Natureza e felicidade

sábado, 28 de fevereiro de 2015
"No fim das contas, tudo o que havíamos chamado de 'matéria', 'vida', assim como 'natureza', 'deus', 'história', 'homem', precipita-se na mesma queda. A 'morte de Deus' é exatamente a morte de todas as substâncias-sujeitos. Assim como a primeira, essas mortes são muito extensas, intermináveis para a nossa percepção e até mesmo para nossa imaginação. E, além disso, elas trazem em si potencialidades outrora insuspeitas sobre a morte prática e concreta dos seres vivos, dos homens - e, por que não? - do mundo."  -  Jean Luc Nancy  -  Arquivida -  Do senciente e do sentido

Hoje nossa cultura dá muito valor ao bem-estar, à alegria e, cada vez mais frequentemente, à felicidade (ou aquilo que as pessoas consideram como tal). Atendidas as necessidades básicas de alimentação e proteção para a maior parte da população – pelo menos nas nações desenvolvidas e em desenvolvimento, sob influência da cultura européia – a idéia da simples sobrevivência passa a dar lugar a viver bem; viver com qualidade. E isto, além de incluir uma barriga cheia e um teto sobre a cabeça, também abrange segurança quanto ao futuro e saúde para desfrutá-lo. A este estado comumente se chama de bem estar, com momentos de alegria e, mais raramente, felicidade.
Nossa sociedade afluente tem origem no desenvolvimento de um tipo específico de capitalismo baseado no consumo, que surgiu nos Estados Unidos no início do século XX. O país à época já era o mais fortemente industrializado e disponha de um grande numero de trabalhadores com recursos excedentes para o consumo. Assim, foram inventadas máquinas e engenhocas, que se tornaram imprescindíveis no dia a dia das pessoas e que devido ao seu relativo baixo custo, poderiam ser adquiridas por grande parte da população: geladeiras, fogões, torradeiras, máquinas de lavar, automóveis. Nos anos 1930, com a popularização do uso da eletricidade (também no Brasil), apareceram os toca-discos, rádios, barbeadores elétricos e vários outros itens de utilidades domésticas. Todos estes implementos são feitos para aumentar a sensação de conforto e bem-estar, e sua compra traz alegria para muitos – mesmo que as prestações sejam altas ou que a assistência técnica dos produtos ruim.
Por toda a história também houve pessoas que defendiam uma vida mais simples. Desde os antigos filósofos cínicos e estóicos da Grécia e de Roma, passando pelas ordens religiosas mendicantes da Idade Média, até chegar aos intelectuais e ativistas modernos. Figuras como o poeta inglês William Blake (1757-1827), o escritor e filósofo americano Henry David Thoureau (1817-1862) e o escritor alemão Hermann Hesse (1877-1962) transmitiam em suas obras uma oposição ao industrialismo e contra a ilusória busca da felicidade baseada na obtenção de bens de consumo. Influenciado por estes e outros pensadores críticos, nasceu nos Estados Unidos nos anos 1960 o movimento “hippie” (palavra derivada de “hip”, que em inglês indica pessoa bem informada), que em poucos anos se espalhou por todo o mundo. Os hippies defendiam uma vida simples, livre do excessivo consumismo da sociedade industrial e valorizavam a natureza, em seus diversos aspectos. Pensadores que influenciaram o ideário hippie foram filósofos como Alan Watts (1915-1973) e Herbert Marcuse (1898-1979), além da filosofia indiana, o pensamento anarquista e o movimento da contracultura. Muito daquilo que os ambientalistas passaram a defender no final dos anos 1960 e início de 1970 tinha suas origens no pensamento hippie. Alguns fundadores de importantes ONGs, como o Greenpeace, são oriundos de grupos da contracultura americana e inglesa.
Em um ponto todos estes movimentos e filosofias estão de acordo: a felicidade, ou pelo menos a alegria, estava muito mais em uma volta à natureza; uma vida mais simples. Não no consumo, que muitas vezes não chega nem a nos trazer conforto e bem estar, servindo apenas como passatempo dispendioso, para afugentar o tédio.  
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

A crise hídrica na região Sudeste

sábado, 21 de fevereiro de 2015
Alguma dúvida que Deus não é magricela com dores de úlcera e sim gordo bonachão que se delicia com moela, coração e sambiquira?"  -  Dalton Trevisan  -  A trombeta do anjo vingador

Macro fatores
A região Sudeste passa por uma seca muito forte; a maior nos últimos 80 anos pelo menos. As origens desta crise ainda não estão estabelecidas, mas alguns fatores chamam a atenção:
- Especialistas aprofundam uma teoria bastante aceita, de que grande parte da água que cai na forma de chuva sobre o Sudeste, Sul e Centro-Oeste origina-se na Amazônia – teoria conhecida popularmente como “rios voadores”, devido à grande quantidade de água nas nuvens. O processo é mais ou menos o seguinte: nuvens vindas do oceano Atlântico se precipitam sobre a floresta. Através do processo de evapotranspiração a água volta a evaporar e novamente se transforma em nuvens. A barreira da cordilheira dos Andes impede que estas nuvens formadas sobre a Amazônia continuem avançando, o que faz com que elas se desloquem para o Sul do continente, precipitando-se sobre São Paulo, Minas Gerais, etc. Uma das consequências que os especialistas tiram desta teoria científica é que quanto mais se desmata na Amazônia, menos nuvens e, consequentemente chuva, vão para o Sul. Apesar de ter diminuído nos últimos dez anos, o desmatamento na Amazônia ainda continua forte e cresceu novamente ao final do primeiro mandato de Dilma Rousseff.
- O fenômeno do “El Ninõ” (aquecimento sazonal das águas do oceano Pacífico, com influências sobre o clima global) também tem forte efeito sobre o volume das chuvas, principalmente do Norte e do Nordeste, e das temperaturas do Sudeste.
- O aquecimento global, causado pelas emissões de gases poluentes nas atividades econômicas – geração de energia, transporte, agricultura, indústria – também provoca mudanças no clima, como secas e chuvas intensas e extremos de temperatura. Além disso, o que é mais grave, o aquecimento global também está aumentando a temperatura média do grande sistema de controle do clima da Terra: os oceanos.


Fatores locais e políticos
A estes macro-fatores que têm influência no clima da Terra e nas regiões brasileiras, podemos ainda associar aspectos climáticos locais (diminuição de chuvas, aumento da temperatura), provocados pela atividade antrópica. Isto porque, ao longo dos últimos 100-150 anos, quando as atividades econômicas na região Sudeste começaram a aumentar através da agricultura e posterior industrialização, o impacto das atividades econômicas sobre o meio ambiente só aumentou. Destruíram as florestas (a Mata Atlântica), esgotaram-se os recursos hídricos; as cidades se expandiram.
Em todo este processo, os cuidados na conservação e recuperação dos estoques hídricos foram quase inexistentes – notadamente ao longo dos últimos vinte e cinco anos, quando o consumo de água aumentou exponencialmente. Pouco foi feito para recuperar a qualidade da água dos grandes reservatórios no entorno da região metropolitana (Guarapiranga, Billings) e quase nada foi investido para ampliar a zona de mata ciliar no entorno dos reservatórios do sistema Cantareira (Jaguarí, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro, entre os principais). Além disso, em muitas regiões do estado e da capital continuaram as invasões em áreas de mananciais, como acontece na região da Cantareira e na zona Sul de São Paulo.
Isto sem falar da falta de saneamento e da perda de água já tratada. Cerca de 60% dos efluentes domésticos de todo o país ainda são descarregados na natureza sem tratamento, poluindo os rios que abastecem as cidades. Quando chove pouco e o volume dos rios diminui, aumenta a concentração de esgotos na água, dificultando o tratamento para posterior distribuição à população. A perda de água provocada pelo mau estado das tubulações e por ligações clandestinas é de 35% em média; comparados aos 18% na Inglaterra e 8% na Alemanha e Japão.  
Para a crise hídrica há, portanto, causas climáticas e causas políticas. As primeiras são praticamente inevitáveis (pelo menos em curto prazo, quando se fala em redução de gases de efeito estufa), mas poderiam ter seu efeito diminuído. As causas políticas, porém, seriam evitadas ou diminuídas, se as administrações federal, estadual e municipal tivessem levado em conta o que cientistas, ONGs e outras instituições já estavam dizendo há tempos. Projetos de Lei relacionados à captação e reuso de água por residências, por exemplo, tramitam sem aprovação na Câmara dos Vereadores de São Paulo pelo menos desde 2003. Já em 1992 a SABESP havia encomendado um estudo de viabilidade para utilização das águas do rio Juquiá, afluente do Ribeira de Iguape. Desde lá, nada foi feito.
Do mesmo modo, também não se aprovaram leis que pudessem criar condições para que os recursos hídricos fossem mais bem utilizados. Por exemplo: incentivos para agricultores que produzem água através da conservação da floresta; para indústrias e plantações que utilizam menos água; para edifícios que coletam a água da chuva e reutilizam a água “cinza”; e muitos outros exemplos. 

Conclusão
A crise hídrica deverá estender-se por alguns anos, já que a recuperação do volume de água no lençol freático e nos reservatórios só ocorrerá com volumes constantes de chuva ao longo de anos. Nesse ínterim, o governo e a sociedade civil precisarão implantar rapidamente novas maneiras – mais eficientes – de utilizar os recursos hídricos. Este será o grande teste para o poder público e a sociedade: todos precisarão trabalhar juntos, de maneira coordenada, caso contrário o prejuízo ainda será maior para todos.
Por outro lado, existe também o questionamento que muitos cientistas estão se fazendo a respeito da mudança do clima, principalmente na região Sudeste do país. Será a atual falta de chuvas e o aumento médio das temperaturas uma tendência que se manterá no futuro? Estarão as condições climáticas se alterando de tal maneira, que nos próximos 50 a 150 anos a vida das populações da região Sudeste estará completamente alterada em seus aspectos econômicos e sociais? Haverá deslocamentos de atividades econômicas e de populações, para onde? O Estado saberá como acomodar estas mudanças?  
(Imagens: fotografias de John Gutmann)

Mais controle na atividade pesqueira

sábado, 14 de fevereiro de 2015
"[...] mas também a certeza de que nunca conseguiremos sobrepor ao universo as leis que supomos eternas e infalíveis. A nossa ciência não é nem mesmo uma aproximação; é uma representação do Universo peculiar a nós e que, talvez, não sirva para as formigas e os gafanhotos."  -  Lima Barreto  -  Crônicas escolhidas

Dois fatos relacionados ao meio ambiente marinho chamam a atenção no início do ano: os protestos contra a proibição da pesca de peixes em extinção e a descoberta de novas espécies marinhas no litoral de São Paulo. Por um lado, a pesca excessiva faz com que peixes como o cação-bico-doce, o mero, o badejo-tigre, o cação-anjo e a raia-viola estejam em desaparecimento. Por outro, cientistas descobrem novas espécies de briozoários (invertebrados que vivem incrustados em rochas e algas, conhecidos como “musgos do mar”) entre Ilha Bela e São Sebastião; região portuária e de grande atividade turística.
A descoberta demonstra que além das 1.500 espécies marinhas atualmente conhecidas na costa brasileira, ainda devem existir centenas de outras ainda por descobrir – mesmo em localidades com forte atividade econômica. No entanto, dado o ritmo de exploração das regiões costeiras – através da sobrepesca, aterramento de mangues, descarga de efluentes e descarte de lixo –, muitos animais até hoje desconhecidos podem desaparecer sem que tomemos conhecimento de sua existência. Este é um dos dilemas das ciências que estudam a vida: quantas espécies novas ainda poderão ser pesquisadas em seus ecossistemas, antes que este e seus moradores desapareçam?
Para tentar evitar a diminuição e posterior desaparecimento de espécies de peixe como a sardinha, o namorado a garoupa e crustáceos como o camarão-rosa, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) publicou em dezembro de 2014 a Portaria 445, que proíbe a pesca de diversos tipos de espécies marinhas. A medida gerou protestos em muitas partes do país, notadamente em Itajaí, em Santa Catarina, onde pescadores, sentindo-se prejudicados em suas atividades pela portaria, bloquearam a saída do porto de um transatlântico de turismo. Depois do incidente, o governo decidiu criar um grupo de trabalho, formado por membros do MMA e do Ministério da Aquicultura e da Pesca, que deverá fazer uma revisão na lista das espécies e no período estabelecido para o defeso (em que é proibido pescar a espécie).
No Brasil existem mais de um milhão de pessoas que dependem economicamente da atividade pesqueira, que a cada ano captura volumes maiores de pescado para abastecer o crescente mercado consumidor. O excesso de pesca, aliado à utilização de redes de trama fina que não deixam passar os indivíduos pequenos, fazem com os barcos atuem como verdadeiras dragas, carregando tudo que se encontra no fundo do mar.
Peixes pequenos ou espécies sem valor comercial são posteriormente descartados, quando estão mortos. Outro aspecto é que a pesca de fêmeas em período de reprodução (quando ocorre o defeso), reduz a possibilidade de procriação da espécie. Todos estes fatores, além dos já citados, poderão contribuir para a diminuição gradual do volume de pescado e eventual desaparecimento das espécies. Segundo o Instituto Chico Mendes (ICMBio) o Brasil tem oficialmente 19 espécies de peixes marinhos ameaçados de extinção. 
Somente através das atividades econômicas, utilizando os recursos naturais, é possível gerar riquezas. Todavia, a apropriação do recurso natural deve ser feita de tal maneira que possa ser realizada sempre, de uma maneira sustentável. Exaurir os recursos naturais fará com os utilizemos apenas por um curto período, à custa das gerações futuras e das espécies ainda desconhecidas.
(Imagens: fotografias de Friedrich Seidenstuecker)

Turismo predatório não muda

sábado, 7 de fevereiro de 2015
"Que lindo se figurássemos na assembléia mundial como povo capaz de uma ideia sua, uma arte sua, costumes e usanças que não recendam a figurinos importados."  -  Monteiro Lobato  -  Ideias de Jeca Tatu

Mais de 800 mil veículos desceram de São Paulo para o litoral neste final de 2014. Isto significa que aproximadamente 2,5 milhões de pessoas deixaram a capital, rumo às praias do litoral norte e sul do estado. Repetem-se as mesmas cenas que já conhecemos há décadas: congestionamentos nas estradas, cidades lotadas, pressão excessiva na infraestrutura urbana. Em média, a população da região litorânea chega a triplicar no período entre o Natal e o Ano Novo. As cidades, que em sua maioria já não têm uma boa estrutura de serviços públicos – segurança, saúde, coleta de lixo e limpeza urbana – sofrem ainda mais com o excesso de habitantes.
O problema é antigo e tem diversas causas. Uma delas é a falta de opções de lazer para a maior parte da população, associada à baixa renda. Sem possibilidades de aproveitar os momentos de folga durante o ano, já que a cidade apresenta poucas opções, o paulistano planeja seu descanso para o período de Ano Novo. Férias coletivas, recesso escolar, dinheiro do 13º salário, a glamourização da festa do Réveillon (antes era apenas o Ano Novo), o calor do verão; são fatores que mobilizam ainda mais os turistas de final de ano.
O fenômeno acontece em todo o litoral brasileiro, mas o maior volume de deslocamentos registra-se no estado de São Paulo. O efeito sobre as cidades, no entanto, é em todo país o mesmo: impacto nos ambientes urbano e natural. A orla marítima, os rios e as matas do entorno das cidades – localizadas em região de Mata Atlântica – são “explorados” pelos turistas: lixo de todo tipo na praia, retirada de espécimes da mata, pesca e poluição dos rios. Nas cidades, apesar de proibido por legislações municipais, trafegam carros com som alto, soltam-se fogos durante todo o dia e lixo é jogado por todas as ruas. Uma verdadeira catarse histérica, movida a álcool e agitação, toma conta de parte dos turistas. Parece que todos os dias de privação de lazer durante o ano precisam ser compensados freneticamente em alguns poucos dias.
No retorno do feriado as estradas voltam a ficar cheias; congestionamentos retêm os motoristas por horas – tudo apenas para percorrer um pouco mais de cem quilômetros. Para trás ficaram – além dos cheques sem fundos – os montes de lixo na cidade e nas praias, a depredação de bens públicos e os estoques vazios de supermercados, armazéns e padarias. Os comerciantes, em sua maioria, acham que foi um bom começo de período de férias. Alguns já planejam trocar o carro ou investir na ampliação do negócio.
A cidade, no entanto, vai demorar alguns meses para se recuperar. A ausência de recursos aliada à falta de pessoal qualificado na administração, além de prefeitos incapazes para gerir suas cidades (para dizer o mínimo), fazem com que o turismo se torne predatório. No final lucra o comércio, que precisa se capitalizar para enfrentar um ano inteiro com movimento baixo – só interrompido por um ou outro feriado prolongado. Esta é, resumidamente, a situação do turismo em grande parte do país. A falta de poder aquisitivo da maior parte da população, a fraca infraestrutura e o alto preço dos serviços e produtos, fazem com que esta realidade se mantenha ao longo dos decênios. Muito provavelmente vai continuar assim nos próximos anos, dadas as poucas possibilidades de crescimento da economia, melhoria real do padrão de vida e ampliação da infraestrutura.
(Imagens: fotografias de Timothy O´Sullivan) 

Ano Novo, vida nova?

sábado, 31 de janeiro de 2015
"O agnóstico Spencer dá como ponto de partida das religiões a ideia do "duplo"; o selvagem vê-se em sonhos, vê sua própria imagem refletida n'água e acredita na existência de dois seres diferentes que se parecem, e que entretanto um deles, o duplo, subsiste depois da morte."  -  Lucien Henri  -  As origens da religião

O Ano Novo simboliza um novo início, novidade, novos propósitos; ou pelo menos retomada daquilo que não pudemos realizar e ainda consideramos importante. Essa expectativa positiva em relação ao futuro só ocorre porque acreditamos que as condições vão mudar para melhor, dando-nos a possibilidade de fazer aquilo que ainda não pudemos. Surgem com isso as “listas de propósitos para o novo ano”: parar de fumar, arranjar um novo emprego, começar aquele curso, voltar a fazer exercícios físicos. Planejamos mudar em algum aspecto a nossa vida, pois cremos que há uma nova chance para melhorias.
Esta expectativa positiva não ocorre só com indivíduos. Empresas, sociedades e qualquer tipo de associação humana criam esperanças sobre o futuro, fundadas ou não, principalmente quando começa um novo ano. No caso do Brasil as circunstâncias agora são mais especiais ainda, já que junto com a chegada de mais um ano também tem início um novo mandato presidencial. Teremos novos ministros, novas políticas setoriais, novos planos de governo, novos projetos, novas alianças políticas... O que efetivamente será novo e não apenas “mais do mesmo”?
O país passa por mais uma crise econômica, com crescimento do PIB em torno de 0%. A taxa de desemprego começa a subir e não se criam novas vagas para trabalhadores melhor capacitados. Já foi autorizado o aumento do preço da eletricidade, da água, da gasolina; voltará o imposto da CPMF e outros tributos também deverão ser reajustados. A atividade industrial vem caindo e as exportações de produtos agrícolas e minérios para a China, nosso maior cliente, tendem a cair... Os recursos do governo são escassos para os anos 2015 e 2016, o que impossibilita o início de novos projetos de infraestrutura – já será muito se aqueles em andamento forem terminados.
As investigações do escândalo de corrupção na Petrobrás estão apenas começando e deverão se estender por todo ano de 2015 e entrar em 2016. Dentro de alguns meses podem ter início as investigações sobre corrupção em outros setores – setor elétrico, transportes, saneamento, entre outros – já que as empreiteiras a atuarem na Petrobrás são as mesmas que ganham licitações destes outros setores. As investigações, que com certeza mostrarão o envolvimento de mais empresários e políticos, podem atrasar novos investimentos e as obras em andamento, inclusive aquelas que tenham relação com o meio ambiente, como obras de saneamento, construção de aterros, entre outros.
O setor privado, paralisado pela crise econômica e pela queda do consumo não fará novos investimentos, pelo menos em curto prazo. Novas obras como construção de fábricas, terminais e galpões industriais, envolvem compra de equipamentos e serviços de meio ambiente. Caindo a quantidade destas obras diminui a demanda por tecnologias ambientais, o que contribuirá ainda mais para manter o setor retraído. Assim, tanto em vista da queda dos investimentos públicos quanto do setor privado, o mercado ambiental deverá acompanhar a economia e crescer muito pouco.
O quadro, não inspira otimismo. Ao invés de novidades para o Ano Novo, teremos mais do mesmo; vamos passar por um ou dois anos arrumando a casa e só então o país terá condições de efetivamente falar de novos projetos. Enquanto isso, o meio ambiente se arruma como pode, já que como dizem, “quando as contas estão no vermelho não se pensa no verde”.
(Imagens: fotografias de Robert Frank)

Represa Billings poderia fornecer mais água para a RMSP

sábado, 24 de janeiro de 2015
"Na vida humana tudo é sofrimento
e não há trégua para nossas penas,
porém o que talvez seja melhor 
que esta existência está envolto em trevas
e oculto nas nuvens."
Eurípides  -  Hipólito

A represa Billings tem reserva hídrica pouco superior ao sistema Cantareira e já vem abastecendo parcialmente os municípios de Santo André, São Bernardo, Diadema, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra e parte da capital. Além disso, o reservatório também fornece água para geração de eletricidade na usina Henry Borden, em Cubatão. Dada sua localização estratégica a Billings teria possibilidades de melhorar o abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), não fosse a poluição de suas águas.
A represa Billings foi idealizada na década de 1940 pelo engenheiro americano Asa White Kenney Billings (1876-1949), a serviço da companhia Light & Power Company. O reservatório ficou pronto nos anos 1950, com a principal função de fornecer água para o acionamento da usina hidrelétrica Henry Borden, em Cubatão, gerando 889 megawatts. Para aumentar o volume da Billings, a partir de 1952 o rio Pinheiros – localizado na zona Oeste/Sul de São Paulo – começava a ser bombeado para o reservatório. O rio era contaminado com efluentes domésticos e industriais que, sem tratamento, também eram carreados para a represa. A resolução da constituição paulista de 1989, determinando que o volume da Billings fosse prioritariamente utilizado para abastecimento público, fez com que a partir de 1992 fosse suspenso o bombeamento do rio para a represa.
Apesar de dispor de mais água do que o sistema Cantareira – 995 contra 982 bilhões de litros – os recursos hídricos da Billings continuam sendo subutilizados, principalmente por causa da poluição causada por diversas fontes. Um estudo da Universidade de São Paulo realizado em 2010 apontava que o fundo do reservatório estava contaminado por metais pesados; como cobre, chumbo, níquel e zinco, carregados para a Billings pelo rio Pinheiros ao longo de anos de bombeamento. Obras de dragagem destes resíduos poderiam dissolvê-los mais ainda e aumentar a turbidez da água. Outro aspecto é a poluição através de esgotos, que em diversas áreas que margeiam a Billings – na zona Sul de São Paulo e na região do ABCD – são lançados as água sem qualquer tipo de tratamento, principalmente por loteamentos clandestinos.
As empresas de saneamento das prefeituras do ABCD planejam tratar 100% dos efluentes domésticos até 2018, reduzindo assim o impacto sobre a represa. Em São Paulo, no entanto, o problema ainda parece estar longe de uma solução, já que as invasões às margens da represa tornam-se cada vez mais comuns. Em alguns casos são centenas de famílias, que só podem ser desalojadas com ajuda de força policial. As obras de construção do Rodoanel ainda trouxeram mais invasões à região, aumentando os pontos de assoreamento, disposição de lixo e despejo de efluentes.
Especialistas apontam que a principal providência para recuperar a Billings é impedir que os resíduos ou efluentes cheguem às suas águas. Para tanto, seriam necessárias obras de saneamento e urbanização no entorno do reservatório, incluindo desalojar ocupações clandestinas e realocar estas populações. Por seu tamanho, por receber chuvas e ventos que chegam do oceano e por estar em grande parte ainda cercada por áreas verdes, a represa ainda tem boas chances de se autodepurar ao longo dos anos. A recuperação deste manancial é importante e urgente na estratégia de segurança hídrica do estado de São Paulo.
(Imagens: fotografias de Oliver Wutscher)   

Previsões para a área ambiental - 2015

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

(Publicado originalmente na seção "newsletter" do site www.ricardorose.com.br)

Os primeiros dias do ano já começam a indicar o rumo que o país deverá seguir ao longo de 2015. No plano econômico haverá aumento de tarifas, redução dos investimentos públicos e – se tivermos sorte – corte no custeio da máquina do governo. O setor privado deverá acompanhar o ritmo da música e não fará novos investimentos. Todo mundo cozinhando em fogo brando para ver como a economia se comportará até o final do ano – as previsões de crescimento do PIB para 2015 são abaixo de 1%.

Na área política, o governo deverá continuar atendendo às demandas da base aliada, tentando garantir maioria no Congresso – situação, aliás, pouco difícil, já que não existe efetivamente uma oposição. Afora um ou outro comentário feito na tribuna do Senado pelo candidato derrotado à presidência senador Aécio Neves, não existe quase manifestações contra os atos do governo. As nuvens escuras da lista dos políticos envolvidos no Petrolão, a ser divulgada em janeiro ou fevereiro, parecem estar colocando muitos políticos de sobreaviso. Prenúncio de tempestade no horizonte do Congresso.

Enquanto isso, o país continua como sempre: vivendo da mão para a boca; correndo pela manhã atrás dos recursos que precisará para pagar as contas do final da tarde. Consertando aqui e ali, tapando buraco acolá, mas sem um planejamento; sem uma estratégia de médio e longo prazo. O Brasil continua como sempre: refém de interesses políticos e de grupos de pressão, às voltas com a corrupção que beneficia alguns, mas sem um planejamento da rota que o país deverá tomar. Permanecemos reféns de políticos e políticas de segunda categoria que, evidentemente, trazem vantagens para alguns, mas não para a maior parte dos cidadãos.

Com tudo isso, não dá para esperar grandes avanços no setor ambiental – o que também não é novidade para os que atuam no setor. Nesta área o país já realiza muito, quando não faz nada: os grandes avanços do Brasil no meio ambiente são a redução do desmatamento na região amazônica. Também na área ambiental estamos sempre correndo atrás do prejuízo, sem projetos e recursos suficientes para implantar ações que possam direcionar o futuro. Um dos únicos projetos com estas características, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, foi postergado para um tempo ainda indefinido.

Para 2015, portanto, mais do mesmo. Continuam os investimentos minguados em saneamento (que o diga a baía da Guanabara e o rio Tietê), sobra algum trocado para que as agências ambientais possam continuar funcionando (ações de comando e controle), serão realizados alguns seminários e assinados novos convênios (muitos inócuos), mas é só. Com uma economia capengando, sem planejamento e com várias outras prioridades, a questão ambiental não receberá a atenção que tem em outros países. Os recursos naturais se deterioram e, entra ano e sai ano, o país “tem outras prioridades”.      

Acidente de Bhopal faz 30 anos e ainda deixa sequelas

sábado, 17 de janeiro de 2015
"Uso a palavra para compor meus silêncios. 
Não gosto das palavras 
fatigadas de informar."
Manoel de Barros  -  Memórias inventadas

A cidade de Bhopal está localizada na região central da Índia e é capital do estado de Madya Pradesh, com uma população de cerca de 2,7 milhões de habitantes. Bhopal é bastante desenvolvida, abrigando grande número de indústrias do setor eletroeletrônico, de manufatura, tecelagem e químico. Baseado nestas poucas informações, a cidade pouco se distingue das outras dezenas de cidades indianas de porte e atividades econômicas semelhantes, a não ser por um acontecimento: o acidente com vazamento de gases tóxicos na fábrica da Union Carbide.
O acidente ocorreu há 30 anos, no dia 3 de dezembro de 1984, afetando de imediato e em diversos graus cerca de 500 mil pessoas. O vazamento de mais de 40 toneladas de 32 tipos gases tóxicos, entre os quais o metil isocianato usado para a fabricação de pesticidas para uso na agricultura, provocou a morte imediata de 3.787 pessoas, segundo dados oficiais do governo do estado de Madya Pradesh. Dados posteriores de uma comissão de investigação do estado indiano davam conta de que 558.125 pessoas foram afetadas de alguma maneira pelo vazamento do gás, incluindo 38.478 parcial ou temporariamente debilitadas e aproximadamente 3.900 severa ou permanentemente atingidas. Além destes, milhares de outros moradores de Bhopal sofrem de sequelas do acidente, apresentando casos de malformação de fetos, doenças crônicas nos olhos, no sistema respiratório, cardíaco e neurológico. A revista americana “Mother Jones” publicou declaração de um médico que atua em clínicas para afetados pelo desastre, na qual diz que “cerca de 120 a 150 mil sobreviventes ainda lutarão com problemas de saúde como distúrbios neurais, de formação e crescimento, ginecológicos, dificuldades respiratórias e elevadas taxas de tuberculose e câncer”.
Até hoje persiste o debate sobre as causas deste desastre, o maior já ocorrido com uma indústria em todo o mundo. Dados levantados durante as investigações mostraram que antes do vazamento ocorreram acidentes de menor tamanho, envolvendo vazamentos e até hospitalização e morte de funcionários. Manutenção inadequada de válvulas de segurança e ausência de equipamento de proteção individual, como máscaras, foram falhas de operação constatadas nestas ocorrências anteriores. O desastre, segundo os laudos do processo, foi motivado por falta de medidas de segurança e treinamento dos trabalhadores, fazendo com que esses inadvertidamente permitissem a entrada de água no tanque, o que provocou sua explosão e a liberação do gás venenoso. A defesa alega que os trabalhadores agiram sem atenção às normas de segurança, causando assim a entrada de água no tanque.
O processo correu na justiça indiana por anos. Em 1989 a empresa Dow Chemical, então proprietária da Union Carbide, pagou uma indenização de 470 milhões de dólares, além de oferecer ajuda financeira para construção de clínicas para atendimento das vítimas. A reparação, segundo críticos, foi insuficiente dado o número de vítimas e o impacto ambiental. A justiça indiana prendeu altos funcionários da empresa e expediu ordens de prisão contra seu presidente, o americano Warren Anderson, que poucas horas depois de detido foi liberado por ordem de um ministro indiano. A história do acidente, do processo judicial e dos bastidores políticos, é mostrada no filme “A prayer for rain” (Reza por chuva), lançado em 2013. 
(Imagens: fotografias de Marc Ferrez)

Meio ambiente não foi prioridade no primeiro mandato

sábado, 10 de janeiro de 2015
"O que significa ser keynesiano? Duas questões básicas bastarão aqui: (1) a economia privada pode não atingir o pleno emprego; (2) os gastos do governo podem estimular a economia para eliminar a defasagem. Toda vez que um político defende ardentemente uma injeção monetária, ou programas do governo para fazer o país se mexer outra vez, ou cortes de taxas para acelerar o consumo, ele está exaltando Keynes."  -  Todd G. Buchholz  -  Novas ideias de economistas mortos

Termina o ano e com ele o primeiro mandato da presidente Dilma. Baixo crescimento da economia, muitos casos de corrupção, atraso nas obras de infraestrutura, declínio da produção industrial e das exportações; foram alguns aspectos que caracterizaram a administração da presidente. Apesar de alguns avanços no ensino técnico e superior, a qualidade da educação fundamental e média continua ruim, colocado o ensino do país entre os piores dos países em desenvolvimento. A saúde, assim como a educação, continua a apresentar problemas de gestão e falta de recursos. O mau humor da população foi refletido no resultado das eleições presidenciais, com a vitória da situação por pequena margem – 51,64% contra 48,36% –, apesar de toda a força da máquina do governo.
Assim como outros setores, o meio ambiente também não recebeu a devida atenção no governo Dilma. Se o desmatamento da Amazônia vinha sendo mantido sob relativo controle desde o governo Lula, a derrubada da floresta aumentou nos últimos meses do governo da presidente. Sob a alegação de que “o país não havia sido convidado para participar da formulação do documento”, o Brasil também não assinou a Declaração de Nova York sobre Florestas, durante a Cúpula do Clima, realizada na ONU em setembro de 2014. Apesar de abrigar 20% da biodiversidade do planeta, o Congresso Nacional não ratificou a participação do país no Protocolo de Nagoya, documento que estabelece regras para o acesso a recursos genéticos. Sem assinar este documento, as posições do Brasil nas futuras negociações internacionais não terão peso algum, alijando o país de decisões importantes, que poderão nos afetar diretamente.
A administração Dilma não criou nenhuma nova unidade de conservação (UCs) na Amazônia durante os primeiros três anos e 10 meses do mandato. Às vésperas das eleições, no entanto, através de um ato presidencial, o governo criou às pressas novas UCs; duas delas na Amazônia. Em compensação, ao longo de seu governo, a presidente Dilma reduziu áreas de cinco unidades já existentes, para acomodar projetos de hidrelétricas. O novo Código Florestal, aprovado em 2013, foi criticado por ambientalistas, ONGs e organizações científicas porque, segundo estes, resultará na redução da proteção às florestas.
Os investimentos em saneamento, apesar de toda a propaganda realizada em torno do PAC, ainda são insuficientes para se alcançar a universalização destes serviços. Segundo o BNDES, os investimentos anuais médios no tratamento de água e esgoto têm sido de R$ 10 bilhões. A ONG instituto Trata Brasil informa que para oferecer saneamento a todos os cidadãos no prazo de 20 anos, o país precisará investir anualmente R$ 16 bilhões.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos também avançou pouco durante este governo. Criada no final do governo Lula, a lei estabelecia um prazo – agosto de 2014 – para que todos os municípios acabassem com seus lixões ou aterros controlados. Sem apoio do Ministério do Meio Ambiente, as prefeituras em sua maioria puderam alegar não terem recursos financeiros e humanos para implantar esta medida. A pá de cal veio com a Medida Provisória 651, através da qual, entre outras coisas, o Congresso pretendia prorrogar a aplicação da lei por mais quatro anos – artigo vetado pela presidência. Parlamentares deverão apresentar uma nova solução para o caso.
Espera-se que em seu novo mandato que começa este ano, a presidente Dilma - mesmo às voltas com tantos problemas econômicos e sociais - possa dar a devida atenção também às questões ambientais. Os recursos, sempre é bom lembrar, uma vez que se foram podem não voltar.
(Imagens: fotografias de Lewis Hine)

Diminuição de chuvas requer medidas de prevenção

sábado, 3 de janeiro de 2015
"(Ludwig von) Mises foi o primeiro a compreender integralmente que a divisão entre Stalin e Hitler, socialismo e fascismo, direita e esquerda, era uma ilusão, e que o movimento totalitarista baseado em Berlim era substancialmente similar àquele de Moscou. 'A terminologia da linguagem política é uma tolice'."  -  Kevin D. Williamson  -  O livro politicamente incorreto da esquerda e do socialismo

A crise da água está afetando grande parte do Brasil e, com exceção da região Norte, agora deverá ocorrer periodicamente no restante do país, segundo previsões de especialistas. Começa assim uma nova era, na qual a antiga fartura de água em grande parte do território nacional mais densamente habitado será condição do passado. Em sua vida diária e nas atividades econômicas a sociedade precisará gradualmente se adaptar ao novo clima: mais seco, com temperaturas crescentes e menores precipitações pluviométricas. As cidades e todas as atividades econômicas que ocorrem em seu interior – construção, indústria, comércio, turismo – e no seu entorno – agropecuária geração elétrica e mineração – serão fortemente afetados.
Os fatores causadores destas estiagens são, dentre os principais: o fenômeno do El Niño, variação da temperatura do oceano Pacífico que influencia o regime de chuvas; os impactos das atividades econômicas, como o crescimento das cidades e o aumento da frota veicular; as mudanças climáticas em todo o mundo; e, muito provavelmente, o incessante desmatamento da Amazônia. Estas as causas mais prováveis da redução do volume e freqüência das chuvas no Sudeste e Centro-Oeste do país. No Nordeste, observa-se há anos o agravamento da seca.
Céticos dizem que a fase de poucas chuvas poderá se estender por alguns anos e depois, assim como surgiu, desaparecer. A hipótese não é improvável, mas a se considerar a série histórica de medições da precipitação pluviométrica em várias partes do país, não é isto o que vem ocorrendo. As chuvas efetivamente vêm rareando e o país precisa se preparar para esta nova realidade.
A construção civil é um dos maiores usuários de água, no âmbito das atividades econômicas que se realizam na área urbana. Através do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS) e com o apoio do Ministério do Meio Ambiente e do PNUMA (Programa das Nações Unidas para Meio Ambiente) o setor da construção apresentou recentemente o estudo “Aspectos da Construção Sustentável no Brasil e Promoção de Políticas Públicas”. O trabalho apresenta 25 recomendações que servem de apoio à elaboração de políticas para incentivar o uso eficiente da água em edificações, através de campanhas educativas, incentivos econômicos e incorporação de novas tecnologias.
Outro setor econômico que se preocupa há algum tempo com a escassez de água é o agrícola. Através da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) o setor já pesquisa novas espécies de plantas mais resistentes à seca. Tendo decifrando o genoma (o mapa genético da planta) de espécies como o café, a soja, o milho, o feijão e o tomate, a empresa agora procura genes (partes do genoma) que inseridos no genoma da planta têm o potencial de tornar o vegetal mais resistente à seca.

Além destes, existem vários outros exemplos do que vem sendo feito para reduzir o uso de água: economia de água na pintura de automóveis; redução do uso de água na irrigação; uso de aditivos em substituição à água no concreto; medidas de reuso de água em residências, escritórios e fábricas; armazenagem e reutilização da água da chuva. São técnicas cujo uso precisa ser incentivado por associações e regulado pelo poder público; setores que devem liderar a iniciativa de implantar medidas preventivas com o objetivo de preparar o país para tempos mais secos.
(Imagens: fotografias de Cristiano Mascaro)

..."de dia falta água, à noite falta luz!"

sábado, 27 de dezembro de 2014
"A religião não é um tipo primitivo de teorização científica, nem a ciência é um tipo superior de sistema de crenças. Assim como os racionalistas interpretaram mal os mitos, como se fossem protoversões de teorias científicas, cometeram o erro de acreditar que as teorias científicas podem ser literalmente verdadeiras. Ambos são sistemas de símbolos, metáforas para uma realidade que não pode ser expressa em termos literais."  -  John Gray  -  A busca pela imortalidade

Como se não bastasse parte do país enfrentar a maior falta d’água nas últimas décadas, corre também o risco de enfrentar “cortes seletivos de energia”. O aviso foi dado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) aos geradores e distribuidores de energia. A medida, segundo especialistas, pode-se fazer necessária para manter os níveis dos reservatórios de água, garantindo o fornecimento de energia principalmente para as grandes cidades nos meses de janeiro e fevereiro, quando há um aumento da demanda por eletricidade.
A ocorrência de uma eventual economia forçada de energia não é novidade para aqueles que atuam no setor elétrico. Esta coluna já havia comentado o fato em janeiro deste ano, com o artigo “Calor aumenta a demanda por eletricidade”. Assim, à medida que o nível dos reservatórios baixava, sem que o volume de água fosse reposto pelas chuvas tão aguardadas, seria só uma questão de tempo para que o governo fosse forçado a implantar medidas mais duras de economia de eletricidade. Durante o período pré-eleitoral nada foi feito para não atrapalhar a campanha de reeleição da presidente Dilma – assim como o governo de São Paulo também procurou postergar ao máximo a discussão da crise hídrica.
Até agora o governo não tomou nenhuma providência concreta, baseado no fato de que, segundo a própria presidente, o país tem 20 mil megawatts de reserva em energia térmica. No entanto diversas instituições e ONGs vêm chamando a atenção sobre a necessidade de ser iniciar uma campanha para economizar eletricidade, assim como já está sendo feito para a água. Claudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil, disse em declaração ao jornal Folha de São Paulo que “Os reservatórios estão em nível inferior ao de 2013, que já era crítico. Para evitar especulações, o governo deveria ter maior clareza em suas ações.”
O fator mais importante deste dilema é o volume de chuvas que São Pedro nos colocará à disposição entre novembro de 2014 e março de 2015, tanto para o abastecimento de água quanto a geração de eletricidade. Dependendo da quantidade de água que cair sobre a região Sudeste e Centro-Oeste, aumentará ou diminuirá o risco de desabastecimento de energia e água nas regiões em 2015. Ainda assim, há males que vem para o bem: não fosse a crise econômica e a baixa produção industrial, o consumo de água e energia seria ainda maior, forçando o governo a implantar medidas de racionamento imediatamente.
Prevenir é sempre a melhor política de segurança. Mesmo que a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) ou o MME ainda não tenham anunciado oficialmente a necessidade de economizar energia elétrica, o cidadão já pode começar a fazer a sua parte. Existem diversos sites que contêm sugestões sobre como reduzir o consumo de energia com a troca de lâmpadas, cuidados com aparelhos elétricos e eletrônicos; medidas que poderão fazer uma grande diferença na conta de luz ao final do mês.
Além disso, podemos cobrar de nossos deputados a votação de leis que ajudem na implantação de políticas mais duras com relação à eficiência energética. É incrível o volume de eletricidade perdida em equipamentos de uso diário, que utilizam tecnologias ultrapassadas. O custo desta energia dissipada é pago pelo consumidor. Já que o país precisa economizar energia, podemos exigir que se fabriquem produtos mais modernos e eficientes.
(Imagens: fotografias de Marcel Gautherot)

Energia solar: o avanço da solar fotovoltaica

sábado, 20 de dezembro de 2014
"Ver a mente consciente pela ótica da evolução, desde as formas de vida simples até os organismos complexos e hipercomplexos como o nosso, ajuda a naturalizar a mente e mostra que ela é resultado de um aumento progressivo da complexidade no idioma biológico."  -  Antonio Damasio  -  E o cérebro criou o homem

O Brasil é o país com o maior potencial de aproveitamento de energias renováveis em todo o mundo, dada sua extensão territorial e localização geográfica. Diferente de outros países que optaram por matrizes energéticas baseadas no petróleo, no carvão e no urânio, estruturamos nossa geração elétrica sobre a matriz renovável hidráulica. Ainda hoje, apesar de grande parte dos principais reservatórios da região sudeste estar com baixa capacidade de água, cerca de 70% da eletricidade consumida no país provêm desta fonte.
Energia renovável sempre foi a opção mais disponível para acionar a economia do país. Nos anos 1970, quando o preço do petróleo chegou a aumentar 400% em alguns meses, o governo implantou um dos maiores programas de combustível renovável em todo o mundo, o Proálcool. A exploração da cana-de-açúcar utilizada para produzir o álcool gera excedentes de biomassa – o bagaço de cana – que é utilizado pelas usinas para gerar eletricidade. Outra fonte renovável, o óleo vegetal, é a matéria prima principal do programa nacional do biodiesel, que hoje adiciona 7% de óleo ao diesel de petróleo, reduzindo importações de óleo mineral e emissões provocadas por sua queima.
Através de outra fonte energética renovável, o vento, o Brasil produz atualmente mais de cinco mil Megawatts (MW) de eletricidade. O parque eólico nacional está em rápida expansão, incentivado pela redução dos custos dos equipamentos, disponibilidade de financiamento privado e público para os projetos e leilões de compra de energia organizados pelo governo. Em 2014 o país tornou-se mundialmente o sétimo colocado em número de parques eólicos instalados, atrás apenas de China, Alemanha, Reino Unido, Índia, Canadá e Estados Unidos.
A energia solar fotovoltaica é a renovável que até o momento vinha recebendo pouco apoio do governo. A criação da figura do micro produtor de energia pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), em 2012, e a eliminação de impostos na cadeia produtiva, pouco ajudaram a impulsionar este setor e aumentar a capacidade instalada – hoje em torno de 10 MW. No entanto, recentemente foi dado um importante passo, que poderá impulsionar o mercado de energia solar fotovoltaica da mesma forma como ocorreu com a energia eólica há cinco anos. Através do Leilão de Energia de Reserva foram contratados 889,7 MW de energia fotovoltaica – praticamente 80 vezes mais do que a capacidade atualmente instalada – para serem entregues até 2017. A iniciativa de compra de energia solar através de leilões já havia ocorrido em Pernambuco em 2013, e teve um impacto local. O leilão nacional ora realizado envolverá um numero maior de empresas, fortalecendo o setor no país. “Este é um passo importantíssimo para o fortalecimento da (energia) solar no Brasil. O volume contratado foi excepcional”, afirmou Bárbara Rubim, da campanha de Clima e Energia da ONG Greenpeace.

A energia solar fotovoltaica tem como vantagem sobre as outras renováveis seu baixo custo de instalação – o preço dos painéis solares vem caindo a cada ano – e a flexibilidade da geração descentralizada. Uma providência a ser tomada em curto espaço de tempo é a regulamentação da figura do micro produtor de energia, possibilitando que este possa suprir a rede e que seja remunerado, como acontece nos mercados de energia da Europa e dos Estados Unidos. 
(Imagens: fotografias de Jules Aaron)

Brasil aumenta emissões de gases de efeito estufa

sábado, 13 de dezembro de 2014
..."por outro lado, a ideia de acaso é, talvez, dentre todas as que os homens puderam conhecer, a mais difícil de ser assumida por sua afetividade, pois implica a insignificância radical de todo acontecimento, de todo pensamento, de toda a existência."  -  Clement Rosset  -  A anti natureza elementos para uma filosofia trágica

As emissões brasileiras de gases de efeito estufa (GEE) aumentaram em 7,8% no último ano, segundo o estudo “Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa 2014”, divulgado pela rede de ONGs Observatório do Clima. A produção de gases poluidores – principalmente dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e perfluorcarbonetos – esteve em queda desde 2005, mas apresentou forte crescimento durante o ano de 2013. O aumento se deu em todos os setores da economia; da indústria ao transporte, passando pela agricultura e às mudanças no uso do solo. A ser mantido este ritmo de crescimento nas emissões, o Brasil não conseguirá cumprir as metas voluntariamente assumidas durante a Conferência sobre o Clima em Copenhague (2009), de reduzir a produção de gases entre 36% e 39% até 2020, em comparação com 1990.
O crescimento das atividades econômicas – apesar do baixo crescimento nos últimos anos – está colocando o Brasil entre as nações mais poluidoras do planeta. Nosso nível de emissão de GEE, medido em toneladas de dióxido de carbono (tCO²), está em 7,8 tCO² por habitante por ano; acima da média mundial de 7,2 tCO²/habitante/ano. Com isso, “estamos muito longe de uma economia de baixo carbono”, segundo Tasso Azevedo, coordenador do estudo, em declaração ao jornal Folha de São Paulo. Dois setores da economia foram os maiores responsáveis pelo aumento nas emissões de gases: mudança no uso da terra (leia-se desmatamento) e energia (incluindo os transportes). O primeiro contribuiu com 16,4% no incremento dos GEE, devido aos desmatamentos na Amazônia e no Cerrado. No setor de energia, aumentou a queima de óleo combustível e carvão usado nas usinas termelétricas e cresceu o consumo de diesel e gasolina no transporte.  
Em 2013 o país gerou aproximadamente 3% das emissões mundiais de GEE, ou seja, 1,56 bilhões de toneladas de CO² ou gás equivalente (1,56 GtCO²e). Para totalizar este volume de emissões, os setores econômicos contribuíram percentualmente da seguinte maneira: mudança de solo/desmatamento – 35%; energia/transportes – 30%; agropecuária – 27%; indústria – 6%; e gestão de resíduos – 3%. Para que possa atingir suas metas de emissão, o Brasil não poderá ultrapassar o volume de dois bilhões de toneladas de CO² equivalente (2,2 GtCO²e) anuais de emissão de gases em 2020.  
Em Paris, no final de 2015, deverá ocorrer a 21ª Conferência sobre o Clima (COP 21), cujo grande objetivo será dar continuidade às discussões em torno do Protocolo de Kyoto, acordo internacional assinado em 1997 que visava reduzir as emissões mundiais de GEE. Diferente das conferências anteriores, a COP 21 será realizada em novo ambiente político.
Os dois maiores emissores, os Estados Unidos e a China, responsáveis por 50% das emissões mundiais e sempre avessos a assumirem compromissos de redução de emissões no passado, estão trabalhando firmemente para baixarem suas emissões domésticas. Com isso, certamente virão à Paris com o objetivo de aceitar metas de redução e também de cobrá-las dos países em desenvolvimento – o chamado Grupo dos 77, entre os quais também se inclui o Brasil. O não cumprimento destas metas de redução negociadas, segundo especialistas, poderia implicar em sanções comercias às nações que não mantivessem o que prometeram. Em Paris não haverá mais espaço para bravatas e promessas sem compromisso em relação ao clima. 
(Imagens: fotografias de John Gutmann)

O ensino da sociologia no nível médio

sábado, 6 de dezembro de 2014
"Quanto à democracia, todos sabemos que os impérios fortes  a mantêm em casa; só os impérios em declínio a concederam, e na menor dose possível."  -  Eric Hobsbawm  -  Globalização, democracia e terrorismo

De maneira diferente ao restante da América Latina e Europa, onde a sociologia começou a ser ensinada no curso superior, no Brasil o ensino da sociologia começou no curso secundário. No Rio de Janeiro o ensino da sociologia teve início no tradicional colégio Pedro II; em São Paulo e Recife em escolas normais, que – equivalentes ao atual nível médio – preparavam professores para o ensino básico. Deduz-se disto, que o ensino da sociologia no Brasil não visava formar novos professores desta matéria. As cadeiras de sociologia nas escolas, como dizem os próprios historiadores da matéria, eram dadas a autodidatas, profissionais sem conhecimentos aprofundados sobre a disciplina.
É somente a partir de 1933 que passa a existir um curso superior de sociologia, na escola livre de Sociologia e Política de São Paulo. Neste início do ensino da sociologia no Brasil, grande parte dos professores era de origem estrangeira, como pode ser constatado do quadro de professores da Universidade de São Paulo (USP), fundada em 1934.
O ensino da sociologia foi se desenvolvendo, principalmente no estado de São Paulo, onde grandes nomes como Florestan Fernandes se destacavam como docentes da USP. Em 1958 o educador Anísio Teixeira funda no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos; o Núcleo de produção de estudos da Sociologia da Educação, que se dedicará a produzir pesquisas nesta área. A iniciativa, no entanto, foi suspensa com as novas diretrizes educacionais estabelecidas depois do golpe militar de 1964. Em 1968, com a reforma do ensino, a pesquisa universitária passa a ser definitivamente desvinculada do ensino. A partir daí ocorre um crescente distanciamento da pesquisa e do ensino da sociologia que perdura até hoje.  
Um dos grandes debates referentes ao ensino da sociologia no nível médio na década de 80 e 90 era com relação à qualidade do material didático. Não havia material específico; os manuais eram generalistas ou eram publicações destinadas aos primeiros semestres dos cursos de ciências humanas e jornalismo. Outro aspecto é que as escolas de ciências sociais, como a escola da USP, não se preocuparam em criar cursos específicos para a formação de professores para o ensino secundário. Além disso, não havia material disponível para os professores; não havia uma prática longamente experimentada e implantada.
Parte destes problemas começou a ser resolvida com a nova Lei das Diretrizes de Base (LDB nº 9.394/96), que também estabeleceu alguns aspectos no ensino da sociologia no nível médio. Mesmo assim, no entanto, os parâmetros do ensino desta matéria ainda não estão totalmente unificados, havendo grandes variações na sistemática e no conteúdo de escola para escola. Outro aspecto é que o ensino da sociologia, apesar de obrigatório no nível médio, ainda não está implantado no currículo de todas as instituições de ensino. Persiste a falta de material didático específico e ainda não existem professores capacitados em número suficiente.
Lançadas as bases para o ensino de matérias banidas pelo período ditatorial, como a filosofia e a sociologia, é preciso que o Ministério da Educação e as secretarias estaduais efetivamente se envolvam com o tema, estabelecendo as bases para o ensino científico da sociologia, impedindo que a matéria seja ministrada com base em ideologias e metodologias políticas reducionistas.
(Imagens: trabalho na Idade Média)

Proteção aos animais

sábado, 29 de novembro de 2014
"Taxar emissões de carbono poderá ser a maneira mais efetiva de acelerar a adoção de inovações que substituam fontes fósseis, principalmente na produção de energia elétrica e em sistemas de transporte. Mas isso só será benéfico para o crescimento econômico quando as correspondentes tecnologias estiverem prontas para comercialização."  -  José Eli da Veiga  -  Sustentabilidade - A legitimação de um novo valor

Nos últimos quarenta anos a ciência aprofundou seus conhecimentos sobre os animais, observando seu comportamento e sua percepção. Em estudos de campo na natureza, em áreas de cativeiro e experiências em laboratórios, os pesquisadores descobriram um complexo “mundo interior”, principalmente nos mamíferos e nas aves. Com isso, é cada vez mais aceita a idéia de que estes animais são seres sencientes; capazes de sentirem prazer e dor, sofrimento e felicidade, sendo dotados de lembranças e pensamentos.
A relação do animal homem com os outros animais sempre foi de estranhamento. Diversas tradições religiosas consideram o ser humano como a única criatura dotada de alma imortal, diferente de outros seres vivos, que segundo o filósofo francês Descartes (1596-1650), não passavam de autômatos que apenas reagiam aos impulsos. Esta visão ainda persiste, por exemplo, em nosso Código Civil, que considera os animais como “coisa fungível (substituível) e semovente (move-se por si mesmo) no caso de possuírem proprietário”. Se não têm dono, são como “res nullius” (coisa de ninguém), podendo ser apropriados por qualquer pessoa. Assim, tratamos juridicamente os demais seres vivos como “coisa” e damo-nos o direito de fazer com eles o que quisermos – geralmente visando lucro.
A ciência, neste caso, tem muito a dizer sobre a complexidade dos animais. Frans de Waal, zoólogo e estudioso de renome internacional, relata em recente artigo (Scientific American Brasil/outubro de 2014), o caso de uma fêmea de chimpanzé que sofre de artrite. Em diversas atividades ela é ajudada por outros macacos de seu grupo. De Waal conclui sobre a cooperação entre primatas: 1) A cooperação não exige laços familiares; 2) A cooperação é muitas vezes baseada na reciprocidade; e 3) A cooperação pode ser motivada por empatia, emoção despertada quando outros sentem dor ou sofrimento. Em toda a sua extensa obra sobre os macacos primatas, o zoólogo procura mostrar que muitas atitudes e reações tidas como humanas, já se encontram, pelo menos em sua forma simples, no comportamento dos nossos primos chimpanzés – pela teoria darwiniana descendemos de uma espécie comum.
Assim, comportamentos de colaboração, partilha e divisão justa, são comuns a muitas espécies. Waal escreve que “A sobrevivência depende de partilhar, o que explica por que humanos e animais são extremamente sensíveis às divisões justas. Experiências mostram que macacos, cães e algumas aves sociais rejeitam algumas recompensas inferiores às de um companheiro que executa a mesma tarefa; chimpanzés e humanos vão ainda mais longe, moderando sua porção de recompensa conjunta para evitar frustração alheia. Devemos nosso senso de justiça a um longo histórico de cooperação mútua” (SCIAM 149).
A revista Página 22, da FGV, publicou em sua edição de julho de 2014 que a França recentemente alterou seu Código Civil, no qual agora os animais não humanos obtiveram o status de “seres vivos dotados de sensibilidade”. No Brasil tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei no. 6.799/13 do deputado Ricardo Izar (PSD-SP), propondo a mudança da natureza jurídica dos animais de “bens de posse” para “sujeitos de direito”, já que segundo o deputado a legislação sobre crimes ambientais é insuficiente para proteger os animais dos maus-tratos. Uma sociedade que respeita os animais não humanos tende a respeitar mais ainda os humanos.  
(Imagens: pinturas rupestres brasileiras)

Até quando continuará o desmatamento?

sábado, 22 de novembro de 2014
"...e cada um, tendo aceitado que a vida não é busca da verdade, que não existe ou nos será sempre inacessível, optará por passear de uma doutrina a outra, interminavelmente, como quem visita paragens distantes, saboreia receitas exóticas, mergulha em águas novas, deixando para trás o pathos da ignorância, seus malefícios, suas trevas ameaçadoras..."  -  Roger-Pol Droit  -  Se só me restasse uma hora de vida

O desmatamento no Brasil tem origens antigas. Populações indígenas que aqui estavam estabelecidas antes da chegada dos europeus, já praticavam a coivara para a formação de roças. Algumas tribos, como os xavantes, usavam o fogo como tática de guerra, segundo relato do sertanista Orlando Villas-Bôas. Mas, como a população indígena era diminuta e as queimadas limitadas a pequenos territórios, a prática tinha pouco impacto ambiental.
A destruição das florestas brasileiras começou com o avanço dos europeus sobre o ecossistema da Mata Atlântica, que originalmente se estendia do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, avançando para o interior do país e ocupando uma área de 1,3 milhões de km². A mata foi o local de extração do primeiro produto de exportação do país, o pau-brasil; madeira usada à época para tingir tecidos. Foi também na zona de influência da Mata Atlântica que se estabeleceram as primeiras cidades brasileiras e onde ainda hoje vive cerca de 80% da população. Até a década de 1950, grande parte da atividade econômica do Brasil – agricultura, mineração e a nascente indústria – estava concentrada em áreas originalmente ocupadas pelo bioma. O mesmo vale para os ciclos econômicos pré-industriais de nossa história; do pau-brasil, passando pela da cana-de-açúcar e o ouro, até o ciclo do café.
À medida que se exaurem os recursos naturais da floresta atlântica, através da atividade agrícola e do crescimento das cidades, se abrem frentes de ocupação de territórios no interior. A industrialização, a construção de Brasília, a expansão da malha rodoviária e o avanço da frente agrícola rumo ao oeste, são os marcos do avanço da economia sobre áreas inexploradas de Cerrado e da floresta amazônica. Nos anos do milagre econômico (1968-1973), quando a economia crescia em média 10% ao ano, o setor agrícola apoiado pelas pesquisas da Embrapa estabeleceu as bases do que hoje é o agronegócio; o setor da economia que mais traz divisas para o país. No início dos anos 1970 o governo militar termina a abertura da rodovia Transamazônica, estrada que mesmo parcialmente pavimentada, percorria 4.223 quilômetros, ligando Cabedelo, na Paraíba, à Lábrea, cidade do extremo oeste do estado do Amazonas. A estrada abre o vasto território da floresta amazônica a agricultores, madeireiros, garimpeiros, caçadores e todo tipo de aventureiros que vão tentar a sorte na região.

Assim, o ritmo de desmatamento da floresta amazônica foi aumentando gradualmente ao longo dos anos, devido às atividades agrícolas e pecuárias. Entre 1550 e 1970 a área desmatada não passava de 1% dos 4,2 milhões de km² que o bioma ocupa em território brasileiro. Nos últimos 40 anos, no entanto, segundo a ONG Greenpeace, 18% da Amazônia brasileira – 756 mil km² – foram derrubados. Nos últimos dez anos o desmatamento vem gradualmente diminuindo, caindo para 1.047 km² entre agosto de 2011 e julho de 2012. Em 2013 o desmate voltou a crescer (2.007 km²) e continua aumentando em 2014. Apesar de existirem metodologias diferentes para avaliar o ritmo de devastação da vegetação, vários fatores indicam que esta vem aumentando.
O impacto do desmatamento de parte da Amazônia será bem maior do que o da Mata Atlântica. Recursos hídricos, biodiversidade e clima serão definitivamente afetados. Depois disso, não haverá mais outro território novo a ocupar.  
(Imagens: fotografias de Walker Evans)

País precisa ser mais eficiente

sábado, 15 de novembro de 2014
" - Um meshummed troca um Deus por outro. Eu não quero Deus algum. Nós vivemos em um mundo onde o relógio se move rapidamente enquanto Ele fica lá no alto de sua montanha onde o tempo não passa, a olhar para o nada. Ele não nos vê, Shmuel, e não se importa conosco. Eu quero meu pedaço de pão hoje, não no Paraíso."  -  Bernard Malamud  -  O faz-tudo

Eficiência é a palavra do momento. É consenso entre os especialistas que o Brasil precisa de um banho de eficiência em todas as áreas. O país cresceu muito nos últimos vinte anos, mas a legislação, a infraestrutura, a formação da mão de obra, a gestão pública, e a administração das empresas pouco acompanharam este desenvolvimento. As melhorias que houve foram pontuais e quando ocorriam, eram barradas pelo mau funcionamento de outros fatores. Assim, por exemplo, a aquisição de modernas maquinas é de pouca valia, se não existem suficientes trabalhadores treinados para operá-las. Da mesma forma a compra de equipamentos hospitalares é inútil, se faltam recursos para instalá-los e colocá-los em funcionamento. De pouco adianta o empresário reformar e modernizar seu negócio, se não treina seus funcionários para melhor atender os clientes.
A eficiência diz respeito a toda a sociedade; ao Estado, ao cidadão e às empresas. Em um mundo no qual os recursos se tornam cada vez mais escassos e onde a população cresce em 78 milhões de pessoas a cada ano, é preciso produzir, distribuir e consumir de uma maneira mais eficiente. São necessárias leis que facilitem estas ações ao invés de dificultá-las; estruturas físicas (estradas, portos, etc.) e capital humano (profissionais capacitados) que agilize este processo. A gestão da sociedade também precisa ocorrer de uma maneira mais racional e objetiva. Para isso é necessária a formação de uma burocracia profissional, que nos níveis federal, estadual e municipal gerencie a máquina pública. Livre de ingerências políticas e da pressão de grupos, este funcionalismo público altamente capacitado deve estar acima de ideologias partidárias, tendo como único objetivo administrar a cidade, o estado ou a nação. O sociólogo Max Weber já apontava, no início do século XX, a importância deste corpo administrativo na condução administrativa de um país, dando suporte aos poderes legislativo, executivo e judiciário.
O uso eficiente dos recursos está inserido nas modernas práticas administrativas de empresas, sejam privadas ou públicas. Quanto mais valor – na forma de produtos ou serviços – é possível produzir com uma quantidade de trabalho e recursos, tanto mais eficiente é um sistema. Este princípio se aplica a máquinas, células de produção, indústrias, setores da economia e nações. Mas também pode ser aplicado a uma repartição pública, a um grupo de parlamentares ou a um tribunal.
Todos estes “processos” se utilizam de trabalho (o conhecimento dos profissionais que desempenham determinada função) e recursos (alimento, água, luz, matérias primas, instalações, equipamentos, etc.). Exemplo positivo de uso eficiente de recursos e aumento da produtividade é o do setor agrícola brasileiro. Enquanto que em 1960 a produção de grãos era de 17,2 milhões de toneladas, utilizando uma área de 22 milhões de hectares, em 2014 a produção é de 195,4 milhões de toneladas, usando uma área de 56,9 milhões de hectares. A produtividade de grãos subiu de 783 quilos por hectare para 3.433 quilos por hectare (jornal O Estado de São Paulo 26/9/2014).
Uma sociedade mais eficiente faz menos uso de recursos naturais e provoca menor impacto ao meio ambiente. Se medidas de eficiência tivessem sido implantadas anteriormente, talvez não precisássemos enfrentar as atuais crises da água e energia elétrica.
(Imagens: fotografias de Bill Perlmutter)