“Meus colegas argumentam que os
critérios de beleza são baseados na experiência. As teorias mais fundamentais
que temos atualmente — o modelo padrão da física de partículas e a relatividade
geral de Albert Einstein — são belas de maneiras específicas. Concordo que
valeu a pena tentar assumir que teorias mais fundamentais são belas de maneiras
semelhantes. Mas, bem, tentamos e não funcionou. No entanto, os físicos
continuam a selecionar teorias com base nos mesmos três critérios de beleza:
simplicidade, naturalidade e elegância.
Com simplicidade, não me refiro à navalha
de Occam, que exige que, entre duas teorias que alcançam o mesmo objetivo,
você escolha a mais simples. Não, quero dizer simplicidade absoluta: uma teoria
deve ser simples, ponto final. Quando as teorias não são simples o suficiente
para o gosto dos meus colegas, eles tentam torná-las mais simples — unificando
várias forças ou postulando novas simetrias que combinam partículas em
conjuntos ordenados. O segundo critério é a naturalidade. Naturalidade é uma
tentativa de se livrar do elemento humano, exigindo que uma teoria não use
suposições que pareçam escolhidas a dedo. Esse critério é mais frequentemente
aplicado aos valores de constantes sem unidades, como as razões das massas das
partículas elementares. A naturalidade exige que tais números sejam próximos de
um ou, se não for o caso, a teoria explique por que não é assim. Depois, há a
elegância, o terceiro e mais elusivo aspecto da beleza. É frequentemente
descrita como uma combinação de simplicidade e surpresa que, em conjunto,
revela novas conexões. Encontramos elegância no ‘efeito Aha!’, o momento de
percepção em que as coisas se encaixam. Os físicos atualmente consideram uma
teoria promissora se ela for bela, de acordo com esses três critérios. Isso os
levou a prever, por exemplo, que os prótons deveriam ser capazes de decair.
Experimentos têm procurado isso desde a década de 1980, mas até agora ninguém
viu um próton decair. Os teóricos também previram que seríamos capazes de
detectar partículas de matéria escura, como áxions ou partículas massivas de
interação fraca (WIMPs). Encomendamos dezenas de experimentos, mas não
encontramos nenhuma das partículas hipotéticas – pelo menos até agora. Os
mesmos critérios de simetria e naturalidade levaram muitos físicos a acreditar
que o Grande Colisor de Hádrons (LHC) deveria ver algo novo além do bóson de
Higgs, por exemplo, as chamadas partículas 'supersimétricas' ou
dimensões adicionais do espaço. Mas nenhuma foi encontrada até agora." (Hossenfelder, págs. 16 e 17).
"Minha conclusão a partir dessa longa
série de resultados nulos é que, quando a física tenta retificar uma falta de
beleza percebida, perdemos tempo com problemas que não são realmente problemas.
Os físicos devem repensar seus métodos agora – antes de começarmos a discutir
se o mundo precisa de um próximo colisor de partículas maior ou de mais uma
busca por matéria escura. A resposta não pode ser que tudo vale, é claro. A
ideia de que novas teorias devem resolver problemas existentes é boa em
princípio – só que, atualmente, os próprios problemas não são formulados com
precisão suficiente para que esse critério seja útil. A base conceitual e
filosófica do raciocínio nos fundamentos da física é fraca, e isso precisa
melhorar. Não adianta, e não é uma boa prática científica exigir que a natureza
se conforme aos nossos ideais de beleza. Devemos deixar que as evidências abram
caminho para novas leis da natureza. Tenho certeza de que a beleza nos
aguardará lá.” (Hossenfelder, págs. 19 e 20).
Sabine Hossenfelder (1976-), física teórica e divulgadora científica alemã no artigo Beauty is truth, truth is beauty, and other lies of physics (Beleza é verdade, verdade é beleza e outras mentiras da física), publicado em Cognition Switch # 2 – Jan 2019 (sem tradução)


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