João Cabral de Melo Neto

sábado, 3 de fevereiro de 2018

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

João Cabral de Melo Neto (1920-1999) nasceu em Recife, de uma tradicional família de usineiros de açúcar. O futuro poeta e diplomata era irmão do historiador Evaldo Cabral de Melo, primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freire. Viveu parte de sua infância na fazenda dos pais, no interior de estado. Aos dez anos mudou-se com a família para Recife, onde veio a estudar no Colégio Marista. Grande leitor, João Cabral era assíduo frequentador da biblioteca da escola e da casa de sua avó.

Em 1942 lança sua primeira coletânea de poemas, "A Pedra do Sono", nos quais predomina um clima de surrealismo e absurdo. No mesmo ano João Cabral se transfere para o Rio de Janeiro, onde ingressa no serviço público. Em 1945 lança sua segunda obra, "O Engenheiro", cuja publicação foi custeada pelo amigo, o poeta e empresário Augusto Frederico Schmidt. Em 1947 João Cabral ingressa na carreira diplomática, através da qual passa a viver em várias cidades, tendo oportunidade de conviver com intelectuais de Barcelona, Sevilha, Londres, Marselha, Genebra, Dacar entre outras.  

Em 1950 publica o "Cão Sem Plumas", época em que começa a estudar cada vez mais os temas sociais. O poema "Morte e Vida Severina", publicado em 1956, reflete bem essa preocupação do poeta. O poema relata a vida de um retirante que deixa o sertão em busca de melhores oportunidades na cidade. Transformado em peça de teatro, "Morte e Vida Severina" foi encenada pela primeira vez pelo Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA), em 1966, com músicas compostas por Chico Buarque de Holanda.

João Cabral casou-se duas vezes e teve cinco filhos. Foi eleito para ocupar a cadeira nº 37 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é o poeta e inconfidente Tomás Antonio Gonzaga. A progressiva cegueira que passou a acometê-lo a partir de 1992 levou-o à depressão. O poeta morreu em 9 de outubro de 1999, vitimado por um ataque cardíaco.

João Cabral pertence literariamente à geração de modernista de 45. Foi influenciado pelo surrealismo e pela poesia de Carlos Drummond de Andrade, a quem muito admirava. A literatura de cordel, com a qual teve contato na infância, também deixou sua marca em sua poesia, notadamente em "Vida e Morte Severina". Seu estilo é pouco sentimentalista, sendo objetivo e racional, razão pela qual foi apelidado de "poeta engenheiro". 

Dentre as principais obras do poeta destacam-se: "A Pedra do Sono" (1942); "O Engenheiro" (1945); "O Cão Sem Plumas" (1950); "Morte e Vida Severina" (1956); "A Educação Pela Pedra" (1966); "Museu de Tudo" (1975); "Auto do Frade" (1984); "Sevilha Andando" (1989), entre outros. Do livro "O Cão Sem Plumas e outros poemas (Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2007) destacamos:


Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
sua flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.

(Trecho de "Fábula do Capibaribe" do livro "Cão Sem Plumas")



No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol.

Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.

O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.

("O fim do mundo" do livro "O Engenheiro")



Demorada demoradamente
nenhuma voz me falou.
Eu vi o espectro do rei
não sei em que porta ele entrou.
Meus sofrimentos cumpridos
que sonos os arrebatou?
Mas por detrás da cortina
que gesto meu se apagou?

("Canção" do livro "Pedra do Sono")

(Imagem: fotografia de João Cabral de Melo Neto)

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