Por que a questão ambiental avança tão lentamente?

sábado, 29 de agosto de 2015
"Acabam os heróis, e também acabam as memórias das suas ações; aniquilam-se os bronzes, em que se gravam os combates; corrompem-se os mármores, em que se esculpem os triunfos: e apesar dos milagres da estampa, também se desvanecem as cadências da prosa, em que se descrevem as empresas, e se dissipam as harmonias do verso, em que se depositam as vitórias: tudo cede à voracidade cruel do tempo."  -  Matias Aires  -  Reflexões sobre a vaidade dos homens

Por que a questão ambiental avança tão lentamente no Brasil? A velocidade em que outros países industrializados implantaram mudanças estruturais na área ambiental - políticas governamentais, legislação, normas técnicas, controle das empresas públicas e privadas - foi bem mais rápida. Basta ver o progresso em toda a Europa e Estados Unidos, no que se refere à atuação ambiental de governos e empresas, ocorrido entre o final da década de 1960 e os anos 1980. Em pouco mais de uma década, houve uma verdadeira revolução no que se refere à redução dos impactos diretos ao meio ambiente - água, solo e ar -, concretizada através de grandes projetos de despoluição, modernas estruturas de gerenciamento de resíduos e melhores controles das emissões atmosféricas.
É verdade que a fase de pleno desenvolvimento do capitalismo industrial por que passavam os países desenvolvidos naquela época, contribuiu para gerar excedentes de recursos que foram efetivamente alocados na solução de grande parte dos problemas ambientais. Ocorria que os governos, pressionados pela sociedade civil, criaram leis ambientais mais rígidas, a serem cumpridas pelas empresas e pelos governos, que para isto dispunham de capitais. Em dez ou quinze anos, bacias hidrográficas e grandes áreas de solos contaminados foram recuperadas. Extensos programas de reuso e reciclagem de materiais, reduzindo drasticamente os volumes destinados aos aterros - construídos dentro de padrões técnicos -, foram implantados e passaram a gerar milhões de empregos e novas demandas tecnológicas.
O processo foi relativamente rápido: da pressão popular para melhores leis e normas, e destas para obras que ajudaram a reduzir a poluição e o impacto aos recursos naturais. Para colocar este processo em marcha foi necessário o desenvolvimento de novas tecnologias, para o que contribuíram os financiamentos governamentais e a cooperação entre institutos de pesquisa, as universidades e o setor privado.
No Brasil a questão da redução dos impactos ambientais, ocasionados pelas atividades econômicas, avança lentamente. Já faz mais de trinta anos que o país criou a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (6938 de 17/01/81), a mais importante. Outras normas importantes foram elaboradas entre os anos 1980 (em sua maior parte) e nos anos 1990. Mais detalhes em: http://planetaorganico.com.br/site/index.php/meio-ambiente-as-17-leis-ambientais-do-brasil/. Portanto, não nos faltam leis. Recursos também não faltam ao governo e às empresas; principalmente aquelas com maior impacto ambiental como mineradoras, construtoras, agronegócio e pecuária, empresas públicas de saneamento, setor químico e petroquímico, entre outros. Poucos recursos do PAC, além daqueles destinados ao saneamento e que também foram reduzidos, estão sendo utilizados para controle da poluição.

A grande falha, a nosso ver, ainda está no baixo grau de conscientização da sociedade civil. Apesar de ter uma vaga noção sobre poluição, grande parte da população desconhece suas causas econômicas e políticas e não exerce seu direito a um ambiente limpo, assegurado pela Constituição. A mídia crítica faz seu papel da melhor maneira possível, mas devido ao baixo nível educacional do povo acaba falando sempre para os mesmos. Assim, sem pressão e mobilização "fica tudo como dantes no quartel de Abrantes", como já diziam os portugueses.
(Imagens: fotografias de Joe Schwartz)

Mudanças climáticas e as cidades

sábado, 22 de agosto de 2015
"Lição da História, mais uma vez: o vencedor de qualquer guerra é o que não a faz, ou, de qualquer modo, que não luta em seu próprio território."  -  Jacques Attali  -  Uma breve história do futuro

Prefeitos de diversas cidades do mundo reuniram-se no Vaticano, a convite do Papa Francisco. No evento foram discutidas as mudanças climáticas e seu efeito no ambiente urbano, como a degradação ambiental, a intensificação da pobreza e o aumento da vulnerabilidade social. Do Brasil, participaram os prefeitos das cidades de Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba, Porto Alegre e Goiânia. Ao final do encontro os prefeitos apresentaram um documento enfatizando a importância da transferência de tecnologia dos países ricos diretamente às cidades dos países menos desenvolvidos e, especialmente, às das nações pobres.
A realização do evento volta a chamar a atenção para o fenômeno das mudanças climáticas, que é cada vez mais perceptível. O ano de 2014 foi considerado o mais quente da história, desde que começaram as medições das temperaturas globais, no final do século XIX. O primeiro semestre de 2015 confirma tendência de aumento, já que neste período a temperatura média do globo foi 0,85ºC maior que a normal. O processo de aquecimento da atmosfera deve continuar, já que as emissões de gases poluentes causadores do aquecimento global e, consequentemente, das mudanças do clima, voltaram a crescer em todo o mundo com a lenta recuperação das economias dos países.
O problema afetará todas as atividades humanas mas deve se tornar mais agudo nas cidades, onde já se concentra 54% da população mundial; percentual que deverá chegar aos 66% até 2050. Apesar de só ocuparem 2% da área do planeta, as cidades são responsáveis pelo consumo de 78% da energia mundial e por 60% das emissões de gases poluentes. Atividades como a geração de energia, tráfego de veículos, atividade industrial, uso de biomassa (principalmente para cocção nos países pobres) e geração de resíduos orgânicos (esgotos não tratados e lixo a céu aberto) são as que mais geram emissões de gases.
As cidades, principalmente em países pobres e em desenvolvimento, são bastante vulneráveis aos fenômenos climáticos, como ciclones, temporais, estiagens, aumento do nível dos oceanos, etc. Estas ocorrências comprometem a infraestrutura urbana - energia, transportes, saúde, segurança - dificultando a vida da população, principalmente das grandes metrópoles. Alagamentos e deslizamentos de terra, com destruição de moradias e às vezes de vidas, afetam as populações de baixa renda que habitam áreas de risco ou de infraestrutura precária. Assim, os mais afetados pelos fenômenos climáticos são os que têm pouco, e mesmo isto acabam perdendo. Estas condições aumentam a pobreza e a vulnerabilidade destas pessoas.
Por isso é premente que as cidades se preparem para estes acontecimentos, já presentes em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Para isso, necessitamos de um planejamento urbano adequado, formado por três aspectos principais: 1) Regras e regulamentos, ou seja, normas e legislação adequada para regulamentar a ocupação e as atividades no espaço urbano; 2) Planejamento e modelos adequados para a organização da cidade, em suas diversas regiões e épocas; e 3) Finanças municipais, o aspecto mais importante para que uma cidade possa seguir o planejamento respeitando os regulamentos. No Brasil temos grandes dificuldades em respeitar regras, seguir planos e administrar finanças, mas precisamos mudar urgentemente esta cultura política.
(Imagens: fotografias de François Kollar) 

Ecossistemas e complexidade

sábado, 15 de agosto de 2015
"Se desconfio do termo "liberdade", não é que subscreva qualquer determinismo mecanicista. Mas essa palavra me parece frequentemente carregada de pressupostos metafísicos que conferem ao sujeito ou à consciência - isto é, um sujeito egológico - uma independência soberana em relação às pulsões, ao cálculo, à economia, à máquina."  -  Jacques Derrida e Elisabeth Roudinesco  -  De que amanhã...

Um ecossistema, assim como outros sistemas dinâmicos, é considerados um sistema complexo. Uma eleição, a economia de um país, o clima de certa região e o ecossistema de uma ilha, por exemplo, são sistemas complexos, porque seus diferentes estados ao longo do tempo decorrem de relações imprevisíveis entre suas partes constitutivas. Sistemas complexos são compostos por vários aspectos que interagem entre si, formando uma nova estrutura, que por sua vez construirá novas e mais complexas relações, e assim por diante. Os sistemas complexos não são simplesmente a soma da atuação de suas partes, como um relógio ou um motor; são muito mais complicados. Não é por outra razão que para se estudar o desenvolvimento destes sistemas, são necessários computadores de altíssima potência, processando bilhões de informações por segundo.
Quando uma extensa área de floresta ou de campo é destruída e substituída pela atividade agrícola ou simplesmente degradada, a supressão do ecossistema original provocará diversas consequências, numa cadeia de causa e efeito de resultados imprevisíveis, gerando novos fatos agora ainda imperceptíveis. Geólogos podem antever mudanças na constituição do solo, com o gradual desaparecimento de certos minerais que eram liberados no solo pelas raízes de um tipo de planta, suprimida pelo desmatamento. Hidrogeólogos poderão prever menor disponibilidade de água no subsolo, já que esta era retida pelas raízes das milhares de árvores e arbustos derrubados. Biólogos, além de observarem menor presença de insetos polinizadores - besouros, abelhas, borboletas, vespas e moscas - identificarão um solo mais pobre em microrganismos, menos fértil. Todos estes aspectos irão interagir entre si e criarão um novo ambiente.
Este novo ambiente, se usado para a agricultura, será submetido a soluções lineares e mecanicistas - preparação do solo para o plantio, semeadura, adubação, irrigação, aplicação de herbicidas e inseticidas. São intervenções que atacam apenas alguns pontos do sistema de plantio, como suprir alimento e água e afastar eventuais concorrentes e predadores; mas sem conseguir aprofundar a interação entre seus elementos originais, como acontecia no ecossistema original. Um dos aspectos a observar neste caso é que a vegetação original, que ocupava a área, era um sistema com milhares, talvez milhões de anos de interação entre seus membros. A cada mudança de condições - enchentes e secas prolongadas, períodos de frio ou de calor mais intensos - este ecossistema teve condições de lentamente se adaptar e voltar a entrar em equilíbrio, mesmo com o desaparecimento de uma ou outra espécie, em função da mudança de condições.
A intervenção do homem, transformando aquele complexo sistema ecológico em algo mais simples, destinado a produzir uma, duas ou três espécies de vegetais - sorgo, milho e girassol -, suprimiu bactérias, protozoários, fungos, animais e vegetais, que propiciavam um excelente equilíbrio ao ecossistema original. Com diversidade de espécies menor, o ecossistema agrícola torna-se mais vulnerável às pragas e ao desequilíbrio - como um corpo com carência de certas vitaminas.
A demanda por alimentos no mundo será cada vez maior. Assim, o maior desafio do setor agrícola será desenvolver conhecimentos sistêmicos, a fim de aumentar a produção sem destruir completamente os ecossistemas originais.
(Imagens: fotografias de German Lorca)

Durkheim e o "fato social"

quarta-feira, 12 de agosto de 2015
"O conjunto de Natureza e de História é a situação do homem. Tal situação sempre comporta, por definição, a compreensão da sua situação. Desta compreensão, e não simplesmente do conjunto de dados estáticos e dinâmicos, depende a praxis humana."  -  João Ribeiro Jr.   -  Fenomenologia

Durkheim, define o fato social da seguinte maneira, em uma passagem de seus escritos:
Fato social é toda a maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior: ou então, que é geral no âmbito de uma dada sociedade tendo, ao mesmo tempo, uma existência própria, independente das suas manifestações individuais”. Mais à frente no texto, o sociólogo escreve: “Com efeito, os fatos sociais não se realizam senão através dos homens; são resultado da atividade humana” (Durkheim, 2002).  
A definição de Durkheim é resultado de longas elaborações e sínteses; é uma explicação. Mas, não nos diz (pelo menos neste texto) o que é um fato social de uma maneira clara, de modo a não deixar dúvidas.
Segundo a Wikipedia, “fato social é qualquer forma de coerção sobre os indivíduos, que é tida como uma coisa exterior a eles, tendo uma existência independente e estabelecida em toda a sociedade, que é considerada então como caracterizada pelo conjunto de fatos sociais estabelecidos”. A definição da Wikipedia também não parece clara.
Mais à frente, no mesmo verbete da Wikipédia vemos que:
a)    O fato social tem característica coercitiva, baseada nos padrões culturais do grupo;
b)    O fato social é exterior ao indivíduo e independe de sua consciência; e
c)   O fato social é geral, existe para o grupo social e não para o indivíduo específico.
Desta forma, segundo Durkheim e a Wikipedia, os fatos sociais são exteriores ao indivíduo, influenciam coercitivamente seu comportamento, têm existência própria e se realizam através da ação dos homens.
Baseados nestas afirmações, podemos dar as próximas eleições municipais como exemplo de um fato social, devido as seguintes razões:
a)  Mesmo que não fossem obrigatórias, as eleições têm caráter coercitivo sobre todos aqueles que delas participam. Existem certas regras, criadas socialmente, que precisam ser cumpridas (regras para votar, regras para os partidos, etc.);
b) As eleições são um fenômeno externo a mim, ocorre independente de minha vontade;
c)  As eleições existem para todo um grupo social, não somente para mim.
As eleições, como fato político, só podem acontecer em uma sociedade. Antiga prática das sociedades para facilitar a convivência dos diversos grupos, as eleições modernas têm origem na Inglaterra do século XVIII, quando esta se tornou uma monarquia parlamentarista. 
Por falar na Inglaterra, Robinson Crusoé, perdido sozinho em uma ilha, antes do aparecimento de Quinta-Feira, não pensaria em organizar uma eleição. Para Robinson somente os seus próprios princípios eram sua regra, não havia coerção social, pois só havia ele, tudo o que tinha vontade de fazer, fazia. (fato é que mesmo depois não precisou organizar uma eleição já que Quinta-Feira era-lhe completamente submisso, pois Robinson tinha um forte argumento: a espingarda).
Por outro lado, o terremoto de Los Angeles ou o tsunami da Ásia foram fatos que não tiveram uma origem social, não foram criados em nenhuma sociedade. Podem provocar uma série de fatos sociais (deslocamentos populacionais em massa, realização de milhares de enterros, corrida aos supermercados, etc.), mas não foram fatos sociais – foram desastres (fatos) naturais.
Outro aspecto interessante é que para Durkheim o assassinato – apesar de perpetrado por um indivíduo – é um fato social, já que tem origens sociais, diferentemente do tsunami, que tem origem na natureza (ou na vontade de um deus zangado que não faz parte da nossa sociedade). Com relação ao crime, Durkheim escreve: “Em primeiro lugar, o crime é normal, porque uma sociedade isenta dele é completamente impossível” (Durkheim, 2002).  
Bibliografia:
Durkheim, Émile, As Regras do Método Sociológico, Martin Claret Editora: São Paulo, 2002, 155 pgs.
Wikipedia, verbete “fato social” http://pt.wikipedia.org/wiki/Fato_social, consulta em 7/08/2015
(Imagens: xilogravuras de Erich Heckel)

Impacto ambiental da criação de bovinos

sábado, 8 de agosto de 2015
"Nietzsche marca, ainda, o fim de um período - otimista e antropocêntrico - para abrir a era da sabedoria trágica que assume a Vontade de potência como palavra final desta história. A besta e o homem são habitados pelo princípio que rege o universo. Freud não esquecerá a lição. Depois de Nietzsche, não se vê mais o homem como antes: ousa-se o traço lúcido tão caro aos moralistas franceses."  -  Michel Onfray  - A sabedoria trágica - Sobre o bom uso de Nietzsche

O Brasil é o segundo produtor mundial de carne bovina e o maior exportador deste tipo de alimento. O rebanho bovino brasileiro é de cerca de 190 milhões de cabeças, ocupando extensas áreas de pasto por todo o país, principalmente no Centro-Oeste e na Amazônia. Até o ano de 2023 o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento projeta um crescimento anual de 2% para este setor. Para se ter uma ideia do volume de carne e da quantidade de animais envolvidos, basta mencionar que para uma produção de cerca  de 8,7 milhões de toneladas de carne bovina em 2012, foram abatidas 31,1 milhões de cabeças.
O impacto ambiental desta atividade é muito alto, quando se considera que apenas o rebanho mundial bovino tem mais de um bilhão de cabeças, cuja maior parte vive em pastos abertos, ocupando área considerável. Com isso, a atividade agropecuária é responsável por 18% de todas as emissões de gases de efeito estufa (GEEs), ultrapassando as emissões veiculares. O metano, principal gás produzido por esta atividade é emitido pela derrubada da floresta para estabelecimento de pastagens e pela ruminação e as fezes dos animais. Além destes impactos, a atividade também é responsável globalmente por 8% do uso de água potável, já que para se produzir um quilo de carne bovina, são necessários 16 mil litros de água (somando-se a água usada na irrigação dos grãos para alimento, dessedentar o animal e no processo de abate, etc.).
Outras consequências negativas (também chamadas "externalidades negativas" pelos economistas), causadas pela pecuária são a compactação de solos e a liberação de grandes quantidades de nitrogênio e fósforo pelas fezes dos animais nos cursos d'água. Nos Estados Unidos, por exemplo, estima-se que 55% da erosão dos solos e das precipitações de sedimentos nos rios, sejam provocados pelo gado. Ajunte-se a isso ainda o fato de que 80% da produção mundial de soja, 70% da produção do milho e 70% da aveia sejam destinados à alimentação de animais, incluindo os bovinos. Especialistas informam que cerca de metade da produção mundial de grãos é destinada à criação de animais e que esta quantidade poderia alimentar outros dois bilhões de pessoas.
No Brasil, os maiores frigoríficos - JBS, Mafrig e Minerva - já tornaram públicos seus esforços para eliminar o desmatamento, o trabalho escravo e outros crimes socioambientais relacionados com a atividade. A iniciativa é importante e deve ser aliada a outros esforços do governo e da sociedade, como a implantação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), destinado ao controle dos imóveis rurais, e do Sistema de Identificação e Certificação de Bovinos Bubalinos (Sisbov), para a identificação de animais destinados à produção de carne.

Além destes esforços, também é necessário que a humanidade - ou sua parcela rica - avalie a real necessidade de tão grande consumo de carne e derivados, dado o imenso impacto ambiental que este tipo de atividade tem sobre os recursos naturais. Os países destinam tanta terra, água, insumos e energia para produção de carne, que cabe perguntar quem se beneficia deste tipo de atividade. As "externalidades negativas" são efetivamente compensadas por aqueles que ganham nesta cadeia produtiva e revertidas em benefício dos que vivem à sua margem - pequenos agricultores, comunidades pobres, indígenas, reservas florestais?
(Imagens: pinturas de Franz Marc)         

"O livre arbítrio" de Arthur Schopenhauer

terça-feira, 4 de agosto de 2015
"Os grandes sistemas, historicamente mobilizadores, entraram em falência. Depois do comunismo, é o capitalismo que passou a não mais produzir sentido e, mais que isso, valorizar o futuro. Este último não é mais definido como uma promessa, e sim como um perigo."  Jean-Claude Guillebaud  -  A vida viva - Contra as novas dominações

Schopenhauer começa sua obra com as definições para iniciar depois as discussões.
I Que se entende por liberdade
Schopenhauer considera o conceito de liberdade sob 3 aspectos: liberdade física, a liberdade intelectual e a liberdade moral.
1º A liberdade física consiste na ausência de qualquer obstáculo de ordem material. Dizem que os homens ou animais são livres, quando nenhum impedimento físico ou material constranja suas ações, podendo eles obedecer à própria vontade.
2º A liberdade intelectual está mais próxima da liberdade física que a liberdade moral
3º A liberdade moral, equivalente ao livre arbítrio: o livre arbítrio é a potência ou possibilidade de querer. No entanto o autor também coloca em discussão este ponto, perguntando “e podes também querer o que queres?” (pág. 34). Por fim chega ao conceito de que a liberdade é ausência de toda a necessidade.
Mas o que é necessidade? O autor define como necessidade a consequência de uma razão dada. Deste modo, o autor chega a definição de liberdade como aquilo que não é necessário sob relação alguma, o que independe de toda razão suficiente. Em termos humanos, isto indicaria uma vontade individual, que nas manifestações externas não é determinada por nenhum motivo nem razões de qualquer espécie. Caso contrário, a razão não seria mais livre, mas constrangida por necessidade. A vontade livre não é determinada por nada.
II Que se entende por consciência?
A consciência é a percepção do “eu” em oposição aos objetos exteriores. O objeto principal da consciência é a vontade – aqui entendida como relação com os objetos do mundo exterior.
A vontade diante da consciência
Schopenhauer pergunta o que é querer qualquer coisa? A volição é produzida pela consciência sob influência de algum objeto externo. O autor argumenta que a volição é livre, de modo que ele (autor) “pode agir conforme (sua) vontade”. Mas analisando o livre arbítrio, Schopenhauer diz que a questão é fazer as pessoas compreenderem que não se trata de entenderem as consequências de suas vontades (que, segundo uma análise superficial, “provariam” a liberdade da vontade), mas sim, as razões e as causas de sua volição ou vontades. (Aqui, Freud, que estudou Schopenhauer, deve ter encontrado uma base para desenvolver sua teoria do inconsciente).
A questão que Schopenhauer coloca é a “liberdade de vontade”. Existe esta liberdade? Podemos realmente “querer o que queremos”?
A resposta que o autor dá a estas questões é que “a vontade do homem não é outra senão o seu eu propriamente dito, o verdadeiro núcleo do seu ser: e é ela (a vontade) que constitui o próprio fundo da consciência, como uma espécie de substractum imutável e sempre presente, do qual não consegue libertar-se para proceder de forma diversa” (este raciocínio  também deve ter ajudado Freud a desenvolver sua teoria do inconsciente). Schopenhauer, em outra passagem, sintetiza este pensamento na seguinte frase: “Podes, em verdade, fazer o que queres; mas em cada determinado momento de tua existência não poder querer uma coisa precisa e uma só, com exclusão de qualquer outra” (pág. 59).

Vontade diante da percepção exterior

O princípio de causalidade nos é conhecido a priori, como regra geral a que estão submetidos todos os objetos reais do mundo exterior. Quando qualquer objeto sofre uma modificação, podemos corrigir-lhe as causas.

A lei da causalidade existe em 3 aspectos: 1) como causalidade em si, como se observa a natureza, nos processos físicos e químicos; 2) na forma de excitação, onde não existe uma proporção entre causa e efeito, ação e reação; e 3) a motivação, onde qualidades biológicas e não somente físico-químicas, também tem um papel preponderante.
As noções de causa e efeito aplicam-se, segundo Schopenhauer, ao mundo inanimado, regido pelas leis da física e da química e ao mundo animado, regido pelas regras da biologia e do pensamento. O autor faz uma análise da noção de causa e efeito no mundo animal, para por fim chegar às condições do mundo humano. Aqui, Schopenhauer pretende provar, mais uma vez, a conclusão anterior, ou seja: podemos fazer o que queremos, mas não podemos querer o que quisermos, já que estamos condicionados por uma série de condições sobre as quais não temos controle. O autor argumenta que o caráter do homem é invariável, permanece durante toda a sua vida. Cita exemplos de comportamentos que no desenrolar da vida não mudaram. Também argumenta que o caráter individual é inato, sendo “obra da natureza” (hereditário).
Ao longo do livro Schopenhauer cita vários exemplos e testemunhos que visam provar que o homem não tem controle sobre sua vontade, já que esta é obra da natureza e de condicionamentos havidos durante a vida do indivíduo.
Capítulo quarto – condução e consideração mais elevada.
Schopenhauer conclui dizendo que a liberdade não pode existir na ação, mas no ser e “é por meio do que fazemos que reconhecemos a nós mesmos e aquilo que somos (pág.122). Schopenhauer conclui que todo homem apenas faz o que deseja e, portanto, age sempre de modo necessário.
(Imagens: pinturas de Edward Munch)

Energia, gestão e crise energética

sábado, 1 de agosto de 2015
"Evidentemente você jamais cogitou de substituir o real pelo imaginário. Creio que não fiz qualquer confusão! Compreendo que a ordem do imaginário e a alta ordem do pensamento racional são diferentes. E também que o imaginário não seria redutível a termos racionais. Aí  está o nervo da questão."  -  Nise da Silveira  -  Cartas a Spinoza

No último dia 4 de julho de 2015 a energia elétrica ficou 17,31% mais cara para 6,7 milhões de clientes da AES Eletropaulo na região metropolitana de São Paulo. O aumento médio do custo da eletricidade durante o ano de 2015 já é de 75% e ainda são previstos outros acréscimos para o segundo semestre. De acordo com o governo, tais incrementos se devem à utilização das usinas termelétricas, operando com combustíveis fósseis em substituição às hidrelétricas, cujos reservatórios estão vazios.
A falta de chuvas é apenas parte da história da crise energética. Especialistas apontam outros fatores, de responsabilidade do governo, que tiveram um peso muito maior no agravamento da situação. Em recente artigo no jornal Valor, o engenheiro José Eduardo Moreira, diretor da Academia Nacional de Engenharia (ANE), aponta estes aspectos. Inicialmente, ressalta que o volume de chuvas não foi tão diminuto assim, de modo a justificar o uso tão intenso das termelétricas já em 2012. As chuvas alcançaram 90% de sua média histórica naquele ano e mantiveram o índice pluviométrico regular em 2013.
O que ocorreu, segundo o engenheiro, foi basicamente o não cumprimento dos Planos Decenais de Expansão da Geração e Transmissão, o que nos levou à situação atual. Alguns pontos listados pelo especialista apontam: 1) Atraso nas licitações de novas hidrelétricas; 2) Descompasso entre a instalação de geração hidrelétrica e eólica; 3) Pouco apoio à instalação de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs); 4) Falta de diretrizes ambientais e socioambientais para aprovação de empreendimentos de energia; 5) Tarifas baixas estabelecidas nos leilões de energia hidrelétrica, afugentando investidores; 6) Ausência de um programa para a eficiência energética; 7) Falta de incentivo à geração distribuída (pequenas unidades); e 8) Inexistência de leilões regionais para PCHs e energia eólica.
A crise energética também tem suas raízes históricas. Desde o começo da década de 1950 quando começou sua industrialização, quase toda eletricidade era de origem hidrelétrica. Todos os grandes projetos de barragens hidrelétricas datam do período 1960-1970, a exceção de Itaipu inaugurada em 1984, além dos mais recentes projetos na Amazônia. Nos anos 1970 a energia nuclear também entrou nos planos dos governos militares da época. O país construiu três usinas nucleares - a última ainda em fase de acabamento, depois de ficar suspensa por anos. O alto custo deste tipo de tecnologia, aliado à oposição de grupos de interesse e parte da sociedade civil em relação à energia nuclear, fez com que novos projetos fossem abandonados. No final dos anos 1990 surgiram os primeiros projetos de energia renovável, limitados às PCHs e à energia eólica. A geração de energia a partir da biomassa, apesar de já estar em uso em muitas usinas de açúcar, ainda não teve incentivos significativos para possibilitar a sua efetiva expansão. A energia solar fotovoltaica, até o momento ainda relativamente cara, recebeu incentivos fiscais e teve seu primeiro leilão de compra em 2014.
O país precisará cada vez mais de energia. Mesmo implantando um consistente programa de eficiência energética - o que até o momento ainda não aconteceu - o governo precisará ampliar, modernizar, diversificar e descentralizar a geração de eletricidade, sem aumentar as emissões de gases poluentes.
(Imagens: pinturas de August Macke) 

Heráclito e Parmênides

terça-feira, 28 de julho de 2015
"É preciso, contudo, avançar ainda mais na análise dos efeitos contrastantes - indissoluvelmente positivos e negativos - do incessante projeto de inovação: pois este não é apenas desestabilizador no plano econômico e social para toda uma parte da população, mas também possui, num plano filosófico e moral, uma particularidade temível; a saber, ele é, por natureza, desprovido de sentido."  Luc Ferry  -  A inovação destruidora

A oposição entre o pensamento de Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eléia é clássico na história da filosofia e marcou também o desenvolvimento da ciência. A mutação heraclitiana e a permanência parmenidiana, são paradigmas que influenciaram todo o pensamento ocidental e cuja solução muitos pensadores e intelectuais encontraram no pensamento oriental.
Quanto a questão da mutabilidade e imutabilidade do ser, básica na filosofia ocidental, a posição de Heráclito era que o ser está permanentemente em mutação; o ser é e logo depois já não é mais. É assim que ocorre na natureza: as estações, os ciclos de vida dos animais – tudo está em constante transformação. Processos físico-químicos e biológicos se sucedem e toda vida se transforma. Darwin já afirmava que não existem dois indivíduos de uma mesma espécie exatamente iguais, fato que no século XX foi confirmado pela genética. O acúmulo de diferenças vai propiciando o aparecimento de indivíduos cada vez mais diferentes de seu ancestral original. Assim a mutabilidade proporciona a transmutação (evolução) das espécies.  Esta constante mudança se aplica a toda a natureza; desde as partículas subatômicas, ao homem e deste às galáxias.
A principal idéia do pensamento de Heráclito está expresso no seguinte texto escrito pelo filósofo Plotino: “Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem substância mortal tocar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança dispersa e de novo reúne (ou melhor, nem mesmo de novo nem depois, mas ao mesmo tempo) compõe-se e desiste, aproxima-se e afasta-se”. Como tudo no universo heraclitiano está sempre em mutação, o filósofo alemão Hegel mais tarde argumentou que a essência deste processo é o tempo.  
Parmênides, por outro lado, afirma a imutabilidade; o Ser é e não-ser não pode não ser. O argumento principal do pensador é que não é possível pensar o não-ser, porque se o pensarmos, ele é. Daí argumenta que o pensar e o ser são o mesmo. Com estes argumentos, Parmênides conclui que admitindo que seja possível existir o não-ser, este seria a negação do ser, sua mudança, o que é impossível. Portanto, o ser é eterno e imutável. O mundo das aparências, onde ocorrem as mudanças, é somente uma concessão que Parmênides faz. Em seu pensamento não existe o mundo das mudanças, do não-ser. Parmênides abstrai seu pensamento daquele nível que nós chamamos realidade e coloca o Ser em uma outra esfera, classificando-o como uno, eterno e imutável. Parmênides foi o precursor da lógica, já que de suas idéias deduziram-se raciocínios como o princípio de identidade (o Ser é, cujo equivalente é A=A) e o princípio de não-contradição (o Ser é e não pode não ser, cujo equivalente é A=A e não pode ser A diferente de A).
(Imagens: gravuras de Frans Masereel)

Senso comum

sábado, 25 de julho de 2015
"Não acredite nos abraçadores de árvores que afirmam  que nossos ancestrais viveram em harmonia com a natureza. Muito antes da Revolução Industrial, o Homo sapiens já era o recordista, entre todos os organismos, em levar as espécies de plantas e animais mais importantes à extinção. Temos a honra duvidosa de ser a espécie mais mortífera dos anais da biologia."  -  Yuval Noah Harari  -  Uma breve história da humanidade
  
Senso comum, segundo Aristóteles é a capacidade geral de experimentar o mundo através dos diversos sentidos. Já para os escritores clássicos e filósofos latinos, esta expressão tem o significado de costume, gosto, modo comum de viver ou de falar (Abbagnano, 2007). Esta interpretação do termo "senso comum" é a que ainda utilizamos atualmente e como ocorreu durante quase toda a filosofia ocidental - pelo menos até o século XVIII, antes de Hume.  
O senso comum ou conhecimento vulgar, segundo a tradição filosófica, é a forma como interpretamos o mundo sem uma análise mais aprofundada; criteriosa. O senso comum se reflete, segundo esta tradição, na vida do dia a dia, nas opiniões, na maneira como culturas e povos encaram determinados temas. Sobre isto escreve o filósofo e educador John Dewey:
"Temos de reconhecer que a consciência ordinária do ser humano comum (...) é uma criatura de desejos e não de estudo intelectual, investigação e especulação. O ser humano vive em um mundo de sonhos antes que de fatos, e um mundo de sonhos organizado em torno de desejos, cujos sucesso ou frustração constitui sua própria essência." (Dewey apud Fontana, 2007).

Seguindo esta linha de raciocínio de Dewey é interessante comentar a comparação que se poderia fazer entre a cultura popular ou folclore e a cultura (dita) clássica. Como exemplo podemos comparar a cerâmica de Vitalino Pereira dos Santos, "mestre Vitalino" (1909-1963), e a de Pablo Picasso (1881-1973). A de mestre Vitalino, considerada popular, retrata a vida diária do sertão do Nordeste e de suas pequenas cidades: o padre no confessionário, os retirantes, cenas de caça, casamento, músicos, enterros, entre outros temas. A arte de Picasso, mais intelectualizada e abstrata, mostra figuras estilizadas de animais, rostos, cenas de touradas. A arte de mestre Vitalino é em grande parte baseada nos costumes, nas opiniões e nos hábitos da cultura da qual é representante. Picasso desenvolveu estilo próprio, produto de longos estudos e prática, sem necessariamente se limitar ao universo cultural do qual procede.    
A expressão utilizada por Dewey "criatura de desejos e não de estudo intelectual, investigação e especulação" mostra o quanto o conceito de senso comum e seus sinônimos como "conhecimento vulgar", "consciência ordinária" e outros, estão eivados de platonismo; de um pensamento metafísico. A própria tradição filosófica desde os gregos procura colocar o senso comum como um conhecimento superficial, imperfeito e obtuso sobre o mundo. A mesma diferenciação que muitos fazem entre a cultura popular e a (assim chamada) alta cultura. A alegoria do Mito da Caverna, apresentado por Platão n´A República reflete muito bem essa dissociação. O senso comum é representado pela visão dos homens acorrentados no fundo da caverna, vendo sombras projetadas; a visão real pertence aqueles que conseguem sair da prisão e enxergar a luz do sol e assim contemplar o mundo com mais clareza.
Esta visão real do mundo, obtida à luz do sol - ou seja, à luz do conhecimento - foi sempre uma característica do discurso filosófico. Desde a Antiguidade até o período moderno, quase todos os filósofos e sua filosofias declaravam que o verdadeiro conhecimento, além do senso comum, só seria possível através da análise do mundo pelas lentes da filosofia. Esta tendência foi ainda foi mais acentuada, a partir do século III e IV, quando a doutrina cristã passou a ser incorporada ao neoplatonismo para formar a metafísica cristã.
A filosofia moderna, a partir de Descartes (1596-1650) e de suas elaborações intelectuais n´O Discurso sobre o método solidifica ainda mais o antagonismo entre o conhecimento comum, o senso comum e o conhecimento filosófico e científico. O filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626), um dos precursores do método científico e da epistemologia, tem como objetivo tornar o pensamento mais claro e sistemático, eliminando ideias preconcebidas que classificou em "ídolos"; ídolo da tribo, ídolo da caverna, ídolo do mercado, ídolo do teatro. O filósofo e fundador dos modernos estudos de história, Giambattista Vico (1668-1744) escreve sobre o senso comum que:
O senso comum é o juízo sem reflexão, comumente sentido por toda uma ordem, todo um povo, toda uma nação, ou por todo o gênero humano. (Vico apud Cizotti, 2013).
Esta divisão entre o senso comum e o assim chamado verdadeiro conhecimento estende-se por toda a filosofia ocidental até praticamente os tempos atuais. Martin Heidegger (1889-1976) se refere à situação de inautenticidade do ser humano, quando este apoia suas opiniões e ideias naquilo que a massa anônima fala e pensa - Heidegger utiliza o termo homem, (Mann), com o artigo neutro "das" para realçar a falta de um sujeito definido. A opinião do "das Mann" é o senso comum; que não chega às raízes do pensamento e da verdadeira situação do homem, segundo o pensador alemão.
Na história da filosofia eram exceções as escolas filosóficas que valorizavam o senso comum. Entre estas correntes de pensamento estavam os: a) pensadores da linha empirista inglesa, já que o empirismo enfatiza o papel da experiência sensorial na formação de ideias; e b) os pensadores materialistas, que se antepunham a toda a visão idealista (metafísica). Dentre estes podemos destacar Karl Marx, que em sua em sua obra Teses sobre Feuerbach escreve em sua Segunda Tese:
”A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objetiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica." (Marx, 1982)
A filosofia sempre defendeu a dicotomia entre o senso comum e o verdadeiro pensamento (que para seus cultores era evidentemente a filosofia), porque se considerou a detentora da verdade, das opiniões e visões corretas sobre a realidade, sobre o mundo. No entanto, a partir da crise da metafísica iniciada por Hume e Kant, aprofundada por Nietzsche e definitivamente estabelecida pela filosofia pós-moderna, fica cada vez mais difícil falar de um "discurso verdadeiro" sobre a realidade, em contraposição a outros discursos "sem reflexão" como havia escrito Vico. O próprio discurso filosófico, segundo o pensador americano Richard Rorty (1931-2007), é um entre vários outros discursos e não tem a vantagem ou exclusividade da verdade - coisa que segundo Rorty não existe. A filosofia seria assim apenas um discurso que se utiliza de ferramentas específicas, não necessárias no dia a dia do senso comum, e tratando de temas específicos à sua área - sem que isto signifique que seja mais verdadeiro que outros.
A ciência do passado também dispunha de um discurso que estabelecia uma nítida divisão entre o senso comum do cidadão e os métodos de pesquisa cientista. O que, no entanto, efetivamente acontecia - segundo algumas interpretações - é que o homem da rua não persegue um objetivo específico em seu contato com o mundo, quando emite suas opiniões e vive seus costumes. Por outro lado, o pesquisador faz sua abordagem com métodos e objetivos predefinidos e coletando fatos vai fortalecendo sua hipótese científica, até que possa fundamentar sua teoria.
A questão entre o senso comum e o conhecimento filosófico ou científico pode ser considerada um falso dilema. Em última instância a origem do pensamento elaborado - seja a filosofia ou a ciência - está no próprio senso comum, criador dos costumes e das opiniões, mas também dos mitos, das religiões, da tecnologia e da moral. É a partir do contato com o mundo; da prática do dia a dia na caça, na coleta, na agricultura ou no pastoreio - como avaliam os empiristas e materialistas - que os humanos começaram a desenvolver sua cultura.
Então, através da interação entre ideias existentes e a realidade concreta desenvolveu-se cada vez mais o pensamento abstrato. Tudo, no entanto pela interação entre os organismos e o meio ambiente - como já vem acontecendo há 3,8 bilhões de anos.
Referências:
Abbagnano, Nicola. Dicionário de filosofia - verbete senso comum. São Paulo. Editora Martins Fontes: 2007, 1210 p.
A filosofia do senso comum. Disponível em <http://revistavilanova.com/a-filosofia-do-senso-comum/>. Acesso em 10/11/2013.
A filosofia da ciência de Rubem Alves. Disponível em: <http://ciberteologia.paulinas.org.br/ciberteologia/wp-content/uploads/2009/05/01afilosofiadacienciaderubemalves.pdf> Acesso em 8/11/2013.
Arte popular no Brasil: Mestre Vitalino. Disponível em: <http://artepopularbrasil.blogspot.com.br/2010/11/este-blog-sera-inaugurado-com-uma.html>. Acesso em 11/11/2013
Empirismo. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Empirismo>. Acesso em 11/11/2013
Teses sobre Feuerbach. Disponível em: <http://www.marxists.org/portugues/marx/1845/tesfeuer.htm>. Acesso em 11/11/2013.
(Imagens: xilogravuras de Ernst-Ludwig Kirchner)

"Cabeça bem feita", de Edgar Morin

terça-feira, 21 de julho de 2015
"Não mais fazer diferenças é então, em primeiro lugar, renunciar a atribuir a certas coisas um valor falso, medidas unicamente a partir da escala humana."  -  Pierre Hadot  -  Exercícios espirituais e filosofia antiga

Morin já pensava na necessidade da reforma do ensino há alguns anos. O livro "Cabeça bem feita", depois de vários obstáculos, resultou na proposta que visa despertar o autodidatismo e “criar uma cultura que permita compreender nossa condição e nos ajude a viver”.
Os desafios
Há uma fragmentação crescente das disciplinas, o que por outro lado nos impede de ver o global. A complexidade, a interdisciplinaridade, aumentam cada vez mais e a visão unidimensionalista nos incapacita a compreender os fatos. Este tipo de visão é resultado do nosso próprio sistema de ensino, que apresenta o mundo e os saberes de forma dissociada. Outro aspecto desta nova realidade é que o conhecimento cresce ininterruptamente, sendo cada vez mais difícil abarcá-lo. Existe uma grande dissociação entre as ciências humanas e as técnicas. Neste contexto, Morin coloca três desafios: 1) o desafio sociológico, que requer a integração da informação, do conhecimento e do pensamento; 2) o desafio cívico, representado pela democratização do saber; e 3) o desafio dos desafios, significando a reforma do ensino e do pensamento.
A cabeça bem feita
A frase é inspirada em Montaigne, filósofo francês que dizia que “vale mais uma cabeça bem feita, que uma cabeça bem cheia”. Morin ressalta a importância da curiosidade e da capacidade de colocar problemas; colocar as perguntas certas. Alguns aspectos que considera importantes para chegar a uma cabeça bem feita são, segundo o autor, os seguintes:
·Organização dos conhecimentos: contextualizar e globalizar conhecimentos é imperativo para a educação;
·Novo espírito científico: as ciências tratam de sistemas complexos, aumentando sua abrangência e fugindo do antigo reducionismo científico;
·Ecologia: seu estudo trata da interação de sistemas vivos e engloba múltiplas disciplinas;
·Ciências da Terra: contribuem com a ecologia e a geografia para estudar os fenômenos geológicos da Terra;
·Cosmologia: a estrutura e a evolução do Universo, aliado aos novos conhecimentos da física atômica;
·Os atrasos: a interação da biologia com outras ciências (genética, ecologia, antropologia, sociologia, etc.) para determinar a origem e a evolução da vida e dos humanos, particularmente.
A finalidade, pois, da cabeça bem feita, é a interação das culturas científicas e humanistas.
A condição humana
O estudo da condição humana não depende apenas das ciências humanas. Depende do conhecimento da cosmologia (origem do Universo) das ciências da Terra (origem da Terra) e da ecologia (a manutenção da vida). Segundo o autor, a contribuição do conhecimento humano pode ser dividido em:
·A contribuição das ciências humanas, que se encontram fragmentadas, dividindo-se em várias áreas do conhecimento (sociologia, economia, história), cada ciência com suas análises específicas;
·A contribuição da cultura das humanidades, onde Morin fala da contribuição da literatura, do cinema, da poesia, da escultura, enfim, de todas as artes em sua análise da condição humana.
Aprender a viver
Morin chama atenção para o fato de que a educação não é só acúmulo de conhecimentos, é incorporação de sapiência (sabedoria) para toda a vida.
A escola da vida e a compreensão humana
Neste capítulo Morin fala dos personagens da literatura, criados por Dostoievski, Shakespeare e Proust, referindo-se às sensações e sentimentos que estes personagens e estas histórias nos provocam, ensinando – principalmente os jovens – os valores da vida. Através desta compreensão, descobre-se os valores da vida, entendendo melhor a índole humana. Fato importante ressaltado pelo autor é o conhecimento constante de si mesmo, através de uma atitude reflexiva, característica dos escritos de Montaigne. Mais uma vez Morin ressalta a importância da filosofia na vida diária, estimulando a crítica e a autocrítica.
Enfrentar a incerteza
Morin informa que a maior certeza que nos foi dada é a destrutibilidade das certezas. A moderna física não nos pode mais transmitir certezas sobre o Universo e sua origem, assim como da vida, dado o modo aleatório como ocorrem a evolução da vida, findando na origem do homem. Vivemos em um Universo cercado de incertezas, tanto com relação as nossas sensações, quanto ao conhecimento.
A incerteza permeia a história humana; todos os impérios que pareciam eternos foram destruídos e fatos da história recente embaralharam nossas mais arraigadas convicções. “É preciso, portanto, prepararmo-nos para nosso mundo incerto e aguardar o inesperado” (pag.61). Todavia, em meio a todas estas incertezas é preciso estabelecer com estratégia a “fé incerta”, no sentido em que Pascal, Unamuno e Dostoievski a compreendiam.
Aprendizagem cidadã
O fato de alguém pertencer a uma nação deve significar que conhece os costumes e a cultura de seu povo. Todavia, o Estado-Nação, produto dos movimentos nacionalistas do século XIX, tende a desaparecer, basicamente em função do caráter supranacional dos problemas e de suas soluções. Trata-se de abolir o velho Estado-Nação e sua realidade mitológico-religiosa, com todas as suas idiossincrasias. Este movimento já está se tornando realidade, em função de um passado pan-europeu cultural e de problemas atuais que estão afetando todos os países da Europa e do mundo, como a destruição do meio ambiente, a transformação da economia mundial, etc. Os movimentos de cidadãos do mundo, como as ONGs, estão criando uma mentalidade cada vez mais voltada para o mundo e não para países específicos.
Os três graus
Com relação ao ensino, Morin começa sua análise com o nível primário. A “cabeça bem feita” deveria partir de interrogações que considerassem o ser humano em seus aspectos de origem cósmica, física e biológica; em seus problemas culturais. “É preciso aprender a conhecer, ou seja, a separar e unir, analisar e sintetizar, ao mesmo tempo”, escreve Morin. No curso secundário, a ênfase seria dada a um conhecimento mais baseado nas ciências humanas, não esquecendo, porém, de incorporar as tecno-ciências e suas implicações, notadamente a filosofia. A terceira etapa é a universidade, centro de excelência em conhecimento, livre de restrições políticas e religiosas e destinadas a transmitir o conhecimento secular acumulado. Uma das idéias de Morin é introduzir o que ele chama de “dízimo epistemológico ou transdisciplinar”, que incluiria um misto de matérias científicas e humanas (cerca de 10%) em todos os curriculae.

A reforma do pensamento
Morin chama a atenção para um tipo de pensamento cada vez mais preponderante hoje em dia, o pensamento sistêmico, onde o conhecimento das partes depende do conhecimento do todo e o conhecimento do todo depende do conhecimento das partes. Na ciência, duas revoluções científicas preparam a reforma do pensamento: a queda do dogma determinista de que existe uma unidade básica do universo e o ressurgimento das entidades globais, como o cosmos, a natureza e o homem. Dentro desta nova perspectiva de pensamento, Morin coloca sete diretrizes para os novos tempos:
1. Princípio sistêmico ou organizacional, que liga o conhecimento das partes e do todo;
2. O princípio hologrâmico, presente nas organizações complexas, onde não apenas a parte está no todo, como o todo na parte;
3. Princípio do circuito retroativo, característico dos sistemas autorreguladores: a causa age sobre o efeito e o efeito age sobre a causa;
4. Princípio do circuito recursivo, característica dos sistemas autoprodutores e auto-organizadores;
5. Princípio da anomalia/dependência: a dependência que o sistema tem do meio ambiente, de onde retira energia, informação e organização. Como exemplo, cita um corpo, cujas células se autoregeneram constantemente;
6. O princípio dialógico, que une dois princípios que deveriam excluir-se, mas são indissociáveis de uma mesma realidade.
7. O princípio da reintrodução do conhecimento em todo conhecimento, tratando da reincorporação de princípios já conhecidos em uso em novas ideias.
Para além das contradições
Neste capítulo Morin fala das diversas demandas da moderna educação: recursos, novos programas, novos sistemas, etc. Todavia, o grande impasse a que se chega é “que não se pode reformar mentes se não se reforma as instituições e vice-versa. Para iniciar este processo, é necessário redimir a missão de quem ensina, que seria preparar as pessoas para pensarem e reagirem aos novos desafios apresentados pelo mundo.
Inter-poli-transdisciplinaridade
A verdadeira solução de um problema não é tanto o resultado de um domínio do tema que traria a solução, mas principalmente um olhar novo sobre o problema. A partir deste ponto, Morin exemplifica várias maneiras de abordar problemas científicos e práticos, em diversas áreas.
A noção de sujeito
Morin discute a noção de sujeito no pensamento ocidental, principalmente durante as últimas décadas. Aborda também a noção do “eu” e a divisão do cérebro em três unidades, ou camadas, resquícios do nosso passado réptil, mamífero, acrescido dos elementos humanos. Morin acredita na possibilidade de um desenvolvimento da personalidade humana, integrando seus aspectos “animais” à cultura.(Imagens: pinturas de Andy Warhol)

Crise, mudanças e adaptação

sábado, 18 de julho de 2015
"Freud sabia perfeitamente que a maioria das pessoas se considera agentes independentes, que controlariam a própria vida, determinariam o destino, escolheriam a carreira e os parceiros: mas ele argumenta que embora finjamos ser os arquitetos de nossa existência, na verdade somos escravos de poderosos forças inconscientes que governam nossa mente e nosso comportamento."  -  Brett Kahr  -  Lições de vida: Freud

A história nos mostra que tempos de crise são tempos de mudanças. Os períodos de perturbação na economia e nas relações sociais representam uma ruptura com o passado, com uma situação existente, indicando que a forma como a sociedade vinha se organizando já não funciona mais. As consequências de tais condições podem ser as crises e as reformas econômicas, os conflitos e o aparecimento de novos grupos sociais e o surgimento de novas ideias no âmbito da cultura. Assim, para que os indivíduos, grupos sociais e sociedades possam continuar existindo, é necessário que se adaptem às mudanças com a criação de novas estruturas econômicas e sociais.
A adaptação às alterações se desenvolveu com a própria vida, desde sua origem. O desenvolvimento das espécies, processo do qual nós, seres humanos, também fazemos parte, ocorre porque linhagens ou grupos de indivíduos foram submetidos a algum tipo de perturbação. Terremotos, secas prolongadas, doenças e alterações genéticas, provocaram o desaparecimento da maior parte dos membros do grupo, sobrando apenas aqueles indivíduos que, por alguma razão, tiveram capacidade inata de se adaptar às novas condições ambientais. Toda a vida existente na Terra é resultado deste processo. Somos todos, das bactérias às palmeiras e dos besouros às baleias, descendentes de indivíduos que passaram por crises de todo tipo e que sobreviveram para contar a história. A ciência nos diz que 98% das espécies dos cinco reinos atualmente existentes (plantas, fungos, animais, protista e monera) estão extintos.
As sociedades humanas, diferentemente das outras espécies, podem acumular conhecimentos sobre como reagir às crises. A cultura - incluindo ai todo conhecimento científico e tecnológico acumulado ao longo de toda história do homo sapiens - é o instrumento que nos coloca em vantagem sobre os demais seres vivos. Não dependemos somente de uma possível capacidade de adaptação de alguns indivíduos de nossa espécie, produto de mutações genéticas, e o que significaria a morte para o restante da espécie. Temos meios de mudar o nosso meio ambiente - através do fogo, dos instrumentos de caça, da agricultura, das máquinas, dos abrigos e dos remédios - possibilitando que a maioria dos indivíduos de nossa espécie sobreviva às intempéries, cataclismos e doenças.
Esta capacidade dos humanos em sempre tirar proveito do meio ambiente, sobrevivendo aos períodos glaciais, às explosões vulcânicas e abandonando regiões áridas, pode ter um fim. Com a tecnologia usada na atividade econômica, para nossa sobrevivência, estamos indo longe demais na alteração do meio ambiente. A tecnologia, empregada de uma maneira desastrada - superexploração dos recursos hídricos, dos solos, dos mares - está diminuindo as chances da humanidade persistir como espécie, pelo menos aqui no planeta Terra, se não implantarmos mudanças para sairmos da crise.
A história da humanidade, escrita por cientistas de uma civilização do futuro, seria emocionante e irônica ao mesmo tempo. Falaria sobre a única espécie deste planeta capaz de criar suas próprias condições de adaptação, sobrepondo-se à natureza. Em certo ponto de sua história, no entanto, as forças da natureza despertadas pelas atividades humanas teriam sido poderosas demais, e acabaram destruindo o homem.
(Imagens: fotografias de Ikko Narahara) 

Descarbonização da economia

sábado, 11 de julho de 2015
"O Brasil é uma fidelidade a si mesmo enorme. Muda para não mudar. É metade corrupção, metade incompetência."  -  Evaldo Cabral de Melo em entrevista ao caderno EU&Fim de Semana do jornal Valor. 

Em todo o planeta é possível ver os primeiros efeitos do fenômeno das Mudanças Climáticas. Dentre estes, os que mais chamam a atenção por seu impacto e efeito prolongado, são as secas. Estas estão afetando várias regiões do mundo, de uma forma mais acentuada do que vinha ocorrendo no passado. Exemplo disso é a estiagem que ocorre na região Sudeste do Brasil. Apesar de cíclica, ocorrendo aproximadamente a cada 20 a 30 anos, na atual temporada está mais prolongada e severa. A deficiência na gestão da crise hídrica por parte de governos, contribui para tornar o problema ainda maior.
A médio e longo prazos as Mudanças Climáticas deverão ocasionar várias outras dificuldades ao planeta, como resultado dos fenômenos climáticos intensos. As economias de países situados em zona intertropical, como o Brasil, terão maiores chances de serem afetadas. Produção agrícola, geração de eletricidade, transportes, abastecimento de água, atividade industrial, serão alguns dos setores afetados.
Para tentar minorar a força destes eventos climáticos, nações já planejam ações para reduzir as emissões de dióxido de carbono e outros gases causadores do efeito estufa, apontados pela ciência como a origem das mudanças do clima. Em recente reunião, o grupo dos G-7 (EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá) decidiu descarbonizar as economias de seus países ao longo deste século, para manter o aquecimento da atmosfera abaixo do 2 ºC. Para isso, o G-7 decidiu acabar gradualmente com a dependência dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural).
No mundo industrializado 80% da energia é gerada através dos combustíveis fósseis. O plano que aos pouco se delineia, prevê a substituições dessas matrizes poluentes por tecnologias mais eficientes e outras não poluentes. Reduzir as necessidade de aquecimento, ventilação e refrigeração; produção de eletricidade a partir do sol, da água, do vento, do hidrogênio e da biomassa; melhorar a qualidade dos combustíveis, são algumas das estratégias previstas. O processo de descarbonização, já sabe o G-7, será longo e complexo, exigindo reformulações periódicas acompanhando o desenvolvimento tecnológico. O manifesto do grupo convida "todos os países a aliarem-se a nós neste esforço".
O Brasil pertence ao grupo dos 15 países (África do Sul, Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coréia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Japão, México, Reino Unido e Rússia) responsáveis por cerca de 70% das emissões de gases no planeta. Todos certamente serão pressionados, de forma a darem sua contribuição na descarbonização da atmosfera.
Para cumprir com sua parte, o Brasil precisará reduzir, até eliminar, o desmatamento na Amazônia. A agricultura e pecuária também terão que dar sua contribuição, como na cultura do arroz e no manejo de resíduos. Outras providência devem incluir: forte apoio às energias renováveis e à volta das termelétricas para geração de reserva; a implantação de medidas de eficiência energética na indústria e na construção; implantação da política de resíduos urbanos; a recuperação da produção do etanol veicular e a melhora do rendimento dos automóveis a gasolina, entre outras. O país tem um potencial de redução de emissões muito grande. Para aproveitá-lo, é preciso planejamento, coordenação e cobrança de resultados; aptidões atualmente escassas no governo.
(Imagens: fotografias de  Humphrey Spender)