Omar Khayyam

sábado, 21 de abril de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Omar Khayyam (1048-1131) nasceu na Pérsia. Foi professor, matemático, astrônomo, filósofo e poeta. Escreveu numerosos tratados sobre mecânica, geografia, mineralogia e astronomia. Ficou famoso na história com seu poema "Rubaiyat". 

Ainda hoje especialistas discutem se a obra é produto de uma visão cética e hedonista do mundo, ou se nas entrelinhas se esconde a filosofia do sufismo. Abaixo, apresentamos dois versos do poema, em versão portuguesa de Octávio Tarquínio de Souza (Livraria José Olympio Editora, 1983): 

"Eis a verdade 
única: - somos 
os peões da misteriosa
partida de xadrez, jogada
por Deus, que nos desloca, 
nos para, nos põe mais
adiante, e depois nos recolhe
um a um à caixa do Nada." 

"Delicia-te, ó
meu irmão, com
todos os perfumes, todas
as cores, todas as músicas.
Envolve de carícias 
todas as mulheres.
Lembra-te de que a vida
é fugaz e que breve
voltarás ao pó." 

(Imagem: representação de Omar Khayyam)

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 18 de abril de 2018



TV

Os programas de TV brasileiros apresentam - e muitas vezes exploram - problemas que não existiriam se o Estado fosse capaz de resolvê-los.

Mostram-se pessoas que não veem seus parentes há anos e não dispõem de recursos para visitá-los, já que muitas vezes nem sabem em que lugar do país estão. Entram então em cena os programas popularescos, ajudando estas pessoas a se encontrarem. Emoção, lágrimas, audiência garantida e patrocinadores assinando novos contratos...  

Outro tipo de programa é aquele que convida especialistas para opinarem e discutirem determinado problema social. Todos têm opinião e há até alguns projetos em andamento. Hora do tratamento aparentemente sério e profissional do assunto. 

O grande ausente nestes dois tipos de programa é o Estado. Quase nunca é convidado, porque o que faz é muito pouco - ou nada.

(Imagem: gravura representando o filósofo G. C. Lichtenberg)

O ciclo da energia e da matéria através dos organismos

sábado, 14 de abril de 2018
"Uma economia sustentável, assim, deve ser construída ao redor de produtos sustentáveis e não apenas de processos industriais mais limpos. O foco deve ser direcionado do gerenciamento de processos para o gerenciamento de produtos."   -   Luis Fernando Krieger Merico   -   Economia e Sustentabilidade


Todos os ecossistema são formados basicamente por três categorias de espécies:

1) Os organismos produtores: aqueles que produzem seu próprio alimento, a partir da energia solar ou energia química e térmica, a exemplo dos organismos extremófilos que vivem em ambientes com altos índices de acidez ou a grandes profundidades no oceano. Nesta categoria estão as plantas, que produzem sua energia a partir da fotossíntese.  

2) Os organismos macroconsumidores: os que se alimentam de matéria orgânica, isto é, de outros seres vivos que se situam abaixo deles na escala da alimentação. Nesta categoria situam-se os herbívoros, os carnívoros e os onívoros.

3) Os organismos microconsumidores: aqueles (uni ou pluricelulares) que se alimentam (obtêm sua energia) através da decomposição de matéria orgânica morta ou através do parasitismo, como as bactérias em intestinos de mamíferos, que ajudam no processo digestivo dos alimentos, fungos.

O papel dos decompositores é decompor, desfazer, desestruturar as substâncias orgânicas; tenham elas passado por algum nível trófico, ou não. Por exemplo, as folhas que caem no chão da floresta e que se não são consumidas pelos insetos, tornam-se alimento para bactérias e os fungos.


Diferente, quando o gado se alimenta de relva; o homem se alimenta da carne de vaca; e o corpo humano, quando morto e decomposto, destina-se à alimentação dos microorganismos. 

Neste processo de decomposição os organismos decompositores extraem seu alimento (energia) para sua sobrevivência e reprodução, devolvendo à natureza substâncias cada vez mais simples, formadas por moléculas gradualmente mais simples.

Da matéria orgânica as bactérias extraem sua energia e liberam metano (CH4) para a atmosfera. Este, por sua vez, depois de queimado, libera CO2, gás que as plantas “respiram” durante o processo de fotossíntese.

Caso os decompositores sejam inexistentes, o acúmulo de substâncias orgânicas é cada vez maior. Na ausência de decompositores não há o que chamamos de processo de putrefação. Aconteceria, então, o que sucede com certos corpos colocados ou mortos em locais muito secos ou muito frios, onde quase inexistem os insetos e microorganismos decompositores: um processo de mumificação. Os corpos iriam, aos poucos, perdendo os líquidos e as gorduras, ficando apenas as peles e os ossos (ou os exoesqueletos). 

A degradação desta matéria orgânica, sem a presença de organismos decompositores, se daria basicamente por processos físicoquímicos. Depois de muitos anos, a matéria orgânica se esfacelaria e iria, gradualmente, se transformando em pó. Na ausência de oxigênio (se, por exemplo, soterrado por uma avalanche ou areia trazida por um tsunami) este corpo ou esta matéria orgânica poderia se petrificar (uma possibilidade é que o carbonato de cálcio penetre nos espaços ocupados pelos ossos e outras partes do corpo, formando o fóssil) ou transformar-se em carvão mineral (no caso de plantas) ou petróleo (no caso de microrganismos).


As relações energéticas do ecossistema com os organismos decompositores:

Luz solar fornece energia a

Produtores, geralmente plantas que absorvem e transformam energia solar e a fornecem a 

Macroconsumidores, que se alimentam de plantas e entre si, absorvendo energia que disponibilizam aos 

Microconsumidores, se alimentam de produtores e macroconsumidores (e de seus resíduos), absorvendo energia e reduzindo as substâncias orgânicas aos seus elementos constituintes principais, através de processos bioquímicos, rápidos e eficientes. Nesse processo liberam os 

Elementos e substâncias químicas (C, H, O2, N, P, S, CO2, CH4, etc). Estes elementos, por sua vez, passam a constituir novos organismos produtores e assim são reincorporados à cadeia da vida.


As relações energéticas do ecossistema sem os decompositores:

Luz solar, fornece a energia aos

Produtores, que absorvem e transformam energia, que é incorporada pelos 

Macroconsumidores, que se alimentam das plantas e entre si, absorvendo energia

(A partir deste ponto não há mais transferência de energia ao ecossistema. Aos poucos, entram em ação processos naturais, abióticos).

Processos físico-químicos (soterramento, clima extremamente seco ou frio), lentos e ineficientes a curto prazo, para chegar novamente aos 

Elementos e substâncias químicas (C, H, O2, N, P, S, CO2, CH4, etc)

Neste caso parte da energia se dissipa no meio ambiente, sem ser utilizada. Aumenta assim o processo de dissipação (perda) de energia de um ecossistema (aumento da entropia), principalmente pelo fato de que os resíduos não são “desmontados” pelos decompositores.


Poderíamos fazer um paralelo com o processo de eutrofização de um lago, onde o excesso de material orgânico (= alimento) propiciou um rápido crescimento dos microrganismos (bactérias), que em seu processo vital acabaram utilizando todo o oxigênio livre na água. Na falta de oxigênio as bactérias morrem e o lago torna-se estagnado, “morto”. 

Existem várias regiões nos oceanos que passam por esse processo. Por um excesso de substâncias orgânicas e químicas (esgotos domésticos, fertilizantes, etc.) aumenta exponencialmente o volume de bactérias nesta região do oceano, exaurindo todo o oxigênio e liberando dióxido de carbono. Nestas áreas do mar os organismos vivos - mesmo os mais primitivos - são inexistentes. O fato está se tornando um grande problema em regiões do oceano Atlântico, na Costa Leste dos Estados Unidos e no Mar da China.

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Consultas

Com as facilidades disponíveis nos tempos atuais, aprende-se mais sobre o nosso estado de saúde pesquisando na internet, do que com as curtíssimas consultas com certos médicos do serviço público e dos convênios.

Os procedimentos médicos, desde a ingestão de uma pílula, até uma seriíssima intervenção cirúrgica, afetam vários aspectos do funcionamento do organismo; não se trata simplesmente de adicionar um aditivo ou substituir as velas de ignição, como num motor.  

A de falta tempo, seja por que motivo for, impede que o médico possa efetivamente consultar o paciente. Aí, então, resta-nos buscar informações complementares no moderno "pai dos burros", a internet. Dizem especialistas, como o cientista de inteligência artificial (AI) Ray Kurzweil, que em alguns anos computadores farão nosso diagnóstico, baseados em informações e exames. Será que então os médicos terão mais tempo para conversar com os (nem sempre) pacientes?

(Imagem: gravura representando C. G. Lichtenberg)

João Guimarães Rosa

sábado, 7 de abril de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)


Mineiro de Cordisburgo, João Guimarães Rosa nasceu em 1908 e morreu em 1967. Escritor, contista, poeta e novelista, desde muito cedo Guimarães Rosa começou a aprender línguas, tendo começado pelo francês aos seis anos. Foi essa prática, provavelmente, que fez com que mais tarde dominasse cinco idiomas. Iniciou seus estudos em Belo Horizonte, para onde foi morar na casa dos avós. Aos 16 anos, ajudado por um tio que era um rico fazendeiro, Rosa ingressou na Faculdade de Medicina. Em 1930 forma-se médico e no mesmo ano casa-se com sua primeira esposa. Muda-se para Itaúna, no interior do estado, onde clinica e tem contato com a população local. Durante esse período já inicia o contato com o "sertão", que tanto aparecerá como cenário de seus escritos.

Aprovado em um concurso no Itamarati, Rosa ingressa na carreira diplomática. Seu primeiro cargo no exterior é como adido no Consulado de Hamburgo, onde permanece de 1938 a 1942. Lá conhece sua segunda esposa, Aracy de Carvalho, também funcionária do Consulado brasileiro, que teve importante papel na emissão de vistos de imigração para judeus que estavam fugindo do regime nazista para o Brasil. Aracy salvou a vida de centenas de pessoas, tendo sido mais tarde homenageada pelo Estado de Israel. Depois de Hamburgo, onde também chegou a ser afetado pela guerra, Guimarães Rosa ainda atuou nas embaixadas brasileiras em Bogotá e Paris.

Em 1963, já tendo-se candidatado por uma vez, Rosa na segunda tentativa é eleito unanimemente membro da Academia Brasileira de Letras. Estranhamente, porém, Guimarães Rosa vai adiando sua posse. A partir dessa época, passa a se dedicar com mais afinco à literatura, fazendo palestras no Brasil e no exterior e participando de congressos. A exposição a um público mais amplo e internacional - Rosa deu diversas entrevistas e foi bastante traduzido na Alemanha, por exemplo - fez com que sua obra começasse a ser traduzida para várias línguas. Em 16 de novembro, depois de quatro anos de adiamento, Rosa finalmente toma posse na Academia. Como se tivesse pressentido algo, o escritor veio a falecer de ataque cardíaco três dias depois da posse, em sua residência no Rio de Janeiro. 

Rosa afirmou algumas vezes que o conhecimento de outros idiomas o havia ajudado a se familiarizar às expressões e maneiras de falar do interior do Brasil, o que o ajudou a compor os diálogos de livros, utilizando um vocabulário enriquecido por expressões linguísticas e neologismos. Seus relatos, baseados no regionalismo, têm o formato de um realismo mágico, que fizeram do escritor o pioneiro em um novo tipo de ficção na literatura brasileira. Seus romances incluem-se na corrente da ficção latino-americana, que nas décadas de 1960 e 1970 trouxe a público nomes como os de Gabriel Garcia Marques, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Alejo Carpentier, Júlio Cortázar e outros. As principais obras de Guimarães Rosa incluem: Magma (1936, poemas); Sagarana (1946, contos); Grande Serão Veredas (1956. romance); Primeiras Estórias (1962, contos); Tutaméia - Terceiras Histórias (1967, contos).

Sobre sua obra, em entrevista ao jornalista alemão Günter Lorenz, Rosa dizia: "...sou um contista de contos críticos. Meus romances e ciclos de romance são na realidade contos, nos quais se unem ficção poética e realidade." (Fonte: Templo Cultural Delfos - http://www.elfikurten.com.br/p/blog-page_20.html)

Acerca do "sertão", o grande pano de fundo de seus romances e contos, Rosa declarou na mesma entrevista: "...no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão, onde 'Inneres und Ausseres sind nicht mehr zu trennen' (o interno e o externo são inseparáveis), segundo o West-Östlicher Divan (série de ensaios de Goethe). No sertão o homem é o que ainda não encontrou um tu; por isso ali os anjos e  o diabo ainda manuseiam a língua." O sertanejo (...) "perdeu a inocência no dia da criação e não conheceu ainda a força que produz o pecado original." (Fonte: Templo Cultural Delfos - http://www.elfikurten.com.br/p/blog-page_20.html).

Da vasta obra do escritor, selecionamos alguns trechos significativos, publicados em O melhor de João Guimarães Rosa, (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira: 2016), :

"Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou um homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água, que não para, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro - o rio." 
(A terceira margem do rio em "Primeiras estórias");

"E só então foi que ele soube de que jeito estava pegado à sua penitência, e entendeu que essa história de se navegar com religião, e de querer tirar sua alma da boca do demônio, era a mesma coisa que entrar num brejão, que, para a frente, para trás e para os lados, é sempre dificultoso e atola sempre mais." 
(A hora e a vez de Augusto Matraga em "Sagarana");

"Entendem os filósofos que nosso conflito essencial e drama talvez único seja mesmo o estar-no-mundo. Chico, o herói, não perquiria tanto. Deixava de interpretar as séries de símbolos que são esta outra vida de aquém-túmulo, tãopouco pretendendo ele próprio representar símbolo; menos, ainda, se exibir sob farsa. De sobra, afligia-o a corriqueira problemática cotidiana, a qual tentava, sempre que possível, converter em irrealidade. Isto, a pifar, virar e andar, de bar a bar." 
(Prefácio de "Nós, os temulentos" em "Tutameia")

(Imagem: fotografia de João Guimarães Rosa)

Plástico: a grande ameaça aos oceanos

sábado, 31 de março de 2018
"A crise que a humanidade enfrenta, de acordo com Husserl, é de que nós tomamos este mundo vivo como evidente e sem pensar erigimos sobre ele os edifícios conceptuais da lógica, matemática e ciências."   -   Stephen Batchelor   -   Confessions of a buddhist atheist 


O polímero sintético produzido a partir de derivados de petróleo e conhecido comumente como "plástico" teve seu uso popularizado depois da 2ª Grande Guerra. As pesquisas aumentaram a oferta de diferentes tipos de plástico, o que ampliou bastante seu campo de aplicação. Hoje seu uso se estende aos mais diversos setores da economia - infraestrutura, indústria, lazer e medicina, entre os principais. Dois dos setores da economia que mais se desenvolveram graças à popularização do plástico foram a indústria alimentícia e a de bens de consumo em geral.

Atualmente, a economia mundial produz aproximadamente 8,3 bilhões de toneladas de plástico de todos os tipos. Deste volume total, segundo estimativas, 9% são reciclados e 12% são incinerados - em grande parte para geração de energia. Os restantes 79% acabam em aterros, lixões ou, no pior dos casos, diretamente no meio ambiente. Os impactos do plástico ao meio ambiente são inúmeros, desde o entupimento de bueiros e canalizações, poluição de rios e lagos, até a formação de criadouros de mosquitos transmissores de doenças no ambiente urbano. Segundo um estudo elaborado pela ONU e publicado em 2014, os prejuízos ambientais relacionados ao plástico - as externalidades negativas, segundo os economistas - excedem os US$ 75 bilhões, dos quais 30% são referentes às emissões de gases de efeito estufa e à poluição durante a fase de produção.

No entanto, é nos oceanos que o plástico exerce seu maior impacto ambiental. Em 2010, quando se realizou o até agora mais completo estudo sobre o assunto, já se estimava que aproximadamente oito milhões de toneladas de plástico vão parar nos oceanos anualmente. A maior parte deste volume de detritos não é jogada lá diretamente, mas carregada através dos rios. 90% de todo este plástico, apontam estudos, são jogados nos mares por dez rios: rio Yangtze (China); rio Indo (Paquistão); rio Amarelo (China); rio Hai (China); rio Nilo (Egito); rio Ganges (Índia); rio das Pérolas (China); rio Anum (Gana), rio Níger (Nigéria) e rio Mekong (Vietnã). Provavelmente, se fluísse em direção ao oceano Atlântico, o rio Tietê também seria incluído nesta lista.

Todos estes rios têm algo em comum. Percorrem regiões densamente povoadas (e alguns países), que na maior parte dos casos não dispõem de serviços adequados de coleta de lixo e de reciclagem, aliado ao baixo nível da educação ambiental das populações. Na América Central ocorre um fato que, noticiado recentemente pelo site BBC Brasil, é um exemplo desta situação. O rio Motagua nasce na região Oeste da Guatemala e em seus últimos quilômetros, antes de desembocar no mar do Caribe, faz divisa com Honduras. O rio recebe descargas tão volumosas de lixo, que ao longo da região costeira, tanto da Guatemala quanto de Honduras, se estende uma imensa ilha de embalagens plásticas. Honduras acusa a Guatemala de ser o poluidor do rio porque os municípios guatemaltecos jogam nele seus resíduos. A Guatemala, por sua vez, também não quer assumir toda a culpa. A discussão entre os países continua.

O acúmulo de plástico nos oceanos começou a ser percebido como impacto ambiental a partir dos anos 1970. De lá para cá os indícios são cada vez maiores. A maior parte do plástico que vai para os oceanos acaba retornando às praias onde, se não recolhida, o resíduo pode permanecer por várias décadas, até se desfazer. No ambiente natural, os fatores que mais contribuem para a degradação do plástico são a luz do sol, o oxigênio e a água. No entanto, através deste processo de desintegração permanece um resíduo de micro ou nanopartículas do material, que podem causar grandes danos aos organismos.

A parte do plástico que, levada pelas correntes não retorna a terra, é muitas vezes confundida com alimento pelas diversas espécies que vivem no mar, causando acidentes no sistema digestivo e respiratório que muitas vezes resultam em morte. Em grandes quantidades e levadas pelas correntes, este material se degrada transformando-se em uma "sopa concentrada" de pequenas partículas plásticas de tamanho menor que cinco milímetros.

Nas regiões onde ocorre o encontro de correntes marinhas, como no Pacífico Norte, na região do Caribe e na parte Sul dos oceanos Atlântico e Índico, a rotação das águas forma imensas ilhas de plástico, com centenas de quilômetros de extensão. A maior parte destas ilhas não é formada por resíduos grandes, como garrafas e potes de iogurte, mas por partículas que já sofreram um processo de desgaste, de poucos milímetros de tamanho e até menores. A maior destas formações até agora avistadas, a Grande Ilha de Lixo do Pacífico possui, segundo fontes talvez exageradas, um tamanho equivalente ao território dos Estados Unidos. Também existem evidências, de que gradualmente estas partículas micrométricas afundam e se juntam ao solo marinho.

O problema está se tornando cada vez mais sério e as consequências a médio e longo prazo são imprevisíveis. É certo que o volume de plástico continuará aumentando cada vez mais e o tempo de degradação do material é relativamente longo, podendo variar de 50 anos, no caso de um copo de isopor, até 600 anos para a linha de pesca. Enquanto isso, aumenta a quantidade de plástico finamente dissolvido na água, afetando toda a cadeia alimentar dos mares. Na Inglaterra, por exemplo, já foi constatado que um terço dos peixes capturados tem resíduos de plástico em seus tecidos, na forma de micropartículas.

Em dezembro de 2017 mais de 200 países presentes à Assembleia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, em Nairóbi, se comprometeram a reduzir gradualmente o descarte de embalagens plásticas nos oceanos. A solução, todavia, é bem mais custosa e complicada do que parece, já que envolve a implantação de planos de gestão de resíduos em todos os municípios que tenham alguma ligação com o mar, como vimos acima.

O Brasil, segundo um estudo da revista Science de 2015, ocupa o 16º lugar entre os países mais poluidores dos oceanos. A pesquisa levou em conta o número de habitantes dos países vivendo em regiões litorâneas, o tamanho da costa e o nível de desenvolvimento dos programas de gestão de resíduos. É previsto que a partir desse ano (2018) as regiões metropolitanas já comecem a implantar a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Sucessivamente, até 2022, todos os 5.570 municípios brasileiros deverão ter instaurado a política. 
(Imagens: fotografias de Jean Manzon)

Novas maneiras de incentivar a eficiência energética

sábado, 24 de março de 2018
"É sem valor pedir aos deuses aquilo que nós mesmos podemos realizar"   -   Epicuro   -   Aforismos e Fragmentos

Enquanto as economias avançadas envidam cada vez mais esforços para reduzirem o consumo de energia, o Brasil continua preso à ideia de que para crescer é preciso gerar mais energia. A Alemanha, o Japão e os Estados Unidos aumentaram consideravelmente o tamanho de suas economias nas últimas décadas, sem que este crescimento tenha vindo acompanhado de um proporcional aumento da geração de energia; seja eletricidade, calor, vapor, ou trabalho de máquinas.

A ênfase dos governos, institutos de pesquisa e empresas destas e de outras nações industrialmente avançadas, é sobre o aumento da eficiência. Para isso são investidos bilhões de euros e dólares, no desenvolvimento e na aplicação de tecnologias que funcionem de maneira mais eficiente. Máquinas mais leves que realizam operações mais precisas; processos inteiros que funcionam com mais velocidade, com menos pontos de perda de energia e quase totalmente automatizados. Lay outs de locais de produção e distribuição de mercados projetados para facilitar o fluxo, a armazenagem e a circulação de produtos e materiais. Uso cada vez mais intensivo da ventilação e iluminação natural. Existem inúmeras providências - muitas delas altamente técnicas - que possibilitam um melhor aproveitamento da energia, seja qual for.

No Brasil a preocupação com a eficiência energética se tornou mais acentuada a partir do início dos anos 2000, quando o país passou por uma grande crise de energia elétrica, dado o baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas, em função de longos períodos de estiagem. Energias renováveis e eficiência energética tornaram-se temas de debates, publicações e de eventos, já que se converteram em assunto de destaque nas mídias mundiais. Isto porque, grande parte da geração elétrica nos países do Hemisfério Norte era feita com combustíveis fósseis, cujas emissões são causadoras do efeito estufa.

Gradualmente o governo brasileiro estabeleceu programas de financiamento (PROINFA) e posteriormente leilões para compra de energia, incluindo a de origem renovável. O mercado da energia eólica, por vantagens técnicas e financeiras, teve um crescimento vertiginoso ao longo dos últimos oito anos, fazendo com que este tipo de energia se tornasse a mais usada dentre as renováveis, depois da hidrelétrica. A energia solar fotovoltaica, a energia da queima de biomassa e biogás, já se preparam para alcançarem desenvolvimento semelhante nos próximos anos.

Mas, como dizem os especialistas, a melhor energia é aquela que não foi preciso gerar. Ou seja, não foi necessário fazer qualquer investimento, queimar qualquer combustível, derrubar qualquer floresta ou mudar o curso de um rio. Esta energia não foi gerada e não causou todas estas externalidades, simplesmente porque não era necessária. Mas esta poucas vezes foi a maneira de pensar de nossos governos e de nossos empresários. Assim, a eficiência energética foi sempre relegada a um segundo plano.

Em 2010 o Ministério das Minas e Energia em colaboração com a Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE) elaborou o Plano Nacional de Energia 2030. O documento estabelece, entre outras providências, a meta de poupar 10% da energia consumida projetada para aquele ano, em 2010. À primeira vista, trata-se de uma proposta bastante factível, dados alguns fatos como:

- Cerca de 35% da perda de energia elétrica no Brasil já acontece durante a transmissão, geralmente a longas distâncias;

- O setor industrial, o maior consumidor de energia em geral na economia brasileira, tem em média uma perda energética de 30%;

- O setor de saneamento (tratamento de água e esgoto) também tem uma grande perda de eletricidade por super ou subdimensionamento de equipamentos. Desta forma, os custos de eletricidade representam o segundo item mais importante nas despesas do setor, só ultrapassados pelos gastos com salários;

- São inúmeros os potenciais de redução no uso de energia, seja através da ampla implantação de iluminação com LEDs - no setor privado e público -, a substituição de sistemas de ventilação por equipamentos mais modernos, troca de compressores de ar (usados praticamente em todos os segmentos industriais), modernização de sistemas de refrigeração, entre outros.  

As iniciativas como o PROCEL, apesar de serem bastante abrangentes, incluindo atividades industriais, produtos e edificações, têm alcance ainda limitado, quase não sendo conhecidos - exceção são as linhas de produtos eletrodomésticos. A lei que obriga as distribuidoras de eletricidade a investirem 0,5% da receita anual líquida em projetos de uso racional de energia, alcança apenas 0,08% de economia de energia ao ano. Muito pouco em relação ao que precisa ser feito para que o país possa alcançar suas metas até 2030.

Uma proposta recentemente apresentada por Rinaldo Caldeira, pesquisador do IEE/USP, através de uma tese de doutorado, propõe a adoção de um modelo de títulos de eficiência energética, denominados "White Certificates". A ideia é que projetos que efetivamente contribuam para a redução do consumo de energia sejam avaliados e tenham sua redução energética calculada e oficialmente certificada. Por outro lado, o governo ou a ANEEL podem estabelecer um patamar de redução de consumo de energia a ser alcançado pelas empresas (provavelmente setorialmente). No caso de não atingirem suas metas de redução de consumo de energia - estabelecidas antecipadamente pelo governo -, as empresas poderiam ser multadas. Eventualmente, os certificados "White Certificates" poderiam ser comercializados e comprados por empresas que ainda não tenham alcançado as reduções de consumo de energia às quais estavam obrigadas. Com o certificado estas empresas compensariam uma eventual multa, já que na contabilidade geral do mercado alcançaram - pelo menos até aquele ponto - as metas que lhes haviam sido estabelecidas.

O próprio autor do projeto afirma que tudo ainda é uma proposta, que está sendo apresentada ao MME e à ANEEL. O mecanismo dos "White Certificates" é bastante parecido com o sistema de negociação de créditos de carbono (Certificates of Emission Reduction) muito negociados no início da década de 2000, principalmente por companhias americanas e países europeus. O cálculo do valor destes certificados era feito baseado na quantidade de toneladas de emissões de derivados de petróleo ou equivalentes (tep) capturados ou não emitidos, através de um projeto (reflorestamento, substituição de combustível fóssil, etc.). A tonelada de tep tinha uma cotação no mercado internacional e, desta forma, eram remunerados os certificados gerados pelos projetos.

O mecanismo proposto parece ser interessante, mas precisa ser encampado pela ANEEL e MME, além de obter o apoio de instituições como a CNI, a Bolsa de Valores e outros organismos. Mais importante é que estes certificados tenham credibilidade, sendo auditados por auditorias internacionalmente acreditadas. Paralelamente, é necessário que o governo continue com programas de financiamento tecnológico, apoio a projetos, campanhas de esclarecimento e outras iniciativas, visando divulgar a ideia da eficiência energética.

Em tempos de "Indústria 4.0" é cada vez mais importante que o país implante a política da eficiência. Esta não só se limita aos recursos energéticos, mas a todos os outros recursos naturais usados nos processo industriais e no comércio. Eficiência no uso da matéria prima, de insumos, e outros componentes que entrem nestes processos. Quanto menos recursos naturais forem usados, mais serão preservadas as espécies vivas e os ecossistemas. Tudo, afinal, é feito somente para a nossa sobrevivência, já que se desaparecermos a vida continua. Desenvolve outras formas de organismos e vai em frente.   
(Imagens: gravuras de Richard Mock)  

Manuel Bandeira

sábado, 17 de março de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho, o poeta Manuel Bandeira (1886-1968), nasceu no Recife. Estudou arquitetura na Escola Politécnica em São Paulo, mas a tuberculose, que se manifesta muito cedo, o impede de terminar os estudos. Sempre voltado à poesia, passa uma temporada em um santório na Suíça onde conhece poetas europeus. Apesar de não participar da Semana Modernista (1922) tem constante contato com os integrantes do movimento, principalmente Mário de Andrade.

Vivendo no Rio de Janeiro, torna-se professor de literatura do tradicional colégio Pedro II e membro da Academia Brasileira de Letras (1940). Sempre escrevendo para os grandes jornais cariocas e a imprensa especializada, Bandeira também publica diversos livros de poemas, antologias, traduções, crônicas e contribuições para outras publicações.

Algumas de suas mais importantes obras são: "Cinza da Horas", "Carnaval", "Libertinagem", "Estrela da manhã", "Estrela da tarde" e "Estrela da vida inteira". Do livro de poemas "Libertinagem", destacamos o poema: 


Profundamente 

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas. 

No meio da noite despertei 
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco 
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas? 

- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo 
Profundamente 

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci 

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles? 

- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente 

(Imagem: fotografia de Manuel Bandeira - Fonte: Bússola de Livros)

Newsletter março/abril/maio 2018

sábado, 10 de março de 2018

(publicado originalmente no site www.ricardorose.com.br)

O ano de 2018 será de muitas atrações. Pelo menos é o que diz a mídia, talvez para animar a população, cuja maioria já não se admira com mais nada. Só nestes primeiros dois meses do ano já assistimos ao julgamento do ex-presidente Lula, ao crescimento de casos de febre amarela (e o povo que não toma a vacina) e à intervenção militar no Rio de Janeiro. Ainda temos um longo caminho pela frente até chegarmos ao dia 31 de dezembro de 2018. Nesse percurso veremos a Copa de Futebol, cercada de uma grande expectativa em relação à atuação da Seleção, cuja imagem ainda está associada aos 7 a 1. Na política a primeira pergunta é se Lula poderá participar das eleições; a segunda é quem será o novo ou a nova presidente do país. No meio de todas essas atrações ainda teremos que aturar a propaganda eleitoral e esperar que a economia se recupere, diminuindo o desemprego.

Na economia, as perspectivas são as mesmas do final de 2017. A inflação continuará baixa e o PIB - que fechou o ano passado com um crescimento de 1% - deverá chegar aos 3% em 2018. A abertura de postos de trabalho, segundo os especialistas, deverá crescer a partir do segundo semestre, mas de forma bastante lenta. As reformas da CLT não têm contribuído para reativar o mercado de trabalho, como propalava o governo. A situação financeira do Estado continua ruim e, muito provavelmente, não se conseguirá aprovar a incompleta reforma da Previdência. Portanto na área econômica, guardadas as condições atuais, teremos mais do mesmo.

Se o ministério do Meio Ambiente já teve parte de suas verbas cortadas em 2017, em 2018 a situação não deverá ser diferente. O primeiro fato importante em 2018 foi a manutenção da anistia dada pelo Superior Tribunal Federal (STF) aos desmatamentos ocorridos antes de julho de 2008, como estabelecia o novo Código Florestal sancionado em 2012. Com isso, segundo o ministro Luiz Fux "perdoar infrações administrativas e crimes ambientais pretéritos, o Código Florestal sinalizou uma despreocupação do estado para com o direito ambiental...".


No final do ano passado, fontes do governo já havia declarado que o país não conseguiria atender a meta de ter 90% do território coberto por saneamento básico até 2033. Isto significa que a insalubridade fará aumentar a incidência de doenças como cólera, leptospirose, febre tifoide, disenteria bacteriana, dengue e zika, entre outras. Novos investimentos também não são esperados para este ano, já que o processo de privatização das empresas estaduais de saneamento, incluído no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), ainda está em fase de análise. Em 2017 o BNDES contratou consultorias econômicas, jurídicas e de engenharia para elaborarem estudos técnicos sobre as companhias de saneamento estaduais. Estes trabalhos, realizados em colaboração com os governos estaduais, estão em diversas fases de finalização, com previsão de término até o segundo semestre de 2018. Prontos, os estudos serão analisados pelo Executivo e Legislativo de cada estado, que poderão sugerir alterações. Somente após estas providências é que poderão ser organizados os leilões de privatização, o que muito provavelmente só será possível - se ocorrerem - ao longo de 2019.

O Ministério da Transparência e a Controladoria-Geral da União (CGU) divulgou recentemente uma avaliação que fez sobre a atuação do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e do Ministério das Cidades (MCid) na implantação das metas previstas na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Entre os problemas apontados pela investigação constam itens como:

- A descontinuidade no aporte de recursos aos estados;

- A atual versão do Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos (SINIR) não cumpre sua finalidade;

- Falta de clareza no papel do MCid na implantação da PNRS;

- O Plano Nacional de Resíduos Sólidos, a cargo do MMA, não está formalizando e passa por revisão. Desta forma, a União não tem instrumento para orientar e exigir dos estados e municípios a elaboração de seus planos.

Afirma o relatório que "implantar a disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos com a consequente erradicação dos lixões em todo o país, só será possível se a PNRS for priorizada pelo governo federal, bem como os estados e municípios terem um maior engajamento, na busca por uma atuação conjunta e compartilhada".

Com tantos desafios que o país tem, é pouco provável que para o próximo presidente, seja quem for, os temas do saneamento e da gestão de resíduos sejam prioritários. Isso sem falar de outros assuntos da área de meio ambiente, como o desmatamento, a contaminação de solos, as mudanças climáticas e muitos outros.
(Imagens: pinturas de Max Slevogt)

Monteiro Lobato

sábado, 3 de março de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

José Bento Monteiro Lobato (1882-1948) além de escritor foi advogado, jornalista, editor e empresário. Escritor para adultos e crianças, foi crítico social e defensor de ideias modernas para sua época, como a preservação do meio ambiente e a exploração do petróleo. Foi preso e seus livros infantis foram apreendidos e queimados pela ditadura do Estado Novo.

Monteiro Lobato foi, acima de tudo, defensor de um Brasil moderno e autônomo. No livro "Ideias de Jeca Tatu" constam diversos artigos escritos pelo escritor para a imprensa em diversas épocas. Num deles, intitulado Estética Oficial lê-se a seguinte frase:

"Que lindo se figurássemos na assembléia mundial como povo capaz de uma ideia sua, uma arte sua, costumes e usanças que não recendam a figurinos importados!"


Do livro "Monteiro Lobato, Fragmentos, Opiniões e Miscelânea, destacamos a crônica "Deus brasileiro":

"É sabido que existe uma Providência especial, ou pelo menos um dedo da Providência comum, escalado para montar guarda à cabeceira do Brasil. Os namorados e os bêbados já tinham o seu protetor - o Brasil entra para o farrancho neste recrudescer de politeísmo. Nas mais graves das nossas crises, a Invasão Holandesa, a Questão Christie, o Amapá, a ocupação da Trindade, o Convênio de Taubaté, o Marechal Hermes, sempre se manifestou a intercessão milagreira do deus nacional, evolução, quem sabe, de Tupã." 

(Imagem: fotografia de Monteiro Lobato)

História e generalização

sábado, 24 de fevereiro de 2018
"A história não é o palco da felicidade; nela, os períodos de felicidade são páginas em branco"   -   G. F. Hegel, citado por Eduardo Gianetti em "O Livro das Citações"

"Para onde caminha o nosso país?", perguntamos.

Será que faz algum sentido dizer que uma sociedade, um movimento cultural, a economia, ou o desenvolvimento de uma espécie estavam "ali" (ou "assim") - significando isso determinada condição, com características específicas em um tempo passado -, e agora está "aqui" (ou "dessa nova forma"), representando isso uma nova situação sob diversos pontos de vista, em um tempo posterior?

Esta é uma forma bastante comum de encarar um fato ou um acontecimento, que se estende por certo tempo (a queda de um meteorito, uma revolução, um movimento literário, a construção de uma hidrelétrica). É a tentativa de ressaltar certos aspectos de um acontecimento e através deles caracterizar o fato em determinado instante no tempo. Por exemplo, a divisão da escola impressionista de pintura em impressionismo, pós-impressionismo e neo-impressionismo. Em cada uma dessas fases, o movimento apresenta certas características pictóricas expressas por determinados pintores.

No entanto, a delimitação de períodos históricos e situações servem apenas para facilitar seu entendimento, através da generalização. Reunimos certo numero de fatos - muitas vezes pouco numerosos - a respeito de determinado tema ou período de tempo, e disso tiramos conclusões. Geralmente generalizações, baseadas em informações, amalgamadas por pressupostos ideológicos. É desta maneira que, conscientemente ou não, com maior ou menor profundidade de análise e quantidade de dados, se formam as teorias históricas.

Os diversos fatos históricos são, assim, como que "instantes congelados" de um longo processo, que a nosso ver é limitado, por considerar o fluxo histórico (a própria expressão "fluxo" já transmite a ideia) como um processo linear. Não considera a complexa inter-relação entre fatos desconhecidos, que antecedem ou são contemporâneos ao fato histórico em consideração, mas exercem sobre ele uma influência.

O ponto fulcral da questão é que não há como exatamente caracterizar cada fase de processos deste tipo; são fatos naturais (que incluem fatores humanos) onde um número imenso de fatores exerce sua influência no processo que se observa. São o que modernamente se denomina sistemas complexos. O clima, a bolsa de valores, revoluções, períodos econômicos, desenvolvimento de tendências culturais, etc. Falaremos disso mais adiante.

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A delimitação de períodos e fatos históricos serve apenas para facilitar seu entendimento, por meio de generalizações. Apontamos certos fatos de um determinado período histórico, dos quais temos conhecimento, e tentamos formar um quadro do período, identificando tendências - que, já o sabemos de antemão porque para nós são passado, depois se confirmaram.

Mesmo assim, a pergunta quanto à direção para onde caminhavam reinos, impérios e repúblicas sempre existiu, em todos os lugares, ao longo da história humana. Profetas do antigo reino de Israel perguntavam-se qual seria o destino reservado ao seu povo, afastado da prática da Lei. Cônsules romanos condenavam a lassidão de uma sucessão de imperadores, enquanto se preocupavam com o futuro do Estado. Paladas de Alexandria, poeta do século IV, lamentavam o gradual esquecimento da cultura grega, suplantada pela expansão de um culto popular, o cristianismo, e se indagava sobre o que seria da fenecente tradição helênica.

A resposta a estas perguntas que os antigos se faziam, ou seja, o que ocorreria ao reino de Israel, ao império romano e à cultura da Grécia Antiga no período cristão, hoje nos é clara. Causada por acontecimentos, ações de indivíduos, fenômenos naturais e outros fatores, a história tomou determinado rumo. E as sociedades que existiram posteriormente interpretaram os fatos antigos de determinada maneira - à sua maneira.  

A esta interpretação, esta "leitura" dos fatos antigos (ditos históricos) - baseada em condições culturais, econômicas e sociais atuais, já que o "ambiente" do reino de Israel ou da Antiga Roma não existiam mais -, convencionamos chamar de história. Ou História, como preferem alguns que acreditam na história como uma coisa única possível; como se esta sucessão de fatos aceitos batizados de "história" fosse a única maneira de olhar este vasto universo de acontecimentos ocorridos em determinado período; como se fosse a verdade (esta, outra palavra sempre dada a interpretações).  
   

Chamamos de história aquela quase infinita sucessão de fatos que ocorrem em um tempo e espaço definidos, dos quais, por diversas razões culturais, políticas e econômicas, escolhemos alguns em uma sucessão e interligação, e lhe damos o nome de "história". A história sob o ponto de vista de determinado grupo étnico, nação ou cultura. É dessa forma que se contam e escrevem as "histórias" das nações, por exemplo - preponderantemente sob o ponto de vista da ótica cultural de grupos que detêm o domínio da cultura - os que dominam direta ou indiretamente a produção e reprodução da cultura nessa sociedade. O mesmo ocorreu com o cristianismo em seus alvores. A Bacia do Mediterrâneo pululava de seitas cristãs entre o século II e IV. Foi somente através dos concílios eclesiásticos, que grupos (política e econômica) dominantes puderam impor sua maneira de interpretar a nascente religião ao restante das comunidades cristãs. Assim, foi aos poucos sendo estabelecida a ortodoxia e a ortopraxia, sob o comando de um grupo que se tornou hegemônico, que se denominou Igreja Católica (do grego katholikos, universal). 

Se nos aprofundarmos na análise do assunto, podemos também chegar a concluir de que não existe uma só História, mas histórias. Histórias do Brasil, histórias da religião cristã, histórias da ciência, histórias (ou biografias) da vida de Thomas Edison e Pelé, histórias da rede de lanches McDonald, histórias do hospital das Clínicas, histórias do conceito de crime político... Diversas maneiras de interpretar uma sucessão de fatos biológicos, culturais, econômicos, políticos religiosos, etc. (eu prefiro usar o termo "teia de fatos" ao invés de "sucessão de fatos", já que "sucessão" me parece por demais linear e, assim, unidimensional).

Estas histórias particulares sobre cada assunto (Brasil, cristianismo, Pelé, McDonalds, crimes, etc.) são incorporadas a um "relato maior"; a história universal. Vários aspectos em comum são encontrados entre as duas narrativas e, assim, minha história pessoal e a da minha dor de dente se inserem perfeitamente na história da humanidade. Mas, todas as "histórias", não esqueçamos, são elaboradas sob determinada ótica; o relato da minha biografia junto com minha dor dentária é narrado de acordo com aquilo que penso seja a "minha" visão de minha situação no mundo - visão ideológica que reúne os fatos num todo. 

As interpretações da "grande história" são baseadas em certos pressupostos, muitas vezes sob uma perspectiva teleológica, isto é, com a intenção de dar um objetivo ou sentido àquela "história" que se interpreta. Este é, aliás, mais um aspecto implícito e pouco percebido por trás da história. A grande maioria das pessoas sempre tem em mente que a história, seja qual for, sempre teve ou tem um sentido, um objetivo. Como se o sentido implícito da Revolução Francesa fosse disseminar os ideais do Iluminismo por toda a civilização ocidental. Como se a história tivesse alguma meta, objetivo, a "realização do Espírito", segundo o filósofo G.F. Hegel ou o conceito de Parusia do cristianismo. A noção de que a história humana tem algum sentido - uma história linear, muitas vezes conduzida por e em direção a uma divindade ou seu domínio - é comum a diversas religiões, que tomaram este conceito por variadas rotas culturais do Zoroastrismo, religião persa fundada pelo mítico taumaturgo Zoroastro, que supostamente floresceu no XI século AEC na Pérsia.

O que defendo aqui, junto com muitos outros autores modernos, é que não existe um conceito único de história. Aquilo que assim denominamos é apenas uma generalização para facilitar o entendimento de certos fatos e estabelecer um parâmetro comum, uma "linguagem", que possa ser compreendida e usada por todos. Algo comparável ao Sistema Métrico Decimal, sistema de medidas criado durante a Revolução Francesa, que foi adotado como padrão na maior parte do mundo. É assim que, por exemplo, países orientais como a China ou a Arábia, em negociações com governos ocidentais, aceitam certos parâmetros da nossa maneira ocidental de ver a história - mas isto somente nestas ocasiões, já que países com longa herança cultural (e histórica) são muito zelosos de suas tradições (leia-se de suas visões culturalmente específicas de interpretar a história).
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Para concluir, gostaria de agregar e sintetizar os pontos que tentei expor neste curto ensaio:
- A chamada história, História ou "Grande história" reúne relatos os quais, devido a inúmeros aspectos culturais, políticos, econômicos, técnicos, religiosos e históricos formam a maneira comum, universal e mais simples de disseminar conhecimentos relevantes sobre períodos de tempo na história da humanidade, de um povo, de ideias ou de outra coisa qualquer. Esta maneira de "contar" o que supostamente ocorreu em detalhes no passado é uma interpretação. Os reais acontecimentos e seus encadeamentos (se é que os houve) nunca poderão ser recuperados; talvez com um Túnel do Tempo, como imagina a ficção científica;

- Não existe a história sob o ponto de vista do "Olho que tudo vê"; um ponto de vista absoluto, divino. Essencialmente há quase infinitas "histórias". Cada diferente maneira de associar os fatos, agregados por variadas ideologias, forma uma diferente visão da história. A visão que os índios têm do processo de colonização das terras brasileiras é bem diferente daquela do civilizado. A visão que membros de um partido têm de um período histórico é bem diferente da de indivíduos de outra agremiação partidária;

- Outro aspecto é que existem histórias ignoradas, se desenrolado paralelamente à história oficial. Sob o aspecto político, será que a história do império no Brasil terminou? Descendentes da Casa Real brasileira ainda estão vivos - os Orleãs e Bragança - e seguramente existem dezenas, se não centenas de milhares de brasileiros que se colocam a favor da volta da monarquia, e muitos de uma forma ou outra lutam por isso. Assim, podemos considerar que existe uma história da monarquia no Brasil, que ainda se desenrola. Paralelamente a história da monarquia, existe a história da padaria da esquina, a história do grão de areia da praia e a história da árvore da floresta amazônica; aquela que nunca ninguém viu cair;

- A história não é linear. O conceito hegeliano de "tese-antítese-sítese" é linear (pelo menos em sua ideia original) e tem influencia na maneira como a maior parte dos estudiosos encara o estudo da matéria. Para teóricos de história influenciados por correntes políticas - marxistas, socialistas, fascistas, liberais, etc. -, o devir histórico tem uma meta, que coincide com os anseios políticos do próprio intelectual - o caso de Marx e do comunismo é o mais famoso;

- O conceito de "teia de acontecimentos", que tomamos da moderna ecologia (Odum, Capra) e do budismo, dá uma dimensão mais rica à interrelação que existe entre os fatos; qualquer fato que ocorra. O devir histórico não é assim linear, mas um nó em uma extensa rede (que poderíamos representar mentalmente como uma estrutura tridimensional onde nos nós se juntam as linhas e cada nó representasse aquilo que chamamos de fato histórico - vide: (https://thumbs.dreamstime.com/b/estrutura-de-rede-tridimensional-abstrata-do-wireframe-do-pol%C3%ADgono-70049972.jpg). Nessa rede, interpretamos apenas alguns nós (os maiores?) como sendo os fatos que consideramos na elaboração do relato histórico "oficial";


- Assim como todas as "histórias" a "Grande história" não tem sentido algum fora dela. Não há algo ou algum ente externo a ela - seja um Deus barbudo, um Princípio Último, um Controlador Alienígena ou uma Ordem Oculta. Nada do que ocorre - do "Big-Bang e anterior a ele, até a morte térmica deste universo, sem contar os outros multiversos", está fora do âmbito da história;

Mas, sob que ponto de vista? 

(Imagens: pinturas do Antigo Egito)