Direitos para "pessoas não humanas"

terça-feira, 27 de março de 2012
"Se você está num sistema de feedback de reforço, pode não perceber como as pequenas ações podem evoluir transformando-se em grande consequências - para o melhor ou para o pior."  -  Peter M. Senge  -  A quinta disciplina

Já faz tempo que as culturas humanas observam que certas espécies animais têm comportamentos que se parecem aos nossos. Os antigos gregos e romanos admiravam a industriosidade das abelhas e formigas; trabalhavam em grupos com funções definidas visando um objetivo comum: a sobrevivência do enxame e do formigueiro. As sociedades asiáticas, principalmente a indiana, admiravam o elefante, entre outras coisas, por sua prodigiosa memória; tanto para o bem quanto para o mal. Um animal que tenha sido excessivamente castigado na infância podia, mesmo ainda na velhice, reconhecer seu agressor e às vezes vingar-se mortalmente. Nossos indígenas, em lendas colhidas por viajantes, religiosos e pesquisadores, contam histórias de animais que têm comportamento humano e de seres mitológicos que são parte gente e parte animal.
Fábulas, lendas e anedotas sobre os hábitos dos animais são projeções de nossas expectativas sobre o comportamento destas criaturas. Formigas, abelhas, elefantes, cegonhas, crocodilos, e muitas outras espécies, já se comportavam desta maneira – que interpretamos como parecida com a humana – muito antes de nós chegarmos por aqui, há uns 100 mil anos. Não são os animais que se parecem conosco; somos nós que nos parecemos em muitos aspectos com eles - até porque somos animais.
Apesar desta semelhança – afinal somos criaturas que se originaram de um mesmo ser que viveu há uns 3,8 bilhões de anos – não temos sido muito gentis com nossos irmãos, desde que surgimos na Terra. Os animais foram e ainda são utilizados como alimento, máquinas de força, meios de transporte, fonte de matérias primas, instrumentos de experiências científicas ou simplesmente como brinquedos descartáveis. O grande sábio renascentista, Leonardo da Vinci, escreveu certa vez que "Chegará o dia em que todo homem conhecerá o íntimo dos animais. Nesse dia, um crime contra um animal será considerado um crime contra a própria humanidade." Apesar de algumas sociedades já terem elevado seus padrões de tratamento dos animais em geral, ainda estamos longe da sabedoria do grande mestre italiano.
Um fato não tão novo assim, mas que passou a ser discutido com mais profundidade nos últimos anos, é o do grau de inteligência de determinadas espécies, como os macacos – especificamente os chimpanzés e os bonobos – e os cetáceos; as baleias, os golfinhos e os botos. Com referência aos golfinhos, foi descoberto recentemente que estes podem reconhecer a si mesmos em um espelho; sinal de especial inteligência e capacidade que nós humanos só adquirimos aos 18 meses de idade. Dotados de cérebros grandes e complexos, os golfinhos ajudam feridos de sua espécie e conseguem manejar ferramentas. Segundo o professor especialista em ética da Universidade Loyola Marymount, Thomas White, “A ciência já mostrou que a individualidade e autopercepção não são propriedades apenas humanas. E isso traz todo tipo de desafios”.
Para muitos especialistas, os golfinhos são criaturas tão avançadas que poderiam ser consideradas “pessoas não humanas”, tendo direitos à vida e à liberdade, que deveriam ser garantidos por um tratado internacional. A batalha será dura, já que para muitos a classificação de “pessoas não humanas” parece absurda. No entanto, Leonardo da Vinci, de onde estiver nos observando, talvez esteja sorrindo... 
(Imagens: fotografias de German Lorca)

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