As consequências da escassez de água

sábado, 28 de março de 2015
"Por causa disso, o animal possui todos os afetos do ser humano: alegria, tristeza, temor, ira, amor ódio, desejo, inveja, etc.; a grande diferença entre o ser humano e o animal repousa somente sobre o grau de completude do intelecto."  Arthur Schopenhauer  -  Sobre a vontade na natureza


A seca que afeta grande parte do Brasil continua fazendo estragos. A economia das regiões Sudeste e Nordeste será prejudicada pelo terceiro ano consecutivo. Especialistas prevêem que a recuperação hídrica, ambiental e econômica será cada vez mais lenta, e dependerá do aumento da frequência e do volume das chuvas.
Recentemente, um site de notícias previu que a falta d’água em São Paulo poderia provocar o esvaziamento da cidade. Empresas com dificuldades de operar por falta do líquido, se estabeleceriam em outras regiões. A falta de empregos e condições razoáveis de sobrevivência faria com que as empresas fossem seguidas por parte dos habitantes.
Nada tão impossível. O noticiário da TV mostra em que condições o pequeno comércio é obrigado a operar, enfrentando a constante falta de água e, mais recentemente, queda de energia elétrica por longos períodos. Os governos do estado e do município evidentemente não querem discutir o fato, por considerá-lo improvável. Mas, já é cada vez mais comum que famílias inteiras, tendo condições, se desloquem para as cidades do litoral, a fim de viver alguns dias sem falta d’água (e poderem lavar a roupa que trouxeram).
Em recente reportagem sobre os rios no interior do estado, o jornal O Estado de São Paulo mostrou que seu volume está cada vez mais baixo. Cursos d’água caudalosos, como os rios Atibaia e Jaguarí, estão com apenas uma parte de seu volume. O Atibaia, que nesta época de chuvas chega a ter mais de 4 metros de profundidade, estava com apenas 4,2 centímetros na região entre Campinas e Pedreira, em meados de janeiro de 2015.
Outro aspecto é que parte da água dos rios é usada para abastecimento doméstico das cidades da região e também recebe o lançamento de esgotos. Quando os rios estão cheios, o esgoto é em parte diluído. Mas, quando o volume das águas cai para somente 10% do original, a concentração de efluentes aumenta e encarece o processo de tratamento. A situação começa a ficar preocupante, quando a imprensa traz notícias sobre uma tecnologia – financiada por Bill Gates – que extrai água de fezes.
A situação da falta de água mostra o quanto somos dependentes das condições climáticas e ambientais. A população e as atividades econômicas cresceram de tal maneira, que precisam cada vez mais dos recursos naturais – neste caso a água. Cai por terra o antigo lugar-comum, de que por aqui temos tudo em profusão: terras, águas, matas, recursos minerais... Fica claro agora de que o mito do “país que tem recursos inesgotáveis” não era verdadeiro. A sociedade brasileira e suas atividades econômicas cresceram de tal maneira, que aquilo que no passado eram “riquezas naturais sem fim” se transformou em recursos escassos.
A situação poderia estar ainda pior. A estagnação econômica por que passa o país tem feito com que a indústria produzisse menos e, com isso, consumisse menos água e eletricidade. Dados indicam que o uso de energia elétrica caiu 7,1% nos primeiros 13 dias de janeiro, em comparação com o mesmo período do ano passado. Economistas do Banco Safra reduziram a previsão de crescimento do PIB de 2015 de 0,3% para menos 0,5%, segundo articulista da Folha de São Paulo, Vinicius Torres Freire. Segundo o jornalista, “um dos motivos que baseiam a previsão de encolhimento da economia é o racionamento de água em São Paulo”.
(Imagens: fotografias de Roman Vishniac) 

Os mangues e sua importância

sábado, 21 de março de 2015
[...] "E eu acho que esse pó, que forma uma espécie de teia de aranha, atrás da fileira de livros, talvez seja não menos necessário para a história universal ou para a trama do que qualquer outro fato; que uma batalha por exemplo. Ou seja, tudo faz parte dessa trama cujo final ignoramos - nem sabemos sequer se tem um final."  -  Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari - Sobre a filosofia e outros diálogos

Os manguezais no Brasil estendem-se do Amapá até Santa Catarina, formando uma estreita faixa de largura variável, que acompanha a planície litorânea. Este tipo de ecossistema, resistente à alta salinidade da água e do solo, situa-se entre o mar e a floresta, sujeito às marés e às cheias dos rios. A área ocupada por este bioma é estimada em 20 mil km², mas não existem números exatos sobre sua extensão. A exploração e ocupação de extensas faixas de manguezais ao longo dos últimos cinco séculos - processo acelerado com a industrialização e a expansão urbana nos últimos 50 anos - fizeram com que os mangues fossem desaparecendo da paisagem em muitas regiões.
Na região Norte, onde existem os mais extensos manguezais devido ao grande aporte de resíduos trazidos pelos rios de planícies, encontram-se bosques com árvores cuja altura varia entre 15 a 20 metros. Em outras regiões do país, os manguezais têm vegetação mais baixa, situando-se em locais onde correm rios perenes e em áreas baixas, protegidas das ondas do mar. Nestas biomas forma-se um ambiente único, criadouro de diversas espécies de peixes, crustáceos e moluscos; além de aves, répteis e pequenos mamíferos. Devido à grande concentração de espécies animais que sobrevivem neste ecossistema, os manguezais foram comparados aos recifes de corais, que no oceano têm uma função ecológica parecida.
É interessante observar que parte das primeiras cidades fundadas no Brasil à época do descobrimento situava-se perto de regiões de mangue. Cananéia, Iguape, Itanhaém, São Vicente, Santos, Bertioga, Rio de Janeiro, entre outras, estavam (e em parte ainda estão) cercadas por mangues. Muitos eram ocupados por indígenas e por povos mais antigos ainda, como o "povo do sambaqui", que vivia nestas regiões desde há nove mil anos atrás.
A constante ocupação de uma região mostra que lá existe boa oferta de alimentos; papel que os manguezais ainda têm atualmente. Com a gradual colonização do Brasil, gerações de populações litorâneas - em São Paulo chamados de caiçaras - sempre dependeram do mangue para garantir ou completar sua alimentação. Além desta função, os manguezais também protegem a costa contra a força de erosão das marés, mais ainda em tempos de mudanças climáticas, quando o nível do oceano tenderá a se elevar. Outro serviços ambiental prestados pelos mangues é o de atuar como um filtro, purificando a água que o atravessa - o caso de rios poluídos parcialmente com esgotos e carregando restos de agrotóxicos ou resíduos industriais.  
Segundo o estudo "Manguezais da Baixada Santista, São Paulo - Brasil: uma bibliografia", de autoria das cientistas Ana Lucia Gomes dos Santos e Sueli Ângelo Furlan (http://www.uc.pt/fluc/cegot/VISLAGF/actas/tema3/ana_lucia), o estado de São Paulo tem uma área de 231 km² de manguezais, dos quais 28 km² encontram-se degradados ou alterados. A Baixada Santista e o Litoral Sul concentram a maior área de mangue, totalizando 228 Km².
Desta, a maior parte encontra-se parcialmente preservada, mas vem sofrendo forte pressão principalmente devido ao adensamento populacional e a consequente ocupação irregular de extensas áreas, notadamente nos municípios de Santos, Guarujá e São Vicente. No Litoral Sul do estado, em Iguape, Cananéia e Ilha Comprida, o mangue continua bem preservado, podendo cumprir sua função original, sem forte intervenção humana. 
(Imagens: pinturas de André Crespo)

Crise e planejamento

sábado, 14 de março de 2015
"A lua nasceu com olheiras. O silêncio dói dentro do mato. Encolhe-se a luz do dia. A sombra vai comendo devagarzinho os horizontes inchados. Os panoramas se afundam. A noite encalhou com um carregamento de estrelas."  -  Raul Bopp  -  Vida e morte da Antropofagia

A crise econômica por que passa o país é, em grande parte, resultado de falta de planejamento. Desde o período do regime militar que o Brasil não tem mais um encadeamento dos diversos setores de sua economia, sob a tutela de um plano abrangente. O que tem sido feito desde as administrações Sarney, Collor-Itamar, FHC, Lula até a atual, é criar projetos de grande alcance, sem que necessariamente haja uma articulação com outras áreas da gestão do Estado. Temos então os diversos Planos Econômicos, o Plano Real, os Programas de Privatizações, o PAC, Minha Casa Minha Vida, Luz Para Todos, Bolsa Família, entre outros, que são geridos por diferentes ministérios e que necessariamente não conversam entre si. Enxergam-se as árvores (cada ministério as suas próprias), mas não a floresta.
É assim que, por exemplo, ocorre um conflito entre o Ministério das Minas e Energia e o Ministério do Meio Ambiente, quando do licenciamento ambiental dos projetos de barragens hidrelétricas na região amazônica. O impacto da construção dos reservatórios tem aspectos ambientais, sociais, econômicos e jurídicos, que envolvem o interesse de ONGs, populações afetadas pela atividade, construtoras; além de grupos econômicos, autoridades locais e o Poder Judiciário. A dificuldade em estabelecer um planejamento energético de longo prazo, incluindo o detalhamento de projetos de grande porte, tem provocado o atraso em diversas obras e contribuído para a crise por que passa o setor.    
Conflitos deste tipo existem em diversas áreas. Outro exemplo é o do álcool combustível. Festejado durante o governo Lula como sendo a grande alternativa em substituição à gasolina, fez com que quase todos os veículos automotivos brasileiros passassem a ser fabricados na versão bicombustível. Por outro lado, temendo a volta da inflação – que apesar disso acabou retornando – o governo não aumentou o preço da gasolina, ao qual estava atrelado o preço do álcool. Com o aumento dos custos de produção do etanol os usineiros viram sua margem de lucro cair, até entrar no vermelho. O resultado foi a falência de grande parte das usinas de álcool e açúcar e a instalação de uma grave crise na indústria fornecedora de equipamentos e máquinas.
Mais um mau exemplo é o do encaminhamento de uma política nacional de gestão de resíduos, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). O projeto de lei ficou em discussão no Congresso durante quase 20 anos (desde 1991). No final do segundo mandato do governo Lula o projeto foi rapidamente aprovado, sem que houvesse recurso suficiente para que os municípios pudessem implantar projetos de gestão dos resíduos públicos e construir aterros, em substituição aos lixões – tudo isso num prazo de quatro anos. Como ocorre em tais situações, os municípios não conseguiram manter o prazo, construindo aterros e implantando a coleta seletiva do lixo doméstico. O Congresso, sob pressão dos prefeitos, tentou postergar a vigência da lei para 2018. O executivo vetou a proposta do Legislativo, devolvendo o problema ao Congresso, que deverá iniciar discussões para estabelecer uma nova data em que a PNRS entre em vigência. 
A falta de planejamento não é só uma questão que afeta a administração pública. O setor privado, dependente de políticas públicas para planejar seus investimentos de produção e de P&D, fica com as mãos atadas. Com isso, a demanda interna por novas tecnologias muitas vezes é atendida por tecnologias importadas, já que uma alternativa nacional não pode ser desenvolvida a tempo de atender uma nova lei. Empresas que tentam desenvolver uma tecnologia para atender uma nova demanda no mercado muitas vezes vezes chegam muito cedo - a tecnologia está disponível, mas não existe lei forçando o seu uso - ou tarde - quando da noite para o dia ocorre a aprovação de uma lei, que demanda anos de preparação e adaptação por parte da sociedade. 
(Imagens: fotografias de Alberto Ferreira)

Avanço tecnológico e gestão de recursos

sábado, 7 de março de 2015
[...] Tudo está sempre por um fio, um
segundo entre cair e espatifar-se
um milésimo e eis o precipício

Talvez por isso o cidadão comum
procure sempre e tanto agarra-se 
na rotina, na fé, até no vício

Domingos Pellegrini  -  Gaiola Aberta  -  1964-2004


Todas as sociedades passadas, presentes e futuras, subsistiram e subsistirão através do uso de recursos naturais. A afirmação parece óbvia. No entanto, ao estudarmos os diferentes períodos históricos – e também os pré-históricos – aprendemos que os recursos naturais raramente foram usados com parcimônia pela humanidade. A luta pela sobrevivência de nossos antepassados, fez com que diversas espécies de mamíferos e aves fossem extintas na África, Europa, Austrália e América, entre 50 e 10 mil anos atrás. Na Antiguidade, gregos e romanos derrubaram imensas florestas de cedro na orla do Mediterrâneo, para construírem suas frotas navais de comércio e guerra. O aumento da população européia a partir do século X provocou a expansão da agricultura e com isso a derrubada de florestas, aterramento de pântanos e a canalização de rios.
A exploração dos recursos só não era maior, porque faltava tecnologia. O carvão mineral, por exemplo, parece ter sido usado como combustível nos séculos II e III em certas regiões da então província romana da Germânia. Depois, sua utilização foi esquecida, vindo a ser redescoberta no século XII, como substituto à lenha, que estava escasseando em certas regiões da Europa. Seu uso, porém, não se tornou disseminado, já que o carvão não era encontrável em todos os lugares e seus custos de transporte eram muito altos. Assim, foi somente no século XVIII, com o advento da industrialização na Europa, que o carvão mineral passou a ser explorado em quantidades cada vez maiores.
Pouco desenvolvimento tecnológico faz com que se utilize menor diversidade de recursos naturais ou que os já conhecidos sejam usados de forma limitada. A água, pelo menos até antes do início da Revolução Industrial, era utilizada para regar as plantações, dessedentar humanos e animais, carregar resíduos e – de forma ainda primitiva – gerar trabalho com o acionamento de máquinas. Fazendo uso de sistemas de roldanas e cabos, as cerrarias podiam acionar longas serras e as tecelagens movimentavam as pesadas máquinas de tecer. No início do século XVIII, o inglês James Watt aprimoraria a utilização do vapor d’água para aumentar a capacidade das máquinas e assim ampliaria as aplicações da água. Ainda no século XIX se inventaria uma máquina (turbina) que, aproveitando o movimento da água, geraria eletricidade. Ao mesmo tempo aumentava a utilização da água na nascente indústria química, na siderurgia e nas primeiras estações de tratamento de água e de esgotos, instaladas nas grandes cidades européias. As diversas aplicações da água à movimentação da economia aumentavam exponencialmente.
A partir dos anos 1950 do século XX toma importância cada vez maior a gestão dos recursos hídricos, associada à implantação de grandes obras de infraestrutura, expansão da revolução verde na agricultura e financiamento internacional de projetos hídricos em países pobres e em desenvolvimento. No Brasil, foi o período em que começaram a aparecer os projetos das estações de água e de efluentes, sem que chegassem a atender toda a demanda – pelo menos até hoje.    
A recente crise hídrica por que passam diferentes regiões do Brasil, reflete também a má gestão do precioso recurso. Atualmente, dispomos de conhecimentos técnicos e capital, que, se bem utilizados, poderiam ter diminuído o impacto da falta de água. Faltou vontade política e iniciativa aos diversos governos; sempre é mais simples e econômico adiar a solução de  problemas e transferi-los para o futuro. As gerações futuras acabam sempre pagando a conta.  
(Imagens: fotografias de Gaspar Gasparian)

Natureza e felicidade

sábado, 28 de fevereiro de 2015
"No fim das contas, tudo o que havíamos chamado de 'matéria', 'vida', assim como 'natureza', 'deus', 'história', 'homem', precipita-se na mesma queda. A 'morte de Deus' é exatamente a morte de todas as substâncias-sujeitos. Assim como a primeira, essas mortes são muito extensas, intermináveis para a nossa percepção e até mesmo para nossa imaginação. E, além disso, elas trazem em si potencialidades outrora insuspeitas sobre a morte prática e concreta dos seres vivos, dos homens - e, por que não? - do mundo."  -  Jean Luc Nancy  -  Arquivida -  Do senciente e do sentido

Hoje nossa cultura dá muito valor ao bem-estar, à alegria e, cada vez mais frequentemente, à felicidade (ou aquilo que as pessoas consideram como tal). Atendidas as necessidades básicas de alimentação e proteção para a maior parte da população – pelo menos nas nações desenvolvidas e em desenvolvimento, sob influência da cultura européia – a idéia da simples sobrevivência passa a dar lugar a viver bem; viver com qualidade. E isto, além de incluir uma barriga cheia e um teto sobre a cabeça, também abrange segurança quanto ao futuro e saúde para desfrutá-lo. A este estado comumente se chama de bem estar, com momentos de alegria e, mais raramente, felicidade.
Nossa sociedade afluente tem origem no desenvolvimento de um tipo específico de capitalismo baseado no consumo, que surgiu nos Estados Unidos no início do século XX. O país à época já era o mais fortemente industrializado e disponha de um grande numero de trabalhadores com recursos excedentes para o consumo. Assim, foram inventadas máquinas e engenhocas, que se tornaram imprescindíveis no dia a dia das pessoas e que devido ao seu relativo baixo custo, poderiam ser adquiridas por grande parte da população: geladeiras, fogões, torradeiras, máquinas de lavar, automóveis. Nos anos 1930, com a popularização do uso da eletricidade (também no Brasil), apareceram os toca-discos, rádios, barbeadores elétricos e vários outros itens de utilidades domésticas. Todos estes implementos são feitos para aumentar a sensação de conforto e bem-estar, e sua compra traz alegria para muitos – mesmo que as prestações sejam altas ou que a assistência técnica dos produtos ruim.
Por toda a história também houve pessoas que defendiam uma vida mais simples. Desde os antigos filósofos cínicos e estóicos da Grécia e de Roma, passando pelas ordens religiosas mendicantes da Idade Média, até chegar aos intelectuais e ativistas modernos. Figuras como o poeta inglês William Blake (1757-1827), o escritor e filósofo americano Henry David Thoureau (1817-1862) e o escritor alemão Hermann Hesse (1877-1962) transmitiam em suas obras uma oposição ao industrialismo e contra a ilusória busca da felicidade baseada na obtenção de bens de consumo. Influenciado por estes e outros pensadores críticos, nasceu nos Estados Unidos nos anos 1960 o movimento “hippie” (palavra derivada de “hip”, que em inglês indica pessoa bem informada), que em poucos anos se espalhou por todo o mundo. Os hippies defendiam uma vida simples, livre do excessivo consumismo da sociedade industrial e valorizavam a natureza, em seus diversos aspectos. Pensadores que influenciaram o ideário hippie foram filósofos como Alan Watts (1915-1973) e Herbert Marcuse (1898-1979), além da filosofia indiana, o pensamento anarquista e o movimento da contracultura. Muito daquilo que os ambientalistas passaram a defender no final dos anos 1960 e início de 1970 tinha suas origens no pensamento hippie. Alguns fundadores de importantes ONGs, como o Greenpeace, são oriundos de grupos da contracultura americana e inglesa.
Em um ponto todos estes movimentos e filosofias estão de acordo: a felicidade, ou pelo menos a alegria, estava muito mais em uma volta à natureza; uma vida mais simples. Não no consumo, que muitas vezes não chega nem a nos trazer conforto e bem estar, servindo apenas como passatempo dispendioso, para afugentar o tédio.  
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

A crise hídrica na região Sudeste

sábado, 21 de fevereiro de 2015
Alguma dúvida que Deus não é magricela com dores de úlcera e sim gordo bonachão que se delicia com moela, coração e sambiquira?"  -  Dalton Trevisan  -  A trombeta do anjo vingador

Macro fatores
A região Sudeste passa por uma seca muito forte; a maior nos últimos 80 anos pelo menos. As origens desta crise ainda não estão estabelecidas, mas alguns fatores chamam a atenção:
- Especialistas aprofundam uma teoria bastante aceita, de que grande parte da água que cai na forma de chuva sobre o Sudeste, Sul e Centro-Oeste origina-se na Amazônia – teoria conhecida popularmente como “rios voadores”, devido à grande quantidade de água nas nuvens. O processo é mais ou menos o seguinte: nuvens vindas do oceano Atlântico se precipitam sobre a floresta. Através do processo de evapotranspiração a água volta a evaporar e novamente se transforma em nuvens. A barreira da cordilheira dos Andes impede que estas nuvens formadas sobre a Amazônia continuem avançando, o que faz com que elas se desloquem para o Sul do continente, precipitando-se sobre São Paulo, Minas Gerais, etc. Uma das consequências que os especialistas tiram desta teoria científica é que quanto mais se desmata na Amazônia, menos nuvens e, consequentemente chuva, vão para o Sul. Apesar de ter diminuído nos últimos dez anos, o desmatamento na Amazônia ainda continua forte e cresceu novamente ao final do primeiro mandato de Dilma Rousseff.
- O fenômeno do “El Ninõ” (aquecimento sazonal das águas do oceano Pacífico, com influências sobre o clima global) também tem forte efeito sobre o volume das chuvas, principalmente do Norte e do Nordeste, e das temperaturas do Sudeste.
- O aquecimento global, causado pelas emissões de gases poluentes nas atividades econômicas – geração de energia, transporte, agricultura, indústria – também provoca mudanças no clima, como secas e chuvas intensas e extremos de temperatura. Além disso, o que é mais grave, o aquecimento global também está aumentando a temperatura média do grande sistema de controle do clima da Terra: os oceanos.


Fatores locais e políticos
A estes macro-fatores que têm influência no clima da Terra e nas regiões brasileiras, podemos ainda associar aspectos climáticos locais (diminuição de chuvas, aumento da temperatura), provocados pela atividade antrópica. Isto porque, ao longo dos últimos 100-150 anos, quando as atividades econômicas na região Sudeste começaram a aumentar através da agricultura e posterior industrialização, o impacto das atividades econômicas sobre o meio ambiente só aumentou. Destruíram as florestas (a Mata Atlântica), esgotaram-se os recursos hídricos; as cidades se expandiram.
Em todo este processo, os cuidados na conservação e recuperação dos estoques hídricos foram quase inexistentes – notadamente ao longo dos últimos vinte e cinco anos, quando o consumo de água aumentou exponencialmente. Pouco foi feito para recuperar a qualidade da água dos grandes reservatórios no entorno da região metropolitana (Guarapiranga, Billings) e quase nada foi investido para ampliar a zona de mata ciliar no entorno dos reservatórios do sistema Cantareira (Jaguarí, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro, entre os principais). Além disso, em muitas regiões do estado e da capital continuaram as invasões em áreas de mananciais, como acontece na região da Cantareira e na zona Sul de São Paulo.
Isto sem falar da falta de saneamento e da perda de água já tratada. Cerca de 60% dos efluentes domésticos de todo o país ainda são descarregados na natureza sem tratamento, poluindo os rios que abastecem as cidades. Quando chove pouco e o volume dos rios diminui, aumenta a concentração de esgotos na água, dificultando o tratamento para posterior distribuição à população. A perda de água provocada pelo mau estado das tubulações e por ligações clandestinas é de 35% em média; comparados aos 18% na Inglaterra e 8% na Alemanha e Japão.  
Para a crise hídrica há, portanto, causas climáticas e causas políticas. As primeiras são praticamente inevitáveis (pelo menos em curto prazo, quando se fala em redução de gases de efeito estufa), mas poderiam ter seu efeito diminuído. As causas políticas, porém, seriam evitadas ou diminuídas, se as administrações federal, estadual e municipal tivessem levado em conta o que cientistas, ONGs e outras instituições já estavam dizendo há tempos. Projetos de Lei relacionados à captação e reuso de água por residências, por exemplo, tramitam sem aprovação na Câmara dos Vereadores de São Paulo pelo menos desde 2003. Já em 1992 a SABESP havia encomendado um estudo de viabilidade para utilização das águas do rio Juquiá, afluente do Ribeira de Iguape. Desde lá, nada foi feito.
Do mesmo modo, também não se aprovaram leis que pudessem criar condições para que os recursos hídricos fossem mais bem utilizados. Por exemplo: incentivos para agricultores que produzem água através da conservação da floresta; para indústrias e plantações que utilizam menos água; para edifícios que coletam a água da chuva e reutilizam a água “cinza”; e muitos outros exemplos. 

Conclusão
A crise hídrica deverá estender-se por alguns anos, já que a recuperação do volume de água no lençol freático e nos reservatórios só ocorrerá com volumes constantes de chuva ao longo de anos. Nesse ínterim, o governo e a sociedade civil precisarão implantar rapidamente novas maneiras – mais eficientes – de utilizar os recursos hídricos. Este será o grande teste para o poder público e a sociedade: todos precisarão trabalhar juntos, de maneira coordenada, caso contrário o prejuízo ainda será maior para todos.
Por outro lado, existe também o questionamento que muitos cientistas estão se fazendo a respeito da mudança do clima, principalmente na região Sudeste do país. Será a atual falta de chuvas e o aumento médio das temperaturas uma tendência que se manterá no futuro? Estarão as condições climáticas se alterando de tal maneira, que nos próximos 50 a 150 anos a vida das populações da região Sudeste estará completamente alterada em seus aspectos econômicos e sociais? Haverá deslocamentos de atividades econômicas e de populações, para onde? O Estado saberá como acomodar estas mudanças?  
(Imagens: fotografias de John Gutmann)

Mais controle na atividade pesqueira

sábado, 14 de fevereiro de 2015
"[...] mas também a certeza de que nunca conseguiremos sobrepor ao universo as leis que supomos eternas e infalíveis. A nossa ciência não é nem mesmo uma aproximação; é uma representação do Universo peculiar a nós e que, talvez, não sirva para as formigas e os gafanhotos."  -  Lima Barreto  -  Crônicas escolhidas

Dois fatos relacionados ao meio ambiente marinho chamam a atenção no início do ano: os protestos contra a proibição da pesca de peixes em extinção e a descoberta de novas espécies marinhas no litoral de São Paulo. Por um lado, a pesca excessiva faz com que peixes como o cação-bico-doce, o mero, o badejo-tigre, o cação-anjo e a raia-viola estejam em desaparecimento. Por outro, cientistas descobrem novas espécies de briozoários (invertebrados que vivem incrustados em rochas e algas, conhecidos como “musgos do mar”) entre Ilha Bela e São Sebastião; região portuária e de grande atividade turística.
A descoberta demonstra que além das 1.500 espécies marinhas atualmente conhecidas na costa brasileira, ainda devem existir centenas de outras ainda por descobrir – mesmo em localidades com forte atividade econômica. No entanto, dado o ritmo de exploração das regiões costeiras – através da sobrepesca, aterramento de mangues, descarga de efluentes e descarte de lixo –, muitos animais até hoje desconhecidos podem desaparecer sem que tomemos conhecimento de sua existência. Este é um dos dilemas das ciências que estudam a vida: quantas espécies novas ainda poderão ser pesquisadas em seus ecossistemas, antes que este e seus moradores desapareçam?
Para tentar evitar a diminuição e posterior desaparecimento de espécies de peixe como a sardinha, o namorado a garoupa e crustáceos como o camarão-rosa, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) publicou em dezembro de 2014 a Portaria 445, que proíbe a pesca de diversos tipos de espécies marinhas. A medida gerou protestos em muitas partes do país, notadamente em Itajaí, em Santa Catarina, onde pescadores, sentindo-se prejudicados em suas atividades pela portaria, bloquearam a saída do porto de um transatlântico de turismo. Depois do incidente, o governo decidiu criar um grupo de trabalho, formado por membros do MMA e do Ministério da Aquicultura e da Pesca, que deverá fazer uma revisão na lista das espécies e no período estabelecido para o defeso (em que é proibido pescar a espécie).
No Brasil existem mais de um milhão de pessoas que dependem economicamente da atividade pesqueira, que a cada ano captura volumes maiores de pescado para abastecer o crescente mercado consumidor. O excesso de pesca, aliado à utilização de redes de trama fina que não deixam passar os indivíduos pequenos, fazem com os barcos atuem como verdadeiras dragas, carregando tudo que se encontra no fundo do mar.
Peixes pequenos ou espécies sem valor comercial são posteriormente descartados, quando estão mortos. Outro aspecto é que a pesca de fêmeas em período de reprodução (quando ocorre o defeso), reduz a possibilidade de procriação da espécie. Todos estes fatores, além dos já citados, poderão contribuir para a diminuição gradual do volume de pescado e eventual desaparecimento das espécies. Segundo o Instituto Chico Mendes (ICMBio) o Brasil tem oficialmente 19 espécies de peixes marinhos ameaçados de extinção. 
Somente através das atividades econômicas, utilizando os recursos naturais, é possível gerar riquezas. Todavia, a apropriação do recurso natural deve ser feita de tal maneira que possa ser realizada sempre, de uma maneira sustentável. Exaurir os recursos naturais fará com os utilizemos apenas por um curto período, à custa das gerações futuras e das espécies ainda desconhecidas.
(Imagens: fotografias de Friedrich Seidenstuecker)

Turismo predatório não muda

sábado, 7 de fevereiro de 2015
"Que lindo se figurássemos na assembléia mundial como povo capaz de uma ideia sua, uma arte sua, costumes e usanças que não recendam a figurinos importados."  -  Monteiro Lobato  -  Ideias de Jeca Tatu

Mais de 800 mil veículos desceram de São Paulo para o litoral neste final de 2014. Isto significa que aproximadamente 2,5 milhões de pessoas deixaram a capital, rumo às praias do litoral norte e sul do estado. Repetem-se as mesmas cenas que já conhecemos há décadas: congestionamentos nas estradas, cidades lotadas, pressão excessiva na infraestrutura urbana. Em média, a população da região litorânea chega a triplicar no período entre o Natal e o Ano Novo. As cidades, que em sua maioria já não têm uma boa estrutura de serviços públicos – segurança, saúde, coleta de lixo e limpeza urbana – sofrem ainda mais com o excesso de habitantes.
O problema é antigo e tem diversas causas. Uma delas é a falta de opções de lazer para a maior parte da população, associada à baixa renda. Sem possibilidades de aproveitar os momentos de folga durante o ano, já que a cidade apresenta poucas opções, o paulistano planeja seu descanso para o período de Ano Novo. Férias coletivas, recesso escolar, dinheiro do 13º salário, a glamourização da festa do Réveillon (antes era apenas o Ano Novo), o calor do verão; são fatores que mobilizam ainda mais os turistas de final de ano.
O fenômeno acontece em todo o litoral brasileiro, mas o maior volume de deslocamentos registra-se no estado de São Paulo. O efeito sobre as cidades, no entanto, é em todo país o mesmo: impacto nos ambientes urbano e natural. A orla marítima, os rios e as matas do entorno das cidades – localizadas em região de Mata Atlântica – são “explorados” pelos turistas: lixo de todo tipo na praia, retirada de espécimes da mata, pesca e poluição dos rios. Nas cidades, apesar de proibido por legislações municipais, trafegam carros com som alto, soltam-se fogos durante todo o dia e lixo é jogado por todas as ruas. Uma verdadeira catarse histérica, movida a álcool e agitação, toma conta de parte dos turistas. Parece que todos os dias de privação de lazer durante o ano precisam ser compensados freneticamente em alguns poucos dias.
No retorno do feriado as estradas voltam a ficar cheias; congestionamentos retêm os motoristas por horas – tudo apenas para percorrer um pouco mais de cem quilômetros. Para trás ficaram – além dos cheques sem fundos – os montes de lixo na cidade e nas praias, a depredação de bens públicos e os estoques vazios de supermercados, armazéns e padarias. Os comerciantes, em sua maioria, acham que foi um bom começo de período de férias. Alguns já planejam trocar o carro ou investir na ampliação do negócio.
A cidade, no entanto, vai demorar alguns meses para se recuperar. A ausência de recursos aliada à falta de pessoal qualificado na administração, além de prefeitos incapazes para gerir suas cidades (para dizer o mínimo), fazem com que o turismo se torne predatório. No final lucra o comércio, que precisa se capitalizar para enfrentar um ano inteiro com movimento baixo – só interrompido por um ou outro feriado prolongado. Esta é, resumidamente, a situação do turismo em grande parte do país. A falta de poder aquisitivo da maior parte da população, a fraca infraestrutura e o alto preço dos serviços e produtos, fazem com que esta realidade se mantenha ao longo dos decênios. Muito provavelmente vai continuar assim nos próximos anos, dadas as poucas possibilidades de crescimento da economia, melhoria real do padrão de vida e ampliação da infraestrutura.
(Imagens: fotografias de Timothy O´Sullivan) 

Ano Novo, vida nova?

sábado, 31 de janeiro de 2015
"O agnóstico Spencer dá como ponto de partida das religiões a ideia do "duplo"; o selvagem vê-se em sonhos, vê sua própria imagem refletida n'água e acredita na existência de dois seres diferentes que se parecem, e que entretanto um deles, o duplo, subsiste depois da morte."  -  Lucien Henri  -  As origens da religião

O Ano Novo simboliza um novo início, novidade, novos propósitos; ou pelo menos retomada daquilo que não pudemos realizar e ainda consideramos importante. Essa expectativa positiva em relação ao futuro só ocorre porque acreditamos que as condições vão mudar para melhor, dando-nos a possibilidade de fazer aquilo que ainda não pudemos. Surgem com isso as “listas de propósitos para o novo ano”: parar de fumar, arranjar um novo emprego, começar aquele curso, voltar a fazer exercícios físicos. Planejamos mudar em algum aspecto a nossa vida, pois cremos que há uma nova chance para melhorias.
Esta expectativa positiva não ocorre só com indivíduos. Empresas, sociedades e qualquer tipo de associação humana criam esperanças sobre o futuro, fundadas ou não, principalmente quando começa um novo ano. No caso do Brasil as circunstâncias agora são mais especiais ainda, já que junto com a chegada de mais um ano também tem início um novo mandato presidencial. Teremos novos ministros, novas políticas setoriais, novos planos de governo, novos projetos, novas alianças políticas... O que efetivamente será novo e não apenas “mais do mesmo”?
O país passa por mais uma crise econômica, com crescimento do PIB em torno de 0%. A taxa de desemprego começa a subir e não se criam novas vagas para trabalhadores melhor capacitados. Já foi autorizado o aumento do preço da eletricidade, da água, da gasolina; voltará o imposto da CPMF e outros tributos também deverão ser reajustados. A atividade industrial vem caindo e as exportações de produtos agrícolas e minérios para a China, nosso maior cliente, tendem a cair... Os recursos do governo são escassos para os anos 2015 e 2016, o que impossibilita o início de novos projetos de infraestrutura – já será muito se aqueles em andamento forem terminados.
As investigações do escândalo de corrupção na Petrobrás estão apenas começando e deverão se estender por todo ano de 2015 e entrar em 2016. Dentro de alguns meses podem ter início as investigações sobre corrupção em outros setores – setor elétrico, transportes, saneamento, entre outros – já que as empreiteiras a atuarem na Petrobrás são as mesmas que ganham licitações destes outros setores. As investigações, que com certeza mostrarão o envolvimento de mais empresários e políticos, podem atrasar novos investimentos e as obras em andamento, inclusive aquelas que tenham relação com o meio ambiente, como obras de saneamento, construção de aterros, entre outros.
O setor privado, paralisado pela crise econômica e pela queda do consumo não fará novos investimentos, pelo menos em curto prazo. Novas obras como construção de fábricas, terminais e galpões industriais, envolvem compra de equipamentos e serviços de meio ambiente. Caindo a quantidade destas obras diminui a demanda por tecnologias ambientais, o que contribuirá ainda mais para manter o setor retraído. Assim, tanto em vista da queda dos investimentos públicos quanto do setor privado, o mercado ambiental deverá acompanhar a economia e crescer muito pouco.
O quadro, não inspira otimismo. Ao invés de novidades para o Ano Novo, teremos mais do mesmo; vamos passar por um ou dois anos arrumando a casa e só então o país terá condições de efetivamente falar de novos projetos. Enquanto isso, o meio ambiente se arruma como pode, já que como dizem, “quando as contas estão no vermelho não se pensa no verde”.
(Imagens: fotografias de Robert Frank)

Represa Billings poderia fornecer mais água para a RMSP

sábado, 24 de janeiro de 2015
"Na vida humana tudo é sofrimento
e não há trégua para nossas penas,
porém o que talvez seja melhor 
que esta existência está envolto em trevas
e oculto nas nuvens."
Eurípides  -  Hipólito

A represa Billings tem reserva hídrica pouco superior ao sistema Cantareira e já vem abastecendo parcialmente os municípios de Santo André, São Bernardo, Diadema, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra e parte da capital. Além disso, o reservatório também fornece água para geração de eletricidade na usina Henry Borden, em Cubatão. Dada sua localização estratégica a Billings teria possibilidades de melhorar o abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), não fosse a poluição de suas águas.
A represa Billings foi idealizada na década de 1940 pelo engenheiro americano Asa White Kenney Billings (1876-1949), a serviço da companhia Light & Power Company. O reservatório ficou pronto nos anos 1950, com a principal função de fornecer água para o acionamento da usina hidrelétrica Henry Borden, em Cubatão, gerando 889 megawatts. Para aumentar o volume da Billings, a partir de 1952 o rio Pinheiros – localizado na zona Oeste/Sul de São Paulo – começava a ser bombeado para o reservatório. O rio era contaminado com efluentes domésticos e industriais que, sem tratamento, também eram carreados para a represa. A resolução da constituição paulista de 1989, determinando que o volume da Billings fosse prioritariamente utilizado para abastecimento público, fez com que a partir de 1992 fosse suspenso o bombeamento do rio para a represa.
Apesar de dispor de mais água do que o sistema Cantareira – 995 contra 982 bilhões de litros – os recursos hídricos da Billings continuam sendo subutilizados, principalmente por causa da poluição causada por diversas fontes. Um estudo da Universidade de São Paulo realizado em 2010 apontava que o fundo do reservatório estava contaminado por metais pesados; como cobre, chumbo, níquel e zinco, carregados para a Billings pelo rio Pinheiros ao longo de anos de bombeamento. Obras de dragagem destes resíduos poderiam dissolvê-los mais ainda e aumentar a turbidez da água. Outro aspecto é a poluição através de esgotos, que em diversas áreas que margeiam a Billings – na zona Sul de São Paulo e na região do ABCD – são lançados as água sem qualquer tipo de tratamento, principalmente por loteamentos clandestinos.
As empresas de saneamento das prefeituras do ABCD planejam tratar 100% dos efluentes domésticos até 2018, reduzindo assim o impacto sobre a represa. Em São Paulo, no entanto, o problema ainda parece estar longe de uma solução, já que as invasões às margens da represa tornam-se cada vez mais comuns. Em alguns casos são centenas de famílias, que só podem ser desalojadas com ajuda de força policial. As obras de construção do Rodoanel ainda trouxeram mais invasões à região, aumentando os pontos de assoreamento, disposição de lixo e despejo de efluentes.
Especialistas apontam que a principal providência para recuperar a Billings é impedir que os resíduos ou efluentes cheguem às suas águas. Para tanto, seriam necessárias obras de saneamento e urbanização no entorno do reservatório, incluindo desalojar ocupações clandestinas e realocar estas populações. Por seu tamanho, por receber chuvas e ventos que chegam do oceano e por estar em grande parte ainda cercada por áreas verdes, a represa ainda tem boas chances de se autodepurar ao longo dos anos. A recuperação deste manancial é importante e urgente na estratégia de segurança hídrica do estado de São Paulo.
(Imagens: fotografias de Oliver Wutscher)   

Previsões para a área ambiental - 2015

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

(Publicado originalmente na seção "newsletter" do site www.ricardorose.com.br)

Os primeiros dias do ano já começam a indicar o rumo que o país deverá seguir ao longo de 2015. No plano econômico haverá aumento de tarifas, redução dos investimentos públicos e – se tivermos sorte – corte no custeio da máquina do governo. O setor privado deverá acompanhar o ritmo da música e não fará novos investimentos. Todo mundo cozinhando em fogo brando para ver como a economia se comportará até o final do ano – as previsões de crescimento do PIB para 2015 são abaixo de 1%.

Na área política, o governo deverá continuar atendendo às demandas da base aliada, tentando garantir maioria no Congresso – situação, aliás, pouco difícil, já que não existe efetivamente uma oposição. Afora um ou outro comentário feito na tribuna do Senado pelo candidato derrotado à presidência senador Aécio Neves, não existe quase manifestações contra os atos do governo. As nuvens escuras da lista dos políticos envolvidos no Petrolão, a ser divulgada em janeiro ou fevereiro, parecem estar colocando muitos políticos de sobreaviso. Prenúncio de tempestade no horizonte do Congresso.

Enquanto isso, o país continua como sempre: vivendo da mão para a boca; correndo pela manhã atrás dos recursos que precisará para pagar as contas do final da tarde. Consertando aqui e ali, tapando buraco acolá, mas sem um planejamento; sem uma estratégia de médio e longo prazo. O Brasil continua como sempre: refém de interesses políticos e de grupos de pressão, às voltas com a corrupção que beneficia alguns, mas sem um planejamento da rota que o país deverá tomar. Permanecemos reféns de políticos e políticas de segunda categoria que, evidentemente, trazem vantagens para alguns, mas não para a maior parte dos cidadãos.

Com tudo isso, não dá para esperar grandes avanços no setor ambiental – o que também não é novidade para os que atuam no setor. Nesta área o país já realiza muito, quando não faz nada: os grandes avanços do Brasil no meio ambiente são a redução do desmatamento na região amazônica. Também na área ambiental estamos sempre correndo atrás do prejuízo, sem projetos e recursos suficientes para implantar ações que possam direcionar o futuro. Um dos únicos projetos com estas características, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, foi postergado para um tempo ainda indefinido.

Para 2015, portanto, mais do mesmo. Continuam os investimentos minguados em saneamento (que o diga a baía da Guanabara e o rio Tietê), sobra algum trocado para que as agências ambientais possam continuar funcionando (ações de comando e controle), serão realizados alguns seminários e assinados novos convênios (muitos inócuos), mas é só. Com uma economia capengando, sem planejamento e com várias outras prioridades, a questão ambiental não receberá a atenção que tem em outros países. Os recursos naturais se deterioram e, entra ano e sai ano, o país “tem outras prioridades”.      

Acidente de Bhopal faz 30 anos e ainda deixa sequelas

sábado, 17 de janeiro de 2015
"Uso a palavra para compor meus silêncios. 
Não gosto das palavras 
fatigadas de informar."
Manoel de Barros  -  Memórias inventadas

A cidade de Bhopal está localizada na região central da Índia e é capital do estado de Madya Pradesh, com uma população de cerca de 2,7 milhões de habitantes. Bhopal é bastante desenvolvida, abrigando grande número de indústrias do setor eletroeletrônico, de manufatura, tecelagem e químico. Baseado nestas poucas informações, a cidade pouco se distingue das outras dezenas de cidades indianas de porte e atividades econômicas semelhantes, a não ser por um acontecimento: o acidente com vazamento de gases tóxicos na fábrica da Union Carbide.
O acidente ocorreu há 30 anos, no dia 3 de dezembro de 1984, afetando de imediato e em diversos graus cerca de 500 mil pessoas. O vazamento de mais de 40 toneladas de 32 tipos gases tóxicos, entre os quais o metil isocianato usado para a fabricação de pesticidas para uso na agricultura, provocou a morte imediata de 3.787 pessoas, segundo dados oficiais do governo do estado de Madya Pradesh. Dados posteriores de uma comissão de investigação do estado indiano davam conta de que 558.125 pessoas foram afetadas de alguma maneira pelo vazamento do gás, incluindo 38.478 parcial ou temporariamente debilitadas e aproximadamente 3.900 severa ou permanentemente atingidas. Além destes, milhares de outros moradores de Bhopal sofrem de sequelas do acidente, apresentando casos de malformação de fetos, doenças crônicas nos olhos, no sistema respiratório, cardíaco e neurológico. A revista americana “Mother Jones” publicou declaração de um médico que atua em clínicas para afetados pelo desastre, na qual diz que “cerca de 120 a 150 mil sobreviventes ainda lutarão com problemas de saúde como distúrbios neurais, de formação e crescimento, ginecológicos, dificuldades respiratórias e elevadas taxas de tuberculose e câncer”.
Até hoje persiste o debate sobre as causas deste desastre, o maior já ocorrido com uma indústria em todo o mundo. Dados levantados durante as investigações mostraram que antes do vazamento ocorreram acidentes de menor tamanho, envolvendo vazamentos e até hospitalização e morte de funcionários. Manutenção inadequada de válvulas de segurança e ausência de equipamento de proteção individual, como máscaras, foram falhas de operação constatadas nestas ocorrências anteriores. O desastre, segundo os laudos do processo, foi motivado por falta de medidas de segurança e treinamento dos trabalhadores, fazendo com que esses inadvertidamente permitissem a entrada de água no tanque, o que provocou sua explosão e a liberação do gás venenoso. A defesa alega que os trabalhadores agiram sem atenção às normas de segurança, causando assim a entrada de água no tanque.
O processo correu na justiça indiana por anos. Em 1989 a empresa Dow Chemical, então proprietária da Union Carbide, pagou uma indenização de 470 milhões de dólares, além de oferecer ajuda financeira para construção de clínicas para atendimento das vítimas. A reparação, segundo críticos, foi insuficiente dado o número de vítimas e o impacto ambiental. A justiça indiana prendeu altos funcionários da empresa e expediu ordens de prisão contra seu presidente, o americano Warren Anderson, que poucas horas depois de detido foi liberado por ordem de um ministro indiano. A história do acidente, do processo judicial e dos bastidores políticos, é mostrada no filme “A prayer for rain” (Reza por chuva), lançado em 2013. 
(Imagens: fotografias de Marc Ferrez)

Meio ambiente não foi prioridade no primeiro mandato

sábado, 10 de janeiro de 2015
"O que significa ser keynesiano? Duas questões básicas bastarão aqui: (1) a economia privada pode não atingir o pleno emprego; (2) os gastos do governo podem estimular a economia para eliminar a defasagem. Toda vez que um político defende ardentemente uma injeção monetária, ou programas do governo para fazer o país se mexer outra vez, ou cortes de taxas para acelerar o consumo, ele está exaltando Keynes."  -  Todd G. Buchholz  -  Novas ideias de economistas mortos

Termina o ano e com ele o primeiro mandato da presidente Dilma. Baixo crescimento da economia, muitos casos de corrupção, atraso nas obras de infraestrutura, declínio da produção industrial e das exportações; foram alguns aspectos que caracterizaram a administração da presidente. Apesar de alguns avanços no ensino técnico e superior, a qualidade da educação fundamental e média continua ruim, colocado o ensino do país entre os piores dos países em desenvolvimento. A saúde, assim como a educação, continua a apresentar problemas de gestão e falta de recursos. O mau humor da população foi refletido no resultado das eleições presidenciais, com a vitória da situação por pequena margem – 51,64% contra 48,36% –, apesar de toda a força da máquina do governo.
Assim como outros setores, o meio ambiente também não recebeu a devida atenção no governo Dilma. Se o desmatamento da Amazônia vinha sendo mantido sob relativo controle desde o governo Lula, a derrubada da floresta aumentou nos últimos meses do governo da presidente. Sob a alegação de que “o país não havia sido convidado para participar da formulação do documento”, o Brasil também não assinou a Declaração de Nova York sobre Florestas, durante a Cúpula do Clima, realizada na ONU em setembro de 2014. Apesar de abrigar 20% da biodiversidade do planeta, o Congresso Nacional não ratificou a participação do país no Protocolo de Nagoya, documento que estabelece regras para o acesso a recursos genéticos. Sem assinar este documento, as posições do Brasil nas futuras negociações internacionais não terão peso algum, alijando o país de decisões importantes, que poderão nos afetar diretamente.
A administração Dilma não criou nenhuma nova unidade de conservação (UCs) na Amazônia durante os primeiros três anos e 10 meses do mandato. Às vésperas das eleições, no entanto, através de um ato presidencial, o governo criou às pressas novas UCs; duas delas na Amazônia. Em compensação, ao longo de seu governo, a presidente Dilma reduziu áreas de cinco unidades já existentes, para acomodar projetos de hidrelétricas. O novo Código Florestal, aprovado em 2013, foi criticado por ambientalistas, ONGs e organizações científicas porque, segundo estes, resultará na redução da proteção às florestas.
Os investimentos em saneamento, apesar de toda a propaganda realizada em torno do PAC, ainda são insuficientes para se alcançar a universalização destes serviços. Segundo o BNDES, os investimentos anuais médios no tratamento de água e esgoto têm sido de R$ 10 bilhões. A ONG instituto Trata Brasil informa que para oferecer saneamento a todos os cidadãos no prazo de 20 anos, o país precisará investir anualmente R$ 16 bilhões.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos também avançou pouco durante este governo. Criada no final do governo Lula, a lei estabelecia um prazo – agosto de 2014 – para que todos os municípios acabassem com seus lixões ou aterros controlados. Sem apoio do Ministério do Meio Ambiente, as prefeituras em sua maioria puderam alegar não terem recursos financeiros e humanos para implantar esta medida. A pá de cal veio com a Medida Provisória 651, através da qual, entre outras coisas, o Congresso pretendia prorrogar a aplicação da lei por mais quatro anos – artigo vetado pela presidência. Parlamentares deverão apresentar uma nova solução para o caso.
Espera-se que em seu novo mandato que começa este ano, a presidente Dilma - mesmo às voltas com tantos problemas econômicos e sociais - possa dar a devida atenção também às questões ambientais. Os recursos, sempre é bom lembrar, uma vez que se foram podem não voltar.
(Imagens: fotografias de Lewis Hine)

Diminuição de chuvas requer medidas de prevenção

sábado, 3 de janeiro de 2015
"(Ludwig von) Mises foi o primeiro a compreender integralmente que a divisão entre Stalin e Hitler, socialismo e fascismo, direita e esquerda, era uma ilusão, e que o movimento totalitarista baseado em Berlim era substancialmente similar àquele de Moscou. 'A terminologia da linguagem política é uma tolice'."  -  Kevin D. Williamson  -  O livro politicamente incorreto da esquerda e do socialismo

A crise da água está afetando grande parte do Brasil e, com exceção da região Norte, agora deverá ocorrer periodicamente no restante do país, segundo previsões de especialistas. Começa assim uma nova era, na qual a antiga fartura de água em grande parte do território nacional mais densamente habitado será condição do passado. Em sua vida diária e nas atividades econômicas a sociedade precisará gradualmente se adaptar ao novo clima: mais seco, com temperaturas crescentes e menores precipitações pluviométricas. As cidades e todas as atividades econômicas que ocorrem em seu interior – construção, indústria, comércio, turismo – e no seu entorno – agropecuária geração elétrica e mineração – serão fortemente afetados.
Os fatores causadores destas estiagens são, dentre os principais: o fenômeno do El Niño, variação da temperatura do oceano Pacífico que influencia o regime de chuvas; os impactos das atividades econômicas, como o crescimento das cidades e o aumento da frota veicular; as mudanças climáticas em todo o mundo; e, muito provavelmente, o incessante desmatamento da Amazônia. Estas as causas mais prováveis da redução do volume e freqüência das chuvas no Sudeste e Centro-Oeste do país. No Nordeste, observa-se há anos o agravamento da seca.
Céticos dizem que a fase de poucas chuvas poderá se estender por alguns anos e depois, assim como surgiu, desaparecer. A hipótese não é improvável, mas a se considerar a série histórica de medições da precipitação pluviométrica em várias partes do país, não é isto o que vem ocorrendo. As chuvas efetivamente vêm rareando e o país precisa se preparar para esta nova realidade.
A construção civil é um dos maiores usuários de água, no âmbito das atividades econômicas que se realizam na área urbana. Através do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS) e com o apoio do Ministério do Meio Ambiente e do PNUMA (Programa das Nações Unidas para Meio Ambiente) o setor da construção apresentou recentemente o estudo “Aspectos da Construção Sustentável no Brasil e Promoção de Políticas Públicas”. O trabalho apresenta 25 recomendações que servem de apoio à elaboração de políticas para incentivar o uso eficiente da água em edificações, através de campanhas educativas, incentivos econômicos e incorporação de novas tecnologias.
Outro setor econômico que se preocupa há algum tempo com a escassez de água é o agrícola. Através da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) o setor já pesquisa novas espécies de plantas mais resistentes à seca. Tendo decifrando o genoma (o mapa genético da planta) de espécies como o café, a soja, o milho, o feijão e o tomate, a empresa agora procura genes (partes do genoma) que inseridos no genoma da planta têm o potencial de tornar o vegetal mais resistente à seca.

Além destes, existem vários outros exemplos do que vem sendo feito para reduzir o uso de água: economia de água na pintura de automóveis; redução do uso de água na irrigação; uso de aditivos em substituição à água no concreto; medidas de reuso de água em residências, escritórios e fábricas; armazenagem e reutilização da água da chuva. São técnicas cujo uso precisa ser incentivado por associações e regulado pelo poder público; setores que devem liderar a iniciativa de implantar medidas preventivas com o objetivo de preparar o país para tempos mais secos.
(Imagens: fotografias de Cristiano Mascaro)

..."de dia falta água, à noite falta luz!"

sábado, 27 de dezembro de 2014
"A religião não é um tipo primitivo de teorização científica, nem a ciência é um tipo superior de sistema de crenças. Assim como os racionalistas interpretaram mal os mitos, como se fossem protoversões de teorias científicas, cometeram o erro de acreditar que as teorias científicas podem ser literalmente verdadeiras. Ambos são sistemas de símbolos, metáforas para uma realidade que não pode ser expressa em termos literais."  -  John Gray  -  A busca pela imortalidade

Como se não bastasse parte do país enfrentar a maior falta d’água nas últimas décadas, corre também o risco de enfrentar “cortes seletivos de energia”. O aviso foi dado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) aos geradores e distribuidores de energia. A medida, segundo especialistas, pode-se fazer necessária para manter os níveis dos reservatórios de água, garantindo o fornecimento de energia principalmente para as grandes cidades nos meses de janeiro e fevereiro, quando há um aumento da demanda por eletricidade.
A ocorrência de uma eventual economia forçada de energia não é novidade para aqueles que atuam no setor elétrico. Esta coluna já havia comentado o fato em janeiro deste ano, com o artigo “Calor aumenta a demanda por eletricidade”. Assim, à medida que o nível dos reservatórios baixava, sem que o volume de água fosse reposto pelas chuvas tão aguardadas, seria só uma questão de tempo para que o governo fosse forçado a implantar medidas mais duras de economia de eletricidade. Durante o período pré-eleitoral nada foi feito para não atrapalhar a campanha de reeleição da presidente Dilma – assim como o governo de São Paulo também procurou postergar ao máximo a discussão da crise hídrica.
Até agora o governo não tomou nenhuma providência concreta, baseado no fato de que, segundo a própria presidente, o país tem 20 mil megawatts de reserva em energia térmica. No entanto diversas instituições e ONGs vêm chamando a atenção sobre a necessidade de ser iniciar uma campanha para economizar eletricidade, assim como já está sendo feito para a água. Claudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil, disse em declaração ao jornal Folha de São Paulo que “Os reservatórios estão em nível inferior ao de 2013, que já era crítico. Para evitar especulações, o governo deveria ter maior clareza em suas ações.”
O fator mais importante deste dilema é o volume de chuvas que São Pedro nos colocará à disposição entre novembro de 2014 e março de 2015, tanto para o abastecimento de água quanto a geração de eletricidade. Dependendo da quantidade de água que cair sobre a região Sudeste e Centro-Oeste, aumentará ou diminuirá o risco de desabastecimento de energia e água nas regiões em 2015. Ainda assim, há males que vem para o bem: não fosse a crise econômica e a baixa produção industrial, o consumo de água e energia seria ainda maior, forçando o governo a implantar medidas de racionamento imediatamente.
Prevenir é sempre a melhor política de segurança. Mesmo que a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) ou o MME ainda não tenham anunciado oficialmente a necessidade de economizar energia elétrica, o cidadão já pode começar a fazer a sua parte. Existem diversos sites que contêm sugestões sobre como reduzir o consumo de energia com a troca de lâmpadas, cuidados com aparelhos elétricos e eletrônicos; medidas que poderão fazer uma grande diferença na conta de luz ao final do mês.
Além disso, podemos cobrar de nossos deputados a votação de leis que ajudem na implantação de políticas mais duras com relação à eficiência energética. É incrível o volume de eletricidade perdida em equipamentos de uso diário, que utilizam tecnologias ultrapassadas. O custo desta energia dissipada é pago pelo consumidor. Já que o país precisa economizar energia, podemos exigir que se fabriquem produtos mais modernos e eficientes.
(Imagens: fotografias de Marcel Gautherot)

Energia solar: o avanço da solar fotovoltaica

sábado, 20 de dezembro de 2014
"Ver a mente consciente pela ótica da evolução, desde as formas de vida simples até os organismos complexos e hipercomplexos como o nosso, ajuda a naturalizar a mente e mostra que ela é resultado de um aumento progressivo da complexidade no idioma biológico."  -  Antonio Damasio  -  E o cérebro criou o homem

O Brasil é o país com o maior potencial de aproveitamento de energias renováveis em todo o mundo, dada sua extensão territorial e localização geográfica. Diferente de outros países que optaram por matrizes energéticas baseadas no petróleo, no carvão e no urânio, estruturamos nossa geração elétrica sobre a matriz renovável hidráulica. Ainda hoje, apesar de grande parte dos principais reservatórios da região sudeste estar com baixa capacidade de água, cerca de 70% da eletricidade consumida no país provêm desta fonte.
Energia renovável sempre foi a opção mais disponível para acionar a economia do país. Nos anos 1970, quando o preço do petróleo chegou a aumentar 400% em alguns meses, o governo implantou um dos maiores programas de combustível renovável em todo o mundo, o Proálcool. A exploração da cana-de-açúcar utilizada para produzir o álcool gera excedentes de biomassa – o bagaço de cana – que é utilizado pelas usinas para gerar eletricidade. Outra fonte renovável, o óleo vegetal, é a matéria prima principal do programa nacional do biodiesel, que hoje adiciona 7% de óleo ao diesel de petróleo, reduzindo importações de óleo mineral e emissões provocadas por sua queima.
Através de outra fonte energética renovável, o vento, o Brasil produz atualmente mais de cinco mil Megawatts (MW) de eletricidade. O parque eólico nacional está em rápida expansão, incentivado pela redução dos custos dos equipamentos, disponibilidade de financiamento privado e público para os projetos e leilões de compra de energia organizados pelo governo. Em 2014 o país tornou-se mundialmente o sétimo colocado em número de parques eólicos instalados, atrás apenas de China, Alemanha, Reino Unido, Índia, Canadá e Estados Unidos.
A energia solar fotovoltaica é a renovável que até o momento vinha recebendo pouco apoio do governo. A criação da figura do micro produtor de energia pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), em 2012, e a eliminação de impostos na cadeia produtiva, pouco ajudaram a impulsionar este setor e aumentar a capacidade instalada – hoje em torno de 10 MW. No entanto, recentemente foi dado um importante passo, que poderá impulsionar o mercado de energia solar fotovoltaica da mesma forma como ocorreu com a energia eólica há cinco anos. Através do Leilão de Energia de Reserva foram contratados 889,7 MW de energia fotovoltaica – praticamente 80 vezes mais do que a capacidade atualmente instalada – para serem entregues até 2017. A iniciativa de compra de energia solar através de leilões já havia ocorrido em Pernambuco em 2013, e teve um impacto local. O leilão nacional ora realizado envolverá um numero maior de empresas, fortalecendo o setor no país. “Este é um passo importantíssimo para o fortalecimento da (energia) solar no Brasil. O volume contratado foi excepcional”, afirmou Bárbara Rubim, da campanha de Clima e Energia da ONG Greenpeace.

A energia solar fotovoltaica tem como vantagem sobre as outras renováveis seu baixo custo de instalação – o preço dos painéis solares vem caindo a cada ano – e a flexibilidade da geração descentralizada. Uma providência a ser tomada em curto espaço de tempo é a regulamentação da figura do micro produtor de energia, possibilitando que este possa suprir a rede e que seja remunerado, como acontece nos mercados de energia da Europa e dos Estados Unidos. 
(Imagens: fotografias de Jules Aaron)

Brasil aumenta emissões de gases de efeito estufa

sábado, 13 de dezembro de 2014
..."por outro lado, a ideia de acaso é, talvez, dentre todas as que os homens puderam conhecer, a mais difícil de ser assumida por sua afetividade, pois implica a insignificância radical de todo acontecimento, de todo pensamento, de toda a existência."  -  Clement Rosset  -  A anti natureza elementos para uma filosofia trágica

As emissões brasileiras de gases de efeito estufa (GEE) aumentaram em 7,8% no último ano, segundo o estudo “Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa 2014”, divulgado pela rede de ONGs Observatório do Clima. A produção de gases poluidores – principalmente dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e perfluorcarbonetos – esteve em queda desde 2005, mas apresentou forte crescimento durante o ano de 2013. O aumento se deu em todos os setores da economia; da indústria ao transporte, passando pela agricultura e às mudanças no uso do solo. A ser mantido este ritmo de crescimento nas emissões, o Brasil não conseguirá cumprir as metas voluntariamente assumidas durante a Conferência sobre o Clima em Copenhague (2009), de reduzir a produção de gases entre 36% e 39% até 2020, em comparação com 1990.
O crescimento das atividades econômicas – apesar do baixo crescimento nos últimos anos – está colocando o Brasil entre as nações mais poluidoras do planeta. Nosso nível de emissão de GEE, medido em toneladas de dióxido de carbono (tCO²), está em 7,8 tCO² por habitante por ano; acima da média mundial de 7,2 tCO²/habitante/ano. Com isso, “estamos muito longe de uma economia de baixo carbono”, segundo Tasso Azevedo, coordenador do estudo, em declaração ao jornal Folha de São Paulo. Dois setores da economia foram os maiores responsáveis pelo aumento nas emissões de gases: mudança no uso da terra (leia-se desmatamento) e energia (incluindo os transportes). O primeiro contribuiu com 16,4% no incremento dos GEE, devido aos desmatamentos na Amazônia e no Cerrado. No setor de energia, aumentou a queima de óleo combustível e carvão usado nas usinas termelétricas e cresceu o consumo de diesel e gasolina no transporte.  
Em 2013 o país gerou aproximadamente 3% das emissões mundiais de GEE, ou seja, 1,56 bilhões de toneladas de CO² ou gás equivalente (1,56 GtCO²e). Para totalizar este volume de emissões, os setores econômicos contribuíram percentualmente da seguinte maneira: mudança de solo/desmatamento – 35%; energia/transportes – 30%; agropecuária – 27%; indústria – 6%; e gestão de resíduos – 3%. Para que possa atingir suas metas de emissão, o Brasil não poderá ultrapassar o volume de dois bilhões de toneladas de CO² equivalente (2,2 GtCO²e) anuais de emissão de gases em 2020.  
Em Paris, no final de 2015, deverá ocorrer a 21ª Conferência sobre o Clima (COP 21), cujo grande objetivo será dar continuidade às discussões em torno do Protocolo de Kyoto, acordo internacional assinado em 1997 que visava reduzir as emissões mundiais de GEE. Diferente das conferências anteriores, a COP 21 será realizada em novo ambiente político.
Os dois maiores emissores, os Estados Unidos e a China, responsáveis por 50% das emissões mundiais e sempre avessos a assumirem compromissos de redução de emissões no passado, estão trabalhando firmemente para baixarem suas emissões domésticas. Com isso, certamente virão à Paris com o objetivo de aceitar metas de redução e também de cobrá-las dos países em desenvolvimento – o chamado Grupo dos 77, entre os quais também se inclui o Brasil. O não cumprimento destas metas de redução negociadas, segundo especialistas, poderia implicar em sanções comercias às nações que não mantivessem o que prometeram. Em Paris não haverá mais espaço para bravatas e promessas sem compromisso em relação ao clima. 
(Imagens: fotografias de John Gutmann)