Hortas comunitárias

sábado, 25 de fevereiro de 2017
"Ao renunciar à sociedade e à fortuna, encontrei a felicidade, a calma, a saúde, até mesmo a riqueza; e a despeito do provérbio, percebo que aquele que abandona a partida é o que acaba ganhando-a."  -  Chamfort  -  Máximas e pensamentos


A agricultura surgiu com as hortas comunitárias. Desde o período Neolítico, há 12 ou 10 mil anos, a agricultura vem sendo praticada por pequenos grupos humanos; famílias, vizinhos, que se juntavam para o plantio e a colheita. A agricultura em larga escala, na qual um dono (geralmente o Estado, os sacerdotes ou o rei) controlava grandes extensões de terra, surgiu quando se formaram agrupamentos humanos mais populosos. Foi nas grandes extensões de terras aráveis pertencentes à zona de influência das primeiras cidades-Estado da Suméria (região onde hoje é o Iraque e a Síria), do impérios egípcio, da região de Mohenjo-Daro na Índia e no vale do rio Amarelo (Huang He), que a agricultura em larga escala começou a ser praticada.
Muito provavelmente, no entanto, as hortas comunitárias continuaram a subsistir em áreas às vezes concedidas aos agricultores sem terra, para que plantassem produtos para consumo próprio. Este tipo de agricultura também contribuiu para a conservação da diversidade das espécies de plantas, pois certos tipos de grãos e sementes eram desconhecidos ou não eram utilizados pelos grandes agricultores. Por toda a história até os tempos modernos, as hortas comunitárias atenderam parte das necessidades alimentares das populações mais pobres, que dispunham de pouca ou nenhuma terra para plantio.

A industrialização, que ao longo dos últimos duzentos anos provocou a migração de milhões de pessoas do campo para as cidades, foi um dos fatores da disseminação da agricultura comunitária urbana, as hortas urbanas. Premidos pelos altos preços dos alimentos nas épocas de crises econômicas que se sucederam ao longo deste período, os novos moradores das cidades trouxeram consigo alguns dos conhecimentos do campo. No Brasil é significativo que as hortas comunitária começaram a surgir a partir dos anos 1980, associadas aos movimentos de luta pela moradia, movimentos de bairros e outros tipos de ações comunitárias.
Associadas aos movimentos populares da periferia das grandes cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, as hortas comunitárias acabaram sendo adotadas também pelos movimentos alternativos e por grupos de classe média - estes morando em bairros centrais mais ricos. Por não necessitar de técnicas de difícil aprendizado e utilizar insumos e ferramentas de custo relativamente baixo, as hortas urbanas tornaram-se uma solução para diversos problemas sociais e de infraestrutura. Muitas comunidades de agricultores urbanos eliminaram transtornos com terrenos baldios, cheios de lixo ou entulho, que eram focos de ratos e insetos e frequentados por desocupados. A horta se transformou em local de encontro de vizinhos, espaço para reuniões e até festas. As plantas e as árvores frutíferas trouxeram de volta várias espécies de pássaros e outros animais, que em vista da falta de áreas verdes haviam abandonado certos bairros das cidades.
Em bairros da periferia, as hortas urbanas voltaram a dar uma nova oportunidade de vida para jovens envolvidos com as drogas e a criminalidade. Em São Paulo e em São Francisco, nos Estados Unidos, a participação nesta atividade está criando um vínculo entre os jovens e suas famílias, mantendo-os afastados das atividades ilícitas. Na cidade de Nova York, por exemplo, existem cerca de 900 hortas comunitárias.
A preocupação com a origem da comida é outro fator de desenvolvimento deste tipo de agricultura, já que a maior parte é feita em bases orgânicas, sem adição de produtos químicos. Um shopping center de São Paulo mantêm uma horta orgânica no telhado de seu prédio, cuidada pelos funcionários do estabelecimento. A adubação da terra é feita com resíduos orgânicos compostados, gerados pelo próprio centro de compras e o resultado do plantio é entregue aos funcionários que participam da iniciativa.    
Atualmente, parte considerável da população urbana dos países pobres e em desenvolvimento pratica a agricultura comunitária urbana. As últimas estatísticas datadas de 2008, davam como 800 milhões o número de agricultores urbanos espalhados por todo o planeta. No Brasil ainda não existem estatísticas mais exatas sobre estes números, o dificulta a implantação de políticas de incentivo mais amplas. O último projeto desenvolvido para este setor foi o Programa Nacional de Agricultura Urbana e Periurbana, ligado ao Programa Fome Zero, que no governo Temer não recebeu mais incentivos.
Por suas vantagens em diversas áreas - combate à fome, geração adicional de renda, combate ao crime, fortalecimento da vida social e cultural das comunidades -, além dos aspectos ambientais e de saneamento, as hortas comunitárias precisam ser incentivadas. É importante que cidades iniciem ou retomem antigos programas de disponibilização de áreas para plantio, sementes, ferramentas e treinamento. O contato com a terra e as plantas faz parte da constituição primitiva do homem.
(Imagens: pinturas de Erich Fraaβ)

Eric Hoffer, "filósofo-estivador"

sábado, 18 de fevereiro de 2017
"Meus textos são feitos nos pátios das ferrovias, enquanto espero um comboio, nos campos, enquanto espero por um caminhão, e à noite, depois da janta. Cidades são muito distrativas." Eric Hoffer, filósofo

As chances de ascensão econômica e social através do trabalho são mais acentuas em economias em crescimento. Nestas sociedades é comum que indivíduos ultrapassem as condições em que nasceram e através do esforço individual se transformem em grandes empresários, políticos e intelectuais. Esta era a situação da sociedade norte-americana entre o final do século XIX e grande parte do século XX. As estruturas sociais ainda não estavam estabelecidas, e o fato de não haver uma elite econômica e intelectual preponderante, permitia uma mobilidade social como poucas sociedades tiveram ao longo da história. 

Foi neste período da história dos Estados Unidos que nasceu Eric Hoffer, na cidade de Nova York, bairro do Bronx, em 1902. Filho de um casal de emigrantes alemães da Alsácia, Elsa e Knut Hoffer, Eric aprendeu a falar e ler inglês e alemão ainda pequeno. Aos cinco anos, caiu do colo da mãe em uma escada e ficou com a cicatriz da lesão na cabeça para o resto da vida. Aos sete anos, falece sua mãe, o que fez com que o menino entrasse em choque, perdendo a memória e a visão, para somente recuperá-la aos quinze anos.Durante esse período tinha pouco contato com o pai, que exercia a profissão de carpinteiro. Foi cuidado por uma amiga dos pais, Martha Bauer, também alemã, de quem Eric guardou boas recordações. Ainda cego, quando ficava entediado, Eric passava o tempo arrumando na estande os poucos livros do pai.

Assim que recuperou a visão, Hoffer passou a ler com voracidade, com medo de voltar a perder a visão. Nunca chegou a frequentar uma escola ou a aprender uma profissão, vivendo apenas de biscates e lendo tudo que era possível comprar nos sebos ou emprestar nas bibliotecas públicas de seu bairro. Quando tinha 19 anos, morre seu pai. O sindicato dos carpinteiros pagou pelo enterro  e deu-lhe a título de seguro um cheque de 300 dólares, com o qual comprou uma passagem de ônibus para Los Angeles. Lá se estabeleceu no bairro central de Skid Row, frequentado por vagabundos, marginais e trabalhadores pobres. Viveu em Los Angeles por dez anos, mantendo-se através de empregos baratos, sem abandonar seu entusiasmo pela leitura.

Em 1931 Hoffer pensou em suicídio, mas mudou de ideia e começou um longo período de viagens através de várias regiões, trabalhando principalmente nas colheitas da Califórnia. Algumas vezes também tentou a vida como garimpeiro de ouro. Durante estes anos fixava-se em pequenas cidades, morando em locais perto das bibliotecas municipais, para poder emprestar livros. Em um inverno no início dos anos 1940, Eric adquiriu em um sebo de São Francisco um exemplar dos Ensaios do filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592). A obra o impressionou de tal maneira, que permaneceu uma influência por toda a sua vida.

Nesse período Eric começa a escrever algumas novelas e tenta alistar-se como soldado, para lutar na Segunda Guerra. Impedido por uma hérnia, Hoffer começou a trabalhar como estivador nas docas do porto de São Francisco. Permaneceu nesse trabalho por longos anos, vindo a aposentar-se em 1964. Durante o período que trabalhou nas docas, Hoffer começou a escrever as obras que o tornariam famoso. Passou a interessar-se pelos problemas dos imigrantes, dos trabalhadores migrantes, dos deficientes e de todos aqueles que não tinham achado "um lugar ao sol" na sociedade americana.

Seu livro mais famoso, lançado em 1951 chama-se The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements ( Do Fanatismo: O Verdadeiro Crente e a Natureza dos Movimentos de Massa, edição portuguesa esgotada - sem edição no Brasil). Neste livro Hoffer discute a origem dos governos totalitários de sua época. A publicação é considerada uma das 100 mais influentes obras do século XX. Depois deste livros Hoffer escreve uma série de ensaios acadêmicos discutindo a intervenção americana na Ásia durante a 2ª Guerra Mundial, a Guerra da Coréia e a Guerra do Vietnã. Em sua opinião, o governo americano deveria diminuir sua ingerência nos países de todo o mundo. Ao longo de sua carreira, depois de The True Believer, Hoffer publicou as seguintes obras (todas inéditas no Brasil):

1955 The Passionate State of Mind, and Other Aphorisms

1963 The Ordeal of Change

1967 The Temper of Our Time

1968 Nature and The City

1969 Working and Thinking on the Waterfront: A Journal, June 1958 to May 1959

1971 First Things, Last Things

1973 Reflections on the Human Condition 

1976 In Our Time

1979 Before the Sabbath

1982 Between the Devil and the Dragon: The Best Essays and Aphorisms of Eric Hoffer 

1983 Truth Imagined 

Hoffer passou longos anos entre a carreira acadêmica, como pesquisador tratando de temas políticos e sociais da sociedade americana, e como estivador. Hoffer efetivamente passava certos dias da semana na Universidade da Califórnia e outros trabalhando nos escritórios das docas do porto de São Francisco. Em 1971 o filósofo recebeu o título Doutor Honoris Causa da Faculdade Stonehill e em 1983 a Medalha Presidencial da Liberdade, do presidente Ronald Reagan.

Sempre voltado às suas origens na classe trabalhadora, Hoffer, quando chamado de intelectual, dizia ser apenas um estivador. Por isso, muitos autores o designavam como "o filósofo-estivador". Tendo exercido grande influência no meio acadêmico e nos nascentes movimentos sociais, Hoffer faleceu em sua casa, em São Francisco, em 1983 aos 84 anos.

Abaixo apresentamos algumas citações do filósofo, extraídas de diversas publicações:

"Pessoas que ferem a mão que os alimenta, usualmente lambem as botas de quem os chuta." (Reflections on the Human Condition)

"Quando as pessoas estão livres para fazer o que gostam, geralmente imitam as outras." (Reflections on the Human Condition)

"A melhor educação não imunizará uma pessoa contra a corrupção do poder. A melhor educação não fará, automaticamente, as pessoas mais compassivas. Nós sabemos disso mais claramente do que qualquer geração precedente. Em nosso tempo, existe a sociedade melhor educada, situada no coração da mais civilizada parte do mundo, dando nascimento ao mais assassino e vingativo governo da história." (Before the Sabbath)

"A natureza não tem compaixão...[Ela] não aceita desculpas e a única punição que conhece é a morte." (Reflections on the Human Condition)

"Marx nunca trabalhou um dia de sua vida e sabia tanto sobre o proletariado quanto eu sei sobre coristas." (Before the Sabbath)

"Uma cabeça vazia não é realmente vazia; está entulhada de lixo. Por isso a dificuldade em empurrar algo para dentro de uma cabeça vazia." (Reflections on the Human Condition)

"O século dezenove semeou as palavras que o século vinte colheu nas atrocidades de Stalin e Hitler. Dificilmente há uma atrocidade cometida no século vinte, que não tenha sido prenunciada ou mesmo defendida nas palavras de alguns homens nobres do século dezenove." (Reflections on the Human Condition)

"A proporção entre o pessoal de supervisão e o de produção é sempre alta onde intelectuais estão no poder. Em países comunistas, é necessária uma parte da população para supervisionar a outra." (The Temper of our time)

"Orgulho é um senso de valor derivado de algo que não é organicamente parte de nós, enquanto que a autoestima deriva de nossas potencialidades e de nossos ganhos. Somos orgulhosos quando nos identificamos com um eu imaginário, um líder, uma causa sagrada, um corpo coletivo ou bens materiais. Há um medo e uma intolerância no orgulho; é sensível e intransigente. Quanto menos promessa e potencia na pessoa, mais imperativa é a necessidade de orgulho. O âmago do orgulho é a autorejeição. É verdade que quando o orgulho libera energias e atua como um incentivo para a realização, pode levar a uma reconciliação entre o eu e a conquista de uma autoestima genuína." (The Passionate State of Mind)

"Para algumas pessoas a solidão não é uma fuga dos outros mas delas mesmas. Isto porque, veem nos olhos dos outros apenas um reflexo delas mesmas." (The Passionate State of Mind)

"Mentimos mais alto quando mentimos para nós mesmos." (The Passionate State of Mind)

"Como é mais fácil o autosacrifício do que a autorealização." (Reflections on The Human Condition)

"Agressividade é a imitação da força, feita pelo homem fraco." (The Passionate State of Mind)

"Não conformistas andam geralmente em bandos. Você raramente vai achar um não conformista andando sozinho. E ai daquele que dentro de um bando de não conformistas, não se conformar à não conformidade." (Reflections on the Human Condition)

"Homens livres sabem da imperfeição inerente aos assuntos humanos, e estão preparados para lutar e morrer pelo que não é perfeito. Eles sabem que problemas humanos básicos podem não ter uma solução final, que nossa liberdade, justiça, equidade, etc, estão longe do absoluto e que a boa vida é composta por meias medidas, compromissos, males menores e tentativas em direção ao perfeito. A rejeição de aproximações e a insistência em absolutos, são a manifestação de um niilismo que rejeita a liberdade, a tolerância e a equidade." (The Temper of Our Time)

Fonte das citações:
http://erichoffer.blogspot.com.br/ e https://www.brainyquote.com/quotes/authors/e/eric_hoffer.html

Para aqueles interessados nos escritos de Eric Hoffer é possível fazer o download da obra The True Believer (texto em inglês) através do link abaixo:
http://evelynbrooks.com/wp-content/uploads/2011/10/The_True_Believer_-_Eric_Hoffer.pdf

Texto e traduções: Ricardo E. Rose
(Imagem: fotografia de Eric Hoffer)

Banheiro público, pra quê?

sábado, 11 de fevereiro de 2017
"Comer é humano, mas digerir é divino." -  Mark Twain

Já notaram que as estradas brasileiras não possuem banheiros públicos? Em quase todos os países, principalmente os que procuram se colocar naquela categoria que se convencionou chamar de "civilizado", as autoestradas possuem banheiros públicos. Mas não é aquele banheiro do restaurante de estrada "que oferece este serviço adicional ao cliente". Do tipo "vou fazer um lanchinho e aproveitar pra tirar uma água do joelho". Não, é banheiro mesmo, mantido pelo órgão público ou concessionária privada que administra a estrada. E é banheiro limpo, podendo ser usado por toda a família - mulheres e crianças inclusive -, com papel higiênico e de mão à vontade. Melhor do que muito banheiro de shopping center por aqui. Às vezes o usuário paga um pequeno valor para ajudar na manutenção do serviço e inibir a entrada de arruaceiros.
Presumo que tais instalações sanitárias sejam caríssimas, daí a dificuldade da maioria dos países em construí-las e fazerem parte do mundo civilizado (aquela história de não cuspir no chão, lavar as mãos regularmente, saber comer com garfo e faca, "Obrigado", "Bom dia", "Com licença", etc.). Os custos dos banheiros públicos devem ser altos, o que torna impossível incluir a construção destes luxuosos estabelecimentos nos projetos das nossas rodovias. Se as concessionárias fossem forçadas por alguma draconiana lei a construírem banheiros ao longo de suas estradas, com certeza teriam que aumentar em muito a taxa de pedágio. No caso das rodovias administradas pelos governos, a construção de banheiros é fora de questão; só se fosse aprovado mais um imposto.
Outro aspecto a ser considerado é se tais instalações seriam realmente necessárias. Afinal, com tantos restaurantes, churrascarias, lanchonetes, ranchos da pamonha ao longo das nossas estradas, quem faria uso do sanitário público? Não dando para esperar o próximo restaurante daquela famosa rede a apenas 35 quilômetros, sempre existe a opção do matagal. As vezes não há nem necessidade de uma cobertura vegetal; é só encostar no carro e se aliviar! À parte o deplorável espetáculo para os outros viajantes que transitam pelo local no exato momento do ato, nada demais que a cultura popular não possa assimilar. Quem passa apertos são as mulheres. Estas têm que realmente dar um jeito e esperar chegar o restaurante, que agora está a apenas 15 minutos, à frente.

Melhor assim. Pra que banheiro público? Afinal, são poucos os dias do ano em que algumas de nossas estradas estão tão apinhadas de carros, que uma viagem de 100 ou 150 quilômetros pode levar 5, 6, 8 horas! Nestas datas fatídicas - véspera do Ano Novo, Carnaval, Páscoa e alguns feriados - dá se um jeito. Afinal, não somos o país do improviso e da adaptação? É como disse aquele político ligado a famosas empreiteiras: "Banheiro público é coisa de país rico. Nós temos imensos e quase inexplorados acostamentos!" Segurança em primeiro lugar! O importante é que a estrada seja boa pra que meu carro - lavado, polido e com rodas especiais - tenha uma estrada boa e segura pra transitar!
(Imagens: fotos de banheiros públicos na antiga Roma)

Comentando Marilena Chauí e Edmund Husserl

sábado, 4 de fevereiro de 2017
"Quot homines, tot sententiae (Quantos são os homens, tantas são as sentenças) Terêncio (195-159 a.C.)

A afirmação de Marilena Chauí em Convite à Filosofia é a seguinte: [...] “não há 'coisa em si' incognoscível. Tudo o que existe é fenômeno e só existem fenômenos. Fenômeno é a presença real de coisas reais diante da consciência; é aquilo que se apresenta diretamente, 'em pessoa', em 'carne e osso', à consciência”.
A fenomenologia parte do pressuposto da realidade e da verdade dos fenômenos, das coisas que “aparecem”, dos dados que se nos apresentam à consciência. Não se trata, como na filosofia kantiana, de que as coisas estão só na mente, na percepção e que além desta percepção se estende o misterioso mundo da “coisa-em-si”. Todavia, de Kant Husserl ainda conserva a afirmação de que não conhecemos uma realidade em si mesma, mas a realidade estruturada a priori pela razão. Esta realidade que captamos pela razão é a essência dos fenômenos, o “eidos”. Husserl afirma que a filosofia é eidética, pois apreende a essência dos fenômenos. 
Para Husserl a fenomenologia (diferente da psicologia que é uma ciência dos fatos) é a ciência das essências. A fenomenologia utiliza-se da redução eidética, através da qual expurga os fenômenos psicológicos de suas características reais ou empíricas, levando-os ao plano da generalidade essencial, transformando-os em essências, em universais.
Para conhecer as essências, os universais, segundo Husserl, partimos de uma intuição das essências. Assim, redução eidética e o processo de intuir para conhecer as essências dos fenômenos, é a mesma coisa.
Todavia, para que possamos conhecer a essência do fenômeno, é preciso utilizar-se da epoché, que é um movimento mental de “colocar entre parênteses” as próprias convicções filosóficas, científicas e nosso senso comum. Suspendendo todo tipo de juízo sobre as coisas e olhando-as em sua essência, alcançamos a consciência daquilo que é absolutamente evidente (fico pensando se Hume teria a mesma opinião sobre estas “ginásticas mentais” e se Husserl alguma vez efetivamente atingiu o estado de “ver a essência do fenômeno”).
Como corolário desta investigação, Husserl chega à conclusão de que o movimento da consciência é intencional, já que toda a consciência é consciência de alguma coisa. Isto quer dizer que todo pensamento tem sempre um objeto. Por toda esta atividade que exerce, Husserl afirma que a consciência é “doadora de sentido”, já que as essências nada mais são do que significações produzidas pela consciência, tendo como matéria prima os fenômenos (por que será que sinto um cheiro forte de kantismo aqui?). A realidade adquire sentido através da ação da consciência.

A consequência do pensamento fenomenológico em relação à metafísica é que esta deixa de existir como algo além do sujeito, para tornar-se algo que o sujeito, através do pensamento, transmite à realidade – cujo sentido, aliás, é dado pelo próprio sujeito.
Bibliografia:
ABBAGNANNO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo. Martins Fontes: 2007, 1.210 p.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosoia. São Paulo. Editora Atica: 2010, 424 p.
CRESPO, Luís F.; COLOMBINI, Elaine A. M. Filosofia Geral: Problemas metafísicos II. Batatais. CEUCLAR: 2007, 37p.
SOKOLOWSKI, Robert. Introdução à fenomenologia. São Paulo. Edições Loyola: 2004, 247 
(Imagens: fotografias de José Medeiros)

Os raios e o meio ambiente

sábado, 28 de janeiro de 2017
"O universo é infinito. Pois aquilo que é limitado possui um extremo, mas um extremo só pode ser percebido comparando-o com algo diferente. (Ao lado do universo, porém, nada é perceptível.) Já que o universo não possui limite, e já que não possui limite, deverá ser limitado e infinito."  Epicuro  -  Carta a Heródoto

O aumento médio da temperatura da Terra nos últimos anos está trazendo verões mais quentes, com trovoadas mais fortes e maior número de relâmpagos. Segundo o Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat), ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), morrem no Brasil cerca de 120 pessoas anualmente devido às descargas de raios. A tendência é que quanto mais alta a temperatura, maior a incidência destas descargas elétricas. Devido à sua localização geográfica e extensão territorial, o Brasil é o país no mundo com maior incidência destes fenômenos atmosféricos.
Os raios são gigantescas faíscas de eletricidade estática, geradas durante uma tempestade. A eletricidade forma-se dentro de nuvens do tipo cumulonimbus, que alcançam 18 quilômetros de altitude, onde as temperaturas estão em torno dos 60ºC negativos. As faíscas elétricas ocorrem dentro de uma mesma nuvem, entre duas nuvens e entre uma nuvem e o solo. Como e porque se formam estas imensas descargas, ainda não está completamente explicado pela ciência. O ar em torno de um relâmpago chega a 30.000 graus Celsius (a temperatura da superfície do Sol é de 6.000ºC) e estas partículas aquecidas da atmosfera são chamadas de plasma, emitindo a luz característica da faísca. A tensão contida num raio chega a 100 milhões de volts, com uma intensidade de 30 mil ampères (cerca de mil vezes a intensidade de um chuveiro de banho).
Segundo a revista Super Interessante, cerca de 3,15 bilhões de raios caem sobre a Terra por ano. As regiões de sua maior incidência são a África Central (Congo e Ruanda) e a região do Lago Macaraibo, na Venezuela. O Brasil recebe descargas anuais de cerca de 100 milhões de raios, em sua maior parte na região Sudeste, nos estados de São Paulo e Minas Gerais.
Os raios sempre tiveram um papel importante na história da vida na Terra. Segundo os cientistas, nos primórdios do planeta há 3,8 bilhões de anos, as descargas elétricas tiveram um importante papel na formação de aminoácidos – moléculas básicas para a vida – catalisando reações químicas entre substâncias como amônia, metano e hidrogênio. Ao longo da evolução da vida, os relâmpagos sempre estiveram presentes nas tempestades, produzindo óxido de nitrogênio (NOx), que reagindo com a luz do Sol e outros gases da atmosfera gera o gás ozônio. Este, próximo ao solo, pode afetar a saúde de todos os seres vivos; plantas, animais e o homem. Nas partes mais elevadas da atmosfera, na troposfera com altura de até 12 km, o ozônio é causador do efeito estufa. Na estratosfera, entre 12 e 50 quilômetros, o ozônio passa a atuar como bloqueador da radiação solar ultravioleta, causadora do câncer de pele.

Pesquisas recentes, ainda em andamento, parecem indicar que o volume de geração de óxido de nitrogênio (NOx) através dos relâmpagos é bem maior do que era estimado até o momento. Especulam os cientistas que maior quantidade de NOx na troposfera deva acelerar o efeito estufa, aquecendo ainda mais a atmosfera. Esta aquecida, aumentam as trovoadas e os raios, que por sua vez elevam os volumes de NOx. Até o momento, dada a extrema complexidade dos fenômenos atmosféricos e dos ainda incalculáveis fatores que podem influenciar e retroalimentar este processo, não há uma explicação clara sobre seu funcionamento. Enquanto continuam pesquisando, convêm continuar a tomar cuidado com os raios.
(Imagens: fotografias de humoristas americanos - Gordo e Magro e Três Patetas)

Newsletter janeiro/fevereiro 2017

sábado, 21 de janeiro de 2017

(originalmente publicado no site www.ricardorose.com.br)

No final de 2016, perto da chegada do Ano Novo, encontrávamos pessoas desejando um Feliz 2018. Seguindo a sequência de tempos ruins que teve início em final de 2014, parece que 2017 não trará grandes novidades, em nenhum aspecto.
No plano econômico não são esperadas surpresas. A inflação está caindo desde o final de 2016 e os juros deverão iniciar sua queda lenta e gradual ao longo do ano, dependendo da cautela do Banco Central. Mas nada que volte a ativar o consumo, já que o número de desempregados ainda continuará em ascensão até o segundo semestre de 2017. A indústria, que apresenta dados melhores - a queda da produção industrial está gradualmente caindo menos - desde o final do último ano, deve recuperar-se lentamente, dependendo do vagaroso aumento da demanda. Assim, na economia, o quadro não é muito animador.
Na política o ambiente é confuso: o espectro da Lava Jato continua rondando o Congresso, o Judiciário tem forte participação do processo político e há uma crônica ausência de verdadeiras lideranças, principalmente tendo em vista as eleições de 2018. O governo conseguiu aprovar a PEC 241 que limita os gastos públicos e encaminhou a PEC 287 da Reforma da Previdência. Além disso, Temer conseguiu que a Câmara aprovasse o PL 4330/04 que flexibiliza a CLT, projeto que agora espera uma aprovação do Senado. Se por um lado foi capaz de estabelecer limites para os gastos públicos e encaminhar outras providências de cunho liberal, o governo continua e continuará a enfrentar forte oposição, principalmente de centrais sindicais, funcionários públicos e categorias profissionais com sindicatos fortes – metalúrgicos, bancários, químicos, entre outros. Para o restante dos trabalhadores, sem forte representação sindical e pressionados pela crise econômica, as medidas talvez ajudem a tornar o mercado de trabalho um pouco mais dinâmico e propício às contratações. Um dos itens que ainda falta discutir seriamente é a situação do serviço público, principalmente o federal, cada vez mais cumulado de privilégios.
O meio ambiente definitivamente não constou da agenda dos dois governos (Dilma e Temer) em 2016. Os investimentos em saneamento, por exemplo, segundo dados do Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS), coordenado pelo Ministério das Cidades, caíram em 9%, diminuindo de R$ 13,9 bilhões em 2014 para R$ 12,7 bilhões em 2015. Lembremos que segundo dados do Banco Mundial, ainda da década passada, o país deveria investir cerca de R$ 25 bilhões anuais para alcançar cobertura completa de saneamento até 2030. Para 2017 o governo falou em projetos de concessão de serviços públicos para o setor privado, mas não mencionou o setor de saneamento.
A gestão de resíduos, cujo principal tema é a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), avança gradualmente entre as empresas e associações do setor privado, notadamente nos grandes grupos econômicos que geram grandes volumes de resíduos. As prefeituras praticamente ignoram o assunto, notadamente as cidades de menor população, cujos prefeitos serão obrigados a implantarem uma política de gestão de resíduos somente em quatro a seis anos – quando gestores muito provavelmente já não estarão mais nos cargos.

A novidade positiva no setor é que em função da crise hídrica e econômica a população está aprendendo a utilizar melhor recursos como água, eletricidade e outros insumos. A falta de recursos para manter o consumo aliado ao aumento das tarifas, fez com que os consumidores reduzissem em média em 20% o consumo de eletricidade e água. Paralelamente, grandes empresas dependentes de água estão investindo em projetos de recuperação de vegetação, visando aumentar o volume do líquido disponível nas bacias hidrográficas.
(Imagem: pintura de Thomas Gainsborough)

Sobre a informação

sábado, 14 de janeiro de 2017

Se é possível calcular o número de átomos existentes no universo, então também é possível calcular o número de interações entre eles?

Se recortarmos o texto de um jornal e o colarmos em um texto qualquer, a coisa toda pode não fazer sentido, isto é, vai destoar da “ordem” existente no texto original. São, na realidade, duas “ordens” – uma maior (o texto existente) e uma menor (o texto recortado do jornal) que foram colocadas juntas. Mas, por não terem uma relação imediata, não formam algo que faça sentido.

Qual seria o limite de texto, imagem, ideia, som, etc., inteligível, para que uma coisa faça sentido, seja apreendida, seja logicamente compreensível?

Ou seja, qual é o limite de informação que precisamos obter, para que qualquer coisa faça sentido (em outras palavras: queira nos dizer algo)?

Mais: os dois textos citados podem formar uma nova “ordem”, composta por duas ordens que não conseguimos relacionar? Neste caso, qual é a informação necessária, para que os dois textos formem uma mensagem coerente? 

A filosofia no ensino médio

sábado, 7 de janeiro de 2017

Houve um período durante o governo militar (1964-1984) em que o ensino da filosofia foi dificultado, se não eliminado. O processo de supressão da filosofia dos currículos escolares começou no final da década de 1960, quando foi dada às escolas a opção de não ensinarem a matéria. As escolas que já não tinham muito interessem em ministrar a disciplina, acataram a lei como mandatória. Finalmente, em 1971, o Ministério da Educação editou uma nova lei que proibia o ensino da filosofia nas escolas de todo o país. Ficamos assim um longo período sem ensino da filosofia. Quais as razões e as consequências disso? 

Por um lado, o país estava sob jugo de um regime militar não democrático, sem eleições livres, sem liberdade de imprensa e de expressão. Como todos os países do planeta entre os anos 1950 e 1980, éramos protagonistas de uma grande batalha entre os Estados Unidos, representando o sistema capitalista, e a União Soviética, representando o mundo comunista. Internamente tínhamos um capitalismo em desenvolvimento, o país estava começando seu processo de industrialização e urbanização. Havia uma pequena classe média ascendente, que pela primeira vez na história do país tinha acesso a bens com os quais no passado havia apenas sonhado. Sob o aspecto das carreiras profissionais, a grande maioria dos poucos brasileiros que chegava ao ensino superior optava pelas áreas da medicina, da engenharia e do direito. Dentro deste contexto político, sócio-econômico e educacional, a carreira de filósofo parecia, no mínimo, estranha. Além disso, com as revoltas estudantis em todo o mundo durante o mês de maio de 1968 – no Brasil especificamente encabeçadas pelos estudantes de filosofia da USP da Rua Maria Antonia – os estudantes de filosofia acabaram adquirindo a pecha de “baderneiros e comunistas”. Definitivamente no período da ditadura militar a filosofia não gozava de boa fama.

Outro fator que no imaginário brasileiro causou desinteresse pela filosofia foi a imagem de ser uma matéria teórica, pouco afeita à prática. Os filósofos, com seus sistemas, eram retratados como estudiosos que viviam longe dos problemas diários do país – que envolviam o mundo do mercado e da produção, do trabalho e das grandes obras, etc. – com as quais o pensador supostamente (pelo menos dentro do padrão criado pela mídia) nada tinha a ver. A profissão não tinha mercado de trabalho, já que a ênfase da época no país era o crescimento, a produção a mobilidade e não a análise, a crítica ou o questionamento. Os cursos em quase sua totalidade estavam extintos e a grande maioria dos filósofos ocupava cargos em outras áreas da cultura. Este período no Brasil pode ser comparado à segunda metade do século XIX na Inglaterra, tão criticado por Nietzsche, que chamava os ingleses de “povo de negociantes e industriais”, sem qualquer preocupação filosófica.

Em 1984 inicia-se o período de redemocratização. As instituições voltam a funcionar, recupera-se a liberdade de imprensa e de crítica. Antecedendo em alguns anos a volta da democracia, o país vivia iludido com a idéia de que bastaria a volta das instituições democráticas, para que a maior parte das estruturas voltasse a funcionar normalmente como antes, entre outros o sistema de ensino. Aqui convêm lembrar que durante o período militar a qualidade do ensino no Brasil caiu vertiginosamente. Muito mais do que uma intenção premeditada em manter o povo na ignorância, segundo Darcy Ribeiro, a queda na qualidade do ensino se deve à sua massificação; à intenção de pulverizá-lo, sem atentar para a qualidade. Todavia, é fato que depois da volta da democracia, a deterioração do ensino público foi ainda maior. A impressão que se tem é que desde o regime ditatorial a educação nunca mais achou seu caminho, sendo vítima de experiências educacionais diversas, que não conseguem melhorar a qualidade da estrutura responsável pelo ensino: planejadores, professores e escolas. Além disso, os próprios alunos muitas vezes não reúnem condições físicas e psicológicas para receber o ensino, já que passam por problemas de carência de alimentação, de apoio familiar e de auto-estima.

A consequência desta situação é que todo sistema de ensino acabou se deteriorando. A reintrodução do ensino da filosofia, obrigatório a partir de 2008, também ficou comprometida com o baixo índice de qualidade do sistema educacional. Se, teoricamente, a Lei das Diretrizes e Bases da educação nacional prevê que o ensino secundário deve preparar o aluno para ter uma visão ampla sobre os diversos conhecimentos humanos – ciências naturais e humanas – e assim a filosofia seria como que um coroamento deste processo, capacitando o futuro cidadão a fazer uma síntese deste conhecimento, o objetivo não tem sido alcançado até o momento.

Recentemente o governo Temer introduziu outra reforma do ensino, no qual as matérias tornadas obrigatórias no ensino médio a partir de 2008, filosofia e sociologia, já não o serão mais. Aparentemente, a formação do aluno no ensino médio deverá se tornar mais específica, abandonando a ênfase universalista em benefício de uma educação voltada a áreas mais específicas e técnicas.

Não é possível que com um ensino fundamental incipiente, no qual o aluno muitas vezes não chega a aprender a ler ou escrever corretamente, seja construída a base para o ensino da filosofia no ensino médio – ou outras matérias que venham a ser adicionadas ao currículo. A filosofia pode ampliar substancialmente o horizonte cultural dos alunos do ensino médio, mas nada ou pouco pode fazer se o solo está estéril e os alunos não têm a mínima capacidade – e, conseqüentemente interesse – em se aprofundar nos textos e nas idéias dos filósofos. Se não houver uma melhoria da qualidade do ensino no período fundamental e médio, o ensino da filosofia, da sociologia e de outras matérias técnicas, poderá ser mais um engodo, como o foram os outros planos para reforma do ensino ao longo da história do Brasil.

Menos poluição com veículo elétrico

sábado, 31 de dezembro de 2016
"Por mais numerosos que sejam os anos de vida, regozija-se o homem em todos eles, mas deve pensar nos dias obscuros que serão numerosos."  -  Eclasiastes 11, 7

Qual será o futuro do automóvel? Esta é a pergunta que montadoras, indústrias de autopeças, empresas de consultoria, governos e consumidores vêm se fazendo há pelo menos vinte anos. O transporte individual, popularizado a partir dos anos 1950 quando as principais marcas de automóveis estabeleceram suas fábricas em todos os continentes, tornou-se um dos grandes vilões das grandes cidades em tempos de aquecimento global.
Falta de recursos, de planejamento e de visão a longo prazo, fizeram com que a maior parte das cidades, cuja população cresceu rapidamente no pós-guerra, expandisse sua infraestrutura viária voltada para o transporte individual. Nas grandes metrópoles os problemas dos congestionamentos de trânsito e da poluição atmosférica tornaram-se tão graves, que tiveram que ser implantados sistemas de rodízio e zonas fechadas ao trânsito de veículos particulares. A melhoria do transporte público agora é uma necessidade urgente, que os limitados recursos financeiros da maior parte das cidades de países em desenvolvimento não conseguem atender a tempo. 
Mesmo assim, parte da classe média destes mesmos países – Indonésia, China, Índia, África do Sul, Brasil e vários outros – ainda sonha com a compra de um automóvel, preferencialmente novo. As montadoras européias e americanas estabelecidas nestes países querem multiplicar ao máximo os investimentos que fizeram e esperam manter constantes as vendas de seus veículos.
No caso do Brasil, com raras e recentes exceções, os carros possuem motores de engenharia ultrapassada, com altas taxas de consumo de combustível e de emissões. O programa de incentivo ao uso do álcool, iniciado na década de 1970, atingiu seu ponto alto por volta de 2005, quando quase todos os automóveis novos fabricados no país eram bicombustíveis. Mas, atrelado à gasolina, o preço do etanol foi mantido artificialmente baixo, não remunerando seus custos de produção. O resultado foi uma quebradeira geral de empresas do setor de açúcar e álcool.

Como resposta ao carro movido à combustão, a indústria automobilística vem desenvolvendo o carro elétrico. Interessante notar que quando os automóveis começaram a ser fabricados, em 1900, os veículos elétricos representavam 30% da frota americana. A produção em linha de carros movidos por motor à combustão, iniciada por Henry Ford, fez com que a eletricidade fosse rapidamente abandonada. Um século depois, a ideia do motor elétrico ganha força novamente, e amplia rapidamente o numero de seus consumidores. As japonesas Nissan, Honda e Toyota, estão na dianteira dos lançamentos, mas a alemã BMW e a americana Tesla também começaram a fabricar os seus veículos. Recentemente a alemã Daimler (Mercedes) informou que também investirá neste segmento de veículos. No Brasil, a empresa Itaipu Binacional já construiu diversos protótipos de veículos elétricos, em pareceria com algumas montadoras. 
À medida que aumentar o número de veículos elétricos em circulação também se ampliará a rede de abastecimento de eletricidade. Ao contrário do que setores do governo brasileiro diziam há alguns anos, a ampliação da frota de veículos elétricos não colocará em risco o fornecimento de eletricidade para outros fins. O ideal seria, no entanto, generalizar o uso do transporte coletivo, reduzindo ao máximo o uso do transporte individual.
(Imagens: pinturas de Jean Bastien Lepage) 

Mente e percepção

sábado, 24 de dezembro de 2016

Mente e percepção

As sensações, as impressões, as emoções e as idéias; tudo é uma complexa reação químico-biológica que ocorre na mente. Em última instância é uma ilusão (no sentido de ser uma percepção individual), já que não tem uma realidade objetiva. Assim como o filme não tem uma realidade objetiva.

A música, a literatura, as diversões, idem. São constructos que na realidade não existem. Isso também se aplica à noção de “ego”, individualidade, permanência. Em outras palavras, é como Shakespeare dizia: “o material de que são feitos os sonhos”. E Calderón de la Barca: “a vida é sonho”.

Efetivamente, a própria literatura e a música descrevem o que acontece no cérebro: as contradições que chamamos de sensações, que se constituem de interações químico-biológicas e não representam a realidade objetiva – que nunca conheceremos, só interpretaremos.

(O que não quer dizer que ela não exista, já que não há um padrão de julgamento absoluto).

Construção sustentável no Brasil

sábado, 17 de dezembro de 2016
"Amo o público, mas não o admiro. Como indivíduos, sim. Mas, como multidão, não passa de um monstro sem cabeça."  -  Charles Chaplin

No Brasil, mais de 50% das construções de residências são realizadas pelos proprietários, sem acompanhamento técnico de especialistas. A fiscalização das obras, na maioria das prefeituras, ocorre de maneira incipiente e superficial. Além do aspecto da segurança das estruturas das construções, existe a perda de material, como restos de areia, cimento, cal, tijolos, etc.; materiais que muitas vezes se transformam em entulho descarregado em áreas públicas ou terrenos baldios.
O problema da perda de material no setor de construção também afeta a maior parte das obras realizadas com supervisão técnica. Empreiteiros e construtores de pequeno e médio porte, em sua maioria, ainda não utilizam técnicas de reuso e reciclagem de materiais, além de muitas vezes não disporem corretamente o entulho de obra. Especialistas calculam que 25% dos insumos utilizados pelo setor são perdidos, o que faz com que o metro quadrado construído no Brasil seja relativamente elevado, em comparação com outros mercados equivalentes.
O tema do uso mais eficiente dos recursos no setor da construção não é novo e já faz parte das preocupações das principais instituições ligadas à construção, há pelos menos quinze anos. Grandes empreiteiras, principalmente aquelas atuantes nos grandes centros urbanos, já incorporaram as diretrizes do uso eficiente dos recursos, oferecendo treinamento aos seus funcionários e implantando sistemas de gestão de canteiros de obras, visando controlar, separar e reutilizar materiais e insumos.
Um grande avanço no setor da construção civil foi a criação da Norma de Desempenho de Edificações nº 15.575, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), lançada em abril de 2013. A diretriz estabelece padrões para resistência e durabilidade de estruturas, pisos, coberturas, vedações e sistemas hidrossanitários para construções, proporcionando mais garantias ao comprador do imóvel e exigindo que a construtora utilize materiais, equipamentos e mão de obra de melhor qualidade. A norma representa um importante passo do setor da construção civil em direção à melhor gestão das obras, tornando-as mais eficientes e sustentáveis, reduzindo a perda de materiais. 

Outro fato positivo no setor da construção civil é introdução da certificação de construções – os selos verdes – de acordo com normas internacionais de qualidade ambiental. Para receber este selo, as edificações devem atender aspectos como: ter obra realizada de maneira ambientalmente correta (reuso, reciclagem e correta destinação dos materiais, ausência de substâncias tóxicas, uso eficiente de água e energia, entre outros); ter edifícios equipados com sistemas de economia de água e eletricidade, materiais de alta durabilidade; adotar princípios de urbanismo sustentável (calçadas vivas, prioridade para deslocamento de pedestres, arborização, etc.). O Brasil já tem quase 1.000 projetos registrados e certificados no selo LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), ocupando a quarta posição mundial, depois do Canadá, da China e Índia (dados de 2015).
O setor da construção tem forte impacto no uso de recursos naturais, incluindo água e eletricidade. Outro aspecto, é que depois de prontos, os edifícios funcionarão por várias décadas. Por isso é importante que, tanto na fase de construção quanto na de uso, seu impacto ambiental seja reduzido ao mínimo possível.
(Imagens: fotografias de Horacio Coppola)

O muro está lá

sábado, 10 de dezembro de 2016

O muro está lá

O muro cinza, com partes mal-acabadas, coberto somente de massa grossa. Aspecto de abandono. Obra acabada. Mal acabada, na qual não foi feito mais nada. Uma cor cinza. Talvez me lembre de muros velhos, de casas velhas que vi na infância. O cimento áspero, lavado pela chuva durante muitos anos. Pedaços diminutos de quartzo e mica refletindo a luz do sol.

Quem terá construído este muro, esta parede? Quem foram eles? Quando? Há dez anos, há 20 anos, talvez? Difícil saber pela aparência do muro. O que pensavam, viviam e falavam, enquanto era feita a construção?

E agora o muro está lá. Desde que foi erguido permanece firme, em pé, cumprindo a função para a qual foi feito. Quantos dias de sol, chuva e frio já teriam passado desde que foi construído? Acontecimentos, vivências, e o muro esteve lá.

Não tem nenhum significado especial. É uma parede com cerca de quatro metros de altura e uns vinte de comprimento. Algumas partes não foram bem rebocadas e provavelmente desde que foi construído não foi reformado. Parece ter sido feito às pressas, sem muito cuidado.

Por que temos que colocar ordem em tudo? Essa obsessão por tentar ordenar teórica e praticamente todo o universo não seria a nossa perdição? Não é melhor deixar a natureza (nome que damos a complexas inter-relações que atuam sobre tudo e acabam transformando o ente) tomar o seu rumo e atuar livremente com suas forças, como acontece neste muro?

Ordenar, organizar, intervir, adaptar; essa ação de antropomorfização do ente. Uma tentativa de arrumar um universo que não tem a ordem que os homens pensam lhe impor, ou que pensam ter que lhe impor.

Aparentemente caótico, o universo parece não ter uma lógica de funcionamento, mesmo que imperceptível, que fuja à nossa compreensão.

A teoria da indeterminação e a física quântica especificamente. Não sabemos e não podemos prever o que acontecerá com as partículas (e o ente).

Nossas construções teóricas, visões de mundo, teorias, doutrinas, ordens sociais, engenhos, estruturas; tudo simples tentativas (talvez vãs) de procurar entender aquele muro, o universo. 

(Imagem: fotografia de um muro)

Clima é o grande tema

sábado, 3 de dezembro de 2016
"O comunismo, como qualquer outra religião revelada, é principalmente um conjunto de profecias."  -  H. L. Mencken

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas – COP 22, realizada em novembro de 2016 na cidade marroquina de Marrakesh, ocorreu sob clima de expectativa. Apesar do acordo mundial de redução de emissões, assinado em Paris em 2015, ter entrado em vigor em 4/11/2016, os acontecimentos no mundo da política, economia e, principalmente, na natureza, parecem indicar que ações de prevenção precisam ocorrer mais rápido.
Na área da política, a eleição de Donald Trump causa grandes preocupações a todos aqueles envolvidos com os fenômenos climáticos. O novo presidente dos EUA, quando tomar posse pretende cancelar a participação de seu país nos acordos assinados em Paris. O processo de desligamento não poderá ser de imediato; a nação que quiser sair do acordo ainda terá vínculos e obrigações durante quatro anos. Mesmo assim, o impacto da atitude da nação mais poluidora será muito forte e poderá influenciar outros países.
A economia mundial também causa preocupação. Com a retração da economia de diversas regiões do globo, a falta de recursos financeiros impede que a maior parte dos países em desenvolvimento faça investimentos em projetos de energia renovável e eficiência energética, melhoria do transporte público, aterros sanitários, entre outros. As iniciativas são assim limitadas aos projetos amparados pelos países desenvolvidos, que no momento também enfrentam problemas com suas próprias economias.
A redução das emissões torna-se cada vez mais urgente, principalmente porque 2016 (e antes 2015) foi o ano mais quente nos últimos 160 anos, quando tiveram início as medições. Um estudo realizado por cientistas da universidade do Havaí, reunindo dados sobre o clima do planeta nos últimos 784 mil anos, prevê que o aumento da temperatura da Terra poderá ultrapassar os 7ºC até o final deste século. Este valor é muito acima do limite de 2ºC, que o Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) havia estabelecido em 2014 como sendo o máximo, além do qual o clima da Terra seria cada vez mais sujeito a mudanças súbitas. Outro estudo trazido a público pela universidade da Flórida, mostra que o aumento de 1ºC já ocorrido na temperatura média da atmosfera está afetando a vida. Segundo os autores do trabalho, nada menos que 82% dos processos biológicos e sistemas ecológicos do planeta foram afetados pelo calor. Entre as alterações encontradas os cientistas identificaram atrasos e adiantamentos de florescimento de plantas, redução do tamanho de alguns animais, desequilíbrios populacionais (nascimento de maior número de fêmeas ou de machos), ecológicos (mudança da distribuição espacial) e comportamentais.

No Brasil os esforços para redução das emissões avançam devagar. A agropecuária é responsável por 69% das emissões do país e até agora pouco foi feito nesta área. Com cerca de 90% da população brasileira vivendo em cidades até 2020, são as consequências físicas da mudança do clima que representam o maior desafio para o Brasil, segundo o jornalista Washington Novaes. Disponibilidade de água e eletricidade, enchentes e desabamentos nos centros urbanos, aumento das doenças tropicais (dengue, zica, malária, febre amarela, etc.), são problemas a serem enfrentados pelas cidades nos próximos anos. Importante protagonista nos fóruns internacionais, o Brasil precisa colocar seus discursos em prática.
(Imagens: fotografias junto ao Muro de Berlim de Henry Cartier-Bresson)

Volta o desmatamento na Amazônia

sábado, 26 de novembro de 2016
"Nossa época, embora fale tanto de economia, é esbanjadora: esbanja o que é mais precioso, o espírito." - Friedrich Nietzsche 

Subiu em 24% o corte raso da floresta tropical na região amazônica, durante o período que vai de agosto de 2015 a julho de 2016. Foram derrubados 6.207 km² contra 5.012 no período anterior, pegando de surpresa o governo e as ONGs que atuam na região e voltando a acender o sinal de alerta. Esta é a maior taxa de derrubada nos últimos quatro anos.
O desflorestamento vinha caindo há mais de dez anos, depois de atingir o pico de 27.772 km² de mata cortada em 2004. Medidas implantadas durante os governos Lula e Dilma ajudaram a gradualmente reduzir estes números, fazendo com que em 2012 fossem cortados menos de 5.000 km². Segundo especialistas, a crescente queda no corte da floresta parecia indicar uma tendência que, no entanto, não se manteve por muito tempo. Apesar da crise econômica, que geralmente funciona como uma atenuante nas taxas de derrubada, o ritmo de destruição da vegetação voltou a subir.

Desta vez o corte das árvores se deu em regiões já atravessadas por rodovias. A derrubada da floresta é feita principalmente em terras públicas e têm como principal objetivo a grilagem, a apropriação ilegal de imensas áreas. Depois de retirada a floresta, a terra é ocupada por criação de gado; não tanto para produção de leite ou corte, mas para mostrar que a terra tem dono – ou um ocupante – e está sendo usada para uma atividade econômica, o que fortalece a ideia da posse da área.
O antigo conceito de que era preciso derrubar a floresta para ampliar as atividades agrícolas ou pecuárias está ultrapassado. Hoje existem terras suficientes para expandir a agricultura e a criação de gado em outros lugares, sem necessidade de avançar sobre a floresta. A atual ocupação de terras virgens está muito mais ligada à chegada do grande latifúndio e seus agentes, com objetivo de fazer especulação imobiliária. Existem muito grupos de investimento potencialmente interessados em adquirir grandes extensões de terra na região para investimentos futuros.
A destruição da floresta além de destruir os ecossistemas da região também prejudica populações locais, que há centenas ou milhares de anos estão estabelecidas na região; caso dos ribeirinhos, caboclos e dos índios. Estes povos estão de tal maneira integrados ao ambiente da região, que sua destruição só irá prejudicá-los, afetando seu modo de vida e sua cultura. O impacto ambiental, social e econômico da construção das barragens hidrelétricas nos rios Madeira e Tocantins é exemplo disso.
Outro aspecto é que recentemente, durante a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, o Brasil assumiu, entre outros, também o compromisso de acabar com o desmatamento na Amazônia até 2030. Essa medida deverá ser a mais importante contribuição do país para reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa, já que mais de 60% das emissões brasileiras são causadas por desmatamentos na região.
Especialistas consideram que será difícil reduzir o desmatamento da floresta tropical a zero. Além da complexidade em controlar toda a região, mesmo com a ajuda de satélites, a vasta área ocupada pela vegetação dificulta o acesso dos órgãos de controle e o combate a eventuais desmatamentos. Na melhor das hipóteses, espera-se que gradativamente o governo possa manter uma tendência de queda e chegar a taxas de desflorestamento baixas, mas ainda acima de zero.
(Imagens: desenhos de Wilhelm Busch) 

A eleição de Trump e o meio ambiente

sábado, 19 de novembro de 2016
"La desesperación colectiva es el factor de ruina más potente. El pueblo que cae en ella nunca llega a recuperarse del todo."  -  E. M. Cioran  -  Cuadernos 1957-1972

Depois de Donald Trump ter sido confirmado como o 45º presidente dos Estados Unidos, analistas de diversas áreas vêm tentando prever as conseqüências para o país e o mundo. Tal expectativa se deve ao fato de Trump ter dado as mais inesperadas declarações sobre diversos assuntos, enquanto candidato. Da construção de um muro entre o México e os Estados Unidos ao fechamento das fronteiras americanas aos imigrantes muçulmanos, até a imposição de taxas de importação aos produtos chineses. Isto sem falar dos comentários preconceituosos contra imigrantes latinos, até declarações machistas e a perspectiva do relativo fechamento da economia americana. Se o novo presidente americano colocar efetivamente em prática o que prometeu fazer em diversas áreas, o impacto sobre seu país e o restante do planeta será muito grande.
Nosso tema neste artigo são as perspectivas de desenvolvimento do setor ambiental sob a administração de um governo Trump. Em sua campanha pré-eleitoral o candidato fez diversas declarações sobre temas relacionados à questão ambiental. Entre outras coisas, afirmou não acreditar na existência das Mudanças Climáticas e que se eleito iria tirar os Estados Unidos do Acordo sobre o Clima. Internamente, o candidato declarou que limitará o poder da agência ambiental americana (EPA) e abrirá diversas áreas federais para a exploração do petróleo, gás natural e carvão. Também prometeu paralisar programas de redução de emissões instituídos pela atual administração.
Neste contexto, vamos lembrar que os Estados Unidos são a nação que, pelo menos nos últimos sessenta anos, mais influenciou a economia mundial. Novas tecnologias, novos produtos e maneiras de produzir, técnicas de administração e de marketing, enfim, a América influenciou, apoiou e em parte financiou a expansão do moderno capitalismo. Até as primeiras leis ambientais e grupos ambientalistas surgiram em solo americano. Assim, mesmo sendo o maior consumidor de recursos naturais e gerador de emissões – e até mesmo por isso – a atitude dos Estados Unidos em relação ao meio ambiente é importante para o mundo.
Por isso, se o governo americano reduzir internamente o controle ambiental, desenvolver ações que beneficiem o uso de combustíveis fósseis e internacionalmente se colocar em uma posição contrária à redução global das emissões, isso certamente terá uma influência sobre os outros países, a começar pela China. Trata-se de um bom negócio para governos, principalmente de países em desenvolvimento ainda às voltas com grandes problemas ambientais, reduzirem seus investimentos nesta área sob a alegação de que “a nação mais rica do mundo está fazendo o mesmo”.

Se, aliado a esse posicionamento em relação às questões ambientais os Estado Unidos ainda adotarem uma atitude de isolacionismo econômico, vão provocar atitudes semelhantes em outros países, o que acabará reduzindo os investimentos globais. A rarefação dos investimentos externos significa, para países como o Brasil, menos investidores para projetos de infraestrutura, como saneamento e energia, e paralisação de projetos de novas indústrias – todos envolvendo grandes investimentos em tecnologias de proteção ambiental. A relativa importância que a eleição de um presidente americano possa ter, neste caso poderá aumentar e exercer forte influência sobre o setor de meio ambiente em todo o planeta.
(Imagens: pinturas de Max Liebermann) 

Superestrutura cultural

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Parece que toda a superestrutura e suas materializações - todas as idéias, crenças, costumes, tecnologias, enfim, toda a cultura de uma civilização - está em uma zona etérea, de onde os humanos ao nascerem – e por influência de outros – retiram toda a sua bagagem cultural. Esta está espalhada fisicamente em todos os lugares (qualquer objeto ou atividade humana envolve cultura) no mundo humano e forma como que uma "nuvem de cultura". 

Todos os povos, todas as civilizações, todas as culturas, todos os líderes, artistas, cientistas, pensadores, em suma, toda e qualquer pessoa contribui, mesmo que minimamente, para a formação desta “nuvem de cultura”. Dessa todos também tiramos maior ou menor quantidade, sem que haja diminuição. Uma das poucas coisas - se não a única - que só aumenta, desde que tenha uma base para se fixar (bibliotecas, costumes, construções, tecnologias,etc) e nesta seja registrada através de certos códigos (matemática, notas musicais, imagens, escrita, símbolos, etc.) 

Agora, como se forma ou formou esta dimensão cultural que influencia toda a cultura / civilização? A linguagem – ou as suas diversas formas – é o principal responsável na manutenção, reprodução e transmissão deste “banco genético cultural”?

Em última instância, será essa a contribuição da humanidade no processo de "entropia decrescente”, isto é, acrescentar “ordem” ao processo que começou com o surgimento da vida?

(Imagem: galáxia de Andrômeda)

Newsletter novembro/dezembro 2016

sábado, 12 de novembro de 2016

(publicado originalmente no site www.ricardorose.com.br em 7/11/2016)

Está quase para terminar o ano de 2016 e pouca coisa mudou no país desde o início do ano. Apesar do afastamento da presidente Dilma, sucedida por seu vice-presidente Michel Temer, a economia continua em situação ruim e o desemprego ainda está em crescimento. A inflação começa a retroceder, mas os indicadores econômicos permanecem pouco promissores. A aprovação da PEC 241, que estabelece limite de gastos para o governo nos próximos 20 anos, é um sinal de que o atual governo vai tentar manter os gastos sob controle. Setor privado e a grande maioria dos economistas concordam que o projeto de emenda constitucional será a base para uma série de reformas, que este e outros governos terão que fazer para modernizar o Estado brasileiro. A reforma da Previdência e as reformas Fiscal, Trabalhista e Política, poderão fundamentar as bases para uma economia voltada para o mercado e a livre iniciativa, com menos ingerência do Estado e ao mesmo tempo eliminar diversos privilégios que ainda beneficiam parte da burocracia estatal nos Três Poderes.

Na análise de muitos especialistas o Brasil se encontra em uma encruzilhada. Pode seguir o caminho que vem seguindo deste o governo de Vargas, na década de 1930, com um Estado intervencionista, que se tornou ainda mais estatizante durante o período do Regime Militar. Estatização, burocratização, ingerência na economia, falta de concorrência e transparência são algumas das características deste regime. Economia fechada e aumento de impostos para médios e pequenos empresários e trabalhadores, mas benefícios para aqueles (grandes) grupos econômicos que têm boas relações com o governo. Formação de castas de privilegiados dentro da burocracia pública e nas estatais, que constituem apoiadores e propagandistas deste regime nacional desenvolvimentista. Essas características foram mantidas também durante os governos FHC e PT, com alguns benefícios para as camadas mais baixas da população. Nesta maneira de se apoderar do Estado e de usá-lo em benefício de seus interesses a direita e a esquerda são iguais.

Outro caminho que o país poderá seguir é o de uma economia aberta, voltada para o mercado, onde o Estado e sua estrutura burocrática seriam menores e se ocupariam de coisas essências, como a Educação, a Saúde, a aprovação e o respeito às leis e a gestão pública. Grande parte das atividades atualmente ainda nas mãos do Estado seria transferida para a iniciativa privada, e o governo teria uma forte função fiscalizadora – aquilo que as agências reguladoras deveriam fazer e em grande parte não estão fazendo. Estas providências reduziriam o custo do Estado, liberando mais recursos para outras áreas essenciais, com a Educação e a Saúde. O processo para modernização deverá ser lento, pois reformas estruturais desta amplitude não são possíveis de serem realizadas em poucos anos. Mas é preciso dar início ao processo, estabelecendo metas e constantemente avaliando resultados, já que um dos objetivos é ter uma administração pública mais eficiente (veja-se o atual caso do estado do Rio de Janeiro como exemplo oposto).

Na área ambiental a situação é a mesma da política e da economia; mais do mesmo. Um ano depois do desastre com a barragem de resíduos de mineração em Mariana, o caso está longe de uma solução. O processo contra a empresa Samarco corre com lentidão na justiça e os afetados pela tragédia continuam aguardando por recursos suficientes para definitivamente reestruturarem suas vidas. O rio Doce, que teve todo o seu ecossistema destruído pela lama, ainda permanece morto em grande parte de seu curso, afetando o meio ambiente e as atividades econômicas que dependiam de suas águas.


Na Amazônia aumentou o desmatamento no período 2015-2016, o que coloca mais uma vez o país em situação ruim perante as agências internacionais e também põe em dúvida nossa real capacidade de alcançar o objetivo de “desmatamento zero” até 2030. O setor da agropecuária também deverá começar a se preocupar com suas emissões originadas principalmente na preparação do solo e na criação de animais. Para manter seu lugar de destaque como exportador de alimentos – fato importante para a segurança alimentar do mundo – o país precisará aumentar seus investimentos em pesquisa de novas tecnologias nesta área, a exemplo do que empresas como a EMBRAPA vêm fazendo desde os anos 1980. 
(Imagens: pinturas de Gerhard Richter)