Pobreza e meio ambiente (II)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

"Existe uma "cosmocracia" mundial que, sem decisão explícita, esvazia o político de sua substância e impõe "suas" vontades através da "ditadura dos mercados financeiros". Todos os governos são, queiram eles ou não, "funcionários" do capital."  -  Serge Latouche  -  Pequeno tratado do decrescimento sereno

Em artigo anterior abordei a relação entre a pobreza e a degradação ambiental. Argumentam alguns que as populações pobres provocam a destruição de ambientes naturais, por causa da ocupação irregular destas áreas. No entanto, esta invasão somente se dá devido à falta de outras opções de moradia para estas pessoas. A questão se resume então à pergunta: Se a pobreza produz degradação ambiental, quem gera a pobreza?
A mesma análise pode ser aplicada às relações entre as nações, principalmente ao comércio entre os países ricos e os países pobres. Tomemos como exemplo o comércio mundial das commodities, mercadorias produzidas em larga escala e cujos preços são negociados nas bolsas de mercadorias e definidos pelo mercado internacional. Existem commodities do tipo agrícola, como o trigo, a soja, o milho, o café, os óleos vegetais; e as commodities minerais, incluindo o petróleo, o ferro, o níquel, o alumínio, entre outros.
Ao longo da história foram os países pobres os fornecedores das commodities destinadas às nações ricas. Os países pouco desenvolvidos supriam as matérias primas – produtos agropecuários e minerais principalmente – a preços irrisórios e compravam bens industrializados a custos altos. Esses países destruíam seus recursos naturais para tentar manter sua balança comercial em equilíbrio, exportando produtos que atendiam à crescente demanda mundial por alimentos e produtos de consumo. Assim ocorre que os insumos da maior parte das cadeias de produção mundo afora têm sua origem em países pobres, mas dotados de grandes estoques de bens naturais – solos agricultáveis, florestas e minérios.
A partir dos anos 70 do século passado, assustadas pela degradação ambiental no mundo, diversas organizações governamentais, privadas e do terceiro setor, passaram a criticar os países pobres por estes destruírem seus recursos naturais, muitos de interesse estratégico para o mundo, como as grandes florestas e os sistemas fluviais. Elaboraram-se relatórios sobre o desmatamento da floresta amazônica e da Indonésia; fizeram-se estudos sobre a destruição das estepes na África e das reservas florestais da Índia. Condenavam-se os países pobres e em desenvolvimento, por estes não preservarem os imensos recursos naturais de que dispunham, colocando em risco a grande diversidade biológica.
Estes recursos naturais, no entanto, são gradativamente destruídos para o estabelecimento de pastagens, áreas de plantio, estradas, atividades de mineração e todo tipo de infraestrutura, produzindo produtos para a exportação. Acontece que estes bens têm remuneração baixa no mercado internacional, gerando poucas divisas, insuficientes para investimentos na recomposição dos ecossistemas destruídos pela atividade econômica. Em economia se diz que os custos das “externalidades” destas atividades econômicas – a degradação dos recursos naturais – não foram incorporados ao custo do bem extraído ou produzido.
Temos assim o quadro geral: os países ricos e suas instituições criticam os países pobres por não investirem o suficiente na preservação dos recursos naturais – alguns deles agora importantes para todo o planeta. No entanto, são estes mesmos países que exercem forte controle sobre os preços das commodities, produtos de grande impacto ambiental, e não querem pagar pelas “externalidades” ambientais.
(Imagens: fotografia de Mitch Dobrowner)

0 comentários:

Postar um comentário