Má qualidade do ar mata cada vez mais

sábado, 24 de setembro de 2016
"Se a Roma Antiga caíra, por que não a moderna Europa? O que quer que fosse responsável pelo movimento da história, certamente não seria a Razão. Na visão de Gibbon, na verdade, a Razão muitas vezes é a racionalização, no sentido freudiano de conferir um ilusório ar de plausibilidade a alguma motivação vergonhosa."  -  Terry Eagleton  -  A morte de Deus na cultura

Relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), publicado em maio de 2016, informa que mais de 80% das cidades que em todo o mundo que monitoram a qualidade do ar, têm índices de poluição atmosférica acima dos padrões estabelecidos pela OMS. Das 2.972 cidades avaliadas pelo órgão, 2.842 excedem o limite anual de 20 µg/m³ (20 microgramas por metro cúbico). Segundo a ONG brasileira Instituto Saúde e Sustentabilidade, o Brasil ainda adota padrões de medição da poluição do ar na faixa de 50 a 150 µg/m³/ano e no estado de São Paulo de 40 a 120 µg/m³/ano, o que demonstra nosso atraso com relação aos padrões da OMS.
Outro aspecto da situação brasileira é que são pouquíssimas as cidades que têm algum sistema de medição da qualidade do ar; apenas 1,7% dos municípios brasileiros, dos quais a maior parte está localizada na região Sudeste. Das cerca de 95 cidades brasileiras que têm algum tipo de monitoramente de suas atmosferas, 40 apresentaram índices de poluição do ar acima dos padrões da OMS - cerca de 42% das cidades regularmente monitoradas.
Uma das regiões com a mais baixa qualidade do ar no país é a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), que abrange a cidade de São Paulo e mais 38 municípios do entorno. Trata-se de uma área de aproximadamente 8.000 km² e 21 milhões de habitantes, onde rodam cerca de 8 milhões de veículos, entre automóveis, caminhões, ônibus e utilitários. Já em 2011 o Instituto Saúde e Sustentabilidade informava que 4.655 pessoas morriam na cidade de São Paulo, devido a problemas de saúde causados diretamente pela poluição atmosférica.
Os problemas causados pela poluição são os mais diversos podendo agravar doenças preexistentes ou provocar o aparecimento de novas. Quatro são os principais agentes poluidores do ar: o gás monóxido de carbono (CO) que pode provocar tontura, alterações no sistema nervoso central e acentuar doenças cardíacas preexistentes; o gás dióxido de enxofre (SO²) que provoca coriza, catarro, danos aos pulmões e em doses excessivas pode causar a morte; o gás óxido de nitrogênio (NOx, NO²) que causa afecções respiratórias e alterações celulares; e o material particulado (fuligem, poeira e a fumaça), que causa alergias, bronquites e pode provocar o câncer. Fato é que a poluição do ar provocada principalmente pela queima de combustíveis como o diesel, a gasolina e o etanol é comparável à fumaça do cigarro: sabe-se que prejudica a saúde de diversas maneiras, mas é possível que seu efeito pernicioso seja ainda maior.

A OMS tem diversas estatísticas sobre doenças e mortes provocadas pela poluição do ar. Em cidades como Nova Delhi, na Índia, e Pequim, na China, os índices de poluição de ar são de 300 µg/m³ - mais de 10 vezes acima do nível máximo fixado pela OMS. Não é por coincidência que nesses países morrem cerca de 1,5 milhões de pessoas por ano, por doenças e suas consequências provocadas pela má qualidade do ar.
A poluição do ar nas cidades é provocada por atividades industriais e, principalmente, por emissões veiculares. Para controlar e reduzir gradualmente a poluição do ar é necessário que governos estaduais e municipais instituam ou ampliem sistemas de medição e monitoramento, tanto para as indústrias e principalmente para os veículos. Não é mais aceitável que veículos poluidores continuem rodando por nossas cidades, indiretamente ceifando vidas humanas.
(Imagens: imagens do Museu Brasileiro de Escultura - projeto do arquiteto Paulo Mendes Rocha)

Comentário sobre o filme KOYAANISQATSI

quarta-feira, 21 de setembro de 2016
"O homem médio, que não sabe o que fazer com a vida, quer uma outra vida que vai durar para sempre." - Anatole France


O filme KOYAANISQATSI é uma das melhores visões do funcionamento do capitalismo industrial como era na década de 1980 e em grande parte ainda é hoje. As imagens combinam com a música de Philip Glass e mostram diversos aspectos da nossa sociedade, muitas vezes criticamente.

A película, no entanto, não apresenta diálogos ou narrativas. O artifício utilizado pelos produtores é apresentar uma seqüência de imagens, associadas a um fundo musical, desenvolvido especialmente para o documentário.

O filme começa mostrando o ambiente natural, onde o ser humano não está presente: vales e rios selvagens, nuvens e grandes planícies desertas. Aos poucos a câmera começa a se aproximar “da casa do homem”: minas a céu aberto, grandes campos cultivados, usinas hidrelétricas. A partir daí, através das rodovias, o filme passa a mostrar o ambiente urbano. Diversos aspectos da vida na cidade, como o tráfego durante várias horas do dia e da noite, jogos de luz nas fachadas dos prédios, as estações do metrô, a bilheteria de um jogo de futebol americano... O filme apresenta diferentes ângulos das grandes avenidas. 

O passo seguinte é mostrar o interior daquele complexo sistema que chamamos de cidades: as linhas de produção de automóveis, de alimentos, restaurantes, lojas de departamentos, bares, parques de diversões. Tudo ao som da música eletrônica, tocada ao ritmo das imagens em movimento.

Por fim, o filme mostra o lançamento da nave Discovery, com a cena da explosão que vitima todos os tripulantes. Em seguida, a câmera volta às imagens iniciais do filme: pinturas rupestres dos indígenas americanos. Ao final, é explicado o significado do título do filme, “Koyaanisqatsi”: em língua hopi quer dizer confusão, fora de lugar, sem equilíbrio, aquilo que não pode acabar bem. 

Filme: KOYAANISQATSI

Direção: Godfrey Reggio e Francis Ford Coppola

Tema: documentário sobre a sociedade industrial

País: Estados Unidos, 1983

Duração: 87 minutos

Música original: Philip Glass

Link: https://www.youtube.com/watch?v=i4MXPIpj5sA

(Imagem: pintura de Abraham Palatnik)

Reciclagem na indústria automotiva

sábado, 17 de setembro de 2016
"Eu realmente não comecei a aprender nada, até depois de ter concluído meus estudos."  -  Anatole France, citado em Quips & Quotes de Evan Esar

A indústria automobilística é um dos mais importantes segmentos do setor industrial em todo o planeta. No Brasil, o setor automobilístico emprega cerca 140 mil pessoas e gera em torno de um milhão de postos de trabalho indiretos, em diversas áreas da economia. Apesar disso, o automóvel é um dos produtos industriais que mais gera impacto ambiental; desde sua fabricação, passando por seu uso, até sua destinação final.
Um dos mais cobiçados bens de consumo da economia de mercado desde a segunda metade do século XX, o automóvel é filho dileto da Revolução Industrial. Desenvolvido no final do século XIX como meio de transporte das elites abastadas da Europa, o veículo foi popularizado nos Estados Unidos pelo aumento do número de fabricantes e a introdução da linha de produção nas fábricas de Henry Ford.
Após a Segunda Guerra, quando as grandes marcas automobilísticas se estabeleceram em novos mercados consumidores – entre os quais o Brasil –, o carro se transformou em símbolo de ascensão social da nascente classe média urbana. Além disso, influenciou o desenvolvimento viário e o transporte público das cidades, cujas administrações passaram a dar prioridade ao transporte individual, atendendo a demanda dos grupos econômicos mais influentes.
A hegemonia do automóvel também trouxe problemas ambientais: atualmente os veículos são a quarta maior fonte poluidora da atmosfera do planeta. No Brasil, o problema é minorado graças à adição de 25% de etanol à gasolina e aos carros flex utilizando 100% etanol, o que faz com que nosso combustível seja mais renovável do que os de outros países. Mesmo assim, ainda há muito que fazer quanto à eficiência dos motores da maioria dos veículos populares vendidos no país.
Outro aspecto é quanto à reciclagem dos componentes dos veículos, depois de seu uso. Segundo empresas que atuam no mercado de reuso e reciclagem de peças automotivas, dos veículos modernos com menos de 15 anos, 85% dos componentes são reaproveitáveis, 10% é reciclável e apenas 5% devem ser descartados. Nos Estados Unidos cerca de 80% dos veículos passam por um processo de reciclagem e na Europa 75%. No Brasil, segundo dados mais recentes, apenas 2,5% dos veículos vão para a reciclagem, enquanto que 97,5% acabam em depósitos e desmanches, onde uma parte considerável dos componentes e das peças ainda utilizáveis termina sendo descartada.
O princípio por trás da reciclagem e do reuso das peças de veículos é o mesmo de toda a economia circular: poupar os recursos naturais. Se menos peças precisarem ser fabricadas, menos minério de ferro e alumínio será extraído; o reuso de peças de plástico economiza petróleo; o reaproveitamento de materiais diminui o uso de água e eletricidade. É o princípio de gestão que empresas de vanguarda na indústria automobilística, como a General Motors, a Ford, a BMW, a Audi e a Nissan já vêm utilizando.
A legislação sobre reciclagem de peças automotivas, recentemente criada, além de coibir os desmanches ilegais, abre um novo mercado de atuação para centenas de recicladoras.
Ajudaria a desenvolver ainda mais esta atividade um maior envolvimento das montadoras, apresentando a reciclagem de seus veículos como uma vantagem adicional, poupando recursos naturais e contribuindo para o bem estar dos consumidores. Nada mais moderno.
(Imagens: fotografias de Mário de Andrade) 

Perguntando é que se aprende (XXI)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016
"Esse dom de observação que se chama conhecimento do mundo, vereis que na maior parte dos casos serve para tornar os homens astutos e não propriamente para os tornar bons." - Samuel Johnson

Desde o impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff, grupos de oposição ao atual presidente defendem o "Fora Temer!". As manifestações, encabeçadas por militantes do PT e de outros partidos de esquerda, centrais sindicais e entidades financiadas por governos Lula e Dilma, fazem parte do jogo democrático baseado na divergência de opiniões.

O "Fora Temer!" para muitos dos opositores do presidente recém empossado, também implica a convocação de novas eleições, ou seja, eleições gerais. A hipótese das eleições gerais requer mudanças na Constituição e que todos os membros do Congresso abram mão de seus mandatos, o que é pouco provável senão impossível. Além disso, ficam também sem serem votadas pelo atual Legislativo as reformas da Previdência, da legislação trabalhista, a reforma fiscal, a reforma política e outras ainda previstas para o atual mandato.

Mas, admitamos que ocorresse um milagre e que em nome do bem estar do povo e do futuro do Brasil, fossem convocadas eleições gerais para presidente, governadores e Legislativo (alguns pretendem incluir prefeitos e vereadores). Dada esta situação, pergunta-se:

1. Quem serão os novos candidatos aos cargos eletivos no Congresso e nos Executivos (federal e estaduais), capazes de reverter a atual situação do país? Onde estão estes novos candidatos, ainda desconhecidos do povo?

2. Poderá ocorrer que nestas eleições gerais os candidatos sejam exatamente os mesmos ou outros, porém alinhados aos mesmos interesses de classe e de grupos?

3. Teremos como concorrentes os mesmos desgastados partidos - que já mostraram, cada um deles, a que vieram ou não vieram - ou em curto espaço de tempo (alguns meses) se formarão agremiações completamente novas e, mais, com novas ideias?

4. Na impossibilidade de serem votadas as reformas que o país precisa, serão estas incorporadas aos programas políticos dos novos candidatos, ou seja, eles dirão que votarão leis que desagradam grupos de interesses? 

5. Poderá ocorrer que estas eleições gerais se transformem no maior embuste da política brasileira, promovendo "mudanças para que tudo fique como está"?

6. A quem realmente interessa o hipótese de "Fora Temer e eleições gerais"? Aos que pretendem, nas condições dadas, promover uma mudança no Estado, ou àqueles que nada querem mudar; apenas voltar ao poder através do discurso demagógico?

7. Na hipótese de que os fatos acima não se concretizem, o que parece o mais provável, quando nossos nobres deputados e senadores votarão as mudanças que o país tanto precisa?

Newsletter setembro/outubro 2016

sábado, 10 de setembro de 2016
(publicado originalmente como newsletter setembro/outubro no site Ricardo Rose Consultoria)

Termina o processo de impedimento da presidente Dilma. No último dia do mês de agosto o seu vice, Michel Temer, que havia assumido a presidência interina durante o desenrolar do processo, assume definitivamente a presidência. Muitos protestos no Senado, por parte dos partidários e aliados da ex-presidente, como nas ruas de algumas capitais. Ainda tratando o processo como golpe, a equipe de Dilma Rousseff protocola recurso no STF contra o impedimento. É pouco provável que a situação seja revertida. Apesar dos protestos contra o novo presidente, democráticos e conduzidos de maneira pacífica, logo deverá voltar a imperar a rotina. Por isso, espera-se que o Congresso vote as reformas mínimas, necessárias para ao menos possibilitar ao país voltar à sua normalidade econômica. Infelizmente, é pouco provável, senão impossível, que a atual Câmara e Senado tenham vontade e capacidade de votarem as reais e profundas reformas que o Brasil efetivamente precisa. Grupos de pressão internos e externos ao Congresso, representando interesses de todas as áreas, impedem que isso ocorra.
A economia, como um bêbado, vai cambaleando, tentando manter-se em pé. A inflação e os juros pararam de subir e o dólar continua estável, em cotação ainda propícia para as exportações. A taxa de desemprego, provavelmente o principal parâmetro pelo qual Temer será julgado pelo eleitorado no final de seu mandato, continua subindo. Especialistas opinam que pelo menos até o final de 2016 não haverá queda na curva. Por outro lado, a grande mídia vem divulgando que setores da economia já mostram um crescimento – quase imperceptível, mas detectável. Alguns ramos da indústria começam a esvaziar estoques acumulados, recebendo novos pedidos, e o comércio vê uma pequena recuperação nas vendas. Sinais de recuperação? Talvez, mas apenas um pequeno sinal, comparável à luz de uma galáxia muito distante.
No setor de meio ambiente, como era de se esperar, dada toda a situação descrita nos dois parágrafos anteriores, não houve grandes novidades nos últimos dois meses. O maior destaque foi para o aumento dos incêndios florestais e, consequentemente das emissões de gases, típicos desta época seca do ano e geralmente originados por queimadas executadas de maneira incorreta, usadas para limpar áreas a serem plantadas. Ainda com relação às emissões, o Senado ratificou o Acordo de Paris; as propostas apresentadas pelo Brasil para reduzir suas emissões até 2030, acordadas com outras nações durante a Conferência do Clima de Paris (COP 21). Dada a crise econômica e a falta de capital de investimento do Estado, o novo governo já tem planos para cooperar com o setor privado em diversas áreas da infraestrutura, inclusive no setor de saneamento. Ainda não existe um projeto efetivo de concretização destas parcerias, seja através da concessão ou da parceria pública privada (PPP). A ideia também não é nada nova, tendo surgido na década de 1990. O maior empecilho é a inexistência de legislação (municipal ou estadual) detalhada e a oposição do setor público de se associar ou transferir parte de suas atribuições ao setor privado.
O mesmo raciocínio é válido para outras áreas do setor de meio ambiente, como a gestão dos resíduos domésticos. As prefeituras, grande parte delas afundadas em dívidas, não terão recursos financeiros para sozinhas implantarem a Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS). A melhor opção seria, segundo especialistas, promover a formação de PPPs e de consórcios de municípios. A parceria com o setor privado também seria uma maneira de melhorar a situação da gestão de diversas unidades de conservação através do país, também carentes de recursos.
A atual crise mostra que o Estado, além de lento em suas decisões, não tem recursos suficientes para custear e operar toda a infraestrutura existente e muito menos fazer os investimentos necessários para atualizá-la. Com base em uma burocracia capacitada e operacionalmente eficiente, o governo deveria abrir mão de certas atividades das quais não pode dar conta e preparar-se para uma atividade fiscalizadora. Melhorar e transformar as agências reguladoras em efetivos órgãos fiscalizadores das políticas, este deve ser o novo desafio.
(Imagens: prédios estilo art déco em São Paulo)

Perguntando é que se aprende (XX)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

"Os piores males que a humanidade já teve de suportar foram infligidos por maus governos." - Ludwig von Mises

Depois de quase quatro anos, volto a escrever esta coluna do meu blog. Naquela época, em fevereiro de 2013, os tempos ainda eram diferentes. Apesar do aumento da inflação, a economia ainda estava embalada com juros e desemprego baixos e perspectivas de crescimento positivo (2,3%) ao final do ano. Pipocavam casos de corrupção e em junho daquele ano começariam as primeiras manifestações contra o governo Dilma. 

No entanto o quadro geral do país, em seus aspectos econômicos e sociais, ainda era relativamente o mesmo desde quando FHC havia assumido. Embalada pela estabilidade econômica, a economia havia crescido e incluído milhões de novos consumidores, principalmente nos dois governos Lula. Nunca tantos haviam consumido tanto neste país; produtos e serviços antes exclusivos da classe média, agora passavam a fazer parte do dia a dia das classes C, D e E.

Por alguns poucos anos, tivemos um exponencial aumento da prosperidade. Programas sociais, aumento do crédito, melhoria do acesso à educação superior, o programa Minha Casa Minha Vida, etc.. Tudo contribuía para criar um clima de otimismo e de percepção de progresso social e econômico. O mercado interno - leia-se consumo - crescia rapidamente, assim como as exportações de produtos agrícolas e minérios. Em clima de entusiasmo, o governo Lula lançava o PAC, o Plano de Aceleração do Crescimento, para melhorar a infraestrutura em face das novas demandas. 

O resto da história é recente e fácil de lembrar. As reformas fiscal, trabalhista, previdenciária e política, entre as principais, ficaram só na intenção e promessa. Legislativo e Executivo quase nada fizeram para preparar o país para novas etapas de crescimento. Assim, um Estado que gastava cada vez mais, a desaceleração da economia chinesa, a diminuição do crédito reduzindo consequentemente o consumo e fazendo crescer o desemprego, acabaram derrubando os índices econômicos. A corrupção, cujo caso mais emblemático foi o esquema montado na Petrobrás, investigado pela operação Lava Jato, também deu sua contribuição para acentuar a crise econômica, transformada também em crise social.
    
O impedimento da presidente Dilma é a principal consequência política de todo esse processo. Reformas que deveriam ter sido feitas naquela fase do desenvolvimento do país não foram realizadas. Mesmo porque, iriam ferir muitos interesses. Dos políticos profissionais, que já formaram verdadeiras dinastias e que monopolizam a atividade política de suas regiões de origem. De empresários, cujos negócios cresceram sob a proteção do governo e à custa da livre concorrência; muitos deles nacionais e multinacionais formando verdadeiros oligopólios. De associações e sindicatos importantes, cujos membros ocuparam e ocupam cargos na administração pública e com isso defendem interesses de categorias - isso quando não estão a serviço dos empresários, como muitas vezes aconteceu na história do peleguismo brasileiro. 

Por cima de tudo isso paira a eterna doutrinação do povo brasileiro. Na escola, na mídia, nos serviços públicos e em diversas instituições, martela-se constantemente a ideologia de que o Estado é o regulador, provedor e o juiz de tudo. A coisa funciona da seguinte maneira: 1) O país existe em função do Estado (este declara, evidentemente, que atua em benefício do cidadão); 2) O cidadão contribui (com altíssimos impostos) para que o Estado possa desempenhar sua função de regulador (Legislativo), provedor (Executivo) e juiz (Judiciário). Isto, no entanto não acontece. Os serviços entregues pelo Estado - seja em que nível for - não existem ou são ruins.

Desta forma, de uma maneira bastante genérica, podemos dizer que uma elite (citada acima) se apossa do Estado e utiliza seus instrumentos em benefício próprio. O financiamento de toda esta imensa máquina ocorre principalmente com o trabalho, o consumo e os impostos pagos por milhões de cidadãos, que em grande parte pouco se beneficiam desta estrutura, já que os serviços públicos - saúde, educação, segurança, transportes, lazer, cultura, etc. - não funcionam devidamente. 

Outro aspecto é a burocratização, o autoritarismo, a ineficiência de toda estrutura montada por este Estado. Para qualquer iniciativa oficial são necessários documentos com firmas reconhecidas, declarações, acompanhamento de advogados, autorizações de juízes e de sindicatos, registros em cartórios, carimbos e recolhimento de guias junto a órgãos públicos, bancos oficiais, etc., etc., etc. Uma prática retrógrada, sustentada por um Estado e uma estrutura pública que no fundo ainda é autoritária, não confia no cidadão, e que o tutela. Nas mínimas coisas o Estado exige providências do cidadão, mas a contrapartida não ocorre.     

O nacional desenvolvimentismo, presente na ideologia de muitas figuras do governo - à esquerda e à direita, sob o argumento do patriotismo - sempre beneficiou grupos econômicos, sem trazer o benefício de produtos e serviços mais eficientes e baratos. O excessivo controle do Estado em todas as atividades, além dos tributos e das taxações, produz uma burocracia lenta e muitas vezes corrupta, além de propiciar o aparecimento da figuras dos "facilitadores" - profissionais e empresas com ligações com esta mesma burocracia - cujo trabalho é exatamente "contornar" o excessivo controle estatal. "Criar dificuldades para vender facilidades" é o lema destes "provedores de soluções", característicos de economias fiscalmente obtusas. A situação, evidentemente, beneficia grupos e empresas com mais recursos, cujas ações muitas vezes resvalam na corrupção.    

Estamos em um momento propício para mudanças neste sentido. O Estado precisa se limitar a desempenhar bem a sua função; oferecer bons serviços de educação, saúde, segurança, justiça e gestão pública, entre outros, e deixar as outras atividades para o cidadão. Coordenar mas não dirigir a economia, deixando amplo espaço para a concorrência, sem privilegiar grupos econômicos, seja sob que argumento for. A tutela estatal, dado o baixo desenvolvimento social e econômico do Brasil, foi necessária até certo ponto de nossa história. Hoje, até para poder alocar recursos em outras áreas, é preciso que o Estado seja menos interventor e burocrático e se preocupe mais em controlar as atividades econômicas - coisa que até agora as agências controladoras fizeram muito mal. Quando vamos aprender a encarar os problemas do país de uma maneira mais prática, ao invés de ainda nos prendermos a rótulos do século XX, como por exemplo a divisão "esquerda e direita"?

De costas para o interior

sábado, 3 de setembro de 2016
"Nossos espíritos, assim  desenvolvem-se por pontos; e como os salpicos de graxa, os pontos se espalham. Mas nós os deixamos espalharem-se tão pouco quanto possível; mantemos inalterado, o mais que podemos, o nosso velho conhecimento, os nossos velhos preconceitos e as nossas velhas crenças."  -  William James  -  Pragmatismo e outros ensaios

Afirmam alguns autores que o Brasil vive de costas para o seu interior. Por um lado esta afirmação começa a ficar ultrapassada, com o rápido avanço para o Oeste nos últimos 50 anos. Permanece, no entanto, o fato de que a maior parte da população brasileira ainda se concentra numa faixa de terra, que não dista mais de 200 quilômetros do mar. Apesar de seu extenso interior e da ocupação europeia há mais de meio milênio, o Brasil ainda continua, em grande parte, estabelecido à beira mar. 
As populações que se fixaram no Brasil, chegaram a este território em épocas diferentes e basicamente por dois caminhos. Os primeiros povoadores a chegarem, são descendentes dos povos que adentraram ao continente americano há cerca de 15 mil anos, através do Alasca. Entraram no território brasileiro provavelmente através da região amazônica e dali se espalharam para o sul e para a costa. Seu deslocamento e a gradual ocupação do território brasileiro demorou milhares de anos. Neste processo estes povos espalharam a cultura de certos vegetais por regiões onde não existiam, e ocupando o território batizaram os acidentes geográficos com nomes que permanecem até hoje.

Os segundos povoadores, os europeus, vieram através do oceano Atlântico. Navegantes, degredados e depois colonizadores, chegaram com armas, ferramentas e algumas espécies de plantas, movidos pela vontade de enriquecer. Enfrentavam meses de viagem pelo oceano, em condições precárias. Talvez seja por isso que, cansados de tanta água e intimidados com as serras e a floresta, preferissem se estabelecer ali mesmo, a poucos metros do oceano.  
Os primeiros grupos de europeus a penetrarem as terras desconhecidas rumo ao interior do  continente foram as entradas e as bandeiras. Aventureiros pagos pelo estado português ou por grupos privados, planejavam encontrar o ouro que os indígenas do litoral diziam existir terra adentro. Circulavam histórias de um reino onde haviam montanhas do precioso metal, provavelmente relatos deturpados do império inca, cujas fronteiras se estendiam até a Bolívia e a Argentina. Antes da chegada dos europeus, já existia um caminho utilizado periodicamente pelos índios, o Caminho do Peabiru, que saia da costa atlântica na região de São Vicente e Cananéia e chegava a Cusco, no Peru. Partindo do litoral, depois de passar  pelo planalto paulista e interior de São Paulo, por Foz do Iguaçú, pelo Paraguai e a Bolivia, o caminho finalmente alcançava o território do então império inca, no Peru. Chamado mais tarde pelos jesuítas de Caminho de São Tomé, o Peabiru (na língua tupi, "pe" - caminho; "abiru" - gramado, amassado) funcionava como uma rudimentar rota de trocas de produtos do litoral por outros do interior do continente. Depois que os espanhóis passaram a dominar o Peru, a febre do ouro arrefeceu entre os portugueses. A maior parte os novos imigrantes - com exceção dos bandeirantes e dos habitantes de São Paulo - preferiu fixar-se no litoral.
A diferente maneira de ocupação do território pelos índios e portugueses - um embrenhado nos sertões e o outro encastelado no litoral - também teve, entre outros, impactos ambientais. Formou-se ao longo do tempo a ideia de que o sertão deveria ser dominado e explorado, já que só abrigava índios, feras e moléstias, e apenas eventualmente mostrava suas riquezas. A ideia da preservação só veio muito depois.
(Imagens: monumentos incas)
quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Stanislaw Jerzy Lec


Stanislaw Jerzy Lec, poeta e aforista polonês, nasceu em Lviv em 1909 de uma importante família judaica. Estudou letras e direito e desde cedo foi membro do partido comunista polonês. Começou escrevendo poemas e contos para publicações da Polônia e da União Soviética, mantendo intensa militância política. Internado em um campo de concentração pelos nazista na 2ª Guerra, foi condenado à morte por tentar fugir. Escapou matando o guarda com a pá com a qual deveria cavar seu próprio túmulo. Sobre este episódio escreveu o poema Aquele que teve que cavar seu próprio túmulo.
Após a guerra, por suas atividades na resistência polonesa, foi indicado para cargo diplomático em Viena. Descontente com o comunismo polonês, emigrou com a família para Israel, voltando para a Polônia dois anos depois. Atuou como tradutor e escrevia textos de crítica ao regime - fato pelo qual teve seus direitos de publicar cassados até o final dos anos 1950. Imensamente popular, apesar de antiautoritário e anticomunista no final da vida, Lec recebeu grandes honrarias do governo quando de sua morte em 1966.
Stanislaw Lec é considerado um dos melhores aforistas modernos, tendo suas obras traduzidos para quase todas as línguas europeias. Seus aforismos têm geralmente uma conotação crítica. Crítica da política, do conformismo, da imbecilidade (Dummheit) da vida humana, da falta liberdade. No Brasil, país onde o aforismo é pouco valorizado, Lec é praticamente desconhecido e não existem traduções de suas obras. Na internet encontram-se sites contendo alguns aforismos de Lec, traduzidos para o português.
Para fazermos estas traduções utilizamos as obras Letzte unfrisierte Gedanken (1968) (Últimos pensamentos desarranjados); Alle unfrisierte Gedanken (1983) (Todos os pensamentos desarranjados); e Das groβe Buch der unfrisierten Gedanken (1971) (O grande livro dos pensamentos desarranjados).

Aforismos diversos

Sua consciência era limpa, ele nunca a utilizou.

O que é o caos? É a ordem que foi destruída na criação do mundo.

Ah, se pudéssemos ver a vida e não as situações!

É uma pena Caim e Abel não terem sido irmãos siameses.

Aqueles que nadam contra a correnteza, não devem esperar que ela mude de direção.

Ideais não são nada para idealistas.

Para chegar à fonte é preciso nadar contra a correnteza.

Os gordos vivem menos. Mas eles comem por mais tempo.

Lidar com anões faz entortar a coluna.

Quantos rouxinóis uma fera precisa comer, para começar a cantar?

Muitas vezes é preciso dizer não, para poder se afirmar.

Eu sou lindo, eu sou forte, eu sou sábio, sou bom. E descobri tudo isso sozinho!

Panem et circenses! Sempre mais pão branco e jogos mais encarnados.

Quem apela à razão, não a reconhece como primeira instância.

"Levante a cabeça!", dizia o carrasco e lhe jogava a corda em torno do pescoço.

Eu sou um otimista. Acredito na libertadora influência do pessimismo.

Todas as nossas diferentes ficções resultam juntas na realidade.

Na realidade, tudo parece diferente do que realmente é.

Mesmo nas grandes encruzilhadas da história, a polícia tenta organizar o trânsito.

Alguns vivem em uma rotina tão admirável, que é difícil acreditar que vivem pela primeira vez.

Sua falta de talento ele compensa com falta de caráter.

Saiam do caminho da justiça. Ela é cega!

Também os supérfluos são frequentemente requisitados.

A arte era a sua paixão. Ele a perseguia.

Em tempos difíceis não se esconda dentro de você; ali você pode ser achado mais facilmente.

Talvez sejamos apenas a memória de alguém.

O ser humano representa em sua vida apenas um pequeno episódio.

Diferenciamos dois tipos de demônios: anjos decaídos e humanos promovidos.

Mesmo a eternidade tinha, antigamente, uma duração mais longa.

Quem encontra eco, se repete.

Quantos não existem que, para não perderem de vista seu próprio umbigo, estão prontos a curvarem sua coluna.

Ele carregava sua bandeira bem alto - para não precisar vê-la.

A vida é perigosa, quem vive morre.

Vocês sabem onde sempre se pode encontrar a esperança? No guarda-roupa do Inferno, abaixo da inscrição "Lasciate ogni speranza"

Todas as repúblicas as vezes são governadas por reis que estão nus.

Sejamos discretos. Não perguntemos aos mortos se eles viveram.

Os inquisidores conhecem a liberdade - dos depoimentos de seus prisioneiros.

Às vezes o Diabo me tenta a acreditar em Deus.

A contemplação do mundo é grátis. Só pelos comentários precisamos pagar caro.

Não devo me afastar da realidade? Mas ela não está em todo lugar?

(Imagem: fotografia de Stanislaw Jerzy Lec)

Baleias ainda precisam de proteção

sábado, 27 de agosto de 2016
"O tempo cura e o tempo mata"  -  Adágio mexicano

Entre o final do mês de maio e o mês de junho deste ano, aumentou o número de baleias da espécie jubarte encontradas mortas no litoral paulista. Os cetáceos morreram em alto mar e foram levados para as praias pela maré. Segundo os biólogos, é durante o inverno que estes animais se deslocam do Atlântico Sul para águas mais quentes em regiões tropicais como o Nordeste do país, onde procriam e alimentam seus filhotes. Nestas longas viagens de até 10 mil quilômetros, é comum ocorrer algum acidente que ocasione a morte de um ou outro indivíduo. 
Os primeiros registros históricos de caça às baleias datam do século 9, quando estes animais eram caçados na costa atlântica da Espanha. Foi o aprimoramento dos arpões e a construção de barcos mais ágeis, que permitiram o aumento da caça do cetáceo a partir do século XVII. No século XIX haviam grandes frotas de navios americanos, ingleses e russos, que se dedicavam à caça da baleia. No início do século XX o arpão foi aprimorado, ao mesmo tempo em que surgiam os navios fábrica, que faziam o processamento do animal já em alto mar. A caça em ritmo industrial, principalmente depois da Segunda Grande Guerra, fez com que o número de indivíduos começasse a diminuir, pondo em risco a sobrevivência da espécie.
A caça da baleia, como atividade econômica de certa importância, está bastante ligada à história do Brasil colonial. O óleo, que envolvia suas espessas camadas de gordura, era o produto com a maior possibilidade de aplicações. Em artigo no site "Revista de História.com.br" o historiador João Rafael Moraes de Oliveira escreve que "este óleo servia para a iluminação dos engenhos, casas, fortalezas, para calafetagem de barcos (vedação com estopa), para fabricação de sabões e velas e ainda podia ser usado na lubrificação de engrenagens." Misturado com barro ou conchas moídas, formava uma argamassa que ainda hoje pode ser vista em construções antigas do litoral brasileiro - principalmente entre a Bahia e Santa Catarina, que eram a principal zona de caça ao mamífero. A carne era alimento, os ossos eram usados na construção e na indústria moveleira e as barbatanas, que ficavam no céu da boca do animal, eram usadas na indústria da confecção.

As armações - locais onde eram processada a baleia capturada - começaram a surgir no litoral brasileiro a partir de 1730, principalmente em São Paulo e Santa Catarina, empregando em grande parte mão de obra escrava. Por volta de 1750, segundo Oliveira, "apenas em uma armação chegava-se a capturar 500 baleias numa boa temporada de pesca." A caça da baleia teve seu auge por volta de 1780 e começou a declinar nas primeiras décadas do século XIX - primeiro sinal de que a captura excessiva estava reduzindo o número de indivíduos.
As baleias são o maior mamífero que já habitou o planeta. Sua evolução, da terra à água, é um dos mais belos exemplos de adaptação de uma espécie aos diferentes ambientes. Das 26 espécies conhecidas, muitas correm risco de extinção. A jubarte, por exemplo, de tanto ser caçada, quase desapareceu. Em 1986 foi acordada uma moratória global sobre comércio baleeiro, que todavia ainda não é respeitado por alguns países; principalmente o Japão, a Noruega e a Islândia. Atualmente, além da caça, ainda que reduzida, as baleias convivem cada vez mais com a poluição e acidificação das águas dos oceanos.
(Imagens: templos egípcios)

Diminui o buraco da camada de ozônio

sábado, 20 de agosto de 2016
"Lembro a vocês o fato elementar de que respiramos os resíduos desprezados pela plantas e que as plantas respiram os resíduos desprezados pelos seres humanos."  -  Carl Sagan  -  Variedades da experiência científica

Um fato recente bastante importante, passou quase despercebido do grande público e só foi superficialmente noticiado na mídia. Trata-se da redução do buraco na camada de ozônio da atmosfera da Terra. A notícia é bastante auspiciosa e tem um grande significado para todos aqueles preocupados com o impacto das atividades econômicas sobre a natureza.
A camada de ozônio está situada na estratosfera, região da atmosfera terrestre situada entre 25 e 35 mil metros de altitude, e atua como um filtro que elimina 98% da radiação ultravioleta (UV) que vem do Sol. A UV é responsável pelo bronzeamento da pele, mas em quantidades mais concentradas causa queimaduras, catarata, altera o DNA, podendo causar câncer de pele. A cada ano são descobertos entre 2 e 3 milhões de casos de câncer de pele em todo o mundo e a quantidade vem aumentando também no Brasil. Cientistas fazem uma relação entre o crescimento dos casos desta doença com o aumento do buraco na camada de ozônio.
Os principais destruidores do ozônio presente na atmosfera são os gases CFC (clorofluorcarbonos); compostos presentes em aerossóis e na refrigeração de geladeiras, sistemas de ar condicionado, entre outros. Através da luz solar as moléculas de CFC se quebram, liberando o cloro que passa a reagir com o ozônio, eliminando seu efeito filtrante dos raios UV. Assim, com menor quantidade de ozônio presente nas altas camadas da atmosfera, a radiação chega com mais facilidade ao solo, afetando as moléculas que compõem os seres vivos. Resumidamente, substâncias químicas industriais atuando e destruindo substâncias químicas naturais. Era preciso fazer algo.
Identificado o problema os países assinaram um acordo global em 1989, denominado Protocolo de Montreal, que baniu o uso de substâncias à base de CFC em todo o mundo. Como a cadeia produtiva que utilizava o CFC em seus processos era relativamente reduzida, as ações de governos, ONGs e associações de empresas surtiram efeito com relativa rapidez na eliminação do uso do gás poluente. O efeito desta ação positiva é o que estamos começando a perceber. Estudiosa do problema no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussetts), Susan Solomon comentou: "A ciência ajudou mostrando o caminho, os diplomatas, os países e a indústria tiveram uma capacidade incrível de traçar uma estratégia para abandonar o uso dessas moléculas, e agora nós de fato estamos vendo que o planeta melhorou. É maravilhoso." (Jornal Folha de São Paulo 3/7/2016).

Apesar de ainda haver uma certa confusão entre o buraco na camada de ozônio e o efeito estufa, trata-se de assuntos diferentes. O fenômeno do efeito estufa, aquecendo a atmosfera terrestre, é muito mais complexo e, infelizmente, não é causado só por algumas substâncias químicas que podem ser substituídas por outras em curto espaço de tempo. O efeito estufa é gerado pelo excesso de substâncias químicas formadas pelo elemento básico da vida, presente em quase tudo: o carbono. O processamento de duas substâncias ricas em carbono, o petróleo e o carvão, forma a base de nossa geração de energia, transportes, indústria e agricultura. Outras moléculas ricas em carbono, o metano e o dióxido de carbono (CO²), são expelidos pela maior parte dos seres vivos. Por isso, descarbonizar a economia mundial e reduzir o efeito estufa será muito mais complexo e demorado - mas pode ser possível.
(Imagens: ruínas da cidade de Éfeso)    

As Olimpíadas e o meio ambiente

sábado, 13 de agosto de 2016
"Religiosidade sem religião - Existe mais mistério no ser de uma simples flor ou de um aleatório grão de areia do que em todas as religiões do mundo."  -  Eduardo Gianetti  -  Trópicos Utópicos

Às vésperas dos Jogos Olímpicos, o governador interino do estado do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, decreta estado de calamidade pública, tendo em vista a situação financeira. Foram anunciados cortes em diversos programas sociais que podem atingir 1,4 bilhão de reais - valor insuficiente para reduzir o déficit de 19 bilhões de reais, resultado do descontrole nos gastos públicos e queda na receita dos royalties do petróleo.
A época para a falência financeira do estado é a pior possível, já que a cidade de Rio de Janeiro está às vésperas de sediar o mais importante evento esportivo mundial: os XXXI Jogos Olímpicos.  A Olimpíada deverá ocorrer entre 5 e 21 de agosto de 2016 e são esperados cerca de 480 mil visitantes. Para receber esta afluência a prefeitura, o estado e o governo federal realizaram várias obras de infraestrutura, além de preparar as instalações para a realização dos jogos e a acomodação dos atletas participantes.
Quando a cidade apresentou sua candidatura para sediar os Jogos Olímpicos em 2009, um dossiê estimava os investimentos necessários em 28,8 bilhões de reais, divididos da seguinte maneira: 5,6 bilhões de reais destinados à construção do Parque Olímpico e 23,2 bilhões para obras relacionadas ao transporte público. A mais recente estimativa de custos, de agosto de 2015, alcançou 39,1 bilhões de reais devido, segundo o Comitê Olímpico Brasileiro, ao aumento do número de projetos, compra de equipamentos adicionais e inclusão de obras que não haviam sido previstas de início.  
Apesar do grande volume de obras realizadas, inclusive de saneamento, a poluição das águas é, sem dúvida, o maior problema desta Olimpíada. Constantemente, a imprensa local e internacional tem publicado informações sobre as duvidosas condições de limpeza das águas onde serão realizados esportes aquáticos como remo (Lagoa Rodrigo de Freitas) e vela (área da Baía de Guanabara). Permanece o fato de que grande parte dos rios que deságua na baía de Guanabara ainda recebe grande volume de esgoto doméstico e, em alguns casos, industrial. Com a expansão urbana da cidade do Rio de Janeiro desde o século XIX, estes rios se transformaram em receptores de efluentes e lixo, que são carregados para dentro da baía. 

Quando do início das obras em 2010, o Comitê Olímpico Brasileiro disse que a baía estaria saneada em até 80% para receber a Olimpíada. No final de 2015 o então governador Pezão informou que o percentual de tratamento dos esgotos, que era de 17%, deveria chegar aos 49% até a realização da Olimpíada. Estimativas mais recentes, segundo o jornal eletrônico "Rio on Watch" (http://rioonwatch.org.br/?p=19084), aumentam este percentual para 65%. Nas últimas semanas algumas obras de saneamento ainda foram entregues, mas o problema de poluição das águas persistirá mesmo durante o evento. A poluição não se limita à lagoa Rodrigo de Freitas e à baía da Guanabara. Na zona Oeste, perto de onde está localizado o Parque dos Atletas, grande parte das lagoas também está comprometida por efluentes domésticos.
A situação do Rio de Janeiro reflete a maneira como o Estado tem tratado a questão do saneamento desde sempre no Brasil. Num evento desta monta, quando aos olhos do mundo o país poderia mostrar uma imagem de comprometimento com o meio ambiente, o que apresentaremos é incapacidade de gestão e descaso com a natureza.
(Imagens: estradas romanas)

Energia eólica avança

sábado, 6 de agosto de 2016
"Política é a arte de pedir votos aos pobres, dinheiro aos ricos e mentir para ambos"  -  Antonio Hermínio de Morais

Apesar da crise econômica, que afeta diversos segmentos da economia brasileira, o setor da energia eólica deverá crescer cerca de 40% em 2016, segundo Associação Brasileira da Energia Eólica (Abeeólica). E para o futuro as perspectivas são melhores ainda.
Este setor surgiu em 1999, quando os primeiros geradores eólicos foram instalados no Nordeste. A energia do vento tomou efetivo impulso a partir da crise energética de 2000/2001, provocada pela falta de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas. Este fato colocou em cheque a maneira tradicional como o país vinha produzindo grande parte (65%) de sua energia elétrica. Ficou claro que o Brasil precisaria desenvolver outras fontes de energia. Assim, em 2002, o então governo Lula lançou o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (PROINFA), que se propunha a desenvolver fontes renováveis de energia, bastante abundantes no país. Foi assim que através do PROINFA construíram-se os primeiros parques eólicos, que em 2005 totalizavam uma capacidade instalada de 25 MW (Megawatts).

Somente o programa do governo não foi suficiente para desenvolver o mercado de energias renováveis; era preciso abrir espaço para uma maior participação do setor privado. Para isso, o Ministério das Minas e Energia decidiu introduzir os leilões de compra de energia renovável, em 2009. Ganhava o leilão a empresa que pudesse oferecer energia ao melhor preço, com as melhores garantias. Com isso, em curto espaço de tempo, os preços de comercialização da energia eólica caíram de R$ 374,00 por MW/h (Megawatt por hora) em 2002, para R$ 100,00 por MW/h em 2011. A queda no preço, fez com que o custo da energia eólica se igualasse praticamente ao preço da energia hidrelétrica, que sempre havia sido a mais barata e tradicional fonte energética brasileira.
Os principais fatores que levaram a este barateamento no preço da energia eólica foram a livre concorrência e seus efeitos positivos. Novas medições dos ventos trouxeram dados mais apurados; foi possível identificar correntes de vento mais constantes e potentes, que associadas a equipamentos mais eficientes aumentaram a geração de energia. A engenharia financeira dos projetos foi aprimorada, reduzindo os riscos para os investidores e aumentando as margens de lucro. A legislação, clara e objetiva, com pouca interferência do governo, passou a oferecer mais segurança no longo prazo, atraindo um número maior de investidores. Além disso, os custos de manutenção dos equipamentos são relativamente baixos.
Atualmente (2016) o país tem 5.141 turbinas eólicas em operação no país, distribuídas em 369 usinas, gerando 9,25 GW (Gigawatts) instalados. Desde o início dos leilões o setor já recebeu R$ 67 bilhões em investimentos, o que transformou o pais em um dos cinco maiores geradores de energia eólica do mundo. Hoje este tipo de energia atende 6,4% da demanda de energia elétrica do país e no Nordeste os parques eólicos locais chegam a suprir 30% da demanda local.
O potencial de geração eólica do país é imenso, estimado em 140 GW ou mais, e o crescimento da demanda fará com que este mercado continue em rápida expansão, pelo menos nos próximos dez anos. Em 2014 foram criados neste setor 40 mil empregos diretos e indiretos, número que até 2019 deverá chegar a 150 mil, quando a capacidade instalada chegar a previstos 18 GW.
(Imagens: Calçada do Lorena) 

Carro a diesel, quem ganha com isso?

sábado, 30 de julho de 2016
"Que, se os homens se dessem às coisas úteis com o mesmo fervor, com que se dão às coisas que lhe são impróprias, de nenhum proveito, e até mui perigosas, regeriam mais a fortuna, que a eles,  e subiriam tal grandeza, que de mortais os tornaria eternos a fama."  -  Salústrio  -  Guerra Jugurtina

Tramita na Câmara projeto que autoriza a fabricação e a venda de carros leves a diesel no Brasil. O projeto já foi rejeitado pelos deputados Sarney Filho (PV-MA) e Mendonça Filho (DEM-PE), respectivamente ministros do Meio Ambiente e da Educação do atual governo. Em 2015 o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) criou uma comissão especial e depois de cinco anos de tramitação trouxe o tema novamente para votação. O relator do projeto, deputado Evandro Roman (PSD-PR) pretende levar o projeto a votação até meados de junho. Assim, quando este artigo for publicado, o resultado da votação já será conhecido.
Para discutir o projeto, foram realizadas diversas audiências públicas, com a participação de montadoras, fabricantes de autopeças, produtores de combustíveis, órgãos ambientais, além dos ministérios do Meio Ambiente, das Minas e Energia, a Agência Nacional de Petróleo, Petrobrás e outros. De uma maneira geral, a maior parte dos especialistas se colocou contra o projeto.
Mesmo com as medidas de controle de emissões estabelecidas pelo governo, os veículos a diesel ainda emitem mais material particulado e óxidos de nitrogênio do que os automóveis rodando com gasolina ou etanol. Os padrões de emissão dos motores a diesel ainda estão acima daqueles recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Apesar de ter preço abaixo do de outros combustíveis, o diesel é mais poluente - especialmente o brasileiro que ainda tem um teor de enxofre mais alto do que o diesel dos EUA e Europa - além de ser importado.
O relator do projeto defende que o consumidor deve ter direito de escolha, já que carros a diesel tem consumo menor de combustível. A situação, no entanto, não se resume apenas a uma suposta liberdade de escolha do consumidor. O diesel tem um preço menor porque não tem a mesma tributação dos outros combustíveis, sendo utilizado por caminhões que fazem o transporte de cargas. Se o combustível vier a ser utilizado por automóveis de passageiros, aumentará o volume consumido e, consequentemente, suas importações. Com isso o governo precisará aumentar os impostos sobre o diesel, encarecendo os custos de todo o setor de transportes.
Outro aspecto refere-se ao meio ambiente e à saúde. É fato que o diesel é um dos combustíveis mais poluentes. Mesmo a Europa, depois do escândalo dos carros da Volkswagen (a montadora declarava determinado nível de emissão de gases, quando efetivamente os carros emitiam muito mais) já está começando a rever sua política ambiental com relação aos automóveis movidos a diesel. "A Europa começa a discutir a restrição desses carros, culpando o diesel pela poluição das regiões metropolitanas. E nós vamos receber o lixo tecnológico que vai ser proibido lá?", cometa ao jornal O Estado de São Paulo o deputado Bruno Covas, ex secretário do Meio Ambiente do estado de São Paulo e opositor do projeto.


O Brasil, assim como todos os países emissores de gases de efeito estufa, acordou metas de redução de emissões durante a Conferência Mundial do Clima de Paris, em dezembro último. A liberação dos motores a diesel para veículos de passeio aumentaria consideravelmente as emissões de gases no país, além de piorar os microclimas e a poluição das nossas grandes cidades. No balanço geral o projeto trará muitas desvantagens e algumas poucas vantagens. Estas últimas principalmente para o setor automotivo.
(Imagens: pontes romanas)

Combustíveis e emissões de gases

sábado, 23 de julho de 2016
"A vida não é um bem, nem um mal: é ocasião para o bem e para o mal."  -  Lucílio  -  Pensamento estoico

O setor de transportes é um dos que mais contribui para a emissão de gases de efeito estufa (GEE) em todo o mundo, representando aproximadamente 20% do volume total das emissões. O mesmo ocorre no Brasil, onde grande parte dos transportes de produtos e mercadorias é feita através de caminhões. Na falta de um moderna infraestrutura de transportes de massa, parte significativa da população dos grandes centros urbanos brasileiros se utiliza do próprio automóvel, contribuindo mais ainda para o aumento das emissões de GEE.
Apesar da queda no consumo de combustíveis no Brasil entre 2014 e 2015 - 4,7% no caso do diesel e 7,3% no da gasolina - o aumento na queima dos combustíveis foi uma constante ao longo dos últimos 20 anos. A crise econômica deve refrear esta tendência ainda por mais um ou dois anos, mas logo que a economia mostrar uma pequena melhora e a produção e a distribuição voltarem a acelerar, a curva do uso de combustíveis voltará a subir. Por outro lado, apesar de ter reconquistado recentemente a autossuficiência volumétrica na produção do petróleo, o país ainda importa óleo diesel e outros derivados, dada a falta de capacidade para refino.

Do óleo diesel utilizado no Brasil, 75% do combustível é queimado pelo setor de transportes. Um volume considerável, que faz com que o país seja o segundo maior mercado mundial de consumo de diesel. A qualidade deste óleo combustível sempre foi bastante baixa, com altos índices de enxofre, o que aumentava a presença da fuligem resultante da queima do combustível. Desde 2013 o padrão do diesel melhorou bastante com o lançamento dos óleos tipo S-10 e S-50, propiciando considerável redução de enxofre. Outro aspecto na melhora da qualidade do diesel refere-se à sua composição; atualmente 7% de seu volume é constituído por biodiesel (óleo de origem vegetal). Este percentual deverá se elevar para 8% em 2017 e crescer 1% a cada ano até 2019, quando chegará aos 10% do volume do diesel.
A qualidade da gasolina brasileira, no que se refere à emissão de poluentes especialmente enxofre, era bastante baixa. A partir de janeiro de 2014, com nova formulação, a presença do enxofre na gasolina foi bastante reduzida, caindo de 800 ppm (partes por milhão) para 50 ppm. A adição de 25% de etanol anidro (álcool) à gasolina, faz com que 1/4 do combustível seja de origem renovável, não adicionando novas quantidades de GEE à atmosfera quando queimado. O programa brasileiro do etanol é único em todo o mundo (na quantidade em que é adicionada à gasolina), e é importante que o novo governo tenha na recuperação deste programa uma de sua principais metas de sua política energética.

A emissão de GEE pelo setor de transportes tem impacto direto sobre a saúde da população urbana, segundo diversos estudos já realizados. No entanto, entre 2003 e 2011 as emissões do setor de transportes aumentaram 17,8% na cidade de São Paulo, segundo dados da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. Em 2013 63,1% das emissões de GEE na cidade eram originadas pelo setor de transportes. Destas, 51% gerados por automóveis; 17% por veículos comerciais leves e caminhões; 13% por ônibus e 3% pelas motocicletas, entre outros. Por isso, é importante melhorar a eficiência dos motores, inclusive através de programas de controle de emissões, e melhorar a qualidade ambiental dos combustíveis.
(Imagens: fotografias de pontes)