamento dos nossos primos chimpanzés – pela teoria darwiniana descendemos de uma espécie comum.
Assim, comportamentos de colaboração, partilha e divisão justa, são comuns a muitas espécies. Waal escreve que “A sobrevivência depende de partilhar, o que explica por que humanos e animais são extremamente sensíveis às divisões justas. Experiências mostram que macacos, cães e algumas aves sociais rejeitam algumas recompensas inferiores às de um companheiro que executa a mesma tarefa; chimpanzés e humanos vão ainda mais longe, moderando sua porção de recompensa conjunta para evitar frustração alheia. Devemos nosso senso de justiça a um longo histórico de cooperação mútua” (SCIAM 149).
A revista Página 22, da FGV, publicou em sua edição de julho de 2014 que a França recentemente alterou seu Código Civil, no qual agora os animais não humanos obtiveram o status de “seres vivos dotados de sensibilidade”. No Brasil tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei no. 6.799/13 do deputado Ricardo Izar (PSD-SP), propondo a mudança da natureza jurídica dos animais de “bens de posse” para “sujeitos de direito”, já que segundo o deputado a legislação sobre crimes ambientais é insuficiente para proteger os animais dos maus-tratos. Uma sociedade que respeita os animais não humanos tende a respeitar mais ainda os humanos.  
(Imagens: pinturas rupestres brasileiras)

Até quando continuará o desmatamento?

sábado, 22 de novembro de 2014
"...e cada um, tendo aceitado que a vida não é busca da verdade, que não existe ou nos será sempre inacessível, optará por passear de uma doutrina a outra, interminavelmente, como quem visita paragens distantes, saboreia receitas exóticas, mergulha em águas novas, deixando para trás o pathos da ignorância, seus malefícios, suas trevas ameaçadoras..."  -  Roger-Pol Droit  -  Se só me restasse uma hora de vida

O desmatamento no Brasil tem origens antigas. Populações indígenas que aqui estavam estabelecidas antes da chegada dos europeus, já praticavam a coivara para a formação de roças. Algumas tribos, como os xavantes, usavam o fogo como tática de guerra, segundo relato do sertanista Orlando Villas-Bôas. Mas, como a população indígena era diminuta e as queimadas limitadas a pequenos territórios, a prática tinha pouco impacto ambiental.
A destruição das florestas brasileiras começou com o avanço dos europeus sobre o ecossistema da Mata Atlântica, que originalmente se estendia do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, avançando para o interior do país e ocupando uma área de 1,3 milhões de km². A mata foi o local de extração do primeiro produto de exportação do país, o pau-brasil; madeira usada à época para tingir tecidos. Foi também na zona de influência da Mata Atlântica que se estabeleceram as primeiras cidades brasileiras e onde ainda hoje vive cerca de 80% da população. Até a década de 1950, grande parte da atividade econômica do Brasil – agricultura, mineração e a nascente indústria – estava concentrada em áreas originalmente ocupadas pelo bioma. O mesmo vale para os ciclos econômicos pré-industriais de nossa história; do pau-brasil, passando pela da cana-de-açúcar e o ouro, até o ciclo do café.
À medida que se exaurem os recursos naturais da floresta atlântica, através da atividade agrícola e do crescimento das cidades, se abrem frentes de ocupação de territórios no interior. A industrialização, a construção de Brasília, a expansão da malha rodoviária e o avanço da frente agrícola rumo ao oeste, são os marcos do avanço da economia sobre áreas inexploradas de Cerrado e da floresta amazônica. Nos anos do milagre econômico (1968-1973), quando a economia crescia em média 10% ao ano, o setor agrícola apoiado pelas pesquisas da Embrapa estabeleceu as bases do que hoje é o agronegócio; o setor da economia que mais traz divisas para o país. No início dos anos 1970 o governo militar termina a abertura da rodovia Transamazônica, estrada que mesmo parcialmente pavimentada, percorria 4.223 quilômetros, ligando Cabedelo, na Paraíba, à Lábrea, cidade do extremo oeste do estado do Amazonas. A estrada abre o vasto território da floresta amazônica a agricultores, madeireiros, garimpeiros, caçadores e todo tipo de aventureiros que vão tentar a sorte na região.

Assim, o ritmo de desmatamento da floresta amazônica foi aumentando gradualmente ao longo dos anos, devido às atividades agrícolas e pecuárias. Entre 1550 e 1970 a área desmatada não passava de 1% dos 4,2 milhões de km² que o bioma ocupa em território brasileiro. Nos últimos 40 anos, no entanto, segundo a ONG Greenpeace, 18% da Amazônia brasileira – 756 mil km² – foram derrubados. Nos últimos dez anos o desmatamento vem gradualmente diminuindo, caindo para 1.047 km² entre agosto de 2011 e julho de 2012. Em 2013 o desmate voltou a crescer (2.007 km²) e continua aumentando em 2014. Apesar de existirem metodologias diferentes para avaliar o ritmo de devastação da vegetação, vários fatores indicam que esta vem aumentando.
O impacto do desmatamento de parte da Amazônia será bem maior do que o da Mata Atlântica. Recursos hídricos, biodiversidade e clima serão definitivamente afetados. Depois disso, não haverá mais outro território novo a ocupar.  
(Imagens: fotografias de Walker Evans)

País precisa ser mais eficiente

sábado, 15 de novembro de 2014
" - Um meshummed troca um Deus por outro. Eu não quero Deus algum. Nós vivemos em um mundo onde o relógio se move rapidamente enquanto Ele fica lá no alto de sua montanha onde o tempo não passa, a olhar para o nada. Ele não nos vê, Shmuel, e não se importa conosco. Eu quero meu pedaço de pão hoje, não no Paraíso."  -  Bernard Malamud  -  O faz-tudo

Eficiência é a palavra do momento. É consenso entre os especialistas que o Brasil precisa de um banho de eficiência em todas as áreas. O país cresceu muito nos últimos vinte anos, mas a legislação, a infraestrutura, a formação da mão de obra, a gestão pública, e a administração das empresas pouco acompanharam este desenvolvimento. As melhorias que houve foram pontuais e quando ocorriam, eram barradas pelo mau funcionamento de outros fatores. Assim, por exemplo, a aquisição de modernas maquinas é de pouca valia, se não existem suficientes trabalhadores treinados para operá-las. Da mesma forma a compra de equipamentos hospitalares é inútil, se faltam recursos para instalá-los e colocá-los em funcionamento. De pouco adianta o empresário reformar e modernizar seu negócio, se não treina seus funcionários para melhor atender os clientes.
A eficiência diz respeito a toda a sociedade; ao Estado, ao cidadão e às empresas. Em um mundo no qual os recursos se tornam cada vez mais escassos e onde a população cresce em 78 milhões de pessoas a cada ano, é preciso produzir, distribuir e consumir de uma maneira mais eficiente. São necessárias leis que facilitem estas ações ao invés de dificultá-las; estruturas físicas (estradas, portos, etc.) e capital humano (profissionais capacitados) que agilize este processo. A gestão da sociedade também precisa ocorrer de uma maneira mais racional e objetiva. Para isso é necessária a formação de uma burocracia profissional, que nos níveis federal, estadual e municipal gerencie a máquina pública. Livre de ingerências políticas e da pressão de grupos, este funcionalismo público altamente capacitado deve estar acima de ideologias partidárias, tendo como único objetivo administrar a cidade, o estado ou a nação. O sociólogo Max Weber já apontava, no início do século XX, a importância deste corpo administrativo na condução administrativa de um país, dando suporte aos poderes legislativo, executivo e judiciário.
O uso eficiente dos recursos está inserido nas modernas práticas administrativas de empresas, sejam privadas ou públicas. Quanto mais valor – na forma de produtos ou serviços – é possível produzir com uma quantidade de trabalho e recursos, tanto mais eficiente é um sistema. Este princípio se aplica a máquinas, células de produção, indústrias, setores da economia e nações. Mas também pode ser aplicado a uma repartição pública, a um grupo de parlamentares ou a um tribunal.
Todos estes “processos” se utilizam de trabalho (o conhecimento dos profissionais que desempenham determinada função) e recursos (alimento, água, luz, matérias primas, instalações, equipamentos, etc.). Exemplo positivo de uso eficiente de recursos e aumento da produtividade é o do setor agrícola brasileiro. Enquanto que em 1960 a produção de grãos era de 17,2 milhões de toneladas, utilizando uma área de 22 milhões de hectares, em 2014 a produção é de 195,4 milhões de toneladas, usando uma área de 56,9 milhões de hectares. A produtividade de grãos subiu de 783 quilos por hectare para 3.433 quilos por hectare (jornal O Estado de São Paulo 26/9/2014).
Uma sociedade mais eficiente faz menos uso de recursos naturais e provoca menor impacto ao meio ambiente. Se medidas de eficiência tivessem sido implantadas anteriormente, talvez não precisássemos enfrentar as atuais crises da água e energia elétrica.
(Imagens: fotografias de Bill Perlmutter)

Extinção de espécies, o que perdemos?

sábado, 8 de novembro de 2014
"Minha vida fora tão contínua quanto a morte. A vida é tão contínua que nós a dividimos em etapas, e a uma delas chamamos de morte."  -  Clarice Lispector  -  A paixão segundo G.H.

Nossas atividades econômicas, de uma maneira ou outra, estão gradualmente destruindo o meio ambiente natural. Derrubamos a floresta para criação de gado, preparamos áreas para abertura de condomínios residenciais, canalizamos córregos para construção de estradas; sempre alteramos os ecossistemas originais. Com isso, o complexo sistema formado pelo solo, recursos hídricos, vegetação e animais (inclusive a microfauna) é destruído parcial ou totalmente, fazendo com que perca seu equilíbrio, o que provoca a morte de espécies que habitam o ecossistema. Outros indivíduos da mesma espécie podem voltar a ocupar o ambiente alterado – caso ainda encontrem condições de sobrevivência – ou desaparecer daquela região. Se estas espécies forem do tipo endêmico, que existem somente em um determinado lugar, teremos destruído um tipo de animal ou planta, produto de milhões de anos de evolução, que nunca mais voltará a existir.
O desaparecimento de uma espécie vegetal ou animal, na maior parte dos casos, não tem nenhum efeito sobre nossas atividades diárias – pelo menos é o que a maioria de nós pensa. Que efeito terá sobre nosso dia a dia a extinção de uma planta que só existia nos arredores da região sul da metrópole de São Paulo e que foi extinta com a construção do Rodoanel (tal fato quase ocorreu efetivamente)? O que importa para o país, às voltas com tantos problemas econômicos e sociais, o desaparecimento de uma ave, recentemente identificada na Amazônia, mas que já está em processo de extinção? Pouco ou nada, diremos.
Ainda somos ignorantes em relação às complexas conexões que existem neste vastíssimo sistema chamado vida. Desconhecemos a maneira como a eliminação de um tipo de vegetal ou ave pode influir no equilíbrio (sempre instável) de todo um ecossistema. Quais espécies de animais se alimentavam das folhas e do néctar das flores desta planta, e qual a posição destas espécies na cadeia alimentar daquele ecossistema? Que tipo de inseto e semente foi o alimento da ave? Conhecer as respostas a estas perguntas e muitas outras, poderia ajudar os cientistas a prever as chances de sobrevivência dos ecossistemas dos quais planta e ave desapareceram. Estudar propriedades químicas da seiva da planta e as cores da plumagem do pássaro proporcionaria, eventualmente, novas substâncias para o combate de doenças e conhecimento sobre microestruturas nas penas que, copiadas, melhorariam técnicas de camuflagem. Estas oportunidades, importantes para a nossa vida diária e para os problemas do país, desaparecem quando espécies se tornam extintas. Se cada espécie, planta ou animal, para muitos não tem importância em si e nem por sua função na cadeia da vida, pelo menos deveria ter importância sob aspecto científico e econômico.

A cada mês de novembro, bilhões de indivíduos da espécie de borboleta monarca (danaus plexippus) chegam às florestas das montanhas centrais do México, vindas do Canadá e dos Estados Unidos. Nesta longa migração, os pequenos insetos voam durante dois meses e percorrem até 4.000 quilômetros, para então hibernarem durante o inverno. Cientistas detectaram uma queda no número de indivíduos a cada ano, por causa das condições climáticas mais extremas (provocadas pelas mudanças climáticas) e uso indiscriminado de inseticidas. Se esta espécie de borboleta desaparecer da região, o que teremos perdido? 
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

Falta de chuva prenuncia mudanças globais

sábado, 1 de novembro de 2014
"As leis são como teias de aranha: assim como estas pegam as criaturas mais fracas, mas não retêm as mais fortes, aquelas restringem os humildes e os pobres, mas não os ricos e os poderoso."  -  Valério Máximo  -  Fatos e ditos memoráveis 

A falta de chuvas em diversas regiões brasileiras poderá comprometer a economia brasileira por muitos anos. Haja vista que 70% do estado de São Paulo, a unidade da federação mais desenvolvido do país, estão sendo fortemente afetados pela estiagem. Agricultura, indústria, geração de energia, turismo, pecuária, transporte hidroviário; diversos setores econômicos estão reduzindo suas atividades, diminuindo faturamento e demitindo empregados.
O mesmo acontece nas regiões banhadas pelo Rio São Francisco. Segundo reportagem do jornal O Estado de São Paulo, a vazão do rio é atualmente de 49 metros cúbicos de água por segundo (m³/s); muito abaixo de seu volume normal de 2,8 mil m³/s e o menor nos últimos 83 anos de medição.  No Alto São Francisco, no estado de Minas Gerais, a falta de água está afetando plantações de café e eucalipto, a criação de gado e pequenos agricultores, que suprem grande parte da demanda de alimentos das cidades da região. Afluentes do grande rio se transformaram em caminhos para carroças e cavalos e a represa hidrelétrica de Três Marias, que funciona como uma caixa d’água do lugar, está quase seca. A região, segundo os cálculos da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural - Emater de Montes Claros (MG) acumula prejuízo de R$ 1 bilhão nas secas dos últimos anos. A situação de estiagem prolongada se estende por todo o curso do rio, alcançando também os estados do nordeste.
Seca semelhante está afetando o estado americano da Califórnia, que enfrenta sua terceira pior estiagem nos últimos 106 anos, segundo o jornal The Washington Post. Pastos estão estéreis, os níveis dos reservatórios caíram e o custo da taxa d’água aumentou. Com isso, aumentaram os preços das frutas em todos os Estados Unidos, já que a Califórnia produz 70% do volume das 25 frutas mais consumidas no país.
A situação se repete em varias partes do globo. Segundo o Sistema Global de Informação de Secas (Global Drought Information Systemwww.drought.gov) o norte da China passa pela pior seca nos últimos 60 anos. No Quênia e na Somália, 2,5 milhões de pessoas enfrentam uma forte carestia devido à falta d'água para irrigação, e a Austrália deve perder 29% de sua safra 2014/2015 de algodão por ausência de chuvas. Não é simples coincidência que 2014 certamente será o ano mais quente da história, segundo a NASA, desde as primeiras medições em 1880.
Em recente texto publicado no Caderno Aliás do jornal O Estado de São Paulo, o escritor americano Lee Siegel, relata que “Lucrécio (filósofo romano) escreveu certa vez que para muitas pessoas a morte é um boato. O mesmo princípio se aplica ao aquecimento global. Você não admite que a Terra seja mortal da mesma maneira que sabe que você mesmo é.” Este é o maior problema de parte dos tomadores de decisão no mundo: não admitir que haja alguma coisa errada com o clima, que poderá trazer sérias conseqüências à nossa civilização em médio prazo.

Esta “alguma coisa errada com o clima” pode ser o que a ciência chama de comportamento emergente. John Casti, matemático especialista em teoria de sistemas e complexidade, escreve que “traços e/ou comportamentos emergentes são, com frequência, considerados algo ‘inesperado’ ou ‘surpreendente’. Isto acontece porque, de um modo geral, sabemos alguma coisa a respeito das características dos objetos individuais, mas nada sobre as propriedades sistêmicas gerais que emergem das interações”. 
Muitos cientistas estão relacionando a seca do Brasil e de outras regiões da Terra com as mudanças climáticas. No caso do Brasil, fala-se no aumento do desmatamento da Amazônia, região responsável pela umidade que se precipita nas regiões sul e sudeste na forma de chuva.
Ainda é difícil prever as consequências da interação entre sistemas complexos como a floresta amazônica e o clima. A falta d'água, no entanto, pode ser um "comportamento emergente" da interação destes sistemas; um prenúncio de outros fenômenos que deverão ocorrer em futuro próximo.
(Imagens: fotografias de Albert Renger-Patzsch)

Ética e a "Ética a Nicômaco": algumas considerações

sábado, 25 de outubro de 2014
"Quero dizer que o que observamos, na realidade, é sempre uma combinação de circunstâncias contextuais com um elemento de causalidade, que não tem como ser previsto."  -  John Casti  -  O colapso de tudo


Os atos morais são aqueles passíveis de aprovação ou desaprovação, de acordo com as normas aceitas. A este conjunto de atos e das normas chama-se moral. A ética, por outro lado, é o estudo dos atos e fatos morais. A liberdade ética é a capacidade de autodeterminação do ser humano, sem a qual a moral não pode existir. Usando de sua liberdade, o homem aspira a ser feliz e para isso se dirigem todos os seus atos.
A ética investiga racionalmente os atos morais; é uma ciência porque investiga sistematicamente e de uma maneira racional os atos humanos. Os princípios universais nos quais a ética se baseia são, todavia, sujeitos as condições sociais de cada grupo humano. A moral é relativa no sentido de se adaptar cada vez mais às condições socioculturais, e não no sentido de ter valor relativo. O pensamento usado na análise ética é o do tipo sintético, que parte de um caso ou casos particulares e então os generaliza (dentro de uma determinada sociedade, uma lei moral é geralmente válida de uma maneira universal). O objeto de estudo da ética são os atos humanos, baseado no que há neles de bom ou mal, com o objetivo de dar aos homens critérios de valores, para que eles possam julgar e balizar suas atitudes.
A moral se estabelece em sociedade, para orientar e estabelecer a correção dos atos humanos, em relação aos outros membros da sociedade. A criação de uma sociedade de classes acaba propiciando o aparecimento da moral dos dominadores e a dos dominados; uma direcionada a manter o status quo, e a outra com um posicionamento crítico (o posicionamento dos dominados).
A ética de Sócrates era baseada no autoconhecimento (conhece-te a ti mesmo). Segundo o pensador ateniense, ninguém é mau porque quer, mas porque é ignorante da verdade. A ética só pode ser desenvolvida através da convivência social – daí a íntima relação da ética e da política. A ética fundamenta-se em três princípios: liberdade, virtude e bem. Para Aristóteles a virtude é ao mesmo tempo liberdade e bem. Protágoras de Abdera, por sua vez, advogava um relativismo que influía na própria ética, já que “o homem é a medida de todas as coisas”. Em suas atividades filosóficas Sócrates se colocava contra este ceticismo ético defendido pelos sofistas.
Quando os homens se agrupam para viver em sociedade, criam governos que, segundo Platão, permite o aparecimento de homens que não são éticos, nem sábios. Estes tipos de governos são: a timocracia, representada pelos donos de terras na antiga Grécia, a forma tradicional de governo. Depois desta fase original aparecem, segundo Platão, a oligarquia, que é o governo dos ricos, sem participação dos pobres; a democracia, onde reina o gosto de cada um, ocasionando a anarquia; e a tirania, onde o tirano torna-se vítima dos seus próprios apetites. No entanto, o Estado ideal, apresentado por Platão na obra A República, é formado por reis-filósofos que dirigem o governo com sabedoria.
Aristóteles, discípulo de Platão, constrói sua filosofia baseada na experiência; todas as idéias são resultantes da experiência. Por isso mesmo, para Aristóteles, a ética não é intuída pelo espírito, mas desenvolvida através da prática social. Desta maneira, para ser feliz, justo e sábio, o homem deve manter-se longe dos excessos e encontrar a prudência, baseado em ações práticas. A ética, para Aristóteles, consiste em procurar a felicidade, organizando sua vida para trilhar o caminho da virtude. A Ética a Nicômaco é uma das obras fundamentais nesta área, tendo balizado toda a ética ocidental, junto com o pensamento judaico-cristão. Com sua obra filosófica, Aristóteles influencia toda a sociedade ocidental, desde a Idade Média.
Na história do pensamento, a ética apresentou principalmente três modelos de conduta: a felicidade ou o prazer, o dever ou a obrigação e a perfeição. A vida em sociedade força o indivíduo a guiar suas ações livres por alguma regra e a moralidade consiste em viver de acordo com estas regras. Desta forma, a ordem moral é o conjunto de relações de utilidade; quem age de acordo com elas age bem, quem as desrespeita age mal. Adicionalmente, de acordo com o fim será a utilidade.

A maior parte dos pensadores aceita que a ação moral só pode ser executada por um ser livre dotado de inteligência. Este pressuposto, no entanto, é colocado em dúvida por filósofos como Spinoza, Hume, Hegel, Nietzsche, entre outros, e vem sendo bastante discutido pela moderna neurologia e psicologia. Mas é regra aceita que a conduta humana só tem significado se existe liberdade. Adolfo Sanches, em sua obra “Ética”, escreve, entre outras coisas, que o conceito de consciência está relacionado ao da obrigatoriedade; a consciência é o juiz dos nossos atos morais. Apesar de livre, a consciência é determinada por fatores históricos e sociais e desenvolve-se através da prática social. Mas, apesar dos diversos determinismos aos quais somos sujeitos, gozamos todos de liberdade suficiente para exercermos nossos atos morais – pelo menos precisamos aceitar este fato para que nossa sociedade continue razoavelmente funcionando.
O principal filósofo a estudar a ética na Idade Média foi São Tomás de Aquino, que fez um trabalho de harmonização do cristianismo e do aristotelismo. Nesse trabalho, Aquino omitiu certos aspectos do pensamento de Aristóteles e adaptar outros aos princípios cristãos. A moral de Tomás de Aquino é essencialista: a moralidade de uma ação é determinada por seu objeto e pela sua intenção. Além disso, Tomás de Aquino também afirmou que assim como existem diversos grupos humanos, existe uma diversidade de leis. A importância de Tomás de Aquino na síntese filosófica e moral da Idade Média são enormes.
Os problemas do campo da ética são caracterizados por sua generalidade, diferentemente dos problemas morais, que aqueles com os quais nos deparamos no dia-a-dia. O valor da ética está em suas explicações e não em suas prescrições.       
Em sua Ética a Nicômaco, no capítulo X, Aristóteles analisa se o prazer é bom ou mau. Afirma que existem várias opiniões e inicia a análise da questão. Apresenta inicialmente a opinião de Eudoxo, que dizia que o que é mais desejado é o maior de todos os bens. Aquilo que é bom para todas as coisas e a que todas elas tendem, é o bem por excelência. Platão, segundo o texto, diz que o prazer não é um bem e que a vida agradável é mais desejável quando acompanhada de sabedoria.
Mais à frente, Aristóteles conclui que, baseado no raciocínio de alguns pensadores, o prazer também tem graduações e não pode ser o preenchimento de alguma carência, já que isto seria somente a supressão de sofrimento. Então, fazendo referência ao prazer de aprender, o prazer dos sentidos e de sensações, afirma que estes não envolvem sofrimento. Conclui seu raciocínio, afirmando que “meu prazer é o bem, nem todo prazer é desejável, e que alguns prazeres são efetivamente desejáveis por si mesmos, distinguindo-se eles dos outros em espécie ou quanto às suas fontes. Acerca das opiniões correntes sobre o prazer e o sofrimento, basta o que dissemos.” (Aristóteles, 2002, pg.221).   
Continuando sua análise do prazer, Aristóteles se pergunta o porquê de ninguém sentir prazer continuamente, já que isto seria impossível para o ser humano, como atividade constante. Quanto à questão de escolher, escolher a vida, tendo em vista o prazer, ou o prazer tendo em vista a vida, a questão fica, por enquanto, sem análise, já que os dois permanecem ligados, visto que sem atividade não há prazer. Mais à frente o texto afirma que algumas atividades têm efeitos contrários, sendo que prazer e certas atividades podem estar em lados opostos. Além disso, como existem atividades diferentes, há diferentes tipos de prazer; uns superiores e outros inferiores.
Depois de falar das virtudes, as formas de amizade e as várias espécies de prazer, Aristóteles passa a discutir a natureza da felicidade, já que ela é o fim da natureza humana. Aristóteles inicia sua argumentação afirmando que à felicidade nada falta; ela é auto-suficiente. As atividades desejáveis não visam mais nada do que a si mesmas, e as ações virtuosas são desta natureza. Já que muitos encontram o bem-estar em algum passatempo, Aristóteles inicia a discussão deste tema e conclui que a felicidade não está no divertimento. Todavia, não nega que o divertimento é necessário para o relaxamento, após muito trabalho. Em seguida, Aristóteles discute sobre a superioridade das atividades sérias sobre as risíveis. Conclui que a felicidade não está em passatempos, mas sim nas atividades virtuosas. Ao final da argumentação, conclui que “a sabedoria filosófica é reconhecidamente a mais agradável das atividades virtuosas”. (Aristóteles, 2002, pg. 229).
Ainda sobre a contemplação filosófica, Aristóteles afirma que esta atividade será a felicidade completa do homem. Em outro ponto diz que não devemos nos ocupar com coisas humanas e mortais, já que nós próprios o somos. Devemos sim, assim que possível, ocupar-nos com assuntos imortais, “esforçando-nos para viver de acordo com o que há de melhor em nós.” (Aristóteles, 2002, pg.230).
Comparando a vida dos deuses, Aristóteles afirma que a atividade perfeita é uma vida contemplativa equivalente aquela dos deuses, que vivem em bem-aventurança. O homem é feliz enquanto consegue imitar os deuses nesta atividade na contemplação; a contemplação e o cultivo da razão, aliadas a uma vida virtuosa, são exatamente as qualidades do filósofo, o mais feliz dos homens e querido dos deuses.

Discutindo sobre como os homens adquirem vontade, Aristóteles conclui que a virtude é em grande parte motivada por uma predisposição dada pelos deuses, aliada ao cultivo de virtudes através da convivência social. “É indispensável que o caráter tenha alguma afinidade com a virtude, amando o que é nobre e detestando o que é vil.” (Aristóteles, 2002, pg.235). Aristóteles afirma que os homens que se empenham em tornar outros melhores, devem ser capazes de legislar. As leis e as constituições, segundo o Estagirita, podem tornar as pessoas melhores.
Bibliografia:
Aristóteles. Ética a Nicômano. Editora Martin Claret: São Paulo, 2002, 240 pgs.
(Imagens:pinturas do budismo chinês)

Floresta amazônica: ocupação, preservação e pesquisa

sábado, 18 de outubro de 2014
"O homem tornou-se um ser supersticioso ou religioso pelo simples fato de que ele era um ser mais inteligente que os outros."  -  Jean-Marie Guyau  -  A irreligião do futuro

A floresta amazônica é um dos recursos naturais mais importantes de que dispõe o planeta. Os serviços ambientais prestados pelo imenso bioma incluem itens como: geração de chuvas para outras regiões do planeta, equilíbrio do clima local e global, manutenção de recursos hídricos, além de abrigar uma extensa variedade de ecossistemas. A ciência ainda não conseguiu avaliar o quanto e como a imensa floresta influencia o ciclo de vida na Terra.
Dados geológicos revelam que a complexa cobertura vegetal na região é bastante antiga, existindo há pelo menos 55 milhões de anos; sendo anterior ao aparecimento da cordilheira dos Andes. Durante as eras glaciais nos últimos dois milhões de anos, as baixas temperaturas médias globais fizeram com que a floresta encolhesse, sendo substituída por grandes extensões de savanas. Quando as geleiras no hemisfério norte recuavam, o clima na região amazônica também voltava a ficar mais quente e úmido, ocorrendo novamente a expansão da floresta tropical.
A Amazônia passou a ser efetivamente ocupada a partir dos anos 1970 quando o governo militar, com medo de uma invasão estrangeira, resolveu colonizar a região construindo a rodovia Transamazônica e distribuindo lotes de terras para milhares de migrantes pobres. A falta de apoio técnico e financiamento para os agricultores, aliada à péssima infraestrutura de transportes – impossibilitando o escoamento de colheitas e o deslocamento de equipamentos – fez com que a maioria dos colonos abandonasse a região depois de alguns anos.
Se a agricultura familiar não pode prosperar na região, as grandes fazendas e grupos econômicos – nacionais e internacionais – passaram a tomar extensões de terra cada vez maiores. Esta ocupação, muitas vezes realizada de forma violenta e fraudulenta, estava associada a grandes desmatamentos, já que à época o governo federal e os governos locais ofereciam incentivos para a derrubada da floresta. A partir dos anos 1980 a expansão da agricultura e pecuária na região, acelerou ainda mais o processo de degradação do bioma.
Nos últimos quinze anos cresceu visivelmente o interesse, tanto no Brasil quanto no exterior, em preservar a floresta. Estudos científicos, relacionando a supressão das grandes florestas tropicais de todo o planeta às mudanças climáticas e ao aumento da temperatura média, chamaram a atenção da comunidade internacional para a região. Interessava agora preservar a floresta, para que esta pudesse continuar a fornecer seus importantes serviços ambientais.
À época, o governo Lula implantou medidas de controle e cooperação com ONGs atuantes na região, conseguindo reduzir drasticamente os índices de desmatamento. O governo atual manteve esta política, estabelecendo acordos de cooperação com instituições internacionais. Entre agosto de 2012 e julho de 2013 o desmatamento foi de 5.891 km², a segunda menor taxa de desflorestamento nos últimos 25 anos. Com essa redução o país poderá receber até 2,5 bilhões de dólares em pagamentos por redução de emissões de gases.     
Técnicos do Brasil e da Alemanha estão construindo uma torre para monitoramento da atmosfera da Amazônia. A estrutura terá 330 metros de altura, disporá de mais de 30 instrumentos científicos e durante 20 anos colherá dados sobre como a floresta influencia o clima global e é influenciada por este.  
(Imagens: fotografias de Russel Lee)