“Para
Rufus de Éfeso, no século II, ‘aqueles cuja inteligência é aguda e penetrante
caem facilmente na melancolia’, e Aristóteles escreve no início de sua Metafísica: ‘Todos os homens eminentes
são condenados a ser infelizes’. Isso subentende que, inversamente, as pessoas
felizes não são inteligentes, ideia que já encontramos. O problema é que apenas
os espíritos inteligentes podem alcançar a sabedoria, e que a sabedoria é,
segundo o mesmo Aristóteles, o caminho para a felicidade. Assim, para ser
feliz, é preciso ser sábio, mas para ser sábio é preciso ser infeliz: de novo,
o impasse.”
“Tomás
de Aquino percebe muito bem: o pessimismo radical de Agostinho arrisca-se a
levar à desesperança. Se a felicidade é impossível de se atingir, de que vale a
pena estar vivo? Aristóteles propõe uma solução: existe felicidade e
felicidade. ‘É possível nesta vida tomar parte de certa maneira da felicidade,
mas não possuir a felicidade verdadeira e perfeita’. Afirmação tranquilizadora
a se considerar com bastante precaução: o homem não deve se desesperar, mas ele
tampouco deve acreditar que pode recriar uma paraíso na terra.”
“Tirando
essa exceção, a igualdade é o traço dominante de todas as utopias, em
detrimento da liberdade. Nisso, os utopistas são mais realistas do que os
revolucionários de 1789, que imaginavam ser possível conciliar esses dois
valores contraditórios. O lema dos utopistas, sua receita de felicidade, não é ‘liberdade,
igualdade, fraternidade’, mas ‘uniformidade, igualdade, racionalidade’. A
posição das duas formulas evidencia um dos problemas principais na
concretização da vida feliz, um tema central da reflexão dos filósofos: a
felicidade é um assunto público ou privado? Coletivo ou individual? Político ou
psicológico? Objetivo ou subjetivo? ‘Quero que a sociedade seja feliz, mas eu
também quero ser’, escreve Diderot, e aí está toda a dificuldade. De um lado, ‘desejo
de aproveitar, liberdade de aproveitar, não há senão essas duas motivações para
a ação, esses dois princípios de sociabilidade entre homens’. Ou a vida em
sociedade exige que limitemos nossos desejos, e isso traz risco de levar ‘à
insensibilidade mais do que à felicidade’, ao manter ‘o homem em uma espécie de
embotamento, e em uma mediocridade de gozo e de ventura’.”
Georges Minois (1946-), historiador francês em A Idade de Ouro – História da Busca da
Felicidade
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