Antipolítica desgovernativa
“Essa
concepção antipolítica e antidemocrática da política definiu aqui o nervo de
uma cultura política desconstrutiva. A política já não como ato de governar,
mas de desgovernar, de desmontar o governo. Essa política é desgovernativa.
A
trama de direita no Brasil ganhou, em consequência, um perfil peculiar e notoriamente
patológico. Uma grande massa de pessoas que votam eleitoralmente, mas não votam
politicamente, passou a caracterizar a possibilidade de uma maioria com grande
chance de se tornar governo para desgovernar.
É
significativo o número de evangélicos, sobretudo de igrejas pentecostais, mas
não só delas, que compõe essa massa identificada com o propósito de ter um
governo que não governa, apenas administra as manobras políticas que
despolitizam o Estado e o governo. Que distribui migalhas e benefícios de
governo entre grupos de interesse, facções de várias motivações, grupos
religiosos. Política já se tornou entre nós a arte de desgovernar.”
José de Souza Martins (1938-), sociólogo, professor emérito da USP e da universidade de Cambridge. Pesquisador do CNPQ e membro da Academia Paulista de Letras. Trecho do artigo “O equívoco de ser qualquer um”, publicado no jornal Valor de 23/01/2026.


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