Não é crime, mas também não é ético!

sábado, 7 de agosto de 2021

 

"Se você entender que, ao querer viver para sempre, tenta preservar uma imagem sem vida de você mesmo, talvez não queira ser ressuscitado ou sobreviver em um paraíso post morte. O que poderia ser mais mortal do que ser incapaz de morrer?   -   John Gray   -   A busca pela imortalidade - a obsessão humana em ludibriar a morte     


O país ainda está em plena crise econômica. Mesmo com o crescimento do PIB previsto em 5,3% para o ano de 2021, a situação econômica do país ainda está ruim. Mesmo porque, apesar do aumento na produção de riquezas no pais, o PIB acumula anos de queda e pouco crescimento:

              PIB  (Produto Interno Bruto)      

        

               Ano                   Variação em relação ao ano anterior

               2015                                                -3,55%

               2016                                                -3,31%

               2017                                                 1,06%

               2018                                                 1,12%

               2019                                                 1,14%

               2020                                                -4,10%

 

A sequência de crescimentos baixos e negativos da economia do país, faz com que na prática, mesmo com o crescimento previsto para 2021, ainda estaremos em níveis equivalentes a 2014 ao final deste ano. A fraca atividade contribui para que o número de desempregados no país permaneça acima dos 10% desde 2017, sem tendência de diminuição a curto e médio prazo: 

Desemprego no Brasil

 

                Ano                         Percentual da população

               2015                                           6,8%

               2016                                           9,5%

               2017                                          12,6%

               2018                                          12,2%

               2019                                          12,0%

               2020                                          11,2%

               2021                                          14,2% (até março)

 

Isto sem contar as 33,5 milhões de pessoas – cerca de 39% da população – que atuam na informalidade e a parcela da população que, depois de tentar por algum tempo, desistiu de procurar emprego. Para uma economia que já vinha funcionando num ritmo lento, a sindemia da Covid foi um fator adicional de desaceleração do crescimento e aumento do desemprego.

Apesar disso, o Ministério da Economia anuncia que o país voltou a crescer. Depende do ponto de vista. Para cerca de 80% da população o tal crescimento é praticamente imperceptível, pois essas pessoas continuam desempregadas, com salários baixos, afundadas em dívidas, sem perspectivas quanto ao futuro. E aqui coloca-se a pergunta: a economia existe para a sociedade ou a sociedade para a economia? O que representa o crescimento de uma economia; mais transações econômicas ou melhor padrão de vida para a população? Uma é função da outra? Nem sempre. No capitalismo neoliberal o aumento das transações econômicas não beneficia equanimemente ou necessariamente toda a população. A afirmação “a economia voltou a crescer” não quer dizer, portanto, “o povo vive melhor”.   

Os dados sobre o desemprego indicam que de pouco adiantou a reforma da legislação trabalhista implantada em 2017 – na prática uma redução de direitos conquistados pelos trabalhadores ao longo de décadas. O argumento apresentado pelo então governo Temer, era de que a flexibilização da lei desoneraria os empregadores, permitindo que contratassem mais trabalhadores. No entanto, mesmo no período anterior ao surgimento da sindemia, não houve acentuado aumento de contratações. Em 2021 (até julho), segundo dados do governo, foram contratados cerca de 1,5 milhão de trabalhadores, com um salário médio de R$ 1.855.

Enquanto a maioria dos países está investindo recursos públicos para reativar a economia – caso dos Estados Unidos e os países europeus especialmente – o atual governo brasileiro continua mantendo uma política de enxugamento de despesas, limitando-se à manutenção de programas sociais já existentes e à extensão do auxílio emergencial. Ao passo que as maiores economias do planeta promovem novos investimentos em infraestrutura e em áreas estratégicas, mesmo com o aumento da dívida pública, o Brasil continua seguindo a velha estratégia neoliberal de corte de gastos – política que atualmente está sendo criticada até pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), o maior promotor deste tipo de política econômica no passado. Vale a pena visitar o site Auditoria Cidadã da Dívida para entender melhor como e por quê os governos brasileiros ao longo dos últimos trinta anos continuam mantendo a política do corte de gastos públicos. (https://auditoriacidada.org.br/conteudo/para-que-tem-servido-a-divida-publica-no-brasil-por-maria-lucia-fattorelli/)

A pergunta que nos fazemos é por quanto tempo a equipe econômica do atual governo pretende sustentar esta estratégia econômica. Como será possível manter indefinidamente grande parte da população com rendimentos baixos, ao passo que o custo de vida sobe a cada mês, apontando para uma volta da inflação? A situação da população em geral só faz piorar: a renda média do trabalhador é de R$ 995,00 em 2021, 11,3% abaixo do valor de 2020, que era de R$ 1.122,00. Não é por outra razão que 70% das famílias estão endividadas e que 63 milhões de pessoas estavam inadimplentes em abril de 2021. Também o número de pessoas em extrema pobreza aumentou para 12,83% (cerca de 27 milhões de pessoas) da população. Enquanto isso, cresceu o número de bilionários no Brasil durante a pandemia e os lucros dos bancos aumentaram em 35,2% durante o primeiro trimestre de 2021.

Uma das soluções (mas não a principal e única) que a maioria dos países desenvolveu para melhor distribuir as riquezas, foi a taxação de grandes fortunas. Sobre este tema o presidente Bolsonaro declarou recentemente: “Dividir riqueza e renda? Alguém conhece algum empresário socialista? Algum empreendedor comunista? Alguns querem que eu taxe grandes fortunas. É um crime agora ser rico no Brasil? A França há poucas décadas fez isso; o capital foi para a Rússia” (Poder360 2/8/2021). Mesmo temendo, segundo o presidente, uma “fuga de fortunas”, o país terá que encarar o problema da crescente pauperização de grandes parcelas da população, incluindo parte da classe média, que também está perdendo seu poder de consumo.

O risco de se criar um abismo cada vez mais intransponível entra as classes é muito grande. Diversos programas sociais foram reduzidos ou eliminados e mesmo os mecanismos tradicionais de ascensão social, como a educação, ficaram em segundo plano. Nesta área, a ideologia da meritocracia perde cada vez mais seus argumentos, com ensino diferenciado para ricos e outro para pobres. A oferta de postos de trabalho melhor remunerados também diminuiu nos últimos anos, em todo este contexto de crise econômica, desindustrialização e financeirização da economia. Numa sociedade onde apenas alguns têm acesso aos benefícios, enquanto a maioria passa por necessidades de todo o tipo, há um aumento dos conflitos sociais, como já vem ocorrendo no país.   


(Imagens: fotografias de Susan Weiss Rose)

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