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sábado, 5 de setembro de 2026

“Assim sendo, toda ideia, obra de arte, ciência, filosofia e história estão condicionadas historicamente no sentido de que são uma resposta a problemas específicos do ponto de vista histórico e refletem as preocupações de um determinado momento.”

Marnie Hugues-Warrington, historiadora, citando o filósofo Benedetto Croce 

 

Em 1959 o físico e intelectual britânico Charles Percy Snow proferiu uma palestra na universidade de Cambridge intitulada The Two Cultures and the Scientific Revolution (As duas Culturas e a Revolução Científica). A exposição, que se transformou em livro afamado, fala da divisão existente na vida intelectual do Ocidente à época, entre as ciências e as humanidades. Snow argumenta em seu discurso que a sociedade culta estava dividida entre cientistas e intelectuais das ciências humanas. Segundo o autor, entre os dois grupos havia pouco diálogo e falta de interesse nas atividades da outra área; situação que dificultava o desenvolvimento de novas tecnologias e a elaboração conjunta de soluções para enfrentar problemas globais, como a fome e a pobreza. Tratava-se, também, de uma crítica de Snow ao sistema educacional britânico, que desde o final do século XIX havia dedicado maior peso às humanidades, em detrimento das ciências exatas. Os métodos de ensino dos Estados Unidos e da Alemanha, afirmava, preparavam melhor seus alunos, dando igual importância às ciências humanas e às ciências da natureza em seus cursos.

Sobre as ciências em geral, a língua alemã possui uma nomeclatura singular em sua divisão. Existem as ciências da natureza, as Naturwissenschaften, que incluem todas as ciências relacionadas com a natureza, como a física, a biologia, química, astronomia, geologia, etc.; e as ciências do espírito ou da cultura, as Geisteswissenschaften Kulturwissenschaften, englobando todas as ciências que se ocupam do humano, de sua cultura e suas formas de expressão, como a história, a filosofia, as ciências da religião, os estudos literários, a linguística, etc. Essa classificação das ciências, já conhecida nos meios intelectuais da Europa desde o início do século XIX, foi popularizada pelo filósofo alemão Wilhelm Dilthey em sua obra Introdução às Ciências do Espírito (1883). Posteriormente, à medida que surgiam ou se aprofundavam novas áreas de estudo, criaram-se outras classificações adicionais, como as ciências sociais (sociologia, antropologia, ciências políticas, ciências econômicas, etc.) e as ciências formais (matemática, lógica, informática, etc.). Atualmente, com o avanço e a convergência crescente de disciplinas nas área das ciências humanas e da natureza, estas divisões classificatórias vão se ampliando constantemente. 

No Brasil, tradicionalmente, o sistema de ensino enfatizava as humanidades, com menor destaque para as ciências. Grande parte dos intelectuais e políticos brasileiros, desde a época imperial, tinha formação jurídica. Daí a alcunha de “império dos bacharéis”, dada ao país em algumas obras de sociólogos brasileiros. As ciências naturais não faziam parte da tradição educacional e cultural do Brasil – os primeiros cursos específicos de formação científica datam do início do século XX. As disciplinas das ciências da natureza eram pouco estudadas nas universidades até os anos 1950 pois a maioria destas instituições ministrava o chamado "tripé profissional tradicional", formado pela medicina, o direito e a engenharia. Exceção eram os cursos superiores de engenharia, que surgiram no século XIX. Outro aspecto é que até os anos 1950 o país mantinha uma economia alicerçada na agricultura, com indústria pouco desenvolvida e tecnologia aplicada ao processo produtivo de baixa complexidade. 

Com a aceleração da industrialização, ao longo dos anos 1950 e 1960, o ensino das ciências, já no nível médio, se consolidou e tornou-se obrigatório com a Lei de Diretrizes e Base, de 1961. A partir de então as ciências – física, química, biologia – passaram a integrar o currículo escolar, igualando-se ao ensino das humanidades.  

A situação mudou completamente durante o regime ditatorial (1965-1985), quando o ensino das ciências humanas se tornou secundário, tendo prioridade a formação técnica, que começa a ser requisitada num mercado de trabalho com grande oferta de postos de trabalho no setor industrial. A filosofia e a sociologia foram excluídas do ensino no nível médio também pelo fato de que, na avaliação dos governos do período, estas disciplinas estimulavam no estudante o questionamento da organização social e da reflexão política, podendo representar uma ameaça ao poder e à ordem. Pela Lei 5692/1971 a disciplina da história também ficou sujeita a mais controle, tendo sua carga horária reduzida e sendo combinada com a geografia, formando uma nova matéria escolar batizada de Estudos Sociais. Em 1974, apesar do descontentamento da população e de movimentos de contestação internos, ficou famosa a frase do presidente general Ernesto Geisel (1907-1996) que afirmava: "O Brasil é uma ilha de tranquilidade num mar de turbulências.”

Com a redemocratização do país e a promulgação da Constituição de 1988, a sociedade voltou a discutir livremente temas antes proibidos pelo regime, o que contribuiu para que o ensino das ciências humanas voltasse a tomar força na década de 1990. Depois, com a Lei 11.684/2008, tornou-se novamente obrigatório o ensino da filosofia, da sociologia e história no ensino médio.

Uma nova mudança ocorre com a promulgação da Lei 13415/2017, durante o governo de Michel Temer, que implantou nova reforma do ensino, integrando as disciplinas (filosofia, sociologia) na área das chamadas Ciências Humanam e Sociais Aplicadas, reduzindo o tempo de aula e eliminando a obrigatoriedade de que fossem ministradas como matérias isoladas. Logo depois, durante o governo Bolsonaro (2019-2023) as disciplinas da filosofia e da sociologia foram novamente desvalorizadas pelo então ministro da Educação, Abraham Weintraub, declarando que cursos como filosofia eram voltados para as elites, e que a função do Estado seria garantir o aprendizado básico, enfatizando o que já previa a reforma do ensino iniciada no governo anterior, de Michel Temer. A reabilitação das disciplinas no ensino médio ocorreu durante o governo Lula, iniciado em 2023, que promulgou a Lei 14945/2024, que entre outras mudanças voltou a assegurar a obrigatoriedade do ensino das matérias.

As constantes mudanças nas diretrizes do ensino, principalmente no nível médio, período na vida do estudante em que começa a se consolidar sua visão de mundo como cidadão, mostram que a orientação e a importância dada às matérias, sejam na área de humanas, exatas ou biociências, estão sujeitas à ideologia política dos governos do momento. Regimes liberais ou sociais-democratas geralmente dão importância a uma formação abrangente do aluno, procurando equilibrar a carga horária entre as humanidades e ciências. Administrações de orientação direitista priorizam as ciências exatas e, principalmente, a formação técnica, pouco valorizando ou até dificultando o ensino das ciências humanas – especialidades que, supostamente, podem induzir o aluno a questionar a organização da estrutura social, a política ou as relações produtivas da sociedade onde vivem.

Observam os especialistas que estudam o assunto, que o modelo de ensino que se impôs nas últimas décadas no país, está cada vez mais orientado para atender as necessidades do mercado de trabalho, ou seja, da economia capitalista. É fato que um modelo que pouco peso dá à cultura geral, adquirida em matérias como história, filosofia, sociologia, literatura, geografia, artes, etc., limita a capacidade de análise do aluno e tem como objetivo velado preparar pessoas que executam, ao invés de pessoas que analisam e, eventualmente, critiquem ou apresentem alternativas, seja para o que for. Um dos argumentos dos grupos sociais conservadores, defensores da exótica ideia da “escola sem partidos”, é que estas disciplinas são o ambiente de doutrinação política de esquerda dos alunos.    

Em suma hoje, no Brasil, já não existe mais – se é que alguma vez existiu – o antagonismo entre as ciências da natureza e as humanas, tanto no meio intelectual quanto no ensino. A impressão que se tem é que as disciplinas humanas, no ensino e na sociedade em geral, são considerados adereços, sem função prática numa sociedade voltada apenas para a realização do lucro, onde o conhecimento, se não tiver aplicações pecuniárias imediatas, é desvalorizado. A ideia de uma cultura humanística (a Bildung da cultura alemã) como parte da formação do indivíduo, foi esquecida no passado e hoje parece ser exclusividade das escolas das classes abastadas. Ao povo impinge-se o ideário de que o conhecimento que não pode transformar-se em mercadoria (qualquer coisa vendável no "mercado") tem pouco valor. Essa a  ideologia das empresas, dos meios de comunicação, do sistema. Os objetivos que se colocam para o jovem são “arranjar um emprego” ou "tornar-se empreendedor" (quando isso é possível) e, a muito custo, sobreviver para consumir e se endividar. Voos mais altos, na área das humanidades ou das artes, são reservados às elites, que não precisam se preocupar prementemente com a sobrevivência.

O filósofo e economista Karl Marx (1818-1883), no entanto, via as humanidades e as ciências humanas não como ocupação abstrata de diletantes longe da prática, mas como ferramentas de análise, compreensão e mudança da realidade social -  e não para eternizá-la. Talvez por isso sejam depreciadas por muitos.

 

 

Ricardo E. Rose, 3/09/2026

 

 

(Imagens: Leonard Koscianski Contemporary Art)

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