Existe o tipo brasileiro?

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
"Se um homem dedicar metade do seu dia a passear pelas florestas, porque gosta delas, correrá perigo de ser considerado um mandrião; entretanto, se gastar o dia todo como especulador, a tosquiar aquelas florestas e a escalvar a terra antes do tempo, será prezado como cidadão industrioso e empreendedor".   -  Henry David Thoureau  -  A desobediência civil

Como introdução ao texto, vale lembrar uma passagem do sociólogo Max Weber, afirmando que: “Não existe qualquer análise permanente “objetiva” da vida cultural, ou – o que pode significar algo mais limitado, mas seguramente não essencialmente diverso, para nossos propósitos – dos “fenômenos sociais”, que seja independente de determinadas perspectivas especiais e parciais, graças às quais estas manifestações possam ser, explícita ou implicitamente, consciente ou inconscientemente, selecionadas, analisadas e organizadas na exposição, enquanto objeto de pesquisa.” (Weber apud Gabriel Cohn, 1989).
Nesta citação Weber afirma que nenhuma análise tem uma objetividade absoluta, defensável sob quaisquer circunstâncias. Para descrever o tipo brasileiro ideal já tivemos a contribuição de Gilberto Freire e Sérgio Buarque de Holanda. O primeiro criou um brasileiro típico, como resultado da miscigenação das raças (termo que hoje está ultrapassado nas ciências humanas) negra, branca e ameríndia. Para Freire, foi no cadinho de mistura destes grupos humanos, que se formou a cultura brasileira em todos os seus aspectos – cultural, arquitetônico, gastronômico, religioso, tecnológico, entre outros. Todavia, como não pode haver análise com total imparcialidade, Freire também exagerou em alguns aspectos. O sistema patriarcal no nordeste, baseado economicamente na cultura da cana-de-açúcar e na mão-de-obra escrava, era muito mais violento e opressor do que o grande sociólogo de Recife procurava descrever com sua obra. Enganou-se também Freire ao comparar a casa-grande e a senzala ao feudalismo ibérico. Na verdade, o sistema econômico do ciclo da cana-de-açúcar não tinha mais nada de medieval; estava inserido em um mercantilismo dominado principalmente por mercadores europeus.
Sérgio Buarque de Holanda já tem uma análise menos romântica do homem brasileiro, mas também – influenciado por Max Weber – coloca aspectos da sociedade ibérica como formadores da mentalidade brasileira. Holanda ressalta a pouca valorização do trabalho como elemento integrante da cultura ibérica, devido à influência da crença católica. Nesta tradição o trabalho é um castigo, sendo destinado às classes subalternas e aos escravos. Outra característica do homem brasileiro, segundo Holanda, é o pouco respeito pela burocracia. Neste caso nos referimos à burocracia como a organização dos cargos e das atividades de uma instituição, fazendo com que atue com determinados fins, de maneira racional e organizada. Esta aversão a este tipo de organização propiciou o aparecimento das práticas do personalismo, do apadrinhamento e da troca de favores, comuns e atualíssimos na sociedade brasileira.
No entanto, os “tipos” descritos por Freire e Holanda, sem dizer algo sobre o tipo ideal brasileiro, refletem muito mais certas características que ainda hoje estão presentes na mentalidade brasileira. Por outro lado, cabe considerar também a forma como as análises de Freire e Holanda estavam influenciadas por ideologias de classe, já que o primeiro pertencia à elite latifundiária do nordeste e o segundo à burguesia do sudeste. Assim, fica a pergunta se ainda é possível apresentar um brasileiro típico, dado a complexidade de grupos e subculturas que compõem o caldo cultural do país. A resposta é que a tipificação de uma cultura, de um povo ou país depende sempre do grau de profundidade com que realizamos a análise. Esta, quanto mais superficial, menos atenta a detalhes ou generalizante, tanto menos enxerga e assim acaba finalmente encontrando seu “perfil do brasileiro típico”. O mesmo se aplica, evidentemente, a outras análises onde se deseja identificar o “consumidor típico”; o “torcedor típico”; o “eleitor típico”, e assim por diante; enxerga-se a floresta, mas não as árvores. As generalizações – sobre isso é preciso tomar cuidado – são sempre tendenciosas e não refletem a objetividade dos fatos. A própria análise cultural, segundo Weber, não é objetiva, sendo sujeita a “perspectivas especiais e parciais”.
Bibliografia:
FERNANDES, Florestan; COHN, Gabriel. Sociologia – Weber. São Paulo. Editora Ática S/A: 1989, 167 pgs.
(imagens: Francisco Rebolo)

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