O valor dos livros

domingo, 10 de junho de 2012

"Se há vida depois da morte eu sei que, pra chegar lá, vou ter dificuldade em pegar taxi, encontrar carregador, chegar ao balcão correto de check-in - na minha frente haverá uma família com problemas de comunicação e excesso de peso, os lugares para os fumantes estão esgotados, o vôo atrasado em pelo menos duas horas  e todas as cadeiras disponíveis no saguão de espera ocupadas."  -  Ivan Lessa  -  Ivan vê o mundo - Crônicas de Londres

(Ray Bradbury e Ivan Lessa in memoriam)

Faleceu no último dia 5 de junho, aos 91 anos, o escritor americano Ray Bradbury. Autor de histórias de ficção científica e horror, Bradbury começou sua carreira escrevendo para revistas populares de ficção científica, no final dos anos 1930. Apesar de ter sido um divulgador do tema durante toda a sua vida, Bradbury sempre teve uma visão crítica da ciência, apontando seus perigos para a liberdade individual quando mal usada.
Nunca freqüentou uma universidade, mas sempre foi um grande leitor, tendo declarado certa vez: “Me criei com as bibliotecas. Eu não acredito em faculdades e universidades. Eu acredito em bibliotecas porque a maioria dos estudantes não tem nenhum dinheiro. Quando me formei do ensino médio era o tempo da Depressão e não tínhamos dinheiro. Eu não podia ir para a faculdade, então eu fui para a biblioteca, três dias por semana, durante dez anos.” Grande entusiasta dos livros, Bradbury liderou várias campanhas para levantar fundos a fim de evitar o fechamento de bibliotecas públicas, no estado da Califórnia.
É significativo que a mais famosa história do autor, Fahrenheit 451, escrita em 1953 e filmada pela primeira vez por François Truffaut em 1966, trate de uma sociedade futura onde o uso e a posse de qualquer tipo de livro era proibida. Os livros eram queimados – daí o título da história, a temperatura do fogo na escala Fahrenheit. Bradbury também foi roteirista de diversas séries para a televisão, como Além da Imaginação (Twilight Zone), dos anos 1950 e o Teatro de Ray Bradbury (The Ray Bradbury Theatre), apresentando entre os anos 1980 e 1990. 
A vida e a obra de Ray Bradbury mostram o valor do livro na sociedade americana, como instrumento para adquirir conhecimento e mudar a realidade social. Nos Estados Unidos existem cerca de 122 mil bibliotecas públicas para uma população de 312 milhões de habitantes; ou seja, uma biblioteca para cada 2,6 mil americanos. Comparativamente, existe na Argentina uma biblioteca para cada 17 mil habitantes; no Brasil uma para cada 33 mil pessoas.
Ainda estamos longe de sermos uma sociedade que valoriza o livro. O idealismo em relação à força transformadora da cultura, expressa por Monteiro Lobato na frase “Um país se faz com homens e livros”, foi esquecido; suplantado com o advento da televisão de cobertura nacional. No entanto, apesar de todos os avanços tecnológicos, o país ainda tem cerca de 15 milhões de analfabetos e 50% da população formada por analfabetos funcionais – pessoas incapazes de compreender textos longos e muito menos redigir uma simples carta. Mesmo os nossos universitários não têm uma relação muito boa com os livros. Segundo pesquisa realizada em 2011, os estudantes de cursos superiores lêem, em média, um a quatro livros ao ano (o que dá uma média de 2,5 livros ao ano). Comparativamente, o cidadão americano médio (não necessariamente universitário) lê 5,1 livros por ano e o chileno 5,4 livros.  
Ainda vivemos em um país que pouco valoriza o conhecimento. No melhor dos casos, existe a formação profissional, adquirida para desempenhar uma profissão, função, ou cargo – uma profissionalização e só. Nada a ver com a cultura, variedade de conhecimentos que proporcionam uma visão melhor do mundo e que só podem ser adquiridos pela leitura constante.
Em tempo: pesquisando para este artigo nos deparamos com a notícia da morte do jornalista e escritor Ivan Lessa, dia 8 de junho, aos 77 anos. O autor vivia em Londres desde 1978, auto-exilado ainda no período da ditadura militar. Lessa escrevia para vários jornais e revistas e foi um dos colaboradores do antológico jornal O Pasquim, nos anos 60 e 70. Escreveu três livros, dentre os quais Ivan vê o mundo – que com certeza a maioria dos universitários brasileiros não leu, nem nunca ouviu falar.
(Imagens: fotografias de bibliotecas famosas)

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