Impressões das férias de verão

sábado, 25 de janeiro de 2014
"Pelo que podemos dizer, toda a atividade do cérebro é impelida por outra atividade no cérebro, em uma rede amplamente complexa e interligada. Bem ou mal, isto parece não deixar espaço para nada além de atividade neural - isto é, não há espaço para um fantasma na máquina."  -  David Eagleman  -  Incógnito - As vidas secretas do cérebro

Voltam as férias de verão e novamente enchem-se as praias com turistas de todas as partes do País. A odisséia já tem início no planalto, onde os viajantes começam enfrentando longos congestionamentos em grande parte provocados pelos pedágios. Passado o pedágio começa a viagem, que às vezes pode durar mais de cinco horas para vencer em torno de 100 quilômetros, dependendo do local para onde vai o resoluto viajante. Depois do calor, sede, fome, nervosismo e, eventualmente, "arrastões", o bravo turista chega finalmente ao seu destino. E aí começa a descarregar o carro e arrumar a bagagem porque no dia seguinte, bem cedo, vai à praia. A cidade já está completamente tomada por veranistas, que também vieram aproveitar as férias. Supermercados, restaurantes, padarias, farmácias e qualquer outro local onde se venda algo para comer ou beber estão apinhados de pessoas irritadas, suadas e cansadas, querendo pegar logo o que precisam e sair o mais rápido possível dali.         
Este o quadro do turismo de verão no Brasil: congestionamentos, grandes massas humanas ocupando cidades sem a suficiente infraestrutura e segurança. Isto sem falar da falta de hospitais, postos médicos e atendimento de urgência. Basta ter o azar de precisar de atendimento clínico de emergência para si ou para algum familiar e constatar a precariedade do sistema de saúde da quase totalidade das cidades litorâneas – com raras exceções. Pergunto-me o que prefeitos de cidades praianas, que além de tudo ainda recebem verbas do pré-sal, fazem com estes significativos recursos, que muitas vezes chegam a 20% ou 30% do orçamento anual do município.
Outro aspecto é a questão da preservação dos recursos naturais. Apesar dos esforços de muitos municípios, disponibilizando lixeiras e varrendo diariamente as praias, turistas continuam a sujar a orla marítima com todo tipo de detrito: pontas de cigarros, fraldas descartáveis, embalagens, restos de comida e muito, muito mais lixo. Na beira da água, por entre banhistas e praticantes de esportes – nem todos permitidos naquele horário – circulam os caçadores de corruptos. Explico: corruptos são pequenos crustáceos que vivem na areia e são usados como isca para a pesca. (Os verdadeiros corruptos estão sãos e salvos, muito longe de qualquer ameaça). Não se sabe se estes pescadores de fim de semana têm autorização para pescar em meio aos banhistas; mesmo porque não existe qualquer fiscalização por parte das prefeituras.
Em dias de mar calmo os barcos dos pescadores locais aproveitam a falta de ondas e jogam suas redes a curta distância da praia, colocando em perigo os surfistas e outras embarcações que eventualmente circulam pela área. A fiscalização destas atividades deve ser feita pela Marinha, que provavelmente não dispõem de recursos humanos ou de equipamentos para cumprir este papel.
Assim são as férias de verão na maior parte das cidades litorâneas do Brasil: confusão, desorganização, ausência do poder público. A coisa só não é pior porque grande parte dos turistas tem muita paciência e procura agir de maneira civilizada. Mas permanece o fato de que a cada verão o veranista paga muito caro por suas curtas férias; em todos os aspectos. Como serão os verões daqui a 5 ou 10 anos, quando aumentar mais ainda a demanda por infraestrutura e serviços? Afinal, o que espera o poder público para começar a planejar e fazer algo desde já? Não temos exemplos suficientes de falta de organização e incapacidade administrativa - que o digam os turistas que virão assistir a Copa de futebol?
(Imagens: fotografias de Adolf Bransford Rice)

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