Thierry Guilbert

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026


“A opinião pública, no entanto, tornou-se um objeto de crença, até mesmo um verdadeiro ‘oráculo’ consultado para estabelecer uma política de governo. Ela é o objeto de uma autêntica devoção por parte de certos jornalistas e homens políticos e, dado que realmente existe a seus olhos, ela determina seus dizeres e suas práticas que, por sua vez, validam a crença na existência de uma opinião pública. Assim, pouco a pouco, pode-se considerar que a opinião pública se tornou, para muitos cidadãos, uma crença compartilhada. Acredita-se na opinião pública como se acredita na Nação, em Deus, na Pátria, na Liberdade, etc. Emprestamos uma existência material a uma ideia, mesmo que essa materialidade exista apenas nas palavras: ela é uma ‘realidade discursiva´, assim como a Nação, Deus, a Pátria, a Liberdade etc., também o são. Posto que a opinião adquiriu uma existência discursiva e se tornou um sagrado mostrado, o analista não pode não levá-la em conta – ainda mais porque tal crença se traduz , nas práticas dos atores, por meio de discursos e atos.” 

“Trata-se de um outro meio de utilizar a opinião que consiste, para o jornalista, em não falar em seu próprio nome, mas no nome da opinião, sem, no entanto, nomeá-la explicitamente. Como o cavalo de Troia de Ulisses, a opinião permite infiltrar-se sem arrombar as mentes. Assim como o presente recebido pelos troianos não é percebido como perigoso, a opinião coletiva não é percebida como a fala do adversário, mas como aquela do senso comum – ela parece inofensiva. Outra metáfora explicativa, que não é contraditória com a trapaça antiga, é aquela da encenação: o jornalista se apaga como locutor (aquele que fala ) e toma a voz do ‘senhor todo-mundo’ , uma voz que fala em nome de todos. Ele esconde, assim, suas próprias opiniões, apresentando-as, sobretudo, como opiniões compartilhadas. No entanto, no exemplo seguinte, a opinião apresentada como partilhada é realmente aquela de ‘todo mundo’?” 

“Assim, o jornalista dá a impressão de que não faz mais do que lembrar o que cada um de nós sabe ou já pensa. No entanto, a ideia que é emitida é bem pessoal. Ela não provém de uma verdadeira fala coletiva. Há engano e usurpação da representatividade, porque o jornalista se apresenta como porta-voz ou relator de uma opinião coletiva, como se nós tivéssemos lhe dado a permissão.”  


Thierry Guilbert, sociólogo francês em As Evidências do Discurso Neoliberal na Mídia

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