Mobilidade e mortalidade

sábado, 2 de novembro de 2013
"Considere sentenças como fios que ligam sinais e ruídos emitidos pelos organismos, fios capazes de ser associados aos fios que nós mesmos expressamos (através do processo que chamamos de 'tradução'). Considere crenças desejos e intenções - atitudes sentenciais em geral - como entidades que são postuladas para ajudar a predizer o comportamento dos organismos."  -  Richard Rorty  -  Ensaios sobre Heidegger e outros escritos filosóficos

Em seu relatório anual publicado em final de 2012, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) informa que a poluição do ar por ozônio bateu recorde na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). Por um período de 98 dias em 2012 o paulistano respirou ar com padrões de ozônio bem acima dos normais, dado que em mais da metade dos dias do ano passado a contaminação da atmosfera por excesso de ozônio ficou nas categorias "regular", "inadequada" e "má". Das 19 estações de medição deste poluente espalhadas na região metropolitana, as de Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, e as de São Caetano do Sul, no ABC paulista, foram as que registraram o maior número de dias - 17 no total - de "estado de atenção".
O ozônio se forma a partir da reação entre óxidos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis, liberados na queima incompleta de combustíveis quando na presença do sol. O gás produz uma série de substâncias agressivas e aerossóis que afetam a saúde humana e a vegetação. A concentração de ozônio sofre influência das condições atmosféricas e da temperatura, apresentando maior acumulação entre a primavera e o verão. "Quem tem problemas como asma, rinite ou enfisema sofre mais. Mas a poluição também pode desencadear inflamações graves a longo prazo", segundo o pneumologista  Clystenes Soares, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O ozônio é gerado principalmente pelos gases de combustão liberados pelos quase 11 milhões de veículos que circulam nos 39 municípios da RMSP. Programas de controle de emissões veiculares até o momento só foram implantados no município de São Paulo, monitorando uma frota de cerca de 7,5 milhões de veículos. Apesar disso, nossos padrões de emissão - sejam para veículos a gasolina/álcool quanto para diesel - ainda continuam abaixo dos parâmetros estabelecidos em países mais avançados nesta área. Consequentemente, não havendo limites de emissões de poluentes mais restritivos para os veículos, os fabricantes também não se sentem obrigados a melhorarem a eficiência de seus veículos.  
Com isso o ar da região metropolitana torna-se cada vez mais poluído, situação que vem a afetar a saúde dos habitantes da cidade. Um estudo, realizado pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade e apresentado recentemente em um seminário sobre mobilidade urbana e saúde pública, informa que pelo menos 4.655 pessoas morreram em 2011 na capital paulista em decorrência da poluição do ar. Este número é superior ao de mortes anuais no trânsito (1.556), três vezes superior ao de vítimas de câncer de mama (1.277) e quase seis vezes superior ao de vítimas da Aids (874).

No caso das mortes causadas pela poluição, o difícil é comprovar que os poluentes atmosféricos sejam os únicos responsáveis pelos óbitos. Doenças pregressas - muitas delas provavelmente também causadas pela poluição - hábitos de vida, alimentação, predisposição genética, são fatores que associados à má qualidade do ar na RMSP contribuem para as mortes computadas no estudo.
Fato é que os índices de poluição atmosférica na RMSP são resultado de uma política de mobilidade míope, voltada para o transporte individual, sem contemplar a construção de sistemas de transporte público; mais eficientes e menos poluentes - principalmente se realizados sobre trilhos. A necessidade de ter um carro próprio transformou-se em um pesadelo mortal nas cidades grandes.
(Imagens: fotografias de William Heick)

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