O fim da guerra fria e as políticas neoliberais das últimas décadas do século XX

domingo, 14 de outubro de 2012
"Quatro vezes Uagadu desapareceu e sumiu da vista humana: uma vez por causa da vaidade, uma vez por causa da falsidade , uma vez por causa da ganância e uma vez por causa da discórdia. Quatro vezes Uagadu mudou de nome . Primeiro ela se chamou Dierra, depois Agada, depois Gana e depois Sila. Quatro vezes virou o rosto."  -  Leo Frobenius e Douglas C. Fox  -  A Gênese africana - contos, mitos e lendas da África

A Guerra fria terminou quando o império soviético e seus satélites ruíram definitivamente, a partir da queda do Muro de Berlim em novembro de 1989. O desaparecimento da URSS e dos governos aliados do leste europeu teve conseqüências políticas e econômicas que nos afetam até os dias atuais. Paradoxalmente, a ausência da URSS ainda é usada como argumento dos articulistas de política internacional, quando escrevem sobre como seria o mundo – ou certo aspecto da realidade que estão analisando – caso ainda existisse o regime soviético. O binômio USA/URSS de tal modo condicionou a política internacional e a economia capitalista do pós-guerra, que o espectro da Guerra Fria ainda permanece presente no inconsciente dos mais antigos e no imaginário de muitas instituições internacionais.
A genealogia do final da Guerra Fria remonta ao final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Até esta época a União Soviética e os Estados Unidos vinham travando uma batalha pela hegemonia mundial que envolvia entre seus principais fatores a economia, a estratégia militar e o desenvolvimento tecnológico. Por muitos anos a disputa permaneceu empatada, sem vencedores. A situação começou a mudar de figura no início dos anos 1980, quando diversos acontecimentos começaram a afetar a coesão interna da União Soviética, dos quais destacamos:
a) fatores econômicos:
- Crises de alimentos devido a uma sucessão de planejamentos malfeitos pelos órgãos do governo na área agrícola;
- Aumento da burocracia e da ineficiência da economia como um todo, por falta de modernização dos procedimentos e ausência de recursos para investimento em novos equipamentos;
b) fatores políticos
- Intelectuais reclamando mais liberdade eram aprisionados nos gulags. Tais presos de consciência (como Solzhenitsyn e Sakharov) atraiam a simpatia de todo o Ocidente;
- O governo soviético estava em uma corrida armamentista com os Estados Unidos, o que absorvia grande quantidade de recursos que acabavam faltando em outras áreas. Os investimentos americanos em armamentos eram cada vez maiores, chegando a um ponto a partir do qual a URSS não podia mais competir;
- Crescentes revoltas nas diversas repúblicas, resultado de uma gradual oposição ao regime dos “russos brancos”, governando em Moscou.
Estes apenas alguns fatores que preparam a queda. O golpe final, depois do qual o império soviético não conseguiu mais se recuperar, foi a Guerra do Afeganistão (1979-1989). A guerra – coincidentemente travada contra o mesmo movimento, o Taliban, que vinte anos depois seria o grande inimigo dos Estados Unidos – demandou investimentos em equipamentos e logística de tropas, provocando um imenso rombo nos cofres de Moscou. Além disso, a morte de cada vez mais soldados criou um clima crescente de oposição à guerra e ao governo central. Não é por outra razão que a guerra do Afeganistão foi chamada de “o Vietnã soviético”. Os Talibans em batalha contra os russos, foram treinados, armados e apoiados estrategicamente pelos americanos, através de seu serviços secreto, a CIA.
A estratégia do governo Reagan (1980-1989) era desgastar ao máximo o governo soviético; seja no campo militar, político e, principalmente, no econômico. Já sabiam os americanos que a economia soviética era pesada e burocrática. Nas fábricas, por exemplo, havia vários níveis de hierarquia, o que faziam com que as tarefas eram executadas com vagar e comprometimento da qualidade. O mesmo acontecia em relação às técnicas gerenciais, onde a indústria americana era líder à época (mais alguns anos e os japoneses desbancariam os Estados Unidos).       
Além disso, a livre concorrência entre as empresas no sistema capitalista fazia com que a cada momento eram desenvolvidas novas tecnologias, novos produtos. Vigorava aquilo que o economista austro-americano Joseph Schumpeter chamava de “a destruição criativa”, ou seja, novos produtos, novas empresas, substituíam as antigas, criando novos paradigmas de produção e consumo.
Não por coincidência, foi por esta época que nos Estados Unidos surgiu a reaganomics, o protótipo do neoliberalismo, produto da escola econômica de Chicago, cujo representante mais famoso era o Prêmio Nobel Milton Friedman. Esta política econômica – também aplicada pela primeira ministra Margareth Thatcher na Inglaterra e no Chile de Pinochet – tinha como pressuposto básico um estado mínimo, a hegemonia da economia de mercado e a redução dos benefícios sociais. O objetivo era acabar com o estado de bem estar social, permitindo que “a mão invisível do mercado” (a lei da oferta e da procura) regulasse as relações.
O neoliberalismo de certo modo conseguiu contribuir para que os países capitalistas ocidentais, capitaneados pelos Estados Unidos, alcançassem a “exaustão econômica” da União Soviética. Assim, derrotado o maior inimigo, os Estados Unidos – principalmente as empresas e bancos que dirigem o país – expandiram seu sistema econômico por todo o mundo. Conseqüência imediata desta aparente vitória do capitalismo na forma de neoliberalismo foi, por exemplo, a criação do “Consenso de Washington”, que também arregimentou muitos entusiastas aqui no Brasil. No Brasil este processo exerceu profunda influência na eleição de Collor, na abertura da economia e posterior processo de privatização de parte do setor público no governo Fernando Henrique.
Seguiu-se um período de hegemonia do capitalismo baseado no consumo, espalhando-se por todas as regiões do planeta. Se, por um lado, beneficiou países e grupos sociais, esta nova estrutura também levou outras nações à crise e pauperização de parte de sua população. A supremacia do neoliberalismo terminou – formalmente e como ideal de economia – com a crise dos subprimes, muito depois do desaparecimento da URSS e da Queda do Muro. Mas isto já é outra história.
(Imagens: fotografias de Lewis Hine)

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