Georges Minois

sexta-feira, 17 de julho de 2026

 

“Para Rufus de Éfeso, no século II, ‘aqueles cuja inteligência é aguda e penetrante caem facilmente na melancolia’, e Aristóteles escreve no início de sua Metafísica: ‘Todos os homens eminentes são condenados a ser infelizes’. Isso subentende que, inversamente, as pessoas felizes não são inteligentes, ideia que já encontramos. O problema é que apenas os espíritos inteligentes podem alcançar a sabedoria, e que a sabedoria é, segundo o mesmo Aristóteles, o caminho para a felicidade. Assim, para ser feliz, é preciso ser sábio, mas para ser sábio é preciso ser infeliz: de novo, o impasse.”

“Tomás de Aquino percebe muito bem: o pessimismo radical de Agostinho arrisca-se a levar à desesperança. Se a felicidade é impossível de se atingir, de que vale a pena estar vivo? Aristóteles propõe uma solução: existe felicidade e felicidade. ‘É possível nesta vida tomar parte de certa maneira da felicidade, mas não possuir a felicidade verdadeira e perfeita’. Afirmação tranquilizadora a se considerar com bastante precaução: o homem não deve se desesperar, mas ele tampouco deve acreditar que pode recriar uma paraíso na terra.”

“Tirando essa exceção, a igualdade é o traço dominante de todas as utopias, em detrimento da liberdade. Nisso, os utopistas são mais realistas do que os revolucionários de 1789, que imaginavam ser possível conciliar esses dois valores contraditórios. O lema dos utopistas, sua receita de felicidade, não é ‘liberdade, igualdade, fraternidade’, mas ‘uniformidade, igualdade, racionalidade’. A posição das duas formulas evidencia um dos problemas principais na concretização da vida feliz, um tema central da reflexão dos filósofos: a felicidade é um assunto público ou privado? Coletivo ou individual? Político ou psicológico? Objetivo ou subjetivo? ‘Quero que a sociedade seja feliz, mas eu também quero ser’, escreve Diderot, e aí está toda a dificuldade. De um lado, ‘desejo de aproveitar, liberdade de aproveitar, não há senão essas duas motivações para a ação, esses dois princípios de sociabilidade entre homens’. Ou a vida em sociedade exige que limitemos nossos desejos, e isso traz risco de levar ‘à insensibilidade mais do que à felicidade’, ao manter ‘o homem em uma espécie de embotamento, e em uma mediocridade de gozo e de ventura’.”

 

Georges Minois (1946-), historiador francês em A Idade de Ouro – História da Busca da Felicidade

0 comments:

Postar um comentário