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sábado, 29 de agosto de 2026

 

Em setembro de 2025 o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciava a intenção do governo de atrair investimentos em datacenters. Para isso, o governo preparou Medida Provisória (MP), criando o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter no Brasil (ReData). A MP, substituída pelo Projeto de Lei (PL) 278/2026, visa atrair R$ 2 trilhões em investimentos para o país durante os próximos dez anos, segundo o governo.

Em todo o planeta o numero de datacenters vem crescendo rapidamente, devido ao aumento no uso da IA (inteligência artificial). Contendo grande numero de computadores de alta potência, servidores, sistemas de armazenagem e demais instalações, os datacenters processam armazenam e distribuem imensas quantidades de dados e, em rede mundial, abrigam o que se convencionou chamar de “a nuvem”.  

Um datacenter de porte médio, do qual se estima existirem entre 6 a 8 mil no mundo, tem entre 2 mil e 5 mil servidores. Já um datacenter de hiperescala (hyperscale) atua com centenas de milhares de chips de alto desempenho, com GPUs (unidades de processamento gráfico) especializadas. Destes estima-se estarem operando aproximadamente 1.190 globalmente. Estas grandes unidades são utilizadas por corporações como a Meta, Google, Microsoft, Alibaba e Amazon, entre outras.

Para dar uma ideia, um datacenter de hiperescala geralmente ocupa áreas superiores a 1.000 metros quadrados e consume em média 100 megawatts (MW) de eletricidade por dia; o equivalente ao consumo de 85 a 100 mil residências. Com relação ao consumo da água usada para refrigeração do sistema, o mesmo datacenter utiliza de 2 a 19 milhões de litros de água por dia; volume suficiente para atendimento diário de uma cidade de 10 a 50 mil habitantes (dados do AI Overview do Google).

Há dezenas de projetos de construção de datacenters pequenos, médios e de hiperescala em andamento no Brasil – nos estados de São Paulo, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul –, com previsão de entrega entre 2026 e 2028, totalizando cerca de 660 MW de consumo de energia, segundo a revista Forbes. Com esta quantidade de energia é possível abastecer uma cidade residencial (sem indústrias) com até 6,6 milhões de habitantes. O site Click Petróleo e Gás informa que de acordo com o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2034) do Ministério das Minas e Energia, a demanda de eletricidade dos datacenters chegará a 2,5 gigawatts (GW) em 2037; o que equivale ao consumo de 25 milhões de pessoas.

Além de contar com grande disponibilidade de eletricidade e água, o investidor estrangeiro ainda deverá contar com isenção de todos os tributos federais durante 5 anos – IPI, PIS/Cofins e Imposto de Importação. A contrapartida exigida pelo governo é a utilização de 100% de energia limpa; investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) o equivalente a 2% do valor dos produtos adquiridos na construção das unidades; atender as metas de eficiência hídrica nos sistemas de resfriamento das instalações; e destinar uma mínima parte da capacidade de processamento instalada, para atendimento de demanda nacional.

Quanto ao fornecimento de água e eletricidade aos datacenters, especialistas se fazem algumas perguntas, como:

- Com a aceleração dos efeitos danosos das mudanças climáticas no regime hidrológico de várias regiões do país, como conciliar o grande consumo de água dos datacenters com as necessidades da população? Em caso de uma crise hídrica prolongada, quem terá prioridade no fornecimento (lembrando que os datacenters estão inseridos em uma rede mundial)?

- No caso de queda na disponibilidade de energia elétrica gerada pelas hidrelétricas, haveria necessidade de colocar em funcionamento as termelétricas, aumentando as emissões de gases de efeito estufa para atender os datacenters?

Há que se considerar também outros aspectos menores, mas também significativos. Além do grande consumo de água e energia elétrica, os datacenters também são fonte de geração de lixo eletrônico: os potentes servidores e GPUs são substituídos em média a cada três anos e têm componentes que contêm metais pesados como chumbo, cadmio, mercúrio e as contaminantes terras raras.

Calor é outro impacto gerado pelos datacenters. Segundo o Journal of Engineering for Sustainable Buildings and Cities, dos Estados Unidos, estes centros de processamento podem aumentar a temperatura da região do entorno da unidade em até 2 graus, em áreas situadas até 500 metros do perímetro da instalação.  Sons e infrassons (ondas de baixa frequência) também são emitidos pelos diversos tipos de equipamentos instalados nos datacenters. Segundo reportagem do jornal O Globo, moradores vizinhos a estas instalações nos Estados Unidos, relatam casos de insônia, dor de cabeça e ansiedade, causados pelo constante som de fundo.

A pouca geração de empregos durante a vida útil dos datacenters também é outro motivo de crítica. A criação de postos de trabalho ocorre principalmente na fase de construção das unidades. Segundo a empresa ZEITEC, especialista em projetos destas instalações, estabelecimentos menores demandam 1 a 3 meses de construção; já grandes unidades podem levar 6 a 18 meses até ficarem prontas. Nessa fase, os grandes empreendimentos podem empregar de 1.500 a 3.000 profissionais. Depois, em operação regular, um datacenter hyperscale emprega entre 50 e 150 trabalhadores e datacenters menores entre 30 e 50 funcionários.

Nos Estados Unidos, onde funcionam cerca de 4.700 datacenters – o país concentra entre 38% e 45% de toda a capacidade instalada global – mais de 14 estados estudam ou já aplicam restrições e/ou paralizações temporárias na construção destas instalações. O estado de Nova York está impondo a primeira moratória na construção de novas unidades e outros estados estão reduzindo incentivos e restringindo recursos.

No Brasil, na região de Campinas, onde está prevista a construção de um grande datacenter, entidades se organizam e promovem manifestações e abaixo-assinados contra o projeto, dada a escassez de água na região. No Pará, o Ministério Público Estadual (MPPA) abriu inquérito para investigar ausência de consulta prévia e estudos de impacto socioambiental, do projeto a ser instalado na cidade de Barcarena.

Nas décadas 1970 e 1980 ficou conhecido o fenômeno da “exportação da poluição” para os “paraísos de poluição” (chamados em inglês de pollution havens). Indústrias das áreas de siderurgia, metalurgia, papel e celulose, química e petroquímica; poluidoras e com tecnologia defasada, transferiram sua atividades para países menos desenvolvidos (chamados então de “subdesenvolvidos”). Pressionadas pela opinião pública, legislação ambiental restritiva e por altos impostos, a solução mais econômica e simples era, então, transferirem suas fábricas para países onde praticamente não havia pressão popular (muitos governos eram ditatoriais), quase nenhuma legislação ambiental, insumos e mão de obra baratos e, em muitos casos, até isenção de impostos.

À época (anos 1970) o então ministro da Fazenda do Brasil, Antonio Delfim Netto, informado que indústrias poderiam deixar a Europa devido às restrições ambientais, declarou: “Venham para o Brasil porque temos espaço bastante para a poluição e é mais importante fazer aço; da poluição cuidamos depois.” Outros tempos, nos quais o país tinha outras prioridades.  

Em visita aos Estados Unidos em maio de 2025, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou que vinha para escutar as grandes empresas de tecnologia digital sobre o projeto dos datacenters do governo brasileiro: "Queremos trazer os data centers para o Brasil para prover o serviço a preços baratos para os brasileiros, para as empresas, para as universidades brasileiras, para o SUS.

Será que é isso mesmo?

 

 

Ricardo E. Rose, 28/08/2026

 

 

(Imagens: pinturas de Edward Hopper, 1882-1967)

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