Aspectos sociológicos do capitalismo avançado

sábado, 11 de maio de 2013
"Um povo que concebe a vida exclusivamente como busca da felicidade só pode ser cronicamente infeliz"  -  Marshall Sahlins  -  Esperando Foucault, ainda

Foram várias as transformações econômicas, sociais, tecnológicas, culturais e políticas pelas quais vem passando a sociedade industrial ao longo das últimas décadas do século XX e início do século XXI. Um dos principais fatores de mudança – segundo pensadores cujas idéias serão descritas adiante – é a importância assumida pela informação e seu fluxo. Este talvez seja o aspecto que melhor poderia resumir a sociedade pós-industrial ou pós-moderna.
A primeira grande característica deste grande quadro de mudanças foi o desaparecimento da União Soviética e do mundo socialista, resultando na incorporação de mais países à economia de mercado. Tais fatos, aliados ao uso disseminado das novas tecnologias de informação, formaram a base do que depois se convencionou chamar de "sociedade pós-industrial", "sociedade do conhecimento", "sociedade em rede", "sociedade pós-moderna", entre outras denominações. O sociólogo americano, Francis Fukuyama (1952) em seu livro "O fim da história e o último homem" (1991) à época falava no “fim da história” – clara alusão ao fim do embate capitalismo versus socialismo, com a (aparente) vitória do sistema de livre mercado.
Na área da produção, por exemplo, deixa de vigorar o modelo taylorista-fordista; baseado na divisão de tarefas nos diversos níveis hierárquicos e na clara divisão entre planejamento e execução. Esta forma de organização fabril foi criada por F. W. Taylor (1856-1915) no início do século XX, nos Estados Unidos. Entre a Primeira e Segunda Guerra Mundial o conceito da linha de montagem foi adotado por parte das indústrias produtoras de bens de consumo e equipamentos – até porque o esforço de guerra exigia rápida reposição de produtos e equipamentos. A partir da década de 1950 a linha de produção teve grande expansão, sendo implantada tanto nas fábricas dos países fortemente industrializados, quanto nas nações que davam início a sua industrialização, como o Brasil. A partir da década de 1960 são incorporados mais desenvolvimentos tecnológicos, os quais a partir dos anos 1980 delinearão um novo tipo de indústria, baseada no paradigma informacional. Para este avanço contribuíram o desenvolvimento da tecnologia eletrônica, com a invenção do transistor e do circuito eletrônico miniaturizado (anos 1950) e do circuito lógico programável (anos 1980). As aplicações destes inventos às diversas atividades – telecomunicações, automação, mobilidade, segurança – foram variadas e levaram a um aumento da capacidade de produção e distribuição. Estas mesmas inovações possibilitaram o desenvolvimento de computadores, da automação industrial e bancária e da rede mundial de computadores e das redes sociais (com a internet versão 2.0). No entanto, com unidades de produção e comercialização automatizadas, diminuía a necessidade de mão de obra. A economia demandava um novo tipo de profissional; dotado de mais conhecimentos, flexível, capaz de trabalhar em equipe e tomar decisões. No mundo da administração o final dos anos 1980 e início dos 1990 é caracterizado pelas políticas do downsizing, da reengenharia e da normatização; que fizeram com que milhões de trabalhadores do sistema fordista-taylorista perdessem seus empregos.
Este, o quadro geral introdutório. Para efetuar a análise dos fatos que descrevemos nas linhas acima, fazemos referência à visão de três sociólogos, cuja interpretação da sociedade pós-capitalista resumiremos e comentaremos abaixo.
Adam Schaff (1913-2006), influente filósofo e sociólogo marxista polonês, foi membro do Partido Comunista Polonês e do Comitê Executivo do Clube de Roma. Em sua obra “A sociedade informática” (1985) o filósofo faz análises bastante acertadas, sobre como se desenvolveria a sociedade industrial poucos anos depois, apontando a rápida difusão da tecnologia da informática e, consequentemente, a diminuição dos postos de trabalho. Em outro trecho de seu livro, Schaff aponta as mais importantes áreas da revolução técnico-científica então em andamento: a microbiologia e a engenharia genética; a revolução técnico-industrial e a revolução energética. Efetivamente, foram estas tecnologias – amparadas pelo grande desenvolvimento da atividade agrícola (revolução verde, OGM), da medicina, da informática e da difusão das energias renováveis – que rapidamente se desenvolveram ao longo dos últimos 20 anos.
Schaff também faz referência aos aspectos humanos da nova sociedade: o papel do Estado, a questão da democracia e o papel do cidadão. Fato é que muitos autores marxistas tinham uma visão pessimista das novas tecnologias da informação, encarando-as como novo instrumento de dominação do homem. Se isto efetivamente ocorreu nos meios de produção, o mesmo não é válido para a circulação da informação (o mais importante elemento da sociedade pós-industrial). A posterior história mostrou que a informática e a internet contribuíram para colocar em cheque o poder de elites de diversos países, apoiando movimentos democráticos, como no caso da "Primavera Árabe".   
Outro autor a ser citado é o futurista e escritor Alvin Toffler (1928). Em seu livro “Powershift” (1990) Toffler anuncia o surgimento de uma nova economia baseada no conhecimento, na qual a produção de riquezas é totalmente dependente da comunicação instantânea e disseminação de dados e idéias. Assim como Schaff, Toffler (escrevendo em 1990, depois da Queda do Muro de Berlim) também aponta dois fatores influentes na economia: a automatização aliada à procura por trabalhadores treinados, com capacidades diversificadas. Convencido da importância do conhecimento e de sua comunicação, Toffler também alerta para o perigo da formação de elites com acesso quase exclusivo à informação e conhecimentos, provocando a divisão da sociedade em “inforricos” e “infopobres”.
Outro pensador de relevância na análise deste período é o sociólogo espanhol Manuel Castells (1942), autor de importante obra em três volumes "A sociedade em rede”. Em sua análise do novo quadro da sociedade industrial Castells apresenta quatro aspectos principais: 1) A importância da tecnologia da informação; 2) A substituição do conceito de "modo de produção" por "modo de desenvolvimento"; 3) A compreensão da importância do Estado como indutor do processo de desenvolvimento; e 4) A visão da sociedade informacional como uma sociedade em rede (conexões de todos os tipos). Neste contexto, a exemplo de Toffler, Castells considera a informação e sua comunicação como suportes do novo sistema de riqueza e poder, apontando cinco principais aspectos deste paradigma: a) A informação é a matéria prima principal, fazendo com que; b) As novas tecnologias se façam presentes em todas as atividades humanas; c) Organizadas na forma de redes; d) Provocando a flexibilidade na organização e reorganização de processos e organizações; e implicando na e) Crescente integração entre biologia e microeletrônica. Castells, talvez porque escreva em uma fase mais avançada da mudança social que ora analisamos, consegue apresentar uma visão mais ampla da sociedade pós-industrial, incorporando em sua análise todas as características apontadas por vários outros autores. 
Um fator de grande influência no desenvolvimento da sociedade pós-industrial é o tema do meio ambiente. A questão ambiental afetará tanto aspectos econômicos quanto sociais, tecnológicos e culturais da sociedade pós-industrial.
No capitalismo "turbinado" da sociedade pós-industrial as novas tecnologias (web, informática, automação, etc.) estão disponíveis para todos, não sendo mais vantagem competitiva. Os grandes fabricantes de produtos de consumo não ganham mais dinheiro com a valorização da qualidade de seus produtos, como no passado. Esta atualmente está acessível a todos os concorrentes com o uso da tecnologia. Hoje a taxa de lucro do fabricante depende de volumes vendidos. As vendas, por sua vez, dependem de design, propaganda, distribuição - basicamente do marketing. Para lucrar bastante, cabe aos fabricantes e distribuidores inundar o mundo com produtos de ciclo de vida curto, para forçar o consumidor a acelerar seu ritmo de consumo e assim aumentar a taxa de lucro das empresas.
Se o lucro está na quantidade, é necessário fabricar volumes cada vez maiores, aumentando o consumo de recursos (água, eletricidade, matérias primas). No entanto, o maior uso de insumos eleva o impacto ao meio ambiente: destroem-se mais recursos naturais (mineração, desmatamento para agricultura, uso de água, etc.) e geram-se mais resíduos (efluentes, poluição atmosférica, resíduos). Não existe processo produtivo sem geração de resíduos; a produção 100% eficiente é impossível.
Por um lado, parece que para sobreviver na forma atual, o capitalismo baseado no consumo de massa precisa continuar funcionando dentro da lógica que tem como conseqüência a depleção rápida dos recursos naturais. Por outro, sabe-se que estes são finitos e que já estão mostrando sinais de exaustão - falta de água em diversas regiões do planeta, aquecimento global, rareamento de certos metais, exaustão de solos para atividades agrícolas, entre outros.
A humanidade está perante um grande impasse envolvendo a reestruturação econômica, social, política e tecnológica; talvez o maior que já enfrentou. A população ainda apresenta um crescimento vegetativo considerável em algumas regiões, aumentando o numero de consumidores, pelo menos até a metade deste século, segundo especialistas. É fato que todos precisamos sobreviver, direta ou indiretamente dependentes de atividades produtivas. No entanto, o sistema de produção está organizado de forma a explorar os recursos naturais, utilizando-os em um ritmo mais rápido do que podem ser repostos pela natureza. Novas tecnologias não representam uma solução definitiva, já que a demanda crescente por recursos está na lógica do sistema. O que fazer?
Fontes pesquisadas:
O microchip, pequena invenção, grande revolução. Disponível em :
Adam Schaff: from semantics to political semiotics. Disponível em: 
O fim da história e o último homem. Disponível em:
A sociedade em rede. Disponível em:
Executive book report: Alvin Toffler Powershift. Disponível em:
Breve histórico do desenvolvimento das atividades econômicas e da destruição ambiental. Disponível em:
<http://ricardorose.blogspot.com.br/search/label/Meio%20Ambiente?updated-max=2010-10-14T12:53:00-07:00&max-results=20&start=85&by-date=false>. Acesso em 22/04/2014
Sociedade em rede e modo de desenvolvimento informacional: descrições sociológicas da sociedade contemporânea sob o capitalismo avançado. Disponível em
<http://devotuporanga.edunet.sp.gov.br/OFICINA/geografia-Sociedade_Rede_paradigma.pdf>. Acesso em 10/05/2013
(Imagens: fotografias de Roman Vishniac)

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