da sére "Assim se vive no Brasil"

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Agora e na hora de nossa morte

(Artigo do psiquiatra Christian Ingo Lenz Dunker publicado no caderno Aliás do jornal O Estado de São Paulo em 2/2/2013)

O incêndio na casa noturna Kiss, de Santa Maria, que resultou na morte de mais de 230 jovens, colocou o luto, a dor e o sofrimento na pauta de nossa atenção. Os fatos brutos e seus números se alternavam com histórias de pessoas em uma oscilação que não é acidental. Ela exprime o trabalho psicológico necessário para converter, coletivamente, a dor em sofrimento. No primeiro tempo a dor e os signos de sua realidade nos fazem acreditar e desacreditar no acontecido. No segundo tempo tentamos interpretar e compartilhar o sentido e a falta de sentido do evento. A primeira voz tenta dar nome e imagem ao real da perda, enquanto a segunda procura saber do que é feita a verdade desse sofrimento.

Uma tragédia mostra os dois processos acontecendo de forma quase independente. Enquanto alguns clamavam por responsáveis e rogavam para que isso jamais se repetisse, outros repetiam os fatos, os nomes e os números. É o paradoxo que liga sofrimento e repetição. Queremos ao mesmo tempo inserir a perda em uma série (a série das tragédias evitáveis, previsíveis, adiáveis) e extrair a perda da série (um evento sem par, fora de série, que não se repetirá). Para aqueles que perderam entes queridos trata-se de luto, mas para os vivem a tragédia indiretamente o que se pode esperar é uma verdadeira experiência de sofrimento.

Sofrer não é apenas ser afetado passivamente por um acontecimento, mas colocar-se também do outro lado. Viver o acontecimento de forma passiva e ativa é o que se exprime na alternância entre a voz que faz as contas e sussurra que "podia ter sido um de nós" e a voz que reza pela existência do incalculável, pois "foi um de nós". Toda tragédia tem uma dimensão psíquica, estética e política, pois nos convida a reconhecer no outro a exceção que somos, cada um de nós. O sofrimento se caracteriza por certa insuficiência desse trabalho de variação de perspectivas. Vivemos a situação do ponto de vista das vítimas, da família, de nós mesmos, da cidade, dos responsáveis, mas é como se mesmo assim estivesse faltando algo. Sentimos urgência de sentido diante de uma perda em vão, não queremos apenas desencontros de motivos e propósitos, mas supomos que existe alguma verdade em causa nessa perda.

Esse clamor de memória, essa recusa da irrelevância ocorrem porque o sofrimento é uma experiência que depende da forma como é reconhecida pelos outros. Sabemos que o sofrimento muda, em quantidade e qualidade, em função do modo como ele se insere na fala e na linguagem. As palavras modulam o sofrimento, sancionando ou vetando seus meios de expressão, seus fins, suas causas. Elas não mudam o fato, mas mudam como nos colocamos diante dele. É isso que torna o sofrimento digno ou indigno, valioso ou inútil, fazendo-o um capítulo essencial de nossas dinâmicas de reconhecimento. Decidir em nome do que vale a pena sofrer, assim como deixar-se afetar pelo sofrimento do outro, é um traço fundamental de nossa autonomia. Se nós aprendemos a sofrer, assim como aprendemos a amar, podemos perder a capacidade de sofrer, tal como a neurose nos tira a capacidade de amar.

Se queremos ajudar alguém a passar pelo luto devemos sustentar e partilhar a experiência de sofrimento. Mas isso não é nem simples, pois no mais das vezes estamos acostumados a substituir o sofrimento por alguma forma outra de ocupação, distração ou esquecimento. A forma mais óbvia de bloquear o percurso do sofrimento é negar que nele exista qualquer aspiração de verdade. Considerá-lo como mera acumulação inconveniente de dor e desconforto nos leva a enfrentá-lo por meio de anestésicos, morais, químicos ou ideológicos, que reduzem o sofrimento à sensação de desprazer. Assim ele se torna um conjunto de problemas que precisa ser resolvido ou administrado pela ação sobre suas causas. Ele não precisa de história ou narrativa para se concluir coletivamente, mas apenas de descrição e diagnóstico. Tal evitação patológica da experiência de sofrimento frequentemente retorna sob forma da chamada "culpa do sobrevivente", ou em compulsões, cujo traço clínico característico é justamente a repetição de pensamentos, de afetos indiscerníveis, de esquemas de ação.

Outra maneira de suspender a experiência de sofrimento é dissolvendo-se nela, como ocorre nas grandes manifestações de identificação em massa. O sinal característico aqui é que o eu, em vez de experimentar o apequenamento, gerado pela perda, sente-se grandioso por participar de uma experiência coletiva memorável. Passamos a sofrer "por procuração", criando uma causa comum, que nos identifica ao sofrimento do outro, o que nos poupa o trabalho de tomar aquele sofrimento como realmente próprio. Substitui-se assim a tragédia pelo drama. Os sintomas típicos nesse caso envolvem o prazer em se ver no lugar do que foi perdido e a paixão por ser reconhecido como vítima. Ora, o que se encontra negado, no caso, é a distância que nos separa daqueles que viveram a perda de forma real.

Também é comum que o sofrimento, enquanto experiência potencialmente transformadora, seja substituído por um tipo de fixação defensiva, que se compraz na crítica e no rebaixamento de si. Aqui ele se torna uma forma de gratificação e de apelo amoroso, por meio do qual o sujeito enaltece sua própria impotência como forma de satisfação masoquista. Como se o sofrimento, por si mesmo, justificasse a necessidade de ser amado e reconhecido. De novo é a tragédia que não pode ser reconhecida enquanto tal, mas cede lugar ao mito tão ao gosto dos que exploram o sofrimento como catarse purificadora, na qual afetos são mobilizados, mas justamente para não serem reconhecidos.

Experimentar o sofrimento em toda sua extensão e virulência é também uma das condições que nos tornam humanos. Muitos se colocam no lugar dos jovens presos na casa noturna de Santa Maria. Tentam saber se eles sofreram ou se apenas desmaiaram rapidamente, de modo indolor. Outros não conseguem evitar pensar nas famílias, nos amigos e na própria cidade, que precisa seguir em frente, mesmo que isso agora pareça impossível. Estejamos do lado dos que querem fazer algo para não pensar, ou dos que querem pensar para não fazer, lembremos que nosso sofrimento, quando nos toca em seu teor de real e de verdade, é uma forma de estar com eles.

Não há nada de essencialmente libertador no sofrimento, e ele não melhora, necessariamente, as pessoas. Mas sabemos que uma vida na qual o sofrimento é apenas espetáculo ocasional ou obstáculo pessoal é uma vida pobre quanto a suas próprias aspirações de realização. Para além da potência ou da impotência que o drama nos causa, há a tragédia. E por meio da tragédia supomos que há um grão de verdade em jogo no sofrimento. Nem que seja a verdade de nossa mortalidade e do reconhecimento do valor simbólico da presença do outro neste momento, como na oração "rogai por nós, agora e na hora de nossa morte".

CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER É PSICANALISTA, PROFESSOR DO INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA USP E AUTOR DE ESTRUTURA E CONSTITUIÇÃO DA CLÍNICA PSICANALÍTICA (ANNABLUME)

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