Gestão de resíduos e saúde pública

sábado, 16 de agosto de 2014
"Conferindo-se ao governo poderes ilimitados, pode-se legalizar a mais arbitrária das normas; e desse modo a democracia pode estabelecer o mais completo despotismo."  -  Friedrich A. Hayek  -  O caminho da servidão

A epidemia do vírus ebola avança na África Ocidental fazendo um número maior de vítimas do que nos surtos anteriores. Aparentemente transmitido por morcegos e macacos contaminados pelo vírus, este se transmite entre humanos através dos fluidos corporais ou objetos infectados. A doença manifesta-se de duas a três semanas depois da contaminação e ao ar livre o microorganismo pode sobreviver durante alguns dias em líquidos ou materiais secos.
Em manifestações anteriores a doença estava limitada a regiões isoladas, com poucas estradas, o que ajudou a restringir a área de atuação da epidemia. Atualmente o vírus se manifesta em uma região de fronteira, com estrutura de transporte desenvolvida e grande tráfego de veículos e ônibus, o que facilita a propagação da epidemia. A doença, como toda epidemia virótica, espalha-se de maneira rápida em ajuntamentos humanos: o primeiro paciente, um menino de dois anos, morreu e contaminou irmã, mãe e avó, que faleceram semanas seguintes. Duas pessoas que foram ao funeral da avó, levaram o vírus à sua aldeia. Dali, agentes de saúde que desconheciam a doença espalharam a epidemia por outras cidades.
O processo de avanço do ebola já preocupa governos e a Organização Mundial de Saúde (OMS), que em seu site publicou diversas instruções – principalmente direcionadas a controles de fronteira, aeroportos e portos – com referência aos primeiros cuidados com viajantes infectados. No Brasil, desde agosto, os aeroportos e portos estão em alerta e o Ministério da Saúde informou que iria aumentar o nível de atividade de um centro de operações em emergências em saúde. O ministro da Saúde, Arthur Chioro, declarou que “Não há risco, neste momento, de transmissão do ebola no Brasil.”        
Supondo, no entanto, que em futuro próximo possa aqui chegar – por aeroporto ou porto – algum portador do vírus ebola, convêm estarmos preparados. Além de leitos em hospitais equipados é preciso que objetos e resíduos em contato com o portador da doença também sejam tratados de maneira segura. Tal necessidade implica que os aeroportos e portos brasileiros disponham de um sistema de gestão de resíduos, devidamente implantado e preparado para lidar com materiais patogênicos infectados com um vírus de alta periculosidade, como o ebola. 
Neste aspecto, todavia, os portos e aeroportos brasileiros ainda têm muitas deficiências. O país dispõe de 37 portos públicos, dos quais três fluviais e 34 marítimos, gerenciados por companhias de capital misto, estados e municípios. Com relação à operação, o órgão responsável pelos portos é Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ). O sistema aéreo, constituído por 67 aeroportos, 69 agrupamentos de navegação aérea e 51 unidades técnicas de navegação, tem seus serviços administrados pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero). A legislação com relação à gestão de resíduos em portos e aeroportos foi elaborada ao longo dos anos pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).
Os dados mais atualizados sobre a gestão de resíduos em áreas portuárias e aeroportuárias constam do “Diagnóstico de Resíduos Sólidos de Transportes Aéreos a Aquaviários”; um estudo publicado em 2012 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Enquanto muitos aeroportos já dispõem de planos de gestão de resíduos incluindo coleta seletiva, equipamentos (autoclave, incinerador, etc.), áreas de triagem, segregação e destinação em aterro sanitário, a maior parte dos portos ainda não avançou neste tipo de gestão. Ainda segundo o estudo do IPEA, os diferentes portos e aeroportos mostraram distintos graus de organização, além de outros problemas, como: falta de dados sobre volume de resíduos gerados, tipo de resíduos, tratamento e destinação; pouco controle dos planos de gestão já implantados e falta de mão de obra treinada; falta de equipamentos e instalações adequadas.
Como parte da Política Nacional de Resíduos Sólidos em vigor desde 2010, aeroportos e portos precisam implantar e aprimorar seus planos de gestão de resíduos. Se, por um lado, ainda há muito por fazer no país para se reduzir o impacto ambiental das atividades portuárias e aeroportuárias, por outro, a correta gestão dos resíduos em tais atividades também é tema de saúde pública.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

Resíduos sólidos: solução adiada para 2022?

sábado, 9 de agosto de 2014
"Homem diante das forças da natureza - Não as corrige, nem as domina nobremente, nem as encadeia num esforço consciente e sério. Extingue-as."  -  Euclides da Cunha  -  Contrastes e confrontos

O atraso de obras e a prorrogação de leis são mazelas da administração pública que afetam a vida dos brasileiros. Ambos são faces da mesma moeda: a falta de capacidade de planejamento e de organização do estado brasileiro. Sucedem-se os governos, mas persistem os problemas relacionados à capacitação, organização e gestão da máquina pública, em todos os níveis. Para piorar, são frequentes os casos de administrações envolvidas em corrupção, excesso de cargos comissionados e planos de governo de curto prazo.
A implantação da Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS) é exemplo desta situação. Sancionada pelo presidente Lula em agosto de 2010, a lei 12.305/10 foi saudada como “revolução em termos ambientais no Brasil” pelo próprio mandatário. Ainda em 2010 a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, informava que no orçamento de 2011 já estava previsto R$ 1 bilhão e que outros R$ 500 milhões seriam disponibilizados pela Caixa Econômica, para construção de aterros sanitários, implantação de projetos de coleta seletiva e criação de cooperativas de catadores.
Etapa importante na implantação da lei é a elaboração do Plano Municipal de Resíduos Sólidos (PMRS). Este deveria ter sido encaminhado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) por cada um dos municípios até agosto de 2013. O plano deve apresentar um quadro geral da situação dos resíduos no município e descrever as providências futuras, tendo em vista as diretrizes da lei. A realização desta etapa da PNRS foi dificultada pela falta de pessoal especializado e recursos para estruturar o plano de gestão de resíduos do município. Dos 5.570 municípios brasileiros, somente uma pequena parcela apresentou um PMRS; grande parte de baixa qualidade informativa. A próxima etapa prevista pela lei é que até 2 de agosto de 2014 todos os municípios brasileiros implantassem a coleta seletiva e destinassem seus refugos aos aterros sanitários, construídos conforme a lei.
Segundo a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), metade dos municípios brasileiros não tem condições de cumprir a lei e mais de mil dos 2.400 municípios consultados não conseguiram sequem elaborar o PMRS, imprescindível para a obtenção de verbas federais para construção dos aterros. Ainda segundo a instituição, 16 capitais não têm aterro sanitário, entre elas as cidades de Belo Horizonte, Porto Alegre, Manaus, Recife e Brasília. Segundo estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas, o país precisaria de R$ 70 bilhões para a universalização dos aterros, que deveriam vir do governo ou de PPPs (parcerias público privadas).

Liderado pela CNM e com o apoio da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) e de alguns parlamentares, organiza-se um movimento em prol da prorrogação da lei até 2022. O objetivo principal é evitar que prefeitos possam ser processados pelo Ministério Público e incorrer em multas de R$ 5 mil a R$ 50 milhões, além de pena de até quatro anos de reclusão. O Planalto, precisando do apoio dos executivos municipais para as eleições de 2014, não deverá se opor ao pleito.
No momento em que escrevemos este artigo, ainda é incerto o adiamento da lei. Mas, sua possibilidade nos leva a questionar a capacidade de planejamento e gestão do MMA. Além disso, será mais um retrocesso na situação do saneamento no Brasil, já tão prejudicada com os baixos índices de tratamento de esgoto.
(Imagens: fotografias de Paul Strand)    

Química verde também avança no Brasil

sábado, 2 de agosto de 2014
"Pode-se, então, compreender por que a fúria consumista prossegue. Doravante, o consumo funciona como doping ou como estímulo para a existência, às vezes, como paliativo, despiste em relação a tudo que não vai bem em nossa vida."  -  Gilles Lipovetsky  -  Metamorfoses da cultura liberal

A indústria química sempre foi considerada uma das grandes causadoras da poluição ambiental. Pesquisas de opinião, realizadas em diferentes países desde a década de 1970, apontam o setor químico como um dos grandes vilões do meio ambiente. Vazamentos e explosões em unidades de produção mataram mais de seis mil pessoas em todo o mundo, desde a década de 1950 – isso sem contar os milhares de trabalhadores que tiveram algum tipo de sequela devido à exposição prolongada aos componentes tóxicos nas indústrias.
Desde o início da década de 1980 a indústria química mundial vem desenvolvendo e aplicando quesitos de segurança aos processos de produção, transporte e armazenagem, chamados “resposible care” (atuação responsável). Com estas providências reduziram-se bastante os riscos de acidentes com produtos químicos, envolvendo danos a pessoas e ao meio ambiente. Na área da movimentação de produtos, por exemplo, a ONU e as associações das indústrias químicas dos diversos países criaram normas para o transporte de produtos perigosos – tóxicos, explosivos, corrosivos, inflamáveis – aplicáveis em todo o mundo, a todo tipo de transporte; rodoviário, aéreo, ferroviário, fluvial e marítimo.
Ainda nos anos 1980, surgiu nos Estados Unidos um conceito novo de química; a química verde. Segundo a União Internacional da Química Pura Aplicada (IUPAC) a química verde é definida como: “a invenção, desenvolvimento e aplicação de produtos e processos químicos para reduzir ou eliminar o uso e a geração de substâncias perigosas”, ou seja, que sejam nocivas à saúde humana ou ao meio ambiente. Trata-se, sem dúvida, de um grande passo no setor químico, já que coloca como compromisso a gradual substituição de substâncias tóxicas por outras com menos ou nenhuma periculosidade nos processos de formulação de produtos. Ao longo dos anos foram estabelecidos doze princípios básicos que balizam a química verde e que incluem conceitos como o da prevenção da geração de resíduos e substâncias perigosas e o uso eficiente de matérias primas e energia. É evidente, no entanto, que por ser uma atividade econômica como qualquer outra, não é possível esperar que em poucos anos o setor se torne completamente verde, utilizando em suas formulações – ou como resultado destas – somente produtos inócuos, com pouco ou nenhum impacto ao meio ambiente ou à saúde humana.

No entanto, a pressão de nova lei ambiental e a ação de ONGs está ajudando com que a indústria química gradualmente reformule seus processos e reduza a periculosidade de seus produtos. Os consumidores também estão desempenhando um papel importante, deixando de comprar produtos convencionais e substituindo-os por outros menos impactantes. Assim, o próprio mercado passa a premiar empresas que atuam de maneira mais sustentável. Exemplo disso é a brasileira Oxiteno, que em um terço de seus produtos utiliza ingredientes renováveis como a canola, a mamona, o óleo de palma, a soja e o coco, além de desenvolver solventes à base de cana-de-açúcar. Outro caso já bastante conhecido é o da empresa Braskem, que fabrica o “plástico verde”, derivado do etanol da cana.
Os custos para muitos processos de produção verde ainda são proibitivos. Mesmo assim, avançam as pesquisas em todo o mundo, inclusive o Brasil. Com isso, a moderna química está ficando um pouco mais verde, reduzindo seu impacto ambiental.
(Imagens: fotografias de René Burri)

Crescimento da população, consumo e impacto ambiental

sábado, 26 de julho de 2014
"Nós humanos, vivemos em condomínio. Nós temos autonomia porém não temos soberania. Não agimos por instinto. Agimos por reflexão, por decisão, por juízo. A ética é o conjunto de princípios e valores da nossa conduta na vida junta."  -  Mario Sergio Cortella  -  Qual é a tua obra?

Em 1950 a população do mundo era de 2,5 bilhões, passando a seis bilhões de habitantes em 2000. Os países que tem o maior crescimento populacional são os africanos, liderados pela Libéria (4,50% ao ano), Burundi (3,90%) e Saara Ocidental (3,72%). Na maior parte do mundo, todavia, o crescimento populacional está diminuindo ao longo dos últimos 20 anos. É sintomático que duas nações, as quais concentram 2,6 bilhões de habitantes (37% da população terrestre), têm atualmente índice vegetativo baixo: a Índia com 1,46%, e a China com 0,58%. O Brasil também reduziu sua taxa vegetativa drasticamente nas últimas duas décadas – atualmente em 1,24% ao ano.
A redução do crescimento da população mundial ainda não se fez notar com tanta clareza, já que grande parte das pessoas nascidas nos últimos 50 a 70 anos ainda continua viva. O que se espera é que a redução do crescimento vegetativo médio seja perceptível a partir da metade deste século quando, segundo previsões, a população humana deverá alcançar os nove bilhões e lentamente decair, segundo algumas fontes. A ONU (Organização das Nações Unidas), todavia, prevê que a população continuará a aumentar, chegando a aproximadamente 11 bilhões no final do século. O maior crescimento ocorrerá no continente africano, cuja população deverá chegar aos 4,2 bilhões de habitantes até 2100.
O problema do aumento da população não é apenas o da falta de alimentos, como se temia no passado. Estes são e poderão ser produzidos em quantidades suficientes para abastecer o mundo. A tragédia da fome é relacionada com a especulação financeira sobre safras futuras, a falta de recursos, a corrupção e os conflitos, que privam populações do acesso aos meios de produção e compra dos alimentos básicos.
O impacto do crescimento populacional é mais amplo. Refere-se aos recursos naturais necessários para alimentar, dessedentar, vestir, transportar, aquecer, refrigerar, iluminar e divertir centenas de milhões de seres humanos, que também almejam uma vida melhor. Segundo um estudo do instituto americano Wolfensohn Center for Development, em 2030 aproximadamente cinco bilhões de pessoas – cerca de 2/3 da população global – poderão pertencer à classe média mundial, dispondo de 10 a 100 dólares por pessoa por dia (dependendo do país) para gastar.
O efeito que esta demanda por produtos provocará no meio ambiente é imenso: mineração, agricultura, criação de gado, pesca, indústrias de todos os tipos, construção civil, transportes e fornecimento de energia e água. Além disso, há que se considerar a geração de resíduos de todas estas atividades e o impacto no solo, nas águas e na atmosfera, aumentando as emissões de gases de efeito estufa e acelerando as mudanças climáticas. A expansão das atividades econômicas aumentará a pressão sobre os ecossistemas remanescentes, apressando a destruição de espécies, muitas delas extintas antes de terem sido estudadas.
Cientistas recomendam que para evitar o aumento descontrolado da população, principalmente em países pobres, seja incentivada a educação das mulheres, proporcionando-lhes mais liberdade individual, acesso à informação e a métodos contraceptivos. Esta política deveria ser acompanhada de planejamento familiar esclarecido, livre da tutela do Estado, da religião, de grupos de pressão ou membros da família.
(Imagens: arte aborígine australiana)

Brasil produzirá etanol de 2ª geração

sábado, 19 de julho de 2014
"No entanto, se observarmos, sob o prisma da história das instituições, vemos como a liberdade se corrige por uma intensa servidão voluntária, já que as duas funcionam bem juntas... Será que, um dia, a liberdade chegou a existir verdadeiramente? Sem dúvida, ela existiu enquanto ideia, enquanto ideal, em uma espécie de imaginação iluminista da modernidade, uma espécie de parênteses um tanto quanto maluco."  -  Jean Baudrillard  -  De um fragmento a outro

Nos anos 1970 o Brasil importava a maior parte de seus combustíveis, aumentando a dívida externa do país. Em 1975, atuando junto com a indústria automobilística e o setor sucroalcooleiro, o governo lançou o programa Proálcool (Programa Nacional do Álcool), que visava à utilização do álcool derivado da cana-de-açúcar como combustível para veículos, reduzindo com isso as importações de derivados de petróleo.
A aceitabilidade do programa junto às montadoras e ao público consumidor foi gradualmente aumentando. No final dos anos 1980 parte dos veículos de passeio brasileiros era movida a álcool. No entanto, problemas de disponibilidade do combustível fizeram com que consumidores e montadoras perdessem a confiança no programa, o que provocou queda nas vendas e, consequentemente, na fabricação de veículos a álcool.
Nos anos 1990 o Proálcool toma novo impulso com o desenvolvimento da tecnologia “flexfuel”, que permite ao motor queimar tanto gasolina quanto etanol. A tecnologia foi regulamentada pelo governo em 2003, fato que impulsionou fortemente as vendas de veículos flex.
Nos últimos anos o programa do carro a álcool – apesar de seu forte apelo ambiental e de envolver diversos setores da economia brasileira – voltou a perder sua aceitabilidade junto aos consumidores. O principal problema é que o uso do etanol estava se tornando antieconômico, já que rodando com este combustível a rentabilidade do veículo é menor, comparado à gasolina. Desta maneira caiu a demanda por álcool e aumentou o uso da gasolina, que em parte é importada. A queda nas vendas do etanol e a falta de reajuste em seu preço provocaram a maior crise pela qual já passou o setor sucroalcooleiro. Segundo reportagem publicada pelo jornal Folha de São Paulo, nas últimas cinco safras 44 usinas encerraram suas atividades, 33 estão em recuperação judicial e dez não deverão moer cana-de-açúcar neste ano.
Apesar da situação, o setor está desenvolvendo novas tecnologias e com apoio financeiro do BNDES prepara a implantação da primeira unidade de produção de álcool celulósico no Brasil. A usina está localizada na cidade de Piracicaba e tem capacidade de produção de 40 milhões de litros de etanol. O biocombustível é o chamado de “segunda geração”, produzido a partir do bagaço, das folhas, cascas e outros resíduos da cana-de-açúcar. Se a experiência for bem sucedida, segundo o vice-presidente de etanol, açúcar e bioenergia da Raízen, Pedro Mizutani, a empresa pretendem construir mais sete unidades no país, investindo aproximadamente R$ 2 bilhões e produzindo cerca de 1 bilhão de litros de etanol celulósico. O volume ainda é diminuto em comparação ao consumo do mercado brasileiro (21 bilhões de litros em 2013), mas representa o marco inicial de uma nova tecnologia que poderá aumentar a produção brasileira do biocombustível.
O físico, professor e pesquisador do programa brasileiro do etanol celulósico, Igor Polikarpov, é um entusiasta da tecnologia. Segundo ele, temos um “pré-sal de biomassa” para fabricar o combustível: “disponibilidade de terra e água, luz solar à vontade e uma cadeia produtiva já montada, com vasta quantidade de matéria-prima pronta para ser processada”. Atualmente a equipe envolvida no projeto está pesquisando enzimas capazes de processar a celulose e outros componentes orgânicos, a fim de transformá-los em etanol.
(Imagens: pinturas jainistas)    

A Copa poderia ter sido mais verde

sábado, 12 de julho de 2014
"Se há, pois, razão para esperanças, donde há-de vir a salvação? Não do "progresso", com certeza. Já progredimos o bastante na arte de envenenar o nosso mundo e a nossa sociedade. O progresso do conhecimento e da ciência aplicada, posto que indispensável e inspirador, não salvará a nossa cultura."  -  J. Huizinga  -  Nas sombras do amanhã

No momento em que escrevo este artigo o país ainda se encontra sob o efeito da derrota para a Alemanha por 7 a 1. Anos de espera, grandes expectativas e, infelizmente, tudo terminou em alguns poucos minutos. Apesar dos elogios e das críticas a serem feitas ao técnico e aos jogadores, o futebol é como a vida real: se ganha e se perde. As próximas gerações de atletas brasileiros poderão recuperar aquilo que a atual não pode ganhar. Afinal, ainda somos os únicos pentacampeões mundiais e ainda demorará muito até que outras seleções nos alcancem.
Se no futebol sempre se pode recuperar o que foi perdido, o mesmo não pode ser dito das obras que deveriam ter sido realizadas até um determinado tempo e não foram. Aeroportos que não chegaram a serem terminados a tempo, sistemas e vias de transporte urbano inacabados, obras de saneamento que não avançaram, e a realocação de pessoas que foram removidas de suas moradias por causa de obras da Copa. Terminado o evento, precisamos nos perguntar o que efetivamente sobrou como benefício para a população e o que no futuro constituirá um ônus. Exemplo disso são os estádios construídos em cidades sem grandes platéias de torcedores. De onde virão os recursos para custear a manutenção destas obras que custaram centenas de milhões de reais?
Quando em 2007 foi anunciado que o Brasil sediaria a Copa do Futebol havia um clima de euforia no país. A economia estava crescendo e Lula estava no auge. A Copa poderia ser uma vitrine de um novo Brasil, que crescia com justiça social e proteção ao meio ambiente - já que o país sempre foi um dos grandes interlocutores mundiais nas questões ambientais. 
Em 2006 a Alemanha havia tomado uma série de providências para reduzir o impacto ambiental da Copa de 2006. Assim, depois da "Copa Verde" na Alemanha, falava-se em uma "Copa Verde" no Brasil. Outro fato importante é que em 2007 o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) publicou um novo estudo sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas, tornando o momento bastante propício para que o Brasil lançasse uma agenda verde, visando a RIO+20 (2012) a Copa (2014) e as Olimpíadas (2016).
No entanto, a maneira como evoluíram os preparativos para RIO+20 e a Copa – e agora parece que também para as Olimpíadas - indicam que na pratica o governo não dispunha de uma agenda verde, pelo menos para estes importantes eventos. Apesar do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), os investimentos em saneamento ainda são insuficientes para garantir esgoto coletado e tratado para toda população dentro dos próximos 20 anos. A Política Nacional de Resíduos Sólidos está atrasada em sua implantação e já se fala em sua prorrogação. O governo reduziu os recursos para investimentos em parques nacionais e ainda não temos uma Política Nacional de Mudanças Climáticas efetivamente implantada. 
Estes são apenas alguns pontos de uma lista de promessas já discutidas aqui nesta coluna. Fato é que o Brasil tinha chances de se projetar internacionalmente como um país envolvido com a questão da sustentabilidade, utilizando-se dos grandes eventos como vitrine, a começar pela Copa. Isto, no entanto, não aconteceu. Instalar placas fotovoltaicas, reciclar o lixo e reutilizar a água de chuva em alguns estádios - cujo custo extrapolou o orçamento inicial - não é lá uma grande contribuição ao meio ambiente.
(Imagens: fotografias de Bruce Davidson)

Comentários sobre o texto “Reflexões sobre a Racionalidade Científica: problemas, apostas e propostas”

sábado, 5 de julho de 2014
"Ter senso histórico é superar de modo consequente a ingenuidade natural que nos leva a julgar o passado pelas medidas supostamente evidentes de nossa vida atual, adotando a perspectiva de nossas instituições , nossos valores e verdades adquiridos. Ter senso histórico significa pensar expressamente o horizonte histórico coextensivo à vida que vivemos e seguimos vivendo."  -  Hans-Georg Gadamer e Pierre Fruchon (org.)  -  O problema da consciência histórica

O texto "Reflexões sobre a Racionalidade Científica: problemas, apostas e propostas" é de autoria de Daniel Durante Pereira Alves, professor de filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Neste curto artigo comentaremos este trabalho, que analisa a atividade científica e a epistemologia.
No início de seu texto o autor afirma querer fazer uma crítica sobre alguns aspectos cognitivos da ciência, em seus pressupostos herdados de Descartes e defendidos pelo empirismo lógico. O texto também pretende apontar a conexão íntima existente entre certos problemas epistemológicos e éticos, considerando a extrema interrelação entre ambos. Em sua argumentação, o texto elabora uma crítica ética da ciência, dadas as “conseqüências muitas vezes nocivas do conhecimento científico”. Assim, para iniciar sua apresentação, o autor começa seu texto com uma explicação do que considera as características mais fundamentais da racionalidade científica hegemônica: o atomismo e o método axiomático.
O conhecimento científico é socialmente construído e não “temos nenhum motivo intransponível que nos impeça de procurarmos novas formas de fazer ciência”. A ciência é uma construção histórica e sua maneira de ser feita não se deve necessariamente à natureza ou a estrutura de nossa racionalidade (racionalismo). Esta visão da prática científica, baseada no construtivismo, não se fundamenta em nenhuma teoria sobre a realidade (ontologia), mas na prática do sujeito; em seu próprio ponto de vista. Assim, as diferentes interpretações da natureza são baseadas na interação do observador com o mundo; construções (constructos) que visam dar sentido aos seus projetos subjetivos. O conhecimento científico não é uma descrição exata da realidade; trata-se muito mais de uma teoria descritiva que na prática funciona.
Um dos fundamentos da teoria científica é baseado no atomismo de Demócrito: o átomo (ou outras partículas e subpartículas) como sendo as últimas partes constituintes da realidade. A epistemologia atomista leva a uma visão dualista da realidade, formada pela interação entre o sujeito (o que observa a realidade) e o objetivo (tudo o que é observado). Outro fundamento do pensamento científico é o método axiomático, herdado do geômetra Euclides e desenvolvido pelo pensador francês do século XVII René Descartes. Segundo esta metodologia de análise – mais tarde aplicada por Descartes também à geometria analítica – os problemas devem ser desmembrados em partes, de modo a facilitar sua apreensão. Desta forma, segundo o autor, pode-se ver a teoria científica como um conjunto de propostas (axiomas da antiga geometria euclidiana), organizados na forma de um todo harmônico, capaz de explicar certo fato científico.
No entanto, ao longo do desenvolvimento da ciência e da matemática durante os últimos 350 anos, foram aparecendo fatos que gradualmente colocaram em cheque a visão ortodoxa da racionalidade científica. O matemático Kurt Gödel (1906-1978) provou com seu Teorema da Incompletude, que resumidamente diz que em um sistema de axiomas auto-consistentes sempre existirão proposições que não poderão ser comprovadas pelo sistema, ou seja, o sistema é incompleto e incapaz de dar uma explicação total às questões que ele mesmo coloca. Outro exemplo é dado pela física de partículas, com o Princípio de Indeterminação, elaborado pelo físico Werner Heisenberg (1901-1976). Segundo este princípio, nunca será possível determinar a posição e a velocidade de um elétron. Isto porque, o fóton emitido pelo equipamento de medição já tira o elétron de sua posição original. O mesmo acontece se os cientistas tentarem medir o sentido de sua rotação (spin).
Na física quântica também ocorrem fenômenos que colocam em cheque muitos aspectos da suposta racionalidade da ciência: partículas que têm o mesmo comportamento como se formassem pares, mesmo que situadas a longas distâncias. Outras que têm um comportamento completamente aleatório, imprevisível. Isso tudo sem falar nos paradoxos (aparentes) da Teoria da Relatividade, segundo a qual objetos se deslocando a velocidades diferentes em relação a um mesmo ponto de referência, têm diferente percepção do desenrolar do tempo.
Em suma, a visão de que a realidade material pode ser explicada através de teorias simples, num encadeamento lógico que ganha em complexidade, não é mais possível. A matemática e a física têm levantado tantas questões, que a ciência convencional – e com ela a epistemologia – já não pode mais explicar a realidade.
Outro aspecto que o autor levanta é com relação à ética na ciência. O desenvolvimento científico, além de não resolver grande parte dos problemas sociais, acabou criando novos; como os impactos ambientais, as armas de destruição em massa ou o descontrole da prática científica (os perigos da nanotecnologia e da inteligência artificial sem limites). Além disso, aponta o artigo o problema da superespecialização de setores da ciência, gerando um conhecimento cada vez mais fragmentado, compartimentado, com profusão de teorias; situação característica do modelo axiomática de ciência.
O autor também coloca a questão sobre quais interesses estão por trás da prática científica. Além de sua função utilitária de fazer prognósticos, a quem servem estes prognósticos? Se a ciência reflete os projetos e interesses do observador, de que observador estamos falando? Recomenda o autor que a ciência não seja distante da ética e que seja mais responsável e reflexiva, considerando que há uma crescente desconfiança por parte da opinião pública em relação à prática científica.
Paralelamente desenvolvem-se novas visões do pensamento científico; mais abrangentes e englobando idéias como a transdisciplinaridade, o pensamento complexo, a holística, ultrapassando os paradigmas do atomismo e do método axiomático. Ao invés de “prognosticar para manipular e controlar” as novas correntes epistemológicas são orientadas para “mapear para equilibrar e dar autonomia”. A frase do autor conclui nosso texto: “Ainda que tenhamos nos concentrado neste ensaio apenas nos aspectos epistemológicos e éticos da ciência, ela é uma atividade coletiva e social, sendo este aspecto extremamente importante para qualquer consideração, pois a ciência só mudará quando os cientistas mudarem, quando nós, coletivamente, aceitarmos e praticarmos novas formas de cientificidade.”
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

Os parques municipais

sábado, 28 de junho de 2014
"The Carvaka holding belief in a realistic and rationalistic empiricism and admitting the existence of nothing beyond nature, naturally comes to hold, like all materialists, that the question of 'why' to the universe is irrelevant. We cannot and do not find any 'purpose' in the universe."  -  Bhupender Heera  -  Uniqueness of Carvaka philosophy in traditional Indian thought 

Os parques são um componente importante no planejamento das cidades. Local de descanso e lazer, a freqüência de um parque proporciona uma quebra na monotonia da paisagem urbana, trazendo o citadino para mais perto da natureza e tirando-o das atividades rotineiras.
Os parques municipais, assim como os conhecemos atualmente, surgiram no início do século XIX na França, Alemanha e Estados Unidos, que iniciavam seu processo de industrialização. Os capitalistas estabeleciam suas fábricas em cidades onde por alguma razão – seja a existência de um porto, de um entroncamento ferroviário, de uma praça de comércio – teriam facilidades em produzir, distribuir e vender seus produtos. O aparecimento das fábricas fez com que grandes levas de populações do campo se dirigissem às cidades.
Londres, Manchester, Boston, Nova York, Paris, Berlim, entre outras metrópoles, viram sua população crescer em poucas décadas, aumentada pela afluência de trabalhadores. A falta de estrutura, no entanto, fez com que esta população migrante passasse a morar em condições muito ruins; piores e mais insalubres do que as habitações que tinham no campo – que já eram bastante insatisfatórias.
É preciso lembrar que todo este processo social era novo para a época. Nunca antes, nem durante os séculos XV e XVI quando os servos abandonaram os feudos para se dirigir às cidades, houve um tão grande afluxo de pessoas às cidades à procura de trabalho e moradia.
As condições de vida das populações assalariadas não podem ser comparadas às atuais. Jornadas de até 14 horas, trabalho infantil e de gestantes. A coleta dos resíduos urbanos ainda era incipiente e não havia coleta ou tratamento de esgoto, pelo menos até meados do século XIX na maior parte das grandes cidades. Durante vários verões da década de 1860 o parlamento inglês teve suspender suas sessões, devido ao forte cheiro de esgoto que exalava do rio Tamisa. O filósofo alemão Friedrich Engels, amigo e colaborador de Karl Marx, vivendo por esta época na Inglaterra, descreve as péssimas condições de vida da classe trabalhadora, enquanto a classe rica vivia em chácaras fora do perímetro urbano.
Movimentos sociais e a formação de sindicatos e associações, muitos deles proibidos e perseguidos pelas autoridades, contribuíram para pressionar industriais e autoridades para que melhorassem as condições de vida e de trabalho das classes baixas. Ao longo do século XIX Londres, Berlim e Paris dão início a grandes obras de reurbanização, construindo grandes praças e parques para lazer e descanso dos trabalhadores. Este é o contexto no qual surgiu o moderno parque municipal.
A implantação dos primeiros parques no Brasil é relativamente recente, datando da segunda metade do século XIX. Em São Paulo o Parque da Luz, o primeiro da cidade, foi aberto ao publico no final do século XIX. No Rio de Janeiro, o primeiro parque municipal foi a Quinta da Boa Vista, inaugurado em 1905. Atualmente a cidade de São Paulo dispõe de 96 parques; de diversos tamanhos e estados de conservação.
Além de propiciar lazer e descanso à população, a área verde dos parques torna o ar do entorno mais úmido e frio, amenizando o micro clima. Neste espaço diversas espécies de pássaros e outros animais de pequeno porte encontram ambiente para sua sobrevivência, ao lado de espécies remanescentes da flora original da região.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

O problema da poluição veicular

sábado, 21 de junho de 2014
" - Olhe - disse Frankie -, essa história de idealismo, de dignidade da pesquisa pura, da busca pela verdade em todas as suas formas, está tudo muito bem, mas chega uma hora que você começa a desconfiar que, se existe uma verdade realmente verdadeira, é o fato de que toda a infinidade multidimensional do Universo é, com certeza quase absoluta, governada por loucos varridos."  -  Douglas Adams  -  O guia do mochileiro das galáxias   

O crescimento econômico do Brasil está fraco, abaixo da média mundial e setores importantes da economia, como o setor automobilístico, começam a apresentar problemas. A queda das vendas aumenta o risco das demissões; dilema que demonstra o quanto nossa economia ainda é pouco diversificada, dependente de poucos setores, que absorvem a mão de obra mais qualificada.
Nesta situação a estratégia do governo é criar um pacote de incentivos para o setor, de modo a aumentar as vendas de veículos: redução de impostos, aumento dos prazos de financiamento, etc. Cada carro popular produzido e vendido no Brasil movimenta o dobro do seu preço final em outros produtos e serviços. O setor gera mais de um milhão de empregos diretos e indiretos, num universo total de 24 milhões de trabalhadores economicamente ativos (conforme o site O Barômetro - http://obarometro.wordpress.com/2014/05/07/por-que-tanta-importancia-ao-setor-automotivo/). É compreensível então que a cada nova queda das vendas, o governo seja colocado sob pressão pelas montadoras e pelos sindicatos. Mas o novo pacote de incentivos aumenta o número de automóveis nas cidades – principalmente na região metropolitana de São Paulo, já que 30% da produção nacional de veículos são vendidos nesta região.
No entanto, como contrapartida aos incentivos dados ao setor, o governo deveria estabelecer metas mais ambiciosas de redução dos impactos ambientais provocados pelos veículos, já que o problema da poluição está se tornando cada vez mais grave. Segundo o jornal Folha de São Paulo a poluição veicular está causando perdas estimadas em 3,5 trilhões de dólares (7,7 trilhões de reais) nos países desenvolvidos, na Índia e na China. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o número de mortes provocadas pela poluição veicular foi de 3,5 milhões em 2012, valor 10% superior ao de 2010. A grande contradição, no entanto, é que vem aumentando a produção mundial de veículos, fazendo com a frota atualmente em circulação seja de cerca de 930 milhões de automóveis, utilitários e caminhões. 
A ONG ICTT (International Council on Clean Transportation – Conselho Internacional de Transporte Limpo) atua em cooperação com órgãos do governo brasileiro e realizou um estudo sobre mortes provocadas por poluição veicular no país. No estudo o Brasil aparece como responsável por 3,5 % das mortes mundiais.  Ao mesmo tempo o país consta como um dos líderes na implantação de medidas visando reduzir a poluição, com a adoção de combustíveis mais limpos, que alcançam o equivalente ao nível 5 europeu. Nesse ínterim a Europa, os EUA e o Canadá já se utilizam de combustível de nível 6, mas o restante dos países ainda adota o nível 4 ou grau inferior.  
Além de avançar na qualidade do combustível – gasolina e diesel – o país precisa cobrar das montadoras um melhor rendimento dos motores dos veículos, diminuindo as emissões. A China, por exemplo, está gradualmente baixando sua forte poluição atmosférica através da substituição compulsória dos carros antigos por modelos novos. No passado, a idéia também já foi proposta no Brasil, mas talvez não fosse ideal. A solução definitiva é o uso cada vez maior do transporte público, em substituição ao individual. Este caminho exige muitos investimentos, mas foi trilhado por todos os países que conseguiram efetivamente reduzir as emissões provocadas por veículos.
(Imagens: fotografias de Bert Hardy)

A questão do meio ambiente e as eleições

sábado, 14 de junho de 2014
"No fundo, toda vontade de ter uma teoria totalmente coerente realiza-se na perda de seu contato com o real, na sua esclerose e no seu endurecimento. A racionalização torna-se, então, um mal terrível, isso porque o espírito racionalizador se crê racional e acredita que os outros sejam delirantes."  -  Boris Cyrulnik e Edgar Morin - Diálogo sobre a natureza humana

Com o clima de histeria em torno da Copa, criado pela propaganda do governo e pelos anúncios dos patrocinadores, pouca coisa indica que estamos praticamente às vésperas das eleições. Não fosse o futebol, o debate político estaria bem mais presente na mídia, já que é esse o acontecimento – e não o torneio de ludopédio – que mais influirá no futuro do país. O governo provavelmente nem deseja debater a situação social e econômica com profundidade, dados os altos índices de inflação, a baixa taxa de crescimento, além de todos os problemas de infraestrutura que – com raras e pequenas exceções – permanecem sem solução.
A partir de julho então, com ou sem título mundial – fato que terá grande influência na disposição do eleitor –, começará efetivamente a campanha dos candidatos em suas diversas formas. Propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV; carreatas, comícios, cartazes e panfletagem; debates na mídia e ações nas redes sociais; tudo será usado para ganhar nossos votos. O que distingue todo este show pirotécnico político, da massiva propaganda de lavagem cerebral que cerca a realização da Copa? A diferença entre ambas talvez seja somente o produto. Se, por um lado, querem vender-nos a Copa e seus patrocinadores, por outro pretendem nos certificar da qualidade dos candidatos. Em tudo isso, fica de fora o debate sobre os temas essenciais; aqueles que têm relevância para o futuro do país.
Um dos assuntos de importância, sempre tratados superficialmente, é o do meio ambiente. No entanto, segundo pesquisas recentes, já é considerável o percentual da população urbana que conhece melhor os problemas e a importância da questão ambiental. Graças à ação da mídia e de ONGs ligadas ao setor, o nível de conscientização vem gradualmente aumentando. Se no passado a ecologia dizia respeito somente à destruição da floresta amazônica ou à matança de baleias, atualmente já é grande o numero de pessoas que associam a proteção do meio ambiente também ao saneamento básico, à coleta e destinação do lixo, ao ar poluído das cidades, ao planejamento urbano e ao transporte.
Esta nova situação deverá ou deveria causar algum tipo de impacto nos programas dos partidos e no discurso dos candidatos. Tirar a questão ambiental lá das páginas finais do programa dos partidos – muitas vezes colocada aí por falta de mais assunto – e trazê-la para as páginas iniciais, associada aos programas econômicos e sociais. Da mesma forma os candidatos, em suas aparições públicas, deveriam ter a capacidade de saber explicar a forma como, por exemplo, os programas em relação à infraestrutura, transportes ou saúde têm a ver com o saneamento e a preservação dos recursos hídricos, e vice versa.
Talvez ainda seja demais esperar tal nível de sofisticação do discurso político. No entanto, partidos e candidatos devem levar em conta que a cada nova eleição parcelas maiores do eleitorado têm melhor formação, dispõem de mais informações e têm senso crítico mais apurado. Pelo menos no que se refere ao saneamento e à gestão de resíduos, o grau de expectativa do eleitor está alto – espera esta criada muitas vezes pela própria propaganda do governo. Por isso o discurso “... pela saúde, educação e trabalho, conto com seu voto!” está cada vez mais desacreditado. O eleitor não pode mais ser tratado como uma criança, que se convence com histórias da carochinha.
(Imagens: fotografias de Vivian Maier)

Desenvolvimento do pentecostalismo no Brasil

sábado, 7 de junho de 2014
"Foi dada a eles a escolha de se tornarem reis ou mensageiros de reis. Com a ingenuidade das crianças, todos escolheram ser mensageiros. Eis por que só existem mensageiros, que correm pelo mundo e, como não há mais reis, gritam uns para os outros mensagens que não têm mais sentido."  -  Franz Kafka  -  28 Desaforismos

Em um de seus textos, o antropólogo Otávio Velho (1924) aborda o processo da globalização e seu impacto no estudo da antropologia. Aspecto importante discutido no texto é a questão do pentecostalismo aliado à globalização. Velho coloca o crescimento das religiões pentecostais como um dos aspectos da cultura atual, junto com a globalização da economia, da cultura de massa e das comunicações.
A primeira igreja pentecostal estabelecida no Brasil foi a Congregação Cristã do Brasil, fundada em São Paulo em 1910. Em 1911 estabeleceu-se a Assembléia de Deus, começando sua atividade missionária nas regiões Norte e Nordeste. A Igreja do Evangelho Quadrangular começou suas pregações em 1951. Todas estas igrejas tiveram sua origem nos Estados Unidos, sendo que outras, como a igreja “O Brasil para Cristo” e “Deus é Amor” representam dissidências brasileiras destas igrejas antes mencionadas.
O grande crescimento dos movimentos pentecostais no Brasil está associado a alguns fatores econômicos e sócio-culturais, dentre os quais os principais são:
- A migração interna, provocada pela procura de melhores condições de vida por populações do Nordeste. Com o desenvolvimento da indústria e o crescimento das cidades no Sudeste, principalmente em São Paulo a partir da década de 1950, são criados muitos postos de trabalho na indústria e na construção civil. A população de migrantes, vinda de uma cultura agrária, ficou desenraizada de suas origens culturais. O contato com a igreja católica torna-se mais raro, já que nas grandes cidades a presença da igreja não era mais hegemônica. Todavia, os pastores pentecostais tinham grande mobilidade, estabelecendo centros de culto na periferia, região usualmente de população de origem migrante. Nestes centros de culto pentecostal os recém-chegados encontram um ambiente de convivência, uma comunidade, muitas vezes formada por outros migrantes.

- O desenvolvimento dos meios de comunicação também contribuiu para a difusão do pentecostalismo. A partir da década de 1940 o rádio torna-se mais acessível aos consumidores e muitas igrejas utilizam-se do veículo para transmitir suas mensagens. O mesmo acontece com a TV a partir da década de 1970 e 1980, quando o equipamento se torna um sonho de consumo para o grande público e as igrejas passam a comprar horários para transmitir suas mensagens em diversos canais.
- O apelo à manifestação espontânea na igreja pentecostal é maior do que na igreja católica tradicional. A participação dos fiéis, através de cantos, orações, testemunhos, “manifestações do Espírito Santo” e sermões, é diferente do culto católico onde a missa está centrada no oficiante e os fiéis tinham pouca participação.
- A posição política conservadora das igrejas pentecostais sempre foi vista com bons olhos pelos regimes militares. Durante o final da guerra fria, no governo Reagan, os Estados Unidos destinaram apoio financeiro a diversas igrejas pentecostais na América Latina. Este apoio tinha como base o fato de que os pentecostais eram nitidamente anticomunistas e pró capitalistas. A ala progressista da igreja católica, por outro lado, era crítica à política externa dos EUA, à ditadura militar e ao “capitalismo de rapina” instituído no país.
O movimento pentecostal também pode ser avaliado como um dos aspectos culturais da globalização – se admitirmos que a globalização seja um processo de longa duração histórica. Iniciou-se no século XIX, quando o capitalismo se desenvolvia rapidamente nos EUA causando várias mudanças na sociedade americana. Dos cultos tradicionais, como o presbiteriano e o batista, desenvolvem-se correntes dissidentes, formando outras igrejas. Na mesma época aparece o movimento adventista e o Testemunhas de Jeová. Toda esta efervescência religiosa ultrapassa as fronteiras americanas e atinge também os países da América Central e do Sul, entre os quais o Brasil.
Certos autores imputam o crescimento do pentecostalismo no Brasil também à maneira de atuar da igreja católica, pelo menos até os anos 1960. O teólogo protestante americano Richard Niebuhr (1894-1952), comenta aspectos dessa atuação da seguinte maneira: “A grande traição da Igreja (católica) como instituição consiste em que ao invés de constituir-se portadora e testemunha do Evangelho, ela se apresentou como “defensora” do Evangelho. Isto na prática se refletiu num esforço de domesticar o Evangelho, a serviço de determinada cultura e dos seus interesses arraigados.
Como resultado, ao invés de seguir o caminho da fé, a igreja se colocou na defesa de privilégios, que lhe garantiram a segurança na santificação do status quo, e a religião resultante dessa traição tornou-se a principal sustentação da ideologia das classes dominantes, da luta pela santificação dos objetos.” (Niebuhr, 1967, pág. 17). Terão sido estes alguns dos fatores – mais teológicos e culturais – que fizeram com que tantos abandonassem o catolicismo e abraçassem o pentecostalismo?
Bibliografia:
De Lima, Delcio Monteiro, Os demônios descem do norte, Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1988, 154 págs.
Niebuhr, Richard, Cristo e Cultura, Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1967, 294 págs.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

A importância científica e ambiental das cavernas

sábado, 31 de maio de 2014
"Quem somos nós? Um programa "Eu" que roda entre as conexões de nossos neurônios e nos dá a ilusão de existirmos. Entre outras ilusões: a de controle (tal coisa não existe, nem para atravessar a rua: espere o sinal, olhe para os dois lados e você estará aumentando suas chances de chegar vivo ao outro lado) [...]"  -  Francisco Daudt  -  A natureza humana existe e como manda na gente

As cavernas são um grande patrimônio natural e por vezes abrigam restos de animais extintos e de antigas ocupações humanas. A França e a Espanha têm dezenas de cavernas famosas por conterem pinturas rupestres realizadas por humanos pré-históricos. Representações de animais encontradas na caverna de Chauvet, no sul da França, datam de 30 mil anos. No Brasil, em Lagoa Santa, Minas Gerais, foram encontradas as mais antigas pinturas rupestres até agora identificadas no país, com cerca de 10 mil anos. Nas cavernas desta região os paleontólogos também encontraram esqueletos de animais extintos pertencentes à megafauna do Holoceno. Neste período o Brasil era povoado por animais de grande porte, como a preguiça gigante; o Mastodonte, espécie de elefante; e o Gliptodonte, um tatu gigante.
Sob o aspecto ecológico as cavernas também têm grande importância, por abrigarem uma fauna exclusiva, que só sobrevive neste ambiente. O local é o habitat de espécies de peixes, crustáceos e insetos que se adaptaram à escuridão e perderam a capacidade de enxergar, desenvolvendo outros sentidos. A cada ano, expedições descobrem novas espécies dentro deste complexo ecossistema formado pelas cavernas.
Segundo reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo, existem no Brasil aproximadamente 10 mil cavernas conhecidas. O número não é exato porque, segundo o jornal, dados publicados pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (Cecav) – órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente e responsável pela catalogação das cavernas descobertas – também não são corretos. Em 2012, o governo federal havia anunciado que o país ultrapassara o número de 10 mil cavernas descobertas; exatamente 10.134 grutas. No entanto o Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas (Canie), publicação do Cecav lançada em setembro de 2013, dá conta de apenas 9.532 formações – 600 grutas simplesmente “desapareceram”. Segundo o coordenador da entidade, Jocy Cruz, estas cavernas não desapareceram; constam de outra base de dados do órgão e ainda passam por um processo de verificação e certificação. Mas além da falta de várias cavernas já conhecidas, os dados do cadastro apresentam erros de localização e omissão da fonte de informações.
Falta de recursos e mão de obra impede que o trabalho realizado pelo Cecav ocorra de maneira mais rápida e precisa. Nesta situação, no entanto, o país corre o risco de ver parte de seu patrimônio ser destruído, antes que venha a ser oficialmente conhecido. Elena Trajano, professora da USP com mais de 35 anos de experiência em espeleologia, comenta que falhas no cadastro podem trazer problemas. “Se uma caverna não existe oficialmente, como cobrar sua proteção? Como provar que alguém a destruiu?”
Grandes empreendimentos como construção de barragens, rodovias, ferrovias e projetos de mineração, podem ter suas obras atrasadas ou canceladas caso na área do empreendimento seja encontrada uma caverna. Por isso pode ocorrer que cavernas sejam destruídas, ficando definitivamente inacessíveis aos cientistas e ao público. Se os órgãos de controle responsáveis pela identificação e validação deste tipo de formação geológica fossem mais bem preparados para desempenhar suas tarefas – de uma maneira mais precisa e rápida –, talvez o país tivesse um número maior de cavernas catalogadas e abertas à pesquisa e visitação.
(Imagens: fotografias de Grete Stern)

Uso de antibióticos em animais de abate

sábado, 24 de maio de 2014
"O senhor irá tremer diante da morte." 
"Sim, mas eu não terei falhado em nada do que faz a minha missão, que é a de viver."
Albert Camus  -  Cadernos (1937-39)  -  A desmedida na medida

O uso de antibióticos na criação de animais de abate - suínos, aves, bovinos - é prática bastante comum em todo o mundo, principalmente em países produtores de carne, como os Estados Unidos e Brasil. O uso do antibiótico como promotor do crescimento foi descoberto nos Estados Unidos, no final da década de 1940. Em 1951 o FDA (Food and Drug Administration), órgão controlador de alimentos e medicamentos do governo americano, aprova seu uso para acelerar e aumentar a absorção de vitaminas contidas nos alimentos, fazendo com que os animais adquiram mais peso em menor tempo. Além disso, o uso destas substâncias melhora a saúde e a resistência dos animais, diminuindo sua mortalidade.
Segundo fontes pesquisadas, existem no Brasil normas bastante restritivas quanto ao uso de antibióticos como complemento alimentar em animais monogástricos (não ruminantes), principalmente suínos e aves. Estas diretrizes foram aprovadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e se referem ao uso de antibióticos destinados a melhorar a digestão de alimentos, sem afetar as bactérias benéficas que se encontram no trato digestivo dos animais. Normativas do MAPRA também proíbem o uso de antibióticos de uso humano em animais monogástricos. Outra fonte pesquisada (Revista UFG - Dossiê pecuária - Dezembro de 2012), reporta que ainda não existem provas de que uma bactéria que adquiriu resistência ao antibiótico no intestino de um animal, tenha transmitido esta mesma resistência a uma bactéria localizada no intestino humano.
Fatos um pouco diferentes são apresentados em um artigo publicado pela Bloomberg em março de 2013, sob o título "Uso excessivo de antibióticos pode levar a uma crise da saúde pública" (Antibiotic overuse could lead to public health crisis). Diz o texto que aproximadamente 80% de todos os antibióticos em uso no EUA são regularmente administrados aos animais, segundo relatório do FDA. Em 2011, segundo o documento, foram vendidos aproximadamente 66 toneladas de antibióticos ao setor de criação de animais; quase seis vezes o que foi destinado ao consumo humano. Segundo a deputada americana Louise Slaughter, do partido democrata de Nova York, "Estamos à beira de uma catástrofe de saúde pública. A ameaça de doenças resistentes aos antibióticos é real, está crescendo e aqueles mais em risco são os idosos e as crianças."
O relatório anual do FDA, o Sistema Nacional de Monitoramento da Resistência Antimicrobiana (NARMS), revela que 78% das salmonelas (gênero de bactéria causador de infecções graves) encontradas no peru, já desenvolveram resistência contra pelo menos um tipo de antibiótico, assim como 75% das salmonelas encontradas no frango. O problema é que para combater a salmonela não existem centenas de tipos de antibióticos; seu numero é bem limitado. "Por isso, na hora do tratamento, a escolha precisará ser feita com todo o cuidado", diz Gail Hansen, especialista do governo americano no assunto.
Portanto, o grande problema no uso intensivo de antibióticos em animais de abate, não é o fato de que uma bactéria, localizada no organismo humano, adquira resistência contra a substância. O perigo é que o ser humano, ao ingerir uma bactéria prejudicial, esta já tenha desenvolvido resistência contra os antibióticos, dificultando assim seu combate.
(Imagens: fotografias de Maurice Tabard)

Governo reduz investimentos em parques nacionais

sábado, 17 de maio de 2014
"O tempo de viver. O tempo de viver é o de ver os gozos sucederem-se aos sofrimentos, e vice-versa. O absurdo de tristezas e de alegrias sucessivas. Toda uma lógica aparentemente ilógica, provocando o questionamento sobre o sentido da vida. Impossível instalar-se na felicidade sem vê-la desaparecer em seguida."  -  Henri Pena-Ruiz  -  Grandes lendas do pensamento

Devido a sua extensão territorial o Brasil é um dos países mais indicados para a prática do turismo ecológico. Basta citar a variedade de biomas que ocupam as diversas regiões do País, para se ter uma idéia do grande potencial: a floresta Amazônica com seus rios e vastas extensões florestais; a variedade de relevos e tipos de vegetação do Cerrado; a Caatinga com sua antiquíssima ocupação humana; a Mata Atlântica e seu grande número de espécies vegetais; e os extensos horizontes dos campos sulinos, só para citar os principais. Para proteger esta variedade de ambientes, o País dispõe de 69 parques nacionais, definidos por lei como áreas de conservação de paisagens naturais, proteção da flora e da fauna, pesquisa científica, visitação e educação ambiental. Um patrimônio tão invejável, que de acordo com o Fórum Econômico Mundial, que fez uma pesquisa sobre o potencial turístico de 140 países, o Brasil é um dos líderes no que se refere ao turismo ecológico. Uma atração adicional para os milhões de turistas que visitarão o Brasil durante a Copa Mundial de futebol, em 2014, e as Olimpíadas que ocorrerão em 2016.
No entanto, também nesta área a falta de planejamento acabou tolhendo a possibilidade de o País mostrar as suas riquezas naturais a um grande número de visitantes estrangeiros, e com isso angariar recursos para a manutenção destes parques. A realidade é que destes 69 parques existentes somente 26 estão abertos à visitação e destes apenas 18 dispõem de infraestrutura relativamente satisfatória para receber turistas. Outro aspecto negativo é que segundo o relatório do Fórum Econômico Mundial, o País ocupa as piores posições entre outras 140 nações, no que se refere ao transporte, preços de produtos e serviços, taxas, burocracias e impostos, o que acaba afastando os turistas.
Em 2010 o plano do governo em relação aos parques era investir R$ 200 milhões na reforma de 26 destas unidades nacionais, estaduais e municipais, a fim de receber grande número de turistas que estarão aqui durante a Copa. No entanto, a usual falta de recursos fará com que apenas cerca de R$ 40 milhões sejam investidos em 16 áreas de proteção, que funcionarão como vitrine de nossa rica biodiversidade em locais próximos às cidades onde serão realizados os jogos.   
Os parques brasileiros receberam em 2008 cerca de 5,3 milhões de visitantes, que renderam menos de R$ 27 milhões em ingressos. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), caso houvesse planejamento efetivo e investimentos, estas mesmas unidades de conservação poderiam receber em 2016 em torno de 13 milhões de visitantes e gerar mais de R$ 1,5 bilhão em receitas. Comparativamente, os parques nacionais nos Estados Unidos receberam 275 milhões de visitantes em 2008, gerando US$ 11 bilhões (cerca de R$ 25 bilhões) em receita nas suas áreas de influência. Na África do Sul, os cinco principais parques recebem anualmente mais de 4,3 milhões de visitantes.
O Brasil tem um imenso potencial de turismo ecológico ainda não aproveitado. Problemas burocráticos, fundiários e de infraestrutura ainda atrapalham a exploração turística de parte destas áreas. Incrementar a visitação aos parques aumenta a conscientização ambiental dos visitantes e contribui para melhorar as condições econômicas e sociais das áreas do entorno, além de preservar os ecossistemas.
(Imagens: fotografias de Léonard Misonne)

Saudades da natureza

sábado, 10 de maio de 2014
"As pessoas não sabem fazer uso do tempo livre; não foram treinadas para isso. A gente vive na cultura do trabalho. E a vida torna-se terrível na cultura do trabalho quando não se tem emprego."[...] "É como se o indivíduo devesse sempre estar produtivo, como se fosse uma falta grave ficar sem fazer nada. A reflexão e a leitura, por exemplo, são atividades lentas para o ritmo da vida hoje, então, não são bem-vistas."  -  Flávio Gikovate e Renato Janine Ribeiro  -  Nossa sorte, nosso norte - Para onde vamos?

Quase todo o tempo de sua existência como espécie o homem viveu em meio à natureza. Nossos primeiros antepassados, da espécie homo habilis, surgiram há aproximadamente 2,5 milhões de anos na África e habitavam um ambiente de savana. Nesta vegetação, parecida com o Cerrado brasileiro, se desenvolveram os primeiros grupos de hominídeos, que mais tarde se espalharam por grande parte do continente africano. Depois, ao longo de sua evolução, nossos ancestrais saíram da África e se espalharam pela Ásia e Europa, chegando a alcançar a Austrália e as Américas. Ao mesmo tempo em que se adaptavam aos novos ambientes – os desertos, as florestas tropicais, terrenos montanhosos, savanas e florestas temperadas – os hominídeos também sofreram mutações, até o surgimento de indivíduos completamente humanos, há cerca de 160 mil anos.
O meio ambiente natural era o único conhecido pelo homem. Até há cerca de oito mil anos nossos antepassados não praticavam a agricultura nem a criação de animais – talvez a única exceção seja o cão, domesticado há mais de 20 mil anos. As fontes de alimentação eram a caça, pesca e a coleta de vegetais. Os poucos grupos humanos então existentes vagavam pela Terra, sempre à procura de alimentos, muitas vezes habitando extensas florestas durante várias gerações. Os grandes bosques temperados ou tropicais eram ambiente com grande oferta de alimentos, abrigo e madeira para fazer fogo.
Quando nossos antepassados inventaram a agricultura deixaram aos poucos de depender da floresta. Esta agora era derrubada; os pântanos aterrados e drenados, dando lugar a extensas culturas de trigo, aveia, milho, arroz, batata doce, dependendo das plantas disponíveis na região onde se estabeleceram os grupos humanos. Surgiram os celeiros coletivos para guardar a colheita, os locais de oferenda aos deuses e aos poucos apareciam as primeiras aldeias e os diversos tipos de artesãos. Logo as sociedades se tornariam mais complexas e se organizariam em estados. Assim estava definitivamente estabelecida a fronteira entre a cultura humana, representada pela aldeia, e a e a natureza, formada pela floresta e a estepe. A oposição entre o ambiente criado pelo homem e aquele do qual era originário.
Para não depender somente da natureza, nossa espécie inventou a agricultura, a religião, as cidades, as leis, o estado e a tecnologia, desde aproximadamente oito mil anos passados. Estas inovações podem ter surgido em épocas diferentes no Egito, na China, no México ou na Europa, mas suas mais remotas origens não ultrapassam esta data. Simplificando, podemos dizer que apenas durante 5% (oito mil anos) do tempo de sua existência (160 mil anos) o homem vive apartado do ambiente natural de onde surgiu.

Mesmo assim, no fundo do nosso inconsciente coletivo, ainda sentimos saudades do ambiente florestal: as árvores, a luz do sol penetrando por entre as folhas, o vento soprando por entre os ramos, o ar úmido, o som das aves e muitas outras sensações, dependendo da psicologia de cada pessoa e da região originária de seus antepassados (moravam em região de floresta?). Esta talvez seja a razão por que cientistas americanos da universidade de Winsconsin descobriram recentemente que áreas verdes ajudam a evitar estresse, depressão e ansiedade e pessoas vivendo em regiões de floresta são mais felizes do que as que moram em cidades cinzentas.
(Imagens: fotografias de Enrico Natali)

Dengue e meio ambiente urbano

sábado, 3 de maio de 2014
"O filosofar de Kierkegaard tem um caráter introdutório, provisório, preparatório, porque Kierkegaard nega a todo texto filosófico, inclusive aos seus próprios, o direito de poder se passar por portador da verdade."  -  Boris Groys  -  Introdução à antifilosofia

Em meados de março de 2014 o Ministério da Saúde divulgou dados, informando queda de 80% nos casos de dengue no primeiro bimestre do ano em comparação com 2013, ano que em foram notificados dois milhões de casos – o maior número até agora. A boa notícia, no entanto, teve curta duração já que em início de abril foi detectado um aumento de 55% nos casos da doença na cidade de São Paulo.
Não se tem certeza da origem da doença, mas há suspeita de que esta se espalhou pelo mundo a partir da África, já que o mosquito transmissor da dengue Aedes aegypti é originário deste continente. Existem casos de epidemias com características semelhantes à dengue, ocorridas na China do século V; e no Egito, Índia, Indonésia e Estados Unidos, todas no final do século XVIII. Descrições fidedignas da doença aparecem em meados dos anos 1950, no Sudeste Asiático, no Pacífico Sul, na América Latina, nas Caraíbas e na África. Atualmente, com a rápida circulação de pessoas e produtos in natura (frutas, legumes e verduras) a transmissão da doença é cada vez mais rápida e extensa, bastando que existam condições propícias para a procriação do inseto.
No Brasil a doença já existe provavelmente deste o período colonial, quando navios traficantes de escravos, vindos da África, trouxeram o mosquito. Depois disso, ao longo dos séculos XVIII, XIX e início do XX, surtos de dengue ocorreram em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. O médico sanitarista Oswaldo Cruz deu início a um programa de combate ao mosquito no início do século XX, no Rio de Janeiro, e nos anos 1950 o governo federal anunciou a erradicação do mal no Brasil. No entanto, a partir dos anos 1980 a doença volta a se espalhar, principalmente no Rio de Janeiro e no Nordeste. Atualmente, com o gradual aumento da temperatura média provocada pelas mudanças climáticas, a área de abrangência da dengue vem aumentando, atingindo até os estados da região Sul.  
Segundo os infectologistas, existem quatro sorotipos do vírus da dengue no País. Cada um deles pode sucessivamente infectar a mesma vítima – fato que faz com que aumente gradualmente o índice de óbitos provocados pelo mal. Pesquisadores brasileiros fizeram um estudo sobre a doença entre 2000 e 2010, com o objetivo de compreender seu desenvolvimento. O estudo mostrou, por exemplo, que entre 2000 e 2010 mais de 8,5 milhões de pessoas foram infectadas. Destes casos, 221 mil se tornaram graves, resultando em três mil mortes. Neste período o Brasil foi o país com maior numero de casos da doença em todo o continente americano.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) há anos insiste na estreita relação entre a proliferação da dengue e a situação sanitária do país. Esgotos não tratados a céu aberto, acúmulo de lixo em ruas e lixões, criam o ambiente propício para a reprodução do mosquito Aedes aegypti. Com relação a estes dois aspectos, é chover no molhado falar mais uma vez das sofríveis condições do saneamento – tratamento de água e de esgotos – e da gestão dos resíduos urbanos no País. Outro fator que contribui para a proliferação do mosquito é o desrespeito às normas técnicas de construção em imóveis, fato comum na maior parte das grandes cidades. Lajes, “puxadinhos”, construções inacabadas e mal executadas, também se tornam criadouros do inseto, espalhando a doença. A dengue tem origens principalmente nas péssimas condições ambientais urbanas.
(Imagens: fotografias de Ikko Narahara)