A filosofia e sua interação com a educação: Sócrates, Platão e Aristóteles

terça-feira, 22 de novembro de 2011
"Aqueles que ignoram a natureza das coisas e não têm dela outra idéia a não ser a que eles concebem com a ajuda da imaginação (que tomam por entendimento) formulam uma ordem no mundo que acreditam ser como eles a imaginam."  -  Anônimo do século XVIII  -  A vida e o espírito de Baruch de Espinosa

A Apologia de Sócrates apresenta o julgamento do filósofo Sócrates e sua defesa perante seus juízes. É acusado de que “pesquisa sem discrição o que existe sob a terra e nos céus, de fazer que prevaleça a razão mais fraca e de ensinar aos outros o mesmo comportamento”. Em outras palavras, acusam Sócrates de negar os deuses e de ensinar estas teorias aos jovens, desviando-os dos costumes dos antepassados.
Sócrates começa sua defesa dizendo que, ao contrário dos sofistas, não cobra pelo seu ensinamento. Além disso, nada ensina, já que afirma que “sabe que nada sabe”. O que faz é dialogar na rua com todos os que o procuram; ricos ou pobres, instruídos ou tolos, porém certos de que possuem um conhecimento definitivo.
Os acusadores do filósofo insistem em acusá-lo de ateísmo, mas Sócrates afirma acreditar nos deuses “se bem que não sejam os deuses do povo”. Em sua defesa afirma que mesmo sob perigo de vida, não deixaria de filosofar. Confirma a importância do conhecimento ao responder aos seus acusadores: “Meu caro, tu, ateniense, da cidade mais importante e mais renomada por sua cultura e poderio, não te envergonhas de tentares adquirir o máximo de riqueza, fama e honrarias, e de não te importares nem cogitares da razão da verdade e de melhorar quanto mais tua alma” (Platão, 1999, pág.56).
Ainda em sua defesa, Sócrates afirma nunca ter sido mestre de ninguém, apesar de não ter se oposto a que o ouvissem. Desta forma, tornou-se mestre do questionamento. Não estabeleceu doutrinas ou criou sistemas, apenas ensinou a perguntar, algo muito semelhante ao moderno método científico.
O início do livro VII da República de Platão descreve o universalmente famoso e citado mito da caverna. A alegoria é, provavelmente, a mais citada em toda a história da filosofia. O personagem principal de todo o livro da República é o mestre de Platão, Sócrates, que é transformado em arauto das idéias de Platão.
O mito da caverna discute basicamente a percepção e os pensamentos que têm pessoas que vivem acorrentadas no fundo de uma caverna, e que de nosso mundo exterior só enxergam as sombras projetadas na parede de sua prisão, escutando as vozes e os ruídos.
Um dos prisioneiros da caverna consegue escapar para o mundo exterior e com o que vê altera toda a sua percepção da realidade. Compreende então, que aquilo que via em sua caverna eram apenas toscas impressões do mundo real. No texto de Platão, Sócrates comenta a libertação de um preso da caverna: “ Considera agora o que lhe acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados de sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz; ao fazer todos estes movimentos, sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-à de distinguir objetos de que antes via as sombras. Que acha que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até agora senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza?” (Platão, 2004, pág. 226). 
Em seguida Platão, pela boca de Sócrates, expõe suas teorias sobre o supremo bem, fonte da verdade e da inteligência e necessário para se comportar com sabedoria na vida privada e na vida pública. O bem, para Sócrates, surge quando a alma se afasta das trevas (novamente a analogia da saída da caverna com a ascensão para o bem) e do que se altera (o contingente da existência humana) e se torna capaz de visualizar o que há de mais luminoso no Ser, ou seja, o Bem.
Para Platão no livro República – especificamente no Livro VII – a educação é um processo de aprimoramento constante que visa capacitar certos cidadãos a desempenharem tarefas políticas importantes no governo da polis. Mas, este privilégio não é concedido a todos, mesmo dentre aqueles que se dedicaram ao aprendizado: “Não é igualmente verossímil, de acordo com que dissemos, que nem as pessoas sem educação, sem conhecimento da verdade nem as que deixamos passar toda a vida no estudo são aptos para o governo da cidade, umas porque não tem nenhum objetivo determinado a que possam referir tudo o que fazem na vida privada ou na vida pública, as outras porque não consentirão em encarregar-se disso, julgando-se já transportadas em vida para ilhas dos mais afortunados?” (Platão, pág.230).
Pelas palavras de Sócrates, Platão argumenta que a educação dos futuros governadores se fará com uma educação voltada para valores mais elevados, afastando-os das preocupações com os bens materiais. Mas, para chegar a governadores os cidadãos deverão passar por várias fases, sendo que somente alguns passarão por todo o processo educativo. Terão que percorrer a fase de guerreiros e como tal aprenderão a ginástica e a música. Em uma etapa seguinte aprenderão a matemática e a geometria. Os que apresentarem mais aptidões neste processo, aprofundarão seus conhecimentos, como diz Sócrates: “Seria excelente, portanto, Glauco, impor este estudo por uma lei e persuadir os que têm de desempenhar altas funções públicas a dedicarem-se à ciência do cálculo, não de modo superficial, mas até chegarem à contemplação da natureza dos números pela pura inteligência e a se dedicar a esta ciência não por interesse de vendas e das compras, como os negociantes e os mercadores, mas da guerra, e para facilitar a ascensão da alma do mundo da geração para a unidade da essência” (Platão, pág. 238).
Ao final do processo, o objetivo desta formação proposta por Platão é possibilitar uma visão panorâmica de todas as ciências, como fala através de Sócrates: "Tenho para mim  que, se o estudo de todas as ciências que examinamos  conduz à descoberta das relações e do parentesco existente entre elas e mostra  natureza do elo que as une, este estudo nos ajudará a alcançar o objetivo que nos propomos, e o nosso trabalho não terá sido inútil; caso contrário teremos labutado em vão” (Platão, pág. 245). Munido deste domínio das ciências, o aluno estará preparado para aprender o método dialético que se propõe “sem o auxílio de nenhum sentido, mas por meio da razão, alcançar a essência de cada coisa e não se detêm antes de ter apreendido apenas pela inteligência a essência do bem...” (Platão, pág. 246).
A dialética é pois “a conclusão suprema dos estudos” e aqueles que se dedicam a este estudo serão, depois de um longo e cuidadoso processo de seleção, os governantes da polis, como diz Sócrates: [...] ”Então, quando tiverem vislumbrado o bem em si mesmo, usá-lo-ão como um modelo para organizar a cidade; os particulares e a sua própria pessoa, cada um por sua vez, pelo resta da sua vida” (Platão pág. 255).  
O livro VII da República descreve um verdadeiro processo educacional, destinado a formação do cidadão, se aplicado ao indivíduo e à formação do estadista, se aplicado à sociedade.
Para Aristóteles, na abertura de sua “Ética a Nicômaco” toda atividade tem um fim. Por outro lado, o fim último de todas as coisas que fazemos (já que o processo não é infinito) é o bem, ou melhor, o sumo bem. O conhecimento deste bem tem grande influência sobre nossa vida. A ciência política é a ciência que estuda o sumo bem; que determina quais ciências cada cidadão deve aprender. Portanto, segundo Aristóteles, já que a ciência política tem tanta influência, legislando sobre ações, sobre a finalidade das outras ciências, sua finalidade deve ser o bem humano. Ao determinar o objeto de estudo da ciência política deduz que este é a felicidade. Mas, resta estabelecer o que é a felicidade, a vida feliz, já que existem diversas opiniões, de acordo com o grau de educação do indivíduo. Desta forma, estabelece Aristóteles que existem três tipos de vida: a vida dos prazeres, a vida política e a vida contemplativa.
Mencionando os diversos tipos de bens considerados pelos diversos tipos de pessoas, Aristóteles chega a conclusão de que o bem “não é uma espécie de elemento comum que corresponde a uma Idéia única”. Desenvolvendo seu argumento e apontando as diversas concepções de felicidade, o Estagirita afirma que: “A felicidade é, portanto, a melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo, e esses atributos não devem estar separados como na inscrição existente em Delos “das coisas, a mais nobre é a mais justa, e a melhor é a saúde; porém a mais doce é ter o que amamos”. Todos estes atributos estão presentes nas mais excelentes atividades, e entre essas a melhor, nós a identificamos como felicidade.” (Aristóteles, 2002, pág.30).
Em seguida, Aristóteles se pergunta se a felicidade deve ser adquirida pelo aprendizado, pelo hábito ou se ela nos é dada por alguma providência divina ou pelo acaso. Deduz então que a felicidade não vem do exterior, mas está ligada à disposição interna do sujeito. Mesmo que sofra desgraças ou desventuras, recuperará em pouco tempo sua felicidade. Deste modo, a felicidade, o objeto de estudo da ciência política, está ligada à virtude e o “homem verdadeiro político é aquele que estudou a virtude acima de todas as coisas, visto que ele deseja tornar cidadãos homens bons e obedientes às leis.” (Aristóteles, pág. 36).           
A relação entre as três obras, A Apologia de Sócrates, A República e A Ética a Nicômaco é que as três afirmam – cada uma à sua maneira – que o conhecimento filosófico visa a felicidade. Na Apologia, Sócrates menciona que o conhecimento é o verdadeiro motivo de felicidade. Ao final de sua defesa declara-se mais feliz – apesar de condenado à morte – do que seus algozes. A vida dedicada à filosofia e à virtude proporciona-lhe uma tranqüilidade perante a perspectiva concreta da morte. Na República, o objetivo de todo o processo de aprendizado é formar cidadãos sábios e virtuosos que, por sua vez, seriam felizes e, sendo governantes, fariam feliz a sociedade que administravam. Aristóteles, na Ética a Nicômano, também apresenta a felicidade como condição dos virtuosos; daqueles que se dedicam aos verdadeiros bens. Assim o político - o filósofo-administrador da República de Platão – estuda a virtude profundamente, já que quer tornar seus concidadãos virtuosos, ou seja, felizes.
Portanto, em última instância, o objetivo das três obras é a felicidade humana através do conhecimento correto.
Bibliografia:
Aristóteles. Ética a Nicômaco. São Paulo. Martin Claret: 2002, 239 p.
Platão. Apologia de Sócrates. São Paulo. Editora Nova Cultural: 2004, pp. 59-97
Platão. A República. São Paulo. Editora Nova Cultural: 2004, 352 p.
(imagens: Yves Tanguy)

1 comentários:

Elton Gonçalves disse...

Excelente! Obrigado!

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