A história, os fatos e a interpretação

terça-feira, 1 de novembro de 2011
 "Para impedir a exploração do homem pelo homem, precisamos de dinheiro, dinheiro, mais dinheiro!" [...] "Você fala da dignidade do homem? Tratemos ao menos de salvar a cara. A dignidade não é senão as costas."  Eugene Ionesco  - As cadeiras

São diversas e infindas as causas dos fatos históricos; analisar-lhes as origens principais implica um posicionamento cultural, político e ideológico. A própria classificação de algo como fato histórico já remete a uma determinada maneira de interpretar os fatos passados. A maneira mais tradicional – que remonta a Tucídides (460 a.C.– 400 a.C.) com sua História da Guerra do Peloponeso e a Heródoto (485 a.C. – 420 a.C.) com As histórias de Heródoto – é o relato de fatos relevantes, envolvendo personagens importantes ou até aspectos estranhos e bizarros, como ocorre algumas vezes nos escritos de Heródoto, despertando a imaginação de leitores e ouvintes.
O registro da história surgiu dentro do universo da cultura grega. Não que outras civilizações – como os sumérios, assírios, babilônios e egípcios – não mantivessem um registro dos fatos passados. Mas as compilações destes povos não tinham caráter pedagógico; não se procurava tirar algum ensinamento dos fatos passados. Os registros das batalhas realizadas por determinado soberano listando número de prisioneiros, quantidade de cidades incendiadas ou o nome dos filhos, têm essencialmente um caráter propagandístico. Não existe o objetivo pedagógico de ensinar à geração atual ou futura, através do registro dos fatos; o fim da compilação dos acontecimentos é político: impressionar e intimidar os contemporâneos, eventuais rivais.
Outro aspecto é que na Antiguidade os fatos realmente importantes eram as guerras, a vida dos governantes e os costumes de povos estranhos; temas que já vinham sendo tratados desde as origens da história, com Tucídides e Heródoto. Esta mesma linha de análise seguem também quase todos os historiadores romanos, como Catão, Salústio, Tito Lívio, Tácito, Suetônio e Plínio o Velho, entre outros. Em muitos casos, no entanto, como nos escritos de Salústio e Tito Lívio, a história e seu relato têm nitidamente um caráter pedagógico, visando imprimir aos ouvintes as virtudes da honra e do patriotismo.  A grande revolução na maneira de interpretar os fatos históricos aconteceu quando o cristianismo assumiu a hegemonia política – e principalmente cultural – na Europa do século IV. As culturas não cristãs – a exceção do judaísmo do qual o cristianismo é herdeiro – não enxergavam a história como tendo um sentido cósmico, global. No máximo, o desenrolar histórico – se pudesse contar com a ajuda dos deuses – visava a supremacia de certo povo sobre os outros, assim como Roma se enxergava pela pena de seus historiadores. Na ausência de uma ideologia hegemônica, compartilhada por várias nações e povos, cada cultura tinha a sua visão da limitada duração de sua própria organização social e influência sobre o meio, considerando outros povos apenas como figurantes de sua história.
Culturalmente, antes do surgimento da visão cristã da história, cada cultura tinha sua visão particular da história e não havia um centro unificador a partir do qual todas as histórias – dos povos, das cidades, das instituições e até dos indivíduos – se uniam e faziam parte de um todo. Mesmo durante o período da hegemonia romana em parte do Mundo Antigo, povos como os egípcios, gregos e judeus, não se sentiam como parte de uma história maior; a história romana. Cada povo centrado em suas próprias tradições explicava a criação do mundo, das leis, das instituições e os fatos relevantes a partir de seu próprio ponto de vista (principalmente os judeus, que a partir do retorno do exílio babilônico desenvolveram toda uma teodicéia, que incluía os outros povos, mas na qual eles mesmos se consideram o protagonista principal). A hegemonia da religião cristã e de sua doutrina universalista teve uma profunda influência na cultura. Para o cristianismo a criação do mundo e de todos os povos que o habitam tinha um objetivo único, válido para todos os tempos: a união de todos com Deus. Com o Deus cristão, evidentemente. Com a formação de uma cultura (literatura, filosofia, história) especificamente cristã, a visão que o cristianismo tem do processo histórico passa a ser incorporado pela cultura oficial. Assim, o indivíduo concreto, a sociedade a que pertence, o período histórico em que vive, as instituições que respeita e mantêm, os ideais que compartilha; tudo é visto sob a ótica da ideologia cristã, que passa a conferir um sentido ao devir histórico e ao universo. No início está a criação (da qual até o moderno conceito cosmológico de Big-Bang ainda guarda reminiscências) e no final o Juízo Final ou a Parúsia (a vinda do Cristo).
É a partir deste ponto de vista cristão, no qual todo o devir histórico tem um sentido e é dirigido por Deus para um determinado fim, que o estudo da história começa a se desenvolver. Desde o final da Antiguidade com Agostinho e sua obra A cidade de Deus, até os modernos historiadores marxistas, que substituíram Deus pela forças econômicas, o Juízo Final pela Revolução e a Parúsia pelo advento da sociedade comunista. Toda esta introdução foi para mostrar que em última instância a história é sempre uma questão de interpretação; não existe um ponto de vista absoluto. Toda a visão cristã (ou marxista) da história é somente uma maneira de ver e analisar a sucessão de fatos que se consideram importantes, e encaixá-los em determinada interpretação – como se querendo provar algo: o cristão, de que o Reino de Deus se aproxima e o socialista de que a sociedade sem classes está próxima. O historiador contemporâneo John Lukacs em seu O fim de uma era escreve: “A história é real, mas não se pode fazê-la “funcionar” por causa de sua imprevisibilidade. Um paradoxo curiosos é que, embora a ciência seja abstrata, pode-se fazê-la funcionar”. (Lukacs, 2005, p.57). Em outras palavras, pode-se dizer que o campo de aplicação da ciência – os fatos do mundo físico – permite a repetibilidade. Qualquer um, munido de instrumentos e conhecimento necessários, poderá repetir as experiências científicas e deve chegar às mesmas conclusões que a ciência. Se não chegar, talvez tenha descoberto um erro na teoria científica oficialmente aceita e seja aí que ocorrerá a mudança de um paradigma científico. Com relação aos fatos históricos (considerados) relevantes o mesmo não ocorre. Assim, na impossibilidade de comprovar as principais causas de um fato e premido pela necessidade de compreender, a mente do homem passa a interpretar.
Não se trata de discutir a comprovação da existência dos fatos considerados históricos, não é esta a questão. É perfeitamente demonstrável que a tomada da cidade de Constantinopla pelos turcos comandados pelo sultão Maomé II, finalizando a destruição do Império Romano do Oriente, se deu no dia 29 de maio de 1453. A interpretação começa quando se quer determinar as principais consequências da queda de Constantinopla – uma delas, por exemplo, fixando aleatoriamente a data como o final da Idade Média.
O objetivo deste comentário é lembrar que os fatos históricos merecem ser tratados com um pouco de ceticismo, já que o que se coloca como história oficial, é um relato em grande parte influenciado por interesses de grupos e ideologias. 
Bibliografia:
BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental – Vol II. Porto Alegre. Editora Globo: 1971, 1052 p.
LUKACS, John. O fim de uma era. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor: 2005, 216 p.
(Imagens: Georges Braque)

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