A eleição de Biden e a questão ambiental

sábado, 28 de novembro de 2020

 

"A acumulação de conhecimento na ciência não tem paralelos na ética, na política, na filosofia e nas artes. O conhecimento aumenta em velocidade acelerada, mas os seres humanos não são mais razoáveis do que sempre foram."   -   John Gray   -   Sete tipos de ateísmo


Há quatro anos, em novembro de 2016, escrevemos um artigo sobre a eleição de Trump e suas consequências para o meio ambiente (A eleição de Trump e o meio ambiente - https://ricardorose.blogspot.com/2016/11/a-eleicao-de-trump-e-o-meio-ambiente.html). Como esperado, a atuação do 45º presidente eleito dos Estados Unidos exerceu forte influência na maneira como seu país e parte do mundo passou a tratar o meio ambiente. Além de eliminar diversas providências encaminhadas por seu antecessor, Barak Obama, Trump retirou poder da agência de controle ambiental americana, a EPA (United States Environmental Protection Agency), diminuiu o tamanho de áreas de proteção ambiental e de parques naturais, reduziu o número de medidas de avaliação de impacto ambiental em obras de infraestrutura, e concedeu licenças para diversos projetos de alto risco ao meio ambiente, como o gigantesco oleoduto Keystone XL que se estende do Canadá aos Estados Unidos.

No setor de transportes, gerador de grandes volumes de emissões, a administração Trump reduziu os padrões de eficiência energética em veículos e dificultou o desenvolvimento de meios de transporte mais limpos. Sua mais polêmica ação, de grandes consequências para o clima do planeta, foi a retirada de seu país do acordo climático de Paris, através do qual 195 nações ratificaram sua intenção de reduzirem as emissões de gases de efeito estufa (GEE), a partir de 2020. Os Estados Unidos, lembremos, é o segundo maior emissor de GEE depois da China.

Neste ano os Estados Unidos organizaram uma nova eleição presidencial e Joe Biden foi eleito como 46º presidente na nação. Trump alega que houve fraude no pleito, está recorrendo na justiça, mas já deu início à transferência de governo ao sucessor, que deverá tomar posse em 20 de janeiro de 2021. Em declarações à imprensa, Biden já confirmou que com relação às questões ambientais recolocará os Estados Unidos no acordo climático de Paris e que reverterá uma série de decretos assinados por seu antecessor. O novo presidente planeja retomar o Plano de Energia Limpa, que prevê a redução das emissões de CO² das usinas de geração de energia em 30%, até 2030. Este plano energético, elaborado durante o governo Obama, nunca havia entrado em vigor, por ter sido contestado na justiça por uma coalizão de empresas e governos estaduais republicanos. 

O foco principal da administração Biden em relação ao meio ambiente será a redução das emissões de carbono do país para zero, até 2050. Para isso, sua administração planeja investir cerca de 2 trilhões de dólares, em um ambicioso programa baseado principalmente em eficiência energética e nas energias renováveis, gerando milhões de empregos verdes (postos de trabalho em empresas ambientalmente sustentáveis). Na área da energia eólica, por exemplo, Biden pretende impulsionar a geração de energia eólica offshore, através de turbinas eólicas instaladas ao longo do litoral dos estados da costa Leste e da Califórnia. A cadeia da indústria automobilística, criadora de grande número de empregos diretos e indiretos, também receberá fortes incentivos para aumentar a produção de carros com motores elétricos. O setor da construção civil terá como principal meta o uso eficiente de materiais e energia, através da modernização e renovação (retrofitting) de prédios públicos e privados. Todas estas metas e outras ainda a serem acrescentadas ao programa, farão parte de um projeto já conhecido como Green New Deal (pacto ecológico), com vistas a modernizar a economia americana, gerando empregos verdes e baixas emissões de carbono (https://www.heritage.org/renewable-energy/heritage-explains/the-green-new-deal).  As estratégias e metas desta iniciativa do governo americano são bastante semelhantes ao Pacto Ecológico Europeu (https://ec.europa.eu/info/strategy/priorities-2019-2024/european-green-deal_pt).


Biden e o Partido Democrata estão encarando a questão ambiental de maneira bastante séria. Assim como a União Europeia fez há alguns meses, os Estados Unidos pretendem dar um novo direcionamento à sua política econômica na era pós-covid19. Convencida da inexorável realidade da mudança do clima acelerada pelo impacto da economia americana e do gradual aumento da temperatura do planeta se nada for feito para abrandar as emissões, a nova administração americana pretende dar um novo rumo ao desenvolvimento de sua economia, baseado nos parâmetros da sustentabilidade.

Esta intenção Biden pretende também deixar clara aos outros países. Tanto que indicou o ex-secretário de Estado do governo Barak Obama, John Kerry, para o cargo de enviado especial do Meio Ambiente (special presidential envoy for climate). Segundo reportagem apresentada recentemente na CNN online, quando o senador Bernie Sanders em 2016 classificou a questão das mudanças climáticas como “a mais importante questão de segurança nacional”, não foi levado a sério. Cinco anos depois, a própria Casa Branca criou o cargo de enviado especial do Meio Ambiente, com cadeira permanente nas reuniões do Conselho Nacional de Segurança. Kerry tem longa experiência nas questões climáticas, tendo desempenhado importante papel nas negociações para o Acordo Climático de Paris.

Este é o recado que os Estados Unidos agora transmite às outras nações do planeta: a questão do clima é séria e estamos empenhados em agir em relação a ela. Retomando seu papel de pioneiros na discussão e na criação de leis ambientais desde a década de 1960, a nação americana pretende, depois de quatro anos de ausência, voltar ao protagonismo e à liderança no tema. Com isso, exercerão uma grande influência sobre outros países. Se o exemplo da administração Trump foi negativo, fazendo com que os temas ambientais fossem relegados a um plano secundário, permitindo que muitas nações usassem implícita ou explicitamente o exemplo americano para também não agirem em relação ao clima, a partir de agora o quadro muda. A proteção aos recursos naturais, sejam quais forem, novamente é o assunto do dia na nova ordem econômica mundial pós-covid19 e pós-administração Trump – palavra da União Europeia e dos Estados Unidos.

O Brasil será uma peça importante nesta estratégia climática da administração Biden, como o próprio presidente já adiantou durante os debates eleitorais. A campanha presidencial de Biden recebeu forte apoio de grupos, de dentro e de fora do partido; muitos ligados às questões ambientais. Assim, a questão da Amazônia com certeza será uma das primeiras pautas das reuniões entre os dois governos. Até o momento foram dizimados 20% da área original da floresta, mas se chegarmos aos 25% da área, poderemos alcançar “o ponto de não retorno”, como os cientistas classificam esta situação. Nestas condições não há mais certeza se e em quanto tempo o ecossistema poderá se recuperar.



Não se recuperando, a Amazônia poderá em parte se transformar em uma região de savana, de vegetação rala, com menor volume de recursos hídricos e com consequências para a biodiversidade; o clima e a agricultura no Brasil – além de outras implicações econômicas – e o clima mundial. Sabe-se hoje que a floresta amazônica não tem forte influência na remoção dos GEE da atmosfera, mas que exerce grande interferência na umidade e na temperatura do ar da macrorregião amazônica e também no planeta.

As características da Amazônia têm uma influência tão grande na Terra, que sua manutenção é motivo de preocupação de todos. Ninguém questiona a posse da região pelo Brasil, mas espera-se que o país faça a gestão da região de tal maneira, que o tênue equilíbrio que ainda existe entre todos os aspectos naturais possa ser mantido – pelo bem de todos. É evidente que a manutenção do ecossistema exigirá aportes de tecnologia, recursos humanos e financeiros, para que os moradores da região tenham um padrão de vida digno, de modo a não serem forçados a práticas de sobrevivência não sustentáveis, como vem ocorrendo em alguns casos. Deve-se pensar numa série de compensações para os estados e municípios da região, proporcionando-lhes o mesmo padrão de vida de outras regiões do país. 

Biden já falou em uma ajuda de 20 bilhões de dólares para desenvolver a região de uma maneira sustentável. O países europeus, com certeza, também terão interesse em cooperar em projetos de desenvolvimento social e econômico na região. Mas isto seria apenas o começo. O reverso da moeda é o papel que o governo brasileiro precisa desempenhar, voltando a controlar e gerenciar o território, coibindo todo tipo de desmantelamento dos recursos através de desmatamento e garimpo ilegal, grilagem, invasão de áreas indígenas e de unidades de conservação.

Neste aspecto cabe ressaltar que o atual governo não tem bons antecedentes. Bolsonaro sempre teve uma maneira, digamos assim, peculiar de enxergar a questão ambiental. Como ministro do Meio Ambiente indicou Ricardo Salles, que já havia atuado como Secretário do Meio Ambiente do estado de São Paulo, tendo sido processado por irregularidades em sua administração. No cargo, Salles desmontou parte da estrutura técnica dos principais órgãos ambientais federais e limitou as ações de controle do órgão ambiental.



O governo cortou grande parte das verbas do Ministério do Meio Ambiente e reduziu drasticamente os recursos em outras iniciativas na área do meio ambiente. O posicionamento do governo em relação ao assunto deu abertura para que diversos agentes – grileiros, fazendeiros, posseiros, madeireiros e garimpeiros – aumentassem a derrubada e queima da floresta ao longo do biênio 2019/2020. O fato, amplamente coberto pela imprensa local e internacional, causou protestos em diversos países e organizações internacionais, colocando o Brasil no papel de vilão ambiental do planeta. Com isso, é bastante provável que o país seja alvo de pressão por parte do governo americano, e que seja cobrado para que tenha uma atuação mais forte na questão da floresta amazônica.

Para mudar sua imagem o país precisará mostrar que efetivamente está mudando sua atitude; o que até o momento não ocorreu. Um discurso pseudo nacionalista, baseado na premissa de que potências estrangeiras querem invadir ou extrair as riquezas da área, só trará mais problemas políticos para o nosso país e não ajudará a melhorar as condições sociais e ambientais da região.

O Brasil deveria se valer deste novo ambiente político mundial, que se formou com a eleição de Biden e a importância dada novamente à questão do clima, para tirar vantagem do fato de possuir um bioma como a Amazônia – e outros, como a Mata Atlântica e a região do Pantanal. No passado, nos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff, o Brasil já teve um papel de protagonista na questão climática e na do meio ambiente, e poderia retomar esta posição. Assim, o governo poderia condicionar a preservação destas áreas à assinatura de acordos de cooperação técnico-científica para o desenvolvimento sustentável da região, à elaboração de projetos de geração de renda, aos acordos comerciais e acesso a novos mercados, entre outros. O pior a fazer, tanto para o Brasil como para o mundo é manter as coisas como estão – se é que isso será possível neste novo contexto político-econômico mundial.   


(Imagens: gravuras de Erich Heckel)

Leituras diárias

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

 


“Freud só se tornará interessante depois de ficar totalmente esquecido durante muito tempo.

Se eu fosse Freud, sairia correndo de mim mesmo” (Canetti, pág. 152)

 

Elias Canetti, Sobre os escritores

Leituras diárias

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

 


“Filósofos nos quais nos dispersamos: Aristóteles. Filósofos com os quais oprimimos: Hegel. Filósofos para se gabar: Nietzsche. Para respirar: Chuang Tse.” (Canetti, pág. 78)

 

Elias Canetti, Sobre os escritores

Leituras diárias

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

 


Gosto de Unamuno (filósofo e escritor espanhol), ele tem os mesmos defeitos que conheço em mim, mas nem passa pela sua cabeça envergonhar-se deles.” (Canetti, pág. 169)

 

Elias Canetti, Sobre os escritores

PRESERVE A MATA ATLÂNTICA

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

 


Meio ambiente e uso de recursos

sábado, 21 de novembro de 2020

 

"Últimas palavras de Gogol (escritor russo): 'Uma escada, rápido, uma escada!'"   -   Elias Canetti   -   Sobre os escritores 


Quase todas as atividades econômicas têm algum tipo de impacto ambiental negativo ao meio ambiente. Extração de petróleo e minérios, captação de água, criação de loteamentos, plantio de árvores para extração de madeira, industrias de diversos tipos, etc. Mesmo as atividades humanas mais singelas, como o carrinho de pipoca na praça, o restaurante e o escritório de contabilidade; todos têm algum tipo de impacto negativo na natureza, como uso de água, poluição do ar, geração de resíduos, uso de recursos não renováveis.

Os cientistas perceberam as consequências das práticas econômicas no meio ambiente – os economistas falam nas externalidades de uma atividade econômica – e desenvolveram gradualmente procedimentos e tecnologias que reduzem o que, em outras palavras, poderíamos chamar de dano ao meio ambiente. Lembrando que o meio ambiente pertence a todos os cidadãos, sendo um bem comum, concluímos que toda atividade que impacta um ambiente ou seus recursos naturais, está provocando algum tipo de prejuízo a todos. Por exemplo, se eu exerço uma atividade econômica e, através dela, causo danos ao ambiente, como descarga de esgoto ou geração de fumaça, estou auferindo lucros à custa de um bem que é coletivo. Minha fábrica polui as águas do córrego que é um bem comum da população do bairro, ou da cidade onde atuo com meu negócio.


Ficou assim estabelecido através de diversas leis, que toda atividade econômica precisa minimizar ou eliminar todos seus efeitos danosos ao meio ambiente. Se, efetivamente, a atividade se tornar poluente, seu gerador precisa pagar pela recuperação do ecossistema destruído por sua ação. No caso da minha indústria, preciso tratar os efluentes antes de lançá-los no córrego, ou até não descarregar o esgoto no curso d’água, recuperando e reciclando o líquido que utilizo.

Esta seria a situação ideal. Ideal no Brasil, porque na maior parte dos países avançados industrialmente esta prática é comum. Tão comum, que em vários ramos das atividades econômicas, muitos governos federais e locais incentivam a pesquisa, a fabricação e a implantação de tecnologias que permitam reduzir a poluição. O conceito, conhecido como “produção mais limpa”, também utilizado em indústrias de ponta no Brasil, procura otimizar o uso dos insumos produtivos – matérias primas, água, energia, equipamentos, mão de obra, etc. – gerando o mínimo possível de resíduos, como efluentes, gases e resíduos sólidos. Em segmentos econômicos altamente competitivos, como a indústria eletroeletrônica e a automobilística, o uso racional de recursos e a redução dos impactos ambientais – e os custos implicados em sua eliminação – são fatores fundamentais para o sucesso de uma marca.

A participação da indústria brasileira na economia vem lentamente caindo ao longo das últimas três décadas; o país está se desindustrializando. Diminuíram os investimentos em novas linhas de produção e na modernização – leia-se otimização – das unidades produtivas já existentes. Isto, em outras palavras, também quer dizer que a indústria não está produzindo de uma maneira mais eficiente, seja do ponto de vista econômico ou ambiental. Além de tornar nossos produtos menos competitivos, isto também faz com que nossos processos industriais sejam mais poluidores e dissipadores de insumos.


A maior parte das indústrias médias brasileiras, principalmente aquelas dos segmentos industriais mais tradicionais, não dispõe de incentivos e pressões para investir em processos produtivos mais modernos. Por um lado, não sofrem pressão de seus clientes ou consumidores, talvez exigindo produtos mais modernos ou fabricados com menor impacto ambiental. A concorrência que enfrentam de produtos importados mais modernos é reduzida, e a pressão das agências ambientais para a implantação de tecnologias de fabricação mais limpas é reduzido.

Já em centros industrias de ponta, como os Estados Unidos, o Japão, a China e a Alemanha, a história é diferente. Além de leis ambientais cada vez mais restritivas, notadamente na Europa, as indústrias são pressionadas por suas associações, por seus clientes, por agências ambientais e pela competição dos concorrentes, a tornarem seus processos sempre mais eficientes, utilizando menos recursos. Matérias primas, energia e outros recursos naturais são cada vez mais caros nessas regiões, e nada pode ser desperdiçado – além da pressão de uma opinião pública muito consciente, que exige atividades industriais cada vez menos impactantes.  

Gradualmente, preveem os especialistas, com o aumento da pressão em todos os países por redução de emissões de gases e de resíduos, dominarão o mercado apenas as indústrias mais eficientes. Àquelas industrias, que por várias razões não puderem se modernizar, sobrarão apenas os mercados e os clientes/consumidores menos exigentes, que evidentemente terão um poder de consumo mais baixo.



Mas isto é apenas parte da história. Qualquer atividade econômica situada na produção, na distribuição ou no consumo, nunca chegará ao ponto de eliminar completamente a geração de externalidades, com impacto sobre o meio ambiente. A teoria do “resíduo zero”, disseminada por algumas instituições ligadas à pesquisa da produção e do consumo nos anos 1990, nunca será alcançada. Sempre, durante toda a cadeia produtiva e de consumo, sobrará algum resíduo ou emissão. Com isso num prazo ainda não calculado, ficarão escassos os insumos, como certos metais e terras raras, petróleo, água limpa, terras aráveis, entre outros. Mas isto já é tema para um outro artigo.          


(Imagens: fotografias de Letizia Battaglia)


Leituras diárias

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

 


“Pode-se dizer dos Estados Unidos da América, não sem maldade, nem, sem dúvida, com um pouco de injustiça, que eram raras as nações do mundo a ter evoluído diretamente da barbárie para a decadência, sem passar pelo estágio da civilização" (Rosset, pág. 31)

 

Clement Rosset, Alegria, a força maior


Leituras diárias

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

 



“Quando Nietzsche declara que não há nenhum sentido a ser buscado na existência, ele não quer absolutamente dizer que a existência é vã e sem interesse, que falta ali qualquer ‘razão de viver’. O tema nietzscheano da insignificância do mundo designa somente a impossibilidade – salvo ilusão e traição – de reconhecer nele um sentido à altura da palavra e da inteligência humanas." (Rosset, pág. 71)

 

Clement Rosset, Alegria, a força maior

Leituras diárias

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

 



“O problema fundamental da filosofia de Nietzsche se apresenta, aparentemente, como um problema de tipo kantiano: a beatitude nietzschiana, ou seja, a pura adesão à existência, sem remorso nem segundas intenções, é possível? Como é possível a transfiguração do sofrimento em prova positiva da afirmação? Como o pensamento da morte pode não ter outra incidência senão favorável sobre o pensamento da vida?" (Rosset, pág. 44)

 

Clement Rosset, Alegria, a força maior

Dia Mundial da Filosofia

segunda-feira, 16 de novembro de 2020
“Nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma.”

Epicuro (341-270 AEC), filósofo grego

Diversas questões levantadas pela Covid-19

sábado, 14 de novembro de 2020

 

"Nós não entramos neste mundo; saímos dele, como as folhas de uma árvore."   -   Aksapada   -   The Tao of Alan Watts


A Covid-19 é uma das maiores pandemias que afetaram a humanidade até hoje. Pela primeira vez na história, de uma maneira quase instantânea, todos os cantos do planeta foram abalados pela chegada da doença. A gripe espanhola de 1918-1919 também impactou muitos países; a Europa, os Estados Unidos e a China principalmente, mas muitas regiões, de difícil acesso à época, ficaram livres da doença. Hoje, de uma forma rápida, o vírus Covid-19, transportado por usuários de aviões, trens, automóveis, navios, atingiu quase a totalidade dos locais habitados do mundo, chegando inclusive às aldeias mais remotas e às tribos isoladas.  

Os tipos de impacto desta pandemia são variados; não se trata apenas de uma ocorrência envolvendo a saúde pública. A necessidade de isolamento ou limitação do contato entre as pessoas, já teve um efeito muito grande na economia mundial, desde a produção e distribuição, até a venda de produtos e prestação de serviços. Lazer, alimentação, ensino, tratamento médico, deslocamentos e trabalho, tiveram que se adaptar à nova situação e desenvolver formas que limitassem o contato interpessoal.


Ao mesmo tempo, toda esta situação acabou mostrando aspectos das sociedades, que em tempos normais vinham sendo tratados como problemas menores do relacionamento humano. O isolamento das pessoas, sozinhas, em família ou em pequenos grupos, fez com que aflorassem com mais frequência casos de violência doméstica, abuso de álcool e drogas, casos de depressão e suicídio. Nas cidades, a necessidade de isolamento das populações mostrou que nos bairros pobres das periferias e dos morros, grande parte dos moradores não têm acesso ao saneamento, nem ao menos à água tratada.

O aspecto da injusta distribuição dos recursos econômicos no Brasil também foi colocado a nu durante a pandemia, principalmente em seu período mais agudo. Milhões de pessoas, sem emprego e renda, ficaram em uma situação desesperadora, em difíceis condições de sobrevivência. Com quase toda a atividade econômica paralisada, parte considerável da população ficou sem qualquer rendimento, impossibilitada de comprar alimentos e outros itens de necessidade básica. Por iniciativa dos deputados de oposição, o governo se viu compelido a concordar com a distribuição de um auxilio emergencial, durante certo período. Toda esta situação trouxe de volta, tanto no Brasil quanto no mundo, a discussão sobre uma renda básica universal; um pagamento mensal a todo e qualquer cidadão, rico ou pobre, empregado ou desempregado, destinada a atender às suas necessidades básicas. Se não avança muito a discussão, pelo menos o tema está constantemente sendo abordado e estudado. A ideia é possibilitar a todo cidadão condições para que, não importa a atividade que tenha ou venha a exercer, sua sobrevivência básica esteja garantida.


A questão da instituição de um serviço gratuito universal de saúde, mantido pelo Estado, se tornou mais importante. A diferença na forma como a Covid-19 foi enfrentada em países como a Alemanha, que tem um dos melhores serviços de saúde do mundo, e os Estados Unidos, que não tem serviço público de saúde, ficou patente. O papel do Estado é primordial para assegurar atendimento médico a todo cidadão, principalmente àqueles que não dispõe de recursos. Mais ainda em situações de calamidade pública como a que enfrentamos.

A proteção dos recursos naturais é outro tema que chamou a atenção de empresários, governos e cientistas durante a pandemia. Estudos realizados por diversos organismos internacionais mostraram que a destruição de ecossistemas, pode fazer com que seus integrantes tentem sobreviver deslocando-se para outros ecossistemas e habitats – ou para outros hospedeiros, como no caso dos vírus do Covid-19, que encontrou um hospedeiro ideal nos sete bilhões de corpos humanos.

As sociedades humanas foram colocadas frente a frente com toda uma nova gama de situações pela pandemia. Problemas e desafios, os quais, de uma maneira ou outra, geralmente foram ignorados ou tratados como secundários. Não seria agora a hora de gradualmente se encaminhar soluções para estes dilemas? 


(Imagens: fotografias de Guido Guidi)

Leituras diárias

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

 




"Nem o tirano nem o escravo são capazes de avaliar sua capacidade. Amanhã, o primeiro cairá por si mesmo, e o segundo desprezará a oportunidade de tomar o poder para tentar instaurar um mundo menos absurdo.” (Serres, pag. 121)

 

Michel Serres, Ramos

Leituras diárias

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

 


“Vocês se sentem entediados? Apenas as novidades recentes lhes interessam? Que acontecimentos, então, podem ser considerados interessantes? São eles: as aventuras, as descobertas, a vida, e, o que mais posso dizer, o próprio tempo... não cessam de zapear.” (Serres, pag. 123)

 

Michel Serres, Ramos

Leituras diárias

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

 


“Como começa um império? Sobre uma superfície de terra, cada um dos membros de uma colônia de cupins deposita aleatoriamente uma pelota de argila. Ocasionalmente, pode acontecer que, aqui ou ali, dois deles coloquem essas pelotas uma sobre a outra. Com mais volume que suas vizinhas, essa massa atrai outros cupins que, com toda gentileza, preferem amontoar sua pelotas de argila mais nesse lugar do que em outro. O que se segue é um crescimento gigantesco de pequenas torres. Por meio dessa fábula sobre cupins, construí a narrativa a respeito da fundação da antiga Cidade romana e das ‘causas’ de sua supremacia imperial.” (Serres, pag. 145)


Michel Serres, Ramos

FESTA VIRTUAL DO LIVRO

terça-feira, 10 de novembro de 2020

 




VOTE CONSCIENTE!

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

 



Novas pandemias com a destruição da floresta?

sábado, 7 de novembro de 2020

 

"Não há cura para o nascimento e a morte, salvo apreciar o intervalo entre os dois."   -   George Santayana   -   Solilóquios na Inglaterra



Os microrganismos acompanham o homo sapiens desde o início de seu surgimento, há cerca de 200 mil anos. Os ancestrais humanos e outras espécies aparentadas – como o homo ergaster, passando pelo homo heidelbergensis e pelo homo neaderthalensis – para citar só alguns, também foram acometidos por doenças causadas pelos vírus. Ao longo de seu deslocamento partindo da África, pelo Oriente Médio, em direção à Ásia e daí para a Oceania, onde chegou há cerca de 50 a 60 mil anos em sucessivas levas de migração, o homem interagiu com diversos tipos de microrganismos, notadamente os vírus.

Vestígios de sítios localizados ao longo desta rota de migração, habitados por nossos antepassados, estão sendo escavados e analisados. Nos resíduos estão sendo coletados microrganismos, cujo DNA ou RNA (compostos orgânicos que contêm as instruções genéticas para o desenvolvimento da vida) estão sendo analisados. Fato interessante observado pelos pesquisadores, é que ao longo do tempo que estes grupos humanos levaram para se deslocar, os microrganismos também sofreram mutações. Em seu livro A história da humanidade contada pelo vírus, o médico infectologista e professo brasileiro Stefan Cunha Ujvari escreve: “O vírus HPV (papilomavírus humano) [...] multiplica-se no organismo infectado e sofre mutações constantes. Os vírus descendentes apresentam cópias diferentes do seu DNA. Gerações futuras do vírus inicial serão geneticamente diferentes. Cada grupo humano que se desgarrou dos demais levou consigo vírus responsáveis por uma geração geneticamente diferente dos demais que ficaram para trás. [...] Comparando as alterações do seu DNA em populações nativas de regiões diferentes, podemos traçar a rota percorrida pelo vírus HPV que coincidiria com o trajeto de seu carregador, o homem moderno.”


Assim, interagindo com a própria e outras espécies ao longo de sua evolução, deslocando-se através de diversos tipos de ambientes, o homem entrou em contato com diversas tipos de microrganismos, que passaram a seguir os grupos humanos por todo o planeta. Há inúmeros casos desta convivência e evolução conjunta – biólogos evolucionistas chamam-na de coevolução – entre seres humanos e espécies microscópicas. Um exemplo interessante, descrito no livro de Ujvari, é o da bactéria
Helycobacter pylori, descoberta recentemente como a causadora da úlcera do estômago, que até há pouco tempo era imputada ao uso inadequado de antibióticos. A bactéria é facilmente transmissível entre pessoas, e desta forma também pode se propagar junto com os deslocamentos das populações. Assim, através de estudos comparativos entre as diversas cepas de bactérias H. pylori (mutações), colhidas diretamente de indivíduos de diversas partes do globo, descobriu-se que a Helycobacter pylori é originária da África, acompanhou os humanos em seus deslocamentos pelo Oriente Médio e Europa, até chegar à extremidade do continente asiático. Sempre através da transmissão oral ou objetos contaminados. Até mesmo os primeiros povos que adentraram as Américas através do estreito de Behring, já traziam a bactéria em seus estômagos.

A dispersão de bactérias e vírus se deu de diversas formas, ao longo da pré-história e da história. Um tipo de tuberculose, a catapora, a AIDS, a herpes, a sífilis, as gripes e vários outros tipos de doenças causadas por microrganismos, também fizeram o mesmo trajeto, sempre levadas pelas populações humanas em suas migrações, no comércio, nas guerras e nas viagens exploratórias – mais recentemente, poderíamos acrescentar o turismo também a esta lista.

A maior parte destas doenças, principalmente as viróticas, têm uma origem atualmente bastante estudada e conhecida em seu processo de dispersão. Transcrevemos aqui mais um trecho do livro A história da humanidade contada pelos vírus: “Todo vírus da natureza precisa de auxílio de outro ser vivo para se reproduzir. Isso ocorre porque ele é constituído apenas do seu material genético, seja DNA ou RNA. E, ao contrário das bactérias, não contém o maquinário celular necessário para sua reprodução. Por isso invade a célula de um organismo vivo (animal ou vegetal) para emprestar sua moléculas, copiar o seu próprio material genético e construir novos vírus. Sob seu comando, as células invadidas produzem cópias de seu envelope para enclausurar o seu DNA ou RNA já replicados. Formam inúmeros novos vírus iguais ao invasor. A ‘prole’ é expulsa e está apta para repetir a operação.” É através deste processo que também se dá a propagação, nos organismos, do atual vírus Covid-19.


Parte das doenças, principalmente as viróticas que nos afligem até hoje, foram adquiridas através do contato com animais selvagens, portadores assintomáticos destes vírus. Isto ocorreu em uma fase mais primitiva do desenvolvimento das sociedades humanas, quando este grupos – caçadores, pastores – ainda viviam em ambientes selvagens. Outra parte maior destas moléstias virais tem origem no contato humano com seus animais de criação; como os porcos, as cabras, carneiros, vacas e galinhas, entre outros, já durante a fase em que a humanidade começava a praticar também a agricultura. As espécies domesticadas, em contato com ambientes ou animais selvagens (que são o habitat de vírus ainda desconhecidos) como camundongos, aves selvagens, e morcegos, eram contaminadas. Destes animais domésticos, através da ingestão de sua carne, sangue, leite ou contato com suas secreções, os vírus podiam, em alguns casos, “pular” para o organismo humano. Este processo chama-se transbordamento. No artigo intitulado
O elefante negro, publicado na revista Piauí de outubro de 2020, escreve o jornalista e documentarista João Moreira Sales: “Transbordamento é o termo que descreve o evento no qual um patógeno salta de um animal para o seu primeiro hospedeiro humano. A pandemia causada pelo Sars-CoV-2 nos familiarizou com doenças dessa natureza, as chamadas doenças zoonóticas, aquelas que passam de animais não humanos para humanos. Raiva, doença da vaca louca, carbúnculo (ou antraz), Sars, zika, peste bubônica – todas nos chegaram via reino animal. Mais de 60% das cerca de 400 doenças infecciosas identificadas desde 1940 são zoonóticas.”

O risco de um aumento das doenças zoonóticas existe e pode aumentar. À medida em que o homem avança sobre as últimas áreas ainda pouco exploradas, como as remanescentes florestas tropicais, a possibilidade de um encontro com patógenos endêmicos e, consequentemente, de um transbordamento, aumenta. A destruição de um ecossistema e de seus membros – muitos deles, como os morcegos, hospedeiros de vírus – pode fazer com que estes microrganismos encontrem, acidentalmente, um novo hospedeiro, que pode ser um animal doméstico ou o homem. A partir disso, pode ter início um rápido processo de transmissão, favorecido ainda mais pela atual facilidade de transporte, mesmo nas regiões mais remotas.    



Sobre este assunto, recentemente foi divulgado um relatório, encomendado pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Sistêmicos (IPBES), ligada à ONU. O estudo, conduzido por 22 renomados cientistas, aborda a relação entre a expansão de doenças infecciosas, transmitidas de animais para pessoas (zoonoses), e a biodiversidade. O documenta estima que existam cerca de 1,7 milhão de vírus pouco conhecidos e até desconhecidos, que tem seu habitat nos organismos de mamíferos e pássaros de todo o mundo. Destes, aproximadamente 850 mil espécies de vírus têm o potencial de se transformarem em moléstias zoonóticas, ao contaminarem seres humanos.

A quantidade de vírus existentes na natureza é imensa. Cientistas estimam que existam trilhões de espécies destas criaturas na Terra. Alan Burdick, repórter do jornal New York Times e mencionado no artigo publicado na revista Piauí, escreve que os vírus “infectam morcegos, feijões, besouros, amoras, mandioca, mosquitos, batatas, pangolins, carrapatos e diabos-da-tasmânia. Desenvolvem cânceres em pássaros e fazem com que as bananas fiquem pretas. Destes trilhões (de vírus), apenas algumas centenas de milhares de tipos são conhecidos e menos de sete mil têm nome. Sabemos que apenas 250, incluindo o Sars-CoV-2, possuem os mecanismos para nos infectar.”

Em outro estudo, mencionado recentemente pelo site ClimaInfo, especialistas catalogaram mais de 3,2 mil tipos de coronavírus em morcegos da Amazônia. Sobre isso comentou a pesquisadora Ana Lúcia Tominho, da Universidade Federal de Mato Gross (UFMT): “Se a Amazônia virar uma grande savana, não dá nem para imaginar o que pode sair de lá em termos de doenças. É imprevisível. Além de ser importante para nós por causa o clima, da fauna, ela é importante para nossa saúde.”

A espécie humana não é essencial para a sobrevivência da maior parte dos vírus, excetuando-se aqueles que provocam a febre amarela urbana, a dengue, a chicungunha, a zika e a febre do oropouche; patogênicos urbanos cujo hospedeiro preferencial é o homem. Nenhum vírus da Amazônia, vivendo no bioma há dezenas de milhares ou milhões de anos, precisa dos humanos para se reproduzir. No entanto, se destruirmos seu habitat e seus hospedeiros, e se estivermos no lugar errado e na hora errada, poderá ocorrer o pior.  A floresta fechada, atua como um escudo de proteção, tanto para o vírus, como para o homem. Ultrapassada esta barreira pela degradação ambiental, com a destruição de ecossistemas e de espécies, pode ocorre o transbordamento destes microrganismos para animais e deles para os humanos. 


Dado este quadro, muitos cientistas se admiram de que até o momento não tenha havido nenhuma grande explosão de alguma doença, causada por alguma espécie de vírus da floresta amazônica, do Pantanal, da Mata Atlântica, ou de outra floresta tropical pelo mundo - se bem que os vírus habitam qualquer bioma e ecossistema. Muitos especialistas já dizem que não se trata de saber se tal fato vai ocorrer, mas de quando ocorrerá. Um tal acontecimento poderá ser muito mais grave do que a pandemia da Covid-19, cujo custo estimado ao planeta foi de 8 e 16 trilhões de dólares, entre janeiro e julho de 2020. Por esta razão a ONU sugere uma resposta global coordenada, envolvendo todos os países, visando evitar a perda da biodiversidade.
  


(Fotografias de Raghu Rai) 

 

 

Leituras diárias

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

 


“A sabedoria é verdadeiramente um ideal ao qual se tende sem esperar chegar a ele, salvo talvez no epicurismo. O único estado normalmente acessível ao homem é a filo-sofia, isto é, o amor à sabedoria, o progresso em direção à sabedoria. Portanto, os exercícios espirituais deverão sempre ser retomados num esforço sempre renovado.

O filósofo vive assim num estado intermediário: não é sábio, mas não é não sábio. Ele está, pois, constantemente cindido entre a vida não filosófica e a vida filosófica, entre o domínio do habitual e do cotidiano e o domínio da consciência e da lucidez.” (Hadot, pág. 58)

 

Pierre Hadot, Exercícios espirituais e filosofia antiga

Leituras diárias

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

 


“É que, para Epicuro, como para os estoicos, a filosofia é uma terapêutica: ‘nossa única ocupação deve ser nossa cura’. Dessa vez, porém, a cura consistirá em conduzir a alma das preocupações da vida à simples alegria de existir. A infelicidade dos homens provém do fato de que eles temem as coisas que não são temíveis e desejam coisas que não é necessário desejar e que lhes escapam. A vida se consome assim na perturbação dos medos injustificados e dos desejos insatisfeitos.” (Hadot, pág. 32)

 

Pierre Hadot, Exercícios espirituais e filosofia antiga


Leituras diárias

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

 


“A filosofia vai então educar o homem para que busque alcançar apenas o bem que pode obter e busque evitar apenas o mal que pode evitar. O bem que se pode obter, o mal que se pode sempre evitar devem, para ser tais, depender unicamente da liberdade do homem: são, portanto, o bem moral e o mal moral. Semente eles dependem de nós, o resto não depende de nós. Portanto o resto, o que não depende de nós, corresponde ao encadeamento necessário das causas e dos efeitos que escapam à nossa liberdade. Ele nos deve ser indiferente, isto é, não devemos introduzir diferença nele, mas aceitá-lo por inteiro como desejado pelo destino.” (Hadot, pág. 23)

 

Pierre Hadot, Exercícios espirituais e filosofia antiga

PROTEJA AS FLORESTAS!

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

 

(Fonte: Greenpeace)

Resíduos sólidos urbanos, ainda um problema no país

sábado, 31 de outubro de 2020

 

"Para quem medita sobre o inefável, é útil observar que a linguagem pode perfeitamente nomear aquilo de que não se fala."   -   Giorgio Agamben   -   Ideia de prosa

Em dezembro de 2020 a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) completa dez anos. Assinada durante o governo de Lula da Silva, a Lei 12.305/10, segundo o Ministério do Meio Ambiente, “prevê a prevenção e a redução na geração de resíduos, tendo como proposta a prática de hábitos de consumo sustentável e um conjunto de instrumentos para propiciar o aumento da reciclagem e da reutilização dos resíduos sólidos (aquilo que tem valor econômico e pode ser reciclado ou reaproveitado) e a destinação ambientalmente adequada dos rejeitos (aquilo que não pode ser reciclado ou reutilizado)”. Trata-se de uma lei que, se bem aplicada, permitiria ao país gerenciar seus resíduos sólidos de maneira adequada, reduzindo o impacto ambiental das atividades econômicas e do consumo.

A realidade, no entanto é bem outra. A aplicação da lei já foi prorrogada por duas vezes pelo Congresso, já que a maioria dos municípios não dispõe de recursos financeiros e capacidade técnica para implantar um programa municipal de gestão de resíduos. A simples coleta de lixo ainda não está disponível para cerca de 20 milhões de pessoas; 10% da população do país. Apenas 18% dos municípios brasileiros, localizados em sua maioria nas regiões Sul e Sudeste, têm coleta seletiva de lixo. Dados publicados no portal da Câmara dos Deputados em 2019 informam que apenas 3% do lixo gerado em todo o pais – cerca de 79,9 milhões de toneladas ao ano – é reciclado. Este percentual de reciclagem permanece praticamente inalterado há mais de dez anos, porque a reciclagem ainda é pouco rentável.


Outro indicador é que 49,9% dos municípios brasileiros ainda descarregam seus resíduos urbanos em depósitos ilegais ou irregulares, chamados de “lixões”, segundo dados recentemente publicados no Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana (ISLU), elaborado pelo Sindicato Nacional das Empresas de Limpeza Urbana (Selurb), junto com a consultoria PwC Brasil. Segundo a lei que institui a PNRS estes lixões deveriam ter sido eliminados até 2014, mas o prazo de cumprimento da lei foi prorrogado até 2021.

É pouco provável que os municípios tenham recursos financeiros e humanos para implantarem sistemas de gestão de resíduos – coleta seletiva associada à coleta de lixo, sistemas de reciclagem e aterros sanitários regularizados – até o novo prazo estabelecido pelo Congresso para cumprimento da PNRS. Se há cinco anos a capacidade de pagamento da maior parte das cidades brasileiras já era complicada, a crise econômica e a pandemia do coronavírus estão dificultando mais ainda a situação de caixa dos municípios. Já em fevereiro de 2020, antes do início da pandemia, um levantamento da Confederação Nacional do Municípios (CNM) indicava que 69 prefeituras haviam decretado calamidade nas contas públicas e que 229 outras cidades estavam no mesmo caminho. A mesma confederação informou em julho deste ano, que os municípios brasileiros tinham uma dívida de R$ 40 bilhões em precatórios.

Também não é possível esperar por uma ajuda por parte do Ministério do Meio Ambiente ou do Ministério das Cidades – este último foi até extinto pelo atual governo, tendo sido incorporado ao Ministério do Desenvolvimento Regional. A questão ambiental deixou de ser tema relevante para o atual governo e mesmo as secretarias de meio ambiente de muitos estados, cujos governadores foram influenciados pela política federal, deixaram de ter a importância que tinham em outras administrações. No âmbito municipal, a situação é pior ainda.



Enquanto isso, a população do país continua a gerar resíduos, metade dos quais – aproximadamente 40 milhões de toneladas por ano – são descarregados em aterros sanitários irregulares ou, em casos mais graves, jogados em córregos e rios, em mangues, praias, ou em terrenos urbanos. A falta de programas de educação ambiental, seja nas escolas ou nos meios de comunicação, também está contribuindo para tornar a situação ainda pior. Os resíduos, principalmente os plásticos, podem levar milhares de anos para se desfazerem. Mesmo assim, ao se desagregarem, podem se incorporar ao solo, à água e aos alimentos, provocando contaminação por acumulação.

A maior parte da população, no entanto, nem se dá conta do que está ocorrendo. O lixo simplesmente desaparece da lixeira e quase ninguém se pergunta para onde foi levado. Um dia ficaremos sabendo e aí talvez seja tarde.

(Imagens: fotografias de Heinrich Zille) 

Leituras diárias

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

 


“O córtex pré-frontal é a parte mais nova do nosso cérebro, a parte que fica bem atrás de nossa testa. Em termos evolutivos, desenvolveu-se a um ritmo extraordinariamente rápido. Há 300 mil anos, quando o último Homo erectus encontrou seu destino, o córtex pré-frontal basicamente não existia. Hoje cada ser humano tem um, o que significa que a parte mais complexa de nosso encéfalo evoluiu e aumentou o tamanho geral de nosso cérebro em 25% a 30% num piscar de olhos evolutivos.” (Walter, pág. 134)

 

Chip Walter, Polegares e lágrimas e outras peculiaridades que nos tornam humanos


Leituras diárias

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

 


“Nenhuma outra criatura é um corredor de longa distância melhor do que o homem. As chitas podem desenvolver maior velocidade, os avestruzes e cavalos podem galopar por mais tempo a altas velocidades, mas nenhum animal pode cobrir uma distância maior, sem descansar, do que nós. A popularidade das corridas de longa distância, das maratonas e da ultramaratona é um legado desta capacidade, mas há muitos outros exemplos exóticos de nossos talentos bípedes peculiares. Os índios tarahumara, do México moderno, por exemplo, costumam caçar cervos literalmente correndo atrás deles por vários dias.” (Walter, pág. 115)

 

Chip Walter, Polegares e lágrimas e outras peculiaridades que nos tornam humanos


Leituras diárias

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

 


“Assim como a evolução do DNA tornou possível para um gene ser copiado e compartilhado de uma geração para a seguinte, graças aos neurônios-espelho, e aos novos comportamentos que eles possibilitaram, uma ideia – um ‘meme’, como colocou Richard Dawkins – podia ser copiada e transmitida de uma mente para a seguinte. Surgiu a comunicação consciente, mesmo que apenas de forma embrionária, e em sua esteira tudo se seguiria, da fofoca à oratória, da matemática às leis de Hammurabi, da comédia de palco ao código de computador que manda sondas às luas de Saturno. Estávamos construindo o andaime para o comportamento verdadeiramente humano, os relacionamentos e, por fim, a mais monumental de todas as invenções humanas: a cultura.” (Walter, pág. 83)

 

Chip Walter, Polegares e lágrimas e outras peculiaridades que nos tornam humanos


Leia, leia, leia!

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

 


A volta da covid e a indiferença de muitos

sábado, 24 de outubro de 2020

 

"Os reacionários de todos os tempos são iguais."   -   Rui Barbosa   -   Obras completas 

A pandemia não acabou. Mesmo assim, parecia que em todo o mundo a doença havia sido debelada. Era comum, através das reportagens, vermos pessoas jovens e velhas andando sem máscara, retomando normalmente suas atividades, interagindo com outras pessoas, inclusive em locais públicos. Foi assim que a maior parte da população europeia teve a impressão de que a covid havia passado. Os casos diminuíram, as medidas de segurança e profilaxia foram afrouxadas, e, aos poucos, instalou-se uma situação de “já passou”.

No entanto, ao longo das últimas semanas, numa progressão exponencial, os casos de novas infecções com o vírus foram aumentando. Espanha, França, Itália e Inglaterra viram as vítimas aumentarem rapidamente, forçando seus governos a reintroduzirem medidas de contenção da circulação de pessoas, aglomerações e contatos. Quando parecia que, lentamente, a vida das pessoas e a economia estavam voltando ao normal, a Europa retornou aos níveis de contaminação e internação de doentes de seis meses antes. Outras parte do mundo, como a Índia, o Paquistão, o Irã e o Japão também enfrentam o recrudescimento da pandemia. Nos Estados Unidos, onde a pandemia não havia diminuído sensivelmente, a situação agora também piorou, aumentando mais ainda o número de internações e mortes.

No Brasil, por enquanto, há uma tendência de queda no número de novos casos de contaminação com o vírus, apesar da maneira desastrosa como o governo federal - leia-se Ministério da Saúde - lidou com a pandemia. Transferiu praticamente toda a responsabilidade no combate à doença aos governos estaduais e às prefeituras. Testes, para identificação de pessoas contaminadas e seu posterior isolamento foram pouco realizados, apesar das constantes recomendações da Organização Mundial de Saúde. O presidente Bolsonaro e um número considerável de médicos aderiram ao uso de medicamentos de efeito duvidoso, como a cloroquina e a azitromicina, cujo uso tem efeitos colaterais graves, sendo inócuos no combate do vírus. Recentemente, o presidente Bolsonaro disse que a vacina não seria obrigatória e, pressionado por seus seguidores, negou-se a comprar a vacina de origem chinesa Sinovac, que está em estado avançado de desenvolvimento.  

A população pobre, como sempre acontece em situações de crise, está sendo a mais prejudicada; falta de água, de condições de moradia seguras, de recursos financeiros para manter o isolamento e, depois da fase aguda da pandemia, o desemprego. Os efeitos funestos da covid na economia ainda perdurarão por muitos meses, provocando o fechamento de empresas e de postos de trabalho. Os mais prejudicados são aqueles que não detêm reservas econômicas, os pobres. Mais um motivo para que se iniciem discussões sobre uma renda universal básica.

Fato que chama a atenção dos analistas é a atitude negacionista de parte da população mundial, inclusive do Brasil. Não se trata de uma rebeldia contra as medidas de proteção impostas pelos governos – isolamento social, uso de máscaras, limitação da circulação de pessoas, etc. Também não é o tipo de atitude de oposição a prefeitos ou governadores, principalmente por motivos políticos, como ocorreu aqui no Brasil e em várias partes do mundo. É a atitude, consciente ou não, de não se usar máscaras de proteção, não se respeitar o isolamento social e outras práticas de proteção contra a doença.

Parte destas pessoas, entre os quais muitos idosos e pessoas de grupos de risco, não está convencida da gravidade e mortalidade do vírus. Muitos, mesmo aqueles com mais alto nível de instrução, acreditam que o número de mortes anunciadas pelos veículos de comunicação – e que até agora não foram refutadas por autoridades e especialistas – é exagerado ou até inverídico. A TV mostrou por diversas vezes as centenas ou milhares de pessoas em bares e restaurantes, aglomeradas e sem máscara, em muitas cidades mundo afora.

Não têm preocupação com os riscos que correm, mesmo sabendo do perigo, que eventualmente pode ser mortal. Na maior parte dos casos, no entanto, não se trata de coragem consciente para, se necessário, enfrentar a doença e suas consequências, mas de uma estranha passividade. Daqui a cinquenta ou cem anos, quando historiadores estudarem o período histórico da pandemia, como interpretarão essa indiferença quase suicida?  

(Imagens: Antonio Berni)

Leituras diárias

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

 


“A fronteira entre processos mentais conscientes e inconscientes fascina psicólogos e neurocientistas há mais de um século. A noção de que a mente inconsciente tem de possuir alguma estrutura cognitiva e emocional foi o alicerce do trabalho de Freud e também o palco no qual ele erigiu uma mitologia incrivelmente acientífica.” (Harris, p. 85)

 

Sam Harris, Despertar – Um guia para a espiritualidade sem religião