A política, o sobrenatural e o folclórico

sábado, 30 de outubro de 2021

 
"O teatro trágico apresenta o grande inconveniente moral de conceder importância demais à vida e à morte."   -   Chamfort   -   Máximas e pensamentos 


Foi notícia pouco divulgada a reunião de membros de uma entidade esotérica com o Ministério das Minas e Energia para tratar, segundo se noticiou, do problema da falta de chuvas no País. A versão foi posteriormente negada por representantes do ministério. Segundo notícias publicadas no portal da revista Veja em 15/10/2021 (https://veja.abril.com.br/blog/veja-gente/cacique-cobra-coral-minas-energia-chuvas/), o encontro foi realizado dia 14/10, entre membros da equipe técnica do ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, e um integrante da Fundação Cacique Cobra Coral, Osmar Santos, representando a médium Adelaide Scritori. Scritori é uma médium conhecida pelos políticos, com declarada capacidade de incorporar o Cacique Cobra Coral, entidade espiritual que teria o poder de desviar chuvas e controlar o tempo. Segundo Guilherme Godoi, um dos técnicos do ministério que participou da reunião, “simplesmente ouvimos o que ele tinha a dizer, nosso trabalho é técnico.” Já Osmar Santos garantiu que a médium trará “muita chuva” para Minas Gerais, a partir do próximo mês (novembro).

Apelar ao esotérico, à espiritualidade e mesmo à magia, nunca foi incomum na política. Rosane Malta (ex Rosane Collor), ex-mulher de Fernando Collor, presidente do Brasil entre 1990 e 1992 antes de sofrer impeachment, revela em seu livro Tudo o que vi e vivi (2014) que Collor praticava rituais de magia negra (https://noticias.r7.com/brasil/ex-mulher-de-collor-diz-que-ele-fez-magia-negra-para-nao-concorrer-as-eleicoes-com-silvio-santos-30112014). No livro, Rosane descreve o “trabalho” que seu então marido teria encomendado à uma mãe no santo de Alagoas, para que o apresentador Silvio Santos não concorresse à disputa nas eleições de 1989. A candidatura de Silvio Santos foi impugnada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) pouco antes da data das eleições, por irregularidades no registro.

Parece que o plano astral exerce influência na vida das pessoas comuns, na condução da política nacional, mas também nas resoluções dos grandes líderes mundiais, cujas decisões podem impactar a vida de milhões ou bilhões de pessoas. Durante o governo do presidente americano Ronald Reagan (1981-1989), os astrólogos tornaram-se grande influenciadores, principalmente sobre sua esposa, Nancy Reagan (https://elpais.com/diario/1988/05/04/internacional/578700005_850215.html). O casal, especialmente Nancy, consultava regularmente astrólogos antes de viagens ou discursos, que podiam ser alterados, dependendo do que projetavam os mapas astrais. À época, quando a notícia começou a circular nos jornais, Ronald Reagan se defendeu, afirmando que nunca teria tomado uma decisão política baseada nas previsões de seus astrólogos.

No México, o jornalista e escritor José Gil Olmos lançou na década passada dois livros, Los brujos del poder 1 e Los brujos del poder 2, tratando da relação dos políticos de seu país com a magia e os bruxos, a fim de alcançarem seus objetivos políticos. Presidentes, governadores e ministros, utilizavam-se da ajuda do sobrenatural para alcançarem ou manterem seus cargos e tirarem eventuais concorrentes do caminho. No segundo livro, o jornalista relata como a então presidente do Partido Revolucionário Institucional (PRI), Beatriz Paredes, recorreu aos préstimos do feiticeiro Wenceslao Flores Xala, conhecido como “El Gato Negro”, para afastar as “más vibrações” e recuperar seu poder político.

Na Tanzânia, onde segundo o centro de estudos Pew Research Center (https://www.pewresearch.org/) 93% da população acredita no poder da magia, a relação das práticas mágicas com a política são ainda mais fortes. Artigo publicado no jornal eletrônico da agência Aljazeera em julho de 2015 (https://www.aljazeera.com/features/2015/7/21/brutal-black-magic-in-tanzanias-election), mostra que são comuns os sacrifícios de animais, especialmente de gatos, feitos por feiticeiros locais a pedido de políticos e candidatos à função. Manyaunyau, um motorista de ônibus que passou a se dedicar à bruxaria, recebe muitos pedidos de “trabalhos” de seus clientes. “Quando chegam as eleições, é quando nós, feiticeiros, adquirimos muito respeito, porque todos estes políticos vêm correndo até nós”, diz Manyaunyau. Segundo a reportagem, há poucos feiticeiros que utilizam gatos em seus sacrifícios. Mais comum na Tanzânia é que em suas práticas os bruxos se utilizem de pessoas albinas – mutação congênita que faz com que olhos, cabelo e pele se tornem claros –, dos quais existem cerca de 1.400 indivíduos naquela nação. Vítimas em um país onde tais práticas mágicas são comuns, as pessoas albinas são sequestradas, mutiladas, assassinadas ou vendidas vivas para feiticeiros, que cobram uma pequenas fortuna para encantamentos feitos com partes de seus corpos. Alguns países africanos cultivam diversas crenças e mitos relacionados às pessoas albinas, o que faz com que estas corram constante perigo de vida, apesar das leis expressas para coibir tais práticas.

Além do uso dessas práticas mágicas, a política também inclui diversas crendices, reforçadas por acontecimentos posteriores, que se incorporaram ao folclore político. Candidatos a prefeito, por exemplo, adquiriram o costume de não se sentarem na cadeira do ocupante do cargo, antes de publicado o resultado das eleições. Que o diga Fernando Henrique Cardoso, que antes de ocupar a presidência do Brasil disputou a prefeitura de São Paulo, em 1985, quando era senador. Em visita à prefeitura o ainda candidato foi instado pelos jornalistas presentes a experimentar a cadeira do prefeito. Assegurado que a foto não seria publicada antes do resultado de pleito, FHC acomodou-se na poltrona e foi fotografado. Mas a fotografia vazou para a imprensa. Fernando Henrique perdeu a disputa para o ex-presidente Jânio Quadro, por um percentual reduzido – 34,1% a 37,5%. No dia da posse, Jânio Quadros, sempre teatral, borrifou inseticida na cadeira, dizendo ironicamente aos jornalistas: “A poltrona de prefeito foi ocupada por nádegas indevidas”.

Outra crença do folclore político bastante arraigada mas, posteriormente desmentida pelos fatos, é a de que candidatos à presidência não devem usar cocar de índios, antes de serem eleitos. Juarez Távora, que disputava a presidência em 1955, pousou com o adereço e perdeu as eleições. Mário Andreazza, na campanha presidencial de 1984, colocou um cocar na cabeça, mas perdeu a convenção de seu partido, o PDS. Tancredo Neves usou um cocar, ganhou as eleições de 1984, mas morreu sem tomar posse. O mesmo aconteceu com o deputado Ulysses Guimarães, que disputou e não se elegeu. A má sorte, segundo o folclore político, não vem do cocar, mas das penas do pássaro de que é feito. Se a ave depenada tiver morrido, o azar é maior ainda. Pelo sim, pelo não, o ex-presidente José Sarney nunca aceitou ostentar o adereço indígena que lhe foi oferecido em diversas ocasiões. Todavia Lula, Dilma e Bolsonaro não seguiram a recomendação dos antigos. Os três, em diversas cerimônias, aceitaram usar o cocar e, apesar disso, foram eleitos.

 

(Imagens: pinturas de Joaquin Sorolla y Bastida)

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