Saudades da natureza

sábado, 10 de maio de 2014
"As pessoas não sabem fazer uso do tempo livre; não foram treinadas para isso. A gente vive na cultura do trabalho. E a vida torna-se terrível na cultura do trabalho quando não se tem emprego."[...] "É como se o indivíduo devesse sempre estar produtivo, como se fosse uma falta grave ficar sem fazer nada. A reflexão e a leitura, por exemplo, são atividades lentas para o ritmo da vida hoje, então, não são bem-vistas."  -  Flávio Gikovate e Renato Janine Ribeiro  -  Nossa sorte, nosso norte - Para onde vamos?

Quase todo o tempo de sua existência como espécie o homem viveu em meio à natureza. Nossos primeiros antepassados, da espécie homo habilis, surgiram há aproximadamente 2,5 milhões de anos na África e habitavam um ambiente de savana. Nesta vegetação, parecida com o Cerrado brasileiro, se desenvolveram os primeiros grupos de hominídeos, que mais tarde se espalharam por grande parte do continente africano. Depois, ao longo de sua evolução, nossos ancestrais saíram da África e se espalharam pela Ásia e Europa, chegando a alcançar a Austrália e as Américas. Ao mesmo tempo em que se adaptavam aos novos ambientes – os desertos, as florestas tropicais, terrenos montanhosos, savanas e florestas temperadas – os hominídeos também sofreram mutações, até o surgimento de indivíduos completamente humanos, há cerca de 160 mil anos.
O meio ambiente natural era o único conhecido pelo homem. Até há cerca de oito mil anos nossos antepassados não praticavam a agricultura nem a criação de animais – talvez a única exceção seja o cão, domesticado há mais de 20 mil anos. As fontes de alimentação eram a caça, pesca e a coleta de vegetais. Os poucos grupos humanos então existentes vagavam pela Terra, sempre à procura de alimentos, muitas vezes habitando extensas florestas durante várias gerações. Os grandes bosques temperados ou tropicais eram ambiente com grande oferta de alimentos, abrigo e madeira para fazer fogo.
Quando nossos antepassados inventaram a agricultura deixaram aos poucos de depender da floresta. Esta agora era derrubada; os pântanos aterrados e drenados, dando lugar a extensas culturas de trigo, aveia, milho, arroz, batata doce, dependendo das plantas disponíveis na região onde se estabeleceram os grupos humanos. Surgiram os celeiros coletivos para guardar a colheita, os locais de oferenda aos deuses e aos poucos apareciam as primeiras aldeias e os diversos tipos de artesãos. Logo as sociedades se tornariam mais complexas e se organizariam em estados. Assim estava definitivamente estabelecida a fronteira entre a cultura humana, representada pela aldeia, e a e a natureza, formada pela floresta e a estepe. A oposição entre o ambiente criado pelo homem e aquele do qual era originário.
Para não depender somente da natureza, nossa espécie inventou a agricultura, a religião, as cidades, as leis, o estado e a tecnologia, desde aproximadamente oito mil anos passados. Estas inovações podem ter surgido em épocas diferentes no Egito, na China, no México ou na Europa, mas suas mais remotas origens não ultrapassam esta data. Simplificando, podemos dizer que apenas durante 5% (oito mil anos) do tempo de sua existência (160 mil anos) o homem vive apartado do ambiente natural de onde surgiu.

Mesmo assim, no fundo do nosso inconsciente coletivo, ainda sentimos saudades do ambiente florestal: as árvores, a luz do sol penetrando por entre as folhas, o vento soprando por entre os ramos, o ar úmido, o som das aves e muitas outras sensações, dependendo da psicologia de cada pessoa e da região originária de seus antepassados (moravam em região de floresta?). Esta talvez seja a razão por que cientistas americanos da universidade de Winsconsin descobriram recentemente que áreas verdes ajudam a evitar estresse, depressão e ansiedade e pessoas vivendo em regiões de floresta são mais felizes do que as que moram em cidades cinzentas.
(Imagens: fotografias de Enrico Natali)

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