Cidade, a grande invenção humana

sábado, 18 de abril de 2015
"No fundo, culto é sempre e apenas aquele que se esforça em sua busca por cultura, isto é, que simplesmente procura ser culto, porque, de fato, isso não é nada fácil."  -  Robert Walser  - Absolutamente nada e outras histórias

A cidade foi uma das maiores invenções da humanidade, há cerca de sete ou oito mil anos. De um modo geral, o surgimento das primeiras aglomerações humanas está ligado à prática da agricultura. Esta atividade começou a se difundir em toda a região do Crescente Fértil, área que engloba os atuais Iraque, Síria, Líbano, Egito, Israel, Jordânia, parte da Turquia e Irã. Sob a influência dos rios Nilo, Tigre e Eufrates, a população local desenvolveu a cultura de plantas que passariam a ser incorporados ao cardápio da posteridade, como a cevada, trigo, aveia, ervilha, lentilha, cebola; frutas como o figo, a tâmara, o pêssego e a ameixa.
O excedente de alimentos produzido pela agricultura, associado à criação de gado, à pesca e eventual caça, permitiu com que um numero cada vez maior de pessoas se fixasse nas áreas urbanas, exercendo atividades tipicamente citadinas, como artesãos, ferreiros, prestadores de serviços, sacerdotes, etc. Assim, a cidade sumeriana de Tell Brak, localizada na atual Síria, já tinha uma população estimada em 4 mil pessoas por volta de 5.000 A.C.; as vizinhas Uruk e Larak tinham respectivamente 5 e 10 mil habitantes por volta de 4.000 A.C., sendo que a primeira alcançaria a impressionante população de 50 mil habitantes por volta de 2.500 A.C.. A título de comparação, a cidade de São Paulo tinha pouco mais de 30 mil habitantes em 1872 e alcançou a cifra de 65 mil moradores somente em 1890.
Foi no espaço das cidades de todo o mundo que se desenvolveram outras grandes criações humanas: o Estado, as religiões organizadas, a escrita e o cálculo, a ciência e a tecnologia. No entanto, apesar de serem as capitais dos impérios, os centros administrativos, religiosos e comerciais, as cidades tinham uma importância relativa, já que a maior parte da população vivia no campo de forma autossuficiente  e necessariamente não precisava frequentar a cidade. Muitas pessoas, até o fim do período medieval, visitavam a vila ou aldeia mais próxima somente algumas vezes em suas vidas.

A partir dos séculos XIII e XIV ocorreram diversas mudanças econômicas, sociais e culturais na Europa, que fizeram com que as cidades passassem definitivamente a ser o centro das principais atividades humanas. O campo ainda produzia alimentos e matérias primas, mas os centros urbanos agora é que ditavam os destinos das nações; eram as sede dos governos, do comércio, dos bancos, das universidades, da administração de impérios ultramarinos e da vida cultural. As metrópoles foram os focos irradiadores das novas ideias religiosas e políticas. A partir da segunda metade do século XVIII, as cidades também se tornaram o local das atividades industriais e da pesquisa científica.
A cidade foi uma invenção tão bem sucedida que atualmente cerca de 55% da população mundial vive em metrópoles - no Brasil já são mais de 80% da população. Mas, como toda invenção humana, a cidade está sujeita a melhorias e adaptações, já que é o local onde se concentram inúmeras atividades humanas, sujeitas às condições históricas e ambientais do local onde ocorrem.
A cidade, seja de que tamanho for, é a amostra de como funciona um país. De como  atende às necessidades da população através da arquitetura, transporte, saneamento, segurança, lazer, condições de saúde, educação e cultura. É uma construção coletiva, da qual todos participam e devem se beneficiar.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

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