Sartre e a liberdade

domingo, 2 de janeiro de 2011
"Com isso, conclui-se que o entendimento pode instruir-se e formar-se por regras, mas o juízo não. Ele é um dom individual que não pode ser aprendido, mas que se exerce." - Immanuel Kant - Crítica da Razão Pura

O pensamento de Sartre parte da fenomenologia de Husserl. Na fenomenologia Sartre vê a possibilidade de pensar a consciência e o mundo não como duas entidades isoladas uma da outra, mas como estrutura básica da intencionalidade, como possibilidade de conservar ao mesmo tempo a soberania da consciência e o peso realista do mundo. Seguindo a linha de Husserl, Sartre elimina a dicotomia entre o fora e o dentro, o mundo da intencionalidade, da psique, e o mundo dos dados positivistas.
Em sua consciência, o homem está direcionado para algo que não é ele próprio, ou seja, em sua consciência está sempre fora de si; voltado para fora de si mesmo. Disso resulta que na concepção de Sartre a consciência do homem, o “ser-para-si”, é vazia, baseado no nada (melhor seria dizer no “vazio”). Com isso, Sartre deduz que o homem não é determinado por uma essência anterior, algum tipo de “natureza humana”, seja do tipo que for. Ao contrário, como a consciência do “ser-para-si” é vazia, e direcionada para o mundo, para um “ser que não é o que ele é”, o homem é determinado por sua existência e só cria uma essência a partir de seus projetos e de suas ações, de sua relação com o mundo – o “ser-no-mundo”.
É a partir desta estrutura, segundo Sartre, que o homem pode ser efetivamente livre. Para Sartre, como para outros existencialistas, existir é para o homem fixar alvos, persegui-los, projetar-se a si próprio em direção ao futuro. É ultrapassando os obstáculos que impedem a consecução destes objetivos, que o homem é livre. É através do transcender dos obstáculos que o “ser-para-si”, com base no nada (vazio) de sua existência, é livre a cada momento – já que Sartre nega o efeito de condicionamentos passados sobre a consciência. Desta forma Sartre afirma que “o homem é condicionado a ser livre”; por sua própria condição ontológica. Mas a liberdade só se forma através do confronto, do embate; daquilo que Sartre chama de “situação”, obstáculo. Por isso o filósofo afirma que “só existe liberdade em situação e só há situação por meio da liberdade”.
A questão da responsabilidade é tema importante para o existencialismo, principalmente em Sartre. Para o existencialismo, o homem é mais livre quando se vê obrigado a escolher. A liberdade, além de ser inerente ao homem é valiosa, porque através dela o homem pode exercer sua dignidade e triunfar sobre a infelicidade, à qual é condenado pela vida. E a liberdade escolhida implica assumir responsabilidades, assumir riscos. Em Existencialismo é um humanismo, Sartre escreve: “O homem não é nada mais do que ele objetiva, ele só existe enquanto se realiza, ele é por isso, nada mais do que a soma de suas ações, nada mais do que a sua vida” (Sartre apud Kaufmann, 1989 – tradução nossa). O argumento de Sartre é de que a completa liberdade de que gozamos – ou melhor, à qual estamos condenados – faz com que sejamos totalmente responsáveis por tudo aquilo que pensamos e fazemos. Escreve Sartre em Ser e Nada: “Sou o responsável por tudo, de fato, por minha responsabilidade mesmo, pois não sou o fundamento de meu ser. Portanto, tudo se passa como se eu estivesse coagido a ser responsável”. (Sartre, 2007).
Enxergando a questão da liberdade e da responsabilidade sob uma ótica diferente de Sartre, concluímos que somos limitados por uma série de fatores. Aspectos genéticos, sociais, psíquicos, fazem com que sejamos seres condicionados em diversos aspectos, portanto limitados em nossa liberdade. O próprio conceito de liberdade de Sartre tem suas origens em Kant, “quando este definia a liberdade como o poder de começar por si mesmo uma série de modificações. Estas palavras – “por si mesmo” – conduzidas à sua verdadeira significação, querem dizer “sem causa antecedente”, o que é idêntico a “sem necessidade” (Schopenhauer, s/d, p. 36). Muito semelhante à consciência a partir do “nada” ou “vazio”, de O Ser e o Nada. Este tipo de “consciência” preconizada por Sartre mais parece uma peça do vasto (e ainda inesgotável) mostruário da metafísica.
Por outro lado, a responsabilidade pertence ao campo da ética, da moral, assim como a justiça e a tolerância. Desta forma, mesmo não existindo uma liberdade plena – e assim dirão alguns que não somos responsáveis pelos nossos atos – devemos afirmar a responsabilidade como valor social e individual, sem o qual o funcionamento das sociedades não seria possível.
Bibliografia:
FELISCHER, Margot. Org. Filósofos do século XX. São Leopoldo, Ed. Unisinos: 2000, 334 p.
KAUFMANN, Walter. Existentialism from Dostoievsky to Sartre. New York. Penguim Books: 1989, 384 p.
OLSON, Robert G., Introdução ao existencialismo. São Paulo. Ed. Brasiliense: 1970, 251 p.
SARTRE, Jean Paul. O Ser e o Nada. Petrópolis. Editora Vozes: 2007, 773 p.
SCHOPENHAUER. Arthur. O livre arbítrio. Rio de Janeiro. Ediouro: s/d, 123 p.
(imagens: José Pancetti)

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