Os rios e o rio Tietê

sábado, 23 de maio de 2015
"Uma vez que os tempos não se adaptam aos nossos modestos apetites, o remédio é nos adaptarmos aos apetites do tempo."  -  Carlos Heitor  Cony  -  O ato e o fato

Os rios sempre tiveram um importante papel na história da humanidade. De acordo com sua localização, volume d'água e navegabilidade, ofereciam as condições para que os homens pudessem sobreviver às suas margens. Foi à beira dos cursos d'água que se estabeleceram as primeiras aldeias em regiões propícias à agricultura. As aglomerações cresceram, passando a reunir um grande número de atividades que ocupavam parte da população. Ao longo to tempo criaram-se leis, um governo central, um exército profissional e logo surgiram os primeiros estados e impérios. Foi assim que às margens do rio Nilo surgiu o império egípcio e à beira dos rios Tigre e Eufrates surgiu o império babilônico.
Outros rios eram propícios ao escoamento de mercadorias produzidas ao longo de seu curso, tornando-se rota de comércio e ligação entre cidades e regiões. O rio Reno, localizado na Europa Central, tem estas características. Já na Idade Média o Reno era navegado por comerciantes da Liga Hanseática que faziam o comércio de mercadorias, ligando o Mediterrâneo e o Mar do Norte. O rio Volga, na Rússia e o Tamisa, na Inglaterra, tiveram e ainda têm a mesma função.
Em São Paulo o rio Tietê, correndo da costa para o interior, foi utilizado como via de acesso às terras desconhecidas; o sertão. A exemplo de outros rios como o Mississipi, nos Estados Unidos, o Paraná e o Uruguai, na região da bacia do Prata, o rio Tietê tornou-se o caminho de acesso às regiões inexploradas do oeste do país. Foi através dele que as bandeiras alcançaram o ouro de Minas Gerais e de Goiás e povoaram parte do interior de São Paulo.
O rio Tietê há muito perdeu sua função de via de acesso ao interior do país. A construção de ferrovias no início do século XX e a expansão da malha rodoviária na década de 1950, fizeram com que diminuísse a importância do rio para o transporte. A partir dos anos 1980 o rio voltou a ser importante meio de transporte de produtos agrícolas e minerais, com a construção de eclusas que facilitaram sua navegação.
A partir do final do século XIX o Tietê começou a ser utilizado para diluir os esgotos da crescente cidade de São Paulo. A poluição do rio começou a se fazer notar a partir dos anos 1920, quando a população da cidade começava a ultrapassar os 700 mil habitantes. Com isso a captação de água do rio para bairros da região norte teve que ser gradualmente interrompida. Nos anos 1930 as atividades recreativas realizadas no Tietê tiveram que ser suspensas devido ao mau cheiro das águas.  
Em 1992 teve início um ambicioso projeto de despoluição do rio Tietê, coordenado pela SABESP, a companhia de saneamento do estado. No entanto, apesar das promessas das autoridades nos últimos 20 anos, o rio Tietê continua relativamente poluído no trecho entre Mogi das Cruzes e Barra Bonita (cerca de 230 km). A poluição mais forte, onde o nível de oxigênio na água é de 0 a 2 mg de oxigênio por litro - considerado praticamente morto - se concentra entre Guarulhos e Bom Jesus de Pirapora, numa extensão de cerca de 70 quilômetros.
As obras de saneamento continuam avançando, mas não existe uma previsão de término. Cerca de 40% do esgoto gerado pela cidade e centenas de córregos poluídos ainda deságuam no Tietê. Lixo e entulho ainda são carregados pela correnteza em direção ao interior; triste paródia das monções que partiam da vila de São Paulo no passado.
(Imagens: xilogravuras de Oswaldo Goeldi)

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