Pesquisas de opinião e a questão ambiental

sábado, 13 de junho de 2015
"Los pesimistas no tienen razón: vista desde lejos, la vida nada tiene de trágica, solo lo es de cerca, observada en detalle. La vista de conjunto la vuelve inútil y cómica. Y eso es aplicable a nuestra experiencia íntima."  -  E. M. Cioran  -  Cuadernos 1957-1972

O Brasil é um dos países onde mais se faz pesquisas de opinião, especialmente sobre assuntos relacionados ao meio ambiente. Nossa diversidade social, geográfica e cultural dá mais consistência às  enquetes, apresentando uma amostra de como pensa a população de uma nação de grande importância ambiental. Afinal, boa parte da biodiversidade do planeta encontra-se em nossas florestas, Cerrado, Caatinga, campos e águas territoriais.
A pesquisa de opinião identifica a maneira como pensa a maior parte de uma população sobre determinado assunto. Esta opinião tem importância para alguém - governos, empresas, grupos de interesse - e deveria ajudar a direcionar ações futuras destes interessados; caso contrário não encomendariam a investigação.
No caso das enquetes relacionadas a temas ambientais, estas em geral confirmam expectativas, sem necessariamente provocarem uma mudança nas condições. Com certa frequência, por exemplo, são realizadas pesquisas sobre a "intenção de compra de produtos sustentáveis, mesmo que mais caros". A maior parte das respostas invariavelmente é positiva, ou seja, os consumidores estariam dispostos a gastar mais, desde que os produtos fossem menos prejudiciais ao meio ambiente. Em pesquisa realizada em 2012 pelo CNI (Conselho Nacional da Indústria) e IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) este percentual era de 52% da população entrevistada. Outra enquete realizada em 2013 e aplicada pelo mesmo IBOPE, revelou que "70% da população brasileira pagaria mais caro para adquirir produtos que não causem grandes impactos na natureza".
Na prática, porém, tais pesquisas não querem dizer nada. Porque, por um lado o consumidor efetivamente não gastará mais dinheiro em produtos "amigos do meio ambiente", a não ser em um ou outro caso. Por outro, os fabricantes não têm intenção de investir em artigos mais caros e menos prejudiciais ao meio ambiente, reduzindo suas margens de lucro - a não ser por imposição legal.
Recentemente o jornal Folha de São Paulo publicou pesquisa realizada pelo Datafolha, informando que 95% da população concorda que as mudanças climáticas estão afetando o país. Na entrevista, 90% das pessoas disseram que a questão tem relação com a crise hídrica e energética que está afetando o Brasil. A enquete identificou que o tópico das mudanças climáticas não é claro para todos os entrevistados. Destes, 88% já ouviram falar sobre o assunto, mas só 28% se consideravam bem informados. Mesmo assim, 85% dos participantes na pesquisa disseram que a questão das mudanças climáticas era motivo de preocupação para suas famílias e para o futuro do planeta. Em um aspecto, porém, os entrevistados foram quase unânimes, ao dizer que o governo pouco está fazendo para minorar o impacto do fenômeno no país.
Mostram tais pesquisas que existem duas realidades: aquela dos dados coletados pelas enquetes e a outra, a do dia a dia do país. Mesmo que boa parcela da população esteja animada a pagar mais por produtos ambientalmente corretos, tais produtos raramente estão disponíveis. E mesmo que tivessem, não fariam parte da cesta de compras do brasileiro médio. No caso das mudanças climáticas a preocupação da população, apesar de baseada em poucas informações, contrasta com a falta de estratégia de médio e longo prazo por parte do governo.
(Imagens: pinturas de Victor Tischler)

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