Número de espécies e sua extinção

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
"Quando se há de começar a fugir deste perigo? Antes que nos colha a morte. Quando há de chegar a morte? Não o sabemos; poderá ser logo."  Padre Manuel Bernardes  -  Nova Floresta Tomo II

Uma das grandes questões da moderna biologia é estabelecer o numero de espécies vivas existentes na Terra. Se, em uma primeira abordagem, o problema pode parecer restrito a biólogos ou outros cientistas que estudam o assunto, em uma análise mais profunda percebe-se que o tópico tem implicações em vários outros ramos do conhecimento - talvez até para a sobrevivência humana. Se, por um lado, o número de espécies estava mais ou menos definido no passado, a exploração e o estudo de novos ambientes - as regiões geladas dos polos, as florestas tropicais e o fundo dos mares, entre os biomas principais - acabou mostrado a existência de espécies vivas nunca imaginadas. Fato é que até o momento já foram catalogadas cerca de 1,3 milhões de espécies e a cada ano são descobertas cerca de 15 mil novas.
Em grandes profundidades dos oceanos, perto de falhas geológicas que expelem água quente a altíssimas temperaturas - apesar de nessas profundidades a temperatura da água estar entre 2 a 3 ºC -, habitam espécies únicas, só encontradas naquelas regiões, completamente desconhecidas do homem até meados década de 1990. Em outra situação, cientistas descobriram, por exemplo, que certas espécies de bactérias sobrevivem em águas bastante ácidas, perto de vulcões e gêiseres, em condições onde qualquer outro tipo de vida pereceria em segundos. Escavações de minas e poços depararam com tipos de bactérias que sobrevivem em profundidades de 2, 3 até 5 quilômetros na terra, suportando altas temperaturas, pressões colossais e total ausência de luz e oxigênio. Recentemente, estudiosos americanos da Universidade Estadual de Montana encontraram sinais de vida nas águas do lago Whillans, após perfurarem uma camada de 800 metros de gelo, na Antártida. Nos oceanos, mesmo a pouca profundidade, é cada vez maior o número de microrganismos identificados pela pesquisa, formando verdadeiros ecossistemas independentes, cujos habitats distam poucos quilômetros um do outro, demonstrando a grande variedade de espécies.
A ciência classifica atualmente os seres vivos em cinco reinos: monera (bactérias), protista (protozoários), fungi (fungos), vegetal e animal. Destes, somente alguns tipos de fungos, os vegetais e os animais são pluricelulares. Os demais são organismos unicelulares, únicos habitantes da Terra por cerca de dois bilhões de anos - antes que os seres pluricelulares aparecessem há cerca de 600 milhões de anos -, e que mesmo hoje constituem a maior parte da biomassa viva existente no planeta. Dada esta grande diversidade de seres vivos, ainda não é possível para os cientistas estabelecerem o numero de espécies existentes. As estimativas mais conservadoras atuais dizem existir entre três e dez milhões de espécies; entre os pesquisadores mais entusiastas estes números variam de 50 a 100 milhões.
A revista de divulgação Science Magazine publicou em seu volume 339 um artigo assinado por diversos cientistas, entre os quais o ecólogo Robert May, da universidade de Oxford. Sob o nome Can we name the earth´s species before they go extinct? (Poderemos denominar as espécies da Terra antes que se tornem extintas?), o estudo apresenta dois pontos bastante importantes para a discussão da questão ambiental. Primeiramente, os autores dizem que o número de espécies não é tão vasto quanto alguns setores da ciência afirmam - apesar de May ser autor de estimativas bastante otimistas no passado. A quantidade de tipos de seres vivos, segundo o artigo, é de aproximadamente de cinco milhões.
Os dados nos quais os pesquisadores da universidade de Oxford se baseiam, são os mesmos disponíveis para os outros cientistas. Desta forma, dizem os críticos, trata-se apenas de uma nova interpretação daquilo que já existe, sem, no entanto, apresentar mais indícios comprobatórios. Outro aspecto, levantado pelos autores, é de que a taxa de extinção de espécies é muito mais baixa do que se estima, variando entre 1% a 5% por década; muito abaixo dos índices "alarmantes" divulgados por ONGs e institutos de pesquisa de todo o mundo nos últimos anos.
Também neste ponto Robert May e seus colaboradores estão defendendo apenas uma interpretação diferente de fatos existentes, já que até o momento não existe um consenso definitivo sobre o ritmo de extinção das espécies. Grande parte das informações hoje disponíveis é baseada em inferências, como por exemplo, a velocidade de destruição dos ecossistemas originais; ocorrendo de forma bastante acelerada, se comparado aos períodos históricos pré-industriais. 
O artigo deverá atrair muitas críticas de diversos setores das ciências biológicas e ambientais. Ainda é muito grande a dificuldade em estabelecer o número das espécies existentes sobre a Terra. A diversidade de biomas e de adaptações da vida às mais diversas condições, como assinalado acima, dá motivo para imaginar que possam existir muitos tipos de criaturas ainda a serem descobertas. Quanto ao ritmo da extinção, é cada vez mais temerário dizer que ocorre de forma mais lenta do que o estimado até agora, quando as informações disponíveis indicam exatamente a aceleração do ritmo de destruição dos ecossistemas.
Afirmações como as produzidas por este estudo precisam ser avaliadas e largamente debatidas por especialistas, ambientalistas, políticos, empresários e outras instituições envolvidas com o tema. Isto porque tais ideias, mal ou tendenciosamente interpretadas, podem dar força a grupos de interesse que se colocam contra o aumento das áreas de proteção para biomas (e espécies) naturais - seja nos continentes ou nos mares. Além disso, podem relativizar a importância do fato de que a economia mundial vem destruindo os ecossistemas naturais - e com isso as espécies - de forma cada vez mais rápida.  
(Imagens: fotografias de Eduardo Gageiro) 

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