Perguntando é que se aprende (XIV)

sexta-feira, 23 de março de 2012

Talvez seja oportuno retomarmos um adjetivo que nos últimos anos havia caído em desuso: subdesenvolvido. Queiramos ou não, ainda continuamos um país subdesenvolvido, só que agora de uma maneira diferente daquela expressa nos relatórios econômicos das décadas de 60 e 70. Naqueles tempos de capitalismo industrial em plena expansão, a classificação de um país pelas agências internacionais como “subdesenvolvido” era uma das piores coisas que podia acontecer. Principalmente para nações como o Brasil, que estavam se desenvolvendo; em processo de industrialização e urbanização acelerada.

Depois vieram as crises dos anos 80 e 90, que abalaram as economias da América Latina e de parte da Ásia. Foi a época da criação da expressão “em desenvolvimento” – a preposição “em” seguida do substantivo “desenvolvimento” – dando a idéia de um processo, de algo ocorrendo. Um eufemismo que quase nada quer dizer, já que não se define este “desenvolvimento” (idem “o tumor está em desenvolvimento”; “o processo de insanidade está em desenvolvimento”, etc., etc.). Ou melhor, se define sim: trata-se do crescimento da economia. Como, em benefício de quem, a custa de quem ou de que recursos naturais; sobre isto os “donos do discurso” nunca pensaram ou incentivaram pensar.

Havia um grande cuidado, tanto por parte dos países ricos e das agências internacionais de financiamento (FMI, Banco Mundial e que tais), quanto dos grandes grupos financeiros e industriais, de modo a não melindrar as nações endividadas (leia-se “em desenvolvimento, mas na lona”) – muitas delas ainda ditaduras – e colocar tudo a perder. Tudo que foi emprestado a juros altíssimos e que até aquele ponto representava(m) a(s) galinha(s) dos ovos de ouro do sistema financeiro internacional. Mas esta é outra história que já passou e que custou ao povo brasileiro muitos sacrifícios e sofrimentos.

A coisa melhorou um pouco a partir do final da década de 90, quando a sociedade brasileira começou a alcançar algumas melhoras na economia e nos indicadores sociais. Mas era coisa diminuta; nos tornamos apenas um pouco menos injustos (algo como "passar um pouco menos fome"). Veio então o período do governo Lula. Não resta dúvida de que a economia se recuperou mais do que anteriormente, no entanto sempre em ciclos de Kitchin – o famoso “vôo da galinha”.

Os indicadores sociais, transformados em vedetes da propaganda governamental, tiveram melhoras com os programas de renda mínima e aumento da oferta de postos de trabalho. A maior disponibilidade de crédito e outras iniciativas, como o “Minha Casa Minha Vida”, também tiveram impacto positivo, tirando cerca de 35 milhões pessoas da linha de pobreza – ou de mais baixo ainda.

Tudo muito bom. Bancos nunca faturaram tanto e continuam a sorrir, com as altas taxas de juros patrocinadas pelo governo – afora as taxas escorchantes dos serviços. Comércio e indústria continuam faturando; magazines, shoppings, supermercados; todos apostando na continuidade do consumo e do crédito. Mas, e a qualidade dos serviços prestados por estes agentes econômicos? Como está o atendimento dos clientes dos bancos, das operadoras de telefone, internet e eletricidade? Como está a assistência pós-venda das empresas? Por que os PROCONS estão entulhados até o teto com reclamações? As agências reguladoras (ANATEL, ANAC, ANEEL, ANA, etc.) foram criadas para dar certa legitimidade ao processo de privatização, mas continuam praticamente inertes. Sobre os ainda baixos níveis salariais em comparação com o altíssimo custo de vida não vamos nem falar.  

Tudo muito bom. Mas e os serviços públicos? Será que os nossos representantes – executivo e legislativo – se utilizam frequentemente de nosso sistema de saúde público? (Ou será que têm convênio com famoso hospital particular de São Paulo?) E o sistema de ensino público, as escolas e a remuneração dos professores? O saneamento (água e esgoto), os aeroportos, portos, estradas, a justiça emperrada (mas bem remunerada!), as repartições públicas? A questão ambiental e a pesquisa sendo tratadas como se fossem temas secundários? E o fato de o Brasil ser uma das nações onde mais ocorrem assassinatos?

Será que só se mede um país pelo nível de consumo? É assim que se pode construir uma nação? E o resto – a educação, a saúde, a cultura o ambiente, a segurança? Será que não precisamos fazer um mea culpa – principalmente os que tiveram e têm a função delegada de administrar este país – e admitir que do jeito que estamos e vamos continuamos e continuaremos a ser subdesenvolvidos?

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