Apagão? Que apagão?

domingo, 3 de fevereiro de 2013
"Não há, entre os seres humanos, banalidade maior do que a morte; em segundo lugar vem o nascimento, pois nem todos os que morrem chegaram a nascer, depois vem o matrimônio."  -  Friedrich Nietzsche  -  100 aforismos sobre a morte e o amor

O grande tema para o governo nos primeiros dias de 2013 é a crise de energia que se esboça no horizonte e que poderá se tornar mais nítida em algumas semanas. O assunto, tratado como “ridículo” pela presidente Dilma Roussef nos últimos dias de 2012, parece cada vez mais sério e preocupante. Com o constante aumento do consumo de eletricidade e a gradual queda do nível dos reservatórios – apesar das chuvas de verão – o governo não pode mais ignorar os fatos e será obrigado a apresentar soluções de médio e longo prazo.
O consumo de eletricidade vem crescendo a cada ano, principalmente durante os últimos dez anos, quando aumentou o poder de consumo da população e novos compradores de eletroeletrônicos – cerca de 30 milhões – foram incluídos no mercado. Somente em novembro de 2012, o uso de eletricidade aumentou 6,3% no país, comparado ao mesmo período em 2011. No cômputo geral, todas as regiões brasileiras apresentaram um aumento considerável no consumo de energia, comparando o mês de novembro em 2011 com 2012: Norte 14,4%; Centro-Oeste 13,6%; Sul 11,7%; Sudeste 9,9%; e Nordeste 5,6%.
Enquanto o consumo de eletricidade aumenta, o nível de água dos reservatórios das hidrelétricas – o combustível para geração de energia – despenca. As represas do subsistema Sudeste/Centro-Oeste, responsáveis por 70% de toda a capacidade de armazenagem do país, dispõem de apenas 28,83% de água (dados de início de janeiro de 2013), quase no limite de sua situação de segurança. No Nordeste o volume dos reservatórios está em 31,61%, já abaixo do nível de limite de segurança para a região. No Norte (41,24%) e no Sul (38,95%) os níveis da água ainda não entraram na faixa de perigo.
Um dos fatores preocupantes neste verão 2012-2013 é que as chuvas não estão sendo suficientes para repor os estoques de água dos reservatórios. “O que ocorrer em janeiro em termos de hidrologia definirá a condição do sistema”, disse ao jornal O Estado de São Paulo o presidente da Associação Brasileira de Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage), Flávio Neiva. Ele afirma que se as chuvas não voltarem aos seus níveis históricos para o período, acende-se um “sinal amarelo” e o governo terá que tomar providências.
Especialistas não sabem ainda quais as conseqüências da crise, se esta efetivamente se instalar, mas descartam em sua maioria o racionamento de eletricidade. O que poderá ocorrer é um aumento no custo da geração de eletricidade, já que para suprir a demanda o Operador Nacional do Sistema Elétrico deverá colocar em funcionamento um número maior de termelétricas a gás natural e óleo combustível. Esta providência poderá colocar em risco parte do desconto prometido pela presidente Dilma, a ser dado a partir de 2013 nas contas de energia elétrica.
O quadro lembra muito 2001, o “ano do apagão”; mas não é o mesmo. Se por um lado o governo pode lançar mão das termelétricas, por outro o volume de eletricidade consumida é muito maior. Se também existem mais hidrelétricas, estas são a fio de água, isto é, sem reservatórios – diminuindo o volume de água disponível no rio, cai a geração.
O governo precisa investir mais na prevenção de problemas; neste caso em políticas de eficiência energética, valorizando a energia gerada. O que não pode ser mantido é este quadro de improvisação, ligando e desligando termelétricas altamente custosas e poluentes.      
(Imagens: fotografias de Arnold Genthe do terremoto de São Francisco em 1906)

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