O conceito de solidariedade em Durkheim

terça-feira, 9 de junho de 2015
"Persiste, no Brasil, uma crença generalizada de que 'ciência é coisa do Primeiro Mundo' ou,  pelo menos, alheia ao país. Ignora-se, ou não é levada a sério, a ciência feita no Brasil."  -  Iván Izquierdo  -  Releitura do óbvio

Durkheim foi o grande sistematizador da sociologia. Defendia que a principal tarefa da sociologia era a análise dos fatos sociais, já que estes tinham uma existência externa e independente dos indivíduos. Outra característica dos fatos sociais é que estes têm um poder coercitivo sobre os indivíduos, que muitas vezes nem percebem esta ação. Exercem seu poder condicionador sobre os indivíduos através de formas que podem variar de um simples mal-entendido (como no caso do uso de uma palavra errada em uma conversa) até o castigo ou pena (no caso de uma infração ou crime). Os fatos sociais, ensina Durkheim, são intangíveis e só podem ser analisados através dos seus efeitos, como as leis escritas, as normas técnicas, etc. Para estudá-los, o pesquisador deve deixar de lado ideias preconcebidas e utilizar-se de conceitos gerados apenas na práxis científica.
Uma das primeiras questões que Durkheim se colocou em seus estudos é como um grupo de indivíduos pode constituir uma sociedade e como esta se mantém coesa, persistindo no tempo? Chamou a este fenômeno de solidariedade social e moral, ou seja, a maneira como os membros de um grupo permanecem unidos, compartilhando um conjunto de valores e costumes. Mas, o que é e como se dá esta solidariedade?
Em sua obra A divisão social do trabalho (1893), Durkheim criou os conceitos de solidariedade mecânica e solidariedade orgânica, para explicar a origem da coesão entre os membros de uma sociedade. A solidariedade mecânica é aquela das sociedades onde os indivíduos não se diferenciam. Quando uma sociedade é pouco desenvolvida cultural e tecnologicamente existe pouca diferença entre seus membros. Os componentes do grupo social se assemelham em diversos aspectos; têm os mesmos sentimentos, os mesmos valores, iguais objetivos, as mesmas posses. Este fato é observado em sociedades primitivas do passado e nas sociedades não-letradas ainda espalhadas pelo mundo, como a tribo indígena dos Pirahã, da região amazônica de Manicoré, quando foi contatada nos anos 1970. Existe uma coesão entre os vários integrantes da aldeia neolítica ou da tribo indígena, porque seus membros pouco se diferenciam, sendo em sua maioria intercambiáveis. “Nas sociedades primitivas”, escreve Aron, “cada indivíduo é o que são os outros; na consciência de cada um predominam, em números e intensidade, os sentimentos comuns a todos, os sentimentos coletivos” (Aron: 2008, p. 459). Em tais grupos, a crença comum é de natureza repressiva – basta lembrar as sociedades que têm proibições extremas, como os tabus – na quais os indivíduos que desrespeitam as convenções são prontamente castigados.
A solidariedade orgânica representa uma nova fase nas sociedades. A industrialização e a urbanização, que tiveram um forte impacto sobre as sociedades européias do século XIX (e sobre as sociedades dos países pobres e em desenvolvimento na segunda metade do século XX), propiciaram o surgimento de uma maior divisão do trabalho. O aumento da atividade econômica, o desenvolvimento tecnológico, criam uma especialização cada vez maior, ao mesmo tempo em que cada atividade ou tarefa depende cada vez mais das outras.
Cada indivíduo tem uma função diferente na sociedade. No entanto, sua atividade contribui para a harmonia social. Cada membro atua como se fosse um órgão, essencial para o funcionamento de um grande organismo – daí o nome de solidariedade orgânica. O fato que era visto como auspicioso por Durkheim em sua análise da sociedade industrial, é que apesar da diferença entre seus membros, a dessemelhança contribuía para uma harmonia maior, mantendo a sociedade coesa.
Fontes consultadas:
Aron, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo. Martins Fontes: 2008, 884 p.
Giddens, Anthony. Sociologia. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian: 2010, 723 p.
Sociologia e Modernidade: Durkheim. Filósofo Paulo Ghirardelli. Disponível em
Acesso em 17/7/2011
(Imagens: croquis de Daniel Libeskind)

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