Herbicidas e impacto na agricultura

sábado, 23 de dezembro de 2017
"Um dos enigmas não resolvidos da neurociência é conhecido como 'o problema da integração': como o cérebro é capaz de produzir um só quadro unificado do mundo, uma vez que a visão é processada em uma região, a audição em outra, o tato em uma terceira e assim por diante."   -   David Eagleman   -   Cérebro, uma biografia

As ervas daninhas são espécies vegetais diferentes das cultivadas e com elas competem pela luz, água, solo e adubo, comprometendo parte ou toda a colheita da espécie cultivada. Estas ervas aparecem de diversas maneiras: podem estar inertes no solo aguardando condições propícias para germinar ou ter suas sementes trazidas por pássaros, pelo vento ou pela água; por vezes chegam misturadas às sementes a serem plantadas ou podem ser espalhadas por pessoas, animais ou equipamentos (tratores, colheitadeiras) em seu deslocamento. Enfim, é muito difícil encontrar uma cultura sem nenhum tipo de erva daninha.

O método mais antigo de combate às ervas daninhas era a associação da capina com a monda - o arranque manual. Esta situação persistiu até quando os primeiros cultivadores de tração animal e depois mecânica passaram a ser usados na agricultura. No início do século XX tem início a utilização de substâncias químicas, mais tarde classificadas como herbicidas, no combate às ervas daninhas. Nessa época, pesquisadores nos Estados Unidos, na França e na Alemanha, começaram usando sais de cobre e depois o ácido sulfúrico para o combate destas intrusas. O primeiro marco no uso moderno de um produto químico para estes fins na agricultura ocorreu em 1941, como a síntese do 2,4 D, o ácido 2,4 diclorofenoxiacético. Nos anos 1960 e 1970 com o surgimento da Revolução Verde, que visava aumentar a produção agrícola através da mecanização, adubação química, seleção de sementes e uso de pesticidas (inseticidas, fungicidas e herbicidas), o combate às ervas daninhas se tornou mais eficiente.

A fórmula deu tão certo que a monocultura intensiva expandiu-se rapidamente em países com amplas extensões de terra ainda agricultáveis, como o Brasil, Estados Unidos, Argentina, Austrália e Índia, entre outros. O principal objetivo, lançado pela ONU, era aumentar a produção de alimentos para fazer frente ao rápido crescimento da população mundial, principalmente nos países pobres, depois da 2ª Grande Guerra. A grande demanda por produtos para a agricultura fez com que grandes empresas do setor químico desenvolvessem novas herbicidas, que durante décadas se mostraram bastante eficazes.

No entanto, ao longo dos anos, diversas espécies de ervas daninhas foram adquirindo resistência aos produtos químicos. Segundo a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o problema é mundial. 252 ervas daninhas já se tornaram tolerantes a herbicidas atingindo 92 culturas agrícolas, semeadas em 69 países (jornal Valor de 3/11/2017). No Brasil, as espécies que são imunes aos herbicidas são: a buva, o capim-amargoso, azevem, capim-pé-de-galinha, cloris e caruru. O problema já está provocando o aumento nas despesas de produção de diversas commodities agrícolas, como a soja, por exemplo, cujo custo poderá mais que triplicar, devido à necessidade de maior uso de herbicidas e da queda da produtividade.

O fenômeno é mundial, tendo sido identificado em diversos países a partir dos anos 1990. Junto com o já conhecido impacto ambiental dos herbicidas, representa um dos maiores desafios do setor agrícola. Agora, a maior preocupação de organismos internacionais e governos é saber em que velocidade mais de ervas daninhas se tornarão imunes aos herbicidas atualmente disponíveis, e qual será o impacto disso na produção de alimentos. 
(Imagens: igrejas barrocas brasileiras) 

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