A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

"Não há esfera política sem conflitos. Ninguém pode esperar levar a melhor  num conflito sem recorrer à arte do fingimento, do engano, do mascaramento das próprias intenções."  -  Norberto Bobbio  - Elogio da serenidade e outros escritos morais

Max Weber realizou extensos estudos sobre economia, história e as diversas religiões. Em suas analises desenvolveu teorias sobre a sociedade e se interessou particularmente pelas relações entre o capitalismo e o cristianismo. Partindo do pressuposto de que é preciso conhecer a concepção global que anima o ator social e o ambiente no qual este vive, Weber dedicou grande parte de seus estudos à religião. O sociólogo tinha a convicção de que as concepções religiosas têm um papel preponderante na condução econômica de uma sociedade e, consequentemente, são também causa das transformações econômicas que ocorrem nestas sociedades.
Uma das principais perguntas que se fazia na sociologia do final do século XIX, era em que medida as concepções religiosas das diferentes sociedades influenciaram seu comportamento econômico. Grande parte das pesquisas realizadas por Weber nesta área figura nos três volumes de seu estudo incompleto Sociologia da Religião. O conteúdo básico destes estudos é uma análise dos aspectos mais importantes da ordem social e econômica da sociedade ocidental, nos diversos períodos históricos.
Sociologia da Religião de certo modo é uma resposta – pelo menos a de Weber – para solucionar o dilema que em grande parte preocupava a intelectualidade da época: saber qual seria o fator primordial a influenciar as mudanças sociais (e uma das grandes mudanças sociais analisadas na época eram o capitalismo e seu surgimento). Para Marx, cujas idéias eram bem fundamentadas filosófica e economicamente (O Capital e outros escritos), eram as condições econômicas a provocar as mudanças sociais. Para outros analistas, eram as condições geográficas, climáticas ou políticas. Pensadores como o filósofo Dilthey, o teólogo Troeltsch e o sociólogo Sombart, estavam convencidos de que as mudanças sociais eram basicamente motivadas pelas idéias e convicções éticas. Para eles o capitalismo não poderia ter surgido sem que houvesse uma profunda mudança espiritual, como a Reforma Protestante, ocorrida no final da Idade Média. Todavia, foi somente o estudo de Weber que conseguiu apresentar consistência suficiente para se contrapor à teoria de Marx (que apresentava os mais fortes argumentos à época).
No entanto, diferente de Marx, que com a ajuda do materialismo dialético pretendia explicar a natureza e com o materialismo histórico ambicionava encampar todo o devir histórico, Max Weber não tinha tais pretensões. Escreve Cohn que:
“Weber combate resolutamente a idéia de que a Ciência possa engendrar “concepções do mundo” de validade universal, fundadas no sentido objetivo do decurso histórico. Esse sentido objetivo não existe e por isso mesmo não existe uma ciência social livre de pressupostos valorativos.” (Cohn, 1989: p. 21)
Em seus estudos, Weber fez uma comparação entre as diversas sociedades ocidentais, local de origem do capitalismo, e as sociedades orientais, onde nenhum sistema econômico parecido havia se desenvolvido. Depois de exaustivas análises, concluiu que o protestantismo, mais especificamente o calvinismo, foi o fator principal do desenvolvimento do capitalismo.
“Weber volta-se então para outras formas de protestantismo diversas do luteranismo, em especial para o calvinismo e outras seitas, cujo elemento básico era o profundo isolamento espiritual do indivíduo em relação a Deus, o que na prática significava a racionalização do mundo e a eliminação do pensamento mágico como meio de salvação. Segundo o calvinismo, somente uma vida guiada pela reflexão contínua poderia obter vitória sobre o estado natural, e foi essa a racionalização que deu à fé reformada uma vertente ascética” (Os Pensadores: 1980, p. XX)
E mais à frente, completando este raciocínio:
“Em síntese, a tese de Weber afirma que a consideração do trabalho (entendido como vocação constante e sistemática) como o mais alto instrumento de ascese e o mais seguro meio de preservação da redenção da fé e do homem deve ter sido a mais poderosa alavanca da expressão dessa concepção de vida constituída pelo espírito do capitalismo” (Ibidem, p. XXI).
Todavia, Weber não considera o espírito do capitalismo como consequência direta da Reforma Protestante. Em sua análise, o sociólogo procura muito mais identificar em que medida o protestantismo contribuiu para modelar este sistema econômico. Weber afirma, no entanto, que não existe um só tipo de capitalismo, mas diversos tipos. Em consequência desta constatação, passa a definir um “tipo ideal” de capitalismo, que na sua concepção – claramente explicitada em seu A ética protestante e o espírito do capitalismo – tem características como:
“Segundo Max Weber, o capitalismo é definido pela existência de empresas (Betrieb) cujo objetivo é produzir o maior lucro possível, e cujo meio é a organização racional do trabalho e da produção. É a união do desejo de lucro e da disciplina racional que constitui historicamente o traço singular do capitalismo ocidental. Em todas as sociedades conhecidas houve sempre indivíduos ávidos de dinheiro, mas o que é raro, e provavelmente único, é o fato de este desejo tender a satisfazer-se não pela conquista, especulação ou aventura, mas pela disciplina e pela ciência” (Aron: 2008, p. 773-774)
O livro A ética protestante e o espírito do capitalismo é o mais conhecido de Max Weber e de certo modo enfoca suas principais conclusões sobre a relação entre o surgimento e a evolução do capitalismo e o protestantismo (especificamente o calvinismo). O autor inicia a obra com uma análise de diversos períodos históricos, em diversas sociedades, relacionando a atividade econômica com as crenças religiosas. A partir do capítulo II – O espírito do capitalismo, começa um extenso e profundo estudo relacionando práticas industriais, agrícolas e comerciais com a religião da época (séculos XVI-XVIII), com ênfase no protestantismo e suas diversas seitas, espalhadas por toda a Europa. O ponto alto do livro é o capítulo V – O ascetismo e o espírito do capitalismo, no qual o autor coloca as suas principais conclusões. Aspecto interessante deste livro, que em uma enquete realizada pelo jornal Folha de São Paulo em 1999 foi eleito por vários intelectuais como um dos mais importantes do século XX, é que tenha somente 132 páginas de texto (na versão integral brasileira). As notas de Weber, por outro lado, ocupam 90 páginas de citações e referências, demonstrando e fundamentando os raciocínios e fatos apresentados no texto.
A redação do texto (1905) se deu após o retorno de Max Weber de uma viagem aos Estados Unidos (o texto só foi publicado na forma de livro em 1920, ano da morte de Weber). A publicação, no entanto, não faz uma análise do capitalismo nos Estados Unidos, mas das origens desta forma de organização econômica e social. Inegável, porém, é que o sociólogo foi fortemente influenciado pela dinamicidade e pujança do capitalismo americano, que àquela época já despontava como a mais forte “roda propulsora” do sistema – situação acentuada após a 1ª Guerra Mundial (1914-1918).
Fica a questão sobre o que Weber efetivamente queria transmitir. Para Weber, segundo Anthony Giddens, “a Revolução Industrial e a emergência do capitalismo eram provas de uma tendência maior no sentido de racionalização”. Outro aspecto importante na análise de Weber é a associação do capitalismo com a burocracia – e aí temos novamente os tipos ideais –, a única maneira de organizar e gerir eficientemente um grande número de pessoas em um ambiente de crescente complexidade econômica e social.
Por fim cabe assinalar outro importante aspecto do pensamento de Weber, cada vez mais patente no horizonte cultural, principalmente depois da 2ª Grande Guerra (1939-1945). Trata-se do gradual processo que o pensador chamou de "desencantamento", a forma pela qual o pensamento científico (fortemente influenciado pelo capitalismo e pela Revolução Industrial) fez desaparecer as forças “sobrenaturais” (religião, pensamento mágico e  crenças diversas) do passado. As interpretações míticas da realidade foram gradualmente sendo substituídas por uma visão racional.
Bibliografia:
Aron, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo. Martins Fontes: 2008, 883 p.
Cohn Gabriel. Weber. São Paulo. Editora Ática: 1989, 159 p.
Giddens, Anthony. Sociologia. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian: 2010, 725 p.
Weber, Max. Os Pensadores. São Paulo. Abril Cultural: 1980, 268 p.
Weber, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo. Editora Martin Claret: 2002, 223 p.
(Imagens: fotos de Maurice Tabard)

2 comentários:

Gleysson Pessali disse...

Ótimo texto.
Sou estudante de Filosofia e estou lendo A Ética Protestante e o Espirito do Capitalismo.
É muito bom encontrar textos que ajudem na compreensão da obra.

EDNA CRISTINA DE JESUS disse...

BASTA OBSERVAR COMO A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE IMPERA DENTRO DAS IGREJAS EVANGÉLICAS:O EVANGELHO USADO PARA TIRAR DINHEIRO DO POVO! QUANTO MAIS PROSPERAR DEUS LHE ABENÇOARÁ.ESTA É A FORMA DO CAPITALISMO SELVAGEM RELIGIOSO.A TÉCNICA É A LAVAGEM CEREBRAL NO INDIVIDUO.

Postar um comentário