“Com o tempo, podemos supor, os deuses escolheram deixar as festas em que eram revelados para se tornarem objetos de estudo teológico. Mas os seus festivais permaneceram como a principal forma pela qual as comunidades praticavam o estado de pertencimento por meio de atividades recreativas que restauravam o significado partilhado do seu mundo. Um desses festivais era o dedicado a Dionísio, em Atenas, quando os poetas competiam pela aprovação da multidão com as suas histórias trágicas de deuses e heróis. E algumas dessas tragédias sobreviveram, exemplos da mais elevada arte e testemunho de uma longa tradição de especulação e discernimento. Essa genealogia é, obviamente, uma ficção. Mas creio que seja uma ficção esclarecedora, que explica no tempo as conexões atemporais entre coisas contíguas. Leva-nos das necessidades específicas do caçador-coletor ao nascimento da religião revelada, daí ao culto organizado e ao festival comunitário e, finalmente, à cultura como um subproduto genial das nossas celebrações festivas.
A conexão entre culto e cultura pode ser feita de outras maneiras, mas sua plausibilidade intrínseca é exibida na história que contei, e essa história suscita o seguinte pensamento. A cultura cresce a partir da religião; e a religião vem de uma necessidade da espécie. Mas a cultura gerada por uma religião também pode ter um olhar cético em relação a esta. Isso tem acontecido muitas vezes, e, na verdade, já vinha acontecendo no teatro grego. Não apenas os deuses e heróis passaram a ser satirizados por Aristófanes (446 a. C. -386 a. C.); as histórias solenes desses mesmos deuses e heróis foram contadas por Ésquilo (c. 524 a. C. - c. 555 a. C.) e Eurípides (c. 480 a. C.- c. 406 a. C.) com um ar de distanciamento, como alegorias da condição humana, em vez de descrições literais de acontecimentos imortais. Não que os trágicos não acreditassem nos deuses. A julgar pelas obras que sobreviveram, eles não acreditavam nem desacreditavam, considerando a crença como, de alguma forma, irrelevante para a sua tarefa, que era a de capturar e ilustrar o significado do mundo. Tal como Platão (c. 428 a. C. - c. 348 a. C.) e Sócrates (c. 470 a. C. - c. 399 a. C.), eles viam as histórias dos deuses como mitos e tratavam o mito como outro modo de conhecimento, distinto tanto da ciência racional como da narrativa. Eles acreditavam em Deus e não nos deuses, e o seu Deus era, como o de Platão, Sócrates e Aristóteles, infinito, eterno, inescrutável, julgando um mundo que realmente não O contém.” (Scruton, págs. 33 e 34).
“Contudo, mesmo na sua forma mais ateísta, a arte ocidental demonstra um grande respeito pelo mito, vendo-o tal como os trágicos gregos o viam – um veículo por meio do qual as verdades secretas da condição humana podem ser transmitidas em formato alegórico. Wagner (1813 - 1883) reescreveu os mitos germânicos e as lendas medievais, incorporando-os em obras de arte expressamente modeladas nas tragédias de Ésquilo. Desde então, tem sido comum entre os artistas representar a verdade espiritual da condição humana, utilizando-se de mitos antigos em formato de romance. Aos poucos a arte assumiu a tarefa de simbolizar as realidades espirituais que escapam ao alcance da ciência da religião. Dessa forma, à medida que a religião perdeu o seu domínio sobre a imaginação coletiva, a cultura passou a parecer cada vez mais importante, sendo o canal mais confiável por meio do qual ideias éticas elevadas podem entrar nas mentes das pessoas cépticas.” (Scruton, pág. 36).
Roger Vernon Scruton (1944-2020), filósofo, escritor e crítico social inglês em A cultura importa: fé e sentimento em um mundo sitiado


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