Turistas e degradação ambiental do litoral

sábado, 23 de setembro de 2017
"O bárbaro pilha a terra; ele a explora violentamente e não consegue recuperar suas riquezas, tornando-a inabitável. O homem verdadeiramente civilizado entende que seu interesse é indissociável dos interesses de todos e da natureza."   -   Elisée Reclus   -   Do sentimento da natureza nas sociedades modernas

Já faz alguns anos, mudei para o litoral. Cidade pequena e agradável, rodeada por montanhas e de frente para o mar. Ar puro, bem diferente da atmosfera cinzenta de São Paulo. O trabalho não é problema, já que minha principal ferramenta é a internet. Vez ou outra apenas uma reunião de negócios na capital; bate e volta, porque não suporto mais a cidade grande.

Algumas vezes, durante o ano, a calma da cidade é interrompida pelos feriados, finais de semana prolongados e férias, principalmente as do verão, quando o afluxo de pessoas é maior. Milhares de turistas põem o pé na estrada e descem para o litoral, abarrotando as cidades e vilarejos dos cerca de 500 quilômetros do litoral paulista. Nos outros estados a situação deve ser igual; mas nem em todo lugar se "desce a Serra", como aqui. Nessas épocas, a população da região litorânea chega a triplicar, até quadruplicar.

Durante dias ou semanas, tudo na minha cidade está lotado, com gente saindo pelo ladrão. Padarias, supermercados, farmácias, bares, restaurantes, todos cheios. As principais avenidas congestionadas, já que até pra ir até a adega, a duas quadras de casa, usa-se o carro. Existe prazer maior do que desfilar com seu veículo, símbolo de status social, mostrando a todos - principalmente aos vizinhos - o que o dinheiro pode comprar (mesmo que seja em 60 prestações)?

Sob o sol forte e céu azul, as praias transformam-se no principal local de lazer. Praia cheia, por todos os lados. Guarda-sóis, esteiras e barracas montadas por famílias de turistas, debaixo das quais acomodam cadeiras de alumínio e as indefectíveis geladeiras de isopor, repletas de latas de cerveja e, evidentemente, alguns refrigerantes para as crianças. Perto da água, o jovem casal jogando frescobol e no areão a garotada correndo atrás da bola. Sorveteiros, pipoqueiros, vendedores de raspadinha, salgadinhos e até um carrinho vendendo roupas, chapéus e óculos de sol. Perto da água, dezenas, centenas de pessoas caminhando, pra cá e pra lá.

Nestas épocas, os sistemas de coleta de lixo da cidade ficam sobrecarregados. A frota de caminhões coletores não consegue dar conta do volume de detritos. Na região central, onde a concentração de pessoas é maior, principalmente à noite, os resíduos jorram das lixeiras - sem contar a grande quantidade de lixo que é jogada na rua, em qualquer lugar, sem qualquer consideração.

O mesmo ocorre com os sistemas de transporte público - só existem ônibus e vans -, que já em outros períodos do ano são demorados, e que com o aumento dos usuários ficam sob mais pressão ainda. O incipiente serviço de saúde apresenta a mesma deficiência; emergências lotadas, esperas de horas para consultas urgentes, falta de equipamentos, funcionários... É o quadro da maior parte das cidades brasileiras, mesmo daquelas que por receberem grande número de turistas deveriam estar mais bem equipadas.

O que toda esta invasão traz para a cidade? Quais benefícios revertem para a população local? Muito pouco. Algumas centenas de empregos e subempregos no comércio e no setor de serviços, quase todos temporários, por um período máximo que vai de outubro a março. Para os comerciantes e prestadores de serviços, trata-se da época do ano em que se deveria faturar o suficiente para cobrir a temporada das vacas magras, que vai de março a junho e de agosto a novembro.

Também é nas férias de verão, ou nas semanas que as antecedem, que aumenta a demanda por serviços de pedreiro, pintor, encanador, faxineiro, jardineiro, corretor imobiliário, e outros: são os turistas preparando suas casas para a família ou para os potenciais locadores. Lojas, hotéis, bares e o comércio em geral fazem reformas e ampliações.

E o impacto sobre o ambiente urbano e natural de todo este aumento da população? Muito lixo nas praias, removido diariamente, bem cedo pela manhã, pelos caminhões da prefeitura. Mesmo assim, muita coisa fica pra trás. Embalagens de plástico, papel, fraldas, garrafas e uma série de outros objetos de uso diário, como escovas de dente e cabelo, óculos de sol, restos de brinquedos de plástico, camisinhas, rótulos de produtos e até dentaduras. Às vezes cacos de vidro. Além disso, restos de cordas e linhas de pesca e muito papel higiênico. É comum ver a barraca de uma família armada na praia durante a manhã e na parte da tarde encontrar lixo no local. Alguns, mais "educados" (ou dissimulados) às vezes se dão ao trabalho de enterrar os restos na própria praia.

As florestas do entorno, atravessadas por estradas com pouco ou nenhum controle da polícia florestal, recebem visitantes que arrancam plantas, cortam árvores e arbustos, fazem fogueiras e depositam ofertas para supostas entidades espirituais. Ao deixarem o local ao final do dia, é comum abandonarem garrafas, restos de comida, latas, embalagens e outros resíduos, profanos e religiosos.

Se por um lado é possível constatar que a infraestrutura da cidade não é suficientemente desenvolvida para receber um número tão grande de visitantes, por outro é claro que uma parte considerável dos visitantes ainda não tem educação suficiente para este tipo de turismo. Ainda com relação aos turistas que frequentam a cidade é preciso fazer uma distinção. Existem aqueles que possuem um imóvel na cidade e, por isso, na maior parte dos casos, têm mais preocupação com a limpeza e manutenção da estrutura do município. Outros, não têm qualquer ligação emocional com a terra; são locatários de um imóvel no qual permanecerão por alguns dias ou semanas.

Ocorre que parte destes visitantes, não tendo incorporado noções de higiene e civilidade que deveriam ter aprendido desde a infância, pouco se importam com o lixo e outro tipo de sujeira que vão descartando por toda a cidade e seus arredores. É interessante observar que estes poluidores muitas vezes possuem carros novos, até usam roupas de marca. Mas a educação... Nestas situações penso o quanto nosso país ainda precisa evoluir culturalmente até mesmo nas noções básicas de convivência humana.

O progresso de um povo não se mede pelo tipo de objetos que compra, pelo tipo de carros que dirige, pelas roupas que veste. Não é só o crescimento econômico, o consumo, a conta bancária. O parâmetro de progresso de uma sociedade é a maneira como se comporta com seus semelhantes e, consequentemente, como trata o meio ambiente urbano e natural. A considerar estes parâmetros ainda estamos muitos anos distantes de um grau de desenvolvimento aceitável. 
(Imagens: pinturas de Maximilien Luce) 

Léon Bloy

sábado, 16 de setembro de 2017
"Não acredite em tudo que falam dos outros, nem em tudo do que falam de si."  -  Ricardo E. Rose

(Texto publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Em sua primeira homilia, em março de 2013, o papa Francisco I citou um escritor católico já bastante esquecido, mas que entre o final do século XIX e início do XX causou bastante furor no meio católico francês. Disse Francisco em sua primeira mensagem aos católicos: "Quando não se professa Jesus Cristo, eu retomo a frase de Léon Bloy: 'Quem não reza a Deus, reza ao diabo.'"

Léon Bloy nasceu na pequena cidade de Notre-Dame-de-Sanilhac, na Dordonha, região Sudoeste da França em 1846 e faleceu em Paris em 1917. Novelista, ensaísta, jornalista e poeta, Léon era filho de um livre-pensador e de uma católica devota. Fez seus estudos em um colégio interno católico, mas era aluno medíocre e indisciplinado. Aproveitava o tempo livre no internato para estudar pintura e ler os autores famosos de sua época; Baudelaire, Villiers de L'Isle-Adam, Huysmans, Barbey d'Aurevilly, entre outros. Léon era agnóstico e tinha aversão pelos ritos e pela doutrina católica, preferindo suas leituras, que evocavam outras ideias.  

Terminando o colégio vai para Paris onde continua os estudos de pintura e aprofunda sua cultura literária. Certo dia, em uma livraria, conhece o escritor Barbey d'Aurevilly, que se torna seu tutor intelectual e por influência do qual tem uma dramática conversão ao catolicismo.

Depois de atuar como soldado na guerra franco-prussiana (1870-1871) - da qual trará muitas recordações dramática - volta a Paris, onde começa carreira jornalística e publica as sua primeiras obras literárias. Sempre passando por dificuldades financeiras, Bloy muitas vezes teve que contar com a caridade de amigos e até estranhos, aos quais pedia recursos através de cartas. Amigo de intelectuais e escritores, contribuiu na conversão ao catolicismo de alguns deles, como o escritor Huysmans, o pintor Rouault e o filósofo Maritain. Por outro lado também era bastante temperamental e atacava autores contemporâneos como Victor Hugo, Emile Zola, Guy de Maupassant, Ernest Renan e Anatole France, que se tornaram seus inimigos.

Apesar de relativo sucesso literário e da fama como polemista em defesa do catolicismo, contra o laicismo e o agnosticismo que se espalhavam no mundo intelectual francês do final do século XIX e início do XX, Bloy foi pobre durante toda a sua vida. Em 1890 casa-se com a dinamarquesa Jeanne Molbeck que lhe dá três filhos; dois dos quais morrem em consequência de desnutrição. Mesmo assim, continua escrevendo e publicando sua obra ensaística e, principalmente seus diários.

Visionário e movido por sua fé, Bloy foi ao mesmo tempo um grande escritor e agitador religioso. Acreditava em aparições da Virgem e estava convencido do fim dos tempos, caso a humanidade não se reformasse. Seu estilo influenciou diversos autores em todo o mundo. Escritores como George Bernanos, Loius-Fernand Céline, Ernst Jünger, Jorge Luis Borges, Graham Greene, Aleijo Carpentier, além dos brasileiros Ronald Carvalho, Alceu Amoroso Lima (Tristão de Atayde), Jorge Lima, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt e Gustavo Corção, todos incorporaram algo daquele que a si mesmo chamava de "mendigo ingrato" e "peregrino do absoluto". O escritor e ensaísta Octavio de Faria (1908-1980) escreveu um longo ensaio sobre Bloy, publicado em 1968.

Das principais obras do escritor destacam-se as novelas "O Desesperado" (1887) e "A mulher pobre" (1897); os ensaios "O sangue do pobre" (1909), "A alma de Napoleão" (1912) e "Joana d'Arc e a Alemanha" (1915); contos como "Suando sangue" (1898) e "Histórias desagradáveis" (1894). Os escritos que mais lhe trouxeram fama foram os seus diários, dos quais destacamos "O mendigo ingrato" (1898), "O invendável" (1909) e o "Peregrino do Absoluto" (1914). Inédito no Brasil, Bloy teve um livro lançado em 2017, "Nas Trevas" (1917). Abaixo apresentamos citações de várias das obras do autor:

"O maior mal não é cometer crimes, mas falhar em fazer o bem que se devia ter feito"

"Somos todos miseráveis e derrotados, mas poucos são capazes de encarar o próprio abismo."

"Existem partes do coração que ainda não existem; o sofrimento tem que entrar para que possam existir."

"O sofrimento passa, mas o fato de haver sofrido nunca passa."

"Qualquer cristão que não é herói, é um porco."

"A única tristeza real, o único grande fracasso, a única grande tragédia na vida, é não se tornar santo."

"Chegamos a esse formidável e absolutamente estranho momento, em que Deus tendo sido expulso de toda parte, faz com que nenhum homem saberá mais para onde ir." 

"Um santo pode cair na lama e uma prostituta pode ascender à luz."

"O excesso é um defeito."

"Devemos criar uma cátedra para ler nas entrelinhas."

"Eu sou naturalmente triste, como alguém é pequeno ou loiro. Eu nasci triste, profunda e terrivelmente triste, e dominado por uma imensa saudade da alegria."

"É notável que em uma época onde a informação se tornou a mestra do mundo, não se encontre mais ninguém que traga às pessoas uma mensagem de seu Criador. Este está ausente: das cidades, dos campos, das montanhas e das planícies. Ele está ausente das leis, da educação e dos costumes. Ele está ausente mesmo da vida religiosa, no sentido de que todos aqueles que ainda querem ser Seus amigos íntimos, não precisam mais de Sua presença."

"Eu sou um contemporâneo dos últimos humanos da decadente Antiguidade e por isso muito estranho a tudo aquilo posterior à Queda de Bizâncio. O ser humano é tão sobrenatural que, aquilo que ele menos compreende, são as concepções de tempo e espaço."

"Não seria possível juntar toda a miséria, toda tristeza e sofrimentos dos pobres em uma trouxa, em uma cesta? Teríamos as histórias de Deus."
(Imagem: fotografia retratando Léon Bloy) 

Newsletter setembro/outubro/novembro

sábado, 9 de setembro de 2017

(publicado originalmente no site Ricardo Rose Consultoria - www.ricardorose.com.br)

Através da liberação de R$ 4 bilhões para emendas parlamentares, o presidente Temer conseguiu, pelo menos temporariamente, apoio da Câmara dos Deputados para barrar o prosseguimento da denúncia da Procuradoria-Geral da República contra ele. Livre do sufoco, o governo realiza uma delegação para a China, a fim de apresentar as oportunidades de investimento no setor de infraestrutura brasileiro aos empresários chineses.

Ao que parece, devagar, muito devagar a economia começa a se recuperar. A prévia do PIB indica um crescimento de 0,25% no segundo trimestre e, pela primeira vez após 11 trimestres de queda, aumenta o número de empregos com carteira assinada. A liberação do Fundo de Garantia de parte dos trabalhadores e a gradual queda dos juros decretada pelo Banco Central ajudaram a aquecer a congelada economia brasileira.

Longe, no entanto, de apontar para uma recuperação, a arrecadação continua baixa, forçando o governo a rever a meta fiscal do país para 2017. De um déficit previsto de R$ 139 bilhões a expectativa subiu para R$ 159 bilhões. Os investimentos continuam baixos a ponto de os recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) terem sido reduzidos em 50% neste ano. Cortes em programas de pesquisa (P&D) provocaram a interrupção de diversos projetos em andamento e a redução dos repasses para universidades federais está causando problemas a professores e alunos. Os cortes no programa Bolsa Família faz crescer o número de pessoas sem qualquer tipo de amparo social, enquanto que a interrupção das bolsas de estudo do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) interrompem os planos de carreira de milhares de jovens. Enquanto isso, o governo oferece o perdão de grande parte das dívidas do setor empresarial - muitos deles nem precisariam disso -, através do programa de renegociação das dívidas, o Refis.
  
No meio ambiente, que tradicionalmente sempre foi uma área relegada a segundo ou terceiro plano, as perspectivas também são decepcionantes. Com relação ao gerenciamento de resíduos e à implantação da Política Nacional de Resíduos (PNRS), não há praticamente avanços. Mesmo com a queda na geração de resíduos urbanos, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública (Abrelpe), ocasionada pela redução no consumo, muitas cidades deixam de usar aterros para depositar seus resíduos em lixões. Falta de recursos para ampliar ou construir um aterro tecnicamente correto, faz com que prefeitos tenham que optar pela única solução possível no momento. Um retrocesso na PNRS e resultado de falta de planejamento prévio. A história do que acontece a nível federal e estadual, se repete no município.

Na área do saneamento, como já vínhamos informando antes nesta coluna, provavelmente houve até um retrocesso, já que em muitas regiões as cidades continuam crescendo a uma velocidade maior do que o avanço das obras. Projetos sob intervenção por causa de suspeita de corrupção, por falta de pagamentos de fornecedores e empreiteiros (envolvidos no processo da Lava Jato), estatísticas infladas... Fica claro que o saneamento nunca foi, com raríssimas exceções, prioridade dos governos federais, estaduais e municipais. Em 2016 a ONG Contas Abertas publicou, que em 2007 haviam sido previstos investimentos de R$ 62 bilhões em saneamento até o ano de 2014. No entanto, as obras concluídas até este ano totalizaram somente R$ 4,2 bilhões; apenas 6,8% do total previsto.

O fato na área ambiental que mais chamou atenção da opinião pública local e internacional foi a ideia lançada pelo governo (sem qualquer reação do ministro do Meio Ambiente e deputado do Partido Verde, Sarney Filho) de extinguir a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca). Situada entre os estados do Pará e Amapá, a Reserva tem área de cerca de 47.000 quilômetros quadrados - quase o tamanho da Dinamarca - e foi criada através de decreto no final do governo militar, em 1984. Objeto da cobiça de mineradoras nacionais e estrangeiras a região, segundo especialistas, tem grandes reservas de ouro e outros minerais preciosos, como o nióbio. Com a manifestação geral de artistas, intelectuais e revolta nas redes sociais, o governo temporariamente recuou de suas intenções. Mesmo assim, empresas de mineração, pecuaristas e representantes do agronegócio continuam alertas, esperando uma oportunidade.

O problema não é a mineração em si; esta pode trazer recursos para o país, através de investimentos e venda do minério. O perigo reside no fato de que comprovadamente o Estado não dispõe de recursos para fiscalizar atividades de mineração e garimpo em área tão extensa e de difícil acesso. A região foi pouco desmatada (somente 0,33%) e ainda guarda muitos recursos naturais, além de abrigar tribos indígenas. Os impactos de tais atividades exploratórias sobre comunidades de pequenos agricultores e indígenas são bastante conhecidos ao longo da história da ocupação (e destruição) da Amazônia.

Em outras áreas do setor ambiental, como a introdução de programas de redução de emissões veiculares nas cidades, a identificação e recuperação de áreas contaminadas urbanas, e a reposição de matas ciliares em rios afetados por secas periódicas, as atividades se limitam quase que exclusivamente à publicação de trabalhos técnicos e à realização de seminários. Administrações públicas reduziram suas atividades nessas áreas ao mínimo.

Por fim, cabe assinalar que um juiz federal suspendeu a ação contra funcionários da Vale e da Samarco, acusados de homicídio no caso da barragem do Fundão, em Mariana. O juiz acolheu o pedido da defesa dos réus, que alega que a denúncia do Ministério Público Federal tem como base a obtenção de provas ilícitas. Para completar, a defesa pede a anulação do processo.

Ainda há tempo de reverter o impacto ambiental das atividades econômicas no Brasil. Cada vez menos, no entanto. 

(Ilustração - xologravuras de Richard Mock)

Jorge Luis Borges

sábado, 2 de setembro de 2017

(publicado originalmente na página do Facebook da Academia Peruibense de Letras)

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (1899-1986), conhecido como Jorge Luis Borges, foi contista, ensaísta, poeta e tradutor argentino. Descendente de uma tradicional família de políticos, foi educado em casa até os onze anos de idade, quando se tornou fluente em inglês. Em 1914 a família muda para a Suíça, onde o futuro escritor frequenta a escola e aprende também o francês. Durante sua permanência no país também aprende a língua alemã e desde cedo lê os filósofos alemães, ao mesmo tempo em que tem acesso ao que de mais moderno se produzia à época na literatura mundial.


Em 1921 retona à Argentina onde publica seu primeiro livro de poemas "Fervor de Buenos Aires" e inicia atividade de jornalista e escritor no jornal "Prisma", do qual é um dos fundadores. A partir dos anos 1930 começa sua carreira de ficcionista, escrevendo em um estilo batizado à época de "irrealidade"; mais tarde conhecido como "realismo mágico". Com influências da fenomenologia e do existencialismo, filosofias em voga à época, Borges começa a publicar contos e ensaios em diversas revistas literárias da Argentina e do exterior.

Em 1955 Borges fica completamente cego e nunca chegou a aprender o braille. Mesmo assim, torna-se diretor da Biblioteca Pública Nacional e professor de literatura inglesa na universidade de Buenos Aires. Entre 1967 e 1968 foi também professor na universidade de Harvard. A partir dessa época passa a ganhar notoriedade internacional, tendo seus textos traduzidos para várias línguas e recebendo premiações de diversas instituições. Borges faleceu na Suíça, na companhia de sua companheira e secretária, Maria Kodama.

A literatura de Borges é a literatura filosófica e fantástica; é uma misto de ideias e referências filosóficas, literárias, históricas, fazendo alusões a mitos, religiões e relatos de povos do mundo inteiro. Entre suas principais obras estão "História universal da infâmia" (1935), "Ficções" e "O Aleph", publicados na década de 1940; "O livro dos seres imaginários" (1967), "O informe de Brodie" (1970), "O livro de areia" (1975), entre outros. Borges também escreveu centenas de ensaios sobre diversos assuntos, alguns deles reunidos no livro "Outra inquisições" (1952). Deste livro, publicado em 2007 pela Companhia de Letras, ressaltamos as seguintes passagens:


"As ilusões do patriotismo não têm limite. Nos século primeiro de nossa era, Plutarco zombou daqueles que afirmavam que a lua de Atenas seria melhor do que a lua de Corinto; Milton, no século XVII, notou que Deus tinha o costume de se revelar primeiro para Seus ingleses; Fichte, no início do XIX, declarou que ter caráter e ser alemão é, evidentemente, a mesma coisa."

"Com efeito, se o mundo for sonho de Alguém, se houver Alguém que agora esteja nos sonhando e que sonha a história do universo, como prega a doutrina da escola idealista, a aniquilação das religiões e das artes, o incêndio geral das bibliotecas não será muito mais importante do que a destruição dos móveis de um sonho. A mente que alguma vez os sonhou voltará a sonhá-los; enquanto a mente continuar sonhando, nada se terá perdido."

"No oitavo livro da Odisséia, lê-se que os deuses tecem desgraças para que às futuras gerações não falte o que cantar; a afirmação de Mallarmé 'O mundo existe para chegar a um livro' parece repetir, uns trinta séculos depois, o mesmo conceito de uma justificação estética dos males."
(Imagens: fotografias de portas na cidade de Iguape, SP, de Ricardo E. Rose)

Cerrado e agricultura

sábado, 26 de agosto de 2017
"A desculpa habitual dos que causam a desgraça dos outros é que querem o seu bem."   -   Vauvenargues   -   Reflexões e máximas

O Cerrado é, depois da floresta amazônica, o segundo maior bioma brasileiro com uma extensão original de cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados. A área remanescente que permanece preservada, corresponde atualmente a cerca de 30% da área original. Sua vegetação é composta por diferentes tipos de formações; a floresta, a savana e os campos, dependendo da altitude do terrenos, do relevo e da pluviometria - que não é igual em toda a extensa área do bioma. A maior parte de seu domínio, no entanto, tem precipitações pluviométricas que favorecem a agricultura. O solo, por possuir baixa fertilidade e acidez alta, com elevado conteúdo de alumínio e pouca quantidade de nutrientes, requer correção e adubação adequada.

Em 1975 o governo federal instituiu um programa para acelerar o desenvolvimento dos estados de Minas Gerais, Goiás (que à época incluía o atual estado de Tocantins) e Mato Grosso (não existia o estado de Mato Grosso do Sul), através de diversos financiamentos, visando a construção de estradas, silos, armazéns e a pesquisa agropecuária. Na área da pesquisa, a principal missão da então recém criada Embrapa Cerrados era desenvolver tecnologia agrícola, de modo a viabilizar a agricultura extensiva no solo pouco fértil do Cerrado. Em pouco mais de uma década, desenvolveu-se na região uma vasta atividade agrícola, baseada principalmente na soja e no milho. Atualmente a região é responsável por cerca de 60% da produção de grãos do país. Segundo especialistas, a agricultura na área do bioma ainda tem bastante espaço para crescimento sem comprometer áreas ainda preservadas. Há 50 milhões de hectares de áreas de pasto pouco aproveitadas, que poderiam ser usadas para a produção agrícola.  
    
Se o solo do Cerrado originalmente não é propício para a agricultura extensiva, há outros fatores que ajudam a degradar a terra ainda mais. É o caso do uso excessivo de pesticidas (alguns dos quais proibidos em outros países) e a remoção da cobertura original e exposição do solo às intempéries, provocando erosão e assoreamento dos cursos d'água. São fatores que contribuem para deteriorar o meio ambiente, tornando a atividade agrícola mais custosa.

A convivência de áreas preservadas com a monocultura extensiva e a criação de gado em grandes extensões de terra, tem sido difícil durante toda a história da ocupação do Cerrado, nos últimos quarenta anos. O crescimento do desmatamento é um dos principais indicadores deste conflito. Em 2015 a taxa de desflorestamento do Cerrado foi 52% superior ao da Amazônia, tendo perdido 9.483 km², comparados aos 6.207 km² destruídos da floresta tropical.

As maiores perdas de vegetação original de Cerrado verificam-se na área de expansão da fronteira agrícola, conhecida como Matopiba, que abrange os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Ocupando 73 milhões de hectares, a região é considerada a nova  fronteira agrícola brasileira e tornou-se grande produtora de grãos e fibras.
O controle aéreo do Cerrado, segundo o ministério do Meio Ambiente, será a partir de agora realizado anualmente, como acontece com a Amazônia. Ainda não existe uma série histórica de monitoramentos, mas tomando por base os últimos dados disponíveis de 2009 tudo indica que está havendo uma redução na taxa de desmatamento. Permanece porém o fato de que a legislação permite uma supressão de 80% da vegetação em áreas localizadas no Cerrado, enquanto que na Amazônia Legal esta é de apenas 20%, em zonas florestais. Em recente entrevista ao jornal o Estado de São Paulo, a ex-ministra do Meio Ambiente, Izabel Teixeira, comentou em relação a esta diferença estabelecida no Código Florestal que "é preciso avaliar com clareza a dinâmica do desmatamento e novas medidas que podem assegurar mais proteção."

A depender do atual governo e de seu bom relacionamento com o setor agropecuário - e principalmente com seus representantes no Congresso - será difícil aprovar qualquer medida que possa tolher a ocupação de novas terras. 
(Imagens: fotografias de portas na cidade de Iguape, SP de Ricardo E. Rose)  

Chamfort

sábado, 19 de agosto de 2017
"Diógenes (Diógenes de Sinope, filósofo grego) simboliza a existência na contracorrente, tanto com sua grandeza quanto com seus limites. Seu desprezo pelo rebanho e sua exigência de coerência podem suscitar admiração. Desse modo, pode-se pensar que tanta ostentação na simplicidade indica imenso orgulho."  -  Roger-Pol Droit  -  Um passeio pela Antiguidade

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Sébastien-Roch Nicolas tomou posteriormente o nome de Nicolas de Chamfort (1740-1794); foi poeta, jornalista, humorista e moralista francês. Aluno brilhante na escola e na universidade, logo tornou-se poeta premiado pela Academia e escreveu algumas comédias encenadas pelo Théâtre Français. A fama o torna secretário do gabinete de Madame Elisabeth, irmã do rei Luis XVI.

Em 1781 Chamfort foi aceito como membro da Academia Francesa de Letras. Tendo aderido à Revolução Francesa, tornou-se autor de diversos artigos publicamente atribuídos a outros personagens famosos da Revolução. Ocupou o cargo de bibliotecário da Biblioteca Nacional, mas acaba preso por ter se alegrado com a morte de Marat (líder revolucionário). 

Alguns dias depois é libertado da prisão mas permanece sob vigilância, pedindo demissão do cargo de bibliotecário. Ameaçado novamente com a prisão, Chamfort tenta o suicídio, sem no entanto vir a falecer. Logo após o ocorrido, falando a amigos, ironiza a incompetência com que havia tentado se matar: "O que vocês queriam? É o que dá ser desajeitado; não se consegue fazer nada, nem mesmo se matar." Porém, não consegue se recuperar do ferimento no rosto e no maxilar e morre alguns meses depois.

Se dependesse apenas das suas comédias e dos poemas que escreveu para sua amada, Chamfort seria apenas uma pequena referência de rodapé na história da literatura francesa. O que o imortalizou foram as notas escritas em cartões, que guardou em seus aposentos e nos quais registrou nos últimos anos da vida suas opiniões, reflexões, observações e casos sobre personagens com os quais convivia. 

Estas notas foram publicadas postumamente em 1803 sob título de "Máximas e pensamentos, personagens e casos". Suas máximas são amargas e céticas, mostrando a maneira crítica com a qual via a sociedade aristocrática, a monarquia e suas instituições, a Igreja e a alta sociedade de seu tempo. Chamfort coloca-se na mesma linha dos moralistas franceses como La Rochefoucauld, La Bruyère e autores como Rivarol e Vaunenagres, tendo sido lido e admirado por filósofos como Schopenhauer e Nietzsche. 

Abaixo apresentamos algumas citações de suas "Máximas e Pensamentos" (Editora José Olympio, 2007):

"Nas coisas grandes, os homens se mostram da maneira que lhes convêm mostrar-se; nas pequenas, mostram-se como eles são."

"O que é um filósofo? É um homem que opõe a natureza à lei, a razão ao costume, sua consciência à opinião pública e seu julgamento ao erro."

"Quando alguém quer se tornar filósofo, não se deve deixar desanimar com as primeiras descobertas aflitivas a respeito dos homens. Para conhecê-los é preciso vencer o descontentamento que eles causam, da mesma forma que o anatomista triunfa sobre a natureza, sobre os seus órgãos e sobre a própria repugnância para tornar-se habilidoso em sua arte."

"Aprendendo a conhecer os males da natureza, desprezamos a morte; aprendendo a conhecer os da sociedade, desprezamos a vida."

"A sociedade é composta de duas grandes classes: os que têm mais jantares do que apetite, e aqueles que têm mais apetite do que jantares."

"Tudo nos homens é igualmente vão, tanto suas alegrias quanto seus dissabores; mas é melhor que a bolha de sabão seja dourada ou azul, em vez de negra ou cinzenta."

(Imagens: pinturas de Edward Burne-Jones)

Saneamento básico e modernidade

sábado, 12 de agosto de 2017
"Muito melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir."   -   Machado de Assis   -   A mão e a luva

Cerca de 4,5 bilhões de pessoas em todo o planeta ainda não têm acesso ao saneamento básico. Os dados fazem parte de um relatório recentemente publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Os números refletem a situação da maior parte dos países pobres e em desenvolvimento, nos quais parte significativa de seus habitantes, que juntos perfazem cerca de 60% da população mundial, ainda não dispõem de acesso regular a tratamento de água e/ou esgoto. Mesmo com relação à água, ainda são 2,1 bilhões de pessoas - 27% dos habitantes do planeta - que não são atendidos por suprimento de água potável. Atualmente, ainda cerca de 600 milhões de pessoas compartilham latrinas com estranhos e quase 900 milhões não dispõem de qualquer tipo de instalação sanitária.

Em setembro de 2000 a Organização das Nações Unidas (ONU) havia oficializado a Declaração dos Objetivos do Milênio, documento assinado à época por 191 países. Concordaram estas nações, incluindo o Brasil, em envidar esforços com o objetivo de melhorar a situação em oito principais áreas, chamados de Objetivos do Milênio (ODM); uma das quais - a sétima - incluindo avanços na situação do saneamento básico. O prazo para o cumprimento das metas foi acordado para o ano de 2015.

Em relatório publicado em 2015, a ONU comunicava que de maneira geral, em quase todos as regiões em desenvolvimento (o relatório não cita países), ocorreram avanços em todas as sete áreas do programa; mais em algumas e menos em outras. Especificamente em relação ao saneamento, houve um avanço na oferta de água potável, que disponível para 76% da população mundial em 1990, chegava a 91% em 2015. Dos 191 países que implantaram o programa, 95 conseguiram atingir metas de melhoria no saneamento básico. No entanto, ainda havia muito por fazer na maior parte das nações. A crise econômica, que afetou a economia mundial a partir de 2008, atingiu especialmente os países pobres, limitando seus recursos disponíveis para investimentos em infraestrutura, especialmente saneamento.

Por isso, ainda em 2015, a ONU lançou um novo programa, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Esta nova edição do programa anterior é composto por 17 metas, das quais a sexta tem por objetivo assegurar saneamento básico (água e esgoto) para toda a população mundial, até 2030.

O Brasil é um dos países com o mais baixo nível de saneamento na América Latina. Segundo a ONG brasileira Trata Brasil, o país ainda possui mais de 100 milhões de cidadãos (50,3% da população) sem acesso à coleta de esgotos e somente 42,6% do volume do esgoto coletado é tratado (dados de 2013). No mesmo ano ainda haviam 35 milhões de pessoas sem acesso à água, fornecida por rede de abastecimento. Na média do país, as perdas de água nas tubulações de abastecimento eram de 37%.

É surpreendente que no início do século XXI a maior parte das regiões do planeta, excluindo os países industrializados do hemisfério Norte, ainda apresente níveis de saneamento assim baixo. Já em 2013 a ONU informava que existiam mais pessoas com acesso a telefones celulares, do que a banheiros devidamente assépticos. E pensar que haviam cidades como Mohenjo Daro, estabelecida na região do vale do rio Indo em território do atual Paquistão, que há 4.500 anos atrás já dispunha de sistemas de tubulações, para a coleta dos efluentes da cidade. Comparativamente, a Índia moderna gasta cerca de 50 bilhões de dólares por ano, para tratar de doenças originadas por águas contaminadas por esgotos.

Em todas as principais cidades do mundo organizam-se palestras, seminários e estudos sobre as "smart cities" (cidades inteligentes) e a influência da "internet das coisas" (internet of things - IoT) sobre o futuro planejamento e desenvolvimento urbano. Enquanto isso, ainda existem dezenas (ou centenas) de milhares cidades de diversos tamanhos, que nos países pobres e em desenvolvimento despejam seus esgotos em lagos, rios e nos oceanos, poluindo recursos hídricos essenciais para o equilíbrio ambiental do planeta.

O Brasil é um exemplo típico desta prática, onde o tratamento e a coleta de esgotos não fazem parte da história. Durante o processo de colonização e até o início da industrialização, no final do século XIX, a maior parte das cidades populosas situava-se à beira mar ou rio (Belém, São Luiz, Recife, Salvador, Rio de Janeiro) e os esgotos eram descarregados diretamente nas águas, sem tratamento (o que em parte ainda ocorre atualmente). Foi com a industrialização e a movimentação de grandes contingentes populacionais para os grandes centros urbanos, que surgiu a real necessidade de se implantar sistemas de tratamento de esgoto. As grande obras de saneamento só foram iniciadas durante os anos 1970, quando o governo militar deu início a projetos de infraestrutura de grande porte, como a construção de rodovias, hidrelétricas e estações de tratamento de esgoto. Nas cidades de médio e pequeno porte, a implantação de estações de tratamento de água e esgoto sempre foi dependente de recursos federais ou estaduais, através das companhias estaduais de saneamento.

É pouco provável que diante da situação econômica e política da maior parte dos países pobres e em desenvolvimento, os objetivos da universalização do saneamento sejam alcançados no prazo. A falta de recursos e planejamento, além da questão da corrupção de parte dos governos, são os principais impedimentos para que a maior parte dos países pobres alcance estas metas até 2030. No Brasil, onde já existe um Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) criado em 2007 e em andamento, tudo depende da alocação de recursos e de uma gestão eficiente do programa. Segundo dados do Banco Mundial, publicados na década passada, o país precisaria investir cerca de 25 bilhões de reais ao ano, para atingir a meta de universalização do saneamento até 2030. Mesmo nos melhores anos do governo Lula com o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) I e II, os investimentos não chegaram a estes patamares. Agora, tudo depende da recuperação econômica e da capacidade de gestão de futuros governos.
(Imagens: fotografias de portas da cidade de Iguape, SP por Ricardo E. Rose)

Georg Büchner

sábado, 5 de agosto de 2017

(Publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Georg Büchner (1813-1837), foi escritor, dramaturgo e poeta alemão. Alguns o consideram o "pai do teatro moderno", pelo conteúdo e estilo inovador de suas peças, descrevendo e criticando as condições sociais abjetas em que viviam camponeses e trabalhadores urbanos de sua época. A escolha dos temas sociais fizeram com que Büchner fosse considerado precursor do naturalismo e do expressionismo.

Desde o início da juventude Büchner se envolveu em atividades revolucionárias, fundando o  grupo "Sociedade dos Direitos Humanos". Acusado de ser autor de um panfleto político ilegal, refugiou-se na França e depois na Suíça, onde veio a falecer de tifo com apenas 23 anos. As obras mais conhecidas e significativas do escritor são as tragédias históricas "Woyzeck" e "A morte de Danton".

"A morte de Danton" é provavelmente a melhor obra de Büchner. Trata dos últimos dias de Danton, um dos líderes de Revolução Francesa. Envolvido na atividade revolucionária, Danton se dá conta da falta de sentido da luta na qual estava envolvido. Exatamente o revolucionário que fora um dos idealizadores da revolução, que libertaria os homens, percebe que o movimento e toda a sua violência não fazia mais sentido; não levaria a progresso algum. A peça, apesar de tratar da Revolução Francesa, levanta a discussão sobre o papel do indivíduo na história. Assim o autor faz seu personagem dizer a certa altura da peça: "Somos títeres cujos fios são puxados por poderes desconhecidos; não somos nada, nada nós mesmos."

Uma das discussões que a peça de Büchner levanta é sobre qual seria o papel do indivíduo no processo histórico. Na história somos atores coadjuvantes ou simples figurantes de um imenso teatro, aparentemente sem diretor e enredo?

Um outro tema discutido na peça "A morte de Danton" é a questão do Mal. No terceiro ato da peça, Büchner faz o deputado Payne dizer:

"Pode-se negar o Mal, mas não a dor. Somente a razão pode provar a existência de Deus, o sentimento se rebela contra isso. Lembra-te Anaxágoras: por que eu sofro? Este é o fundamento do ateísmo. A menor contração da dor, que seja somente em um átomo, provoca uma fissura na Criação de cima a baixo."

(Imagem: gravura representando Georg Büchner)

A questão do meme

sábado, 29 de julho de 2017

meme
(inglês meme, redução do grego mimema - atos, imitação, cópia)

Substantivo masculino
1. Imagem, informação ou ideia que se espalha rapidamente através da internet, correspondendo geralmente à reutilização ou alteração humorística ou satírica de uma imagem.
2. Ideia ou comportamento que passa de uma geração para outra, geralmente por imitação

"meme", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013,
(https://www.priberam.pt.dlpo/meme). Consulta em 2/7/2017

Meme é um termo criado em 1976 por Richard Dawkins no seu bestseller "O Gene Egoísta" e é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros). No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma autopropagar-se. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida como unidade autônoma. O estudo dos modelos evolutivos de transferência de informação é conhecido como memética. (Wikipédia em consulta de 2/7/2017)


Se todos os nossos pensamentos são memes que herdamos ou recebemos socialmente, o que na realidade sobra como sendo pensamento efetivamente nosso?
Qual é o substrato em que se desenvolve o meme na mente humana? Como e por que ele se desenvolve na mente humana? Haverá memes que se atraem e outros que se repelem, como polos diferentes de um ímã?

É possível construir teorias culturais a partir de certos memes (religiões, práticas sociais, culturais em geral)?

E as emoções e os sentimentos, como é que estes interagem com o meme? Qual a diferença entre nossas elaborações mentais e o meme?

Convêm analisar os seguintes aspectos:
a) definir o que é meme;
b) Como atua o meme;
c) Como o meme interage com nossos pensamentos e como separá-lo deles?;
d) Qual a função evolutiva do meme?;

Em todo caso cabe analisar o que efetivamente é o meme, não esquecendo que o meme não existe por si; o meme foi criado em alguma mente. Sendo assim é produto de ideias que elaboraram o meme em determinado ambiente cultural.
(Imagens: pinturas de Camille Pissarro)

Efluentes domésticos e reuso de água no Brasil

sábado, 22 de julho de 2017
"O controle das coisas não é a supressão delas, mas seu uso de um modo sensato e adequado. E isso não penetrou na consciência de nossas autoridades." (Allan Watts referindo-se às drogas em Cultura da Contracultura)

O Brasil é um dos países da América Latina com o menor índice de tratamento de esgoto. Cerca de 55% dos efluentes domésticos são coletados, dos quais efetivamente 40% são tratados (dados de 2014). Os principais aspectos no baixo índice de coleta e tratamento de esgotos domésticos está relacionado aos seguintes principais fatores:

a) Aspectos históricos
O tratamento e a coleta de esgotos não fazem parte da história do Brasil. Durante o processo de colonização e até o início da industrialização, no final do século XIX, a maior parte das cidades populosas situava-se à beira mar ou rio (Belém, São Luiz, Recife, Salvador, Rio de Janeiro) e os esgotos eram descarregados diretamente nas águas, sem tratamento (o que em parte ainda ocorre atualmente). Com a industrialização e a movimentação de grandes contingentes populacionais para os grandes centros urbanos, que surgiu a real necessidade de implantar sistemas de tratamento de esgoto. As grande obras de saneamento só foram iniciadas durante os anos 1970, quando o governo militar deu início a projetos de longa duração (construção de rodovias, hidrelétricas e estações de tratamento de esgoto).

b) Aspectos político-administrativos
A tradição política e a administração pública no Brasil sempre teve objetivos imediatos; projetos de alto impacto  e de  curta duração, que pudessem ser implantados durante uma administração (quatro anos) municipal ou estadual. Projetos de longo prazo eram raros. Obras de saneamento geralmente requerem prazos mais longos. Por isso, geralmente quando se falava em saneamento, queria se dizer tratamento de água. É impossível abrir novos bairros ou loteamentos sem disponibilidade de água. No entanto, para o esgoto haviam as fossas céticas e a descarga dos efluentes em rios e no mar. Existe também o aspecto de que obras de saneamento, principalmente o tratamento de esgoto, têm custo elevado e não têm impacto político alto. Ficou famoso o bordão de gerações de políticos brasileiros: "Obra enterrada não traz votos!".


A Lei da Concessões (1995) permitiu que investidores privados pudessem atuar em serviços públicos (energia, saneamento, transporte), através do investimentos em projetos e posterior exploração dos serviços. A lei abriu uma série de oportunidades, mas aspectos legais ainda impedem que o setor se desenvolva plenamente.

c) Aspectos econômico-financeiros
Não haviam fontes constantes de financiamento para a construção de grandes obras. Os grandes projetos de saneamento nas regiões metropolitanas (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre) tiveram início nos anos 1990, quando fundos internacionais - como o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), o alemão KfW (Kreditanstalt für Wiederaufbau) e o japonês JICA (Japan International Cooperation Agency) - estiveram disponíveis para, junto com a contrapartida nacional (fundos estaduais e federais), financiarem grandes obras de saneamento.

À mesma época, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e a iniciativa privada - através de projetos BOT (build, operate & transfer) e PPP (parceria público-privada) - também passaram a investir em obras de saneamento. Cidades como Americana, Ribeirão Preto e Jundiaí, transferiram seus serviços de saneamento para o setor privado.  
  
Não existem fatores que impeçam o reuso de efluentes tratados no Brasil. Afora a legislação que estabelece determinados padrões de qualidade da água a ser reutilizada - equivalentes aos internacionais - não há impedimentos no reuso do líquido. O que ocorre é que até o momento são poucas as iniciativas para a reutilização de efluentes, principalmente em grande escala. Empresas privadas, dependendo de sua área de atuação já reutilizam seus efluentes no processo produtivo. No setor público o maior projeto nesta área no Brasil é o de reaproveitamento de efluentes na região de Capuava, na grande São Paulo. O projeto é uma parceria entre a SABESP (companhia estatal de saneamento do estado de São Paulo) e a construtora Odebrecht, reciclando 395 milhões de litros de efluentes domésticos por mês.

A reutilização de água para outros fins ainda é ideia recente no Brasil, já que os custos da água eram relativamente baixos. A indústria e a agricultura até há pouco nada pagavam pelo uso da água de rios e lagos - a lei de pagamento do uso da água é de 1997 e ainda está em fase de implantação pelos Comitês de Bacias Hidrográficas. As estiagens de 2000/2001 e 2014/2015 aumentaram a conscientização em relação à água e forçaram um maior número de empresas a implantarem medidas de reuso e uso eficiente de água/efluentes.

De acordo com especialistas, alguns fatores que influenciariam o desenvolvimento deste mercado, seriam:
- Não existem impedimento legais/técnicos para reuso de efluentes, afora normas referentes aos padrões de qualidade da água. O maior impedimento continua sendo a relativa facilidade de se obter água limpa a custo razoável, em comparação ao custo da água de reuso;
- O mercado demanda tecnologias que barateassem o custo de tratamento de água de reuso;
- Dependendo da destinação a ser dada a água de reuso, existe a prevenção em relação à origem do líquido. Um projeto recente da SABESP, utilizando água de reuso para consumo humano - cujo equivalente existe na Califórnia, nos EUA - teve que sofrer alterações, dada a resistência da população. Neste caso, uma campanha de divulgação e esclarecimento pudesse trazer mudança de mentalidade na opinião pública. (Cabe ressaltar que quase todos os rios e lagos cujas águas são usadas para tratamento e posterior consumo humano recebem cargas de efluentes domésticos sem tratamento - caso da represa Guarapiranga e do rio Piracicaba, por exemplo);
- Financiamento de projetos públicos e privados de reuso de água/efluentes, desde que tivessem relevância para divulgar o conceito;
- Incentivos fiscais e isenção de taxas para projetos.
(Imagens: pinturas de Peter Huntoon)