Gestão urbana e meio ambiente

quinta-feira, 1 de novembro de 2012
"Como dizia Tales, ao eliminar a terra, o caos tomaria conta de todo o cosmos; da mesma forma, também a eliminação da alimentação representaria a dissolução da casa. Com efeito, juntamente com a mesa, elimina-se também o fogo guardião do lar, o próprio lar, os vasos para misturar o vinho, o acolhimento, a hospitalidade, as mais humanas e primeiras manifestações de comunhão entre as pessoas."  -  Plutarco  -  O banquete dos sete sábios
 
Nas campanhas dos candidatos para as eleições municipais chamou mais uma vez atenção o pouco destaque que tiveram as questões ambientais. Ao invés de incorporarem o assunto como tema transversal, os candidatos se limitaram a atacar os sintomas - as péssimas condições do transporte, a falta de parques, as enchentes, e outros males que nos afetam há décadas - ao invés de atacar as causas, trazendo a ecologia para a gestão das cidades.
Um dos maiores problemas nas médias e grandes cidades brasileiras, a questão da mobilidade da população, tomou proporções tais, que se transformou em fator gerador de grandes impactos ambientais e de problemas de saúde para a população. Historicamente, o transporte urbano sempre foi tratado de maneira simplista, sem planejamento de longo prazo. As soluções sempre foram as de mais fácil introdução; ampliar o uso do ônibus e do automóvel particular, demandando menos recursos e tempo de implantação e rendendo dividendos já nas eleições seguintes. Cidades como Londres, Moscou e Paris, iniciaram a construção de seus sistemas metroviários na primeira década do século XX, enquanto que no Brasil a primeira linha foi iniciada nos anos 1970, em São Paulo.
Os parques públicos, construídos na maioria das grandes cidades principalmente para servirem de área de lazer e contato com o verde para as classes trabalhadoras, também não fizeram parte do planejamento das nossas administrações municipais. O problema é nítido nas periferias das grandes cidades, onde o poder público raramente considerou o lazer de seus moradores, formados por trabalhadores assalariados de baixa renda. A falta de parques e outros locais de lazer e cultura é um dos principais fatores da sensação de falta de perspectivas da população que habita os bairros mais afastados. Iniciativas recentes como a utilização de escolas para tais atividades são ações paliativas.
Todo verão voltam as enchentes, que afetam a vida de centenas de milhares de cidadãos. Não se trata, evidentemente, de um fenômeno que só ocorre nas cidades brasileiras. Várias cidades da Europa e dos Estados Unidos são regularmente afetadas por enchentes, provocadas principalmente pelo degelo da primavera, aumentando o volume dos rios. No Brasil o problema sempre foi empurrado com a barriga, tratado como fato inevitável, "acidente da natureza" (desculpa cara a uma cultura ainda supersticiosa), deixando a população a sua própria sorte – coincidentemente sempre os mais pobres. Investimentos na previsão e na prevenção de catástrofes ainda são pouco priorizadas, já que os afetados têm pouca força política e econômica.
De uma maneira geral os candidatos e seus partidos ainda não se deram conta de que muitas das mazelas de nossas cidades poderiam ser minoradas se o aspecto ambiental fosse considerado no planejamento urbano. Ao longo da história das cidades acumularam-se problemas, que deram origem a outros. A intervenção do poder público sempre foi pontual, o que pouco contribui para dar um novo direcionamento ao crescimento urbano e às atividades que se exercem na cidade. A situação chegou a tal ponto, que já não existe mais um conjunto de soluções que possam melhorar em pouco tempo a condição das cidades. O que podemos esperar é que um sequencia de boas administrações comece gradualmente a ordenar o caos que se instalou.
(Imagens: fotografias de São Paulo de Guilherme Gaensly)

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