Aquecimento global cada vez mais real

sábado, 18 de maio de 2013
"Foi a partir daí que Lacan pôde afirmar um ateísmo do próprio cristianismo contra o paganismo, pela revelação final do Vazio criador, isto é, de uma criação a partir de um Nada de imaginável. Os sinificantes são criados ex nihilo, criados sem fim. Diz Lacan: 'Há uma mensagem ateia do próprio cristianismo. Por meio do cristianismo, diz Hegel, é que se completa a destruição dos deuses'."  -  Philippe Julien  -  A psicanálise e o religioso -  Freud, Jung, Lacan

Durante a primeira quinzena de maio de 2013 foi alcançada uma marca muito importante para a humanidade e para o planeta Terra. Segundo medições, o nível de dióxido de carbono (CO²) atingiu as 400 partes por milhão (ppm); o que significa que há 400 partes deste gás para cada milhão de partes de ar. As medições de CO² dissolvido na atmosfera terrestre começaram no fim da década de 1950, quando estavam em 315 ppm. Para se evitar o aumento do aquecimento global e das mudanças do clima, a ciência havia estabelecido o limite de 350 ppm.
Segundo a ciência, com relação ao clima, o último bilhão de anos da história do planeta pode ser dividido em dois períodos de aproximadamente 500 bilhões de anos. De um bilhão até 500 milhões de anos atrás, o planeta era muito frio, muito mais do que hoje. Neste período, segundo o geólogo Ernesto Lavina em entrevista para o jornal IHU online, "havia muitas geleiras espalhadas pelas latitudes médias e altas. Houve um momento, em torno de 640 milhões de anos atrás, em que toda a Terra se congelou, inclusive o Equador. É a teoria da Bola de Neve." Através do vulcanismo, com o lançamento de cinzas vulcânicas, CO² e vapor d´água para a atmosfera, o clima foi gradativamente se tornando mais quente, através do processo que hoje chamamos de efeito estufa. Ainda segundo Lavina, nos últimos 500 milhões de anos o clima do planeta foi na maior parte do tempo mais quente do que atualmente, não havendo gelo nos polos. Os períodos de polos congelados são raros; há 444 milhões de anos, há 300 milhões e no período atual, que teve início há cerca de 1,8 milhões de anos.
Tudo indica que devido às recentes condições climáticas do planeta associadas às atividades humanas, vivemos o período mais quente na história da Terra dos últimos 3,5 milhões de anos. Segundo o professor Brian Hoskins, diretor do Instituto Grantham para Mudanças do Clima do Imperial College de Londres, da última vez que a Terra estava tão quente não havia gelo permanente na Groenlândia e o nível dos mares era muito mais elevado. Já não restam mais dúvidas, portanto, de que a atmosfera está gradualmente se aquecendo por força do efeito estufa, ou seja, acúmulo de gases na atmosfera. O que não se sabe ainda é se este fenômeno pode ser creditado unicamente às atividades antrópicas (humanas).

O aquecimento do planeta deverá causar grandes impactos ao clima e ao tempo meteorológico. Onde existe abundância de chuva poderá ocorrer estiagem, alterando biomas e atividades econômicas; regiões frias se tornarão mais quentes; nível dos oceanos aumentará lentamente. O impacto destas mudanças provavelmente se manifestará em tempo perceptível no espaço de uma vida humana. Exemplo concreto disso é a diminuição da calota de gelo no Ártico, cujos primeiros sinais apareceram na década de 1970.
Enquanto o processo avança na natureza, a maior parte das pessoas, empresas e países está convencida de que a inventividade humana criará novas tecnologias, capazes de fazer frente ao desafio climático - o que é bastante provável. No entanto, ainda não conseguimos avaliar qual o custo a ser pago na realocação de cidades litorâneas e áreas de plantio inundadas; na reconstrução de portos, estradas e centrais elétricas. Além disso, desconhecemos o impacto social e econômico, resultante da migração de milhões de pessoas para outras regiões.  
(Imagens: fotografias de Herbert Bayer)

Aspectos sociológicos do capitalismo avançado

sábado, 11 de maio de 2013
"Um povo que concebe a vida exclusivamente como busca da felicidade só pode ser cronicamente infeliz"  -  Marshall Sahlins  -  Esperando Foucault, ainda

Foram várias as transformações econômicas, sociais, tecnológicas, culturais e políticas pelas quais vem passando a sociedade industrial ao longo das últimas décadas do século XX e início do século XXI. Um dos principais fatores de mudança – segundo pensadores cujas idéias serão descritas adiante – é a importância assumida pela informação e seu fluxo. Este talvez seja o aspecto que melhor poderia resumir a sociedade pós-industrial ou pós-moderna.
A primeira grande característica deste grande quadro de mudanças foi o desaparecimento da União Soviética e do mundo socialista, resultando na incorporação de mais países à economia de mercado. Tais fatos, aliados ao uso disseminado das novas tecnologias de informação, formaram a base do que depois se convencionou chamar de "sociedade pós-industrial", "sociedade do conhecimento", "sociedade em rede", "sociedade pós-moderna", entre outras denominações. O sociólogo americano, Francis Fukuyama (1952) em seu livro "O fim da história e o último homem" (1991) à época falava no “fim da história” – clara alusão ao fim do embate capitalismo versus socialismo, com a (aparente) vitória do sistema de livre mercado.
Na área da produção, por exemplo, deixa de vigorar o modelo taylorista-fordista; baseado na divisão de tarefas nos diversos níveis hierárquicos e na clara divisão entre planejamento e execução. Esta forma de organização fabril foi criada por F. W. Taylor (1856-1915) no início do século XX, nos Estados Unidos. Entre a Primeira e Segunda Guerra Mundial o conceito da linha de montagem foi adotado por parte das indústrias produtoras de bens de consumo e equipamentos – até porque o esforço de guerra exigia rápida reposição de produtos e equipamentos. A partir da década de 1950 a linha de produção teve grande expansão, sendo implantada tanto nas fábricas dos países fortemente industrializados, quanto nas nações que davam início a sua industrialização, como o Brasil. A partir da década de 1960 são incorporados mais desenvolvimentos tecnológicos, os quais a partir dos anos 1980 delinearão um novo tipo de indústria, baseada no paradigma informacional. Para este avanço contribuíram o desenvolvimento da tecnologia eletrônica, com a invenção do transistor e do circuito eletrônico miniaturizado (anos 1950) e do circuito lógico programável (anos 1980). As aplicações destes inventos às diversas atividades – telecomunicações, automação, mobilidade, segurança – foram variadas e levaram a um aumento da capacidade de produção e distribuição. Estas mesmas inovações possibilitaram o desenvolvimento de computadores, da automação industrial e bancária e da rede mundial de computadores e das redes sociais (com a internet versão 2.0). No entanto, com unidades de produção e comercialização automatizadas, diminuía a necessidade de mão de obra. A economia demandava um novo tipo de profissional; dotado de mais conhecimentos, flexível, capaz de trabalhar em equipe e tomar decisões. No mundo da administração o final dos anos 1980 e início dos 1990 é caracterizado pelas políticas do downsizing, da reengenharia e da normatização; que fizeram com que milhões de trabalhadores do sistema fordista-taylorista perdessem seus empregos.
Este, o quadro geral introdutório. Para efetuar a análise dos fatos que descrevemos nas linhas acima, fazemos referência à visão de três sociólogos, cuja interpretação da sociedade pós-capitalista resumiremos e comentaremos abaixo.
Adam Schaff (1913-2006), influente filósofo e sociólogo marxista polonês, foi membro do Partido Comunista Polonês e do Comitê Executivo do Clube de Roma. Em sua obra “A sociedade informática” (1985) o filósofo faz análises bastante acertadas, sobre como se desenvolveria a sociedade industrial poucos anos depois, apontando a rápida difusão da tecnologia da informática e, consequentemente, a diminuição dos postos de trabalho. Em outro trecho de seu livro, Schaff aponta as mais importantes áreas da revolução técnico-científica então em andamento: a microbiologia e a engenharia genética; a revolução técnico-industrial e a revolução energética. Efetivamente, foram estas tecnologias – amparadas pelo grande desenvolvimento da atividade agrícola (revolução verde, OGM), da medicina, da informática e da difusão das energias renováveis – que rapidamente se desenvolveram ao longo dos últimos 20 anos.

Schaff também faz referência aos aspectos humanos da nova sociedade: o papel do Estado, a questão da democracia e o papel do cidadão. Fato é que muitos autores marxistas tinham uma visão pessimista das novas tecnologias da informação, encarando-as como novo instrumento de dominação do homem. Se isto efetivamente ocorreu nos meios de produção, o mesmo não é válido para a circulação da informação (o mais importante elemento da sociedade pós-industrial). A posterior história mostrou que a informática e a internet contribuíram para colocar em cheque o poder de elites de diversos países, apoiando movimentos democráticos, como no caso da "Primavera Árabe".   
Outro autor a ser citado é o futurista e escritor Alvin Toffler (1928). Em seu livro “Powershift” (1990) Toffler anuncia o surgimento de uma nova economia baseada no conhecimento, na qual a produção de riquezas é totalmente dependente da comunicação instantânea e disseminação de dados e idéias. Assim como Schaff, Toffler (escrevendo em 1990, depois da Queda do Muro de Berlim) também aponta dois fatores influentes na economia: a automatização aliada à procura por trabalhadores treinados, com capacidades diversificadas. Convencido da importância do conhecimento e de sua comunicação, Toffler também alerta para o perigo da formação de elites com acesso quase exclusivo à informação e conhecimentos, provocando a divisão da sociedade em “inforricos” e “infopobres”.
Outro pensador de relevância na análise deste período é o sociólogo espanhol Manuel Castells (1942), autor de importante obra em três volumes "A sociedade em rede”. Em sua análise do novo quadro da sociedade industrial Castells apresenta quatro aspectos principais: 1) A importância da tecnologia da informação; 2) A substituição do conceito de "modo de produção" por "modo de desenvolvimento"; 3) A compreensão da importância do Estado como indutor do processo de desenvolvimento; e 4) A visão da sociedade informacional como uma sociedade em rede (conexões de todos os tipos). Neste contexto, a exemplo de Toffler, Castells considera a informação e sua comunicação como suportes do novo sistema de riqueza e poder, apontando cinco principais aspectos deste paradigma: a) A informação é a matéria prima principal, fazendo com que; b) As novas tecnologias se façam presentes em todas as atividades humanas; c) Organizadas na forma de redes; d) Provocando a flexibilidade na organização e reorganização de processos e organizações; e implicando na e) Crescente integração entre biologia e microeletrônica. Castells, talvez porque escreva em uma fase mais avançada da mudança social que ora analisamos, consegue apresentar uma visão mais ampla da sociedade pós-industrial, incorporando em sua análise todas as características apontadas por vários outros autores. 
Um fator de grande influência no desenvolvimento da sociedade pós-industrial é o tema do meio ambiente. A questão ambiental afetará tanto aspectos econômicos quanto sociais, tecnológicos e culturais da sociedade pós-industrial.
No capitalismo "turbinado" da sociedade pós-industrial as novas tecnologias (web, informática, automação, etc.) estão disponíveis para todos, não sendo mais vantagem competitiva. Os grandes fabricantes de produtos de consumo não ganham mais dinheiro com a valorização da qualidade de seus produtos, como no passado. Esta atualmente está acessível a todos os concorrentes com o uso da tecnologia. Hoje a taxa de lucro do fabricante depende de volumes vendidos. As vendas, por sua vez, dependem de design, propaganda, distribuição - basicamente do marketing. Para lucrar bastante, cabe aos fabricantes e distribuidores inundar o mundo com produtos de ciclo de vida curto, para forçar o consumidor a acelerar seu ritmo de consumo e assim aumentar a taxa de lucro das empresas.
Se o lucro está na quantidade, é necessário fabricar volumes cada vez maiores, aumentando o consumo de recursos (água, eletricidade, matérias primas). No entanto, o maior uso de insumos eleva o impacto ao meio ambiente: destroem-se mais recursos naturais (mineração, desmatamento para agricultura, uso de água, etc.) e geram-se mais resíduos (efluentes, poluição atmosférica, resíduos). Não existe processo produtivo sem geração de resíduos; a produção 100% eficiente é impossível.
Por um lado, parece que para sobreviver na forma atual, o capitalismo baseado no consumo de massa precisa continuar funcionando dentro da lógica que tem como conseqüência a depleção rápida dos recursos naturais. Por outro, sabe-se que estes são finitos e que já estão mostrando sinais de exaustão - falta de água em diversas regiões do planeta, aquecimento global, rareamento de certos metais, exaustão de solos para atividades agrícolas, entre outros.
A humanidade está perante um grande impasse envolvendo a reestruturação econômica, social, política e tecnológica; talvez o maior que já enfrentou. A população ainda apresenta um crescimento vegetativo considerável em algumas regiões, aumentando o numero de consumidores, pelo menos até a metade deste século, segundo especialistas. É fato que todos precisamos sobreviver, direta ou indiretamente dependentes de atividades produtivas. No entanto, o sistema de produção está organizado de forma a explorar os recursos naturais, utilizando-os em um ritmo mais rápido do que podem ser repostos pela natureza. Novas tecnologias não representam uma solução definitiva, já que a demanda crescente por recursos está na lógica do sistema. O que fazer?
Fontes pesquisadas:
O microchip, pequena invenção, grande revolução. Disponível em :
Adam Schaff: from semantics to political semiotics. Disponível em: 
O fim da história e o último homem. Disponível em:
A sociedade em rede. Disponível em:
Executive book report: Alvin Toffler Powershift. Disponível em:
Breve histórico do desenvolvimento das atividades econômicas e da destruição ambiental. Disponível em:
<http://ricardorose.blogspot.com.br/search/label/Meio%20Ambiente?updated-max=2010-10-14T12:53:00-07:00&max-results=20&start=85&by-date=false>. Acesso em 22/04/2014
Sociedade em rede e modo de desenvolvimento informacional: descrições sociológicas da sociedade contemporânea sob o capitalismo avançado. Disponível em
<http://devotuporanga.edunet.sp.gov.br/OFICINA/geografia-Sociedade_Rede_paradigma.pdf>. Acesso em 10/05/2013
(Imagens: fotografias de Roman Vishniac)

Mudanças climáticas e negócios

sábado, 4 de maio de 2013
"Governança diz respeito a como os hábitos culturais, as instituições políticas e o sistema econômico de uma sociedade podem se alinhar para gerar qualidade de vida desejada pela população."  -  Nicolas Berggruen e Nathan Gardels  -  Governança inteligente para o século XXI

Já se foi o tempo em que a preocupação ambiental era considerada apenas mais um modismo inventado nos países ricos. Também vai longe a época na qual bastava às empresas atender à legislação ambiental, o que nem sempre ocorria na prática. As condições de atuação das empresas mudaram: aumentou a pressão da lei, cresceu o senso crítico do consumidor e escasseiam os recursos naturais.  
A ONG Carbon Disclosure Project (CDP) atua a nível mundial, ajudando empresas a operarem de maneira mais sustentável, preservando os recursos e reduzindo a pegada de carbono; as emissões de gases que provocam as mudanças climáticas. Recentemente a CDP elaborou um estudo, procurando identificar a influência das mudanças climáticas na cadeia de produção de grandes empresas. A pesquisa foi realizada com 2.415 empreendimentos de todo o mundo, incluindo seus 2.363 fornecedores e 52 corporações com grande poder de compra, totalizando uma movimentação anual de aproximadamente US$ 1 trilhão (o PIB mundial em 2012 foi de aproximadamente US$ 77 trilhões). A parte brasileira da pesquisa, intitulada "CDP Supply Chain Brazil 2012-2013" (Cadeia de Suprimentos Brasil 2012-2013) foi elaborada com as respostas de 202 fornecedores de sete grandes compradores: AES Eletropaulo, Bradesco, Braskem, Fibria, Mafrig, Suzano Papel e Celulose e Vale. Alguns dados da pesquisa merecem ser comentados, pois demonstram a importância dos recursos naturais na própria subsistência das empresas.
No que diz respeito ao grau de conscientização das empresas pesquisadas este é cada vez maior, especialmente quanto à importância das mudanças climáticas no futuro dos seus negócios. Na pesquisa realizada neste ano, 70% dos que responderam ao questionário identificaram este fenômeno como um dos principais riscos às suas atividades. Com relação a isto, enquanto 92% dos consultados informaram ter metas de redução de emissões, somente 27% de seus fornecedores compartilham deste objetivo.
Às empresas da pesquisa preocupam problemas como a escassez de recursos hídricos e fenômenos climáticos adversos com suas consequências, como tempestades, secas e nevascas; ocorrências que podem causar a interrupção ou redução da capacidade produtiva e o aumento dos custos operacionais. A escassez de água é mencionada por mais da metade dos entrevistados como um dos maiores riscos para sua cadeia de fornecimento. Com relação a este tema, veja-se a situação das empresas cujo processo de produção demanda grandes quantidades de água, caso das indústrias de papel ou de alimentos. Ou as empresas cuja matéria prima principal é o próprio líquido, como as indústrias de bebidas em geral. Caso estes empreendedores não estejam estabelecidos em regiões onde a água seja abundante, muitas vezes com elevado grau de pureza, os custos de produção se tornarão cada vez elevados, podendo inviabilizar os negócios.
O estudo também identificou três níveis de evolução nos quais se encontram as empresas envolvidas na pesquisa. Em um primeiro estágios, estão os empreendimentos preocupados em melhorar a sua atuação. Em um segundo degrau as empresas que incrementaram a qualidade de seus produtos ou serviços. No estágio mais alto estão as empresas que, passando pelos anteriores, desenvolveram novos modelos de negócios, agregando valor aos seus produtos e desenvolvendo mercados.
(Imagens: fotografias de Vivian Maier)

Tratamento e consumo de água

sábado, 27 de abril de 2013
"Mesmo hoje em dia, continua prevalente a ideia de que os empregos industriais exigem maiores qualificações do que os empregos do setor de serviços, e que os trabalhadores do setor de serviços são caricaturados como 'biscateiros' ou 'artistas de teatro mambembe'."  -  James Teboul  -  Serviços em Cena

A cada ano, no dia 22 de março, celebra-se o Dia Mundial da Água. A data comemorativa foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1992, para levantar discussões sobre este precioso recurso com o lançamento do documento "Declaração Universal dos Direitos da Água". O debate sobre este tema nunca é demais, já que grande parte dos recursos hídricos do planeta ainda está sendo desperdiçada e poluída. O quase desaparecimento do mar de Aral na Ásia Central, o rebaixamento do lençol freático em várias regiões do globo, o assoreamento de grandes rios; são sinais de que ainda há muito por fazer na gestão dos recursos hídricos.
A água, apesar de ser relativamente comum no universo é rara na forma líquida sobre a superfície dos planetas. A Terra é um dos poucos planetas que abriga grandes quantidades deste elemento: os oceanos contêm 97% da água superficial do planeta; as geleiras e calotas polares têm 2,4%; rios, lagos e lagoas abrigam 0,6%. A água disponível para consumo das espécies vivas, incluindo os humanos, é limitada, mas não insuficiente. Através do ciclo hidrológico o líquido é depurado e redistribuído, atendendo às necessidades dos ecossistemas da Terra. Este processo ocorre desde a formação do planeta, há 4,6 bilhões de anos. Os problemas efetivamente apareceram quando pela ação do homem seu uso se tornou excessivo e a água passou a ser devolvida ao meio ambiente contaminada por elementos orgânicos e inorgânicos, na forma de efluentes e lodos. Nesta situação, o ritmo de depuração natural da água é lento demais para as necessidades de uma civilização perdulária com os recursos naturais e aí começam a aparecer os problemas. Aqui vale lembrar que toda a preocupação com a poluição e a crescente escassez da água em determinadas regiões da Terra, afeta principalmente os seres humanos. Se, por algum acaso, desaparecermos como espécie, o ciclo hidrológico cuidará da despoluição das águas ao longo das eras. Não somos necessários para o funcionamento do planeta. 
O volume de água disponível na Terra, desde sua origem, permaneceu quase inalterado. Os cientistas afirmam que apesar de toda a contaminação a que é submetida, a água não desaparecerá, mas poderá se tornar cada vez mais poluída e misturada a resíduos sólidos. Este processo fará com que sua limpeza para usos mais nobres se tornará gradualmente mais cara e sua concentração - em lagos, rios e no subsolo – poderá mudar. Por exemplo: a água que se tornou cada vez mais rara no Norte da África nos últimos dez mil anos – seja na forma de precipitação ou no subsolo –, propiciando a formação de um deserto, deslocou-se para outras regiões do planeta, através do ciclo hidrológico. São os fatores climáticos como os ventos e temperatura, associados aos aspectos geográficos (montanhas, oceanos, rios, vegetação), que fortemente influenciam a incidência de chuvas, principal fator no ciclo da água. Este processo de realocação dos recursos hídricos é constante e sujeito a inúmeros aspectos adicionais, que ocorrem ao longo de extensos períodos de tempo, como as radiações solares, a mudança do eixo da Terra, erupções vulcânicas, maremotos, etc. Daí a grande dificuldade de se desenvolver modelos simulados de ciclos hidrológicos de grandes regiões ou longos períodos.    
O impacto humano sobre os recursos hídricos aumenta junto com o crescimento da população. Se antes a poluição era restrita a áreas habitadas e de atividade agrícola, com o início da industrialização estes aspectos mudam: em 1800 a humanidade atingiu a marca de um bilhão de pessoas, no início da primeira fase da Revolução Industrial. Daí para frente o crescimento populacional aumentou num ritmo cada vez mais rápido: em 1930 o mundo tinha dois bilhões de habitantes; 1960, três bilhões; 1975, quatro bilhões; 1987, cinco bilhões; 1999, seis bilhões e 2012, sete bilhões de pessoas. O crescimento da população só foi possível com uma maior oferta de bens e alimentos, para cuja produção foi necessário mais consumo de água.
Os primeiros impactos significativos que os humanos provocaram sobre os recursos hídricos ocorreram com a prática regular da agricultura, que teve início há aproximadamente oito mil anos. Grandes extensões de áreas plantadas, geralmente localizadas em regiões de pouca precipitação pluviométrica (Egito, Suméria e vale do Indo), precisavam ser irrigadas, através da construção de canais. Assim além de descarregar resíduos e efluentes sanitários nos rios, estas culturas também fizeram obras de engenharia que influíam no fluxo regular dos rios e na qualidade de suas águas. Foram estas as civilizações que primeiramente mostraram uma preocupação com a qualidade da água potável. Métodos de melhoria do gosto ou do odor da água potável datam de antes de 4.000 a.C. Os documentos mais antigos tratando deste tema foram encontrados em tumbas egípcias e em documentos da antiga Índia, onde um texto médico denominado Sus´ruta Samita, datado de 2.000 a.C., dá instruções sobre o tratamento da água. Os métodos incluem a fervura, aquecimento da água pela luz solar, a colocação de ferro aquecido na água, processos de filtragem com gravetos e areia e mistura de certas sementes ou pedras à água. Nas paredes dos túmulos de Amenophis II e Ramses II, faraós do 15º e 13º séculos a.C. respectivamente, encontram-se desenhos de equipamentos para limpeza da água. Os gregos e romanos também desenvolveram técnicas para purificação, já que os últimos tinham criado sofisticada engenharia para captação e transporte de água através dos aquedutos.
As tecnologias de depuração da água não sofreram alterações significativas durante todo o período medieval, até o início da Era Moderna. As pequenas cidades da Idade Média eram abastecidas por água de poços, espalhados pelo perímetro urbano, oferecendo água de relativa qualidade, limitando o surgimento de epidemias provocadas por água contaminada. A partir dos séculos XI-XII, com o aumento da população urbana e a lenta contaminação do subsolo, a disenteria tornou-se doença comum. Causada por bactérias ou amebas e disseminada por alimentos e água contaminada por matéria fecal, a moléstia ceifou dezenas de milhares de vidas, principalmente de crianças, no período. A partir do século XVIII, com o aparecimento das primeiras empresas de fornecimento de água para residências, o processo de filtragem do líquido tornou-se procedimento regular na Europa. Ao longo do século XIX a captação, preparação e distribuição de água tornam-se mais comuns, aliando as novas descobertas na área da medicina – entre outras a descoberta do vibrião da cólera por Koch e os conceitos da microbiologia desenvolvidos por Pasteur – disseminando-se pelas mais importantes cidades da Europa e dos Estados Unidos. Foi somente no início do século XX que os serviços de tratamento de água se popularizaram – pelo menos nos países mais desenvolvidos.

No Brasil as primeiras estações de captação e tratamento de água surgiram no final do século XIX e início do século XX, começando pelas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Por volta de 1930 todas as capitais brasileiras possuíam sistemas de tratamento de água. Estes, se não atendiam toda a população, pelo menos forneciam água tratada para as regiões centrais e bairros mais antigos. A partir da década de 1940, com o aumento do êxodo rural e o crescimento da demanda por saneamento, surgem as primeiras empresas públicas e autarquias de serviços de tratamento da água. O setor de saneamento – especificamente o tratamento de água – tem um grande impulso a partir do início da década de 1970 com a implantação do Plano Nacional de Saneamento – Planasa. O plano criou as companhias estaduais de saneamento, obrigou os estados a investirem no setor e estabeleceu linhas de crédito com base em recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). A década de 1980, também para o setor de saneamento, foi de relativa estagnação, dado o alto endividamento do Estado e as elevadas taxas de inflação. A retomada dos investimentos e a ampliação da infraestrutura do setor só ocorrem a partir da estabilização da economia em 1994, com um aumento dos recursos principalmente com a criação do Plano de Aceleração do Crescimento, em 2007. No entanto mesmo com a criação do Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), criado pelo Ministério das Cidades em 2012, e que prevê investimentos de R$ 270 bilhões até 2030, as perspectivas para o setor ainda são incertas.       
Atualmente, 81% da população do País, cerca de 157 milhões de pessoas, têm abastecimento de água tratada. Os 37 milhões que não são atendidos em suas necessidades básicas de água habitam principalmente a região Norte, o Nordeste e o Centro-Oeste. Além de deixar de suprir parte considerável da população com água tratada, em média 38% do volume de água tratada são perdidos no sistema de distribuição. Isto sem mencionar que somente 47% do esgoto sanitário são coletados e apenas 38% deste volume coletado é tratado – o que quer dizer que meros 18% do volume total do esgoto gerado no Brasil são tratados.
Outro aspecto é quanto à qualidade da água tratada. Segundo dados do Ministério da Saúde, apenas 67% das cidades estão preparados para fiscalizar e avaliar a qualidade da água que sua população consome. Não havendo fiscalização constante, não se conhece a situação da água nas fontes de fornecimento (lagos, rios, nascentes), no tratamento e nem no produto final, distribuído aos consumidores. O problema é grave e já na década de 1960 as autoridades de saúde dos Estados Unidos chegaram à conclusão de que não somente a cor e a presença de patógenos ou produtos químicos deveriam ser os únicos parâmetros na aferição da qualidade da água. Nessa época já havia uma série de novos produtos químicos e farmacêuticos, que chegando às fontes de fornecimento acabavam poluindo as águas e não eram eliminados nos sistema de tratamento – mesmo com tecnologias de adsorção em filtros de carvão ativado. Hoje o número de substâncias químicas de todo o tipo, que por vária maneiras chegam às fontes de captação da água para consumo são bem maiores. Em pesquisa realizada pelo Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) com a água consumida na Região Metropolitana da Região de Campinas, foi constatada forte presença de interferentes endócrinos, substâncias que se ingeridas por longos períodos podem interferir no funcionamento das glândulas. Durante o período de pesquisa foram encontrados diversos tipos de hormônios e de esteróides derivados do colesterol, produtos de origem farmacêutica e industrial. As concentrações identificadas são em alguns casos mil vezes mais altas do que em países da Europa. Estas substâncias são relacionadas com o aparecimento de diversos tipos de câncer e não são eliminadas pelos sistemas convencionais de tratamento de água em funcionamento no País, segundo especialistas. Mas informações sobre o assunto estão em http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/dezembro2006/ju346pag03.html.
O tratamento da água com adição de cloro é bastante eficiente em um país onde grande parte das fontes de fornecimento já está contaminada por efluentes domésticos. Isto porque, grandes volumes de efluentes não tratados são descarregados nos rios e lagos, que por sua vez também fornecem água para consumo humano. Assim forma-se o círculo vicioso: a baixa qualidade da água captada faz com que o tratamento se torne cada vez mais caro; e a descarga dos efluentes torna as fontes de fornecimento cada vez mais poluídas, encarecendo seu tratamento para consumo humano. Desta forma sobram poucos recursos para tecnologias de tratamento da água mais avançadas que o cloro ou dióxido de cloro, desinfetantes que não são unanimidade entre os especialistas. Descobriu-se, por exemplo, que certos patógenos de água potável são resistentes ao cloro e podem causar doenças como a hepatite, gastrenterite, criptosporidiose e Mal do Legionário. Nos Estados Unidos, menos de 60% da água para consumo humano têm adição de cloro; e em níveis mais baixos que no Brasil – 4 PPM (parte por milhão) contra cinco PPM no Brasil. Na Alemanha e Holanda o elemento só é utilizado em alguns casos, já que as fontes de fornecimento são protegidas e controladas, proporcionando a captação de água de alta qualidade, com pouca necessidade de tratamento. Pesquisas indicam que a exposição prolongada ao cloro pode ocasionar câncer de bexiga, do aparelho digestivo e de mama, devido à tendência do cloro de interagir com compostos orgânicos na água, formando trialometanos (THM) e ácidos haloacéticos (HAA5).
O Brasil ainda está engatinhando no que se refere ao tratamento e distribuição de água potável. Em uma primeira fase é preciso atingir algo em torno de 95% de água tratada – mais do que isto é utópico para um país com as dimensões do nosso. Mesmo o sistema alemão, eficiente e descentralizado (operado por cerca de 6.000 empresas concessionárias) não chega a atender 100% da população. Quando alcançaremos esta marca de pessoas abastecidas com água tratada é difícil estimar; talvez em 10-20 anos, dependendo de fatores econômicos e sociais. Em uma segunda fase provavelmente seriam implantados sistemas de avaliação e fiscalização das fontes de fornecimento. Para que esta providência seja efetiva, terão que ser reduzidos ou eliminados os níveis de poluição por efluentes domésticos de rios e lagos, que funcionam como fonte de captação de água para consumo. Em uma terceira fase poderiam ser implantados sistemas mais eficientes de tratamento – já em uso em algumas poucas unidades de tratamento – como sistemas de ozonização (O³) e tratamento com raios ultravioleta (UV), que eliminariam a prática da cloração da água. Esta solução provavelmente não será aplicada a todas as unidades de tratamento do país, já que fatores econômicos e características regionais poderão requerer outras tecnologias. Outra possibilidade, possivelmente a mais provável, é que os avanços técnicos citados acima ocorram de maneira diversa, em ritmos de implantação diferentes, nas variadas regiões do País. 
(Imagens: fotografias de David Seymour)

Preservação da "Amazônia Azul"

sábado, 20 de abril de 2013
"Todos os grandes povos da Mesoamérica sentiram-se poderosamente fascinados pelo mistério do cosmo: a recorrência cíclica e previsível dos fenômenos celestes, o ritmo infatigável das estações e a influências das diversas fases da cultura do milho; o próprio ciclo da vida e da morte, do dia e da noite em sua alternância inexorável mas necessária."  -  Paul Gendrop  -  A civilização maia

A diminuição da quantidade de peixes já é percebida há décadas e vem sendo constantemente apontada pelos ambientalistas como sinal de degradação dos biomas marinhos. Em recente pesquisa realizada pela Universidade da Columbia Britânica foi constatado que a sobrepesca está reduzindo em até 40% o numero de peixes de grande porte, como o atum, o bacalhau e a garoupa - peixes que estão na base alimentar de muitos países. Mesmo o pescador de final de semana já percebeu há anos, que a sobrepesca, realizada por barcos munidos de equipamentos cada vez mais eficientes e potentes, está acabando com os peixes.
O problema é do conhecimento de todos os países e da Organização das Nações Unidas (ONU). Jacqueline Alder, especialista do programa ambiental da ONU sugere uma imediata diminuição no número de barcos e de dias disponíveis para a pesca. Somente dessa maneira, segundo ela, seria possível dar tempo para que o número de cardumes aumente. Apesar disso, a maioria dos países continua investindo pesadamente em suas indústrias pesqueiras; seja para manter os empregos ou para garantir a proteína necessária para alimentar a população - caso da China, que captura quantidades de pescado muito acima dos números oficialmente declarados aos órgãos de acompanhamento.
A situação dos oceanos só tem piorado nos últimos 50 anos. Além do aumento da temperatura média das águas, provocada pelas mudanças climáticas, os mares de todo o mundo são vítimas de outros tipos de ameaças. A cada ano são descarregados no mar entre 1 a 3 milhões de toneladas de petróleo e seus derivados; mais de seis milhões de toneladas de lixo e quantidades incalculáveis de esgotos domésticos. Segundo especialistas, existe nos oceanos um total de 245 mil km² - área equivalente ao estado de São Paulo - onde não há vida, devido a pouca quantidade de oxigênio dissolvida na água.  
Uma solução proposta por especialistas seria o aumento das áreas de preservação; áreas onde todo tipo de atividade de exploração econômica fosse proibida. Esta é também a ideia de alguns deputados brasileiros, que pretendem criar uma Lei do Mar, através da qual se preservaria uma zona marinha de aproximadamente 3,5 milhões de quilômetros quadrados, área que a Marinha chama de "Amazônia Azul". O projeto tem grande importância para a preservação dos recursos na região costeira, já que existem 463 municípios ao longo de 10,8 mil km de costa, onde vivem cerca de 50 milhões de brasileiros.

O Brasil tem até agora apenas 1,57% de sua área marinha protegida. Por outro lado, em negociações internacionais assumimos o compromisso de aumentar este percentual para 10% até 2020. A proposta de criação desta área de preservação na costa brasileira também está sendo fortemente apoiada pela Fundação SOS Mata Atlântica, ONG que muito se empenhou na proteção da floresta atlântica nas décadas de 1980 e 1990, atuando até hoje.
A proposta deverá receber um apoio cada vez maior no Congresso, a partir do momento em que a população se conscientizar da vantagem de ampliar a zona de preservação marinha e pressionar os políticos. Indústria da pesca (já que as áreas de preservação também atuarão como criadouros de peixes), turismo e lazer; cidades localizadas à beira mar; todos se beneficiarão com este projeto. Cabe agora às mídias divulgar e discutir a proposta, para obter o apoio da opinião pública, dos políticos e empresários.
(Imagens: fotografias de Hildegard Rosenthal)

Rio: "Queremos atitude"

sábado, 13 de abril de 2013
"O Expressionismo toca profundidades. Nele predomina o trágico, com alguma coisa de profético. Um ensaísta francês classificou-o de "um simples Fauvismo mais violento'".  -  Raul Bopp  -  Movimentos modernistas no Brasil  - 1922-1928

Em final de março de 2013 o governo federal acabou reconhecendo a situação de emergência em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro. Até aquele momento já haviam morrido 33 pessoas, a maioria soterrada por imensas quantidades de lama. Ao mesmo tempo, mais de mil pessoas estavam desalojadas e outras 15 mil continuavam em áreas de risco. A missa realizada na catedral São Pedro Alcântara em memória das 33 vítimas das chuvas, contou com a presença da presidente Dilma, do governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral e do ministro da integração nacional Fernando Bezerra, entre outras autoridades. Fora da igreja, uma pequena multidão portava cartazes com dizeres como "Não queremos sua oração, mas sua ação", "Lamentar não ressuscita" e "Queremos atitude". Os manifestantes protestavam contra falta de iniciativa e transparência nos gastos públicos relacionados com a recuperação da região.
A situação de calamidade na região serrana do Rio vem se arrastando há mais de dois anos, quando quase mil pessoas foram mortas por causa de avalanches causadas por pelas fortes chuvas. De lá para cá, pouca coisa mudou na região. A burocracia, a desorganização e a insuficiência de verbas fizeram com que parte da população continuasse morando em área de risco, já que as novas moradias prometidas pelas autoridades municipais e estaduais em parte ainda não foram entregues. Algumas casas recentemente construídas foram inundadas por estarem em local inadequado, sujeito a enchentes. Com relação a essa situação, segundo o jornal O Globo, "a declaração da presidente Dilma, de que "as pessoas não querem sair", é uma meia verdade: de fato o risco existe, mas como abandonar a residência sem ter para onde ir?".
As condições na região são, no mínimo, confusas. Aparentemente as verbas destinadas à reorganização da região nunca forma suficientes. Além disso, não se sabe se todos os recursos destinados à recuperação, através do governo estadual e das prefeituras, efetivamente foram aplicados em benefício da população. Com relação a isso, o Ministério Público Federal chegou a fazer investigações na região em 2011, levado por suspeitas de desvio de recursos públicos, através de superfaturamentos, fraudes e dispensa de licitações, entre outros crimes. À época e prefeito de Nova Friburgo e seu secretário de governo foram preventivamente afastados e o prefeito de Teresópolis perdeu o mandato. 
Nos últimos dias, segundo o ministro da Integração Nacional, a prefeitura de Petrópolis solicitou ao governo federal recursos de R$ 112 milhões, para socorrer as vítimas. Não ficou claro de que vítimas a prefeitura está falando: se as recentes, se daquelas de 2011, ou ambas; nem como serão gastos estes recursos. Com relação às verbas destinadas à prevenção e resposta às catástrofes, o ministério da Integração Nacional não chegou a gastar nem um terço dos fundos de que dispunha em 2012, segundo o jornal Folha de São Paulo.
Falta de capacidade de gestão, de planejamento e controle, parecem ainda ser características de parte da administração pública no Brasil. No entanto, catástrofes causadas pelas mudanças climáticas, como as chuvas no Rio de Janeiro e as secas no Nordeste, serão cada vez mais comuns. É preciso capacitar pessoas e fiscalizar administrações, para que além da "indústria da seca" do Nordeste também não se crie a "indústria da chuva" no Rio de Janeiro.
(Imagens: fotografias de Mario de Biasi)

Medidas para a proteção do tubarão

sábado, 6 de abril de 2013
"Acabam-se as tradições muito antes que acabe o mundo; porque a ordem dos sucessos não se inclui na fábrica do Universo; é coisa exterior, e indiferente."  -  Mathias Aires  -  Reflexões sobre a vaidade dos homens

O tubarão é vítima de sua própria fama. Conhecido até o século XVI pelos marinheiros portugueses como “cão do mar”, o peixe sempre teve má fama entre as tripulações dos barcos devido a sua agressividade. Mas qual animal, incluindo o homem, não é agressivo quando movido pela fome? O filme “Tubarão” de Steven Spielberg, produzido em 1975 e tendo três sequências – “Tubarão II” (1978), “Tubarão III” (1983) e “Tubarão IV – A Vingança” (1987) – chamou a atenção do grande público para o animal, sempre caracterizado como uma criatura agressiva, fria e obtusa. Com esse desserviço prestado pelo cinema de Hollywood, grande parte das pessoas passou a ver o tubarão como um terrível predador, com especial predileção por carne humana - pelo menos nos filmes.
O tubarão é uma das espécies de peixes mais antigas que existem, tendo surgido há aproximadamente 400 milhões de anos. No entanto, ao longo de sua existência como espécie, os tubarões foram se adaptando às condições mutáveis dos oceanos, desenvolvendo uma série de capacidades físicas que fizeram com se tornassem uma das espécies mais bem-sucedidas na história da vida sobre a Terra. O animal está dividido em 375 espécies, dos quais a menor, o tubarão-lanterna anão, tem apenas 17 centímetros de comprimento, enquanto a espécie de maior tamanho, o tubarão-baleia, pode atingir 12 metros. As espécies conhecidas como tubarão-branco, tubarão-tigre, tubarão-azul, tubarão-mako e tubarão-martelo são superpredadores e ocupam o topo da cadeia alimentar dos oceanos; algo parecido com os leões, tigres, ursos polares e onças.
Ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, grande parte das espécies de tubarões não ataca os seres humanos. Das 375 espécies do peixe, apenas quatro estiveram envolvidas em ataques mortais a pessoas: o tubarão-branco, o galha-branca-oceanico, o tubarão-tigre e o tubarão-de-cabeça-chata. No entanto, a maior parte destes ataques ocorreu quando humanos invadiram o ambiente natural do animal. A média mundial anual de mortes provocadas por ataques de tubarões entre 2001 e 2006 foi de 4,3. O índice é tão pequeno, que para cada pessoa morta por esses peixes por ano, morrem outras 4.757 em acidentes de trânsito.
Mesmo assim a espécie é perseguida e seus cadáveres são orgulhosamente exibidos como troféus de grandes pescarias. Além disso, barcos pesqueiros de diversas nacionalidades capturam e sacrificam estes peixes, apenas para extrair-lhes as nadadeiras, apreciadas nas sopas de barbatanas de tubarão. A matança de algumas espécies de tubarão já se tornou tão grande, que as colocou em perigo de extinção. No final de 2012 o Ministério da Pesca e da Aqüicultura do Brasil já havia proibido a pesca de tubarões e raias para o comércio da barbatana.  
 A mesma proteção deverá beneficiar tubarões em todo o mundo. Durante a 16ª Conferência da Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites) a delegação brasileira conseguiu uma vitória memorável. Os delegados brasileiros conseguiram aglutinar representantes de outros 120 países em torno da proposta de maior controle sobre o comércio internacional de quatro espécies de tubarão: o martelo, o galha-branca, o porbeagle e as raias-jamanta. A matança indiscriminada destes animais somente para extrair as barbatanas, deverá sofrer uma queda e ajudar a preservar a espécie. O ideal, no entanto, seria que se criassem áreas de proteção mais extensas nos oceanos, como já sugerido pela ONU em 2012, durante a Convenção sobre Biodiversidade.
(Imagens: fotografias de Gianni Galassi)

Perspectivas para uma economia ecológica (Final)

sábado, 30 de março de 2013
"Muitos organismos unicelulares podem morrer, como resultado de acidentes ou inanição; na verdade, é o que acontece com a grande maioria. Mas não há neles nada de programado que diga que devam morrer. A morte não apareceu simultaneamente com a vida. Esta é uma das afirmações mais importantes e profundas da biologia. De qualquer forma, merece ser repetida: A morte não é inextrincavelmente entretecida com a definição de vida."  -  William R. Clark  -  Sexo e as origens da morte

Na economia neoclássica, para se referir a externalidades, é utilizada a expressão “economias externa” ou “deseconomias externas”; sempre no sentido de algo externo ao empreendimento que beneficia ou prejudica as atividades econômicas. Nesta interpretação, quando a empresa é solicitada a incorporar custos de uso de água ou taxas de poluição do ar ao seu produto, estaria ocorrendo uma “deseconomia externa”.
Uma das constatações que fizemos é que a identificação das externalidades, negativas ou positivas, depende do grau de desenvolvimento econômico, legal e cultural de uma sociedade. É a pressão econômica, que internamente ao país ou internacionalmente, exerce a maior influência para que as externalidades negativas não sejam contabilizadas. Assim, acontece que a inexistência de regras com relação à contabilização destas falhas de mercado, permite o surgimento de discrepâncias e injustiças no comércio e em outras atividades econômicas. Derrubar milhares de árvores no alargamento de uma estrada na floresta amazônica, por exemplo, pode ser considerada uma externalidade negativa desprezível. O mesmo fato, todavia, seria analisado de maneira diferente, se fosse realizado na região da Floresta Negra, na Alemanha.
            As negociações internacionais de produtos agrícolas, pecuários e minerais, supridos pelas economias em desenvolvimento – geralmente aquelas que possuem uma rica biodiversidade – não prevêem o pagamento das externalidades negativas inerentes à produção e extração destas commodities; os impactos ambientais gerados por estas atividades. Cabe perguntar quanto custa um hectare de floresta amazônica desmatada, para servir de pasto a algumas cabeças de gado, cuja carne é destinada à exportação. Ou qual o preço de mil litros de água, necessários para produzir um quilo de soja? A natureza está sendo explorada e gerando uma mais-valia (no sentido da análise de Marx) que beneficia grupos econômicos; vendedores e compradores de commodities. Estes, por sua vez, repassam muito pouco para a comunidade cujo direito a um meio ambiente saudável, segundo a Constituição, está sendo expropriado à custa da não contabilização das externalidades nessas atividades. O assunto é bastante controverso e uma solução ainda está longe de ser encontrada. Ignacy Sachs escreve sobre o tema:
Na verdade não temos mais o direito de ignorar as bases físicas diferenciadas dos processos produtivos que levam ao mesmo valor de troca. Em particular, a dispersão do calor e a entropia passaram a representar uma dimensão demasiado importante da gestão ecológica do planeta para que o economista pudesse deixá-las de lado. Por outro lado, como veremos, os instrumentos tradicionais da caixa de ferramentas do economista não garantem a boa gestão dos recursos. O sistema de preços, por si só, não é capaz de internalizar o meio ambiente e a gestão dos recursos, a menos que, administrativamente, sejam impostos preços de dissuasão aos recursos potencialmente raros e não substituíveis por outros mais abundantes (SACHS, 2007, p. 79).
            Por vezes acontecem generalizações e fica a impressão de que economia ambiental e economia ecológica são expressões sinônimas e representam as mesmas correntes de pensamento. Tal interpretação não condiz aos fatos. Entre ambas, apesar de muitos pontos em comum, também existe uma visão politicamente diferente em relação à maneira de a humanidade ultrapassar a crise ambiental. Por outro lado, entre ambas também há uma avaliação diversa do papel da tecnologia e do futuro do sistema econômico.
            A economia ambiental, como já mencionado, segue basicamente a economia neoclássica, e tem uma visão circular da economia. A ciência sobre a qual baseia suas teorias econômicas é a mecânica clássica. Este ramo da economia não ignora os problemas ambientais e as situações relacionadas com a depleção dos recursos. No entanto, como sua abordagem é aquela da economia clássica, que interpreta estes problemas como externalidades do sistema que, se internalizadas por todos os agentes econômicos, estarão resolvidos. Em outras palavras, assume-se que assim que todos os poluidores resolverem tecnologicamente seus problemas, a questão ambiental estará equacionada. É evidente que a se manter o funcionamento da economia como está, este é um processo sem fim, já que a cada nova invenção surgem novos tipos de impactos ambientais. No entanto, a confiança da economia ambiental na tecnologia é grande e segundo ela nada impediria o progresso material de resolver gradualmente todos os problemas de poluição. Quanto aos recursos naturais, ainda segundo a economia ambiental, estes nunca faltarão por dois motivos principais. O primeiro é que através do desenvolvimento tecnológico aumentará a capacidade da humanidade em economizar recursos, a custos cada vez menores. O segundo é que no futuro, cada vez mais o trabalho e o capital, com a ajuda da tecnologia, poderão substituir os recursos naturais. Sendo assim, assume esta corrente econômica que os recursos naturais são infinitos, já que serão sempre substituíveis por sucessivas inovações tecnológicas.

Uma tecnologia recente que tem despertado grandes esperanças entre os defensores da economia ambiental é a nanotecnologia. De seu desenvolvimento se espera maravilhas, como a construção de nanofábricas cada vez mais complexas, das quais, segundo os pesquisadores desta tecnologia, poderia se estruturar qualquer coisa de praticamente qualquer matéria. No entanto, na posição de seus críticos – tendo em vista soluções para os problemas ambientais e uso dos recursos naturais – as perspectivas não parecem tão otimistas assim:
Em adição aos benefícios utópicos geralmente alardeados pelos tecnólogos, a nanotecnologia ou os promotores dela enfatizam uma grande e ampla gama de benefícios ecológicos, advindos dessa nova tecnologia, capitalizando a preocupação pública com o estado deteriorado da biosfera mundial. Lida-se com uma noção ingênua e conveniente de que os problemas ecológicos são primariamente de natureza tecnológica, e por isso podem ser resolvidos por soluções de engenharia, em vez de com uma estrutura social, e que requerem soluções econômicas e sociais. A falha de décadas de consertos tecnológicos para reverter ou mesmo para diminuir a destruição da ecologia tem sido ignorada, em favor da visão de que a próxima onda de inovações vai resolver os problemas, as descontinuidades do ecossistema e do sistema social (GOULD in Nanotecnologia, inovação e meio ambiente, 2005, p. 246).
            A economia ecológica baseia suas análises da economia nos paradigmas da segunda lei da termodinâmica e na biologia. Por sua visão biologista da economia, influenciada pela ecologia, a economia ecológica também tem influências do darwinismo evolucionista. Este, segundo Cechin, é importante para a economia por pelo menos quatro motivos: 1) os sistemas econômicos, assim como os seres vivos, têm desenvolvimento bastante rápido, caracterizado por mudanças qualitativas e estruturais irreversíveis; 2) muitos aspectos das mudanças econômicas podem ser entendidos como alterações de populações; como nas empresas e nas mudanças de tecnologias; 3) os sistemas econômicos têm capacidade de aprendizagem e adaptação; 4) a evolução na estrutura organizacional da economia é um fenômeno real envolvendo instituições e agentes (CECHIN, 2010). Em relação à tecnologia a economia ecológica não tem uma confiança ilimitada e considera que esta não poderá não poderá ajudar a humanidade na reposição e substituição de recursos naturais. Basta olharmos o ritmo de consumo industrial, para verificar que este vem crescendo e que ocorrerá falta de diversos minerais nas próximas décadas. Em outro aspecto, por mais que reutilizássemos e reciclássemos certos materiais, não existe sistema produtivo que ao longo da sua cadeia tenha resíduo zero.
            A expressão “desenvolvimento sustentável” é uma das mais debatidas – talvez até em demasia – pela mídia nos últimos anos. Todos os grandes grupos econômicos fazem questão de afirmar que estão investindo trabalho e dinheiro para alcançar o desenvolvimento sustentável. Especialistas – principalmente de origem americana – falam na triple bottom line, algo como a “tripla linha básica”, significando o atendimento das necessidades econômicas (da própria empresa), das necessidades ambientais (o que implica ao atendimento da legislação, pelo menos) e das necessidades sociais (necessidades dos funcionários e da comunidade). O objetivo último por trás da triple bottom line é atender requisitos ambientais (geralmente ações corretivas) e sociais (para estes não existem regras fixas, mas algumas instituições internacionais estabeleceram alguns parâmetros que podem ser seguidos), para que a empresa possa continuar funcionando, sem ser impedida de fazê-lo no futuro – sob a acusação de poluir o ambiente ou de explorar seus funcionários. Significativamente o conceito foi definido pela primeira vez pela Comissão Brundtland.
            O “conceito do desenvolvimento sustentável” também foi estabelecido durante a Comissão Brundtland, no âmbito da Organização das Nações Unidas, em 1987. A Comissão à época fez uma série de propostas acordadas entre todas as nações, mas que em sua maior parte nunca foram seguidas. Uma das principais idéias da Comissão – e que de certo modo resume suas propostas – é que “o desenvolvimento sustentável é aquele que atende todas as necessidades da geração presente, sem comprometer as necessidades e o desenvolvimento das gerações futuras”. No entanto, de quais necessidades estamos falando? Daquelas do cidadão médio americano, ou do habitante da África e da Índia? Como reconhecer se as efetivas necessidades das pessoas estão sendo atendidas, como estabelecer limites para o desenvolvimento? Esta formulação nebulosa de princípios permite continuar mantendo as desigualdades regionais e nacionais.
            A posição da economia ambiental é a de continuar com o crescimento da economia, da maneira e nos padrões como vem ocorrendo. Aos poucos, ao longo dos anos, serão feitos os ajustes necessários, na medida da disponibilidade das tecnologias e do capital de investimento. Política e economicamente a posição é conservadora, já que implica que o desenvolvimento econômico da humanidade (e com ele os impactos ambientais) está no caminho correto e não há necessidade de mudanças profundas no rumo da economia. A melhoria das condições, segundo esta linha de interpretação, virá naturalmente com o tempo. Esta, por razões óbvias, é a posição compartilhada pela maioria dos governos, por uma parte dos cientistas, pelas associações empresariais de todo o mundo e, evidentemente, pela totalidade das empresas. Não por acaso, é também a corrente que defende o “desenvolvimento sustentável” como algo factível.  
             Enquanto a economia ambiental é defensora do “desenvolvimento sustentável”, a economia ecológica tem um posicionamento crítico em relação à própria expressão. Em outro contexto, desenvolvimento significa ampliar no mínimo quatro capacidades humanas, segundo Amartya Sem: 1) ter vida longa e saudável; 2) ser instruído; 3)ter acesso a recursos necessários para manter um nível de vida digno; e 4) participar da vida em comunidade (CECHIN, 2010). Este tipo de enfoque tem uma proposta muito mais concreta e humanista do que aquela do triple bottom line.
Ainda com relação ao crescimento, a economia ecológica avalia com atenção a proposta do economista Herman Daly, que na década de 1970 defendeu a teoria do “estado estacionário” da economia. A idéia advoga uma economia que produz estoques constantes de bens e serviços, que são sistematicamente e anualmente adicionados aos estoques já existentes. Aliado a isto, haveria um controle populacional além de constante reutilização e reciclagem dos recursos já utilizados. A idéia não agradava a Georgescu-Roegen, que a considerava tão inviável quanto o crescimento constante (CECHIN, 2010). Ainda com relação ao “estado estacionário” existem muitas hipóteses, com várias propostas, envolvendo controle da população, planejamento da produção, controle de recursos e outras providências. O gerenciamento de tal processo, devido aos inúmeros detalhes que precisariam ser acompanhados, seria por demais complicado.
Caso prático de aplicação dos conceitos da economia ecológica é a agricultura orgânica e a agricultura sustentável. A agricultura orgânica representa uma alternativa à agricultura convencional, fruto da Revolução Verde. Na atividade agrícola convencional, o solo é arado, adubado com produtos químicos e periodicamente recebe aplicações de herbicidas e fungicidas. Este processo causa grandes danos ao solo, removendo a massa orgânica e envenenando-o com substâncias químicas aplicadas em excesso. Como alternativa à agricultura convencional, surgiu a agricultura orgânica; desenvolvida ao mesmo tempo na Alemanha, por Rudolf Steiner (1924), no Japão, por Motiki Okada (1933) e na Inglaterra em 1940, com o lançamento do livro Um Testamento Agrícola, por Albert Howard. No Brasil, a técnica começou a ser introduzida a partir da década de 70, em parte por influência das comunidades alternativas. A agricultura orgânica define o solo como um sistema vivo, que deve ser nutrido, mantendo a sobrevivência dos organismos benéficos ao solo (vermes, insetos, fungos e bactérias); todos necessários à reciclagem de nutrientes e produção de húmus. Os insumos químicos, prejudiciais ao ciclo biológico do solo, não são utilizados. A efetividade destes princípios é comprovada na prática: culturas orgânicas propiciam mais qualidade dos produtos colhidos, além de manter a diversidade biológica no solo e na área de cultivo, em comparação com a agricultura convencional.
Outro tipo de agricultura ecológica praticado desde os anos 1980 é a agricultura sustentável. A origem desta prática está, segundo Ehlers, na agroecologia, uma disciplina científica que estuda os agroecossistemas, ou seja, as relações ecológicas dentro de um sistema agrícola. As pesquisas avançaram e em meados dos anos 1980 o agrônomo Altieri, especializado em agricultura na América Latina, propôs técnicas agrícolas que fossem capazes de manter as características naturais do ambiente, sem desconsiderar as componentes sociais e econômicas da região (EHLERS, 2009). O enfoque sistemático deste tipo de agricultura foi um dos fatores que propiciou sua rápida difusão na região. Depois de vários estudos sobre a agricultura sustentável realizados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o processo foi aprovado e práticas alternativas, antes desprezadas, passaram a adquirir reconhecimento na comunidade agrônoma. Segundo Ehlers (2009), passou assim a ser critério para a agricultura sustentável: a) mínimo de impactos adversos ao meio ambiente; b) retornos financeiros adequados aos produtores; c) otimização na produção das culturas com um mínimo de produtos químicos; e d) satisfação das necessidades humanas de alimentos e atendimento das necessidades sociais das famílias e das comunidades rurais. 
CONCLUSÃO
É inegável que o impacto das atividades humanas está destruindo a biosfera e exaurindo os recursos naturais. O crescimento da economia está baseado na maciça produção e consumo de bens com obsolescência programada e na valorização do supérfluo e do descartável. Isto acaba gerando imensas quantidades de resíduos que, mesmo com programas de redução e reciclagem, é um problema na administração das cidades de todo o mundo. O aumento da produção agrícola, necessária para alimentar a crescente população e atender a especulação financeira, fará com que o solo e os recursos hídricos se tornem improdutivos e contaminados. Os mares se transformaram em sumidouro de resíduos; em imensos tanques de petróleo desperdiçado. Por cima disso tudo, paira uma atmosfera cada vez mais quente devido ao aquecimento global, provocando catástrofes climáticas de violência crescente.
            A economia ecológica, assim como outras ciências, procura entender o problema em todas as suas implicações, dentro da sua área de especialidade, e a seu modo contribuir com análises e soluções. A aplicação destas, no entanto, geralmente está na área de influência de governos e empresas, que serão cobrados pela história sobre a posição de seus países e das suas organizações em relação à preservação da biosfera e dos recursos naturais.

            A crise ambiental e seus efeitos sociais é uma das conseqüências das injustas relações econômicas que continuam prevalecendo no mundo. Estas, apesar de atenuadas parcialmente nos últimos cinqüenta anos, ainda mantêm bilhões de pessoas na miséria, na ignorância e na ilusão de que uma vida mais humana é baseada no aumento do consumo.
            Todas as iniciativas na área ambiental, recuperando e preservando os ecossistemas que ainda restam são importantes e urgentes. No entanto, é preciso que a crítica também faça o seu papel, apontando como o sistema econômico permite, promove e se beneficia com a destruição dos recursos naturais.

REFERÊNCIAS
BROWN, Lester. Eco-economia – Construindo uma economia para a Terra. Disponível em: <http://portal.mda.gov.br/portal/saf/arquivos/view/ater/livros/Eco-Economia.pdf>. Acesso em 21/07/10
BROWN, Lester. Plan B 4.0 – Mobilizing to save civilization. Disponível em: <http://www.earth-policy.org/images/uploads/book_files/pb4book.pdf >. Acesso em 21/07/10
CECHIN, Andrei. A natureza como limite da economia – A contribuição de Nicholas Georgescu-Roegen. São Paulo. Editora EDUSP / SENAC: 2010, 264 p.
DA VEIGA, José Eli. Mundo em transe – Do aquecimento global ao ecodesenvolvimento. Campinas. Editora Autores Associados: 2009, 118 p.
DA VEIGA, José Eli. Meio Ambiente & Desenvolvimento. São Paulo. Edit. Senac: 2006, 180 p.
DE MORAES, José Orozimbo. Economia Ambiental. São Paulo.Centauro Editora: 2009, 224 p.
EHLERS, Eduardo. O que é agricultura sustentável. São Paulo Editora Brasiliense: 2009, 92 p.
GEORGESCU-ROEGEN, Nicholas. La décroissance – Entropie – Écologie – Économie. Disponível em: <http://classiques.uqac.ca/contemporains/georgescu_roegen_nicolas/decroissance/decroissance.html>. Acesso em 3/07/10
MARTINS, Paulo Roberto. Coordenador. Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente. São Paulo. Associação Editorial Humanitas: 2005, 286 p.
MOTTA, Ronaldo Seroa. Economia Ambiental – 5ª. Ed. Rio de Janeiro. Editora FGV: 2009, 225 p.
MUMFORD, Lewis. A cidade na história. São Paulo. Martins Fontes: 1998, 741 p.
PENTEADO, Hugo. Ecoeconomia – Uma nova abordagem. São Paulo. Lazuli Editora: s/d, 239 p.
VIEIRA, Paulo Freire, org. Ignacy Sachs – Rumo à Ecossocioeconomia. São Paulo. Cortez Editora: 2007, 472 p.
(Imagens: fotografias de esquimós, século XIX)

Perspectivas para uma economia ecológica (ParteII)

sábado, 23 de março de 2013
"Se examinarmos todo o domínio biológico e analisarmos as vidas dos animais e do homem, e então os compararmos com o vangloriar-se dos filósofos sobre a capacidade mental dos homem, não podemos evitar ficarmos com a impressão de uma "comédia de elevada demência". A praga do homem é a opinião do conhecimento."  -  Richard Popkin  -  História do Ceticismo de Erasmo a Spinoza

2. Apresentação da economia ecológica e suas propostas

            Com o exemplo do "Plano B 4.0", mostramos alguns aspectos da destruição ambiental que está em curso e comentamos sobre a ausência de medidas destinadas a alcançar as necessárias mudanças nas relações econômicas.
            O estudo das atividades humanas sob o aspecto econômico surgiu no século XVIII, com a escola fisiocrata francesa. Estes chamaram a atenção para dois pontos crucias nos posteriores estudos da economia: 1) a ideia de interdependência entre os vários processos do sistema econômico e 2) o conceito de que as trocas econômicas representam fluxos circulares entre os vários setores econômicos (CECHIN, 2010). Tradicionalmente, no entanto é considerado fundador da economia Adam Smith, professor de filosofia moral em Edimburgo na Escócia, e que em 1776 reuniu sua teoria econômica no livro A riqueza das nações, obra fundamental do liberalismo econômico e da teoria econômica clássica.
            A ciência econômica evoluiu bastante depois de Smith, mas manteve muitos de seus pressupostos básicos. Influenciada pela física newtoniana em seus primórdios, a escola econômica neoclássica ainda se baseia até hoje em uma visão mecanicista do processo econômico. Apesar de a termodinâmica ter revolucionado a física ainda no século XIX, a economia por sua vez ainda guarda em seus pressupostos os conceitos da mecânica clássica, elaborada por Newton, no século XVIII. Nessa concepção, a economia funciona como um processo mecânico levando à conclusão de que os processos econômicos – a produção e o consumo – são, assim como os movimentos na mecânica clássica, neutros e, portanto, reversíveis. Os processos econômicos são assim estudados como atividades fora da realidade, quase abstratos, que podem ser repetidos indefinidamente. Nesta visão economicista, a economia voltaria sempre ao seu ponto original, “mesmo após ter passado por eventos terríveis como guerras, catástrofes naturais, cataclismos, terremotos, inflação quebra de bolsa, etc.” (PENTEADO, s/d, p. 182).
            Por causa desta abordagem quase metafísica do processo econômico – já que é uma (pré)visão que se projeta sobre a natureza, partindo de suposições ideais – é que foi possível criar o conceito de fluxos econômicos, o “diagrama do fluxo circular”. Trata-se de uma elaboração baseada nos pressupostos descritos anteriormente, e desta forma completamente irreal, na qual não são considerados os fluxos de matéria e energia, que necessariamente fazem parte do processo econômico. Enfim, uma abstração, que dá a idéia de que a economia é um processo fechado, no qual nada entra e nada sai. Segundo Cechin,
O diagrama é uma representação da circulação do dinheiro na economia e dos bens em sentido reverso, sempre dentro dele mesmo, sem absorver materiais e sem ejetar resíduos. Se a economia não gera resíduos e não requer novas entradas de matéria e energia, então se trata de uma máquina de moto-perpétuo, ou seja, uma máquina capaz de produzir trabalho ininterruptamente, consumindo a mesma energia e valendo-se dos mesmos materiais. Tal máquina seria um reciclador perfeito (CECHIN, 2010, p. 41).
            É desta maneira que a maior parte dos economistas ainda enxerga o processo econômico, apesar de tratarem de operações e processos que exaustivamente retiram recursos da natureza, processando-os e transformando-os em fluxos econômicos, para em seguida despejá-los de volta na natureza na forma de detritos poluidores. Para a maior parte dos economistas não interessa a origem ou o destino dos resíduos, já que isto não é previsto em sua teoria. Tem-se a impressão de que a análise econômica, assim como é praticada atualmente, é baseada em uma leitura enganada da realidade e ainda precisa ter sua “Revolução Copernicana”. Filosoficamente, a economia, como disciplina, ainda parece se basear num idealismo; uma metafísica, na qual as suposições – ou pressuposições – interpretam a realidade, através de esquemas mentais pré-elaborados, comparáveis aos Ideais de Platão.
            No entanto, sabe-se que a economia não é uma totalidade fechada em si que “informa” o mundo, mas um subsistema dentro de outro maior, chamado de meio ambiente, biosfera ou natureza. É compreensível, porém, que tenha havido um grande desconhecimento das conseqüências das ações econômicas – veja-se o exemplo da poluição causada nos grandes centros industriais do século XIX pelo carvão mineral. Além disso, a população era mais reduzida e o impacto sobre os ecossistemas localizado e limitado no tempo, como nos exemplos dados sobre a Antiguidade no início deste texto. No entanto, é interessante que atualmente mesmo tendo todo o conhecimento dos ciclos naturais, dos princípios da ecologia e, principalmente, da 2ª Lei da Termodinâmica desenvolvida no século XIX, ainda seja possível tratar a economia como um ciclo isolado. José Eli da Veiga escreve que “É muito curioso, portanto, que até meados dos anos 1960 não tenha surgido qualquer questionamento da visão da economia isolada da natureza, nem abandono da vinculação à metáfora mecânica” (VEIGA, 2009).
            Um dos pioneiros na crítica desta visão da economia foi o romeno radicado nos Estados Unidos Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994). Estatístico e matemático, Roegen foi professor de economia em Harvard e um dos primeiros a se dar conta de que a economia não poderia ser estudada como um ciclo fechado, já que as atividades econômicas ocorrem em um mundo real e estão sujeitas a todo tipo de influência. As mudanças promovidas pela economia sucedem no tempo, são irreversíveis e promovem mudanças qualitativas; transformam recursos naturais em matéria prima e esta em produto. Durante o processo produtivo, entretanto, há uma sobra não aproveitada ou não mais aproveitável: os resíduos. Assim, se ao processo de produção são incorporados recursos naturais de qualidade – minérios, por exemplo – e se no final da produção além dos lingotes de metais também há sobra de uma escória sem consistência definida, não é possível dizer que este ciclo é isolado. Os resíduos, se retornarem à natureza como estão provocarão contaminação, além de dificilmente voltarem ao seu estado inicial de minérios. Esta é evidentemente uma seqüência que não faz muito sentido à mecânica clássica, onde tudo é reversível e não se considera perdas.
            A inovadora proposta de Georgescu-Roegen foi a introdução dos conceitos da termodinâmica na economia. A termodinâmica é o último ramo da física clássica, a física newtoniana. Desenvolveu-se desde o século XVI e seus dois princípios, a primeira e a segunda lei da Termodinâmica, foi elaborada ao longo do século XIX. A primeira lei da Termodinâmica diz que corpos em temperaturas diferentes tendem a entrar em equilíbrio térmico. A segunda lei, mais interessante ao estudo da economia, postula que o calor de um corpo mais frio pode fluir por si mesmo para outro mais quente apenas quando existe acréscimo de energia. Rudolf Clausius (1822-1888), o formulador desta lei, também introduziu uma outra grandeza física, o princípio de entropia. Em um sistema, se a reversão energética (energia de um corpo mais frio para outro mais quente) é possível, então a entropia permanece igual. Caso a reversão energética não seja possível, aumenta a entropia. Estes princípios, além de usados na física, na química, na astronomia e cosmologia, também são aplicados à biologia, ecologia, economia e varias outras ciências. A segunda lei da Termodinâmica foi assim descrita por Georgescu-Roegen:
A oposição irredutível entre a mecânica e a termodinâmica provêm do segundo princípio da Lei de Entropia. A mais antiga de suas formulações é também a mais clara para o leigo: “O calor não flui por si mesmo, a não ser do corpo mais quente para o corpo mais frio, jamais o inverso.” Uma formulação mais complexa mas equivalente diz que a entropia de sistema fechado aumenta continuamente (e irreversivelmente) até um ponto máximo, ou seja, que a energia utilizável é continuamente transformada em energia inutilizável, até que aquela desapareça completamente (GEORGESCU-ROEGEN, 2005, p. 62 – tradução nossa).
            Quando usados na biologia, ecologia e economia, as expressões “energia” e “calor” são substituídos pelo conceito de organização.
            Sob este aspecto, todo ser vivo, seja uma bactéria, um verme ou um pássaro, é um sistema organizado, que se alimenta e funciona de modo a permanecer vivo. O ser vivo é, necessariamente, um corpo mais organizado do que o seu meio (não vivo) circundante. Quando o ser vivo se alimenta, está ocorrendo uma reversão energética, isto é, está fluindo energia (na forma de alimentos) de um corpo mais “frio” (o meio circundante, menos organizado do que o organismo) para outro mais “quente” (o organismo vivo). Chama-se a este processo de entropia negativa ou neguentropia. No entanto, quando o ser vivo morre, este processo se inverte (aumentando a entropia do ser vivo) e o corpo vai entrando em “desorganização”, equilíbrio térmico com o meio ambiente (processo de putrefação, dissolução e retorno aos seus elementos básicos constitutivos). A vida é, portanto, uma estrutura de geração de energia, de auto-organização em relação ao meio circundante – um incessante processo de luta contra a entropia. O mesmo raciocínio é aplicado à ecologia e aos ecossistemas. Estes são organizados de forma mais complexa, na qual a energia (ou organização) se mantém porque todas as espécies estão interligadas, através de processos associados aos ciclos biogeoquímicos.
            O mesmo princípio é aplicado à economia. Podemos interpretar o processo econômico, a atividade econômica exercida pela humanidade, como um sistema. Como este sistema não é fechado, está sempre trocando energia e matéria com o “sistema” maior no qual se insere a natureza. Economia, não custa nada repetir com outras palavras, é o que fazemos efetivamente no mundo: derrubar a mata, arar o campo, construir casas, pescar; e tudo o que estas atividades implicam, como fabricar ferramentas, transportar produtos, gerar resíduos, destruir ecossistemas, extinguir espécies. Sobre esta incorporação da segunda lei da Termodinâmica à economia, escreve Georgescu-Roegen:
O processo econômico, como todo outro processo vivo é irreversível (e é irrevogável); como consequência não pode ser considerado somente em termos mecânicos. É a termodinâmica, com sua lei de entropia, que reconhece a distinção qualitativa, que os economistas deveriam ter feito desde o início, entre as entradas de recursos de valor (baixa entropia) e as saídas últimas de dejetos sem valor (alta entropia). O paradoxo levantado por esta reflexão, qual seja que todo processo consiste em transformar matéria e energia em valor e dejetos (GEORGESCU-ROEGEN, 2005, p. 64 – tradução nossa).
            No processo econômico utilizamos insumos e matérias primas, juntamos energia (na forma de calor ou pressão) e fabricamos produtos. O problema é que para fabricar o ferro-gusa, por exemplo, precisamos de carvão. Para se obter o carvão, pode acontecer de serem destruídas florestas nativas. As matas, como ecossistema complexo, têm um alto nível de organização, de neguentropia. O carvão, no final do processo vira cinza; material com baixíssimo grau de organização, com alta entropia.
            Assim, durante a produção de ferro-gusa, além de outros impactos aqui não considerados (como poluição da água, uso de energia e poluição do ar), temos como resultado o produto final e uma grande quantidade de resíduos (cinza de carvão, escória e outros). Reduzimos a “ordem”, a baixa entropia na natureza – seja através da exploração do minério, da utilização da água e da queima do carvão – e geramos um produto final: o ferro-gusa.
            A história da fabricação do ferro-gusa (poderíamos ter utilizado qualquer outro processo produtivo como exemplo) terminaria aqui na visão da economia convencional: o fabricante pagaria seus fornecedores de insumos e materiais, teria vendido o produto, pago seus impostos e ponto final. O mesmo fariam seus fornecedores (com exceção, provavelmente, do carvoeiro). Isto se encaixa perfeitamente no esquema estático-mecanicista da economia neoclássica. No entanto, perguntamos se foi só isto mesmo que ocorreu. Como contabilizar a perda gerada pela destruição da mata nativa? O mesmo vale para o morro destruído pela companhia mineradora para a extração do minério, para a poluição da água e do ar (e para vários outros itens que aqui nem foram mencionados). Convencionou-se classificar estes fatos como externalidades. Moraes assim define as externalidades:
Externalidades são formas de falha de mercado (distrorções). Uma externalidade surge quando as transações econômicas entre dois ou mais agentes econômicos (e.g.consumidor e empresa) produzem efeito de melhora ou piora da situação de uma terceira parte não participante da transação, sem permissão ou compensação (MORAES, 2009, p. 62).(Continua)
 (Imagens: fotografias de Pedro Martinelli)