A crise da metafísica e o pensamento pós-moderno

sábado, 21 de dezembro de 2013
"Se desejamos tirar conclusões filosóficas a respeito de nossa existência, nosso significado e o significado do Universo, as conclusões devem ser baseadas em conhecimento empírico. Ter uma mente realmente aberta significa forçar nossa imaginação a se conformar com a evidência da realidade, e não o contrário, quer gostemos, quer não das consequências."  -  Lawrence M. Krauss  - Um universo que veio do nada 

A crise da metafísica estende-se por um período na história da filosofia; mais especificamente quando esta disciplina tem os seus princípios criticados e, de uma forma efetiva, colocados em questão. O processo, todavia, não ocorre em curto espaço de tempo e não é causado por um só pensador.
No final do período medieval a filosofia tomista, desenvolvida por Tomás de Aquino (1225-1274) e dominante desde o século XIII até o século XVI, perde sua hegemonia e passa a ser abalada (este o destino de qualquer escola filosófica) em seus diversos aspectos. Um dos primeiros pensadores críticos da filosofia da Baixa Idade Média foi o inglês Roger Bacon (1210-1294). Para este franciscano, são três as fontes do saber: a autoridade, a razão e a experiência. Em suas obras, sempre deu ênfase ao empirismo e à matemática, tendo sido o primeiro pensador ocidental a empregar a expressão “leis da natureza”. John Duns Scotus (1265-1308) foi um dos primeiros críticos especificamente do pensamento tomista. Segundo Scotus as verdades da fé não poderiam ser compreendidas pela razão. Por esse motivo, defendia uma separação entre a filosofia e a teologia. Sua ênfase nos aspectos volitivos da fé contribuem para que gradualmente a razão perca sua força para demonstrar aspectos da religião, isto é, da metafísica. Guilherme de Ockham (1285-1347), discípulo de Scotus, dá o passo seguinte nessa crítica, enfatizando que o conhecimento empírico é superior ao intelectual.
Vemos neste movimento o desenvolvimento do experimentalismo inglês, cujos mais importantes representantes atuavam na Universidade de Oxford. A experiência torna-se cada vez mais importante, abrindo caminho para o empirismo e o enfraquecimento dos diversos conceitos metafísicos. Idéias como "Deus" e "alma", não sendo sensíveis, não poderiam ser cognoscíveis. Da mesma forma que não são experienciáveis as noções de "substância", derivadas da filosofia aristotélica e incorporadas no tomismo.  
No século XV e XVI aumenta a disponibilidade de traduções de textos da Antiguidade grega e romana, popularizando entre a elite letrada autores clássicos da filosofia, como Platão e Aristóteles, e textos de escolas do período do helenístico. Pensadores das escolas atomista, epicurista, cética, cínica, cirenaica e filósofos romanos; todos desconhecidos durante a maior parte da Idade Média, tornaram-se acessíveis aos humanistas da Europa renascentista. Grande parte destas escolas não se ocupava da metafísica, dando mais atenção à ética, à lógica e à física.
Outro aspecto da gradual erosão da metafísica clássica é o surgimento da ciência teórica e do método experimental no século XVI e XVII, com Leonardo da Vinci (1452-1519); Galileu Galilei (1564-1642); Francis Bacon (1561-1626) e René Descartes (1596-1650), entre seus principais teóricos. Descartes, filósofo francês, foi o introdutor da moderna filosofia (metafísica) e da moderna matemática aplicada aos experimentos científicos. Na Inglaterra, desde o final do século XIV, desenvolve-se uma corrente de pensamento com forte tendência empirista contrária à metafísica, estendendo-se de John Duns Scotus, Guilherme de Ockham, passando por Francis Bacon e Thomas Hobbes (1588-1679) até chegar a John Locke (1632-1704) e David Hume (1711-1776).
A metafísica antiga e medieval, desenvolvida por Aristóteles e mantida em grande parte inalterada pelos pensadores da Idade Média, baseava-se no pressuposto de que a realidade existe em si mesma e assim se apresenta ao pensamento, à razão. No século XVII, Descartes reformulou as bases da moderna filosofia e com isso criou a moderna metafísica ou metafísica clássica. Esta estava baseada na ideia de que a mente humana ou razão poderia conhecer a realidade através de raciocínios ou conceitos, que representando as coisas, as transformam em objetos de conhecimento. Em suma, a mente com o uso da razão poderia conhecer a realidade.  Descartes em sua obra Discurso sobre o método, estabeleceu que a razão humana pode apreender a realidade, baseada no fato de que um ser infinito (Deus) garantia a realidade e sua inteligibilidade.
Hume, tendo como base a teoria do conhecimento, argumenta que o pensamento atua fazendo a associação de sensações, percepções e impressões, recebidas pelos sentidos e guardadas na memória. Assim, continua Hume, as idéias nada mais são do que hábitos mentais que operam baseados em associações de impressões semelhantes e sucessivas. A própria noção de causalidade é negada, não passando de um hábito repetido diversas vezes por nossa mente e levando-nos à crença de que há uma causalidade real. 
A crítica de Hume foi devastadora. Com ela perdem valor todos os conceitos da metafísica – Deus, alma, infinito, mundo, céu, perfeição, etc. – já que não passam de constructos mentais e não tendo nenhuma realidade objetiva. As idéias do pensador inglês demoraram algumas décadas para serem amplamente divulgadas entre outros filósofos europeus, mas desde então a metafísica como existia desde os gregos não era mais possível.
O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), ao ler o Tratado da Natureza humana de Hume, afirmou que este o havia “despertado do sono dogmático”, isto é, de sua crença inquestionável na metafísica clássica. Com isso dá início a uma crítica da razão teórica, ou seja, um estudo para determinar o que a razão pode ou não efetivamente conhecer. O filósofo realiza uma verdadeira “revolução copernicana” na filosofia, estabelecendo que não é a realidade que determina nossa maneira de pensar, como Hume argumenta, mas que é nossa maneira de pensar que determina a realidade. Através das formas a priori de sensibilidade (aquelas que existem antes da experiência) e dos conceitos a priori do entendimento, Kant demonstra que existem dois tipos de realidade: a) aquela que apreendemos através dos nossos “filtros” apriorísticos, os chamados fenômenos e b) a que é inapreensível à experiência e que Kant chama de noumeno. Sendo este noumeno ou “coisa-em-si o objeto da metafísica, então esta não é possível. Segundo escreve Marilena Chauí sobre este assunto:
A idéia metafísica de um Deus é a idéia de um ser que não pode nos aparecer sob forma de espaço e tempo; de um ser ao qual a categoria de causalidade não se aplica; de um ser que, nunca tendo sido dado a nós, é posto, entretanto, como fundamento e princípio de toda a realidade e de toda a verdade. Assim, a idéia metafísica de Deus escapa de todas as condições de possibilidade do conhecimento humano e, portanto, a metafísica usa ilegitimamente essa idéia para afirma que Deus existe e para dizer o que ele é. Kant emprega uma argumentação semelhante para dois outros objetos da metafísica: a existência da alma ou substância pensante e a discussão da finitude ou infinitude do mundo.” (Chauí, p. 200).  
  
A partir de Kant a metafísica deixa de ser realista (a realidade pode ser conhecida pelos sentidos) para se tornar idealista, ou seja, “a realidade estruturada pelas idéias produzidas pelo sujeito” (Chauí, p. 201). A escola idealista terá como seu maior representante o filósofo alemão Georg W.F. Hegel (1770-1831) e ao longo do século XIX terá como opositora a escola de pensamento materialista (Karl Marx, Ludwig Feuerbach, Friedrich Nietzsche, entre outros).
Um dos principais aspectos da pós-modernidade é a morte da ideologia ou de qualquer metanarrativa, seja religiosa (cristianismo e sua explicação da história humana) ou política (o marxismo que pretendia estabelecer uma sociedade comunista). Os acontecimentos históricos dos últimos 70 anos mostraram à humanidade que a crença em constructos quase metafísicos como “o progresso”, “a humanidade”, “a revolução”, só trouxeram mais sofrimento e destruição ao invés do “paraíso terrestre”. As Guerras, a evolução da tecnologia, e a falência das grandes ideologias políticas, são fatos que ajudaram a formar nossa visão de mundo pós-moderno.
Os pensadores em sua maioria se convenceram de que os sistemas políticos, religiosos e filosóficos não podem mais apresentar uma explicação da realidade nem indicar os caminhos que a humanidade deve seguir. Não se formulam mais sistemas filosóficos; o que sobrou foi a pluralidade de idéias, opiniões e pequenas narrativas, sob a égide do debate democrático. As verdades não existem mais, “só interpretações”, como escreveu Nietzsche.
O pensamento pós-moderno é herdeiro filosófico de Nietzsche e de Heidegger. De Nietzsche o pensamento pós-moderno herdou a crítica a todo tipo de idealismo; filosófico, ideológico e científico. A frase “Deus está morto” sintetiza a falência de todos os fundacionismos e a impossibilidade do pensamento metafísico. Heidegger, em parte herdeiro de Nietzsche, ainda aprofunda mais esta crítica, colocando-a como fato dado. Ernildo Stein filósofo, discípulo e tradutor da obra de Heidegger para o português fala em uma entrevista:
Talvez convenha dizer que Heidegger finalmente, sem nehuma inibição, libertou o ser humano como ser no mundo de qualquer amarra metafísica, deixando como tarefa sua, a instauração da verdade. Heidegger declara que não há verdades absolutas ou literalmente ‘não há verdades eternas’. A verdade só existe porque o ser humano opera com ela” (IHU On-Line, s/d).
E referindo-se especificamente à pós-modernidade:
“Assim como vivemos a chamada pós-modernidade e nela identificamos a fragmentação de toda a unidade entre a ciência, arte e religião, assim temos que reconhecer que, se ainda procuramos razões que não sejam razões da ciência, essas não são mais razões ou fundamentos metafísicos. O pós-metafísico é um mundo sem fundamentos absolutos.(IHU-On-line, s/d – negrito nosso)
Referência
A escolástica pós-tomista. Disponível em:
A superação da metafísica e o fim das verdades eternas. Disponível em:
Chauí, Marilena. Convite à filosofia – 13ª edição. São Paulo. Editora Ática: 2006, 424 p.  
(Imagens: fotografias de Franco Pinna)

5 comentários:

Mário Tavares de Oliveira disse...

Muito bom. Obrigado.
Mário, Portugal

Noêmia Marti disse...

Gratidão. _/\_

Noêmia Marti disse...

Gratidão. _/\_

sugestão disse...

Esclarecedor! Grata.
Angela, Recife - PE.

Lucas Barreto disse...

O grande erro de todos os pensadores que já se passaram na história da filosofia, em contraposição ao que não é de seu alcance, é o de que as coisas que só se tem por crença (fé) terem que ser submetidas a eles. Todavia, para conceber a veracidade dos mistérios do mundo subjetivo, o processo é totalmente contrário, o ser pensante deve se submeter às coisas adeptas da crença. Não submeta Deus às suas filosofias, mas submeta-se à Ele. Abraços a todos os estudiosos de plantão!

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