Consumo e a sensação do tempo

quinta-feira, 12 de julho de 2012
"O problema é que as propostas feitas pelas correntes dominantes da ecologia política européia são insuficientes ou levam a becos sem saída. A sua principal fraqueza é ignorar a conexão necessária entre o produtivismo e o capitalismo, o que leva à ilusão de "capitalismo limpo" ou de reformas capazes de lhe controlar os excessos (como, por exemplo, as eco-taxas)."  -  Ecologia e Socialismo  -  Michael Löwy

A aceleração contemporânea é, por isso mesmo, um resultado também da banalização da invenção, do perecimento prematuro dos engenhos e de sua sucessão alucinante. São, na verdade, acelerações superpostas, concomitantes, as que hoje assistimos. Daí a sensação de um presente que foge”. (Márcio Rodrigues Alves)
O sistema de produção capitalista atingiu uma nova fase de seu desenvolvimento a partir da década de 1950. Os Estados Unidos passam a ser a economia mais forte do planeta, impondo o sistema capitalista a todos os cantos do mundo, incorporando países fornecedores de matérias-primas e consumidores de produtos. Aos países europeus – tanto aliados quanto a Alemanha vencida – o governo americano reserva um lugar especial dentro da estrutura mundial do capitalismo, principalmente para fazer frente ao comunismo soviético e seus aliados da Europa oriental. A este sistema mundial de confronto de forças econômicas e bélicas foi dado o nome de Guerra Fria.
Sem entrar em detalhes, pode-se dizer que a Guerra Fria acabou com a queda do comunismo – a Queda do Muro de Berlim em 1989. Deixam de existir as economias socialistas e em todo o planeta, para o bem e para o mal, passa a vigorar o sistema de livre mercado. Abrem-se novos mercados consumidores e fornecedores (os países do leste europeu também se tornaram fornecedores de mão-de-obra especializada) e o capitalismo mundial entra em uma nova fase. A própria China, baluarte do socialismo de estado, decide promover mudanças em sua economia a partir da década de 1980 e acaba-se rendendo a um capitalismo sui generis.
Ao mesmo tempo em que o socialismo desaparecia como sistema econômico, o mundo capitalista realizava e já havia realizado uma série de avanços tecnológicos que impulsionaram o comércio mundial, mais ainda: disseminação da informática, expansão das telecomunicações e da rede mundial (internet). Associado a isso veio a abertura dos mercados, a queda das barreiras alfandegárias na maior parte dos países; fatos que facilitaram mais ainda a circulação de mercadorias e de capitais.
Estava assim pronto o ambiente para a mais recente fase de crescimento do capitalismo – antes que tivesse início a crise da economia americana em 2008, com suas consequências na Europa e demais países até o presente. Mas este é um assunto que não trataremos neste curto artigo; limitaremo-nos a descrever aspectos da última fase de desenvolvimento do capitalismo, que tenham relação com a afirmação do professor Márcio Rodrigues Alves, apresentada acima. 
Neste estágio o capitalismo tem algumas características específicas. Um dos aspectos principais é a produção em massa, gerando ganhos de escala. O lucro por unidade não é mais tão alto, devido à concorrência entre os fabricantes. Assim, ganha mercado quem – já que os preços são mais ou menos parecidos – investir em inovação, propaganda e distribuição. Um capitalismo movido pelo marketing. A inovação é resultado das demandas do mercado, daquilo que os consumidores querem comprar – ou são levados a querer comprar, no caso de produtos de massa. Assim, como diz o professor, ocorre a “banalização da invenção, do perecimento prematuro dos engenhos e de sua sucessão alucinante. Há uma sucessão constante de novos modelos de produtos, fazendo com que modelos se sucedam e rapidamente saiam de moda – caso dos computadores, celulares e automóveis e toda uma montanha de produtos de baixo custo e giro rápido. É a obsolescência programada.
O desejo dos consumidores, no entanto, não é autônomo ou espontâneo. Geralmente é produto de uma maciça campanha publicitária, constante, sempre a despertar novos desejos no consumidor. Em pouco espaço de tempo sucedem-se modelos, marcas e produtos, com uma aceleração cada vez maior do processo de criação, produção e consumo – processo que quanto mais acelerado mais acentua a acumulação capitalista.
Os consumidores são envolvidos neste vórtice de consumo pela propaganda e por todo um ambiente social que valida e reafirma este impulso de consumir em um ritmo crescente. Passam a associar a sensação de tempo decorrido com a freqüência do consumo: “A última vez que viajei estava com meu penúltimo modelo de celular...” ou “Quando casaram compraram o mais novo modelo de sedam...”, ou ainda “Quando começou a trabalhar aqui ainda utilizava um laptop de modelo antigo...”, e assim por diante...
Sob certo aspecto, mede-se o decorrer do tempo pelos objetos consumidos, demonstrando cada vez mais a freqüência do consumo. Este fenômeno nos dá a sensação de “acelerações superpostas, concomitantes, às que hoje assistimos. Daí a sensação de um presente que foge”.
(Imagens: fotografias de Alexander Grinberg)

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