Queda do desmatamento e saúde

sábado, 5 de dezembro de 2015
"Por outras palavras, para o homem atual, Deus já não parece ser necessário nem desnecessário: tornou-se simplesmente sem importância. Não se trata de convicção teórica, mas de uma realidade prática e existencial."  -  Eusebi Colomer, A morte de Deus

A revista científica americana "Nature" publicou recentemente um estudo, mostrando que a redução do desmatamento na Amazônia fez cair o índice de doenças pulmonares em toda a América do Sul. O trabalho foi realizado através de uma parceria da Universidade de São Paulo (USP) com especialistas das universidades de Leeds e Manchester (Inglaterra) e do Massachussetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos. O tema principal da pesquisa é a emissão de aerossóis (micropartículas carregadas pelo ar) através da queima da floresta (biomassa) e seus efeitos sobre o clima e a qualidade do ar (http://www.nature.com/news/amazon-fire-analysis-hits-new-heights-1.11467).
O estudo mostrou que a diminuição do desmatamento na Amazônia entre 2001 e 2012 tem permitido uma redução de 30% no material particulado (aerossóis), além de reduzir os níveis de ozônio, monóxido de carbono, óxido de nitrogênio e outras substâncias poluentes emitidas durante a queima da floresta. Esta diminuição dos níveis de poluição também foi constatada em toda a região sul do Brasil, na Argentina, no Paraguai e no norte da Bolívia. A queda do desmatamento deve-se ao aumento do controle sobre a região por parte do governo e, principalmente, aos acordos assinados entre empresas produtoras e compradoras de soja e carne bovina, atestando que os produtos não são originários de áreas de desmatamento.  
Através da comparação dos dados deste estudo com outros, a equipe de pesquisadores pôde concluir que à redução do desmatamento correspondeu uma queda nos números de casos de doenças e mortes precoces, causadas pela poluição atmosférica. A diminuição de 40% no desmatamento, estima o estudo, poupou a vida de 1,7 milhões de pessoas das regiões afetadas pela poluição. É a primeira vez que um estudo desta abrangência pôde mostrar a relação direta entre a derrubada da floresta amazônica, a poluição atmosférica no cone sul do continente e as mortes daí resultantes.
A pesquisa científica identifica, cada vez mais claramente, a relação existente entre os sistemas ecológicos e os seres vivos, que aparentemente nada têm em comum por estarem distantes. Há trinta ou quarenta anos atrás, quem imaginaria que as queimadas na floresta amazônica, tão extensa e tão distante (do sul do continente), poderiam ter algum efeito sobre a saúde das pessoas em São Paulo, Assunção ou Buenos Aires?
Se a floresta amazônica, distante milhares de quilômetros da região sul e sudeste do Brasil, pode exercer tanta interferência no clima e na qualidade do ar, o que dizer da Mata Atlântica, localizada praticamente na periferia das cidades e na de grandes metrópoles, como Rio de Janeiro e São Paulo? Vale lembrar que quase toda a ocupação do país se deu através de regiões dominadas por esta floresta e que ainda hoje, cerca de 50% da população do país ainda habita áreas de influência deste bioma.
A preservação das florestas e de outros biomas deveria ser prioridade nas macro estratégias de todos os governos. A relação destas áreas naturais com o clima, os recursos hídricos, a qualidade do ar e diversos outros aspectos do ambiente urbano e rural, ainda são em grande parte desconhecidos. A destruição destes recursos naturais em nome da expansão econômica e do crescimento populacional causará fenômenos imprevisíveis - a crise hídrica é um pequeno exemplo disso.
(Imagens: pinturas de Aluisio Carvão)

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