Umbanda: culto e história

sexta-feira, 1 de outubro de 2010
“A atitude mais antiga e que repousa, sem dúvida, sobre fundamentos psicológicos sólidos, pois tende a reaparecer em cada um de nós quando somos colocados numa situação inesperada, consiste em repudiar pura e simplesmente as formas culturais, morais, religiosas, sociais e estéticas mais afastadas daquelas com que nos identificamos”   Claude Levi-Strauss - Raça e história
A origem da umbanda remonta ao início do século XX, quando a religião se desenvolveu entre a baixa classe média urbana, principalmente nas cidades de Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. A doutrina umbandista é resultado de uma interação entre as tradições religiosas afro-brasileiras, já presentes entre os escravos e seus descendentes; do catolicismo popular e do espiritismo de Allan Kardec, que vindo da França se propagou nos ambientes urbanos brasileiros a partir da última década do século XIX.
A contribuição africana ao culto da umbanda é representada pelos cultos bantos africanos como o candomblé, nos quais havia a incorporação de pretos-velhos (representando a tradição africana) e caboclos (espíritos ameríndios), ao passo que também ocorria o culto aos santos católicos, que eram personificações cristãs de entidades espirituais africanas, os orixás. A influência do kardecismo também foi bastante significativa na formação da doutrina umbandista, já que o espiritismo defendia uma atividade prática baseada na idéia da caridade e uma doutrina de evolução espiritual, através de sucessivas reencarnações.
O culto tem uma forma menos complexa que outros de origem africana, como o candomblé; guarda, todavia certa similaridade com estes. Todo terreiro de umbanda, casa de umbanda ou tenda de umbanda está estabelecida em um local fixo, tem uma estrutura administrativa com presidente, secretário e tesoureiro. Os cultos chamados de “giras”, são abertos ao público, e realizados em horário fixo, possuindo uma seqüência de rituais já estabelecidos pela tradição umbandista. Todavia, certos detalhes dos rituais podem variar de uma casa (templo) para outra, já que a figura do líder tem um papel muito importante na umbanda. O líder espiritual que preside os cultos é chamado de pai-no-santo (babalorixá) ou mãe-no-santo (ialorixá). Estes sacerdotes são auxiliados por assessores, conhecidos como pai-pequeno ou mãe-pequena. O restante dos membros da casa é constituída pelos filhos-de-santo ou filhos-de-fé, que são os membros batizados. Apesar disso, em muitas casas, todos os visitantes são chamados de filhos-de-fé.
Durante a gira (culto), os médiuns incorporam espíritos e atendem o público consulente, sendo auxiliados neste trabalho pelos cambonos ou cambonas. Nestas atividades as entidades espirituais incorporadas aplicam passes (imposição de mãos) e prescrevem outras práticas que visam afastar as energias negativas, as doenças e outros obstáculos na vida. Nas giras manifestam-se entidades da direita e da esquerda. Na direita estão os assim chamados espíritos evoluídos, que pregam e realizam o bem, como os caboclos, os pretos-velhos e as crianças. Na esquerda estão as entidades que operam o “mal necessário”, representados pelos exús, eguns, as pombas-gira, as ciganas e os malandros. Não existe uma clara divisão entre o bem e o mal; trata-se de ter crédito ou de estar em dívida com os orixás (as entidades que se manifestam).
Na umbanda, a iniciação do fiel, como acontece no candomblé, não é pré-condição para que este possa frequentar a casa. A transmissão da doutrina acontece aos poucos, feita pelos fiéis mais antigos na religião, ou pelos sacerdotes máximos do templo (babalorixá e ialorixá), enquanto o filho-da-fé já participa nas atividades regulares da casa. Depois de freqüentar a gira por certo tempo e de ter avançado nos estudos da doutrina, o fiel é convidado a fazer o batismo. A partir daí será considerado efetivamente um filho-de-fé ou filha-de-fé e poderá continuar seu desenvolvimento na religião, tornando-se, eventualmente, um babalorixá ou ialorixá e fundar uma nova casa.
Segundo a tradição da umbanda, a religião surgiu em 16 de novembro de 1908, na cidade do Rio de Janeiro, quando Zélio de Moraes incorporou o espírito do Caboclo da Sete Encruzilhadas. Apesar das perseguições no período da Primeira República (1889-1930) e no Estado Novo (1937-1945) a umbanda conseguiu organizar-se e em 1941 realiza no Rio de Janeiro o I Congresso do Espiritismo de Umbanda, no qual foram estabelecidas as principais diretrizes de atuação da religião.
A umbanda passou inicialmente por um processo de “branqueamento”, com a gradual eliminação das práticas africanas. Isto se deve, provavelmente, à repressão ao culto e à necessidade dos fiéis de se desvincularem de referências africanas, devido ao racismo. A partir da década de 1960, com uma maior aceitação social da religião e a incorporação de grande número de fiéis oriundos das camadas populares, principalmente de origem negra – em oposição à baixa classe média europeizada que afastou a religião suas raízes – a umbanda voltou a valorizar suas origens africanas e populares. A partir da década de 1970 a umbanda pode se disseminar mais rapidamente, contando já com uma infra-estrutura de escolas, creches, programas de rádio, jornais, publicações e apoio de políticos umbandistas. A data mais importante da umbanda tornou-se o dia 8 de dezembro, dia de Iemanjá ou Nossa Senhora da Conceição, com quem é associada.
A umbanda considera-se a primeira religião autenticamente brasileira, por representar uma síntese de elementos de religiões africanas, do cristianismo católico, de cultos indígenas e do kardecismo. O culto surgiu em um período da história do país no qual recentemente havia sido abolida a escravidão (1888) e a Constituição Republicana (1891) proclamava a liberdade de culto e a separação entre a Igreja e o Estado. O período também coincide com o início da industrialização do país (principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo) e as primeiras migrações de populações do campo para a cidade, à procura de melhores condições de vida.
Todas estas alterações provocam grandes transformações nas cidades. O Rio de Janeiro, por exemplo, passa por um processo de reurbanização, tornando-se uma cidade mais cosmopolita. Ao lado da indústria desenvolve-se o comércio e forma-se uma pequena classe média urbana. Neste ambiente urbano a igreja católica passa a perder sua hegemonia religiosa e passa então a concorrer com outras religiões recentemente introduzidas no país, como o pentecostalismo e o espiritismo.
A umbanda é pois um movimento religioso que se formou logo após a abolição da escravidão e da proclamação da liberdade de culto. Trouxe elementos africanos dos ex-escravos e associou-os ao catolicismo e às novas crenças religiosas trazidas recentemente da Europa, como o espiritismo kardecista. Desenvolveu-se em um ambiente urbano, onde podia atuar de uma maneira relativamente livre, concorrendo com o catolicismo e os cultos pentecostais.
As religiões que mais disputaram os fiéis no espaço urbano com a igreja católica durante o século XX, notadamente a partir da década de 1930, foram os pentecostalistas e os umbandistas. Estes últimos eram, em uma fase inicial, representantes da baixa classe média urbana europeizada, que detinham o domínio na formação dos ritos e na estruturação da doutrina da religião. Posteriormente, um maior número de representantes da população negra se incorporou ao culto, reavivando práticas e crenças ligadas aos cultos africanos.
BIBLIOGRAFIA
De Almeida, Paulo Newton. Umbanda – A caminho da luz. Rio de Janeiro. Pallas Editora: 2003, 255 p.
E Silva, W.W. da Matta. Mistérios e práticas na lei de Umbanda. São Paulo. Ícone Editora: 1999, 224 p.
Grandes religiões – Cultos Afro, revista História Viva. São Paulo: Editora Duetto, setembro 2007, 82 p.
Levi-Strauss, Claude. Raça e história in Os Pensadores, São Paulo. Abril Cultural: 1980, 181 p.
O que é umbanda? Disponível:
Revista Espiritual de Umbanda n° 14, São Paulo. Gallery Editores Associados: Novembro 2006, 75 p.
Templo de Doutrina Umbandista Caboclo Sete Flechas e Pai Oxalá, A origem da Umbanda, apostila sem data, 9 p.
Tognolli, Claudio Julio. A nova cara da Umbanda. Revista Galileu. São Paulo. Editora Globo: outubro 2007, 90 p.
(imagens: Carybé)

2 comentários:

Susan disse...

Ótimo texto, É muito bom ler um texto, falando
sobre esta maravilhosa religião, a qual ajuda
muitas pessoas, mas ainda tão descriminada por
pura falta de conhecimento e esclarecimento.
Obrigado! Saravá, Motumbá, Axé

Buenorf disse...

Aranauan, Saravá, Motumbá, Kolofé, Mucuiú, Salve, Axé!

Levamos ao conhecimento de toda a coletividade planetária e em especial aos umbandistas e adeptos das demais tradições de matrizes afro-ameríndio-brasileiras, a realização do III Congresso Brasileiro de Umbanda do Século XXI, que acontecerá nas dependências da FTU (Faculdade de Teologia Umbandista), localizada na Av. Santa Catarina, 400 - São Paulo/SP.

O tema deste ano é: "As Religiões Afro-Brasileiras: Aproximando os Saberes."

Dando continuidade aos congressos realizados pela Faculdade de Teologia Umbandista, apresentamos a terceira edição deste Evento. Nosso encontro vem se notabilizando como um momento importante de discussão e atualização de temas pertinentes, reunindo pesquisadores, docentes e discentes interessados na divulgação do seu trabalho e na participação no diálogo científico que o Evento possibilita. A temática deste Encontro abre-se à discussão da diversidade de enfoques teóricos e de experiências empíricas que, temos a certeza, muito vai contribuir para a nossa vivência acadêmica e prática religiosa. Isso se faz considerando-se que a Umbanda é resultado de uma síntese transformadora, que busca integrar diferentes abordagens e vivências para compreensão da sacralidade do homem.

Para obter mais informações, acessar http://www.ftu.edu.br/congresso2010/index.html ou telefonar para (55 11) 5031-8852.

Há também a possibilidade de escrever para o seguinte endereço eletrônico: congresso@ftu.edu.br.

Rodrigo Bueno
Assessor de Comunicação
congresso@ftu.edu.br

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