Dengue e meio ambiente urbano

sábado, 3 de maio de 2014
"O filosofar de Kierkegaard tem um caráter introdutório, provisório, preparatório, porque Kierkegaard nega a todo texto filosófico, inclusive aos seus próprios, o direito de poder se passar por portador da verdade."  -  Boris Groys  -  Introdução à antifilosofia

Em meados de março de 2014 o Ministério da Saúde divulgou dados, informando queda de 80% nos casos de dengue no primeiro bimestre do ano em comparação com 2013, ano que em foram notificados dois milhões de casos – o maior número até agora. A boa notícia, no entanto, teve curta duração já que em início de abril foi detectado um aumento de 55% nos casos da doença na cidade de São Paulo.
Não se tem certeza da origem da doença, mas há suspeita de que esta se espalhou pelo mundo a partir da África, já que o mosquito transmissor da dengue Aedes aegypti é originário deste continente. Existem casos de epidemias com características semelhantes à dengue, ocorridas na China do século V; e no Egito, Índia, Indonésia e Estados Unidos, todas no final do século XVIII. Descrições fidedignas da doença aparecem em meados dos anos 1950, no Sudeste Asiático, no Pacífico Sul, na América Latina, nas Caraíbas e na África. Atualmente, com a rápida circulação de pessoas e produtos in natura (frutas, legumes e verduras) a transmissão da doença é cada vez mais rápida e extensa, bastando que existam condições propícias para a procriação do inseto.
No Brasil a doença já existe provavelmente deste o período colonial, quando navios traficantes de escravos, vindos da África, trouxeram o mosquito. Depois disso, ao longo dos séculos XVIII, XIX e início do XX, surtos de dengue ocorreram em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. O médico sanitarista Oswaldo Cruz deu início a um programa de combate ao mosquito no início do século XX, no Rio de Janeiro, e nos anos 1950 o governo federal anunciou a erradicação do mal no Brasil. No entanto, a partir dos anos 1980 a doença volta a se espalhar, principalmente no Rio de Janeiro e no Nordeste. Atualmente, com o gradual aumento da temperatura média provocada pelas mudanças climáticas, a área de abrangência da dengue vem aumentando, atingindo até os estados da região Sul.  
Segundo os infectologistas, existem quatro sorotipos do vírus da dengue no País. Cada um deles pode sucessivamente infectar a mesma vítima – fato que faz com que aumente gradualmente o índice de óbitos provocados pelo mal. Pesquisadores brasileiros fizeram um estudo sobre a doença entre 2000 e 2010, com o objetivo de compreender seu desenvolvimento. O estudo mostrou, por exemplo, que entre 2000 e 2010 mais de 8,5 milhões de pessoas foram infectadas. Destes casos, 221 mil se tornaram graves, resultando em três mil mortes. Neste período o Brasil foi o país com maior numero de casos da doença em todo o continente americano.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) há anos insiste na estreita relação entre a proliferação da dengue e a situação sanitária do país. Esgotos não tratados a céu aberto, acúmulo de lixo em ruas e lixões, criam o ambiente propício para a reprodução do mosquito Aedes aegypti. Com relação a estes dois aspectos, é chover no molhado falar mais uma vez das sofríveis condições do saneamento – tratamento de água e de esgotos – e da gestão dos resíduos urbanos no País. Outro fator que contribui para a proliferação do mosquito é o desrespeito às normas técnicas de construção em imóveis, fato comum na maior parte das grandes cidades. Lajes, “puxadinhos”, construções inacabadas e mal executadas, também se tornam criadouros do inseto, espalhando a doença. A dengue tem origens principalmente nas péssimas condições ambientais urbanas.
(Imagens: fotografias de Ikko Narahara)

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