Gestão hídrica é tema global

sábado, 30 de abril de 2016
"Os pensamentos que podem ser verificados por nós são, por assim dizer, uma pequena região clara dentro do todo, que Martin Heidegger descreveu com uma metáfora famosa como 'a clareira'. Nós nos encontramos numa clareira no meio de uma floresta, ou melhor, no meio de uma selva enorme."  -  Markus Gabriel  - Por que o mundo não existe

A água e sua gestão é tema cada vez mais presente na mídia. E não apenas naquela que trata de temas ambientais, mas também na mídia voltada para temas de ciência e de economia. Estadistas, cientistas e empresários, percebem cada vez com maior clareza, que a preservação dos recursos hídricos é essencial para que a humanidade possa continuar vivendo decentemente sobre o planeta. A escassez do líquido coloca em risco a agricultura, as concentrações humanas e todas as atividades econômicas; podendo provocar revoluções, guerras, migrações e suas consequências para a humanidade: sofrimento, dor e morte.
Em artigo recentemente publicado no jornal O Globo, a jornalistas Ana Lucia Azevedo reata o drama de um dos maiores incêndio já ocorridos na Chapada Diamantina, na Bahia. O fogo teve início em final de 2015 e, alimentado pela seca do fenômeno climático El Niño, só foi debelado em janeiro de 2016. A região é conhecida como a Caixa D' Água da Bahia e é o nascedouro de 80% dos rios do estado, inclusive do rio Paraguaçu, que fornece 60% da água consumida em Salvador. Os incêndios, que se espalham por áreas de difícil acesso, destroem os ecossistemas que propiciam a abundância de água na região.
Ao mesmo tempo, o jornal de economia e finanças Valor publica um artigo assinado por José Graziano Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e ex-ministro do primeiro governo Lula, alertando para as influências do fenômeno El Niño sobre os padrões de precipitação pluviométrica e temperatura em várias partes do planeta, inclusive no Sul e Nordeste do Brasil. O texto alerta para a perigo de "fome, desnutrição, escassez ou contaminação de água"..."bem como perdas de colheitas acompanhadas de desertificação de terras agrícolas." em várias regiões do globo.
A revista Scientific American, em artigo assinado por John Wendle em sua edição de abril de 2016, faz uma relação entre a seca, os abusos governamentais e a violência social. Segundo a publicação científica, entre 2006 e 2007 o nível do lençol freático da Síria baixou dezenas ou até centenas de metros, dificultando aos agricultores o acesso à água. Assim, entre 2007 e 2010, a Síria sofreu "a seca mais devastadora de sua história". A falta de água ajudou a precipitar a crise econômica e social, afundando o país em uma guerra civil. Segundo a revista, o que ocorre na Síria é um prenúncio do que está em andamento em todo "o Oriente Médio em maior escala, o Mediterrâneo e outras partes do mundo." ..."O Crescente Fértil - o lugar onde a agricultura nasceu, há cerca de 12 mil anos - está secando. A seca na Síria destruiu plantações, matou animais e deslocou cerca de 1,5 milhão de fazendeiros."
A região Sudeste e, especialmente, o estado de São Paulo, ainda não se recuperaram completamente da crise hídrica de 2014-2015. Os reservatórios não atingiram seus volumes médios e a quantidade de chuvas deve diminuir nos próximos seis meses. Por isso, causou certa apreensão a informação de que a Sabesp pretende abolir o bônus e a multa na conta de água. Especialistas dizem que ainda não é hora de relaxar o controle, apesar do governador Alckmim ter declarado que "a questão da água está resolvida no estado". As mudanças das condições climáticas, associadas ao mal uso dos estoques de água, podem comprometer o futuro deste recurso.
(Imagens: pinturas de Cândido Portinari)

Áreas contaminadas

sábado, 23 de abril de 2016
"Recorda-te de que, ainda que sejas de natureza mortal e com um limite finito de vida, te debruçaste, mediante a investigação da natureza, no que é infinito e eterno, e contemplaste o que é agora, será e sempre foi no tempo transcorrido."  -  Epicuro  -  Antologia de textos

A ocorrência de contaminações do solo por atividades econômicas são cada vez mais frequentes em todo o mundo, inclusive no Brasil. Este tipo de poluição ambiental ocorre quando líquidos ou sólidos de alguma toxicidade, penetram ou permanecem em contato com o solo. Depois de certo tempo, geralmente pela ação da chuva, estes resíduos acabam atingindo camadas mais profundas do subsolo, contaminando o lençol freático. Dentro do solo estes poluentes tóxicos podem se deslocar por longas distâncias, movendo-se junto com a água, por entre as camadas de terra.
A contaminação dos solos e dos lençóis freáticos por produtos tóxicos está ligada à armazenagem e manipulação destes produtos. Lixões, aterros industriais, galpões e tanques de armazenagem, manuseio e descarte de produtos químicos, efluentes, fertilizantes, agrotóxicos, etc., são geralmente os locais e atividades que podem provocar o vazamento de produtos tóxicos. Não é coincidência então que cerca de 77% das áreas contaminadas identificadas no estado de São Paulo, estejam em terrenos ocupados por postos de combustíveis. Outras áreas muitas vezes poluídas por derramamentos tóxicos são as áreas ocupadas por fábricas desativadas.
A agência ambiental do estado de São Paulo publicou em seu relatório de 2014 ter identificado 5.148 locais contaminados em todo o estado. Especialistas do setor estimam que a quantidade de sítios contaminados seja bem maior, já que estas áreas só podem ser identificadas a partir do momento em que a autoridade ambiental tem acesso à informação. Por vários motivos, inclusive o fato de não quererem arcar com os custos de remediação do local, empresários não comunicam a existência desta poluição.
O problema é mundial mas sua solução depende da legislação e da vontade das autoridades em recuperarem o solo. A China é provavelmente o país com a maior quantidade de áreas contaminadas, devido à grande atividade industrial e ao pouco controle das agências de meio ambiente sobre este tipo de poluição. Do solo a contaminação vai para a água, comprometendo o abastecimento de água de diversas cidades, como o noticiário nos informa com certa regularidade. Em outras regiões, como na Europa e os Estados Unidos, o problema da contaminação de solos vem sendo tratado com mais atenção há vários anos. Os EUA já em 1999 identificaram 190 mil áreas contaminadas - numero que atualmente deve ser bem maior. O ministério do Meio Ambiente da Alemanha estimava em 2010 que o país dispunha de 170 mil os sítios contaminados, em todo o país.
A União Europeia dispõem de uma legislação unificada referente à contaminação de solos desde 2002. Nesta região a questão já avançou tanto, que já não se considera apenas a questão da contaminação do solo urbano. Assim, um dos temas bastante discutidos atualmente é a poluição de solos agrícolas através do cádmio, elemento presente nos fertilizantes fosfatados usados em grande quantidade na agricultura - inclusive no Brasil. No entanto, devido à grande extensão da área agrícola brasileira e à falta de um controle adequado do solo na maior parte das propriedades agrícolas, é provável que esta discussão demore a chegar ao Brasil, já que temos outras prioridades no controle da poluição ambiental. Assim, se conseguirmos identificar o maior número possível de áreas contaminadas e aumentar o ritmo da descontaminação, já será um grande avanço.
(Imagens: pinturas de Lasar Segall)

Mudanças climáticas e a agricultura

sábado, 16 de abril de 2016
"De um modo geral, não admiro os americanos papa-Bíblias - metodistas, batistas e outros vermes. Mas tente imaginar o que seria um metodista semianalfabeto se ele não fosse metodista, e sim ateu!"  -  H.L. Mencken  -  O livro dos insultos

Na Conferência sobre o Clima (COP-21), realizada em Paris em dezembro último, foi acordado de que a grande maioria da nações do mundo deverá dar sua contribuição para reduzir as emissões de gases que causem o efeito estufa (GEE); o aquecimento da atmosfera. O Brasil tem como objetivos principais a eliminação total do desmatamento ilegal na Amazônia e a redução de GEE na atividade agropecuária.
O setor agrícola foi responsável por 37% do PIB (2014) e por 48% das exportações brasileiras (2015), empregando uma importante parte da mão de obra brasileira, principalmente nas pequenas propriedades agrícolas. Dentre as mais importantes commodities agrícolas brasileiras figura o café, responsável por cerca de 3% das exportações e 7% do PIB agrícola do país. Depois de mais de 150 anos na pauta das exportações brasileiras, o café continua sendo uma importante cultura, já que o país ainda é o maior exportador e o segundo consumidor do produto em todo o planeta. A maior parte do café brasileiro é produzida no estado de Minas Gerais, nas regiões do Triângulo Mineiro, Sul/Sudeste e na Zona da Mata.      
A cultura do café deverá ser afetada pelas mudanças climáticas. Estudo publicado em 2004 pela EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) previa uma redução considerável na área plantada de café nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Paraná, ao longo deste século, ocasionada pelo aumento da temperatura média durante o ano. Pragas e problemas no desenvolvimento da planta, seriam as consequências mais comuns do previsto aumento da temperatura.
No entanto, a influência das mudanças climáticas sobre a cultura do café era vista com ceticismo por grande parte dos produtores até há pouco. A recente estiagem (2014-2015), todavia, fez com que o setor abrisse os olhos para o fenômeno. Diminuição da vazão de córregos e rios, queda do nível do lençol freático e secagem de nascentes, foram algumas das consequências imediatas percebidas pelos agricultores.
Instituições como a EMATER MG (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais), a Fundação Hans Neumann, a universidade Federal de Lavras e ONGs como a associação 4C, estão desenvolvendo técnicas para ajudar a agricultura cafeeira a fazer frente às consequências das mudanças climáticas. Práticas para a conservação do solo e das águas; sombreamento dos cafeeiros com outras culturas (abacate e teca); barreiras naturais de proteção contra o vento com árvores frutíferas; adubação mais econômica com gesso bruto; entre outras, estão sendo disseminadas entre os produtores e cooperativas. Os primeiros resultados já indicam uma melhor produtividade e proteção das plantas e da área de plantio a médio e longo prazos.

Em 2010 o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento lançou o "Plano Setorial de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura" ou Plano ABC. Entre outras iniciativas o plano prevê a recuperação de pastagens degradadas; a integração entre a lavoura, a pecuária e floresta comercial (eucalipto); a ampliação do sistema de plantio direto; a recuperação de florestas naturais; o aproveitamento energético de resíduos agrícolas. Entre 2010 e 2020 o plano deverá impulsionar iniciativas no setor agrícola, visando prepará-lo para as mudanças causadas pelo clima.
(Imagens: pinturas de Andrew Wyeth)

Obras contra enchentes na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP)

sábado, 9 de abril de 2016
"A crença na existência de tijolos elementares distinguíveis e eternos é o fundamento último de todo o método cartesiano, ou seja, de todo o método analítico."  -  Marc Halévy  -  A era do conhecimento

No verão de 2016 a região metropolitana de São Paulo (RMSP) foi afetada por fortes chuvas, que provocaram perdas materiais e de vidas humanas. O fenômeno não é novo, mas toma proporções cada vez maiores, devido ao crescimento da urbanização em toda a região. Impermeabilização do solo, ocupação das áreas de várzea, redução das áreas verdes, insuficientes redes de drenagem, acúmulo de resíduos; são os principais fatores causadores das enchentes. Outro aspecto é que a maior parte da chuva que cai sobre a RMSP corre para os córregos e rios que deságuam no Tietê, aumentando seu volume em várias vezes.
A calha do Tietê se formou há cerca de cinco milhões de anos e é habitada e navegada há mais de seis mil anos. O rio deve ter provocado centenas de enchentes ao longo de sua história, inundando as margens e avançando sobre as várzeas. Terminadas as chuvas, as águas voltavam ao seu leito normal. O "piratininga" do nome da cidade, São Paulo de Piratininga, quer dizer "peixe seco", numa alusão aos peixes que secavam no solo, depois que as águas do rio baixavam.
Fundada a cidade, as enchentes do rio Tietê passaram a afetar a população a partir do final do século XIX, quando a região situada entre o centro velho e o rio Tietê - os atuais bairros da Luz, Bom Retiro, Barra Funda, Brás, Pari e Canindé - começa a ser ocupada. Assim, a maior enchente do Tietê ocorreu no verão de 1929, na qual as águas do rio ocuparam grande parte daqueles bairros da cidade por vários dias. A construção de avenidas e o aterramento de áreas de várzea para a abertura de loteamentos entre as décadas de 1940 e 1970, aumentaram o impacto das enchentes sobre a vida da cidade.  
Em 1998 o governo estadual deu início a um programa de aprofundamento e ampliação da calha do rio, a fim de eliminar o alagamento do rio. Depois das obras, terminadas em 2006, o Tietê ficou mais largo e 2,5 metros mais profundo, ao longo de seus 24,5 km de trecho urbano. As obras, no entanto, não foram suficientes para evitar novas enchentes na RMSP. Reportagem publicada recentemente no jornal O Estado de São Paulo, informa que o governo estadual planeja novas obras relacionadas ao Plano Diretor de Macrodrenagem da Bacia do Alto Tietê (PDMAT). As obras devem incluir um novo rebaixamento da calha do rio em mais 2,5 metros entre a barragem da Penha, na zona leste da cidade, e a usina hidrelétrica Edgard de Souza, em Santana do Parnaíba, aumentando a capacidade de vazão do rio. O projeto também prevê o rebaixamento da calha do rio Pinheiros na altura do Ceagesp, além de outras obras ao longo dos rios Aricanduva, Pirajussara, Juqueri e Tamanduateí, que também compõem a bacia. Para controlar o fluxo de água que corre para os rios, o PDMAT construirá 160 piscinões. Na bacia do rio Juqueri, que passa pelos municípios de Franco da Rocha e Mairiporã, serão construídos 45 reservatórios, com uma capacidade total de armazenagem de 5,6 bilhões de litros.
Críticos do projeto afirmam que será difícil aprofundar ainda mais a calha do Tietê e que não existem áreas suficientes para construir tão grande número de piscinões. Uma alternativas seria fazer a retenção (armazenagem) da água nas próprias residências, prédios e galpões, promovendo o uso da água pluvial nas privadas, na limpeza do chão, na regação de jardins, etc,.
(Imagens: pinturas de Lucas Cranach, o Velho)

Dialética do materialismo: Marx entre Hegel e Feuerbach

sábado, 2 de abril de 2016
"Mas há uma crença fundamental contra a qual a razão é inteiramente inútil: trata-se da crença na própria razão. Crença tanto mais cega quanto ela não dispõe de nenhum pano de fundo para se mostrar como tal, de nenhum antídoto para combatê-la."  -  Silvia Pimenta Velloso Rocha  -  Os abismos da suspeita - Nietzsche e o perspectivismo 

Resumo do livro “Dialética e Materialismo, Marx entre Hegel e Feuerbach”
de Benedito Arthur Sampaio e  Celso Frederico, Editora UFRJ, 2005, 128 p.

Apresentação
Esta obra insere-se na discussão do fim do “socialismo real”, focando o ano de 1843 e a obra “Crítica da Filosofia do Direito”, de Hegel. Baseado na filosofia materialista de Feuerbach e com enfoque filosófico na teoria da alienação, Marx lançou-se à crítica de Hegel. O livro pretende também ressaltar a grande influência de Feuerbach sobre Marx. A obra mostra as influencias filosóficas de Marx e como ele conseguiu conciliar o materialismo de Feuerbach com o idealismo de Hegel.

1843
Em 1843 Marx escreve a “Crítica à Filosofia de Hegel”. Como nessa época o pensamento de Marx ainda não estava maduro e sujeito a diversas influências, retrospectivamente tentaram diversos autores imputar idéias ao pensamento iniciante de Marx.
É fato que nessa época Marx já diferia do pensamento dos jovens hegelianos: era feuerbachiano, mas criticava o caráter apolítico de seu pensamento; não havia feito ainda análise da sociedade burguesa e escrito contra a propriedade privada; sua concepção política aproximava-se do socialismo.  
Diversos autores, como Della Volpe, Cornu, Lukács e outros, dão diversas interpretações do pensamento de Marx em sua juventude, sobre a existência e o significado da dialética materialista nesse período da vida de Marx. Entre 1843 e 1844 Marx trabalhava como redator do jornal “Gazeta Renana” e foi neste período – a fim de escrever seus artigos – que se ocupou pela primeira vez com problemas econômicos.  Por outro lado, seguindo um costume da intelectualidade alemã da época, todo problema discutido tinha que ser analisado filosóficamente, ser discutido pelos pares e sob a ótica da filosofia de Hegel, dominante na época. A filosofia de Hegel, porém, é uma das mais complexas filosofias de todos os tempos.

Hegel havia, de certo modo, decretado o fim do iluminismo na Alemanha, ao classificá-lo como fase de pensamento ultrapassada. Mas é exatamente no período em que Marx começa a escrever na Gazeta Renana, que renasce o interesse pelos ideais iluministas na Alemanha, agora associados à política (socialismo e comunismo) e à crítica de Hegel, em seus aspectos políticos e religiosos. Esta crítica também era projetada no Estado Prussiano da época, fortemente autocrático.
Deste modo, os textos de Marx na Gezeta Renana serviram como base para implantar os problemas econômicos e políticos de seu tempo no texto filosófico; foi o ponto de partida de Marx para a elaboração filosófica de seu pensamento.
A filosofia de Hegel e de seus sucessores, os “jovens hegelianos” era caracterizada por uma crítica a qualquer utopismo. Os autores do livro citam como exemplo uma passagem da “Filosofia do Direito” de Hegel, onde este escreve que “é insensato pretender que alguma filosofia possa antecipar-se a seu mundo presente”. Todavia, o pensamento de Hegel também tinha uma crítica ao presente embutida, ao atual momento histórico, ou seja, ao momento histórico daquela época, conforme a interpretação.
Baseados nesta interpretação diferente de Hegel é que os jovens hegelianos -  incluindo Marx – iriam  opor-se a um estado autoritário, conservador e feudalizante, que era o Estado prussiano da época, governado pelo rei Guilherme IV. Marx, baseado na filosofia de Feuerbach, redige nesta época (1843) a sua “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”. O cerne da crítica de Marx à Hegel é que este em sua obra “Filosofia do Direito” descreve o próprio Estado moderno, mas que este, segundo Marx, não é a forma definitiva do Estado descrito por Hegel. Em outras palavras, a famosa frase de Hegel “o racional é real” foi interpretada por Marx como verdadeira, no entanto, afirmando que “o real não é racional” (ou seja, as condições sociais e econômicas não são as ideais / racionais). Assim como para Feuerbach o conceito de Deus era uma projeção do homem e este deveria apropria-se de suas projeções, para Marx (baseado em Feuerbach) o Estado descrito por Hegel era o Estado burguês e que o homem deveria reapropriar-se do Estado e transformá-lo em uma sociedade democrática.

Propriedade, Sociedade Civil e Estado em Hegel

Em 1845 Marx retoma a questão do Estado e da realidade entendendo-o agora como um processo objetivo, “engendrado pelo conjunto das atividades humanas, pela praxis social articulada universalmente, o que lhe permitia formular uma revolução filosófica, cujo princípio configura uma totalidade humana ativa, autodeterminada, um sujeito social e não uma pluralidade de seres individuais, separados e inertes”.
Em sua análise, mais tarde criticada por Marx, Hegel divide a sociedade em três estágios: a família, a sociedade civil e o Estado. Somente o Estado, diz Hegel, “è a substância que chegou à consciência de si”, formando uma realidade concreta e absoluta.
Para Hegel é através da propriedade que as relações pessoais ganham sua primeira ordenação jurídica. É através do encontro das vontades que se estrutura o contrato de convivência entre os indivíduos. Neste contrato social, a convivência entre os indivíduos será baseada numa conciliação de pessoas, baseado e um objeto material. Este pensamento terá uma profunda influência sobre Marx, quando este estrutura seu conceito de “relações de produção”. Isto prova que a influência de Hegel sobre Marx não se limita a aspectos filosóficos e metodológicos, mas inclui sua teoria econômica.
As concepções do funcionamento do Estado em Hegel tiveram forte influência em sua visão econômica, esta fortemente influenciada pelo liberalismo britânico do século XVIII. Muitas destas concepções de Hegel serão mais tarde incorporadas por Marx, de uma maneira diferente. Desta forma, “o regime comunista de Marx (estágio da evolução social que corresponderia ao Estado político de Hegel, isto é, o momento de “negação da negação” na vida social) promete eliminar de uma vez para sempre o capital e com ele o fundamento econômico e jurídico das relações humanas alienadas do mundo moderno” (pag.44).

Feuerbach, as mediações e a praxis social

A crítica de Feuerbach à filosofia de Hegel (do qual foi discípulo), começa com o início da filosofia, que em Hegel se principia com um objeto extremamente abstrato. Para Feuerbach, ao contrário, “o começo da filosofia é o finito, o determinado, o real”. Feuerbach afirma em sua teoria da alienação que o ser absoluto, ou seja, Deus, e o Espírito Absoluto da evolução intelectual hegeliana é a alienação da essência humana, tomando o absoluto como um sujeito autônomo, um fantasma. Considerar o predicado como sujeito, o pensamento como ser, separá-los e dar predominância e autonomia ao primeiro é, segundo Feuerbach, o grande engodo do método hegeliano e do cristianismo. Esclarecer e iluminar este grande mal-entendido é a tarefa da filosofia. A verdadeira contradição, segundo Feuerbach, está entre a razão abstrata e a percepção. Ao pensamento abstrato, chamado Ser, ilusão dos filósofos idealistas, opõem-se os seres concretos da experiência sensível, e não o nada. O nada, nada é, por não exercer nenhuma influência sobre os sentidos.
A passagem de Marx do materialismo feuerbachiano ao materialismo dialético se dá através da incorporação de conceitos de Hegel, através da negação da negação. O vir-a-ser não se encontra em um pensamento abstrato, mas na vida social empírica dos homens.
Feuerbach afirma que a projeção das qualidade humanas na idéia de Deus tem um aspecto positivo, já que mostra à humanidade as virtudes de que é capaz. A “redenção do homem” não significa o reatamento da aliança com um suposto deus, mas o reatamento da aliança entre os homens. Por isso, ainda segundo Feuerbach, cabe substituir a filosofia por uma antropologia.
A única mudança possível, segundo a filosofia de Feuerbach, é a conscientização pessoal (pela educação, por exemplo), o auto-esclarecimento, livrando o ser humano de sua alienação em relação à religião e à filosofia. Todavia, no aspecto político, a filosofia de Feuerbach não tem nenhuma pretensão transformadora, limitando-se ao aspecto pedagógico. Esta limitação da ação, reflete-se na própria concepção da verdade. Para o autor do “A Essência do Cristianismo” o observador será tanto mais sensível à verdade, quanto menos exercer seu poder sobre a realidade. Esta visão contemplativa choca-se com a visão da verdade de Marx, para quem a verdade se apresenta depois da intervenção do homem na natureza (como o processo da pesquisa científica e atividade industrial).
O Estado, para Feuerbach, deve ser o gerenciador dos conflitos e das necessidades. Seu conceito de Estado espelha-se na democracia burguesa, na qual o Estado é responsável para resolver todas as contradições da sociedade, cabendo aos indivíduos uma atitude passiva.

Estado, sociedade civil e horizontes metodológicos na “Crítica da Filosofia do Direito em Hegel”

A crítica de Marx à filosofia de Hegel foi feita tomando por base a filosofia de Feuerbach, fazendo uso do novo conceito de alienação de Feuerbach. Refutando as teses de Hegel, Marx afirma em “Crítica da Filosofia do Direito em Hegel” que o Estado preconizado por este é apenas uma idéia abstrata, ilusoriamente cultuado como se fosse um sujeito concreto, devendo ser combatido. Por outro lado, Marx também constatava uma clara diferença de interesses entre a organização política (o Estado)  e a sociedade civil.
Marx passou a admitir a idéia de um Estado como ente independente, que a simples crítica de Feuerbach não poderia mudar. Em 1843 Marx ainda considerava o Estado como Idéia, e não como instrumento de interesses particulares. Somente se afastará desta linha de pensamento em 1845, quando afastando-se de Feuerbach criará um novo materialismo que concede à realidade e ao Estado uma racionalidade ativa, decorrente prática social coletiva.

 Della Volpe e a dialética da particularidade

Della Volpe afirma que o texto de Marx de 1843 – “Crítica da Filosofia do Direito em Hegel”, apesar de não ser completamente original já apresenta algumas idéias que o pensador irá desenvolver mais tarde, ao longo da carreira. A primeira crítica da dialética idealista de Hegel foi, entretanto, feita por Feuerbach, antes de Marx.
(Imagens: pinturas de Henri Rousseau)

Consumo de madeira da Amazônia

sábado, 26 de março de 2016
"A causalidade da natureza e a causalidade da vontade não têm o mesmo caráter."  -  Tobias Barreto citado por Hermes Lima em O pensamento vivo de Tobias Barreto

Apesar das campanhas de ONGs locais e internacionais e das ações do governo federal, continua o desmatamento da floresta amazônica. Segundo dados monitorados e divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), nos últimos sete anos foram derrubados cerca de 41 mil km² de floresta; uma área equivalente ao território da Suíça.
Questões fundiárias, avanço da cultura da soja e da criação de gado, garimpagem ilegal e a exploração da madeira, são as atividades econômicas que mais contribuem para o corte da vegetação original. No caso da posse da terra e de seu uso, o Cadastro Ambiental Rural (CAR), mesmo com ritmo de implantação lento, deverá indicar aos ministérios e outras agência a destinação que está sendo dada à terra da região. Por outro lado, os diversos acordos firmados entre produtores de soja e de carne e as grandes cadeias de supermercados, também vem contribuindo para reduzir o desmatamento na região. A extração de madeira e o garimpo de ouro, quando executados de forma ilegal, são atividades cujo controle ainda é relativamente difícil, já que a cadeia de comercialização destes produtos ainda é relativamente difícil de rastrear.
A Amazônia Legal é a principal fornecedora de madeira tropical do mundo. Da madeira extraída na região, segundo dados do Sindicato da Habitação (SECOVI), entre 43% e 80% são obtidos de forma ilegal. Ainda segundo a mesma associação, 14% da madeira cortada são destinados à exportação e 86% são direcionados ao mercado interno. Destes, 20% são vendidos no estado de São Paulo. Os usos da madeira de origem florestal são os mais variados. Segundo Hamilton Leite, vice-presidente de sustentabilidade do SECOVI, 42% das madeiras usadas nos telhados das construções – vigas, pontaletes, caibros e ripas – têm origem na Amazônia. Andaimes, formas e escoramento para estruturas de concreto consomem 28%; pisos e esquadrias 11%; móveis de madeira, 15%. 
Para tentar controlar a origem desta madeira, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), ligado ao Ministério do Meio Ambiente, emite licença obrigatória para o transporte de produtos e subprodutos florestais, o Documento de Origem Floresta (DOF). No entanto, mesmo dispondo de um DOF, não é possível garantir que a madeira atenda a todos os requisitos legais e aos padrões de sustentabilidade. Compreende-se assim, o quanto é difícil determinar se a madeira oferecida no mercado tem ou não origem legal.
No entanto, a madeira pode dispor de uma certificação de entidade independente, como o Forest Stewardship Council (FSC), o Conselho de Manejo Florestal, ou do Programa Brasileiro de Certificação Florestal (Cerflor). Tais entidades garantem que o processamento da madeira em todas as etapas – da extração ao produto final – foi realizado de modo sustentável, conciliando critérios ecológicos e sociais e tendo origem em manejo florestal adequado.
O consumidor pode desempenhar um grande papel na preservação da floresta amazônica, optando por comprar produtos feitos a partir de madeira certificada. Somente através da pressão econômica, a exemplo do que ocorreu na cadeia de comercialização da soja e da carne, será possível dificultar a exploração ilegal desta madeira; atividade que contribui para o desmatamento da Amazônia. Diferentemente do que se pensa, o grande consumidor da madeira ilegal é o mercado interno.
(Imagens: desenhos de Leonardo da Vinci)

Vida e sobrevivência

sábado, 19 de março de 2016
"Atualmente conhecemos mais de mil átomos instáveis. Alguns têm meias-vidas que se medem em bilionésimos de segundo, enquanto outros duram bilhões de anos."  -  Hubert Reeves  -  Um pouco mais de azul

As espécies vivas têm em si o impulso de sobrevivência. No longo processo da evolução do organismo unicelular ao complexo, que levou 3,8 bilhões de anos, o ímpeto de preservação sempre foi a mais primordial e poderosa força a guiar os seres vivos. Esta disposição se manifesta de diversas maneiras; na procura de alimentos, procriação e proteção da prole e na luta ou fuga para a preservação da própria vida. A vida, em todas as suas formas simples e complexas, tem essa misteriosa tendência a se perpetuar, seja em si mesma ou em sua descendência.
Encontramos registros da existência de baratas com idade de 350 milhões de anos e de tubarões com 400 milhões de anos. Os dinossauros, já extintos há 60 milhões de anos, foram a espécie dominante no planeta durante 135 milhões de anos. Nós humanos, da espécie animal homo sapiens, somos os atuais dominadores da Terra – processo que teve início há apenas 150 mil anos e se consolidou gradualmente ao longo dos últimos 10 mil anos, com a invenção da agricultura. No passado, outras espécies de hominídeos também habitaram o planeta – muitas ao mesmo tempo –, mas por obra do acaso apenas a espécie sapiens sobreviveu e se impôs em todos os ambientes e a todas as outras espécies. Somos, portanto, recém-chegados à história da vida e rapidamente dominamos.
O rápido desenvolvimento da espécie humana se deu nos últimos 35 mil anos. Por essa época, por motivos ainda não esclarecidos pela ciência, nossos antepassados começaram a produzir armas mais sofisticadas, desenvolver adornos, fazer pinturas rupestres, adotar regras de convivência social sofisticadas, incluindo uma linguagem elaborada e religião. Antropólogos, paleontólogos, sociólogos, biólogos e geneticistas, entre outros, tentam achar uma explicação para este repentino desabrochar da inteligência especificamente humana; o surgimento da cultura. Os humanos não seriam mais limitados por ambientes e climas, já que com o processo de acumulação de conhecimentos desenvolveriam tecnologias para sobreviver e, posteriormente dominar. A invenção da agricultura, das cidades, da escrita, da fundição de metais, do Estado e das grandes religiões (não necessariamente nessa ordem), estabeleceu a base dos grandes impérios, do comércio mundial, da industrialização, até chegarmos ao período da globalização. Nesse processo esquecemos que fomos guiados principalmente pelo instinto de sobrevivência, que herdamos dos nossos primeiros antepassados, as cianobactérias.
No entanto, depois de nossa espécie dominar completamente o planeta e desenvolver um mundo à parte do natural – o mundo humano formado pela cultura – encontramo-nos em uma encruzilhada: não estamos apenas sobrevivendo, mas exaurindo os recursos da Terra. Assim, em seu mais recente livro “Half-Earth: our planet´s fight for life” (Meia Terra: a luta de nosso planeta pela vida), o famoso biólogo Edward O. Wilson aponta o crescimento populacional e o excessivo consumo, com os principais fatores da degradação do planeta. Para barrar este processo, Wilson propõe a criação de imensas áreas de preservação natural, no que muitos outros preservacionistas não concordam. As soluções segundo estes, são muito mais complexas, envolvendo uma série de providências que afetarão nossa tecnologia e nossos hábitos de consumo, tudo para garantir a sobrevivência. Mas, teremos tempo para isso? 
(Imagens: xilogravuras japonesas)

Newsletter março/2016

sábado, 12 de março de 2016
"Os livros têm os mesmos inimigos que o homem: o fogo, a umidade, os animais, o tempo - e o próprio conteúdo."  -  Paul Valéry  -  citado por Roger Shatulin em Pessoas, Livros e Sensações

Publicado originalmente no site www.ricardorose.com.br

Começa o mês de março e pouca coisa mudou no país. Para ser mais exato, a situação piorou em relação aos meses anteriores. Cresceu a taxa de desemprego, a inflação, a dívida do governo, o número de estabelecimentos fechados, e não há perspectivas de uma recuperação durante este ano. No plano político os impasses continuam e em alguns aspectos têm-se aprofundado.
Se, por um lado, o governo já não conseguia apoio de sua base aliada e menos ainda da oposição, agora é o próprio PT que se coloca em posição contrária à implantação das medidas de ajuste, que vêm sendo discutidas desde o início do ano passado. O primeiro impasse já ocorre na discussão da reforma da Previdência, medida necessária para não comprometer o benefício no futuro. A posição do partido governista coloca a presidente em situação ainda pior, ainda mais depois da recente prisão do marqueteiro João Santana, por suspeita de irregularidades durante as campanhas presidenciais de 2010 e 2014.
A falta de rumo claro na política tem grande influência também na economia. Empresas estão segurando investimentos e reduzindo suas atividades. Estrangeiras de pequeno e médio porte, estabelecidas no país durante o crescimento da economia na era lulista, estão revendo suas estratégias e, em alguns casos, fechando suas filiais brasileiras.
Governo sem recursos e setor privado sem vontade de investir; não sobrou muito mesmo para o setor ambiental. E o resultado se mostra nos noticiários diários: dengue, chicungunha e a temida zica, avançam dia a dia. O aumento exponencial destas doenças, transmitidas pelo mosquito aedes aegypti, é resultado direto da falta de saneamento, além de uma correta gestão de resíduos no país. Décadas de descaso com a questão da captação e do tratamento de esgotos; a coleta e a destinação correta do lixo urbano levaram-nos à situação na qual nos encontramos atualmente.

Pouco provável que medidas pontuais como a visita às residências por militares, operações catabagulhos e limpeza de terrenos e ruas façam alguma diferença no médio e longo prazo. Enquanto o país não tiver uma política efetivamente implantada para o saneamento e a correta gestão dos resíduos – e legislação específica para isso não falta – continuaremos a ser considerados um dos “cantos sujos” do mundo. Os comentários da imprensa internacional sobre a situação da baía da Guanabara, às vésperas das Olimpíadas, é um sinal disso.
(Imagens: pinturas de Paul Cézanne)

As regiões metropolitanas e seu impacto

sábado, 5 de março de 2016
"Pode parecer incrível que tenhamos apenas 10 mil genes a mais que uma erva daninha, mas já é o suficiente. Não é possível julgar a complexidade de um organismo pelo número de genes que possui, assim como não se pode julgar a sofisticação de um programa de computador pelo número de linhas de códigos."  -  Dean Hamer  -  O gene de deus

Nos últimos 100 anos a população do Brasil cresceu de aproximadamente 25 para 205 milhões de habitantes; um aumento de 820%. Comparativamente, a população da Índia, o segundo mais populoso país do mundo, cresceu de 260 milhões em 1910 para 1.170 milhões em 2010 - um incremento de 450%. Estas estatísticas mostram o quanto aumentou o número de brasileiros, mesmo em comparação com países de alta densidade populacional. O fenômeno do rápido aumento da população é relativamente recente na história da humanidade, ocorreu e ocorre principalmente em países pobres ou em desenvolvimento, apresentando algumas características comuns a todos.
A disseminação do acesso a medidas de prevenção de doenças, como o saneamento (principalmente fornecimento de água potável), a vacinação em massa, a popularização de medidas de higiene básica, a construção de banheiros, a criação de serviços de saúde, têm contribuído para redução da mortalidade infantil e o aumento médio da vida. Outro aspecto importante é a crescente modernização e mecanização da agricultura e do aumento da capacidade de armazenagem de grãos, fatores que contribuem para um melhor padrão de vida, expandindo a disponibilidade de alimentos. Além desses aspectos, concorreram também os avanços no setor de transportes e a expansão dos sistemas de comunicação, facilitando a transmissão de dados e informações e a transferência de valores.
Mas a melhoria das condições de vida não ocorre igualmente em todo o território. Fatores históricos e econômicos fazem com que algumas regiões se desenvolvam mais, atraindo novos moradores vindos de outras partes do país. Em função da oferta de empregos na indústria, no comércio, na construção e no setor de serviços, cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte chamaram grandes levas de imigrantes entre as décadas de 1940 e 1980. Os municípios do entorno também tiveram um aumento populacional e em poucos anos formaram-se as regiões metropolitanas. A região metropolitana de São Paulo (RMSP), por exemplo, tem cerca de 25 milhões de habitantes, que vivem em seus 39 municípios. Em 2011 a RMSP representava 56% do PIB do estado de São Paulo e 16% do PIB nacional.

As regiões metropolitanas atraem um imenso fluxo de materiais e produtos, destinados ao consumo e à produção. Imensos volumes de água e eletricidade, além de combustíveis, são diariamente utilizados para manter este complexo sistema de organização econômica e social em funcionamento. Todos estes insumos são transportados para dentro das regiões metropolitanas, processados e consumidos, gerando grandes quantidades de resíduos: resíduos domésticos e industriais, efluentes e esgotos domésticos, fumaça e gases de motores e de processos produtivos. Resíduos da atividade econômica somada de dezenas de milhões de pessoas; trabalhando vivendo e consumindo.  
Existem hoje no mundo 68 grandes regiões metropolitanas onde vivem cerca de 900 milhões de pessoas, reunindo uma capacidade de consumo maior do que o restante do mundo. Nestas cidades se localizam as maiores empresas e as maiores fortunas de todo o planeta. Imensas quantidades de recursos naturais fluem para estes aglomerados humanos, o que faz com que o impacto ambiental destes centros urbanos seja imenso. Especialistas preveem que a questão ambiental no século XXI passará principalmente pelas regiões metropolitanas.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

"A ordem do discurso" de Foucault

sábado, 27 de fevereiro de 2016
"Tal como para a humanidade em seu todo, também para o indivíduo a vida é difícil de suportar. Uma cota de privações lhe é imposta pela cultura de que faz parte; outra porção de sofrimento lhe é causada pelas demais pessoas, seja a despeito dos preceitos da cultura, seja em consequência de imperfeições dela. A isso se acrescentam os danos que a natureza indomada - ele a chama 'destino' - lhe provoca.  -  Sigmund Freud  -  O futuro de uma ilusão

Foucault inicia seu discurso (trata-se de sua aula inaugural no Collége de France, dada no dia 2 de dezembro de 1970). Diante da plateia, Foucault parece querer incluir seu discurso dentro de um maior que já há (ou queria que houvesse). Menciona a dificuldade de iniciar um discurso, de todo o ritual que reveste o início de um discurso, situação da qual muitos querem se furtar. Foucault afirma que a validação do discurso, do “ritual do discurso”, é feito pela instituição tradicional. Descreve sua inquietação perante o discurso e a vida e por fim pergunta sobre o que há de mal no discurso, o que há de perigoso nele?
Para Foucault a sociedade exerce certo tipo de controle sobre o discurso e afirma que há alguns temas que são tabus, como a sexualidade e a política. Comenta que o discurso não simplesmente expressa o desejo; que também há o desejo em se poder ter o discurso.
Referindo-se a exclusividade do discurso, Foucault comenta que a palavra louco era no passado sinônimo de “não-discurso”, de nulidade. O louco só parece ser escutado pela medicina a partir do século XVIII, antes disso sua palavra não tinha valor, a palavra só lhe era dada simbolicamente. Hoje imagina-se que esta separação não existe, que o louco foi incorporado. No entanto, ao mesmo tempo em que o “médico de loucos” escuta a palavra deste, exerce uma censura.
Se nos situamos no nível de uma proposta, de um discurso, a separação entre o verdadeiro e o falso não é arbitrária, nem modificável. Até o século VI a.C., o discurso respeitado era aquele pronunciado por quem de direito e conforme ritual. Um século depois, na antiga Grécia, o discurso valorizado não era mais o discurso em si, seu efeito, mas seu conteúdo. O discurso então não é mais valorizado pela maneira como é dito ou por quem disse, mas pelo seu conteúdo. Esta virada histórica deu forma a nossa vontade de saber, que por sua vez também variou de acordo com os séculos. Todavia, esta vontade de verdade, como os outros sistemas de exclusão, apoia-se sobre um suporte institucional e práticas pedagógicas, fundamentadoras desta verdade. Na literatura, nas ciências, no direito, em todo o lugar, há necessidade de fundamentar o discurso com um discurso verdadeiro.
Estes são os três grandes sistemas de exclusão no discurso: proíbe-se o discurso, desqualifica-se o discurso louco e exige-se o discurso verdadeiro. Existe, portanto, a verdade universal e forte. Por outro lado, ignora-se a verdade como sistema de exclusão de todos aqueles que procuram contornar esta verdade; que exclui a loucura por ela definida.
Foucault ressalta a importância do autor como validador do texto. Cita o exemplo de que na Idade Média a citação de um autor sempre era sinônimo de verdade do texto. O texto científico não precisava necessariamente de um autor, enquanto que o texto literário requeria autoria. 
Outra forma de cercear o acesso ao discurso é a rarefação dos sujeitos que falam: ninguém entrará na ordem do discurso se não satisfazer a certas exigências ou se não for, de início, qualificado para fazê-lo. A forma mais visível desta forma de restrição é o ritual, que define a qualificação que devem possuir os indivíduos que falam e que devem formular determinado tipo de enunciado.
Foucault menciona que o sistema de ensino também é um estabelecimento de papéis e de ensinamentos, assim como os sistemas médico e judiciário também são sistemas de estabelecimento de discurso. Nossa civilização valoriza o discurso porque precisa controlá-lo, dirigi-lo e ordená-lo.
O discurso da ciência, principalmente das ciências físicas, que até há pouco era absoluto e indiscutível, também já está sendo colocado em questão.  A especificidade do estudo da história mudou. Hoje não se procura mais estabelecer exatamente como ocorreu determinado evento, mas circunscrever-lhe as condições de aparecimento (ocorrências). Por isso, segundo Foucault, deve-se fazer história da ciência coo um conjunto ao mesmo tempo coerente e transformável de modelos teóricos e de instrumentos conceituais (pag. 72).
Por fim, Foucault rende homenagem a seu mestre Jean Hyppolite e a influência que este recebeu da filosofia de Hegel. 
(Imagens: pintura japonesa dos séculos XIX e XX)

Eficiência energética é sinônimo de modernização

sábado, 20 de fevereiro de 2016
"Nietzsche não quer redenção. A alegria do devir é a alegria da aniquilação. Mas só o indivíduo é destroçado. O movimento de revolta, no qual o homem reivindica seu próprio ser, desaparece na submissão absoluta do indivíduo ao devir. O amor fati substitui o que era um odium fati."  -  Albert Camus  -  O Homem revoltado

O suprimento de energia é um tema de preocupação constante no Brasil. Toda vez que o crescimento da economia coincide com um período em que os reservatórios das hidrelétricas estão com seus níveis baixos, fala-se do perigo de um apagão de energia. De fato, recentemente quase ficaríamos sem eletricidade, se nos últimos três anos o governo não tivesse colocado em funcionamento as termelétricas a óleo e carvão, que passaram a suprir cerca de 20% da eletricidade consumida pelo país. A falta de investimentos em eletricidade, principalmente na geração e transmissão, foi compensada pela queda no consumo, que caiu 2,1% entre 2014 e 2015.
Como sempre repetem os especialistas do setor de energia, “a melhor energia é aquela que não precisou ser gerada”. Países altamente industrializados, como o Japão, a Alemanha e os Estados Unidos, já vem implantando políticas nacionais de eficiência energética há muitos anos e continuam a estabelecer objetivos cada vez mais ambiciosos. A Alemanha, por exemplo, planeja reduzir o consumo de energia primária em 20% até 2020 e em 50% até 2050, tendo por base o consumo de 2008 (energia primária é toda forma de energia disponível na natureza antes de ser transformada, como a energia dos combustíveis, do sol, da água, do vento). O Japão, apesar de ter constantemente aumentado sua produção industrial, conseguiu reduzir seu consumo de energia primária em 43% entre 1973 e 2009.
No Brasil ainda estamos muito longe disso e alguns fatores contribuem para que o país ainda não tenha implantado uma política de eficiência energética. De um lado, o desenvolvimento tecnológico da indústria e do setor de construção ainda não é suficientemente avançado, como nos países altamente industrializados (ainda se dá pouco valor à inovação tecnológica). Por outro lado dispomos de grande oferta de energias primárias (rios para a construção de hidrelétricas, irradiação solar, ventos, biomassa, petróleo, etc.), de exploração relativamente simples – o que muitas vezes nos falta são os recursos financeiros. Outro aspecto é que ainda não chegamos a desenvolver um conjunto de normas técnicas e leis, que favoreçam a prática do uso eficiente de energia.

 Em economia fala-se na “síndrome holandesa” quando um país, rico em recursos naturais, se especializa na exploração destas riquezas, abandonando a produção industrial. É o que aconteceu, por exemplo, com a Venezuela em relação ao petróleo. No Brasil, de certo modo, sofremos de uma síndrome holandesa em relação às fontes primárias de energia. Enquanto que aumentamos a oferta interna de energia em 3,1% entre 2013 e 2014, pouco nos preocupamos em implantar medidas efetivas de economia de consumo – iniciativas como o Selo Procel, criado em 1985, precisam ser estendidas a outros setores.
O uso eficiente de energia passa necessariamente pela questão econômica. Quando o menor consumo de energia (em muitos casos menor emissão de gases) se transformar em efetiva vantagem, seja para o consumidor ou produtor, o país passará a encarar a eficiência energética de outra forma. Na disputa por novos mercados, nossa indústria terá que desenvolver produtos mais eficientes, cuja produção também ocorreu de maneira mais econômica e ambientalmente segura. A energia é recurso cuja geração é cara; por isso precisamos preservá-la.
(Imagens: pinturas de Dr. Ziad Jundi)

Aspectos do saneamento no Brasil

sábado, 13 de fevereiro de 2016
"O que é característico na democracia é a incerteza. O povo decide, cria para si mesmo leis, respeita-as e aplica-as, mas também pode mudá-las, anular leis atuais, redigir novas. Como nenhuma norma divina, revelada, válida por si mesma, impõe-se à polis, a democracia começa quando o céu se esvazia. Cornelius Castoriadis, em especial, salientou isso: a dúvida, a corrosão dos dogmas conduzem à autonomia dos povos."  -  Roger-Pol Droit  -  Um passeio pela Antiguidade

A prática do tratamento e coleta de esgotos não faz parte da história do Brasil. Durante o processo de colonização e até o início da industrialização no final do século XIX, a maior parte das cidades mais populosas situava-se à beira mar (São Luiz, Recife, Salvador, Rio de Janeiro) ou rio (Belém, Manaus). Providencialmente, as administrações construíam apenas sistemas de canalização, e os esgotos corriam tranquilamente para algum canto afastado de uma praia ou para uma curva afastada do rio. Esta prática era geral até quase meados do século XX e em muitos lugares ainda ocorre hoje.
Com o início da industrialização e a movimentação de grandes contingentes populacionais para os grandes centros urbanos, a partir dos anos 1940, surgiu a real necessidade de implantar sistemas de tratamento de esgoto. O imenso volume de resíduos gerados por milhões de pessoas não podiam mais permanecer nas imediações da cidade, provocando mau cheiro e servindo de criadouros de todo tipo de animais transmissores de doenças. Ou até abrigando jacarés, como ainda acontece hoje em bairros da região Sul do Rio de Janeiro, onde em lagoas poluídas pelo esgoto e atulhadas de lixo, os répteis sobrevivem bravamente.
Obras de saneamento requerem prazos longos. Por isso, geralmente quando se falava em saneamento, pensava-se somente no tratamento de água. É impossível abrir novos bairros ou loteamentos sem disponibilidade de água. Para o esgoto, no entanto, havia as fossas céticas e a antiga prática da descarga dos efluentes em rios e no mar. Outro aspecto é que obras de saneamento, principalmente o tratamento de esgoto, têm custo elevado e não têm impacto político alto. Ficou famoso o bordão de gerações de políticos brasileiros: "Obra enterrada não traz votos!".
É fato que a política e a condução da administração pública no Brasil sempre tiveram objetivos imediatistas, nem sempre eram do interesse dos eleitores. Por isso, dava-se prioridade a projetos de alto impacto midiático, de curta duração e, se possível, de baixo custo. Obra que pudessem ser implantadas durante uma única administração, seja municipal ou estadual. O importante era (e ainda é) impressionar o cidadão e abocanhar mais um mandato.
Apesar dos grandes projetos de modernização do país implantados no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), grande parte das obras de saneamento só foi iniciada durante os anos 1970. Os governos militares, seguindo metas de planejamento, deram início a projetos de longa duração - construção de rodovias, hidrelétricas e estações de tratamento de esgoto - alocando grandes recursos, principalmente nas regiões metropolitanas.
Nas médias e pequenas cidades, no entanto, os recursos sempre foram parcos – ou direcionados para outras obras e outros fins – e a situação na maior parte do país permaneceu empacada. Mesmo a Lei de Concessões (1995), que permitia aos investidores privados investirem e atuarem em serviços públicos, não ajudou muito a resolver os problemas do setor. O Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado no governo Lula, trouxe um alento para o setor, mas está quase se acabando, anêmico, desde o final do primeiro governo Dilma.
Assim, por algum tempo, ainda teremos outras coisas se deslocando nas águas da Baía de Guanabara e do rio Tietê, além de peixes. Espécie que no Tietê não existem mais – pelo menos no trecho paulistano.
(Imagens: pinturas de Willem de Kooning)

"Caso Mariana" desperta nova mentalidade ambiental

sábado, 6 de fevereiro de 2016
"Não há necessidade de considerar o cinema como uma arte totalmente nova. Em sua forma ficcional, ele tem a mesma finalidade do romance, tal como o romance tem a mesma finalidade do drama."  -  Graham Greene  -  Reflexões

O desastre ambiental de Mariana, que lançou milhões de toneladas de lama de mineração no vale do rio Doce, deve funcionar como um marco na história da proteção ao meio ambiente no Brasil. O maior acidente do tipo ocorrido no Brasil, afetou a vida de milhões de pessoas de Minas Gerais e Espírito Santo, além de destruir centenas de espécies de animais e seus habitat. Tudo isto faz - ou pelo menos deveria fazer - com que autoridades acompanhem o caso com a devida atenção, fazendo com que a empresa Samarco e seu proprietários, causadores do acidente, arquem com todos os custos de reparação da destruição causada.
É de se esperar que o "caso Mariana" forme uma nova mentalidade ambiental no Brasil. Assim, setores econômicos cujas atividades podem causar dano ao meio ambiente onde atuam, deverão tomar providências para minorar o risco. O Ministério do Meio Ambiente, secretarias e agências ambientais não poderão mais aprovar projetos com alto risco ambiental, sem que medidas concretas de prevenção, baseadas na melhor tecnologia disponível, estejam previstas nas obras - e sejam efetivamente aplicadas.
Exemplo disso é o estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP) que representa as empresas exploradoras de petróleo. O trabalho, realizado com o apoio técnico do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) mapeou o litoral brasileiro do Amapá ao Rio Grande do Norte. Adicionalmente também foram estudadas outras 78 áreas do litoral brasileiros - como a Lagoa dos Patos (RS), a Baía de Paranaguá (PR), Praia Grande (SP), Baía da Guanabara (RJ), Lagoa de Araruama (RJ), Ilha de Boipeba (BA), Delta do Parnaíba (MA), Baía de Marajó (PA) e a Ilha de Itamaracá (PE). Neste estudo foi constatado que a atividade petrolífera entre o Amapá e o Rio Grande do Norte ameaça em maior ou menor grau, dependendo do tipo de atividade na região, cerca de 120 espécies de animais, dentre os quais 56 espécies de aves, 46 de mamíferos e 18 de répteis e anfíbios. O impacto da atividade às espécies no restante do litoral brasileiro será acrescido ao estudo em 2016.  
Os organizadores do estudo afirmam que a pesquisa poderá dar mais agilidade na emissão de licenças para atividades petrolíferas e dar subsídios para a elaboração de um Plano Nacional de Contingência, que é acionado em caso de acidentes. Este plano até hoje ainda está em fase de estudos. Apesar do acidente com vazamento de petróleo ocorrido em novembro de 2011, envolvendo a empresa Chevron, pouco foi efetivamente colocado em prática. Agora, o "caso Mariana" deve ter despertado atenção e preocupação no setor.
O controle das atividades econômicas e de seus impactos deve aumentar ao longo dos próximos anos. Emissões de gases, destruição de ecossistemas, preservação de vegetação original e de espécies marinhas, são temas que cada vez mais tomarão importância. O recente impasse surgido entre o Ministério do Meio Ambiente e pescadores de diversas regiões brasileiras já é um indício do que deverá ocorrer no futuro próximo. Com uma portaria, o ministério proibia a pesca de diversos tipos de peixes, crustáceos e moluscos, ameaçados de extinção. A portaria foi suspensa e as espécies voltaram a ser pescadas, mas o impasse permanece. As atividades econômicas não podem mais ignorar seus impactos ambientais.
(Imagens: fotografias de Weegee)

Faltam locais de lazer nas cidades

sábado, 30 de janeiro de 2016
"Diante destes fatos devemos afirmar que o inconsciente contém, não só componentes de ordem pessoal, mas também impessoal, coletiva, sob forma de categorias herdadas ou arquétipos."  Carl Gustav Jung  -  O Eu e o Inconsciente 

Voltam as festas de final de ano e, como sempre acontece, milhões de pessoas dirigem-se ao interior e ao litoral para passar os feriados. Estradas congestionadas, acidentes; milhões de horas perdidas pelos turistas, deslocando-se de um lugar a outro. Os feriados seriam muito mais agradáveis, se este tempo perdido, sentado dentro dos automóveis, pudesse ser empregado passando mais algumas horas na praia ou se divertindo com amigos. Mas do jeito como funciona o turismo e o lazer no Brasil, isto dificilmente será possível.
O problemas, como já escrevemos uma vez nesta coluna, começam nas grandes cidades. Sem suficientes opções de lazer, principalmente na periferia dos grandes centros urbanos, os moradores das regiões metropolitanas ficam limitados a frequentarem shopping centers, cinemas, shows de música,  algumas exposições e os poucos parques urbanos disponíveis. A exceção são as grandes capitais litorâneas do Nordeste, a cidade do Rio de Janeiro, Florianópolis e mais uma ou outra cidade de maior porte localizada no litoral, como Santos. No entanto, mesmo assim, a população que mora na periferia destas cidades, situada longe do mar, encontra seu principal lazer na praia. Mesmo porque, outros logradouros, quando existem, muitas vezes são mal cuidados e com pouca segurança, frequentados por assaltantes e consumidores de drogas.
Assim, basta surgir um feriado - o Reveillon e o Carnaval são festas muito especiais na cultura popular brasileira - para que grandes massas se desloquem para as praias. Uns, vindo de longe e utilizando as autoestradas, e outros, deslocando-se dentro da própria cidade ou região metropolitana, como ocorre no Rio de Janeiro, em Salvador e outras.
Se as cidades tivessem uma melhor infraestrutura, formada por clubes públicos com infraestrutura para a prática de esportes, piscinas, áreas de lazer e bosques - efetivamente em funcionamento e bem administrados - a população teria mais opções de lazer. Os clubes com piscinas públicas, nos quais os cidadãos passam a ter contato com os esportes aquáticos, são muito comuns na Europa e deveriam ser construídos em grande número nas cidades brasileiras - principalmente considerando o clima tropical do país, onde em sua maior parte é possível utilizar a piscina durante o ano todo.
Inúmeros fatores contribuem assim para estes imensos deslocamentos de pessoas a todo final de ano, que tanto contribuem para sobrecarregar a infraestrutura das cidades turísticas. Desde a falta de investimentos em lazer nas grandes cidades, passando pelo alto custo das viagens para outras regiões (passagens aéreas, alimentação e hotéis), até a incerteza da economia. A opção próxima e barata são então as cidades do litoral, principalmente nos estados do Sudeste e do Sul.

Apesar de continuarmos sendo uma das dez maiores economias do mundo, nossas grandes cidades em pouco melhoraram sua infraestrutura de lazer nos últimos 50 anos. Existem poucas opções,  principalmente para as pessoas de menor poder aquisitivo e os moradores das periferias. É só olhar para os rios e lagos localizados no ambiente urbano, para ver o descaso com estão sendo tratados pelo poder público. Lixo, esgoto, invasões, entulho de obras, focos de doenças. O lazer ocorre somente uma vez ao ano, quando muitos extravasam sua revolta e decepção - à luz dos fogos, embalados pela música.
(Imagens: desenhos de Vilanova Artigas)

Cerrado é esquecido nos acordos internacionais

sábado, 23 de janeiro de 2016
" ('As Bacantes' de Eurípedes) é uma percepção terrível e dura da vida humana. Ainda assim, no excesso mesmo do seu sofrimento encontra-se o clamor do homem por dignidade. Destituído de poder e alquebrado, um mendigo cego perambula às margens da cidade; ele assume uma nova grandeza. O homem se enobrece com a maldade vingadora ou injustiça dos deuses. Isso não o torna inocente, mas consagra-o como se tivesse passado pela chama."  George Steiner  -  A morte da tragédia


Em tempos de aquecimento global e Fórum Climático em Paris, fala-se apenas na eliminação do desmatamento ilegal na Amazônia. O objetivo é louvável e - se for realmente alcançado - trará muitos benefícios para o país e o planeta. No entanto, existe um outro bioma, o Cerrado, muito mais ameaçado pela expansão do agronegócio, e que não recebe a mesma atenção. Matéria recente do jornalista Marcelo Leite, publicada no jornal Folha de São Paulo, mostra alguns dados sobre a lenta e inexorável destruição à qual está sendo submetido o Cerrado.
O nome é, na verdade, a denominação de um imenso espaço geográfico, com clima e relevos característicos, dominado por três principais biomas: campo tropical (campo limpo); savana (cerrado ou campo sujo); e floresta estacional (cerradão), estendendo-se por 2,045 milhões de quilômetros quadrados - área pouco maior do que o território do México (1,9 milhões de km²). O Cerrado estende-se em espaço contínuo pelos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além dos encraves no Amapá, Roraima e Amazonas. Em seu espaço geográfico também se encontram as nascentes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul; a do rio Tocantins, rio São Francisco e rio da Prata.
Estima-se que cerca de 70% da área do Cerrado esteja alterada por atividades agrícolas, pecuárias e mineração. A velocidade do desmatamento na região batizada de Matopiba (incluindo os estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) vem crescendo devido à expansão das culturas de soja, milho e algodão. No Matopiba, entre 2000 e 2007, derrubavam-se em média 1.114 km² de vegetação nativa por ano. No período 2007 e 2014 a velocidade do desmatamento cresceu para 1.800 km² ao ano. Em outras área do Cerrado, nos estados de GO, MG, MS, MT, PR, RO, SP e no Distrito Federal, houve uma queda de 64% na ocupação do território entre 2000 e 2014. Nestes estados, o aumento do preço da terra fez com que a expansão agrícola ocupasse áreas abertas anteriormente para a pecuária; atividade menos rentável. Diferentemente, no Matopiba, o baixo preço da terra faz com que a agricultura continuasse avançando sobre áreas ocupadas pela vegetação original.
Estudos concluíram que existem no Cerrado pelo menos 200 mil km² (área equivalente ao estado do Paraná) de terras desmatadas disponíveis para a agricultura, em sua maior parte anteriormente ocupadas pela pecuária.
A falta de coordenação entre os ministérios do Meio Ambiente e o da Agricultura, Pecuária e Abastecimento faz com que esta imensa área permaneça inaproveitada pela agricultura, ao passo que a vegetação original continua a ser destruída. Significativo também é que no compromisso assumido para a Conferência do Clima de Paris, o governo brasileiro não tenha incluído metas específicas de redução do desmatamento para o Cerrado. As suas áreas protegidas, incluindo unidades de conservação e terras indígenas, somam apenas 8,2% de sua superfície, em comparação com 43,9% da Amazônia.
Os interesses do agronegócio são fortes na região e dispõem de muitos defensores em Brasília. No entanto, já existem soluções como a da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), que possibilitam a convivência das atividades econômicas com o ambiente original da Cerrado.
(Imagens: desenhos de Burle Marx)