A ameaça da degradação dos solos

sábado, 22 de outubro de 2016
"Como poderão ver, tudo se constrói a partir do eixo de um condicional: se algo existe em vez de nada, então existem fatos que tornam possível a existência das coisas que existem. Este é o chamado condicional de base."  -  Markus Gabriel  -  O sentido da existência - Para um novo realismo ontológico

A destruição de solos férteis é um dos mais graves problemas a serem enfrentados pela maioria dos países. Assim como o efeito estufa, a poluição dos oceanos e a diminuição dos recursos hídricos, o desaparecimento de solos agricultáveis é mais um fator de preocupação com relação ao futuro da humanidade.
Atualmente cerca de 38% das terras do planeta são usadas para atividades agrícolas. No entanto, em grande parte dos países, principalmente as nações pobres, a agricultura tem sido feita de maneira insustentável, sem levar em conta o impacto da atividade sobre o meio ambiente e os demais recursos naturais, principalmente o solo. Assim, por exemplo, a falta de técnicas de combate à erosão, como o plantio em terraços, faz com que a chuva arraste parte da terra fértil, encharcada de adubos e defensivos agrícolas, para a parte mais baixa do terreno e dali para os riachos e córregos.
A eliminação da mata ciliar que vai beirando os cursos d’água, tendo para estes uma função protetora, faz com que parte da terra lavada pela chuva da área de plantio, acabe assoreando os rios e poluindo suas águas com excesso de fertilizantes e defensivos. Muitas vezes são destes mesmos rios que os agricultores vizinhos e cidades da região captam água para consumo humano. Ao mesmo tempo, não penetrando devidamente no solo, o lençol freático não é suficientemente abastecido com água, sofrendo queda constante e forçando os agricultores a buscarem água em profundidades cada vez maiores – fato que acontece na Índia e no Paquistão há alguns anos e que por fim secará o subsolo.
Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) a degradação do solo é definida como uma mudança na saúde da terra, com a diminuição da capacidade dos ecossistemas que se desenvolvem sobre este solo, de fornecerem bens e serviços. Esta mudança não se limita à disponibilidade de água; inclui presença ou não de microrganismos endógenos, composição balanceada de minerais e de matéria orgânica, acidez e aeração correta, entre outros fatores.
Nem todos os solos são naturalmente propícios à agricultura, há que corrigi-los. Da mesma forma, solos originalmente indicados para o plantio são desequilibrados por uma prática incorreta. Esta é a razão pela qual a atividade humana aumentou em 10 a 40 vezes a velocidade de ocorrência da erosão, em comparação às condições naturais. Aqui vale lembrar que a natureza leva em média 500 anos para repor 2,5 cm de solo fértil. A prática agrícola necessita em média de uma camada de 15 a 30 cm de solo e esgota 2,5 cm deste solo fértil a cada 25 anos. Com isso, os Estados Unidos estão perdendo solo 10 vezes mais rápido que a capacidade natural de reposição; a China e a Índia 30 a 40 vezes.


Uma das maiores preocupações da FAO é manter a produtividade dos solos, para que no futuro não ocorra uma queda na produção de alimentos. Desflorestamento, formação excessiva de pastos, técnicas agrícolas ultrapassadas, são os maiores responsáveis pela perda de solos férteis no Brasil. Num mundo que em 40 anos perdeu 30% de seus solos aráveis, nosso país ainda está em posição privilegiada, mas precisa aumentar os cuidados com a manutenção desse patrimônio natural. Fertilidade é um presente da natureza, que para ser recuperado demanda muito tempo e recursos.    
(Imagens: fotografias de August Sander)

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