Michel Onfray

sábado, 29 de agosto de 2026

 

“Diz Virgílio, taxativamente, que todo homem pode extrair lições sobre os rumos filosóficos do mundo se examinar o funcionamento de uma colmeia. Assistir ao espetáculo dos ciclos da natureza, observar uma lavoura, o eterno retorno das coisas (lavrar, semear, colher, lavrar, semear, etc.), sentir-se parte de um todo e aceitar o destino de vir da terra e para ela retornar (nascer, crescer, declinar, envelhecer, morrer, nascer, crescer, etc.), assim é que a agricultura dá à cultura lições de coisas modestas, porém determinantes. O camponês dá a matriz a todo filósofo digno deste nome. O pensador da cidade não chega aos pés do pensador do campo. Sobre uma infinidade de coisas, Sartre, que detestava a natureza, é menos certo e preciso do que era Sêneca em sua propriedade rural romana 2 mil anos antes dele.”

“O fatalismo nietzschiano, porém, resiste às lições dadas pela realidade: decerto não somos totalmente livres, como afirma a tradição espiritualista, desde a Bíblia até Sartre, passando por Descartes e Kant; é claro que não somos totalmente determinados, como proclamam os deterministas, desde o Corão até Freud, passando por Espinoza, La Mettrie, Helvetius, Holbach e Nietzsche, portanto; pois podemos construir liberdade para nós mesmos se soubermos que podemos fazê-lo e que podemos querer querendo aquilo que nos quer, pois não há nada que se possa querer além disso.”

“Depois de Copérnico, que se manteve cauteloso, mas antes de Galileu, que triunfou como cientista, depois de Epicuro, o materialista atomista, mas antes de Espinoza, o panteísta monista, Giordano Bruno, poeta e filósofo, homem de letras e artista, rebelde e dramaturgo, se vê na mira da Igreja. Esse dominicano de origem nega a virgindade de Maria, escarnece da Transubstanciação, recusa o dogma da Trindade, ataca os calvinistas, estraçalha os aristotélicos, desclassifica os adeptos da doutrina cosmológica de Ptolomeu. É detido e preso pela Inquisição, o Santo Ofício se mobiliza. Após oito anos de processo, o homem que esvaziou o céu e inventou o espaço moderno é levado à fogueira, nu, com uma mordaça na boca para impedir que falasse. Em 17 de fevereiro de 1600, no Campo dei Fiori, o filósofo visionário se desfaz em chamas. Seu cosmos é que era o certo.”

 

Michel Onfray (1959-) filósofo, escritor e professor francês em Cosmos – Uma Ontologia Materialista

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