Volta o desmatamento na Amazônia

sábado, 26 de novembro de 2016
"Nossa época, embora fale tanto de economia, é esbanjadora: esbanja o que é mais precioso, o espírito." - Friedrich Nietzsche 

Subiu em 24% o corte raso da floresta tropical na região amazônica, durante o período que vai de agosto de 2015 a julho de 2016. Foram derrubados 6.207 km² contra 5.012 no período anterior, pegando de surpresa o governo e as ONGs que atuam na região e voltando a acender o sinal de alerta. Esta é a maior taxa de derrubada nos últimos quatro anos.
O desflorestamento vinha caindo há mais de dez anos, depois de atingir o pico de 27.772 km² de mata cortada em 2004. Medidas implantadas durante os governos Lula e Dilma ajudaram a gradualmente reduzir estes números, fazendo com que em 2012 fossem cortados menos de 5.000 km². Segundo especialistas, a crescente queda no corte da floresta parecia indicar uma tendência que, no entanto, não se manteve por muito tempo. Apesar da crise econômica, que geralmente funciona como uma atenuante nas taxas de derrubada, o ritmo de destruição da vegetação voltou a subir.

Desta vez o corte das árvores se deu em regiões já atravessadas por rodovias. A derrubada da floresta é feita principalmente em terras públicas e têm como principal objetivo a grilagem, a apropriação ilegal de imensas áreas. Depois de retirada a floresta, a terra é ocupada por criação de gado; não tanto para produção de leite ou corte, mas para mostrar que a terra tem dono – ou um ocupante – e está sendo usada para uma atividade econômica, o que fortalece a ideia da posse da área.
O antigo conceito de que era preciso derrubar a floresta para ampliar as atividades agrícolas ou pecuárias está ultrapassado. Hoje existem terras suficientes para expandir a agricultura e a criação de gado em outros lugares, sem necessidade de avançar sobre a floresta. A atual ocupação de terras virgens está muito mais ligada à chegada do grande latifúndio e seus agentes, com objetivo de fazer especulação imobiliária. Existem muito grupos de investimento potencialmente interessados em adquirir grandes extensões de terra na região para investimentos futuros.
A destruição da floresta além de destruir os ecossistemas da região também prejudica populações locais, que há centenas ou milhares de anos estão estabelecidas na região; caso dos ribeirinhos, caboclos e dos índios. Estes povos estão de tal maneira integrados ao ambiente da região, que sua destruição só irá prejudicá-los, afetando seu modo de vida e sua cultura. O impacto ambiental, social e econômico da construção das barragens hidrelétricas nos rios Madeira e Tocantins é exemplo disso.
Outro aspecto é que recentemente, durante a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, o Brasil assumiu, entre outros, também o compromisso de acabar com o desmatamento na Amazônia até 2030. Essa medida deverá ser a mais importante contribuição do país para reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa, já que mais de 60% das emissões brasileiras são causadas por desmatamentos na região.
Especialistas consideram que será difícil reduzir o desmatamento da floresta tropical a zero. Além da complexidade em controlar toda a região, mesmo com a ajuda de satélites, a vasta área ocupada pela vegetação dificulta o acesso dos órgãos de controle e o combate a eventuais desmatamentos. Na melhor das hipóteses, espera-se que gradativamente o governo possa manter uma tendência de queda e chegar a taxas de desflorestamento baixas, mas ainda acima de zero.
(Imagens: desenhos de Wilhelm Busch) 

A eleição de Trump e o meio ambiente

sábado, 19 de novembro de 2016
"La desesperación colectiva es el factor de ruina más potente. El pueblo que cae en ella nunca llega a recuperarse del todo."  -  E. M. Cioran  -  Cuadernos 1957-1972

Depois de Donald Trump ter sido confirmado como o 45º presidente dos Estados Unidos, analistas de diversas áreas vêm tentando prever as conseqüências para o país e o mundo. Tal expectativa se deve ao fato de Trump ter dado as mais inesperadas declarações sobre diversos assuntos, enquanto candidato. Da construção de um muro entre o México e os Estados Unidos ao fechamento das fronteiras americanas aos imigrantes muçulmanos, até a imposição de taxas de importação aos produtos chineses. Isto sem falar dos comentários preconceituosos contra imigrantes latinos, até declarações machistas e a perspectiva do relativo fechamento da economia americana. Se o novo presidente americano colocar efetivamente em prática o que prometeu fazer em diversas áreas, o impacto sobre seu país e o restante do planeta será muito grande.
Nosso tema neste artigo são as perspectivas de desenvolvimento do setor ambiental sob a administração de um governo Trump. Em sua campanha pré-eleitoral o candidato fez diversas declarações sobre temas relacionados à questão ambiental. Entre outras coisas, afirmou não acreditar na existência das Mudanças Climáticas e que se eleito iria tirar os Estados Unidos do Acordo sobre o Clima. Internamente, o candidato declarou que limitará o poder da agência ambiental americana (EPA) e abrirá diversas áreas federais para a exploração do petróleo, gás natural e carvão. Também prometeu paralisar programas de redução de emissões instituídos pela atual administração.
Neste contexto, vamos lembrar que os Estados Unidos são a nação que, pelo menos nos últimos sessenta anos, mais influenciou a economia mundial. Novas tecnologias, novos produtos e maneiras de produzir, técnicas de administração e de marketing, enfim, a América influenciou, apoiou e em parte financiou a expansão do moderno capitalismo. Até as primeiras leis ambientais e grupos ambientalistas surgiram em solo americano. Assim, mesmo sendo o maior consumidor de recursos naturais e gerador de emissões – e até mesmo por isso – a atitude dos Estados Unidos em relação ao meio ambiente é importante para o mundo.
Por isso, se o governo americano reduzir internamente o controle ambiental, desenvolver ações que beneficiem o uso de combustíveis fósseis e internacionalmente se colocar em uma posição contrária à redução global das emissões, isso certamente terá uma influência sobre os outros países, a começar pela China. Trata-se de um bom negócio para governos, principalmente de países em desenvolvimento ainda às voltas com grandes problemas ambientais, reduzirem seus investimentos nesta área sob a alegação de que “a nação mais rica do mundo está fazendo o mesmo”.

Se, aliado a esse posicionamento em relação às questões ambientais os Estado Unidos ainda adotarem uma atitude de isolacionismo econômico, vão provocar atitudes semelhantes em outros países, o que acabará reduzindo os investimentos globais. A rarefação dos investimentos externos significa, para países como o Brasil, menos investidores para projetos de infraestrutura, como saneamento e energia, e paralisação de projetos de novas indústrias – todos envolvendo grandes investimentos em tecnologias de proteção ambiental. A relativa importância que a eleição de um presidente americano possa ter, neste caso poderá aumentar e exercer forte influência sobre o setor de meio ambiente em todo o planeta.
(Imagens: pinturas de Max Liebermann) 

Superestrutura cultural

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Parece que toda a superestrutura e suas materializações - todas as idéias, crenças, costumes, tecnologias, enfim, toda a cultura de uma civilização - está em uma zona etérea, de onde os humanos ao nascerem – e por influência de outros – retiram toda a sua bagagem cultural. Esta está espalhada fisicamente em todos os lugares (qualquer objeto ou atividade humana envolve cultura) no mundo humano e forma como que uma "nuvem de cultura". 

Todos os povos, todas as civilizações, todas as culturas, todos os líderes, artistas, cientistas, pensadores, em suma, toda e qualquer pessoa contribui, mesmo que minimamente, para a formação desta “nuvem de cultura”. Dessa todos também tiramos maior ou menor quantidade, sem que haja diminuição. Uma das poucas coisas - se não a única - que só aumenta, desde que tenha uma base para se fixar (bibliotecas, costumes, construções, tecnologias,etc) e nesta seja registrada através de certos códigos (matemática, notas musicais, imagens, escrita, símbolos, etc.) 

Agora, como se forma ou formou esta dimensão cultural que influencia toda a cultura / civilização? A linguagem – ou as suas diversas formas – é o principal responsável na manutenção, reprodução e transmissão deste “banco genético cultural”?

Em última instância, será essa a contribuição da humanidade no processo de "entropia decrescente”, isto é, acrescentar “ordem” ao processo que começou com o surgimento da vida?

(Imagem: galáxia de Andrômeda)

Newsletter novembro/dezembro 2016

sábado, 12 de novembro de 2016

(publicado originalmente no site www.ricardorose.com.br em 7/11/2016)

Está quase para terminar o ano de 2016 e pouca coisa mudou no país desde o início do ano. Apesar do afastamento da presidente Dilma, sucedida por seu vice-presidente Michel Temer, a economia continua em situação ruim e o desemprego ainda está em crescimento. A inflação começa a retroceder, mas os indicadores econômicos permanecem pouco promissores. A aprovação da PEC 241, que estabelece limite de gastos para o governo nos próximos 20 anos, é um sinal de que o atual governo vai tentar manter os gastos sob controle. Setor privado e a grande maioria dos economistas concordam que o projeto de emenda constitucional será a base para uma série de reformas, que este e outros governos terão que fazer para modernizar o Estado brasileiro. A reforma da Previdência e as reformas Fiscal, Trabalhista e Política, poderão fundamentar as bases para uma economia voltada para o mercado e a livre iniciativa, com menos ingerência do Estado e ao mesmo tempo eliminar diversos privilégios que ainda beneficiam parte da burocracia estatal nos Três Poderes.

Na análise de muitos especialistas o Brasil se encontra em uma encruzilhada. Pode seguir o caminho que vem seguindo deste o governo de Vargas, na década de 1930, com um Estado intervencionista, que se tornou ainda mais estatizante durante o período do Regime Militar. Estatização, burocratização, ingerência na economia, falta de concorrência e transparência são algumas das características deste regime. Economia fechada e aumento de impostos para médios e pequenos empresários e trabalhadores, mas benefícios para aqueles (grandes) grupos econômicos que têm boas relações com o governo. Formação de castas de privilegiados dentro da burocracia pública e nas estatais, que constituem apoiadores e propagandistas deste regime nacional desenvolvimentista. Essas características foram mantidas também durante os governos FHC e PT, com alguns benefícios para as camadas mais baixas da população. Nesta maneira de se apoderar do Estado e de usá-lo em benefício de seus interesses a direita e a esquerda são iguais.

Outro caminho que o país poderá seguir é o de uma economia aberta, voltada para o mercado, onde o Estado e sua estrutura burocrática seriam menores e se ocupariam de coisas essências, como a Educação, a Saúde, a aprovação e o respeito às leis e a gestão pública. Grande parte das atividades atualmente ainda nas mãos do Estado seria transferida para a iniciativa privada, e o governo teria uma forte função fiscalizadora – aquilo que as agências reguladoras deveriam fazer e em grande parte não estão fazendo. Estas providências reduziriam o custo do Estado, liberando mais recursos para outras áreas essenciais, com a Educação e a Saúde. O processo para modernização deverá ser lento, pois reformas estruturais desta amplitude não são possíveis de serem realizadas em poucos anos. Mas é preciso dar início ao processo, estabelecendo metas e constantemente avaliando resultados, já que um dos objetivos é ter uma administração pública mais eficiente (veja-se o atual caso do estado do Rio de Janeiro como exemplo oposto).

Na área ambiental a situação é a mesma da política e da economia; mais do mesmo. Um ano depois do desastre com a barragem de resíduos de mineração em Mariana, o caso está longe de uma solução. O processo contra a empresa Samarco corre com lentidão na justiça e os afetados pela tragédia continuam aguardando por recursos suficientes para definitivamente reestruturarem suas vidas. O rio Doce, que teve todo o seu ecossistema destruído pela lama, ainda permanece morto em grande parte de seu curso, afetando o meio ambiente e as atividades econômicas que dependiam de suas águas.


Na Amazônia aumentou o desmatamento no período 2015-2016, o que coloca mais uma vez o país em situação ruim perante as agências internacionais e também põe em dúvida nossa real capacidade de alcançar o objetivo de “desmatamento zero” até 2030. O setor da agropecuária também deverá começar a se preocupar com suas emissões originadas principalmente na preparação do solo e na criação de animais. Para manter seu lugar de destaque como exportador de alimentos – fato importante para a segurança alimentar do mundo – o país precisará aumentar seus investimentos em pesquisa de novas tecnologias nesta área, a exemplo do que empresas como a EMBRAPA vêm fazendo desde os anos 1980. 
(Imagens: pinturas de Gerhard Richter)

O mundo humano como epifenômeno do mundo material

quarta-feira, 9 de novembro de 2016


A versão humana do mundo e do universo sendo apenas uma das visões possíveis da realidade, condicionada por fatores evolutivos. A “visão humana” como apenas uma forma – e nunca a única – de enxergar o universo. Ainda muito parecida com toda gênese animal da qual proviemos. Seria possível enxergar o universo com olhos não humanos?

E a história individual, onde cada sensação, ideia, etc., tem origem animal e, portanto, condicionada e efêmera?

Serão nossas construções mentais, nossos deuses, nossos impérios, as teorias científicas, etc., por demais antropomórficas, animais (o que afinal somos)?

A perspectiva de que afinal tudo que é humano – nós e nossas construções culturais – é apenas uma visão (a única que podemos conhecer) possível do universo.

Com isso ocorre uma relativização de nossos anseios, planos, esperanças, medos, alegrias, ódios, desejos, idéias pessoais, etc.

(Imagem: cena do filme "2001 Uma odisseia no espaço")

Mudanças climáticas é tema de documentário de Leonardo DiCaprio

sábado, 5 de novembro de 2016
"A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos."  -  Winston Churchill

O ator Leonardo DiCaprio acaba de lançar o filme “Before the Flood” (Antes da enchente). O documentário, que está disponível na internet (https://www.youtube.com/watch?v=90CkXVF-Q8M), trata do fenômeno do aquecimento global e traz entrevistados de peso, como o papa Francisco e o presidente Barak Obama. DiCaprio viaja por vários países, conversando com pessoas comuns e cientistas, discutindo os principais aspectos ambientais relacionado com as mudanças do clima.
Com a película DiCaprio quer alertar um maior número de pessoas sobre o impacto da nossa civilização sobre o planeta e o clima. Anteriormente, em 2006, o ex-vice presidente dos Estados Unidos, Al Gore, havia lançado o documentário “Uma verdade inconveniente” (2006), a primeira grande reportagem sobre o aquecimento global transformada em filme e dirigida para um público ainda alheio ao tema.
Nestes dez anos que transcorreram entre os dois filmes algumas coisas mudaram. Os países oficialmente se posicionaram a favor de medidas de redução de emissões, chegando a assinar um acordo de compromissos durante a COP21, em Paris, em dezembro de 2015. A utilização das energias renováveis tornou-se mais comum inclusive no Brasil, aonde o setor de energia eólica vem crescendo rapidamente e a energia solar começa a ganhar força. Em todo o mundo, segundo dados mais recentes, vem caindo a utilização de combustíveis fósseis em novos projetos de geração de energia.
Ainda com relação à geração de energia, que nos países do hemisfério Norte ocorre basicamente com a queima de carvão mineral, a Europa vem criando leis e padrões para tornar as construções energeticamente mais eficientes. Quase 50% da eletricidade gerada no Velho Mundo são consumidos pelas residências e uma significativa parcela desta energia vai para o aquecimento. Novos prédios já estão sendo construídos com técnicas e materiais diferentes, a fim de alcançarem um melhor isolamento térmico e reduzir o consumo de energia. Os imóveis antigos têm prazo de alguns anos para também se adaptarem à nova legislação.           
Mesmo assim, ainda há muito por fazer para reduzirmos as emissões de gases de efeito estufa – ou pelo menos mantê-las dentro de limites. O setor de transportes ainda é bastante poluente devido à ineficiência energética da maioria dos motores a combustão. O carro elétrico, por outro lado, começa a se impor em muitos países, principalmente no Japão e nos Estados Unidos, onde o estado da Califórnia criou uma lei estabelecendo que 15% dos carros novos devem ser elétricos.   

O setor da economia que depois do da geração de energia mais contribui com as emissões de gases é o da agropecuária. Em suas diversas atividades a agricultura e a pecuária provocam emissões, principalmente o dióxido de carbono (CO²), metano (CH4) e óxido nitroso (N²O). Preparação e adubação do solo e a ruminação e digestão dos bovinos, são os principais geradores desses gases.
Novas maneiras de consumir, novos produtos, novos serviços; enfim, um novo modo de vida necessariamente deverá impor-se. Mas estas mudanças virão devagar, já que todo o sistema de produção também precisará adaptar-se a essa nova economia de baixo carbono. Ainda haverá muita resistência, principalmente das empresas, que tentarão protelar investimentos para substituir tecnologias que se tornam obsoletas.    
(Imagens: gravuras de Oswaldo Goeldi)   

Comentário sobre o filme "Quem somos nós?"

quarta-feira, 2 de novembro de 2016
"Para a pedra atirada, cair não é um mal, nem subir um bem."  -  Marco Aurélio  -  Meditações

Quem somos nós (Original: What the bleep do we know?)
Estados Unidos, 2005
100 minutos aproximadamente
https://www.youtube.com/watch?v=EJIYrIWJ76o

Para discutir a realidade do mundo físico e das percepções, os autores utilizam como enrêdo a vida de uma jovem americana, Amanda, fotógrafa, portadora de deficiência auditiva.
Amanda está abalada, tomando anti-depressivos, por causa de seu casamento que acabou, quando descobriu que seu marido mantinha um outro relacionamento.
A partir desta história diversos especialistas (físicos, médicos psiquiatras, médicos neurologistas, filósofos, engenheiros, professores e líderes religiosos) começam a expor as mais recentes teorias da física quântica, da neurologia e da psicologia comportamental.
Inicialmente, são expostos diversos aspectos da nossa realidade cotidiana, que tomamos como evidentes mas que – segundo algumas correntes de interpretação da moderna física quântica – não são assim tão simples.
Grande parte do que nós chamamos de matéria é na realidade espaço vazio. O átomo é constituído por um núcleo e ondas de elétrons, mas entre os dois o espaço vazio é imenso. O núcleo do átomo é vazio da mesma forma. Na realidade, o mundo das subpartículas só pode ser definido sob três aspectos: idéias, conceitos e informações. A matéria perdeu efetivamente sua materialidade.

Além disso, baseado no princípio de indeterminação (teoria da física que diz que nunca podemos determinar a posição da sub-partícula sem afetá-la) existe a possibilidade (teórica) de que afetemos a própria matéria, ou seja, nossa realidade diária. Aliando o princípio de indeterminação com um outra teoria que diz que uma partícula pode estar em vários lugares ao mesmo tempo, chega-se à conclusão (e esta também não é absolutamente unânime na física teórica moderna) de que influímos a realidade circundante. A partir destas premissas os autores do filme desenvolvem vários raciocínios, colocando questões como:
O que é a realidade, o que vemos ou percebemos?
O que é o passado e o futuro? Por que só lembramos o passado e não o futuro? Por que só podemos mudar o futuro e não o passado?
O passo seguinte do filme é explicar, a grosso modo, como funciona a química cerebral, as percepções, para em seguida formular mais questões, como:
Como funcionam o cérebro e as percepções? Existe uma diferença entre a realidade dentro do cérebro e a exterior? Quem é o observador do mundo exterior? Onde está?
O próximo passo é fazer uma junção entre os pensamentos da física quântica com os da neurologia (novamente frisando de que estas teorias não são compartilhadas pela maioria dos físicos ou neurologistas da atualidade). A proposta é mais ou menos assim: se o mundo exterior é influenciável pelo cérebro e se não existe uma diferença entre a realidade interna e a externa, então podemos alterar de certo modo a realidade (o mundo exterior) e nossa mente (o mundo interior).
A partir daí é um pequeno passo para que a própria pessoa se torne dona do seu destino, podendo moldá-lo e alterá-lo como necessário.
Para dar um toque mais místico ou religioso ao documentário, os diretores convidaram uma líder de uma seita religiosa e um teólogo. Ambos, muito progressistas, colocaram em cheque o conceito de um deus pessoal, controlador e vingativo.
Nossa personagem Amanda, passa no decorrer do filme por várias experiências (que no mundo real teriam enlouquecido qualquer pessoa), para no final ultrapassar seu trauma com o casamento e readquirir sua auto-estima.

As teorias apresentadas no filme não representam o que existe de mais moderno no campo da física de sub-partículas, e no da neurologia – que aliás foi abordada muito superficialmente. O conceito de “ego”, da personalidade por trás dos atos, não foi discutido em detalhes, merecendo uma curta menção apenas.  
O filme, no entanto, levanta muitas questões, despertando o interesse para um aprofundamento do que é discutido. 
(Imagens: pinturas de James Ensor)

Duas boas notícias para o clima da Terra

sábado, 29 de outubro de 2016
"Morra enquanto estiver vivo
  E esteja totalmente morto.
  Então faça o que quiser,
  Tudo estará bem."  -  Bunan, mestre zen citado por Philip Kapleau em "Roda da vida e da morte."

Duas boas notícias sobre o meio ambiente, especificamente sobre as mudanças climáticas, foram recentemente publicadas na imprensa. São parte de uma tendência que aos poucos parece se impor em todo o mundo, à medida que se torna mais conhecido o fenômeno das mudanças climáticas e suas consequências em médio e longo prazo sobre nossa civilização.
A primeira diz respeito ao aumento do uso de energias renováveis. O estado de São Paulo ocupa o segundo lugar em número de conexões de microgeração, tendo aumentado o número de pontos de 106 em 2015, para 711 em 2016 – uma expansão de 670%. No país já são 4.955 pontos de energia solar e 39 de energia eólica. A microgeração de energia distribuída é a geração de eletricidade através de uma central geradora com potência instalada menor ou igual a 100 kW, utilizando fontes de energia renovável, como fotovoltaica, eólica, biomassa, entre outras. Se até há pouco tempo a energia solar fotovoltaica era vista apenas em filmes e reportagens, atualmente ela começa a se tornar comum, incentivada pela resolução 482/2012 da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), possibilitando a autogeração de eletricidade com posterior desconto na conta de luz. O Ministério das Minas e Energia prevê que até 2024, cerca de 700 mil consumidores residenciais e comerciais deverão utilizar pequenas unidades de energia fotovoltaica.
O aumento do uso das energias renováveis é positivo para o país. A maior parte da eletricidade no Brasil é gerada a partir de fontes renováveis, como a água, o vento e a biomassa. No entanto, apesar dos reservatórios das hidrelétricas voltarem a ter água, uma parte significativa de nossa eletricidade – cerca de 8% – ainda provém das termelétricas movidas a óleo ou carvão mineral. Diminuir cada vez mais a dependência de combustíveis fósseis, emissores de gases poluentes, ajudará o país a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa.
Outro fato positivo divulgado pela mídia é a assinatura de um acordo mundial, visando eliminar progressivamente as emissões dos HFCs (hidrofluorcarbonetos). Estes gases passaram a ser usados em sistemas de ar condicionado, refrigeradores e sistemas de refrigeração para substituir os gases CFC (clorofluorcarbonos), que destruíam a camada de ozônio da Terra. No entanto, descobriu-se que o HFC tem capacidade de captar calor 14.800 vezes superior ao dióxido de carbono (CO²), contribuindo bastante para o aquecimento da atmosfera.
Segundo o acordo, a Europa e os Estados Unidos, que dispõem das maiores quantidades de aparelhos e sistemas de refrigeração e ar condicionado, serão obrigados a reduzirem suas emissões deste gás em 10% até 2019 e 85% até 2036, tendo como base os níveis de emissão de 2001-2013. Os demais países, incluindo o Brasil, deverão começar a diminuir as emissões deste gás a partir de 2024. Segundo os cientistas, a redução do HFC na atmosfera poderá evitar o aumento de 0,5ºC na temperatura medial global até 2100.
Fatos como esses mostram que tanto local como globalmente está aumentando a conscientização em relação ao meio ambiente. Se muitas vezes, como no caso do Brasil, a motivação é econômica (a autogeração de eletricidade é mais barata), isto é um indicativo de que as tecnologias limpas tendem a tornar-se mais econômicas e deverão substituir aquelas mais poluentes.
(Imagens: pinturas de Edward Munch)

Divagando sobre o tempo

quarta-feira, 26 de outubro de 2016
"Do mesmo modo, o triste plantador de uma vinha hoje velha e enfezada acusa a ação do tempo, queixa-se repetidamente da sua geração e resmunga que os homens antigos, cheios de piedade, passavam uma vida fácil num pequeno campo, quando era menor a quantidade de terra que cabia a cada um: e não vê que tudo se enfraquece pouco a pouco e se dirige para o esquife, fatigado pelo decrépito tempo da idade."  -  Tito Lucrécio Caro  -  Da natureza

Platão falava “que tudo está se tornando, nada é”.
Lembro-me de quando era criança e passava férias na praia. Ao lado de nossa casa havia uma família de caiçaras, que morava em uma casa de madeira, um pouco melhor que um barraco. Pois bem, passou o tempo e alguns anos depois estas pessoas construíram uma casa de tijolos. Viveram lá por mais alguns anos. Depois morreu o patriarca da família e eles também se mudaram, vendendo a casa para veranistas de São Paulo.

Pergunto-me onde está aquela casa de madeira que primeiro conheci e como tudo foi se transformar em outra coisa, no mesmo espaço, mas completamente diferente habitado por outros indivíduos, com histórias completamente diferentes.

Como entender esta mudança?
É este processo de mudança completamente aleatório, sem qualquer vínculo com o passado? Em outras palavras, o que uma coisa – neste caso a casa de madeira, habitada por caiçaras, que lá viviam suas vidas – tem a ver com o que existe lá agora, a casa de tijolos, eventualmente visitada por pessoas em férias e vazia na maior parte do tempo fora da época de temporada?

Existe uma ordem de mudança nisto, ou seja, há uma maneira de, partindo do presente, fazermos uma idéia do passado? Talvez olhando o fato de certa maneira sim, com relação à substituição da casa de madeira pela de tijolos. O que não sabemos é porque esta mudança ocorreu – como saberemos o que levou os antigos habitantes construir uma casa de tijolos e depois vendê-la?

Isto nos leva a outra questão, muito antiga e não respondida ainda, mas tratada por inúmeros filósofos e físicos: o que é o fluxo do tempo? Penso que não há fluxo nenhum. O que ocorre são transformações na matéria; movimento no espaço, mudanças na aparência (quebra, envelhecimento, doença, destruição por substâncias ou organismos, por exemplo). Trata-se, essencialmente, de transformação da matéria, principalmente no nível atômico e subatômico (as menores partículas das quais é constituída a matéria).

Imagino que se fosse possível cessar completamente o movimento dos átomos, dos elétrons, fótons e todas as outras subpartículas, não haveria mais qualquer movimento na matéria, não ocorreriam mais interações e transformações e o que nós chamamos de fluxo do tempo pararia. Não havendo mais qualquer tipo de transformação na matéria, não há mais escoamento do tempo. Um universo congelado.

Mas, voltando ao exemplo inicial, da casa do caiçara transformada em casa de praia. A transformação das coisas ocorre porque na natureza (penso aqui nos fatores não-humanos) existem duas principais tendências: a entropia crescente, ou seja, a desagregação e perda de energia e organização, como afirma o segundo princípio da termodinâmica. A outra tendência, presente em todos os seres vivos, é a tendência de aumentar e manter a organização – a entropia decrescente. (Fica a pergunta se formações cristalinas podem ser incluídas nessa segunda tendência). Todos os seres vivos lutam contra a desagregação, representados pelo desgaste do organismo (gradual falência dos órgãos e demais sistemas de manutenção da vida) e doenças (ataques de outros seres vivos, como bactérias e fungos e não vivos, como os vírus).
(Imagens: pinturas de Gabriele Münter)

A ameaça da degradação dos solos

sábado, 22 de outubro de 2016
"Como poderão ver, tudo se constrói a partir do eixo de um condicional: se algo existe em vez de nada, então existem fatos que tornam possível a existência das coisas que existem. Este é o chamado condicional de base."  -  Markus Gabriel  -  O sentido da existência - Para um novo realismo ontológico

A destruição de solos férteis é um dos mais graves problemas a serem enfrentados pela maioria dos países. Assim como o efeito estufa, a poluição dos oceanos e a diminuição dos recursos hídricos, o desaparecimento de solos agricultáveis é mais um fator de preocupação com relação ao futuro da humanidade.
Atualmente cerca de 38% das terras do planeta são usadas para atividades agrícolas. No entanto, em grande parte dos países, principalmente as nações pobres, a agricultura tem sido feita de maneira insustentável, sem levar em conta o impacto da atividade sobre o meio ambiente e os demais recursos naturais, principalmente o solo. Assim, por exemplo, a falta de técnicas de combate à erosão, como o plantio em terraços, faz com que a chuva arraste parte da terra fértil, encharcada de adubos e defensivos agrícolas, para a parte mais baixa do terreno e dali para os riachos e córregos.
A eliminação da mata ciliar que vai beirando os cursos d’água, tendo para estes uma função protetora, faz com que parte da terra lavada pela chuva da área de plantio, acabe assoreando os rios e poluindo suas águas com excesso de fertilizantes e defensivos. Muitas vezes são destes mesmos rios que os agricultores vizinhos e cidades da região captam água para consumo humano. Ao mesmo tempo, não penetrando devidamente no solo, o lençol freático não é suficientemente abastecido com água, sofrendo queda constante e forçando os agricultores a buscarem água em profundidades cada vez maiores – fato que acontece na Índia e no Paquistão há alguns anos e que por fim secará o subsolo.
Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) a degradação do solo é definida como uma mudança na saúde da terra, com a diminuição da capacidade dos ecossistemas que se desenvolvem sobre este solo, de fornecerem bens e serviços. Esta mudança não se limita à disponibilidade de água; inclui presença ou não de microrganismos endógenos, composição balanceada de minerais e de matéria orgânica, acidez e aeração correta, entre outros fatores.
Nem todos os solos são naturalmente propícios à agricultura, há que corrigi-los. Da mesma forma, solos originalmente indicados para o plantio são desequilibrados por uma prática incorreta. Esta é a razão pela qual a atividade humana aumentou em 10 a 40 vezes a velocidade de ocorrência da erosão, em comparação às condições naturais. Aqui vale lembrar que a natureza leva em média 500 anos para repor 2,5 cm de solo fértil. A prática agrícola necessita em média de uma camada de 15 a 30 cm de solo e esgota 2,5 cm deste solo fértil a cada 25 anos. Com isso, os Estados Unidos estão perdendo solo 10 vezes mais rápido que a capacidade natural de reposição; a China e a Índia 30 a 40 vezes.


Uma das maiores preocupações da FAO é manter a produtividade dos solos, para que no futuro não ocorra uma queda na produção de alimentos. Desflorestamento, formação excessiva de pastos, técnicas agrícolas ultrapassadas, são os maiores responsáveis pela perda de solos férteis no Brasil. Num mundo que em 40 anos perdeu 30% de seus solos aráveis, nosso país ainda está em posição privilegiada, mas precisa aumentar os cuidados com a manutenção desse patrimônio natural. Fertilidade é um presente da natureza, que para ser recuperado demanda muito tempo e recursos.    
(Imagens: fotografias de August Sander)

Meio ambiente e eleições municipais

sábado, 15 de outubro de 2016
"A Fotografia não rememora o passado (não há nada de proustiano em uma foto). O efeito que ela produz em mim não é o de restituir o que abolido (pelo tempo, pela distância), mas o de atestar que o que vejo de fato existiu."  -  Roland Barthes  -  A câmara clara

Estamos a alguns dias das eleições municipais de 2016. A crise econômica e principalmente a nova legislação eleitoral, fez com que nesse ano as campanhas fossem mais modestas e menos ruidosas. Porém os temas tratados pelos candidatos continuam os de sempre: saúde, educação, transporte, segurança, emprego, entre os principais. Na maior parte das cidades o emprego e a saúde se tornaram prioritários, refletindo o desmonte da economia e a falta de recursos no governo federal. Infelizmente, entra eleição e sai eleição, dada a falta de uma infraestrutura básica, continuamos a nos preocupar com os mesmos velhos problemas. Ainda estamos longe de incorporar novas tecnologias e conhecimentos à gestão pública, como já fazem outras comunidades mundo afora. 
Basicamente são poucas as novidades em relação aos anos eleitorais anteriores, até mesmo na pouca importância que partidos e candidatos continuam dando à questão ambiental. Saneamento, serviço que parte considerável das cidades brasileiras não dispõe – cerca de 50% – continua sendo tema completamente ausente dos debates. A realidade é que as cidades de pequeno e médio porte não têm recursos suficientes para implantar sistemas de coleta e tratamento de esgoto. Dependem dos governos estaduais e de recursos federais que, todos sabem, estão escassos ou indisponíveis. Sendo assim, não se toca no assunto, já que a maior parte dos munícipes nem se preocupa com o assunto, não sabendo que os efluentes de sua casa são descarregados no rio onde muitos pescam aos domingos.
Os candidatos a prefeito de São Paulo vêm apresentando algumas idéias com relação ao meio ambiente, dado que no caso da maior cidade do país não é possível fugir do assunto. Mas todas, segundo os especialistas, são propostas genéricas, muitas delas inevitáveis, já que se destinam a cumprir a lei – no caso a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) que em São Paulo passará a vigorar a partir de 2018. Outras sugestões dos candidatos incluem a criação de um maior número de parques, a educação ambiental nas escolas, a introdução dos LEDs na iluminação pública e colocação de placas fotovoltaicas no topo dos prédios. Realmente, nada de novo. O que os candidatos vêm esquecendo é a necessidade de implantar medidas para reduzir as emissões veiculares, como a volta do Controlar que, cedo ou tarde, terá que ser reativado. A questão das enchentes é outro problema que a cada ano, na época das chuvas, volta a afetar grande parte da população.

Enquanto a administração pública seja na figura do prefeito, dos vereadores e na própria burocracia administrativa, não houver incorporado a importância do meio ambiente e dos recursos naturais, nossas cidades continuarão sendo malcuidadas, feias e sujas. Se o planejamento urbano continuar a ser orientado apenas pelos interesses econômicos ou por políticas imediatistas, ainda enfrentaremos os mesmos problemas urbanos por décadas. O cidadão brasileiro, tendo testemunhado a corrupção e inépcia administrativa que vem sendo colocada a público nos últimos meses, está cansado de continuar empregando administradores públicos incompetentes, quando não criminosos. As idéias da modernidade precisam ser incorporadas à ideologia e à pratica da gestão pública brasileira.
(Imagens: fotografias de Koen Wessing)

Gestão urbana e meio ambiente

sábado, 8 de outubro de 2016
"Por que nós compreendemos mal a seleção natural e por que o criacionismo se sai tão bem em um ambiente fundamentalista cristão? A resposta é que a nossa mente tem uma inclinação natural para aceitar uma perspectiva criacionista. Afinal de contas, o criacionismo foi criado pela mente humana, enquanto que a evolução por seleção natural é um fato descoberto."  -  Bruce M. Hood  -  Supersentido

Nas campanhas dos candidatos para as eleições municipais chamará mais uma vez atenção o pouco destaque que terão as questões ambientais. Ao invés de incorporarem o assunto como tema transversal, os candidatos se limitarão a atacar os sintomas - as péssimas condições do transporte, a falta de parques, as enchentes, e outros males que nos afetam há décadas - ao invés de atacar as causas, trazendo a ecologia para a gestão das cidades.
Um dos maiores problemas nas médias e grandes cidades brasileiras, a questão da mobilidade da população, tomou proporções tais que se transformou em fator gerador de grandes impactos ambientais e de problemas de saúde pública. Historicamente, o transporte urbano sempre foi tratado de maneira simplista, sem planejamento de longo prazo. As soluções sempre foram as de mais fácil introdução; ampliar o uso do ônibus e do automóvel particular, demandando menos recursos e tempo de implantação e rendendo dividendos já nas eleições seguintes. Cidades como Londres, Moscou e Paris, iniciaram a construção de seus sistemas metroviários no final do século XIX e na primeira década do século XX, enquanto que no Brasil a primeira linha foi iniciada nos anos 1970, em São Paulo.
Os parques públicos, construídos na maioria das grandes cidades principalmente para servirem de área de lazer e contato com o verde para as classes trabalhadoras, também não fizeram parte do planejamento das nossas administrações municipais. O problema é nítido nas periferias das grandes cidades, onde o poder público raramente considerou o lazer de seus moradores; em sua maioria trabalhadores assalariados de baixa renda. A falta de parques e outros locais de lazer e cultura é um dos fatores que contribuem com a sensação de falta de perspectivas da população que mora nos bairros mais afastados. Iniciativas recentes como a utilização de escolas para tais atividades são ações paliativas.
Todo verão voltam as enchentes, que afetam a vida de centenas de milhares de cidadãos. Não se trata, evidentemente, de um fenômeno que só ocorre nas cidades brasileiras. Várias cidades da Europa e dos Estados Unidos são regularmente afetadas por enchentes, provocadas principalmente pelo degelo da primavera, aumentando o volume dos rios. No Brasil o problema sempre foi empurrado com a barriga, tratado como fato inevitável, "acidente da natureza" (desculpa cara a uma cultura ainda supersticiosa), deixando a população à sua própria sorte – coincidentemente sempre os mais pobres. Investimentos na previsão e na prevenção de catástrofes, salvo raras exceções em cidades onde já ocorreram tragédias, ainda são pouco priorizadas já que os afetados têm pouca força política e econômica.

De uma maneira geral os candidatos e seus partidos ainda não se deram conta de que muitas das mazelas de nossas cidades poderiam ser minoradas se o aspecto ambiental fosse considerado no planejamento urbano. Ao longo da história das cidades acumularam-se problemas, que deram origem a outros. A intervenção do poder público sempre foi pontual, o que pouco contribuiu para dar um novo direcionamento ao crescimento urbano e às atividades econômicas e sociais que se exercem na cidade. A situação chegou a tal ponto, que já não existe mais um conjunto de soluções que possam melhorar em pouco tempo a condição dos centros urbanos. O que podemos esperar é que um sequencia de boas administrações comece gradualmente a ordenar o caos que se instalou.
(Imagens: pinturas medievais)

Morte da fauna silvestre nas estradas

sábado, 1 de outubro de 2016
“Se acredito na vida após a morte? Não sei nem se acredito na vida antes da morte! Acho que acredito na morte durante a vida.” - Groucho Marx

As autoestradas brasileiras são responsáveis por um número considerável de mortes de animais silvestres. Segundo cálculos do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estadas (CBEE), da universidade de Lavras, cerca de 475 milhões de animais silvestres são mortos por atropelamento no país por ano. Os dados representam uma taxa média e foram obtidos de 14 estudos científicos realizados por diversas fontes. Só para efeito de comparação, segundo dados do governo alemão publicados em 2012 na revista Focus online, são atropelados em média na Alemanha 500 mil animais por ano. Este número também é bastante significativo, considerando que o país é 23 vezes menor que o Brasil e tem um sistema rodoviário e de controle ambiental bastante organizado. Nos Estados Unidos, segundo dados publicados pelo jornal New York Times em 2010, são mortos um milhão de animais por dia, entre pássaros, répteis, mamíferos e anfíbios.
De uma maneira geral, os atropelamentos de animais se devem a alguns fatores comuns às diversas regiões. Diminuição das áreas de vegetação original, incêndios, seca, redução de alimentos, caça e extração ilegal de madeira; são fatores que fazem com que os animais se desloquem para salvar a vida e procurar alimentos em outro lugar. Nessa viagem, às vezes percorrendo dezenas de quilômetros, acabam chegando às autoestradas e, ao tentar atravessá-las, são atropelados e muitas vezes provocam acidentes graves.
Há casos como aqueles relatados em reportagem recente no jornal O Estado de São Paulo. Anhanguera, uma suçuarana macho jovem, recebeu este apelido por ter sido atropelada na rodovia com o mesmo nome. Acolhido em um centro de recuperação, recobrou a saúde e depois de um ano foi solto na Serra do Japi, na região de Jundiaí. Depois de um ano, o mesmo animal foi novamente atropelado e morto na rodovia Bandeirantes, que passa perto da serra. Destino semelhante teve um lobo guará, encontrado desorientado na região de Campinas. Solto novamente, se deslocou para uma área que pegou fogo, sendo atropelado enquanto fugia das chamas.
Segundo o especialista que coordena uma das unidades de recolhimento destes animais, existem dúvidas em relação ao elevado número de animais mortos, segundo as estatísticas. O que acontece, no entanto, é que somente 1% do número total de animais mortos é de grande portes. Os pequenos praticamente desaparecem prensados no asfalto ou são consumidos pelos urubus e carcarás. Isto quando não são imediatamente atirados para fora da pista, vindo a morrer em algum barranco da estrada.

Uma das soluções apresentadas para diminuir esta matança de animais silvestres é a aprovação do Projeto de Lei 466/2015, apresentado pelo deputado Ricardo Izar (PSD-SP), que tramita em regime de urgência na Câmara. O projeto cria regras para construção de estradas, coleta de dados sobre fluxos de animais e implantação de medidas que facilitem o movimento da fauna através das regiões, entre outras providências. O PL foi elaborado em conjunto com entidades ambientalistas e especialistas no assunto.
Enquanto o marco legal não é aprovado, os processos de licenciamento das rodovias estão exigindo providências, que possam reduzir os casos de atropelamento, principalmente nas regiões mais sujeitas a este tipo de acidente. É o mínimo que se pode fazer para preservar espécies animais muitas vezes ameaçadas.
(Imagens: Projetos da arquiteta Lina Bo Bardi) 

Má qualidade do ar mata cada vez mais

sábado, 24 de setembro de 2016
"Se a Roma Antiga caíra, por que não a moderna Europa? O que quer que fosse responsável pelo movimento da história, certamente não seria a Razão. Na visão de Gibbon, na verdade, a Razão muitas vezes é a racionalização, no sentido freudiano de conferir um ilusório ar de plausibilidade a alguma motivação vergonhosa."  -  Terry Eagleton  -  A morte de Deus na cultura

Relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), publicado em maio de 2016, informa que mais de 80% das cidades que em todo o mundo que monitoram a qualidade do ar, têm índices de poluição atmosférica acima dos padrões estabelecidos pela OMS. Das 2.972 cidades avaliadas pelo órgão, 2.842 excedem o limite anual de 20 µg/m³ (20 microgramas por metro cúbico). Segundo a ONG brasileira Instituto Saúde e Sustentabilidade, o Brasil ainda adota padrões de medição da poluição do ar na faixa de 50 a 150 µg/m³/ano e no estado de São Paulo de 40 a 120 µg/m³/ano, o que demonstra nosso atraso com relação aos padrões da OMS.
Outro aspecto da situação brasileira é que são pouquíssimas as cidades que têm algum sistema de medição da qualidade do ar; apenas 1,7% dos municípios brasileiros, dos quais a maior parte está localizada na região Sudeste. Das cerca de 95 cidades brasileiras que têm algum tipo de monitoramente de suas atmosferas, 40 apresentaram índices de poluição do ar acima dos padrões da OMS - cerca de 42% das cidades regularmente monitoradas.
Uma das regiões com a mais baixa qualidade do ar no país é a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), que abrange a cidade de São Paulo e mais 38 municípios do entorno. Trata-se de uma área de aproximadamente 8.000 km² e 21 milhões de habitantes, onde rodam cerca de 8 milhões de veículos, entre automóveis, caminhões, ônibus e utilitários. Já em 2011 o Instituto Saúde e Sustentabilidade informava que 4.655 pessoas morriam na cidade de São Paulo, devido a problemas de saúde causados diretamente pela poluição atmosférica.
Os problemas causados pela poluição são os mais diversos podendo agravar doenças preexistentes ou provocar o aparecimento de novas. Quatro são os principais agentes poluidores do ar: o gás monóxido de carbono (CO) que pode provocar tontura, alterações no sistema nervoso central e acentuar doenças cardíacas preexistentes; o gás dióxido de enxofre (SO²) que provoca coriza, catarro, danos aos pulmões e em doses excessivas pode causar a morte; o gás óxido de nitrogênio (NOx, NO²) que causa afecções respiratórias e alterações celulares; e o material particulado (fuligem, poeira e a fumaça), que causa alergias, bronquites e pode provocar o câncer. Fato é que a poluição do ar provocada principalmente pela queima de combustíveis como o diesel, a gasolina e o etanol é comparável à fumaça do cigarro: sabe-se que prejudica a saúde de diversas maneiras, mas é possível que seu efeito pernicioso seja ainda maior.

A OMS tem diversas estatísticas sobre doenças e mortes provocadas pela poluição do ar. Em cidades como Nova Delhi, na Índia, e Pequim, na China, os índices de poluição de ar são de 300 µg/m³ - mais de 10 vezes acima do nível máximo fixado pela OMS. Não é por coincidência que nesses países morrem cerca de 1,5 milhões de pessoas por ano, por doenças e suas consequências provocadas pela má qualidade do ar.
A poluição do ar nas cidades é provocada por atividades industriais e, principalmente, por emissões veiculares. Para controlar e reduzir gradualmente a poluição do ar é necessário que governos estaduais e municipais instituam ou ampliem sistemas de medição e monitoramento, tanto para as indústrias e principalmente para os veículos. Não é mais aceitável que veículos poluidores continuem rodando por nossas cidades, indiretamente ceifando vidas humanas.
(Imagens: imagens do Museu Brasileiro de Escultura - projeto do arquiteto Paulo Mendes Rocha)

Comentário sobre o filme KOYAANISQATSI

quarta-feira, 21 de setembro de 2016
"O homem médio, que não sabe o que fazer com a vida, quer uma outra vida que vai durar para sempre." - Anatole France


O filme KOYAANISQATSI é uma das melhores visões do funcionamento do capitalismo industrial como era na década de 1980 e em grande parte ainda é hoje. As imagens combinam com a música de Philip Glass e mostram diversos aspectos da nossa sociedade, muitas vezes criticamente.

A película, no entanto, não apresenta diálogos ou narrativas. O artifício utilizado pelos produtores é apresentar uma seqüência de imagens, associadas a um fundo musical, desenvolvido especialmente para o documentário.

O filme começa mostrando o ambiente natural, onde o ser humano não está presente: vales e rios selvagens, nuvens e grandes planícies desertas. Aos poucos a câmera começa a se aproximar “da casa do homem”: minas a céu aberto, grandes campos cultivados, usinas hidrelétricas. A partir daí, através das rodovias, o filme passa a mostrar o ambiente urbano. Diversos aspectos da vida na cidade, como o tráfego durante várias horas do dia e da noite, jogos de luz nas fachadas dos prédios, as estações do metrô, a bilheteria de um jogo de futebol americano... O filme apresenta diferentes ângulos das grandes avenidas. 

O passo seguinte é mostrar o interior daquele complexo sistema que chamamos de cidades: as linhas de produção de automóveis, de alimentos, restaurantes, lojas de departamentos, bares, parques de diversões. Tudo ao som da música eletrônica, tocada ao ritmo das imagens em movimento.

Por fim, o filme mostra o lançamento da nave Discovery, com a cena da explosão que vitima todos os tripulantes. Em seguida, a câmera volta às imagens iniciais do filme: pinturas rupestres dos indígenas americanos. Ao final, é explicado o significado do título do filme, “Koyaanisqatsi”: em língua hopi quer dizer confusão, fora de lugar, sem equilíbrio, aquilo que não pode acabar bem. 

Filme: KOYAANISQATSI

Direção: Godfrey Reggio e Francis Ford Coppola

Tema: documentário sobre a sociedade industrial

País: Estados Unidos, 1983

Duração: 87 minutos

Música original: Philip Glass

Link: https://www.youtube.com/watch?v=i4MXPIpj5sA

(Imagem: pintura de Abraham Palatnik)

Reciclagem na indústria automotiva

sábado, 17 de setembro de 2016
"Eu realmente não comecei a aprender nada, até depois de ter concluído meus estudos."  -  Anatole France, citado em Quips & Quotes de Evan Esar

A indústria automobilística é um dos mais importantes segmentos do setor industrial em todo o planeta. No Brasil, o setor automobilístico emprega cerca 140 mil pessoas e gera em torno de um milhão de postos de trabalho indiretos, em diversas áreas da economia. Apesar disso, o automóvel é um dos produtos industriais que mais gera impacto ambiental; desde sua fabricação, passando por seu uso, até sua destinação final.
Um dos mais cobiçados bens de consumo da economia de mercado desde a segunda metade do século XX, o automóvel é filho dileto da Revolução Industrial. Desenvolvido no final do século XIX como meio de transporte das elites abastadas da Europa, o veículo foi popularizado nos Estados Unidos pelo aumento do número de fabricantes e a introdução da linha de produção nas fábricas de Henry Ford.
Após a Segunda Guerra, quando as grandes marcas automobilísticas se estabeleceram em novos mercados consumidores – entre os quais o Brasil –, o carro se transformou em símbolo de ascensão social da nascente classe média urbana. Além disso, influenciou o desenvolvimento viário e o transporte público das cidades, cujas administrações passaram a dar prioridade ao transporte individual, atendendo a demanda dos grupos econômicos mais influentes.
A hegemonia do automóvel também trouxe problemas ambientais: atualmente os veículos são a quarta maior fonte poluidora da atmosfera do planeta. No Brasil, o problema é minorado graças à adição de 25% de etanol à gasolina e aos carros flex utilizando 100% etanol, o que faz com que nosso combustível seja mais renovável do que os de outros países. Mesmo assim, ainda há muito que fazer quanto à eficiência dos motores da maioria dos veículos populares vendidos no país.
Outro aspecto é quanto à reciclagem dos componentes dos veículos, depois de seu uso. Segundo empresas que atuam no mercado de reuso e reciclagem de peças automotivas, dos veículos modernos com menos de 15 anos, 85% dos componentes são reaproveitáveis, 10% é reciclável e apenas 5% devem ser descartados. Nos Estados Unidos cerca de 80% dos veículos passam por um processo de reciclagem e na Europa 75%. No Brasil, segundo dados mais recentes, apenas 2,5% dos veículos vão para a reciclagem, enquanto que 97,5% acabam em depósitos e desmanches, onde uma parte considerável dos componentes e das peças ainda utilizáveis termina sendo descartada.
O princípio por trás da reciclagem e do reuso das peças de veículos é o mesmo de toda a economia circular: poupar os recursos naturais. Se menos peças precisarem ser fabricadas, menos minério de ferro e alumínio será extraído; o reuso de peças de plástico economiza petróleo; o reaproveitamento de materiais diminui o uso de água e eletricidade. É o princípio de gestão que empresas de vanguarda na indústria automobilística, como a General Motors, a Ford, a BMW, a Audi e a Nissan já vêm utilizando.
A legislação sobre reciclagem de peças automotivas, recentemente criada, além de coibir os desmanches ilegais, abre um novo mercado de atuação para centenas de recicladoras.
Ajudaria a desenvolver ainda mais esta atividade um maior envolvimento das montadoras, apresentando a reciclagem de seus veículos como uma vantagem adicional, poupando recursos naturais e contribuindo para o bem estar dos consumidores. Nada mais moderno.
(Imagens: fotografias de Mário de Andrade) 

Perguntando é que se aprende (XXI)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016
"Esse dom de observação que se chama conhecimento do mundo, vereis que na maior parte dos casos serve para tornar os homens astutos e não propriamente para os tornar bons." - Samuel Johnson

Desde o impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff, grupos de oposição ao atual presidente defendem o "Fora Temer!". As manifestações, encabeçadas por militantes do PT e de outros partidos de esquerda, centrais sindicais e entidades financiadas por governos Lula e Dilma, fazem parte do jogo democrático baseado na divergência de opiniões.

O "Fora Temer!" para muitos dos opositores do presidente recém empossado, também implica a convocação de novas eleições, ou seja, eleições gerais. A hipótese das eleições gerais requer mudanças na Constituição e que todos os membros do Congresso abram mão de seus mandatos, o que é pouco provável senão impossível. Além disso, ficam também sem serem votadas pelo atual Legislativo as reformas da Previdência, da legislação trabalhista, a reforma fiscal, a reforma política e outras ainda previstas para o atual mandato.

Mas, admitamos que ocorresse um milagre e que em nome do bem estar do povo e do futuro do Brasil, fossem convocadas eleições gerais para presidente, governadores e Legislativo (alguns pretendem incluir prefeitos e vereadores). Dada esta situação, pergunta-se:

1. Quem serão os novos candidatos aos cargos eletivos no Congresso e nos Executivos (federal e estaduais), capazes de reverter a atual situação do país? Onde estão estes novos candidatos, ainda desconhecidos do povo?

2. Poderá ocorrer que nestas eleições gerais os candidatos sejam exatamente os mesmos ou outros, porém alinhados aos mesmos interesses de classe e de grupos?

3. Teremos como concorrentes os mesmos desgastados partidos - que já mostraram, cada um deles, a que vieram ou não vieram - ou em curto espaço de tempo (alguns meses) se formarão agremiações completamente novas e, mais, com novas ideias?

4. Na impossibilidade de serem votadas as reformas que o país precisa, serão estas incorporadas aos programas políticos dos novos candidatos, ou seja, eles dirão que votarão leis que desagradam grupos de interesses? 

5. Poderá ocorrer que estas eleições gerais se transformem no maior embuste da política brasileira, promovendo "mudanças para que tudo fique como está"?

6. A quem realmente interessa o hipótese de "Fora Temer e eleições gerais"? Aos que pretendem, nas condições dadas, promover uma mudança no Estado, ou àqueles que nada querem mudar; apenas voltar ao poder através do discurso demagógico?

7. Na hipótese de que os fatos acima não se concretizem, o que parece o mais provável, quando nossos nobres deputados e senadores votarão as mudanças que o país tanto precisa?