Comentário sobre o filme "O homem-urso" (The grizzly man) de Werner Herzog

quarta-feira, 18 de novembro de 2015
"O que mais salta à vista sobre os clérigos é a sua descomunal falta de informação e de bom-senso. Eles constituem, talvez, a classe mais ignorante de professores já formada para guiar um povo presumivelmente civilizado; são mais ignorantes ainda do que os superintendentes de escolas."  -  H. L. Mencken  -  O livros dos insultos

Timothy Treadwell viveu e filmou a vida dos ursos do Alasca durante dez anos. A cada ano passava três a quatro meses sozinho com os ursos, conversando e tentando entender sua vida, vivendo em uma barraca, sem qualquer tipo de arma. Treadwell era personagens de seus próprios filmes. O documentário mostra diversas cenas, rodadas por ele mesmo, conversando com os ursos e explicando aos espectadores as ações dos animais, que ocorriam efetivamente alguns metros à sua frente. Treadwell declarava que queria um encontro com os ursos além do conceito humano-animal. Via a si mesmo como um guardião dos animais.
Em muitas cenas do documentário, Treadwell se comunica com os ursos e dizia que pretendia se tornar um animal selvagem como eles. Em outras cenas declarava que queria chamar a atenção do mundo para a degradação ambiental que estava ocorrendo no Alasca, colocando em perigo todo o complexo sistema ecológico onde viviam os ursos e outras espécies que também aparecem nos filmes.
Durante o período em que não estava sozinho no Alasca, Treadwell fazia conferência para diversos tipos de públicos; empresários, políticos, estudantes, cidadãos comuns, sempre ressaltando a importância de se proteger a região e os animais. Por outro lado Treadwell também foi alvo de críticas, principalmente por parte daqueles que tinham algo a perder, caso o controle ambiental sobre a região se tornasse mais rígido.
Quando estava no Alasca, Treadwell agia e se comportava como um urso. Sentia-se imbuído de uma missão que só ele podia desempenhar. Declarou em várias filmagens que morreria pelos animais, que tentava proteger. Índios cujas tribos no passado habitavam a região, declararam no documentário que esta havia sido a grande loucura de Treadwell; tentar ultrapassar este abismo que existe entre o homem e o animal.
Em 2001, ao findar mais um período de permanência com os ursos, Treadwell e sua companheira Amy foram destroçados por um urso na região chamada de Labirinto dos Ursos.
O documentário entrevista o piloto de avião que viria buscá-los, para levá-los de volta à cidade mais próxima. Ao chegar ao acampamento chamou pelo casal e não escutou resposta. Viu diversas coisas espalhadas e um urso mastigando algo de estranho e todo sujo de sangue. O urso estava inquieto e avançava em direção ao piloto. A dedução dos fatos foi imediata. Entrou de novo em seu monomotor e levantou vôo. Voltou horas depois trazendo alguns caçadores, que mataram o urso e em seu estômago encontraram pedaços de tecidos e corpos humano – parte dos corpos de Timothy e Amy.  
Timothy Treadwell era filho de uma família de classe média baixa, nasceu e cresceu na Flórida. Conseguiu uma bolsa de estudos na faculdade por ser bom nadador, participando do time de natação. Aos vinte e poucos anos começa a beber, sofre uma queda, não podendo mais nadar e vindo a abandonar a faculdade. Em seguida mudou-se para a Califórnia, onde tentou uma carreira como ator de seriados para a TV, todavia sem muito sucesso. Logo em seguida começa a frequentar as praias, onde se torna instrutor de surfe. Apresenta-se como sendo australiano (muda até seu sotaque), órfão, que tinha se mudado para os Estados Unidos. É neste período que Timothy começa a fazer uso de drogas. Segundo depoimentos de amigos, tinha uma personalidade problemática, vivendo determinado período da sua vida entre a legalidade e a ilegalidade. Por fim, depois de uma overdose que quase o mata, Timothy Treadwell passa por uma transformação. A partir desta época passa longas temporadas no Alasca, vivendo entre os ursos.
Em seus últimos períodos de permanência no Alasca, Treadwell começa a apresentar indícios de paranóia. Reclama dos visitantes, acha que os caçadores querem matá-lo. Viola a regra do parque, que permite uma aproximação máxima de 90 metros dos ursos.
Treadwell morreu tentando salvar sua companheira. Enquanto o urso os atacava, sua câmera, apesar de não mostrar imagem, estava gravando os sons de sua luta com o urso e seus gritos, dizendo que Amy corresse para salvar a vida.
No fim, deixou alguns críticos, muitos admiradores e alguns amigos que o conheciam mais de perto, como realmente era em todos os seus aspectos humanos, bons e ruins.
Durante o documentário, Werner Herzog, além de dirigir, também narrava o filme. Ao final, depois de contar toda a história e entrevistar todos os envolvidos, Herzog diz que Timothy Treadwell foi um sonhador, foi talvez o personagem do próprio filme (aquele que nunca pode estrelar). “Olhando para os ursos não vejo aquilo que Treadwell via e amava, vejo apenas a indiferença e a fome da natureza”, diz.
Trata-se de uma história real, mostrando cenas do homem que passou por tudo que aqui é narrado. Até que ponto Herzog romanceou em um documentário a vida de um jovem que do fracasso alcançou fama internacional? Parece que tudo foi feito de uma maneira honesta e respeitosa, inclusive poupando parentes e amigos. O filme suscita perguntas como: Afinal, o que é uma vida humana? O que é verdade e mentira sobre a vida de uma pessoa? Como sabemos? Qual é o sentido ou valor que damos à nossa e à vida dos nossos semelhantes? O que é uma vida ética e como sabemos? 

O filme também tem uma lição filosófica. Olhando a Natureza, pensamos inconscientemente que de certo modo ela está aí para nós humanos, que podemos manipulá-la ou, como Treadwell pretendia, conviver em paz com ela. Nietzsche dizia que somos estranhos neste universo, que este não foi feito para nós. Assim como os ursos, somos passageiros, elos de uma longa cadeia.
(Imagens: fotografias de Antonio Paim)

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