As bactérias da Mata Atlântica

domingo, 3 de junho de 2012
"A vida depois da morte não pode ser muito pior que a vida antes do nascimento." "Não existe soberba maior do que aspirar à eternidade."  -  Jorge Wagensberg  -  Pensamentos sobre a incerteza

As bactérias são os organismos vivos mais antigos, tendo surgido há aproximadamente 3,8 bilhões de anos. Possuem a maior variedade de espécies e maior quantidade de indivíduos sobre a Terra. Estes pequenos organismos, além de serem causadores de moléstias como o tétano, a tuberculose, o tifo, a pneumonia entre outras, também são o responsáveis pela fermentação da farinha, do vinho, pela degradação de resíduos orgânicos, pelo processo de fixação de carbono nos oceanos. 
Um estudo realizado em 2006 já havia feito algumas descobertas importantes com relação às bactérias que habitam a Mata Atlântica. A pesquisa demonstrou que as plantas desta floresta possuem uma grande diversidade de bactérias e que cada espécie de árvore dispõe de sua comunidade distinta e única, formada por centenas de espécies de bactérias. Agora, um novo programa de pesquisa coordenado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) vem fazendo uma série de novas descobertas sobre a interação das árvores da floresta e as bactérias. Segundo artigo publicado na versão eletrônica do boletim informativo Agência FAPESP, as bactérias que habitam uma espécie de árvore são diferentes das que habitam outras. Cada parte da planta tem uma comunidade específica destes microorganismos; na folha, na casca ou na raiz, as bactérias não se repetem. Somente nas folhas das plantas, foram encontradas de 30 a 600 espécies bacterianas distintas, dependendo da espécie vegetal. “Se computarmos a totalidade dessa diversidade, concluímos que cada espécie de planta pode ter mais de 2 mil espécies de bactérias associadas. Uma diversidade gigantesca sobre a qual não conhecemos praticamente nada”, diz Márcio Rodrigues Lambais, professor do Departamento de Ciência do Solo da ESALQ e coordenador do programa de pesquisa.
O estudo também descobriu que comparativamente o tipo de bactéria que vive em plantas cultivadas é bem diferente daquelas que vivem em vegetais das florestas. As bactérias associadas a plantas cultivadas são adaptadas a viver em um ciclo de vida mais rápido e sob outras condições de solo, temperatura, umidade e insolação. No entanto, como as bactérias variam de acordo com a espécie de vegetal, uma área cultivada tem necessariamente menos espécies de bactérias do que a floresta. Assim, em dez hectares cultivados com cana-de-açúcar vivem 50 bactérias associadas à cultura; ao passo que na floresta, onde vivem 200 espécies de vegetais por hectare, existem dez mil espécies de bactérias.
Ainda restam muitas dúvidas sobre o papel das bactérias nos ecossistemas da Mata Atlântica. Um das funções do microorganismo, segundo os cientistas, é a fixação de nitrogênio, elemento essencial para o crescimento do vegetal e não disponível no solo da floresta. Algumas destas bactérias também possuem a capacidade de produzir substâncias antibióticas, o que talvez seja uma explicação porque as árvores da floresta raramente ficam doentes, ao contrário das plantas cultivadas.
Ainda há muito por pesquisar no rico bioma da Mata Atlântica. Estudos como estes podem nos trazer novas respostas, úteis na medicina, na agricultura, na biologia e em diversas outras áreas do conhecimento humano. Por isso é importante conservar o que ainda resta da Mata Atlântica, que correrá maior risco com a mudança do Código Florestal Brasileiro.  
(Imagens: fotografias de Erich Hartmann)

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