Meio ambiente e Ano Novo

sábado, 16 de janeiro de 2016
"As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias."  -  Eça de Queirós  -  Páginas de Jornalismo

(publicado originalmente como newsletter janeiro/fevereiro no site www.ricardorose.com.br)

Ano novo vida nova, diz o ditado. Mas não aqui e agora. Parafraseando a expressão  tornada famosa no título do livro de Zuenir Ventura, podemos dizer em relação ao momento: "2015 o ano que não acabou".
Não acabou mesmo. Continua a pairar a ameaça de impeachment sobre a cabeça do presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre o presidente de Câmara, Eduardo Cunha, e sobre a presidente do país, Dilma Rousseff. Deputados se veem às voltas com CPIs, sendo a mais importante delas a da Petrobrás, focada no futuro (ou não) político do deputado Cunha. Enquanto isso, parlamentares do baixo clero e de pequenos partidos, circulam pelo Congresso como peixes de um cardume, levados pelas correntes dos benefícios políticos e financeiros. O governo já não tem mais nada a barganhar (não tem mais boi para jogar para estas piranhas) e pouco pode fazer para influenciar aqueles que deveriam constituir sua base de apoio político. Com isso, aprovam-se poucos projetos, não se faz o ajuste econômico - ao qual o novo ministro da fazenda, Nelson Barbosa, dará todo apoio, segundo declarou - e a economia continua caindo pela escada - uma queda que começou em 2014, se acelerou em 2015 e parece que continuará assim por longo tempo.
A economia - o mundo real que envolve a vida dos brasileiros, seus empregos e sua sobrevivência - vai mal e deverá piorar mais ainda, segundo previsões quase unânimes. Mais inflação, mais desemprego, menos investimentos produtivos, menos arrecadação, menos investimentos em infraestrutura. O governo, endividado, com rombos já previstos no orçamento para 2016, continua sem ação - reprise de 2015. As soluções baseadas em ideologias, imaginadas por grupos de apoio a Dilma para tentar melhorar a situação econômica do país - caso da CUT, MST, MTST, UNE e outros do mesmo calibre - levarão a economia a um abismo maior. Uma nova edição capenga da "nova matriz econômica" não geraria mais recursos para programas sociais, ao contrário.
Redundante dizer que com todo este imbroglio político-econômico em que nos metemos nos últimos anos, o setor ambiental também sofre. E padece de duas maneiras. Por um lado, padece com as promessas feitas e geralmente não cumpridas, por falta de recursos. Já falamos mais de uma vez nesta coluna que a linha ideológica do governo Dilma, diferente de Lula, é claramente desenvolvimentista; não se preocupa com o meio ambiente além do estritamente necessário. Sendo assim, os planos e projetos ambientais são os últimos da longa fila de prioridades do governo. Com a crise econômica, a coisa ainda ficou pior, haja vista os imensos cortes realizados no tão esquecido PAC, sigla que (ironicamente) significa Plano de Aceleração do Crescimento.
As verbas para saneamento foram cortadas, “projetos foram paralisados, quando não abandonados, entre escândalos de corrupção e o completo esvaziamento dos cofres públicos”, segundo texto no site da Federação Nacional dos Trabalhadores Celetistas nas Cooperativas do Brasil (FENATRACOOP). Os projetos para fazer cumprir as promessas de eliminação do desmatamento ilegal na Amazônia, assumidos durante a COP-21 em Paris no mês passado, ainda são apenas promessas. Afinal, ainda temos muito tempo (2030) e no momento poucos recursos.
A outra maneira pela qual os recursos naturais padecem no Brasil é o descaso como são tratados. Muito se tem escrito sobre o assunto, mas como exemplo basta citar dois fenômenos: a avalanche de lama em Minas Gerais e Espírito Santo, que destruiu praticamente seis mil quilômetros quadrados de florestas, rios, cidades, fazendas, praias e centenas de espécies; e a estiagem que afeta grande parte dos reservatórios no Sudeste e Nordeste do Brasil. Acidentes que podem acontecer, mas poderiam ser prevenidos ou minorados com melhores gestões de resíduos e recursos hídricos, por exemplo.
Estes problemas se arrastarão por 2016 afora. No plano político e econômico, qualquer solução é traumática; por um período mais curto ou mais longo. No setor ambiental – que não tem qualquer prioridade para o governo – o padecimento será muito mais longo. Com tanta desgraça, resta apenas esperar que o Estado faça valer a justiça no caso de Mariana. “2015, o ano que não acabou.”

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