Vida e sobrevivência

sábado, 19 de março de 2016
"Atualmente conhecemos mais de mil átomos instáveis. Alguns têm meias-vidas que se medem em bilionésimos de segundo, enquanto outros duram bilhões de anos."  -  Hubert Reeves  -  Um pouco mais de azul

As espécies vivas têm em si o impulso de sobrevivência. No longo processo da evolução do organismo unicelular ao complexo, que levou 3,8 bilhões de anos, o ímpeto de preservação sempre foi a mais primordial e poderosa força a guiar os seres vivos. Esta disposição se manifesta de diversas maneiras; na procura de alimentos, procriação e proteção da prole e na luta ou fuga para a preservação da própria vida. A vida, em todas as suas formas simples e complexas, tem essa misteriosa tendência a se perpetuar, seja em si mesma ou em sua descendência.
Encontramos registros da existência de baratas com idade de 350 milhões de anos e de tubarões com 400 milhões de anos. Os dinossauros, já extintos há 60 milhões de anos, foram a espécie dominante no planeta durante 135 milhões de anos. Nós humanos, da espécie animal homo sapiens, somos os atuais dominadores da Terra – processo que teve início há apenas 150 mil anos e se consolidou gradualmente ao longo dos últimos 10 mil anos, com a invenção da agricultura. No passado, outras espécies de hominídeos também habitaram o planeta – muitas ao mesmo tempo –, mas por obra do acaso apenas a espécie sapiens sobreviveu e se impôs em todos os ambientes e a todas as outras espécies. Somos, portanto, recém-chegados à história da vida e rapidamente dominamos.
O rápido desenvolvimento da espécie humana se deu nos últimos 35 mil anos. Por essa época, por motivos ainda não esclarecidos pela ciência, nossos antepassados começaram a produzir armas mais sofisticadas, desenvolver adornos, fazer pinturas rupestres, adotar regras de convivência social sofisticadas, incluindo uma linguagem elaborada e religião. Antropólogos, paleontólogos, sociólogos, biólogos e geneticistas, entre outros, tentam achar uma explicação para este repentino desabrochar da inteligência especificamente humana; o surgimento da cultura. Os humanos não seriam mais limitados por ambientes e climas, já que com o processo de acumulação de conhecimentos desenvolveriam tecnologias para sobreviver e, posteriormente dominar. A invenção da agricultura, das cidades, da escrita, da fundição de metais, do Estado e das grandes religiões (não necessariamente nessa ordem), estabeleceu a base dos grandes impérios, do comércio mundial, da industrialização, até chegarmos ao período da globalização. Nesse processo esquecemos que fomos guiados principalmente pelo instinto de sobrevivência, que herdamos dos nossos primeiros antepassados, as cianobactérias.
No entanto, depois de nossa espécie dominar completamente o planeta e desenvolver um mundo à parte do natural – o mundo humano formado pela cultura – encontramo-nos em uma encruzilhada: não estamos apenas sobrevivendo, mas exaurindo os recursos da Terra. Assim, em seu mais recente livro “Half-Earth: our planet´s fight for life” (Meia Terra: a luta de nosso planeta pela vida), o famoso biólogo Edward O. Wilson aponta o crescimento populacional e o excessivo consumo, com os principais fatores da degradação do planeta. Para barrar este processo, Wilson propõe a criação de imensas áreas de preservação natural, no que muitos outros preservacionistas não concordam. As soluções segundo estes, são muito mais complexas, envolvendo uma série de providências que afetarão nossa tecnologia e nossos hábitos de consumo, tudo para garantir a sobrevivência. Mas, teremos tempo para isso? 
(Imagens: xilogravuras japonesas)

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