“Assim sendo, toda ideia, obra de arte,
ciência, filosofia e história estão condicionadas historicamente no sentido de
que são uma resposta a problemas específicos do ponto de vista histórico e
refletem as preocupações de um determinado momento.”
Marnie Hugues-Warrington, historiadora, citando o filósofo Benedetto Croce
Em 1959 o físico e intelectual
britânico Charles Percy Snow proferiu uma palestra na universidade de Cambridge
intitulada The Two Cultures and the Scientific Revolution (As
duas Culturas e a Revolução Científica). A exposição, que se transformou em
livro afamado, fala da divisão existente na vida intelectual do Ocidente à
época, entre as ciências e as humanidades. Snow argumenta em seu discurso que a
sociedade culta estava dividida entre cientistas e intelectuais das ciências
humanas. Segundo o autor, entre os dois grupos havia pouco diálogo e falta de
interesse nas atividades da outra área; situação que dificultava o
desenvolvimento de novas tecnologias e a elaboração conjunta de soluções para
enfrentar problemas globais, como a fome e a pobreza. Tratava-se, também, de
uma crítica de Snow ao sistema educacional britânico, que desde o final do
século XIX havia dedicado maior peso às humanidades, em detrimento das ciências
exatas. Os métodos de ensino dos Estados Unidos e da Alemanha, afirmava,
preparavam melhor seus alunos, dando igual importância às ciências humanas e às
ciências da natureza em seus cursos.
Sobre as ciências em geral, a língua
alemã possui uma nomeclatura singular em sua divisão. Existem as ciências da
natureza, as Naturwissenschaften, que incluem todas as ciências
relacionadas com a natureza, como a física, a biologia, química, astronomia, geologia,
etc.; e as ciências do espírito ou da cultura, as Geisteswissenschaften e Kulturwissenschaften,
englobando todas as ciências que se ocupam do humano, de sua cultura e suas
formas de expressão, como a história, a filosofia, as ciências da religião, os
estudos literários, a linguística, etc. Essa classificação das ciências, já
conhecida nos meios intelectuais da Europa desde o início do século XIX, foi
popularizada pelo filósofo alemão Wilhelm Dilthey em sua obra Introdução
às Ciências do Espírito (1883). Posteriormente, à medida que surgiam
ou se aprofundavam novas áreas de estudo, criaram-se outras classificações
adicionais, como as ciências sociais (sociologia, antropologia, ciências
políticas, ciências econômicas, etc.) e as ciências formais (matemática,
lógica, informática, etc.). Atualmente, com o avanço e a convergência crescente
de disciplinas nas área das ciências humanas e da natureza, estas divisões
classificatórias vão se ampliando constantemente.
No Brasil, tradicionalmente, o sistema
de ensino enfatizava as humanidades, com menor destaque para as ciências.
Grande parte dos intelectuais e políticos brasileiros, desde a época imperial,
tinha formação jurídica. Daí a alcunha de “império dos bacharéis”, dada ao país
em algumas obras de sociólogos brasileiros. As ciências naturais não faziam
parte da tradição educacional e cultural do Brasil – os primeiros cursos
específicos de formação científica datam do início do século XX. As
disciplinas das ciências da natureza eram pouco estudadas nas universidades até
os anos 1950 pois a maioria destas instituições ministrava o chamado
"tripé profissional tradicional", formado pela medicina, o direito e
a engenharia. Exceção eram os cursos superiores de engenharia, que surgiram no
século XIX. Outro aspecto é que até os anos 1950 o país mantinha uma
economia alicerçada na agricultura, com indústria pouco desenvolvida e
tecnologia aplicada ao processo produtivo de baixa complexidade.
Com a aceleração da industrialização,
ao longo dos anos 1950 e 1960, o ensino das ciências, já no nível médio, se
consolidou e tornou-se obrigatório com a Lei de Diretrizes e Base, de 1961. A
partir de então as ciências – física, química, biologia – passaram a integrar o
currículo escolar, igualando-se ao ensino das humanidades.
A situação mudou completamente durante
o regime ditatorial (1965-1985), quando o ensino das ciências humanas se tornou
secundário, tendo prioridade a formação técnica, que começa a ser requisitada
num mercado de trabalho com grande oferta de postos de trabalho no setor
industrial. A filosofia e a sociologia foram excluídas do ensino no nível médio
também pelo fato de que, na avaliação dos governos do período, estas
disciplinas estimulavam no estudante o questionamento da organização social e
da reflexão política, podendo representar uma ameaça ao poder e à ordem. Pela
Lei 5692/1971 a disciplina da história também ficou sujeita a mais controle,
tendo sua carga horária reduzida e sendo combinada com a geografia, formando
uma nova matéria escolar batizada de Estudos Sociais. Em 1974, apesar do
descontentamento da população e de movimentos de contestação internos, ficou
famosa a frase do presidente general Ernesto Geisel (1907-1996) que afirmava:
"O Brasil é uma ilha de tranquilidade num mar de turbulências.”
Com a redemocratização do país e a
promulgação da Constituição de 1988, a sociedade voltou a discutir livremente
temas antes proibidos pelo regime, o que contribuiu para que o ensino das
ciências humanas voltasse a tomar força na década de 1990. Depois, com a Lei
11.684/2008, tornou-se novamente obrigatório o ensino da filosofia, da
sociologia e história no ensino médio.
Uma nova mudança ocorre com a
promulgação da Lei 13415/2017, durante o governo de Michel Temer, que implantou
nova reforma do ensino, integrando as disciplinas (filosofia, sociologia) na
área das chamadas Ciências Humanam e Sociais Aplicadas, reduzindo o tempo de
aula e eliminando a obrigatoriedade de que fossem ministradas como matérias
isoladas. Logo depois, durante o governo Bolsonaro (2019-2023) as disciplinas
da filosofia e da sociologia foram novamente desvalorizadas pelo então ministro
da Educação, Abraham Weintraub, declarando que cursos como filosofia eram
voltados para as elites, e que a função do Estado seria garantir o aprendizado
básico, enfatizando o que já previa a reforma do ensino iniciada no governo
anterior, de Michel Temer. A reabilitação das disciplinas no ensino médio
ocorreu durante o governo Lula, iniciado em 2023, que promulgou a Lei
14945/2024, que entre outras mudanças voltou a assegurar a obrigatoriedade do
ensino das matérias.
As constantes mudanças nas diretrizes
do ensino, principalmente no nível médio, período na vida do estudante em que
começa a se consolidar sua visão de mundo como cidadão, mostram que a
orientação e a importância dada às matérias, sejam na área de humanas, exatas
ou biociências, estão sujeitas à ideologia política dos governos do momento.
Regimes liberais ou sociais-democratas geralmente dão importância a uma
formação abrangente do aluno, procurando equilibrar a carga horária entre as
humanidades e ciências. Administrações de orientação direitista priorizam as
ciências exatas e, principalmente, a formação técnica, pouco valorizando ou até
dificultando o ensino das ciências humanas – especialidades que, supostamente,
podem induzir o aluno a questionar a organização da estrutura social, a
política ou as relações produtivas da sociedade onde vivem.
Observam os especialistas que estudam o
assunto, que o modelo de ensino que se impôs nas últimas décadas no país, está
cada vez mais orientado para atender as necessidades do mercado de trabalho, ou
seja, da economia capitalista. É fato que um modelo que pouco peso dá à cultura
geral, adquirida em matérias como história, filosofia, sociologia, literatura,
geografia, artes, etc., limita a capacidade de análise do aluno e tem como
objetivo velado preparar pessoas que executam, ao invés de pessoas que analisam
e, eventualmente, critiquem ou apresentem alternativas, seja para o que for. Um
dos argumentos dos grupos sociais conservadores, defensores da exótica ideia da
“escola sem partidos”, é que estas disciplinas são o ambiente de doutrinação
política de esquerda dos alunos.
Em suma hoje, no Brasil, já não existe
mais – se é que alguma vez existiu – o antagonismo entre as ciências da
natureza e as humanas, tanto no meio intelectual quanto no ensino. A impressão
que se tem é que as disciplinas humanas, no ensino e na sociedade em geral, são considerados adereços, sem função prática numa sociedade voltada apenas
para a realização do lucro, onde o conhecimento, se não tiver aplicações
pecuniárias imediatas, é desvalorizado. A ideia de uma cultura humanística
(a Bildung da cultura alemã) como parte da formação do
indivíduo, foi esquecida no passado e hoje parece ser exclusividade das escolas
das classes abastadas. Ao povo impinge-se o ideário de que o conhecimento que
não pode transformar-se em mercadoria (qualquer coisa vendável no
"mercado") tem pouco valor. Essa a ideologia das empresas, dos
meios de comunicação, do sistema. Os objetivos que se colocam para o jovem são
“arranjar um emprego” ou "tornar-se empreendedor" (quando isso é
possível) e, a muito custo, sobreviver para consumir e se endividar. Voos mais
altos, na área das humanidades ou das artes, são reservados às elites, que não
precisam se preocupar prementemente com a sobrevivência.
O filósofo e economista Karl
Marx (1818-1883), no entanto, via as humanidades e as ciências humanas não como
ocupação abstrata de diletantes longe da prática, mas como ferramentas de
análise, compreensão e mudança da realidade social - e não para eternizá-la. Talvez por isso sejam depreciadas por muitos.
Ricardo E. Rose, 3/09/2026
(Imagens: Leonard Koscianski Contemporary Art)


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