Etanol e bioeletricidade

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Os ecossistemas naturais da Terra não estão aí para que os transformemos em terra agrícola; eles estão aí para manter o clima e a química do planeta. (James Lovelock, 2006)

No início dos anos 70 o mundo passava pela primeira crise do petróleo. Os países produtores, em represália ao apoio dado pelos Estados Unidos a Israel na Guerra do Yom Kippur, aumentaram os preços do petróleo. Com isso, dispararam os preços do principal combustível do capitalismo; de US$ 2,22 o barril em 1973 passa para US$ 8,65 em 1974. O Brasil importava naquela época cerca de 80% de sua demanda petrolífera, gastando US$ 800 milhões ao ano. Com a crise, estas despesas saltaram para quase US$ 4 bilhões anuais. As informações disponíveis à época diziam que as reservas de petróleo eram insuficientes e que nunca atenderiam à demanda do País; o esforço da Petrobrás seria um trabalho de Sísifo. O tempo, todavia, mostrou que o potencial petrolífero era bem maior. Mas esta é uma outra história. Nosso tema é uma das alternativas ao petróleo: a biomassa.
O programa brasileiro do álcool, o Proálcool, teve início em 1975. Em sua primeira fase, de 1975 a 1980 o programa estava em implantação e, como era natural, apresentou falhas técnicas que no decorrer do tempo foram sanadas. Na fase de afirmação do Proálcool, de 1980 a 1986, o mundo passou pela segunda crise do petróleo, quando o preço do barril chegou a US$ 35,00. Neste período mais de 95% dos carros de passeio produzidos no Brasil eram movidos a álcool. No entanto, algo acontece, e muda todo o quadro: os produtores de álcool, por um curto período, não conseguem atender a demanda total do mercado. Por outro lado, cai a cotação do barril de petróleo no mercado internacional, barateando o preço da gasolina. Estes fatores fizeram com que caíssem bastante as vendas de carros a álcool, substituídos pelos a gasolina. Somente no início dos anos 2000 ocorreu novamente o aumento das vendas de carros a etanol. O setor sucroalcooleiro – agora sem os incentivos governamentais –, se recuperou da crise, beneficiando-se com a obrigatoriedade de adição de álcool anidro à gasolina. Foi, porém, uma inovação tecnológica, o sensor que detecta o nível de oxigênio no combustível – e aqui lembramos do conceito da “destruição criativa” de Schumpeter –, que possibilitou construir motores bicombustíveis. Com isso, o consumidor passou a ter o melhor de cada um dos dois combustíveis; garantia de fornecimento, economia no preço, e a vantagem de usar um combustível renovável, menos poluente. 
Seguindo o exemplo do Brasil, vários países já implantaram programas de biocombustíveis. A União Européia tem um programa de biodiesel bastante desenvolvido e também iniciou o uso do etanol, misturado à gasolina. Na Alemanha, por exemplo, os biocombustíveis representam 5,9% do consumo de combustíveis e já se adiciona 5,25% de etanol à gasolina – percentual que deverá subir para 6,25% em 2010. A maior parte deste combustível é produzida localmente, à base açúcar de beterraba, cevada e aveia. A grande expectativa dos usineiros brasileiros é que possam vender volumes maiores de etanol na Europa. No entanto, ainda existem alguns impedimentos para que as exportações brasileiras possam aumentar. Por um lado, existem barreiras não tarifárias, como a exigência da certificação do etanol dentro de certos padrões. Por outro, há inda a pressão de parte da opinião pública européia, mal informada por organizações não governamentais tendenciosas, falando que a cana-de-açúcar compete com a plantação de alimentos. Por último, temos o subsídio à agricultura européia, dificultando o acesso de produtos agrícolas ao mercado europeu.
A bioeletricidade é o mais importante subproduto da indústria do açúcar e do álcool brasileira. Outras fontes, como a lenha, o biogás e a palha de arroz, também são usados para a produção da bioeletricidade. No entanto, é a queima do bagaço de cana-de-açúcar, que hoje gera cerca de 1.400 MW médios, que se tornou importante fonte adicional de renda para as usinas sucroalcooleiras. A tecnologia já vinha sendo usada por algumas usinas para gerar energia para consumo próprio. O interesse econômico foi despertado na década de 1990, quando foi criada legalmente a possibilidade de um empreendedor privado vender energia elétrica a uma distribuidora. Apesar da ainda baixa remuneração em relação aos diversos custos de implantação da bioeletricidade, o potencial de expansão é muito grande. Segundo estudo da União das Indústrias de Cana de Açúcar (ÚNICA), até 2020/2021 as usinas poderão produzir um total de 13.150 MW, cerca de uma Itaipu e meia.
Na Alemanha a energia de biomassa representa cerca de 60% de toda a energia renovável gerada no país, além da eólica, solar e geotérmica. Diferentemente do Brasil, este país – por ter longos invernos bastante frios – também utiliza a biomassa para gerar grandes quantidades de vapor, além da bioeletricidade. O vapor é destinado ao processo industrial e ao aquecimento de residências. A quantidade de energia elétrica produzida a partir de biomassa na Alemanha em 2007 – não incluindo energia gerada por biogás que também é bastante representativa – foi de 6,6 bilhões de kWh em 2007.
O etanol e a biomassa, como combustíveis para o transporte e a geração de energia elétrica, muito provavelmente não substituirão as fontes convencionais. No entanto, por serem combustíveis renováveis, podem – se usados com mais freqüência em substituição aos convencionais – reduzir o impacto sobre o meio ambiente, notadamente a geração de gases de efeito estufa, causadores das mudanças climáticas. A grande quantidade de biomassa disponível e ainda por aproveitar no setor sucroalcooleiro, assim como no setor de reflorestamento, na indústria de móveis e indústria de papel e celulose, poderá ser utilizada para geração de bioeletricidade, a exemplo do que ocorre em países da Europa.
Metade dos cerca de 160 projetos brasileiros aprovados pela ONU no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kyoto é referente a projetos de cogeração, ou seja, obtenção de vapor e energia a partir da queima do bagaço da cana-de-açúcar (bioeletricidade). A tendência é que ao longo dos próximos anos o número de projetos nesta área aumente, já que a demanda por energia – principalmente limpa – deverá aumentar cada vez mais.

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