História e generalização

sábado, 24 de fevereiro de 2018
"A história não é o palco da felicidade; nela, os períodos de felicidade são páginas em branco"   -   G.F. Hegel, citado por Eduardo Gianetti em "O Livro das Citações"

"Para onde caminha o nosso país?", perguntamos.

Será que faz algum sentido dizer que uma sociedade, um movimento cultural, a economia, ou o desenvolvimento de uma espécie estavam "ali" (ou "assim") - significando isso determinada condição, com características específicas em um tempo passado -, e agora está "aqui" (ou "dessa nova forma"), representando isso uma nova situação sob diversos pontos de vista, em um tempo posterior?

Esta é uma forma bastante comum de encarar um fato ou um acontecimento, que se estende por certo tempo (a queda de um meteorito, uma revolução, um movimento literário, a construção de uma hidrelétrica). É a tentativa de ressaltar certos aspectos de um acontecimento e através deles caracterizar o fato em determinado instante no tempo. Por exemplo, a divisão da escola impressionista de pintura em impressionismo, pós-impressionismo e neo-impressionismo. Em cada uma dessas fases, o movimento apresenta certas características pictóricas expressas por determinados pintores.

No entanto, a delimitação de períodos históricos e situações servem apenas para facilitar seu entendimento, através da generalização. Reunimos certo numero de fatos - muitas vezes pouco numerosos - a respeito de determinado tema ou período de tempo, e disso tiramos conclusões. Geralmente generalizações, baseadas em informações, amalgamadas por pressupostos ideológicos. É desta maneira que, conscientemente ou não, com maior ou menor profundidade de análise e quantidade de dados, se formam as teorias históricas.

Os diversos fatos históricos são, assim, como que "instantes congelados" de um longo processo, que a nosso ver é limitado, por considerar o fluxo histórico (a própria expressão "fluxo" já transmite a ideia) como um processo linear. Não considera a complexa inter-relação entre fatos desconhecidos, que antecedem ou são contemporâneos ao fato histórico em consideração, mas exercem sobre ele uma influência.

O ponto fulcral da questão é que não há como exatamente caracterizar cada fase de processos deste tipo; são fatos naturais (que incluem fatores humanos) onde um número imenso de fatores exerce sua influência no processo que se observa. São o que modernamente se denomina sistemas complexos. O clima, a bolsa de valores, revoluções, períodos econômicos, desenvolvimento de tendências culturais, etc. Falaremos disso mais adiante.

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A delimitação de períodos e fatos históricos serve apenas para facilitar seu entendimento, por meio de generalizações. Apontamos certos fatos de um determinado período histórico, dos quais temos conhecimento, e tentamos formar um quadro do período, identificando tendências - que, já o sabemos de antemão porque para nós são passado, depois se confirmaram.

Mesmo assim, a pergunta quanto à direção para onde caminhavam reinos, impérios e repúblicas sempre existiu, em todos os lugares, ao longo da história humana. Profetas do antigo reino de Israel perguntavam-se qual seria o destino reservado ao seu povo, afastado da prática da Lei. Cônsules romanos condenavam a lassidão de uma sucessão de imperadores, enquanto se preocupavam com o futuro do Estado. Paladas de Alexandria, poeta do século IV, lamentavam o gradual esquecimento da cultura grega, suplantada pela expansão de um culto popular, o cristianismo, e se indagava sobre o que seria da fenecente tradição helênica.

A resposta a estas perguntas que os antigos se faziam, ou seja, o que ocorreria ao reino de Israel, ao império romano e à cultura da Grécia Antiga no período cristão, hoje nos é clara. Causada por acontecimentos, ações de indivíduos, fenômenos naturais e outros fatores, a história tomou determinado rumo. E as sociedades que existiram posteriormente interpretaram os fatos antigos de determinada maneira - à sua maneira.  

A esta interpretação, esta "leitura" dos fatos antigos (ditos históricos) - baseada em condições culturais, econômicas e sociais atuais, já que o "ambiente" do reino de Israel ou da Antiga Roma não existiam mais -, convencionamos chamar de história. Ou História, como preferem alguns que acreditam na história como uma coisa única possível; como se esta sucessão de fatos aceitos batizados de "história" fosse a única maneira de olhar este vasto universo de acontecimentos ocorridos em determinado período; como se fosse a verdade (esta, outra palavra sempre dada a interpretações).  
   

Chamamos de história aquela quase infinita sucessão de fatos que ocorrem em um tempo e espaço definidos, dos quais, por diversas razões culturais, políticas e econômicas, escolhemos alguns em uma sucessão e interligação, e lhe damos o nome de "história". A história sob o ponto de vista de determinado grupo étnico, nação ou cultura. É dessa forma que se contam e escrevem as "histórias" das nações, por exemplo - preponderantemente sob o ponto de vista da ótica cultural de grupos que detêm o domínio da cultura - os que dominam direta ou indiretamente a produção e reprodução da cultura nessa sociedade. O mesmo ocorreu com o cristianismo em seus alvores. A Bacia do Mediterrâneo pululava de seitas cristãs entre o século II e IV. Foi somente através dos concílios eclesiásticos, que grupos (política e econômica) dominantes puderam impor sua maneira de interpretar a nascente religião ao restante das comunidades cristãs. Assim, foi aos poucos sendo estabelecida a ortodoxia e a ortopraxia, sob o comando de um grupo que se tornou hegemônico, que se denominou Igreja Católica (do grego katholikos, universal). 

Se nos aprofundarmos na análise do assunto, podemos também chegar a concluir de que não existe uma só História, mas histórias. Histórias do Brasil, histórias da religião cristã, histórias da ciência, histórias (ou biografias) da vida de Thomas Edison e Pelé, histórias da rede de lanches McDonald, histórias do hospital das Clínicas, histórias do conceito de crime político... Diversas maneiras de interpretar uma sucessão de fatos biológicos, culturais, econômicos, políticos religiosos, etc. (eu prefiro usar o termo "teia de fatos" ao invés de "sucessão de fatos", já que "sucessão" me parece por demais linear e, assim, unidimensional).

Estas histórias particulares sobre cada assunto (Brasil, cristianismo, Pelé, McDonalds, crimes, etc.) são incorporadas a um "relato maior"; a história universal. Vários aspectos em comum são encontrados entre as duas narrativas e, assim, minha história pessoal e a da minha dor de dente se inserem perfeitamente na história da humanidade. Mas, todas as "histórias", não esqueçamos, são elaboradas sob determinada ótica; o relato da minha biografia junto com minha dor dentária é narrado de acordo com aquilo que penso seja a "minha" visão de minha situação no mundo - visão ideológica que reúne os fatos num todo. 

As interpretações da "grande história" são baseadas em certos pressupostos, muitas vezes sob uma perspectiva teleológica, isto é, com a intenção de dar um objetivo ou sentido àquela "história" que se interpreta. Este é, aliás, mais um aspecto implícito e pouco percebido por trás da história. A grande maioria das pessoas sempre tem em mente que a história, seja qual for, sempre teve ou tem um sentido, um objetivo. Como se o sentido implícito da Revolução Francesa fosse disseminar os ideais do Iluminismo por toda a civilização ocidental. Como se a história tivesse alguma meta, objetivo, a "realização do Espírito", segundo o filósofo G.F. Hegel ou o conceito de Parusia do cristianismo. A noção de que a história humana tem algum sentido - uma história linear, muitas vezes conduzida por e em direção a uma divindade ou seu domínio - é comum a diversas religiões, que tomaram este conceito por variadas rotas culturais do Zoroastrismo, religião persa fundada pelo mítico taumaturgo Zoroastro, que supostamente floresceu no XI século AEC na Pérsia.

O que defendo aqui, junto com muitos outros autores modernos, é que não existe um conceito único de história. Aquilo que assim denominamos é apenas uma generalização para facilitar o entendimento de certos fatos e estabelecer um parâmetro comum, uma "linguagem", que possa ser compreendida e usada por todos. Algo comparável ao Sistema Métrico Decimal, sistema de medidas criado durante a Revolução Francesa, que foi adotado como padrão na maior parte do mundo. É assim que, por exemplo, países orientais como a China ou a Arábia, em negociações com governos ocidentais, aceitam certos parâmetros da nossa maneira ocidental de ver a história - mas isto somente nestas ocasiões, já que países com longa herança cultural (e histórica) são muito zelosos de suas tradições (leia-se de suas visões culturalmente específicas de interpretar a história).
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Para concluir, gostaria de agregar e sintetizar os pontos que tentei expor neste curto ensaio:
- A chamada história, História ou "Grande história" reúne relatos os quais, devido a inúmeros aspectos culturais, políticos, econômicos, técnicos, religiosos e históricos formam a maneira comum, universal e mais simples de disseminar conhecimentos relevantes sobre períodos de tempo na história da humanidade, de um povo, de ideias ou de outra coisa qualquer. Esta maneira de "contar" o que supostamente ocorreu em detalhes no passado é uma interpretação. Os reais acontecimentos e seus encadeamentos (se é que os houve) nunca poderão ser recuperados; talvez com um Túnel do Tempo, como imagina a ficção científica;

- Não existe a história sob o ponto de vista do "Olho que tudo vê"; um ponto de vista absoluto, divino. Essencialmente há quase infinitas "histórias". Cada diferente maneira de associar os fatos, agregados por variadas ideologias, forma uma diferente visão da história. A visão que os índios têm do processo de colonização das terras brasileiras é bem diferente daquela do civilizado. A visão que membros de um partido têm de um período histórico é bem diferente da de indivíduos de outra agremiação partidária;

- Outro aspecto é que existem histórias ignoradas, se desenrolado paralelamente à história oficial. Sob o aspecto político, será que a história do império no Brasil terminou? Descendentes da Casa Real brasileira ainda estão vivos - os Orleãs e Bragança - e seguramente existem dezenas, se não centenas de milhares de brasileiros que se colocam a favor da volta da monarquia, e muitos de uma forma ou outra lutam por isso. Assim, podemos considerar que existe uma história da monarquia no Brasil, que ainda se desenrola. Paralelamente a história da monarquia, existe a história da padaria da esquina, a história do grão de areia da praia e a história da árvore da floresta amazônica; aquela que nunca ninguém viu cair;

- A história não é linear. O conceito hegeliano de "tese-antítese-sítese" é linear (pelo menos em sua ideia original) e tem influencia na maneira como a maior parte dos estudiosos encara o estudo da matéria. Para teóricos de história influenciados por correntes políticas - marxistas, socialistas, fascistas, liberais, etc. -, o devir histórico tem uma meta, que coincide com os anseios políticos do próprio intelectual - o caso de Marx e do comunismo é o mais famoso;

- O conceito de "teia de acontecimentos", que tomamos da moderna ecologia (Odum, Capra) e do budismo, dá uma dimensão mais rica à interrelação que existe entre os fatos; qualquer fato que ocorra. O devir histórico não é assim linear, mas um nó em uma extensa rede (que poderíamos representar mentalmente como uma estrutura tridimensional onde nos nós se juntam as linhas e cada nó representasse aquilo que chamamos de fato histórico - vide: (https://thumbs.dreamstime.com/b/estrutura-de-rede-tridimensional-abstrata-do-wireframe-do-pol%C3%ADgono-70049972.jpg). Nessa rede, interpretamos apenas alguns nós (os maiores?) como sendo os fatos que consideramos na elaboração do relato histórico "oficial";


- Assim como todas as "histórias" a "Grande história" não tem sentido algum fora dela. Não há algo ou algum ente externo a ela - seja um Deus barbudo, um Princípio Último, um Controlador Alienígena ou uma Ordem Oculta. Nada do que ocorre - do "Big-Bang e anterior a ele, até a morte térmica deste universo, sem contar os outros multiversos", está fora do âmbito da história;

Mas, sob que ponto de vista? 

(Imagens: pinturas do Antigo Egito)

Antero de Quental

sábado, 17 de fevereiro de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

O poeta, ensaísta, escritor, pensador e político Antero Tarquínio de Quental, ou Antero de Quental, nasceu em 1842 na ilha de São Miguel, no arquipélago de Açores, Portugal. Aos 16 anos mudou-se para Coimbra, onde estudou direito. Nessa época já começou a dedicar-se à literatura, fundando junto com outros literatos a Sociedade do Raio, que tinha como objetivo a renovação da literatura portuguesa.

Antero de Quental viveu em uma época de grande ebulição política na Europa, coincidindo com o período em que Portugal começava a se modernizar, com a introdução do telégrafo, das ferrovias e das primeiras indústrias. Nesse ambiente, influenciado pelas ideias políticas anarquistas do francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), Quental vai trabalhar como operário em uma tipografia e torna-se um dos fundadores do Partido Socialista Português.

Dotado de grande cultura e interessado em todos os assuntos de sua época, da economia e política às ciências, passando pela filosofia e literatura, Quental continua publicando ensaios filosóficos, poemas e artigos em diversos periódicos. Através de suas atividades culturais, priva da amizade dos grandes escritores portugueses de sua época, como Eça de Queiróz, Abílio de Guerra Junqueiro e Ramalho Ortigão.  

Em 1873 herda uma soma considerável e muda-se para a pequena Vila do Conde, cidade nos arredores da cidade do Porto, para tratar problemas de saúde que o assolavam. Quental além da tuberculose, também sofria de profunda depressão e do que hoje é conhecido como transtorno bipolar. A doença psíquica influenciou muito sua atividade literária e sua vida pessoal. Em 1891, em uma de suas profundas crises, suicidou-se com dois tiros de pistola em um banco de jardim.

Poeta-filósofo, Antero de Quental foi comparado pelo escritor e ensaísta português Adolfo Casais Monteiro (1908-1972) aos antigos filósofos pré-socráticos, que transmitiram suas ideias filosóficas através de poemas. Em sua poesia, Quental tratou de temas universais da humanidade, que na cultura filosófica de sua época ainda eram ligados à metafísica. Sentido e valor da vida humana, bem e mal, foram temas que Quental também discutiu em seus ensaios filosóficos e sua numerosa correspondência.

As principais obras de Antero de Quental incluem "Sonetos de Antero" (1861); "Odes modernas" (1865); "Bom senso e bom gosto" (opúsculos, 1865); "A poesia na atualidade" (1881); "Sonetos completos" (1886); "A filosofia da natureza dos naturistas" (ensaios filosóficos, 1886); e "Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX" (ensaios filosóficos, 1890), entre as principais.

Abaixo transcrevemos trechos da obra de Quental, tomados do livro "Antero de Quental - Poesia e prosa" (Livraria Agir Editora, 1972):

O Inconsciente

O espectro familiar que anda comigo,
Sem que pudesse ainda ver-lhe o rosto,
Que umas vezes encaro com desgosto,
E outras muitas ansioso espreito e sigo,

É um espectro mudo, grave, antigo,
Que parece a conversas mal disposto...
Ante este vulto, ascético e composto
Mil vezes abro a boca... e nada digo.

Só uma vez ousei interrogá-lo:
"Quem és (lhe perguntei com grande abalo)
Fantasma a quem odeio e a quem amo?"

- "Teus irmãos (respondeu) os vãos humanos,
Chamam-me Deus, há mais de dez mil anos...
Mas eu por mim não sei como me chamo..."

(Da obra "Sonetos Completos")


O universo aspira com efeito à liberdade, mas só no espírito humano a realiza. É por isso que a história é especialmente o teatro da liberdade. Os que veem na história um simples prolongamento da natureza, um fenômeno natural, só mais complexo, desconhecem inteiramente o verdadeiro caráter da evolução. O direito, devemos supô-lo, é já a aspiração inconsciente do animal: mas só às sociedades humanas preside efetivamente o direito.

(Da obra "Tendência gerais da filosofia na segunda metade do século XIX".).

(Imagem: retrato de Antero de Quental - pintura de Columbano Bordalo Ribeiro)

Melhora ou estagnação?

sábado, 10 de fevereiro de 2018
"O começo é, no universo, simultâneo ao fim, ou seja, não há, em geral, nem começo, nem fim. Em consideração ao universo, a duração sem fim não é diferente do instante; o universo seria igualmente infinito, tanto nesse quanto naquela, ou seja: ele não é de modo algum no tempo."   -   Friedrich Wilhelm Joseph Schelling   -   Aforismos para Introdução à Filosofia da Natureza

Em um recente artigo publicado na imprensa, o sociólogo e acadêmico paulista José de Souza Martins trata de um fenômeno social relativamente recente no nosso pais: a crescente dificuldade para a ascensão econômica. Enquanto que em meados do século XX o filho trabalhava, progredia e alcançava um padrão de vida melhor que o de seu pai e bem superior ao do avô, hoje são felizes os que ainda conseguem viver tão bem quanto seus pais.

O fenômeno não é exclusivo do Brasil. Na Europa, há quase duas décadas, existe o problema dos jovens que não conseguem emprego fixo. A maioria, sem formação superior, já se conformou com o fato de que não obterão um trabalho regular, com boa remuneração, ao longo de sua vida. Vivem geralmente com os pais e recebem ajuda do Estado. Bem diferente da sorte de seus pais, que nas décadas de 1950 e 1960 viviam em economias de pleno emprego, já que a Europa estava reconstruindo os estragos da Segunda Guerra. A demanda por trabalhadores era tal, que países como a Alemanha e a França importavam mão de obra de outros países europeus e do Norte da África.

Nos Estados Unidos o fenômeno ocorreu de maneira semelhante. Depois de vertiginoso crescimento ao longo dos anos 50, 60 e 70, exportando produtos e o estilo de vida americano para todo o mundo, a economia começou a fraquejar. Alternância de crises e recuperações, associada à automatização e desnacionalização de parte da indústria, somada à transferência das fábricas para o México e, principalmente, para a China, deixaram milhões de americanos desempregados. Grande oferta de empregos para operários (blue collars) e altos salários e comissões para executivos (white collars) já não existem mais para a maior parte da classe média, principalmente depois da crise financeira de 2008. A decepção com o governo Obama e a eleição de Donald Trump, são sintomas da insatisfação de parte da população com esta situação.


Voltando ao Brasil, são diversos os fatores econômicos, sociais e tecnológicos que nos colocaram nesta situação de estagnação da renda. No aspecto social houve rápido crescimento populacional, principalmente a partir dos anos 1950 e aumento do acesso à educação - não que esta fosse de bom nível, mas era (e ainda é) melhor do que nenhuma. Na área tecnológica a partir dos anos 1990 cresceu a informatização e automatização de processos comerciais e industriais. Tais aspectos contribuíram para criar mais concorrência no mercado de trabalho e, consequentemente, reduzir salários. Por outro lado, uma economia burocratizada, engessada por dispositivos legais de todo tipo, além de pouco aberta ao mercado internacional, ajudou também a limitar a criação de maior número de postos de trabalho.

Nos últimos vinte anos a economia brasileira praticamente não se inovou. Foram os períodos de alto consumo - acelerado pela facilidade de crédito e pelos investimentos do Estado em obras de infraestrutura -, que contribuíram para aumentar o número de postos de trabalho. A maior parte destes empregos, no entanto, era de cargos com baixa remuneração (1-2 salários mínimos).

Em todo esse processo, o que mais parece ter crescido nas últimas décadas foi o tamanho do Estado. Aumentou o número de ministérios (para acomodar aliados políticos e membros do próprio partido) e, consequentemente, o número de autarquias, agências e demais órgãos públicos. Não havendo mais tantas estatais onde alocar cabos eleitorais, militantes e filiados - muitas delas, criadas nos anos 1970, haviam sido privatizadas -, foi preciso ampliar a estrutura do Estado. Assim, criada a estrutura, foi necessário contratar profissionais para administrar e operar a máquina estatal com certa competência. Abriram-se concursos públicos para milhares de cargos, pagando salários relativamente altos em relação ao restante do mercado.

Por essa razão os empregos públicos são os mais procurados pelos jovens formados. Melhores salários, estabilidade, regalias dos mais diversos tipos, são atrativos para os profissionais em início de carreira, que não veem muitas possibilidades de ascensão profissional e financeira na iniciativa privada - ainda mais agora, com salários reduzidos. Quais outras oportunidades oferece a combalida economia brasileira para um jovem recém-formado? Enquanto que em outras economias, a posse de um diploma de curso superior é quase certeza de encontrar um emprego com remuneração bastante aceitável para um jovem profissional, por aqui o mercado pouco valoriza o esforço, o tempo e o dinheiro gastos pelo do jovem para obter a titulação.

Voltamos agora ao que tratamos no início de nosso texto. Dadas as condições da economia brasileira nos últimos trinta ou quarenta anos - uma sucessão de "voos de galinha" -, é difícil uma ascensão econômica estável para os indivíduos. A fase de prosperidade é seguida pela de crise; as economias e os bens amealhados nos bons tempos precisam ser gastos na sobrevivência durante o período das "vacas magras". Não há mais possibilidade de uma crescente melhoria do padrão das novas gerações.


Será este um novo paradigma do moderno capitalismo e de seus capitalismos periféricos, como o do Brasil? Sobre isso há várias teorias. O economista francês Thomas Piketty, em seu livro mundialmente famoso O Capital no século XXI, depois de analisar grande volume de dados, concluiu que há fases na história do capitalismo em que o capital tem maior valorização. Em outros períodos, bem mais curtos é verdade, a remuneração do trabalho é mais alta. De acordo com o economista, estamos em um período de valorização do capital, que teve início nos anos 1980 e deve continuar nos próximos anos, caso não haja reformas nas políticas de taxação da maior parte dos países.  

Outra linha de pensamento econômico fala da "estagnação secular". Segundo esta teoria econômica, a lenta recuperação das economias avançadas, depois da crise de 2008, não é uma exceção limitada ao atual período histórico. Esta tendência deverá se tornar uma situação normal ao longo dos próximos anos. Isto ocorre por diversos fatores, principalmente devido ao pouco controle que os bancos centrais exercem sobre o mercado financeiro mundial.

Teorias, principalmente na área econômica, são baseadas em grandes generalizações sobre os fatos; não são previsões. Mas, além do que preveem as teorias, o que podemos dizer às futuras gerações quanto às suas aspirações e seus planos de vida melhor? Será que um dos fortes argumentos da vantagem do capitalismo em relação a outros sistemas, de que cada geração viveria em melhores condições do que a precedente, não existe mais?    
(Imagens: pinturas de David Watson)     

João Cabral de Melo Neto

sábado, 3 de fevereiro de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

João Cabral de Melo Neto (1920-1999) nasceu em Recife, de uma tradicional família de usineiros de açúcar. O futuro poeta e diplomata era irmão do historiador Evaldo Cabral de Melo, primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freire. Viveu parte de sua infância na fazenda dos pais, no interior de estado. Aos dez anos mudou-se com a família para Recife, onde veio a estudar no Colégio Marista. Grande leitor, João Cabral era assíduo frequentador da biblioteca da escola e da casa de sua avó.

Em 1942 lança sua primeira coletânea de poemas, "A Pedra do Sono", nos quais predomina um clima de surrealismo e absurdo. No mesmo ano João Cabral se transfere para o Rio de Janeiro, onde ingressa no serviço público. Em 1945 lança sua segunda obra, "O Engenheiro", cuja publicação foi custeada pelo amigo, o poeta e empresário Augusto Frederico Schmidt. Em 1947 João Cabral ingressa na carreira diplomática, através da qual passa a viver em várias cidades, tendo oportunidade de conviver com intelectuais de Barcelona, Sevilha, Londres, Marselha, Genebra, Dacar entre outras.  

Em 1950 publica o "Cão Sem Plumas", época em que começa a estudar cada vez mais os temas sociais. O poema "Morte e Vida Severina", publicado em 1956, reflete bem essa preocupação do poeta. O poema relata a vida de um retirante que deixa o sertão em busca de melhores oportunidades na cidade. Transformado em peça de teatro, "Morte e Vida Severina" foi encenada pela primeira vez pelo Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA), em 1966, com músicas compostas por Chico Buarque de Holanda.

João Cabral casou-se duas vezes e teve cinco filhos. Foi eleito para ocupar a cadeira nº 37 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é o poeta e inconfidente Tomás Antonio Gonzaga. A progressiva cegueira que passou a acometê-lo a partir de 1992 levou-o à depressão. O poeta morreu em 9 de outubro de 1999, vitimado por um ataque cardíaco.

João Cabral pertence literariamente à geração de modernista de 45. Foi influenciado pelo surrealismo e pela poesia de Carlos Drummond de Andrade, a quem muito admirava. A literatura de cordel, com a qual teve contato na infância, também deixou sua marca em sua poesia, notadamente em "Vida e Morte Severina". Seu estilo é pouco sentimentalista, sendo objetivo e racional, razão pela qual foi apelidado de "poeta engenheiro". 

Dentre as principais obras do poeta destacam-se: "A Pedra do Sono" (1942); "O Engenheiro" (1945); "O Cão Sem Plumas" (1950); "Morte e Vida Severina" (1956); "A Educação Pela Pedra" (1966); "Museu de Tudo" (1975); "Auto do Frade" (1984); "Sevilha Andando" (1989), entre outros. Do livro "O Cão Sem Plumas e outros poemas (Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2007) destacamos:


Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
sua flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.

(Trecho de "Fábula do Capibaribe" do livro "Cão Sem Plumas")



No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol.

Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.

O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.

("O fim do mundo" do livro "O Engenheiro")



Demorada demoradamente
nenhuma voz me falou.
Eu vi o espectro do rei
não sei em que porta ele entrou.
Meus sofrimentos cumpridos
que sonos os arrebatou?
Mas por detrás da cortina
que gesto meu se apagou?

("Canção" do livro "Pedra do Sono")

(Imagem: fotografia de João Cabral de Melo Neto)

Protestantismo e capitalismo

sábado, 27 de janeiro de 2018
"Há homens que, se pudessem conhecer seus subalternos e conhecer-se a si próprios, teriam vergonha de estar em evidência."   -    La Bruyère   -   Caracteres

O livro de Weber “A ética protestante e o espírito do capitalismo” foi eleito em 1999, em uma pesquisa organizada entre intelectuais brasileiros pela Folha de São Paulo, como o melhor livro de não-ficção do século. Tal a importância e perenidade da obra escrita no início do século XX. Durante os anos 1960, 1970 e 1980, quando o pensamento de esquerda tinha forte influência nos estudos sociológicos no Brasil, a obra de Weber foi relegada a um segundo plano.

Em sua obra Weber analisa características das várias correntes protestantes – luteranos, calvinistas, menonitas, batistas, puritanos, quackers e vários outros – traçando em linhas gerais seu posicionamento em relação às praticas capitalistas de seu tempo. Inicialmente o autor define bem o objeto de seu estudo, estabelecendo o que entende por capitalismo. Escreve Weber:   

“E o mesmo é verdade também para a mais decisiva força da nossa vida moderna: o capitalismo. O impulso para ganho, a persecução do lucro, do dinheiro, da maior quantidade possível de dinheiro, não tem em si mesma, nada que ver com o capitalismo. Tal impulso existe e sempre existiu entre garçons, médicos, cocheiros, artistas, prostitutas, funcionários desonestos, soldados, nobres, cruzados, apostadores, mendigos, etc. Pode-se dizer que tem sido comum a toda sorte e condição humana em todos os tempos e em todos os países da Terra, sempre que se tenha apresentado a possibilidade objetiva para tanto. É coisa do jardim de infância da história cultural a noção de essa idéia ingênua de capitalismo deva ser eliminada definitivamente. A ganância ilimitada de ganho não se identifica, nem de longe, com o capitalismo, e menos ainda com seu 'espírito'." (Weber 2002, p. 24)


Acaba assim o autor com uma série de visões distorcidas, definindo o que considera capitalismo, dirimindo mal-entendidos que até hoje ainda se encontram em obras de especialistas e que acabam sendo popularizados pela comunicação de massa. 

O ponto fulcral da argumentação weberiana – fundamentada por grande número de exemplos tirados da história (o livro de Weber tem mais de 90 páginas de “notas do autor”) –, é de que o protestantismo, especificamente o calvinismo, deu origem a novas formas de pensamento, através das quais grupos sociais passaram a se posicionar no mundo através do trabalho. Trata-se de uma postura fundamentada na crença religiosa, que através da ética se exterioriza principalmente no trabalho e na maneira como são usados os seus frutos. Segundo Weber, o calvinismo, dadas certas características de sua doutrina, estabelece que o cristão pratique sua ascese principalmente através do trabalho. O calvinismo eliminara os ritos e sacramentos, através dos quais o católico podia expiar suas culpas e retomar sua ligação com Deus. Sendo assim, o calvinista mostrava seu relacionamento com Deus – confirmando o fato de estar entre os eleitos destinados ao Paraíso – através de uma racionalidade do trabalho e da boa aplicação de seus frutos: economia e novo investimento do lucro, aversão ao luxo e ostentação. Escreve Weber: “Assim, a riqueza seria eticamente má apenas na medida em que venha a ser uma tentação para um gozo da vida no ócio e no pecado, e sua aquisição seria ruim só quando obtida com o propósito posterior de uma vida folgada e despreocupada” (Weber 2002, p. 118).

A ética do trabalho foi o ponto principal através da qual o calvinismo (huguenotes na França, puritanos na Inglaterra, protestantes nos Países Baixos) e outras seitas reformistas (pietistas na Alemanha, quackers e metodistas na Inglaterra) influenciaram decididamente o desenvolvimento do capitalismo, segundo Max Weber.
Há que se notar que todos os países que entre o século XVI e XVIII desenvolveram seu sistema financeiro, comercial, de manufatura, sua marinha e suas comunicações, eram calvinistas, protestantes ou tinham forte influência destas correntes religiosas – como a Inglaterra, a França, os Países Baixos, certas regiões da Alemanha e Suíça. Comparativamente, os países essencialmente católicos, como Portugal, Espanha e Itália, desenvolveram-se entre o final do século XV e XVI, para depois gradualmente caírem em uma decadência econômica e social, da qual só sairiam 450 anos depois.   

A mentalidade calvinista, com a valorização do trabalho e o reinvestimento dos lucros, desenvolveu extremamente o comércio entre os séculos XVI e XVIII, criando as bases para a industrialização, iniciada no final do século XVIII, na Inglaterra. É evidente que este desenvolvimento não foi provocado somente pelo calvinismo e pela mentalidade burguesa mercantilista. Outros fatores, como o liberalismo político de John Locke, a ciência de Newton e o modelo do sistema parlamentar inglês, baseado nos três poderes, também contribuíram para a formação da mentalidade capitalista. 

A hipótese histórica e social de Max Weber, tentando explicar os fatores culturais que condicionaram o desenvolvimento do capitalismo sempre encontrou muitos críticos, principalmente entre os pensadores marxistas. Segundo estes, Weber estaria cometendo o erro de explicar a infraestrutura (o desenvolvimento do sistema capitalista) pela superestrutura (o cristianismo em sua versão calvinista). Atualmente, é cada vez mais consenso de que a explicação histórica e sociológica tem várias vertentes e que não existe uma explicação única, dada a complexidade do assunto.
(Imagens: pinturas de Rodolfo Amoedo)

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 20 de janeiro de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) foi um dos maiores poetas brasileiros, além de contista e cronista. Descendia de uma família de produtores rurais, estabelecida em Minas Gerais há gerações. Drummond estudou em Belo Horizonte e em Nova Friburgo, no Colégio Anchieta, de jesuítas. Nesta instituição, o que mais fascinava o rapaz era a aura de intelectualidade e a constante busca de conhecimentos dos professores. Por um desentendimento com um professor, o futuro poeta foi expulso do colégio. O fato o marcou bastante, a ponto de fazê-lo declarar: "Perdi a fé. Perdi tempo. Sobretudo, perdi a confiança na justiça dos que me julgavam." De volta a Belo Horizonte, Drummond ingressa na Universidade Federal de Minas Gerais, onde conclui o curso de Farmácia. Casa-se com Dolores Dutra de Morais, com quem teve dois filhos, um dos quais falece logo após o parto.

Drummond começa a escrever em 1921, quando publica artigos no jornal "Diário de Minas Gerais". No ano seguinte é premiado em um concurso literário com seu conto "Joaquim no Telhado". Em 1928, publica seu poema "No Meio do Caminho" na Revista de Antropofagia, editada em São Paulo por integrantes do movimento modernista. O poema provocou escândalo, por sua constante repetição de certas expressões e pelo uso de "tinha uma pedra" ao invés de "havia uma pedra". Ainda em 1928 Drummond entra para o serviço público, no qual atuaria durante toda a sua vida profissional. Em 1934 muda-se de Minas Gerais para a cidade de Rio de Janeiro, onde trabalha como chefe de gabinete do então ministro da Educação Gustavo Capanema, antigo colega do poeta no grupo "Os intelectuais da rua Bahia".

Nos anos seguintes, Drummond publica obras poéticas, estreia como ficcionista e traduz autores como Balzac, Frederico Garcia Lorca e Molière. Durante os anos 1960 e 1970 o poeta também escreve uma série de crônicas para jornais do Rio de Janeiro. Drummond morreu em 17 de agosto de 1987, doze dias após o falecimento de sua filha, cuja morte muito o abalou. As principais obras poéticas do autor são: "Alguma Poesia" (1930); "Brejo das Almas" (1934); "Sentimento do Mundo" (1940); "José" (1942); "A Rosa do Povo" (1945); "Lição de Coisas" (1962); "Boitempo" (1968); "Amar Se Aprende Amando" (1985), entre outras. Drummond também escreveu antologias (entre elas "Antologia Poética", 1962), vasta obra em prosa, além de livros infantis.

Poeta da segunda geração do Modernismo - iniciado pelos paulistas Mario e Oswald de Andrade, entre outros -, Drummond, a exemplo destes, também escreve em verso livre. Segundo o crítico literário Alfredo Bosi, a poesia de Drummond alcança um grau de sofisticação e universalidade, que o coloca além das referências literárias comuns e acima de todas as marcas ideológicas. De sua obra selecionamos os poemas abaixo, que constam da obra "Carlos Drummond de Andrade - Antologia Poética" (Companhia das Letras, 2013):


Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

(Antologia Poética, 1962)



Cerâmica

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.

Sem uso,
ela nos espia do aparador.

(Lição das Coisas, 1962)



Tristeza no céu

No céu também há uma hora melancólica.
Hora difícil, em que a dúvida penetra nas almas.
Por que fiz o mundo? Deus se pergunta
e se responde: Não sei.

Os anjos olham-no com reprovação.
e plumas caem.

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor
caem, são plumas.

Outra pluma, o céu se desfaz.
Tão manso, nenhum fragor denuncia
o momento entre tudo e nada,
ou seja, a tristeza de Deus.

(José, 1942)

(Imagem: fotografia de Carlos Drummond de Andrade)

Píndaro

sábado, 13 de janeiro de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)


O poeta Píndaro, também conhecido como Píndaro de Cinoscefale ou Píndaro de Beozias, nasceu na cidade de Cinocéfalas em 518 a.C. e morreu em 438 a.C. Pertencia à aristocracia local, pois sua família era de origem dórica, do clã dos Égidas. Jovem mudou-se para Atenas, onde estudou com poetas e filósofos e aprendeu música como os então famosos músicos Agatides e Apolodoro. Aos 20 anos escreveu seu primeiro poema, iniciando uma carreira que o tornaria um dos maiores poetas na história.

Píndaro escreveu hinos, lamentos, elogios e outros gêneros, organizados em 17 livros. No entanto, o que restou de sua obra foram 45 epinícios ou odes; uma forma de poesia lírica que celebrava a vitória dos vencedores dos jogos pan-helênicos (dos quais faziam parte os jogos Olímpicos, os jogos Pítios, os Nemeus e os Ístmicos).

A maior parte das odes de Píndaro eram compostas por encomenda. Através delas o poeta louvava homens ilustres ou os ganhadores dos torneios esportivos. Escrito, o poema era entregue ao destinatário ou ao mestre de coro, que organizava a recitação da ode. A cópia do homenageado, feita em papiro melhor acabado, muitas vezes era depositada em algum templo.

Trechos das obras de Píndaro são citados por diversos autores gregos; como o historiador Heródoto, o comediógrafo Aristófanes, o filósofo Platão, entre outros. As odes do poeta continuaram a ser estudadas e reunidas em volumes durante a Antiguidade, por eruditos gregos e romanos. Durante a Alta Idade Média (século V ao XI) os poemas de Píndaro passaram por certo esquecimento, e sua leitura limitou-se praticamente à área de influência cultural do império bizantino. Com o florescimento dos estudos clássicos a partir do século XIII na Europa, a obra de Píndaro volta a ser lida e divulgada.

Nos séculos XIX e XX diversos estudiosos da Alemanha, Inglaterra e França passaram a dedicar-se ao estudo das odes do poeta, pesquisando sua gramática, aspectos religiosos e míticos, históricos, sociais e políticos de sua obra. Em Píndaro espelha-se o ambiente da Atenas do século V a.C., às vésperas de a cidade se tornar o centro cultural, econômico e político da Grécia antiga.

As odes que nos chegaram do poeta foram divididas em quatro livros, cada um correspondendo ao jogo que celebrava: as "Odes píticas", as "Odes olímpicas", as "Odes nemeias" e as "Odes ístmicas". Da obra do poeta, selecionamos os seguintes trechos:


Do livro "Odes Olímpicas" (Editora Abysmo, 2017), apresentando as odes do autor em linguagem atual (disponível no site http://deusmelivro.com/mil-folhas/odes-olimpicas-pindaro-26-9-2017/):


“Se a morte é inevitável, porque havíamos de acalentar, em vão,

Uma velhice inominável, sentados nessa escuridão pesada

Que é não tomar parte de nada do que é belo?”


“Dizer coisas belas sobre as divindades

É o que convém a um homem,

Pois pesará menos a sua responsabilidade.”


“O Além é inacessível,

Tanto para quem tem perícia quanto para quem a não tem.

Não o perseguirei. Não faria qualquer sentido.“



Trecho de "Neméia XI" (do trabalho "Contingência em Píndaro: Olímpica 12, Píticas 8 e 10, Nemeias 6 e 11" de Gustavo H. M. Frade, disponível em http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/ECAP-8STND8/conting_ncia_em_p_ndaro__ol_mpica_12__p_ticas_8_e_10__nemeias_6_e_11.pdf?sequence=1):


"Eu louvo o homem como bem-aventurado, pelo pai Arcesilas,

e também pelo admirável aspecto e pela firmeza congênita.

Mas, se alguém, tendo prosperidade, supera os outros na forma

e, sendo o melhor nas competições, demonstra sua força,

que se lembre que veste membros mortais

e será vestido de terra, o fim de todos."


(Imagem: foto de escultura do busto de Píndaro)