“Nietzsche não quer redenção. A alegria do devir é a alegria da
aniquilação. Mas só o indivíduo é destroçado. O movimento de revolta, no qual o
homem reivindica o seu próprio ser, desaparece na submissão absoluta do
indivíduo ao devir. O amor fati substitui o que era um odium
fati. ‘Todo indivíduo colabora com todo o ser cósmico, quer saiba ou não
disso, quer queira ou não.’ O indivíduo perde-se, assim, no destino da espécie
e no eterno movimento dos mundos. ‘Tudo o que foi é eterno, o mar devolve-o à beira da praia.’”
“A
insurreição humana, em suas formas elevadas e trágicas, não é nem pode ser
senão um longo protesto contra a morte, uma acusação veemente a esta condição
regida pela pena de morte generalizada. Em todos os casos que encontramos, o
protesto dirige-se sempre a tudo aquilo que, na criação, é dissonância,
opacidade, solução de continuidade. Trata-se portanto, no essencial, de uma
interminável exigência de unidade. A recusa da morte, o desejo de duração e de
transparência são as molas de todas essas loucura sublimes e pueris. Trata-se
somente da recusa covarde e pessoal de morrer? Não, porque muitos destes
rebeldes pagaram o preço necessário para ficar à altura de suas exigências. O
revoltado não exige vida, mas razões de vida. Ele rejeita as consequências que
a morte traz. Se nada perdura, nada se justifica, aquilo que morre fica privado
de sentido. Lutar contra a morte equivale a reinvindicar o sentido da vida, a
lutar pela ordem e pela unidade.”
“Já se disse que o mundo de Proust era um mundo sem deus. Se isto for verdade, não é porque ele nunca fala em Deus, mas porque este mundo tem ambição de ser uma perfeição completa e de dar à eternidade o semblante do homem. O Tempo reencontrado, pelo menos em sua ambição, é a eternidade sem deus. A obra de Proust, a esse respeito, surge como um dos empreendimentos mais ambiciosos e mais significativos do homem diante de sua condição mortal. Ele demonstrou que a arte do romance refaz a própria criação, tal como ela nos é imposta e tal como é recusada. Pelo menos sob um de seus aspectos, esta arte consiste em preferir a criatura ao criador. No entanto, com maior perspicácia, ela alia-se à beleza do mundo ou dos seres humanos contra as forças da morte e do esquecimento. É desta forma que a revolta é criadora.”
Albert Camus (1913-1960), filósofo, escritor, ensaísta, dramaturgo e jornalista franco-argelino em O Homem Revoltado (1951)

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