Leituras diárias

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

 

“O começo de 1975 traria ao jornal uma mudança simples, porém simbólica. A partir da edição 289, da última semana de janeiro, o artigo que antecedia o nome do hebdomadário desde o primeiro número seria suprimido. Daquele momento em diante o jornal passava a ser identificado na capa apenas como Pasquim. A brisa da ainda incipiente abertura política também começa a soprar para os lados do Pasquim. Os novos parlamentares haviam sido empossados poucos dias antes, quando em 24 de março de 1975 o telefone tocou na mesa de Dona Nelma. Do outro lado da linha, quem ligava pedia para falar com Jaguar. Nelma passa o aparelho ao editor, com Sérgio Augusto ao lado. O que parecia trote era um curto recado de apenas duas frases vindo de Brasília. A primeira parte parecia um bálsamo, uma mensagem há muito aguardada: ‘Vocês agora não precisam mandar mais nada para a censura’. O aviso se completava com uma quase ameaça e uma incumbência: ‘Agora a responsabilidade é de vocês’. Jaguar pôs o telefone no gancho e falou: ‘Estamos fodidos. Agora, como vamos fazer o jornal?’.

De imediato, houve uma discussão muito tensa. A edição que estava sendo preparada para ser enviada aos censores já estava praticamente fechada. Era uma edição comemorativa, a de número 300, com 40 páginas e com entrega programada para dali a cinco dias. Estava prevista, inclusive, uma página desenhada por Demo. Os personagens de Jaguar, Millôr, Ziraldo e Sérgio Augusto eram facilmente identificáveis. Millôr resolveu mexer na edição e testar os limites da censura que acabara de ser revogada. Na página 3 do jornal, escreveu: ‘A responsabilidade sempre foi nossa’, no texto que trazia o título óbvio e provocador de ‘Editorial sem censura’. E prossegue: ‘A ausência de censura no Pasquim é assim, neste momento e neste país, um privilégio amedrontador e quase insuportável’. Até chegar ao final de uma maneira irônica e agressiva. ‘Num país em que publicações como Tribuna da Imprensa, Veja, Opinião, O São Paulo continuam a ser editadas pela ignorância, pelo tédio e até pelo ódio pessoal dos censores, e o periódico Argumento está definitivamente proibido de circular, este jornal, só, pobre, sem qualquer cobertura – política, militar ou econômica – e que tem como único objetivo a crítica aos poderosos, não pode se considerar livre.’” (Pinheiro, págs. 124 e 125)


Márcio Pinheiro, jornalista e escritor brasileiro em Rato de redação; Sig e a história do Pasquim

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